Retrospectiva 2017

Só três posts esse ano… é a crise, talvez?

É nada, é só ano de gente ocupada. Rolou bastante coisa nos últimos 365 dias:

cat over a table with painting at the backEm abril achei uma gata perdida no parque e adotei. A Bê batizou de Cafuné, mas por algum motivo eu só chamo ela de “gata” mesmo. Pavlov e a gata já tiveram oito meses pra se adaptar um com o outro e eles estão convivendo super bem, tirando um ou outro episódio de ciúme de ambas as partes e um leve territorialismo de ambas as partes: a gata se debruça sobre a tigela de água pra não deixar Pavlov beber, aí em retaliação ele vai e come a comida do potinho dela, e por aí vai.

De noite, a matilha toda – eu e Bethania inclusos – dormimos todo mundo junto e amontoado. Quando me deito a gata sobe na cama, depois sobe em cima de mim, bota o focinho bem na minha cara – estrategicamente me impedindo de mexer no celular – e começa a ronronar. E gato ronronando no seu colo é algo inexplicavelmente precioso.

Em agosto realizamos o sonho máximo dessa jornada canadense: compramos uma casa e fomos morar no subúrbio. Eu sabia que morar em casa ia dar trabalho e custar caro em termos de manutenção, mas nada podia me preparar pros últimos quatro meses… só pra vocês terem uma ideia, eu tive que:

  • Consertar todas as quatro privadas da casa que tavam vazando.
  • Arrancar o carpete do hall do andar de cima – porque ele virou uma extensão do banheiro de Pavlov. Esse trampo foi uma novela mexicana, com instalador trazendo piso errado, demorando um mês pra fazer o serviço, etc, etc.
  • Instalar cortinas e persianas em todas as janelas. Na primeira delas eu ainda era n00b de paredes norte-americanas e fiz uns cinco furos errados até acertar…
  • Trocar todos os três detectores de fumaça da casa, ao descobrir que os antigos donos da casa nos fizeram o favor de deixá-los mais de cinco anos vencidos. Por sinal, um cordial pau no cu dos antigos donos da minha casa, que não cuidaram de absolutamente nada de manutenção e agora tá sobrando tudo pra mim.

