O Primo recomenda – NTS

Quando me perguntam sobre música eu consigo conversar fluentemente sobre estilos, épocas, discos, quem influenciou quem, etc. Mas se tem uma pergunta que me deixa absolutamente confuso é:

Onde foi que você descobriu isso?

É que eu tenho MUITAS origens de descobrir música nova. Pode ter vindo de um comentário de Twitter, de uma referência usada num dos (excelentes) vídeos da Estelle Caswell (da Vox), do lineup de um festival, do algoritmo de recomendação do Google Play… eu não me preocupo muito com de onde veio, e sim pra onde vai.

É por esse motivo que eu não consigo dizer com precisão como diabos eu descobri a NTS – uma rádio que só transmite online, de uma cabinezinha de uns cinco metros quadrados em um bairro pobre de Londres, mas que tem filiais em Los Angeles, Manchester e na China e é extremamente influente no underground musical. Foi ela que resolveu o meu problema de muitas origens de música nova, já que faz meses que ela é praticamente a única coisa que escuto.

NTS home page
A home page da NTS, mostrando a “sede” da rádio. Conhece os artistas? Não? Nem eu.

Uma das coisas que me entediava no processo “normal” de descobrir coisas novas pra ouvir é que você sempre acaba caindo em variações das bandas/artistas que você sempre ouve. O que me interessa mesmo são as coisas autênticas, feitas por gente que gosta genuinamente de música e quer simplesmente se expressar, sem preocupação com dinheiro ou fama, e as coisas surpreendentes, a inventação de moda que é extremamente complicada num universo musical onde todo mundo já fez de tudo, e que, justamente por isso, dá muito certo quando dá certo. A curadoria de shows da NTS vai justamente nessa linha: você não vai conhecer ninguém, a maioria é uma molecada de vinte anos ou gente muito focada em um nicho bem específico, e eles tocam coisas inacreditáveis – tem vaporwave, tem especial de música dos Andes, tem metal, tem mixes de música da Índia, tem música ambiente mixada com gravações do rádio da polícia, tem música de videogame, e tem todas as variedades de música dançante (house, techno, etc.), mas fresquíssima, tipo comida japonesa cujo peixe foi pescado no mesmo dia. Frequentemente é coisa saída direto do Bandcamp/Soundcloud e que está prestes a estourar.

Quando esbarrei com a NTS, o slogan da rádio me chamou a atenção: “don’t assume” (algo como “não julgue”). De fato, você precisa entrar pra ouvir com este espírito, porque na programação da rádio vale absolutamente tudo. Enquanto escrevo este post estou ouvindo o programa do Mobbs (pela primeira vez – explico porque em breve), que é descrito assim:

As produções de Mobbs passam pela linha do grime e outras culturas sonoras, mas a especialidade de seu show é aquela atmosfera da madrugada – seja a da batida porrada, das fitas cassete semidestruídas, ou da música ambiente dopada. Pluga aí.

Nos últimos minutos ele tocou um trecho de entrevista de um cara falando dos atentados do 11 de Setembro (entrecortado com uns ruídos digitais), e mixou com um jazz standard daqueles clássicos de trumpete/piano/bateria, mas com um blues tocado por cima na metade da velocidade (o vocalista soa como um urso bêbado), e agora tá tocando uns instrumentais de sintetizador… e tá valendo.

A diversidade musical da NTS só não é maior do que a diversidade dos artistas que tocam por lá. Gente nova, velha, artistas consagrados (a Bjork fez um show lá mês passado), gente que começou outro dia, héteros, gays, grupos queer/não-binários, russos, latinos, africanos, brasileiras, asiáticos… outro dia um cara levou a mãe pra tocar com ele! Como eu mencionei, vale absolutamente tudo. E o mais legal disso é que, em nenhum momento, a rádio faz alarde do tipo “olha só como o nosso lineup é diversificado”, porque isso acontece naturalmente, como deveria acontecer no resto do mundo. O lineup é diversificado em quantidade também, já que o povo que toca “frequentemente” tem um show de duas horas a cada quinze dias – são CENTENAS de pessoas ativas na programação todo mês. É por isso que, por mais que eu escute a rádio todo santo dia, sempre tem alguma coisa que nunca ouvi antes.

Mas o pior (melhor?) aspecto da NTS é que todos os shows ficam arquivados no Mixcloud. Isso significa que, a qualquer momento, você tem acesso a um acervo de LITERALMENTE CENTENAS DE MILHARES DE HORAS DE MÚSICA CATEGORIZADA POR ARTISTA E TAGUEADA POR GÊNERO. Se você não sabe o que ouvir, tem sempre coisa boa na seção de “recomendados”. Se você quer um gênero específico (tipo, “baile funk”), é só botar a tag no link de “explorar”. Basicamente, agora eu tenho um acervo praticamente infinito de opcões pra descobrir novos artistas, pra tocar enquanto eu lavo a louça, pra ouvir na academia, pra botar no trabalho, pra espantar a insônia, etc.

Alguns artistas/shows que eu particularmente curto muito e faço questão de acompanhar de perto são:

  • Pra música dançante melhor do que tudo isso que tá por aí: A Moxie tem o show mais “alto astral” (como diria o Felipe Cabeça) da NTS. A Shanti Celeste tem praticamente doutorado em house music, e o casal Nadia/Dan, do Rhythm Connection, também são muito fodas.
  • Pra ouvir de manhã: vá de Charlie Bones e seu “Do!! You!!! Breakfast Show” e seu dia vai ser garantidamente bom. Músicas que até seu pai curtiria.
  • Pra música que conta histórias: o Life is Away é uma espécie de ensaio para o rádio, algo como uma história contada por meio de filmes/séries/entrevistas entremeados com música ambiente. Se você vai ouvir só uma das mil recomendações deste post, ouça essa. Brilhante e absolutamente imperdível. O “Who’s That Girl” tem a mesma pegada, mas com a dona do show (Leyla Pillai) fazendo uma espécie de “terapia temática zen” com música e texto. É tipo drogas, mas sem as drogas. Falando nisso…
  • Pra se preparar para a legalização da maconha: tem tanta gente fazendo beats, mas o NahhG ainda consegue filtrar o que tem de melhor por aí. E o Ian, do Minimal Effort é um santo restaurador de vibes.
  • Pra ouvir o que vai tocar amanhã no resto do mundo: Lukid, o cara para quem eu faria questão de pagar uma cerveja se estivesse em Londres. A London Contemporary Orchestra é outra que está na vanguarda da vanguarda.
  • Pra meditar: Perfect Sound Forever é o show cujo título está mais próximo do conteúdo. O Nosedrip também é lindo. E eu ainda vou comprar a camiseta da Kranky que diz “hugs and/or drugs” (abraços e/ou drogas) porque é genial demais.
  • Para não entender porra nenhuma do que está acontecendo: Don’t Trip vai gratinar seus neurônios, Reverie é o que toca no seu subconsciente e você não sabe, Alien Jams é transmitido diretamente de Marte, Beatrice Dillon te pesca no techno e te come no experimental, e a Coucou Chloé é uma DJ/modelo que definitivamente me mete medo.