O Primo’s Data Transformation Saga

23 de janeiro de 2010, 13:19

network Era dezembro do ano passado e, enquanto todos achavam que a década estava acabando, eu me perguntava como iria fazer para ganhar dinheiro em janeiro, já que recebo por dia trabalhado e meu cliente brasiliense e governamental iria, obviamente, trabalhar a 10% de sua capacidade entre o Natal e o carnaval – o que significava “férias forçadas” pra mim.

Daí me toca o telefone. Era o consultor-líder de outro projeto, perguntando se eu podia ajudá-lo, em janeiro, a desdobrar umas metas de venda para o departamento comercial de uma empresa. Era uma semana de trabalho – mas trabalho chato, de micreiro. Só que iam me pagar como consultor-sênior e o trabalho era a exatamente dois quilômetros da minha casa, em São Paulo.

Então lá fui eu topar tudo por dinheiro no palco.

Acontece que esse negócio de “desdobrar meta” não é nada simples: é pegar uma meta de alguns BILHÕES de reais e dividí-la para cada um dos SESSENTA MIL clientes, o que obviamente envolve muitos dados. Tradicionalmente, meus colegas consultores – que raramente são profissionais de TI – sempre deram um jeito de fazer o trabalho com a única ferramenta que conhecem: “programando” com fórmulas de duas, três linhas de comprimento em planilhas de Excel enormes, facilmente propensas a erro e cuja manutenção é um pandemônio. E normalmente eles não conseguem porque esbarram nas limitações “físicas” das planilhas do Excel, que “só” aguentam um milhão e quarenta e oito mil linhas.

Aí você pensa: “Isso é muita gambiarra, é praticamente um data warehouse feito em Excel, vocês deviam arrumar alguém de TI pra construir um sistema pra isso”. Mas meus colegas consultores, ao invés de pensar nisso, dizem: “Não cabe no Excel? Então vamos fazer no Access, que aguenta mais linhas!”. E ao invés de abandonar a gambiarra eles vão para um software aonde cabem ainda mais gambiarras.

AccessError

O Microsoft Access é um enigma pra mim. Ele é marqueteado como um banco de dados para aplicações simples, como um sisteminha de vendas e estoque pra tia Neusa, dona da papelaria da esquina. Ou seja, o Access te entrega toda a funcionalidade complexa de um banco de dados (integridade referencial, consultas em SQL, etc.) para situações onde um caderninho de estoque ou uma planilha de Excel resolveriam. E quando você tenta usar o Access como um banco de dados de verdade, descobre que ele é absurdamente lento e armazena no máximo 2 gigabytes de dados.

E então você lembra dos bilhões de reais da meta divididos entre os milhares de clientes e pensa: “Ah, então é nessa hora que eles arrumam alguém de TI pra construir um sistema decente pra fazer o trabalho, né?”.

Não, meus caros. É nessa hora que eles me ligam.

E o meu trabalho ainda tinha mais alguns agravantes:

  • Eu tinha que entender um desdobramento antigo que havia sido feito por outro consultor pra poder descobrir como desdobrar a meta nova. Felizmente ele tinha deixado um “passo-a-passo” de como atualizar tudo… um passo-a-passo com sessenta e cinco passos do tipo “Execute a consulta X no arquivo Y”, “Importe os dados da tabela Z no banco de dados K”, “Copie os dados da coluna G da planilha XPTO do Excel para a coluna F da planilha Y”, e por aí vai. Era o equivalente digital da foto do começo deste post.
  • O último nível de desdobramento (o dos clientes) estava todo feito usando o CNPJ do cliente, e me pediram pra abandonar os CNPJs e fazer tudo com um tal “código de cliente”. E tem CNPJs que tem dois códigos de cliente vinculados. E tem clientes novos que não tinham meta no desdobramento velho e tinham que receber meta no novo.
  • Eu deveria desdobrar todas as metas para 2010. Os dados para um mês de metas ocupavam 2GB no Access. E o Access tem aquele limite de no máximo 2GB por arquivo, então eu normalmente trabalhava migrando dados de um arquivo Access para outro e esperando esse outro arquivo entupir e o Access dar pau. Aí eu migrava tudo de novo pra um terceiro arquivo, e assim por diante.
  • Eu tinha que trabalhar no Access evitando ao máximo consultas do tipo união (UNION ALL no SQL) e subconsultas (consultas dentro de consultas), porque qualquer um desses dois recursos colocava o Access no modo “velhinha de óculos com uma caneta marca-texto e uma régua comparando os dados de duas folhas de papel linha a linha”. Ou seja, era MUITO lento. E ainda assim, usando as consultas “rápidas” do Access, eu levava mais ou menos uma hora para desdobrar cada mês de dados de metas. Qualquer erro no desdobramento poderia implicar num retrabalho de, no mínimo, mais doze horas. E eu tinha apenas 40 delas disponíveis pra terminar tudo.

