Quarenta anos

Esta semana eu completei 40 anos, então vai ter textão. Venha rir e se emocionar.

Eu comecei esse blog como esse moleque de vinte e poucos anos aí embaixo.

Eu era recém-saído da faculdade de Computação, ainda vivendo em Belo Horizonte. A internet era tão pequena quanto uma cidade do interior – meu terceiro post aqui era o Interney (Edney Souza, hoje um monstro do marketing digital brasileiro) adicionando um link pro meu blog em seu site.

Hoje eu passei o dia trabalhando num laptop trinta vezes mais poderoso do que o meu desktop da época. Este post, inclusive, é escrito a milhares de quilômetros do Brasil, na prosaica cidadezinha suburbana de Ajax, em Ontario, no Canadá – país que eu escolhi para viver e onde, finalmente, me sinto em casa.

A minha vida mudou total e completamente desde então. Felizmente, a aparência continua mais ou menos a mesma – com o cabelo melhor, eu diria. Fica aí um agradecimento especial aos meus pais pelos bons genes que fizeram o povo da loja de bebidas pedir a minha identidade até os 39 anos.

A foto acima é recente, de maio de 2018, em Nova Iorque, onde fomos comemorar o aniversário da Bê. Vinte anos antes eu conhecia NY só das revistinhas do Homem-Aranha. Hoje eu tenho um cartãozinho da MTA (o “bilhete único” novaiorquino) permanentemente na carteira, e a sala de tevê aqui de casa é lotada de pôsteres de musicais da broadway que a Bê assistiu. Nesses anos todos o meu mundo se expandiu enormemente.

Mas estou tergiversando muito. O que eu realmente quero dizer com essa história do tempo passando é que eu vou morrer.

Sobre olhar a mortalidade no olho

O lado bom de estar mais velho é que agora é adequado parafrasear Nietzsche para dizer que, quando você olha a mortalidade no olho, ela olha de volta pra você.

Não, eu não estou com nenhuma doença terminal. A minha saúde física está, inclusive, excelente: eu durmo bem, como (razoavelmente) bem, corro 5km três vezes por semana e tal. Mas fazer 40 anos é um marco de vida, e apesar do fato de que estou, literalmente, na melhor situação que já estive, a única coisa que consigo pensar é que, daqui pra frente, é morro abaixo, pois já vivi 50% da minha expectativa de vida.

Com os quarenta no horizonte, o meu eu pessimista já esperava ter que lidar com algum problema crônico, tipo colesterol, joelho ruim, talvez até os “países baixos” se rebelando na hora do vamo ver. Naturalmente, não foi nada do que eu esperava.

Tudo começou na primavera. Uma das consequências do inverno no hemisfério norte é o chamado “transtorno afetivo sazonal”, que deixa as pessoas deprimidas por conta do frio e da falta de luz. Convenientemente, a sigla em inglês pra essa doença é “SAD” (triste), o que descreve bem como eu estava quando as neves de março fecharam o invernão. No passado eu ficava só mais preguiçoso que o normal e segurava a onda tomando um suplemento de vitamina D, mas esse ano as coisas… não estavam exatamente fáceis. A rotina não mudou, eu continuava acordando, indo trabalhar e tudo o mais, mas praticamente no automático, simplesmente pra cumprir tabela. Era como se você fosse ao seu restaurante preferido, pedisse o prato que mais gosta, e a comida viesse sem sal, sem tempero.

O frio passou, os gansos voltaram todos grávidos da sua temporada na Flórida e, com o verão chegando, eu achei que o calor e os dias mais longos iriam resolver de vez a história. Afinal, não tinha por que eu me sentir tão mal com a vida, não é? Afinal, eu estou morando no país que sempre quis, numa casa incrível, na carreira onde eu mando bem, com um ótimo salário, com várias outras ofertas de emprego chegando no LinkedIn, a melhor esposa da galáxia, um cão e um gato me amando incondicionalmente, tudo perfeitamente alinhado… então por que diabos eu não sinto vontade de fazer nada? Por que a vida anda tão sem gosto?

