Eleições 2015

Assim como no Brasil, aqui no Canadá também querem derrubar o líder do governo.

(brincadeirinha – é que esse ano tem eleições federais 🙂 )

Tem sido fascinante acompanhar o processo eleitoral por aqui. Eis alguns dos meus destaques.

O boneco de Lego e os partidos coloridos

Quando o primeiro ministro anunciou as eleições, em agosto, a imprensa destacou que seria o mais longo período de campanha eleitoral em mais de um século. Como as eleições são em outubro, este enooooooorme período de campanha não chega nem a três meses

O que eu mais gosto no atual primeiro-ministro é que o cabelo dele é idêntico ao de um boneco de Lego:

Stephen-Harper1

Super-resumidamente, o cenário político canadense é dividido em cores:

  • Os azuis são os conservadores, ou “Tories” (longa história). É o partido do Harper e a maioria atual da câmara. Como o governo conservador já vai pra quase uma década tá todo mundo meio que de saco cheio deles.
  • Os laranjas são os “novos democratas” (NDP), o partido de centro-esquerda ou centro-direita, o que for mais conveniente 🙂 . O candidato democrata (Tom Mulcair) parece o FHC, mas só fisicamente. Mas pelo que entendi da história recente, o NDP é meio que “queimado” entre o eleitorado.
  • O vermelho é dos liberais e o seu candidato é o Justin Trudeau: jovem, cheio de marra, e neto de um político famoso do passado. E fisicamente ele também parece o Aécio. As diferenças estão é na ideologia do partido, que quer liberar aborto, maconha e essas coisas todas que tiram o sono dos conservadores.
  • O azul claro é o bloc québecoise, do candidato Gilles Duceppe, mas ninguém fala neles fora do Quebec.

O cartoon abaixo, simplesmente genial, resume tudo no melhor estilo RPG: Harper é o clérigo sem emoções, Trudeau é o bardo fumador de cachimbo, Mulcair é o guerreiro ambidestro e o Duceppe é o morto-vivo.

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Além desses quatro tem também os partidos nanicos bizarros, tipo o partido pirata, o Marijuana (!!) e até o Rhinoceros –  que, entre suas origens, cita a história brasileira do rinoceronte Cacareco, e cuja plataforma política é não cumprir nenhuma promessa de campanha. Mas esses nunca aparecem na mídia.

A política passivo-agressiva canadense

O aspecto cultural mais interessante de morar no Canadá é ver que, de fato, o canadense é estereotipicamente bonzinho – e isso reflete na política. O melhor exemplo disso é a campanha difamatória que os conservadores botaram na TV para criticar os liberais. O slogan da campanha difamatória é simplesmente bombástico:

Justin Trudeau – ele simplesmente não está pronto.

Isso é tipo o equivalente político a “não vote no fulano porque ele é bobo feio e chato”.

Os debates são outro bom exemplo. Apesar da campanha curta, os candidatos debateram cinco vezes na tevê. Em setembro tinha debate quase toda semana. Diferentemente do Brasil, o mediador lança um tema e os candidatos podem falar quando querem. Claro que tem bate-boca, mas os candidatos escutam e obedecem o mediador. E ao invés de “o senhor candidato é um mentiroso salafrário”, as críticas são do tipo: “isto não está correto” ou “o senhor precisa verificar estes dados”. É um troço inacreditável.

No último debate que vi teve um lance engraçado: Stephen Harper estava se defendendo de uma crítica e, como o tempo acabou, o mediador pediu que ele resumisse sua opinião em uma frase curta pra encerrar o assunto. Ele deu uma de esperto e falou mais uns 30 segundos. Na sequência, o candidato do NDP deu a cutucada mais canadense de todas: “Mas que frase longa, senhor candidato!” – e a plateia caiu na risada.

Este é o climão maneiro dos debates canadenses.

Uma coisa bem ruim que rolou com os debates é uma estratégia muito retardada mas que parece funcionar bem por aqui: a da distração. Funciona assim: você aborda um tema super polêmico mas pouco importante do ponto de vista nacional e ele vira o foco de todas as discussões, então as pessoas se esquecem de discutir e avaliar outras coisas tipo propostas de reajustes fiscais, melhorias de infraestrutura, desempenho econômico, etc. Aqui a polêmica foi o niqab: aquele véu que as mulheres islâmicas usam para cobrir o rosto quando saem em público. É que para fazer o juramento de cidadania canadense a lei diz que a pessoa não pode encobrir o rosto, e parece que uma imigrante islâmica foi contestar essa proibição e aí fez-se o circo e a mídia ficou “niqab pra lá, niqab pra lá” e ninguém mais falou em mais nada. Foi bem chato.