E foi assim que passei a semana perdido entre dezenas de Excéis e Acceses, empurrando dados de um arquivo pra outro. Tinha uma planilha que era tão complexa que, depois de qualquer mexidinha nela, o Excel travava por quinze minutos recalculando as fórmulas e referências cruzadas. Minha sequência de trabalho envolvia tantas coisas em paralelo que eu tinha que desenhar fluxogramas numa folha de papel, indicando aonde eu estava e como os dados iam de um arquivo pra outro, senão eu me perdia. Ontem foi o último dia de trabalho. Eu almocei um McDonalds em frente ao computador, sobrevivi o resto do dia à base de café e uma tortinha de maçã (também do McDonalds) e, lá pelas oito da noite, quando minha cabeça já doía e eu já apertava Enter pensando “ok, dê-me logo o próximo pau que vou ter que resolver”, eis que me aparece a tabela final, com as metas novas, certinhas e todas divididas por cliente.

Sabe, é um trabalho tão frustrante e gambiarrado que no fim você não tem exatamente aquela sensação de dever cumprido: é mais um misto de alívio por ter conseguido sair vivo do outro lado do buraco. Mas pelo menos fiquei menos falido nesse começo de ano…


Pra você, que achou o 3D de “Avatar” um espetáculo

9 de janeiro de 2010, 19:35

 

The Third & The Seventh from Alex Roman on Vimeo.

Aí você pensa: “Tá, ok, um vídeo sobre arquitetura e câmeras antigas?”. Sim, meus amigos, um vídeo sobre arquitetura e câmeras antigas.

Totalmente feito por computador.

É simplesmente assustador o nível de fotorrealismo que esse cara conseguiu. Eu só acreditei que era CG depois que vi o vídeo do making of de uma das cenas.

Recomendo que você assista a versão em alta definição e em full screen.

(Link via @seufelipe)


Pare de falar de amor o tempo todo

29 de dezembro de 2009, 0:24

Dia desses a TV estava ligada e começou a passar a abertura daquele velho seriado das bruxas – “Charmed”. A letra do tema de abertura dizia:

I am the sun / I am the heir…

E enquanto os símbolos arcanos vão voando pela tela, a música corta para o refrão:

I am human and I need to be loved…

Todas as vezes que eu vejo isso termino me perguntando: “Por que diabos botaram o amor ali no meio?”. É engraçado porque a intromissão do amor na música de abertura é mais ou menos espelho do que acontece na série: bruxas que, enquanto tentam salvar o mundo de demônios e outras criaturas do mal, ainda tem que lidar com a vida de gente normal – incluindo os romances e namorados.

Não é de hoje que eu me incomodo com inserções românticas no meio de coisas que não tem nada a ver com romance. É meio que uma síndrome do Titanic: não basta ter a melhor história do mundo, ainda assim nêgo enfia uma love story no meio. Acontece nos filmes, nas séries, nos livros… (alguém aí pensou em Crepúsculo e seu amor vampiresco?).

Mas o que eu quero dizer é mais ou menos o seguinte: eu não vejo problema em contar histórias de amor. O problema são as distorções geradas por estas histórias.

Poucos são os filmes que retratam a REAL dificuldade de um relacionamento, a arte que se precisa ter para casar dois egos humanos, opostos por natureza, em uma convivência não somente suportável como também prazeirosa e gratificante. Na telona todo amor é avassalador, intenso, vivido com pouca atenção à razão e deixando os sentimentos fluírem irrestritamente – e ainda assim tudo sai perfeito. O amor de cinema motiva as pessoas muito mais do que seu próprio instinto de sobrevivência e faz com que elas esqueçam seu egoísmo e sua inveja – coisas que praticamente definem a humanidade dos dias de hoje. E as dificuldades entre os amantes só servem de contraste para tornar o final feliz ainda mais feliz ou para pelo menos dar algum mérito ao casal feliz para sempre. Até o “para sempre” é um problema, pois nenhum expectador vê a velhice, o tédio ou a pobreza chegando depois do “The End”.