Aí o dia-a-dia começou a ser afetado. Conseguir me concentrar no trabalho por mais de cinco minutos ficou impossível. Minha libido foi sumindo de mansinho até sumir de todo. Aí na sexta-feira eu comprava umas cervejas pra poder ir tomando ao longo do final de semana e elas não duravam nem até o sábado. Ou isso ou eu comprava um saco de jujubas pra deixar na mesa do trabalho e acabava comendo meio quilo (literal) de açúcar numa tarde.

Com a idade avançando, eu tava esperando ter que lidar com mazelas físicas – e acabei sendo pego de surpresa com a saúde mental. Pois é. Tem todo um estigma pra falar disso. O cursor do editor parou algumas dezenas de vezes nos parágrafos anteriores até eu conseguir chegar até aqui. Coincidentemente, meu aniversário caiu no Dia Mundial da Saúde Mental, aí resolvi aproveitar a chance pra falar do assunto sem fazer muito rodeio.

Felizmente, o meu caso parece ter sido bem inicial e não chegou ao ponto de afetar drasticamente a minha vida – tipo eu ter que parar de trabalhar, ou precisar de remédios, ou chegar no nível bem mais sério de pensar em se matar. Por sinal, esse ponto do suicídio é algo assustadoramente comum: quando comentei com o meu médico daqui sobre o que eu estava sentindo, essa foi a primeira pergunta que ele fez – depois de contar que mais da metade dos pacientes dele andam se queixando de problemas semelhantes. Semana passada mesmo, no bar com os caras do trabalho, um deles acabou deixando escapar pra mim que, depois de passar por um divórcio no começo do ano, ficou pensando em acabar com a vida. Ano passado um conhecido do Twitter tentou se enforcar, mas felizmente sobreviveu.

Como o meu “bode” não afetou minha cabeça racional, eu concluí rapidinho que havia um bom risco da coisa piorar e, arrumando força de vontade não sei de onde, resolvi que iria tentar todas as possibilidades de auto ajuda antes de ter que embarcar em assistência médica (na verdade, a vergonha de ter que admitir pros outros o meu estado mental também ajudou um bocado). A primeira providência foi voltar a fazer exercícios. É um saco, mas é igual escovar os dentes – não fazer é pior; a segunda foi meditação – foi um tiro no escuro, algo que resolvi tentar achando que seria muita viagem e que não tinha porque dar certo, e que foi, de longe, o que mais me ajudou a voltar ao normal. Tanto que escrevi um post só pra dar os detalhes da minha odisséia meditativa.

Com a chegada dos 40 anos, felizmente, temos tudo sobre controle no departamento da saúde mental. Já no da física, os meus joelhos resolveram começar a doer após as corridas. Bem, dos males o menor – e bicheiras à parte eu me sinto muito grato por chegar a esse marco de vida do jeito que cheguei.

Lições aprendidas

Os meus últimos dez anos foram uma loucura. Eu passei por oito empregos diferentes, comprei dois imóveis, mudei de casa três vezes (incluindo aí a mudança de país), adicionei mais um curso superior no currículo, conheci vários novos países…

Eu comecei esse post falando que eu vou morrer e meu tempo nesse planeta está se acabando, mas, graças à maluquice da última década, acabei aprendendo que o importante não é a quantidade de tempo que se tem disponível, e sim o jeito que você aproveita o tempo que tem. E agora que sou oficialmente um quarentão, sempre que me botarem pra fazer alguma coisa que eu ache perda de tempo, eu posso sair fora com a clássica desculpa de que “estou velho demais pra isso”.

O Primo recomenda: meditação

O “mascote” do fórum sobre meditação no Reddit

Nas minhas muitas noites insones, googlando coisas sobre saúde mental, reparei que meditação aparecia em várias listas de possíveis tratamentos para depressão e ansiedade. Vi, inclusive, revisão de literatura científica sobre os benefícios de meditar, com tudo apontando para uma considerável redução dos sintomas depressivos. Então, resolvi me comprometer a fazer pelo menos as 10 sessões grátis dum aplicativo de meditação guiada (o Headspace – mas há opções em português), só pra ver como é. Afinal, eu não tinha nada a perder: iria custar zero reais e consumir apenas dez minutos do meu dia.

