Retrospectiva 2019

…também conhecido como “o último ano antes de eu ser pai” – o que me deixa curioso pra descobrir o que diabos vou escrever na retrospectiva 2020.

Tom nem nasceu e eu já tou exausto. Os últimos sete meses foram basicamente de preparativos pra chegada dele: pintar quarto, montar móvel, fazer chá de bebê, trocar carro, ler livro, fazer exame, preencher papelada de licença maternidade, e pedalar 30km pra achar Toddy pra Bethania (esse post tá nos rascunhos, uma hora sai).

É sério, eu ando muito estressado. A correria é tamanha que eu tive que me impor um limite onde, às nove da noite, eu me forço a parar de resolver coisa.

Como trabalho atrai trabalho, no banco eu estou prestes a ser promovido.

Essa história começou do jeito mais cômico possível. Um belo dia, o chefe veio apresentar um cara novo que havia sido contratado e ele veio na minha mesa e me apresentou como “esse é o Joe, o líder do time”, e eu pensei “como assim líder do time?”. E aí eu notei que todo mundo andava me tratando como líder do time, já que todas as buchas sem dono começaram a vir parar no meu colo porque, em várias delas, eu era o único que dava um jeito e resolvia. O bom é que meu bônus esse ano foi bem gordinho.

Importante lembrar que, em 2013, eu fui demitido duas vezes no mesmo ano. Tem uma moral da história aí, mas ainda não sei bem qual.

Teve também baby moon: em setembro passamos uma semana e meia em Paris. Que cidade fantástica.

Ninguém reparou, mas eu passei esse ano inteiro sem usar o Instagram. Facebook, então, foi sumariamente deletado.

Parece bobagem mas esse é um dilema meio sério. Por um lado, eu estou cada vez mais convencido de que as redes sociais estão para a saúde mental assim como os cigarros estão para a saúde pulmonar, e que ainda estamos nos anos cinquenta achando que fumar é super legal e sem a menor noção das consequências. Além disso, não usar produtos do filho da puta do Zuckerberg é uma forma de consumo ético que tenho tentado praticar.

Por outro lado, esse é mais um passo que me distancia do Brasil. Os filhos dos meus amigos estão todos crescendo e eu não vejo nada. Fulano viajou, sicrano separou, beltrano pode até ter mudado de sexo e eu jamais saberei. E ok, eu poderia usar o meu tempo pra ir falar com cada um deles e saber o que anda acontecendo mas… será que eu não deveria investir meu tempo de socialização aqui no Canadá?

Vida de imigrante é um saguão de aeroporto infinito, você numa fila, seus parentes e amigos lá longe, dando tchau, e a fila não anda, e você no eterno limbo entre o foi e o ficou.

E pra fechar o ano, recebemos e-mail do ministério da imigração marcando a famosa provinha, que é nada mais nada menos do que o penúltimo passo do processo de obtenção de cidadania. Depois, é só jurar fidelidade à Rainha da Inglaterra.

Eu nunca, nem nos meus sonhos mais malucos, imaginei que teria um filho canadense – muito menos um filho de pais canadenses.

Há exatos dez anos eu escrevi a retrospectiva de 2009 em formato de um review do disco “Black Sea”, do guitarrista vienense Christian Fennesz.

Hoje, após basicamente surtar de estresse, eu me sentei na sala, no escuro, e botei o “Black Sea” pra tocar de novo. E então voltei a me sentar, sozinho, na praia cinzenta de uma década atrás – meu lugar seguro – cujo som eu descrevi de forma bem precisa:

…sons de tom frio e monocromático, sons de um longo trajeto cujo destino é obscuro

O destino continua obscuro. E aqui vai uma coisa que ninguém posta no Instagram: eu estou com muito medo do que vem por aí.

Eu até tentei falar desse medo com outras pessoas, mas não deu muito certo. Por exemplo, quando comentei do stress com meu pai, ele respondeu: “isso não é nada, já passaram por perrengues muito piores”.

É por isso que, na praia, eu me sento sozinho, e me sinto sozinho.

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