De fato, o cinema não precisa mostrar a parte chata da coisa – porque, convenhamos, ela é chata e você tá pagando para ser entretido. O problema está no efeito colateral: no fim do filme você tem um monte de pessoas – muitas delas egoístas e de mau caráter – almejando um amor 100% altruísta e desapegado . Um “amor de cinema”, por assim dizer. E aquilo parece tão bom e tão factível que, instantaneamente, todos saem procurando por ele. E começa um ciclo: como todos querem aquilo, o romance passa a ser a prioridade número um de todos os personagens em todas as histórias veiculadas em todas as mídias, o que faz com que mais pessoas queiram aquilo, sem se dar conta de que aquele amor é IRREAL.

O pior é que isso não é Zé Carlos falando, é fato científico, estudado pela Universidade Heriot-Watt, de Edimburgo, inclusive.

Daí o título deste post. Não dá pra ficar vivendo em função de um conjunto irreal de expectativas. Na minha opinião, amor de cinema não deve ser objetivo de vida, e sim consequência. Uma vida de felicidade infinita ao lado de sua alma gêmea é muito menos esforço de procura ou fruto de sorte e muito mais resultado de uma personalidade com um “mix” difícil de se conseguir, que contém integridade, flexibilidade para as atitudes e interpretações e rigidez na hora de manter seus princípios – em ambas as partes do casal. Ou seja, não é fácil e além de tudo é contra-intuitivo.

Ou parece natural que, para conseguir um relacionamento perfeito com outra pessoa, você precise esquecer a procura pelo par perfeito e redobrar seus esforços para dentro de si?


Pedaços de posts que nunca concluí

29 de dezembro de 2009, 0:22

Em nenhuma ordem ou contexto específico (Viva o caos!).


Teorias sobre motivação, existem várias. Apenas duas funcionam: 1) Dinheiro e 2) Café. Tem também o 3) Sexo, mas essa tem uma série de complicações jurídicas quando usada em ambientes corporativos.


  • E esses bonequinhos 3D em overlay no campo, hein Globo? Tá parecendo Age of Empires…
  • Que mau gosto o dessa camisa do Flamengo. A fonte do nome do jogador é a mesma dos filmes do Homem Aranha que é a mesma do Playstation 3.
  • Esses gritos de guerra do Flamengo não rimam não? “Dá-lhe dá-lhe ô / Mengão do meu coração”?
  • (Quando a TV digital dá interferência e a tela se enche de “glitches”): E pensar que meus filhos nunca vão saber o que são chuviscos de uma TV analógica fora do ar…

Então que agora eu virei consultor-líder do maior contrato do ano da minha empresa de consultoria e meu dia de trabalho consiste, basicamente, de um continuum de reuniões.

Ontem uma delas era para acertar o escopo do trabalho com uma das gerentes do cliente. Daí que eu cheguei e me sentei na mesa todo pimpão e todo mundo tava batendo cabeça e eu incorporei o exu de consultor-líder e saí, ao mesmo tempo, colocando ordem na bagaça e tomando cuidado para não desautorizar a mulher (que, pô, era a gerente da coisa). E ela lá, só ouvindo.

Até que, no meio do meu “leadership spree” eu saio falando que…

- …então acho importante seguir as orientações da Miriam.

E ela rebate:

- Meu nome é Luiza.


Brunetto
Comida Italiana – Site: Não tem.
Rua Dr. Renato Paes de Barros, 465 – Itaim Bibi

Sabe, normalmente a comida italiana me motiva… motiva a tirar um cochilo depois. Só que a do Brunetto (onde almocei hoje) estava TÃO boa que me motivou a escrever este post. Diz Bethania que os donos moraram na Itália, então deve ser por isso que as massas são tão gostosas. Ah, não deixe também de comer a bruschetta do Brunetto (por mais transsexual que isso possa parecer).