kitchen sink

  • Contratar um cara pra trocar as bancadas dos banheiros e da cozinha porque, de tão velhas, elas impediam as gavetas de abrir. A vantagem disso é que agora eu tenho uma pia linda. Ser adulto é uma bosta mesmo, você fica feliz com a sua pia…
  • Improvisar umas travas de metal pra fixar a lava-louça, que caía pra frente quando você abria a porta.
  • Jogar a minha geladeira inteira fora ao descobrir que ela cria umas crostas de gelo de dois em dois meses e as comidas todas estragam porque ela para de gelar – e que nenhum técnico conserta isso porque o problema chama-se “design lixo das geladeiras Samsung”. Depois dessa e do fiasco dos telefones explosivos eu nunca mais compro NADA da Samsung na vida. Aproveitando, uma singela estalactite de gelo no cu dos antigos donos da casa por mais essa.
  • Refazer a vedação das paredes do box de dois banheiros.
  • Abrir um buraco no teto da sala porque o banheiro acima dela estava vazando dentro do drywall. Não é nada divertido ver o teto da sua sala pingando enquanto você toma café da manhã.
  • Pagar um absurdo pra um cara refazer as paredes/azulejos do box do meu banheiro.
  • Brigar com o fiadaputa porque ele fez um trabalho de merda.
  • Tapar o buraco do teto da sala eu mesmo, com todo meu vasto conhecimento de conserto de drywall adquirido às pressas no YouTube. Por sinal, você já teve que lixar drywall? É bem legal, mas morrer queimado é muito melhor…
  • Recolocar um dos azulejos do banheiro, também com treinamento de YouTube, porque o fiadaputa largou sem fazer depois de de ir embora.
  • Refazer, pela terceira vez, a vedação do banheiro que tava vazando – porque o fiadaputa usou o rejunte errado.
  • Trocar o aquecedor da casa que resolveu morrer alguns meses antes do inverno – o que envolveu uma conta caríssima, uns três buracos no teto do porão, e o prejuízo adicional de uma caixinha de som bluetooth que eu tinha e que magicamente desapareceu da casa depois que os instaladores foram embora. Foi meu primeiro furto aqui no Canadá, por sinal.
  • Deixar os buracos do teto no porão porque tivemos uma ideia maluca de montar um projetor com home theater no porão e eles seriam úteis pra fazer a parte elétrica da instalação.
  • Passar madrugadas insones pesquisando distâncias ideais de projeção, comparando com as medidas da sala, conferindo se o tamanho da tela caberia na parede… como diz o ditado, “meça duas vezes, corte apenas uma”.
  • Orçar o trabalho de passar fiação pro projetor com um eletricista licenciado – já que aqui eu sou legalmente impedido de mexer na fiação da minha própria casa sem o aval de um eletricista profissional – e receber um orçamento de quase três mil dólares.
  • Comprar uma extensão e usá-la pra alimentar o projetor, passando o fio estrategicamente por dentro do teto até uma tomada próxima – porque huehue nóis é BR.
  • Construir uma tela de projeção sob medida, montando uma moldura com ripas de madeira e enrolando uma tela barata de PVC por cima dela.
  • Abrir ainda mais buracos no drywall pra passar os fios de áudio/vídeo (essas a lei deixa). Foi tudo no maior esquema gambiarra: eu enfiava o celular nos buracos do teto e usava a câmera pra achar um caminho pros fios, depois passava uma fita métrica no lugar, amarrava as pontas do fios na fita métrica e puxava a fita pra puxar os fios. Foi emocionante enfiar minha furadeira num dos buracos e usá-la às cegas pra abrir passagem pra um dos fios.

Deu muito trabalho, mas valeu a pena.

media room

  • Por fim, tive também que transportar e montar incontáveis móveis da Ikea. Pensando bem, essa é a parte divertida, é tipo Lego de adulto.

No meio disso tudo, em outubro eu troquei de emprego. Um amigo daqui apareceu com uma vaga que pagava 60% a mais do que eu ganhava. A pegadinha: era num projeto meio bucha. Eu pensei comigo que quem sobreviveu a Windturn City sobrevive a qualquer coisa, mas mal sabia eu no que estava me metendo. Digamos que agora eu passo cada dia de trabalho assim:

  • 10% do tempo eu faço trabalho de verdade, que agrega valor.
  • 30% do tempo eu estou consertando servidor caído ou tentando fazer as coisas rodarem no meu computador.
  • 60% do tempo eu estou fazendo facepalms duplos tentando descobrir o que diabos as pessoas fizeram no projeto porque nada tá documentado em lugar nenhum.

Basicamente, agora eu trabalho numa mistura de The Office com Trapalhões cujo cenário é uma daquelas casas bagunçadas de acumuladores compulsivos.

Quando nos mudamos para o Canadá, com seis malas e nenhuma certeza do futuro, uma conversa recorrente no nosso círculo de amigos imigrantes eram os perrengues do inverno. Um deles é o snow shoveling: todo morador daqui de Ontário é legalmente responsável por tirar a neve da calçada da frente da sua casa, ou seja, você tem que sair no frio e tirar a neve com uma pá. Os nossos amigos costumavam comentar que prefeririam morar em apartamento por conta disso, mas eu sempre dizia:

“Ih, se eu tiver que fazer shoveling no inverno eu vou fazer com gosto, porque ter essa obrigação significa que eu finalmente tenho uma casa aqui no Canadá”.

Três anos depois, às 18h do dia 12 de Dezembro de 2017, eu peguei uma pá e tirei a neve da calçada da minha casa canadense pela primeira vez.

snow shovel

 

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