O Primo no Japão

Eu não lembro quem sugeriu primeiro, mas o Japão sempre foi um lugar que eu e Bethania queríamos conhecer. A ideia, porém, ficou sempre no fundo da lista de prioridades porque a gente sempre achava que era longe, era caro, tem a barreira da língua, etc etc.

Aí uns amigos nossos foram e adoraram e não tiveram problema nenhum. Aí descobrimos que, daqui do Canadá, um voo pro Brasil demora o mesmo tanto que um voo pro Japão – e que a passagem costuma sair até mais barata. Aí, graças ao fato de Toronto estar cara pra caramba e o Japão estar meio que em recessão, descobrimos que o custo de vida anda mais ou menos o mesmo nos dois lugares. Aí, a Bê tava com férias pra vencer, e a gente foi numa feirinha de cultura japonesa e tinha um stand da Air Canada com um cupom de desconto pra um voo direto de Toronto pra Tóquio… e foi por Tóquio que nossa viagem começou.

A palavra que melhor define Tóquio é… muito. Muito grande. Muito complexa. Muito cheia. Muito limpa. Muito espetacular. Maior do que tudo que já vi nos meus 40 anos, em vários aspectos. Eu achei que, depois de meses planejando essa viagem, eu conseguiria lidar tranquilamente com tamanha envergadura, mas logo na chegada a gente ficou perdido no metrô por duas horas até conseguir chegar no hotel, simplesmente pelo fato de que o sistema de trem/metrô de Tóquio é grande demais. Mas, passado o susto inicial, o resto da viagem correu sem problemas.

Por sinal, internet no celular é indispensável no Japão. Google Tradutor salvou a nossa vida inúmeras vezes. E é muito prático simplesmente apontar a câmera do telefone pras coisas e ter uma tradução (meio que ainda ‘tabajara’) na mesma hora.

Além disso, o Google Maps mostra até o número identificador das entradas e saídas do metrô, o que é bastante prático, especialmente em lugares como Shinjuku, a estação mais movimentada do mundo, com 3.5 milhões de passageiros por dia e nada menos do que duzentas saídas. Minha maior vitória pessoal dessa viagem foi o dia em que não me perdi em Shinjuku.

Outra coisa que Tóquio – e o Japão – tem muito é boa comida. Parece bobagem, mas isso foi, de longe, o maior destaque da viagem pra mim. Eu arrisco dizer que o segredo do sucesso japonês não é a tecnologia, nem a tradição milenar, nem a ética de trabalho, nem a disciplina… é a comida. Porque, com o perdão da palavra, putaquepariu como se come bem naquela porra.

Tivemos dezenas de refeições memoráveis, incluindo:

O tonkatsu secreto

a restaurant entranceEsse fica em Tóquio, e é uma birosca onde cabem só 10 pessoas… mas que está no famoso guia Michelin, ainda que na categoria mais básica. Mas pra comer lá é meio complicado, porque você tem que:

  • Achar o local (tem só uma placa minúscula, apontando pra uma escada que vai em direção a um porão em um beco).
  • Achar a menina que toma conta da fila
  • Deixar com ela uns 10 dólares de depósito pelo seu lugar na fila
  • Tirar uma foto de um pedaço de papel com o seu nome e o horário da entrada na fila
  • Ir dar um passeio e voltar no horário que ela falar pra você voltar
  • Ao retornar, no horário combinado, você tem que mostrar a foto do papel que tirou antes, para confirmar que a reserva do lugar na fila é mesmo sua
  • Já na fila, você deve ver o menu e fazer o seu pedido antes mesmo de entrar no restaurante. Ah, e não tem menu em inglês – se vire com o Google Tradutor, e rápido porque tem mais gente pra pedir.

Quando finalmente você se senta e, logo logo, chega essa maravilha aí embaixo.

Pra quem não conhece, o tonkatsu é carne de porco frita e empanada, servida com arroz e uns acompanhamentos. Eu nunca vou me esquecer da primeira mordida que dei nesse tonkatsu: o jeito que a crocância perfeita, delicadamente temperada, vai se misturando à suculência da carne imaculadamente, perfeitamente cozida, conforme você vai mordendo seu pedaço… é de chorar. É de arruinar qualquer esperança de que um dia eu me torne vegetariano.

O “BO-LI-NHO”

Escrito assim porque você tem que dizer devagar, saboreando cada sílaba. Esse foi totalmente por acidente, fomos ver a estátua do Godzilla em Ginza, tava na hora do almoço, e enquanto ponderávamos onde almoçar eu vi uma fila enorme em frente a um restaurante. Fui investigar e dei uma desanimada, porque era um restaurante de rede, de Hong Kong, mas quando estávamos prestes a sair, notei que o rodapé do menu dizia: “Premiado com 1 estrela Michelin desde 2010”.

Depois de uma hora de fila, pedimos um monte de coisas, todas deliciosas, dentre elas os famosos pork dumplings – que ganharam o nome de “bo-li-nho” desde então. Essa disgrama é uma obra de arte: massa levemente crocante e amanteigada, e um recheio agridoce de carne macia. Bethania ficou absolutamente viciada, tanto que voltamos no dia seguinte pra comer de novo e, pedimos umas três porções do bendito bolinho.

O ramen com o melhor custo benefício do mundo

 

Esse foi o da maior fila que pegamos: uma hora e meia pra sentar e comer. Além do lugar ser minúsculo, ele é super badalado porque foi um dos primeiros restaurantes de ramen do mundo a ganhar uma estrela Michelin.