Kebaberia
Kebabs (comida árabe) – http://www.kebaberia.com.br/
Rua Dr. Renato Paes de Barros, 777 – Itaim Bibi Rua Joaquim Floriano 179 – Itaim Bibi

Quando se pensa em Oriente Médio normalmente o que vem à cabeça é "terrorismo", "petróleo", "Prince of Persia"… e, por último, a comida do Habibs. Então os kebabs – "enrolados" de carne grelhada, originados no Irã – acabam passando despercebidos. Mas são uma delícia, é como se fosse a fast-food das arábias.

No almoço é bem cheio, então dá um ótimo lugar para ataque de homem-bomba chegue cedo.

Bolados
Lanches e sucos – http://www.boladossucos.com.br/
Rua Joaquim Floriano, 373 – Itaim Bibi

Minha mulher odeia o Bolados: “Sanduíche não é almoço”, diz ela. No cardápio tem um de peito de peru com tomate seco que discorda veementemente. Vale lembrar que o Bolados, além de bom, é barato, tornando-se uma ótima sugestão para os dias em que sua carteira teve crises bulímicas e tá magrela.

Pibu’s
Lanches – http://www.pibus.com.br/
Av. Pres. Juscelino Kubitscheck, 819

Opção boa (e razoavelmente barata) quando você quer fugir dos lanches tradicionais do Itaim (New Dog, Joakin’s, Fifties, etc). Mas peça o delivery – o restaurante “físico” é praticamente inexistente.


O dia em que o campo de distorção da realidade se desfez

14 de dezembro de 2009, 22:02

iphone
(by ~turunchuQ)

Em março desse ano, quando resolvi que meu próximo telefone seria um iPhone, toda aquela gozação com o quão fanáticos são os adeptos de produtos da Apple passou a fazer sentido. Porque a maioria dos usuários são, sim, meio fanáticos. E são fanáticos porque, sim, os produtos Apple são absurdamente melhores do que a grande maioria das coisas que existe no mercado.

Não é atoa que o iPhone é um ícone cultural da última década. Ele é, de longe, o melhor gadget que já tive. Meus últimos nove meses com ele foram espetaculares. Durante o dia de trabalho ele mantinha minha agenda de (muitas) reuniões organizada: os convites de reunião do Outlook caíam no meu Gmail, iam parar no Google Agenda e eram automaticamente sincronizados com o telefone. Por várias vezes os mapas e o GPS integrado foram o que me orientou nas ruas ainda desconhecidas de São Paulo – e as informações de trânsito em tempo real me salvaram de vários engarrafamentos. Com o iPhone eu me mantinha permanentemente conectado via email, web e Twitter – mesmo numa rotina de viagens constantes, sem internet no cliente e com a conexão noturna miserável do hotel. O iPhone era o “modem 3G” do meu notebook (via tethering). Era meu passatempo quando o voo atrasava. Era o lugar onde eu sempre achava fotos malucas borradas que meu irmãozinho tirou enquanto brincava com o telefone. Era meu “placar eletrônico instantâneo” quando estávamos no boteco e meus amigos queriam saber se o Galo estava ganhando de quanto o Galo estava perdendo. Era minha lista telefônica, meu music player, minha câmera fotográfica.

Até que na última quarta-feira eu recebi um telefonema do meu pai e, enquanto conversávamos, a ligação caiu, o telefone perdeu o sinal da operadora e ele não voltou mais. Então tentei reiniciar o telefone e recebi a mensagem que anunciava o princípio do fim:

Restauração necessária: o iPhone não pode realizar ou receber ligações. Faça a restauração do iTunes. www.apple.com/support

Até aí tudo bem, não fosse a mensagem que era exibida quando eu ligava o telefone no computador:

O iTunes não pode ativar o seu iPhone porque o cartão SIM não está inserido ou porque um PIN do SIM é requerido

E então veio o golpe final: todas as minhas tentativas de restaurar o software do telefone foram interrompidas com um misterioso “Erro Desconhecido (1013)”.

Minhas pesquisas no Google sobre o erro caíam apenas em casos de usuários que tentaram desbloquear ou fazer jailbreak no telefone (coisa que eu nunca tentei fazer justamente porque não queria passar por esse tipo de problema). Mas ainda assim tentei de tudo: atualizei o iTunes, baixei novamente a atualização do firmware direto da Apple, tentei restaurar o telefone em outros computadores, tentei restaurar em modo DFU (que também falhou, com “Erro Desconhecido 23”) até que fiquei sem mais opções e resolvi aceitar a realidade:

Meu iPhone havia morrido.

brickediphone
(Foto by Firefish45)

E com ele morreu minha agenda de compromissos, meu modem 3G, minha lista telefônica, meu music player, meu GPS, meu mapa de São Paulo, meu defletor de taxistas que querem puxar papo e, acima de tudo, meu principal elo com o mundo online.