Quando comecei, além de uma certa descrença de que ia fazer alguma diferença, eu também tinha todas aquelas dúvidas comuns de quem não conhece/nunca tentou meditar: é só isso mesmo, sentar e se concentrar na respiração? E se eu não conseguir sossegar meus pensamentos? E se eu não conseguir ficar sentado sem minha perna ficar dormente? E se der uma coceira maluca nas costas no meio da sessão? E se o único tempo que eu tiver for no metrô indo pro trabalho? Curiosamente, as respostas que eu achava para todas estas perguntas era sempre a mesma: “não tem problema”. No início eu achava isso meio largado demais, achava que as sessões tinham que “dar certo” e que eu tinha que conseguir me sentar sem incômodos ou distrações e ficar 100% do tempo não pensando em nada. Mas resolvi confiar nas instruções e continuei fazendo as minhas sessões porcas, tentando concentrar apenas na minha respiração, vendo a minha cabeça resolver relembrar todas as falas do filme Matrix no meio da sessão por 200 vezes e tendo que voltar a focar na respiração 200 vezes. Porque é isso que os guias de meditação que eu li dizem que você tem que fazer quando se distrai:

Devido ao hábito, os pensamentos seguramente invadirão sua prática. Quando surgirem, apenas libere-os ao expirar, sem se identificar com eles, sem responder emocionalmente a eles. Observe o pensamento emergir, passar diante de você e depois desaparecer. Então, deixe que sua atenção repouse, não entorpecida e preguiçosa, mas à vontade.

E aí aconteceu o que sempre acontece quando você faz uma coisa muitas vezes: você fica bom naquilo. Graças à minha mente muito distraída, eu acidentalmente acabei me treinando a largar distrações. Além disso, no processo de largar esses pensamentos, você também aprende a simplesmente observar o que acontece na sua cabeça sem fazer juízo de valor (“sem se identificar com eles, sem responder emocionalmente a eles”), e isso torna o processo de conviver consigo mesmo incrivelmente mais leve. Aí a ficha caiu: é por isso que “não tem problema” se distrair duzentas vezes numa sessão, ou perder a concentração porque a gata tá arranhando a porta do quarto ou porque sua perna direita está toda dormente. O lance é aproveitar esses problemas pra treinar como se dissociar deles. O grande barato da meditação não é não pensar em nada, e sim aprender a postura certa pra lidar com as coisas que você pensa. O importante não é o destino, e sim a jornada.

Quando as 10 sessões grátis do aplicativo acabaram eu, como era de se esperar, continuei o hábito por conta própria. Todo dia de manhã eu acordo, tomo um banho, e medito por vinte minutos, inclusive nos finais de semana. Os efeitos disso são bem notáveis, dá pra perceber que alguma coisa no meu cérebro andou se reorganizando. A minha concentração no trabalho, por exemplo, ficou meio “sobrenatural”; eu consigo me manter focado por muito mais tempo – o que vale ouro pra quem trabalha com software. O meu sono não mudou de quantidade, mas parece ter ficado mais… eficiente. No início eu andei tendo uns pesadelos muito esquisitos, mas foi coisa de uma semana e acabou passando – talvez efeito da tal reorganização cerebral. Na hora de dormir ficou bem mais fácil pegar no sono, mas às vezes a insônia ainda bate e eu acordo lá pelas três, quatro da manhã, e acabo desistindo de tentar voltar a dormir e vou meditar às cinco… e mesmo assim não fico sonolento o dia todo. E se eu dou aquela dormidinha esperta de meia hora no trem, ao voltar pra casa, eu fico novo em folha. E o meu humor e disposição geral pras coisas está de volta ao normal. A vida voltou a ter gosto.

Claro que esse é o meu caso pessoal, e pode ser que você experimente e não seja essas coisas todas pra você, mas no meu caso fez muita diferença. Acho demais que todo mundo devia tentar, afinal, basta se sentar, fechar os olhos e… respirar.