O macarrão é fresquíssimo, feito no próprio lugar, diariamente, e os ingredientes da sopa vem moídos/fatiados pra se misturar bem, e logo você percebe o porquê: tudo combina incrivelmente bem. A gordura do porco, o crocante do amendoim, a pimenta, as fibras da cebolinha, é um casamento perfeito de intensidade e sabor. Foi, de longe, o melhor ramen que já comi na vida.

Aí vem a conta e você vê que isso tudo aí custou inacreditáveis dez dólares

Os izakayas proibidões

Bom, “proibidão” é um tanto quanto exagerado, mas eles com certeza não eram lugares pra turistas que não falam japonês. Pra quem não sabe, o izakaya é um misto de bar com restaurante cujo menu de comida pode ser descrito como “coisas pra ir beliscando com o seu álcool”.

Um deles era em Kyoto, numa região chamada “pontocho”, que na verdade é um beco com restaurantes por todos os lados. A referência do lugar veio – adivinha! – do guia Michelin, e o Google Maps mandou a gente pro beco, e nenhum dos restaurantes do beco tinha placas em inglês. Aí fomos aprofundando a pesquisa e a treta foi complicando: só tinha uma foto da fachada mostrando uma lanterna de papel, sem nada em inglês, e não tinha nada parecido ali no beco. Depois de muita andança em círculos, descobrimos que tem “sub-becos” dentro do beco, e então eu comecei a explorar os sub-becos e comparar os caracteres em japonês das placas com o nome do lugar em japonês. Depois de muita procura, reparei que uma lanterna de papel tinha umas coisas em japonês que batiam com o nome do lugar. Bingo!

Mas essa foi a parte fácil. Ninguém no restaurante falava inglês, e era impossível usar o Google Tradutor no menu porque ele era escrito a mão… então, peguei o telefone e traduzi para o japonês a frase: “Alguma sugestão?”. Basicamente, conversamos via tradutor do telefone e comemos o que eles recomendaram pra gente – incluindo coisas que eu nem sei o que era – e tava tudo espetacular.

Tivemos ainda muuuuitas outras histórias de comida: teve o okonomiyaki em Hiroshima, nos fundos de uma casa da vizinhança, teve o jantar kaiseki que dura três horas e tem dezoito pratos diferentes, teve o kuro tamago, um ovo cozido no vapor das águas vulcânicas de Hakone e que, teoricamente, lhe dá sete anos a mais de expectativa de vida… mas se deixar esse post vai ser só sobre comida, então melhor mudar o assunto.

A gente fez a maior parte das coisas programação turística normal – ir nos milhões de templos, no cruzamento famoso de Shibuya, nas lojas nerd de Akihabara, nas ruínas do prédio destruído pela bomba de Hirosima que é conservado até hoje, etc., mas foi bem legal experimentar coisas que não são muito comuns nos guias de viagem, como:

  • O museu da Toyota em Nagoya: mas não se engane, não tem nada a ver com os carros. Tanto eu quanto Bethania somos nerds de processo industrial, e a Toyota é tão referência nisso que a metodologia usada nas fábricas deles é referência mundial na indústria. E o museu é totalmente centrado nisso – ele começa contando o passado da Toyota na indústria têxtil (pois é, eu também não sabia) e de como isso influenciou a tecnologia de produção de hoje. E o museu tem um monte de coisas legais, como demonstrações ao vivo de forja de alumínio, ou robôs de solda industrial que você mesmo pode acionar e ver trabalhando.
  • Shinjuku Golden Gai: eu nem deveria estar falando desse lugar, que é tão foda que deveria ser mantido em segredo pra não ser invadido pelos turistas que vão pra olimpíada em 2020. O golden gai fica em Tóquio, e é um emaranhado de becos minúsculos tomados por nada menos do que duzentos e cinquenta bares. Bares do tamanho de um banheiro. Bares onde a área de se sentar é um beliche em cima do barman. Bares cujo tema é Twin Peaks, ou death metal, ou filmes B de terror, ou a Paris de 1950. É a coisa mais incrível de vida noturna que já vi na vida.
  • O pachinko: a explicação simples do pachinko é que é o cassino japonês – inclusive com todo um esquema secreto pra embolsar os ganhos, já que jogos de azar são ilegais no Japão. Mas o que me deixou fascinado sobre o pachinko é o ambiente – centenas de caça-níqueis bipando descontroladamente no último volume em um lugar fechado onde todo mundo fuma. A gente entrou no lugar e eu mal consegui aguentar a completa overdose auditiva/olfativa por trinta segundos. É de estragar o cérebro. Honestamente, não sei como as pessoas conseguem passar horas jogando ali.
  • Os hostshostesses: durante um tour de restaurantes de Tóquio (olhaí a comida de novo), o nosso guia detalhou um pouco desse aspecto bizarro da vida japonesa. Funciona assim: você sai com os caras do trabalho e vai num host bar, onde tem uma menina – a hostess – cujo trabalho é dar atenção à você: ela serve suas bebidas, ri das suas piadas, escuta suas conversas… basicamente, te faz companhia como se fosse sua namorada e estivesse super interessada em você. Não tem sexo, tem só o interesse, o lado emocional do relacionamento, só a companhia. E frequentemente elas exploram esse aspecto pra ganhar presentes dos cabras desavisados, que acham que aquela atração toda é de verdade e que ela se apaixonou por você. É inclusive comum ver gente pagando por essa “namorada de mentirinha” pra fazer coisas comuns, do tipo sair pra jantar.

Essa viagem foi grande demais pra descrever em apenas um post. Felizmente, eu levei uma câmera pra filmar o que vimos e fizemos… então, pra fechar essa história, toma aí mais quinze minutos de Japão.

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