E só não fiquei absolutamente arrasado porque o iPhone ainda estava na garantia. No sábado fui à loja da Vivo do Shopping Iguatemi pra fazer a troca. Enquanto a mocinha dizia que a troca ia levar uns 30 dias – porque a Vivo não vende mais o iPhone 3G – eu ficava olhando uma madame cheia de sacolas da Louis Vuitton e com roupa de estampa de oncinha abrindo a caixa de um iPhone 3GS branco, novinho – para, após alguns segundos de perplexidade com o aparelho na mão, perguntar a atendente: “Onde é que liga?”.

Enquanto o iPhone não volta, o chip da Vivo que eu usava nele agora repousa dentro de um celular LG que nem sei que modelo é MG 160, mas que é usadíssimo, provavelmente é roubado, tá todo arranhado, manchado e que foi comprado hoje, a R$ 50, num quiosque assustador da rodoviária de Brasília. Eu até postaria uma foto dele aqui, mas não tenho como já que a única câmera que eu carregava sempre comigo era – sim! – a do iPhone.

Agora é a parte onde vocês deixam doces mensagens de condolências à minha pessoa nos comentários…


(sem título)

9 de dezembro de 2009, 0:24

“Apenas alguns instantes”, ele pensava. “Resistir por apenas mais alguns instantes”. Mas no fundo o que ele queria era que aquilo durasse para sempre, para que ele continuasse exatamente como estava – fascinado pela beleza daquela mulher, a mulher da sua vida, a mulher que estava de pé à sua frente, a centímetros de distância. Nunca tão próxima.

Anos atrás, ainda muito jovem, ela ia descendo as escadarias daquele mesmo lugar aonde estavam, junto com as tias, para ir pra casa. Ela o viu e sorriu, simpática, sem perceber que com isso escrevia permanentemente na alma daquele homem. Escrevia os termos do conflito que lentamente foi se instaurando, o conflito onde ele tentava, em vão, se convencer de que aquilo que sentia era bobagem, era indevido, até pueril; ou, algum tempo depois, de se convencer de que aquilo era terrível, era uma tentação da qual ele deveria se desvencilhar a qualquer custo. Os anos de esforço foram inúteis: ela estava ali, de vestido branco, e ele só pensava nas formas escondidas debaixo da cor imaculada e em como nunca em toda sua vida havia desejado tanto alguma coisa quanto o corpo dentro daquele vestido – e esse pensamento era quase grande demais para disfarçar, mas ainda assim ele (a duríssimas penas) disfarçava para não estragar aquele momento, o momento mais importante da vida dela.

Aquele lugar, o mesmo aonde se conheceram, o local aonde tudo começou – aquele seria o mesmo local onde tudo seria concluído. Concluído em apenas alguns instantes.

E ela ali, com seus olhos negros marejados e fixos nos seus, atenta a cada um dos seus mínimos movimentos. Nunca ela havia olhado para ele com tamanha intensidade. E foi com intensidade que ele passou os anos dedicado ao seu trabalho, à sua missão, tentando esquecê-la e ganhar a guerra contra si mesmo. Mas ninguém vence uma guerra que não quer vencer, e por isso os grandes, os infinitos olhos dela lhe tiravam as últimas forças com facilidade. Mas ele resistia, era preciso resistir por mais alguns instantes – e ainda restava fazer os votos e trocar as alianças.

E era preciso manter a compostura, pois quem estava na igreja e não olhava a noiva estava, com certeza, olhando pra ele. A hora dos votos foi a hora mais difícil: ao dizer o “amando-te e respeitando-te” ela, com a voz trêmula, deixou correr uma lágrima. Ao vê-la tão feliz, tão frágil, foi por um triz que ele não abandonou a compostura e a conteve num abraço e confessou, sussurrando, tudo o que sentiu e não lhe disse por todos aqueles anos. Feito tão difícil quanto conter as palavras no dia em que ela, também emocionada, lhe revelou que o queria naquele altar. Mas, assim como outrora, também se calou. E o instante final desses anos seguiu, escorrendo entre seus dedos, até se esgotar.

