Como falar inglês

“Art and creativity have always been a conversation between a human being and a mystery”

Essa frase é de um podcast do TED que entrevista Elizabeth Gilbert, a autora daquele livro “Comer, Rezar, Amar”. Eu ouvi isso no carro outro dia, mas não me lembro muito mais do que era o tema da entrevista porque, conforme a autora ia falando, eu acabei me distraindo com a forma que ela discursava sobre o tema. Há muito tempo eu não ouvia um inglês tão bem estruturado, tão eloquente e elegante.

E aí você se vê lá no fundinho da curva do efeito Dunning-Kruger, mais uma vez: quando você finalmente acha que aprendeu inglês, depois de quatro anos vivendo em inglês, vê que ainda falta muito pra você aprender inglês.

Os desafios de viver numa nova língua nem são exatamente difíceis, mas você tem que lidar com as coisas mais estapafúrdias possíveis. Por exemplo, quando cheguei ao Canadá eu tinha medo de falar ao telefone. É sério. Ouvir uma língua semi-desconhecida em áudio de péssima qualidade prejudicava muito o entendimento. Também vivenciei experiências traumáticas na fila do Subway (o restaurante, não o metrô), lotado e barulhento, com o atendente gritando o nome de todos os ingredientes que eu poderia botar no meu sanduíche, e eu sem entender absolutamente nada. Mas isso passa mais ou menos nos primeiros seis meses.

Aí você já começa a se soltar no trabalho e vem o segundo desafio: entender o inglês com sotaque. Quando eu achei que tava finalmente me acostumando com o sotaque indiano e asiático, entrou um escocês no meu time. Sabe quando você finalmente derrota o chefão no videogame, mas aí ele ressuscita com duas barrinhas de energia? Pois é.

Demora, mas você finalmente chega num nível aceitável de fala e compreensão. Mas minha meta era mais ousada, o que eu queria mesmo é domínio total da língua. Conversar com alguém e ser confundido com um nativo. Conseguir ler um livro e diferenciar um bom autor de um autor mediano. Entender poesia em inglês. Não basta zerar o joguinho, eu queria abrir 100% do mapa e coletar todos os bônus e fases secretas. Mas, meu amigo… o jogo é grande. O jogo é muito grande.

É preciso:

  • Aprender o peso e a cor das palavras. Seria amazing mais maravilhoso do que awesome?
  • Aprender as expressões idiomáticas que usam conceitos de coisas que você não necessariamente conhece. Se você não entende de baseball, não vai conseguir entender a metáfora das bases para indicar o nível de intimidade sexual, por exemplo.
  • Aprender a reconhecer os detalhes de intonação que ditam o fim das falas em uma conversa. Achei que só o mandarim tinha essa palhaçada…
  • Desaprender os significados implícitos que existem no português e não existem no inglês. Uma vez um amigo me ofereceu algo e eu respondi com um thanks (que, em português, num contexto onde você não aceitou fisicamente a oferta, significa “não, obrigado”). Ele ficou lá, parado, sem saber se eu queria ou não, até desfazermos o mal entendido.

E enquanto você bate cabeça com todas essas coisas, várias interações do dia-a-dia ressaltam ainda mais o tamanho do buraco que você está tentando preencher. Por exemplo, outro dia eu me senti confiante com a língua e fui tentar entender as letras de um gênio do rap chamado MF Doom:

Try the straight pliers, if not—the vice grips
A real price-saver way to acquire nice whips
What a steal for real on wheels of steel
Stunner, a funner summer number-one meal deal-bummer

Aí tu não entende nada, vai no Genius e vê que o verso acima fala sobre roubar carros, além de conter referências às paradas musicais do rádio e também aos combos do McDonalds, e vice grips tem o duplo sentido de ser uma ferramenta e uma referência ao domínio do vício, e what a steal é usado no sentido figurado (“uma pechincha”) e literal ao mesmo tempo… e não somente as frases rimam entre si como as sílabas também. MF Doom é uma espécie de Chico Buarque gangsta.

Mas o desafio final das músicas em inglês é o dancehall jamaicano. A Jamaica tem o sotaque mais incrível do caribe, pena que é absolutamente incompreensível. Sinta a poesia de Reggie Stepper no seu clássico “Cuh Oonuh”:

Set of satellite, oonuh set of munu-cunu
Set of idiot, oonuh set of damn tukoo
Set of masquerade, oonuh set of damn Junkanoo
A wha’ oonuh a try? A wha’ oonuh a try? A wha’ oonuh a try fi do?

Demora, mas chega um dia em que alguma coisa desperta no seu cérebro e você vai falar alguma coisa complicada e a frase simplesmente rola naturalmente da sua língua e você fica “peraí, como foi que eu fiz isso?”. Essa é a beleza do subconsciente: ele tá lá no fundão da mente, inacessível, mas a insistência na atividade consciente de botar a cabeça pra funcionar em inglês acaba, pouco a pouco, reprogramando também o subconsciente. Aí acaba aquele processo manual de “pensar em português -> traduzir -> falar em inglês”, e as frases começam a já nascer anglófonas. Isso seria lindo… se não tivesse o efeito colateral de estragar o português. É quando você começa a se pegar falando coisas bizarras do tipo “preciso salvar dinheiro pra consertar o carro”, ou quando demora meses pra conseguir escrever um post em português no seu blog. Não tem jeito: pra ir pro céu, tem que morrer.

Mas é bem provável que eu já esteja a caminho do céu. Quando penso na entrevista do “Comer, Rezar, Amar”, preciso considerar também o fato de eu conseguir distinguir o quanto o inglês da autora é bom. Saber da própria ignorância é também uma forma de saber, e isso é muito positivo. E aí é que está o detalhe crucial para aprender uma língua: se você só pensar no que não sabe ou no que não consegue, aprender se torna traumático; em contrapartida, quando o desconhecido desperta uma curiosidade, que quando resolvida gera uma satisfação, aprender se torna prazeiroso – e nossos cérebros adoram um prazerzinho.

Hoje mesmo eu tive um desses. Tem um show de hip-hop/beats da NTS que eu curto bastante chamado “Tuesday Trips”. Semana passada, NahhG, o cara que produz o show, postou no Twitter que o próximo show seria no dia do seu aniversário e pediu umas mensagens de voz com parabéns pra botar entre as músicas. Como esse ano eu adotei uma política pessoal de não economizar elogios pras coisas que eu gosto, mandei a minha. Tá lá no show dessa semana, bem na marca dos 50 minutos. Quando ouvi de volta a gravação, fiquei surpreso ao ver o quanto meu inglês – gravado rapidinho no celular, entre duas reuniões de trabalho – ficou excelente. Outra agradável surpresa foi que a gravação ficou coincidentemente posicionada logo depois de uma batida com samples de um funk carioca sobre “bucetada na pistola”…

Assim sendo, seguimos aqui nesta eterna sequência de pânico e alívio linguístico, aspirando pelo dia onde vou afirmar com segurança que, sim, eu finalmente atingi o nível máximo de domínio da língua – que é facilmente definido em português por uma das minhas frases preferidas: “eu manjo das putarias”.