Como vai a vida aqui no Canadá (ou: a maior poker face do baseball)

Tem seis meses de assunto represado pra falar aqui no blog – já passei por dois estágios, mais da metade da faculdade já foi embora e rolou até uma inesperada adiantada na papelada pra minha permanência definitiva aqui no Canadá.

Mas este post vai falar é de baseball.

Baseball é um dos esportes mais chatos que existe. Jogos de 3 horas e meia onde o máximo de emoção acontece em lances muito esporádicos, e que duram no máximo uns quinze segundos – e que você só consegue curtir se souber muito bem as (muitas) regras. Exemplo: essa semana um dos lances mais lindos da rodada foi o Kevin Pillar prevenindo um double com uma defesa inacreditável… que, na verdade trata-se apenas de um pobre coitado se estabacando contra uma parede. “Arte é contexto”, diria Marina Abramovic.

É óbvio que baseball é o esporte que eu mais ando curtindo. Eu não sei mais quem é o técnico da seleção brasileira, mas consigo recitar a escalação do Blue Jays (o time daqui de Toronto) todinha – incluindo aquele que rapidamente tornou-se o meu jogador predileto do time: o mexicano Roberto Osuna.

osuna

Talvez você se lembre dos desenhos animados do Charlie Brown, onde ele sobe naquele “montinho” e arremessa a bola pra alguém rebater. Esse é o pitcher (“lançador”), e é a posição mais importante da defesa de um time. Basicamente, um bom pitcher evita que o outro time marque pontos. Por conta disso, os times tem vários pitchers, cada um com uma especialidade: tem os que abrem o jogo e arremessam quase toda a partida (os starters), tem os que entram especificamente pra “aliviar” o starter quando ele cansa (os relievers), e tem uns que quase não aparecem porque são especializados em jogar apenas o finalzinho da partida e fechar o jogo – os chamados closers. É o caso do Osuna – ou seja, meu jogador predileto joga, no máximo, uns 10 minutos por jogo… e nem é em todos os jogos.

A questão não é o quanto joga, e sim como joga. O que eu acho mais fantástico no jogo do Osuna é a consistência. Ele vai lá, arremessa com exatamente a mesma expressão facial o tempo todo (a maior poker face do baseball), fecha o jogo, tira o boné, faz o sinal da cruz, aponta pra cima pra agradecer a Deus e vai embora como se nada tivesse acontecido. É assim quando o time tá ganhando, quando tá perdendo, quando tá prestes a ser eliminado ou quando tá prestes a ganhar campeonato. Quando o Osuna erra um lance e o outro time subitamente ganha de virada, a cara dele continua lá, igualzinha. Quando ele faz inacreditáveis nove strikes seguidos e destrói três rebatedores em três minutos, a cara dele nem se altera.

Esse vídeo de highlights do Osuna em 2015 chega a ser repetitivo por conta disso – repare que ele só demonstra alguma emoção aos 3 minutos e 50 segundos, no jogo em que o Blue Jays quebrou um jejum de mais de uma década e virou campeão da American League East.

Eu nunca na vida tive ídolos no esporte. Na verdade acho que nunca tive ídolo nenhum. Aí me chega esse cara, não faz alarde, tem uma atuação super reduzida e específica, tem um dos menores salários do time, não tá preocupado com fama nem nada – só quer ir lá, fazer o trabalho dele sem pirotecnia ou sofrimento, agradecer e ir embora, independentemente da circunstância.

Acho que é aí o ponto onde eu me identifico. No final do ano passado eu comecei meu primeiro estágio e, quando percebi, tinha caído numa armadilha: era uma vaga de desenvolvimento web onde, no fim das contas, eu não tinha nem acesso ao servidor web. Só dava pra, literalmente, programar em Excel. Mas ao invés de me abater eu mantive a minha poker face, fui lá e fiz o melhor que pude. Quatro meses depois, saí colecionando elogios e deixei minha chefa me pedindo pra ficar por lá mais tempo.

Aí veio mais um semestre de estudo e esse foi, de longe, o semestre mais desastroso de todos: teve professor que entrava na sala e perguntava pra turma o que ele tinha que ensinar, teve professor cancelando o trabalho mais foda que já entreguei porque mais de 80% da sala tinha colado, teve aula de “tecnologias emergentes” onde os dados atualizadíssimos que o professor mostrava eram de 1999, teve trabalho de grupo onde eu tive que carregar o grupo inteiro nas costas – e ainda ter que aguentar os coleguinhas vindo reclamar comigo, uma semana depois do prazo de entrega das paradas, que eu “não dei chance” deles fazerem a parte deles. Mas fui lá, fiz meu melhor, mantive as notas boas e o mais importante: arrumei um lugar fuderosíssimo pra fazer meu segundo estágio.

Isso foi meio que o equivalente do Osuna assinando com o Blue Jays e indo jogar na primeira divisão. Meu estágio é no maior banco canadense, e um dos meus “lugares-meta” pra arrumar um emprego quando me formasse. E mais: entrei num projeto onde meu papel é usar o que há de mais novo em desenvolvimento de software pra modernizar os serviços antigos do banco. E ainda mais: o programa de estágio do banco é famoso por ser o lugar de onde eles fazem suas novas contratações, então eu sabia que, se eu mandasse bem, podia transformar o estágio de hoje no sonhado emprego fixo de amanhã.

É óbvio que a coisa começou complicada: o projeto é enorme e me deram um monte de aplicações incompletas pra eu fazer funcionar. Documentação? Bom, um dos sistemas tinha um arquivo TXT com 20 linhas. Requisitos? Só conversando com um dos arquitetos de sistema, que começava a falar do projeto, depois tinha ideias megalomaníacas, depois se perdia e me perguntava: “do que é que a gente tava falando mesmo?”.

Pra piorar, todos os sistemas usavam tecnologias, frameworks e coisas que eu jamais havia ouvido falar. Aí eu ia pesquisar uma delas no Google e o site onde fica a documentação é bloqueado pelo firewall do Banco. Então eu ia pesquisar outra e, ao achar a página do projeto no GitHub, ela dizia assim:

“Atenção! Este projeto ainda não está pronto para ser usado! Ele ainda está em desenvolvimento e vai ser modificado no futuro”.

Se estivesse na minha situação, o que Osuna faria? Sim, exatamente isso que você pensou: iria manter exatamente a mesma cara impassível e a concentração de sempre e ia lançar as suas bolas.

Nem bem fez um mês de estágio e lá estava eu colocando no ar a minha primeira entrega, já sendo usada por uma das áreas do Banco em outro projeto. Algumas semanas depois e eu entreguei a documentação do sistema, que ficou tão boa que o arquiteto-chefe repassou pro time inteiro dizendo que “este é o padrão que todos vocês tem que seguir daqui pra frente”. E segunda-feira passada, faltando uma semana pra chegar na metade do estágio, a chefona do projeto veio me pedir pra, ao invés de voltar a estudar no semestre que vem, pra eu aceitar uma vaga de emprego full time que ela quer me oferecer.

A vida, como o baseball, é chata e maçante durante 90% do tempo. Mas quando você acerta…

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