A cerimônia chegou ao fim. A “Ave Maria” começou a tocar e ela, a mulher da sua vida, lhe deu as costas e começou a sair da igreja. Para viajar com o marido em lua-de-mel, depois ir morar na capital e, depois, nunca mais voltar. Discretamente, ele debruçou-se sobre o altar, segurando trêmulo as beiradas do mármore branco enquanto assistia os passos do casal que se afastava, eternamente unido, em uma só carne. Pensou que se sentiria aliviado por ter resistido à maior provação de sua vida – mas só pensava no quanto era um fracassado. Sua devoção à Deus não chegava nem perto do que ele sentiu por aquela mulher. Pois só um amor grande desses lhe faria entregá-la, ele mesmo, a outro homem em sagrados laços matrimoniais.

A batina lhe pesaria severamente nos ombros daquele momento em diante. A comunidade paroquial não perceberá o vazio no peito do padre, mas o padre jamais deixará de notar o vazio que ela deixou, no banco da igreja e em sua memória.


(É que no sábado passado eu fui padrinho de um casamento e a historinha acima – fictícia, obviamente – me ocorreu enquanto o padre celebrava a coisa toda).

(Em tempo: Sabe qual foi a música que tocou quando eu e os outros padrinhos entraram? “Nothing Else Matters”, do Metallica).

(Sim, amigos. Metallica. Numa igreja católica. Mandou bem demais, Gabriel.)


Retrospectiva 2009

3 de dezembro de 2009, 23:01

Janeiro

200901


Fevereiro

200902


Março

200903


Abril

200904


Maio

200905


Junho

200906


Julho

200907


Agosto

 200908


Setembro

200909


Outubro

200910


Novembro

200911


Dezembro

200912


2009-songs


Quantidade de posts em 2008 e 2009


2008200720062005 – 2004 – 2003 – 2002 – 2001


A saga do roubo de notebook em Congonhas

23 de novembro de 2009, 22:19

No domingo da semana retrasada São Paulo ardia em febre e meu telefone tocou: era um amigo querendo sair pra tomar uma cerveja e afogar aquele calor maluco. “Tudo bem, só preciso levar Bethania em Congonhas pra pegar um avião e a gente toma uma”, respondi.

No caminho, o telefone de Bethania (que viajaria com mais 2 colegas de trabalho) toca com a notícia bombástica: roubaram a mochila e a bolsa de uma delas, bem ali, no passeio logo em frente ao aeroporto. Ela estava com um carrinho de bagagem esperando uma das colegas chegar quando um cara passa, pega a mochila, sai correndo e entra num Gol branco. A menina até tentou correr atrás dos caras (péssima ideia) mas desistiu assim que viu uma arma sendo apontada em sua direção.

roubo Um detalhe: o ladrão deixou cair seu celular durante o roubo. E mais: como o carro dos ladrões parou em fila dupla durante o roubo um dos marronzinhos da CET foi multar o carro e, portanto, anotou a placa.

Enquanto fazíamos o boletim de ocorrência chegaram os policiais civis que ficam de plantão no aeroporto. Um deles, o homem mais GIGANTESCO que já vi, foi o que mais comemorou quando ficou sabendo do celular e da placa do carro. Segundo eles, há semanas eles tentam pegar essa quadrilha – e com o celular e a placa do carro tudo ficou bem mais fácil. Ele até mostrou pra nós um vídeo das câmeras de segurança (esse aí da foto) mostrando um assalto similar ocorrido no dia anterior. O cara estava empolgadíssimo: “agora eu vou me divertir com esses caras, eles vão ter tratamento VIP”, dizia ele, enquanto apalpava efusivamente a pistola que carregava na cintura. A vítima do assalto também estava bem animada com a possibilidade de pegarem os meliantes e até fez uns pedidos especiais ao policial, coisas como “puxa bastante as bolas dele pra ele ficar impotente” e por aí vai.

Aí pegamos a bagagem das meninas, botamos de volta no carrinho e saímos do posto policial para remarcar as passagens. Estávamos esperando em frente ao guichê da Tam quando, de repente, um moleque aparece de repente, pega duas das malas que estavam no nosso carrinho e sai andando apressado. Todo mundo ficou IMÓVEL, paralisado pela ideia de que estava acontecendo tudo de novo, até que o “ladrão” se vira, mostra o dedo médio pra nós e sai, esbravejando. E alguém comenta:

- Errr… esse era aquele menino que estava no posto policial com a gente? Um que tinha perdido a carteira?