Tiririca não teria chances na terra da Rainha

Uma coisa na qual os canadenses pegam pesado é na reputação dos candidatos. Esta eleição inclui também votos para a house of commons (a “câmara dos deputados”), e toda semana a mídia dava notícia de algum candidato expulso do seu partido. Os motivos eram sempre coisas seriíssimas:

  • Um candidato foi expulso porque descobriram que, no passado, ele tinha um programa de rádio onde passava trotes para pessoas e, nesses trotes, debochava de deficientes físicos.
  • Muita gente rodou por causa de posts no Facebook e no Twitter. Um candidato foi expulso porque tuitou que “aborto não deveria ser opção de gente irresponsável”, outro porque, anos atrás, xingou alguém dizendo: “você é um desperdício de esperma”.
  • O mais recente foi um candidato expulso porque acharam um artigo de jornal de sua autoria, intitulado “é errado um homossexual se tornar normal?”, onde ele supostamente apoiava a tal “cura gay”. O candidato pediu desculpas e culpou a tradução, dizendo que na tradução (o artigo foi escrito em punjabi) traduziram straight (heterossexual) como “normal”.

No quesito “roubalheiras e contas na Suíça” eu só vi a rebarba de um princípio de escândalo envolvendo o Senado, cujos membros são indicados pelo primeiro-ministro. Parece que, em 2012, um senador (já demitido e respondendo a processo) teria recebido um reembolso de despesas ilegal, na exorbitante quantia de… tcharammm… 90 mil dólares. A reação popular, ao invés do clássico “político é tudo ladrão”, foi o início de uma conversa sobre extinguir o senado inteiro, conversa tão séria que tem apoio de 41% da população!

Neste ponto o Brasil está anos-luz à frente. 90 mil dólares não enchem cueca de nenhum deputado brasileiro.

Por sinal, parece que os deputados daqui ralam bastante e são bem próximos da população. Outro dia fui andar com meu cachorro às 6:30 da manhã, escuro ainda, num frio de 10 graus, e um cara me ofereceu um santinho do candidato democrata aqui do bairro. Quando fui ver, quem me entregou o santinho foi o próprio candidato. 

Mas fica fácil entender por que isso acontece por aqui quando você entende…

O sistema eleitoral canadense: cada voto vale muito.

Aqui rola o chamado voto distrital: cada distrito (aqui chamado de riding) elege um candidato. Como eu moro numa das cidades mais populosas do Canadá, o meu riding é mais ou menos do tamanho do meu bairro. O meu “deputado federal” vai ser o deputado do meu bairro. Achei massa isso.

riding é proporcional à população e não tem voto de legenda ou primeiro e segundo turno: é maioria simples. Isso significa que eleger alguém com, sei lá, 30% dos votos é bem possível. Significa também que rola voto estratégico para evitar o “desperdício” de votos e derrotar a oposição.

Com a eleição chegando, o bairro se enche de plaquinhas dos candidatos nos gramados em frente às casas – que, obviamente, só podem ser colocados pelo dono da casa. Se você nao apoia ninguém, pode dar aquela zoada:

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Outra coisa que me surpreendeu: aqui não rola de “chutar o cavalete do candidato da oposição”. Destruir propaganda eleitoral é crime federal.

O governo facilita muito a vida do eleitor canadense. Esse ano o Canadá bateu o recorde do chamado “voto adiantado”: se você não quiser esperar até o dia da eleição, o “TSE canadense” permite registrar e votar durante quatro dias na semana anterior ao dia oficial da votação, pra facilitar a vida de quem trabalha em horários malucos ou só pode ir no final de semana. Se você estiver fora do seu riding (o seu “distrito” eleitoral) ou até fora do país, é só se registrar que o TSE te manda um kit pra você votar pelo correio.

No entanto o voto não é obrigatório, então grande parte da propaganda política não é focada no “vote em mim”, e sim no “vá votar”. O turnout da última eleição foi em torno de 60% e esse número tem tendência de queda. E aparentemente, o que decide a eleição é exatamente isso: quem vota ou deixa de votar. Pelo que andei vendo, o governo conservador atual só está lá porque quem se interessa por política é o canadense conservador, mais velho, e como eu li na mídia outro dia, se a “geração do celular” for votar, o Harper perde.

A cobertura das eleições na mídia, por sinal, me pareceu esquisita no começo. Meio “sem sal”, como se estivesse faltando alguma coisa. Só depois de um tempo é que percebi que, na verdade, eu estava é estranhando a transição do “jornalismo com posicionamento político”, ao qual eu fui exposto à vida toda, para o “jornalismo neutro” daqui. O apoio a um ou outro candidato, quando rola, é feito só na base do editorial.

Mas quem vai ganhar?

As últimas pesquisas apontam vitória liberal, então provavelmente vai dar Aécio Nev… digo, Justin Trudeau 🙂

Mas o mais legal é ver como o país é dividido: a imagem abaixo mostra cada distrito com a cor do partido que está liderando as pesquisas. O que deve dar a vitória pro Trudeau não aparece muito no mapa, mas é o voto dos grandes centros urbanos: repare em como Vancouver (na costa oeste) e Toronto (no sudeste, no meio de um monte de distritos azuis) estão vermelhinhas.

polls

 

No meu bairro – predominantemente pobre, negro, de imigração caribenha/africana e religião islâmica (!!), o candidato liberal, um imigrante senegalês de nome árabe (?!??) lidera com quase 50% dos votos. Eu queria muito encontrar ele na rua pra bater um papo sobre as propostas do partido, mas não rolou.