E todo mundo cai na gargalhada. Aparentemente, nós, vítimas de roubo de bagagem, acabamos “roubando” a bagagem dos outros sem querer – e o que é pior, de dentro da delegacia. Aparentemente estávamos mais competentes pro crime do que os ladrões de verdade…

Mas depois do roubo involuntário e de longas horas remarcando passagem, Bethania e as meninas viajaram no dia seguinte. Quando ela voltou, na terça à noite – surpresa! – a polícia já tinha pego os caras. Segundo ela rolou até um police lineup, com os meliantes enfileirados e a vítima atrás de um espelho falso, pra fazer a identificação dos marginais. Eu dava tudo pra ter visto isso. Rolou até uma matéria sobre o roubo no Jornal da Globo. O vídeo que eles usaram pra ilustrar o roubo, por sinal, é o mesmo que o policial nos mostrou no domingo.

Pelo menos tivemos um final “semi-feliz”: apesar das perdas materiais (nada do roubo foi recuperado), pelo menos os caras foram presos. Inclusive preciso destacar o excelente atendimento dos policiais em todo o ocorrido: foram rápidos, atenciosos, prestimosos e ainda pegaram os caras.


Rápidas

19 de novembro de 2009, 23:35

O andar logo abaixo do que eu trabalho está em reforma. Às vezes os pedreiros deixam a porta aberta e dá pra perambular um bocado por ali.

 reforma

Virou instantaneamente o meu lugar predileto do prédio.

Hoje eu estava no hall do hotel e a TV passava a abertura de “Caras e Bocas”.

Não reconheci 95% dos nomes de atores/atrizes que aparecem na abertura.

Me senti orgulhoso.

Agora o cooler do meu notebook… er… “canta”. É o popular “pau no cooler” por conta de poeira.

Pelo visto neste final de semana teremos autópsia computacional para limpeza. Desejem-me sorte. Ela anda faltando este ano.


Feliz Natal

12 de novembro de 2009, 21:56

feliznatal

“Feliz Natal” é o nome da obra aí em cima, da artista Isabela Magalhães, exposta no hall de entrada do prédio do meu cliente aqui em Brasília (tá rolando uma exposição de obras feitas por funcionários e familiares). A maioria dos colegas da minha equipe detestaram “Feliz Natal”. Eu fiquei absolutamente fascinado.

Você pode apreciar “Feliz Natal” parando no grotesco e percebendo apenas um Papai Noel decapitado e com o olho esquerdo arrancado, ou pode reparar na posição do corpo do Papai Noel, fixado na madeira, de braços abertos, com pregos nas mãos e com os pés sobrepostos. Por acaso isso te faz lembrar de alguma outra figura relacionada com o Natal? Talvez aquele famoso profeta cristão que morreu na cruz e que – ora veja! – nasceu no dia de Natal? É exatamente por isso que eu adorei essa obra – porque ela diz, visualmente, veementemente, coisas que desde 2003 eu fico berrando aqui no blog. Coisas sobre o tanto que o Natal deixou de ser o nascimento de Jesus Cristo e virou a festança do “bom velhinho” e da comilança na ceia de natal e do boom do comércio por causa da trocação de presentes.

Outra parte do brilho artístico de “Feliz Natal” vêm também da reação de quem vê a obra. Alguns colegas ficaram ultrajados com a agressão sofrida pelo Papai Noel. No entanto a figura daquele outro cara relacionado com o Natal ensanguentada na cruz é cultuada no mundo católico e não costuma despertar nem um pouco da comoção que o Noel aí despertou. E se o Jesus crucificado serviu para “tirar o pecado do mundo”, talvez o Noel crucificado tente servir um propósito semelhante, mas dessa vez em pecados mais modernos, impossíveis na antiga Jerusalém aonde não existia capitalismo. Talvez este seja o presente da artista para o mundo.

Eu, com certeza, me senti presenteado.

P.s.: Eu até daria outras informações da exposição pra você poder ver a obra, mas isso implica em dizer onde tou trabalhando, e tem contrato de confidencialidade, e meus empregadores são paranóicos, etc. Então, não.


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