Um nome de bom tom

Seis meses já. O “feijão” já não é mais feijão, pois decidimos o nome.

Eu tinha toda uma lista de critérios pra batizar o menino:

  • Não pode nome duplo (ex.: José Carlos 🙂 )
  • Tem que ser um nome que funcione em inglês e português. Afinal o menino é canadense e vai ter que aguentar a pronúncia dos tios e demais parentes quando inevitavelmente formos passear no Brasil.
  • Não pode nome que dê confusão de pronúncia em inglês. Já perdi a conta de quantas vezes fui chamado de “Rosê”…
  • De preferência um nome não bíblico (pois vai que o menino é a próxima encarnação do Buda, não ia pegar bem ele se chamar João Paulo)
  • Não pode nome que no dia-a-dia vira diminutivo, tipo Leonardo que vira Léo ou Alexandre que vira Alê.

Aí, quando vimos o quanto é difícil arrumar um bom nome, acabei abrindo mão da última regra. A gente fez uma lista de possíveis nomes e, como bom engenheiro de software, resolvi testar cada nome: eu me sentava na mesa de jantar e gritava em direção à escada…

<Nome>! Vem jantar, menino!

No fim, o nome que decidimos foi justamente por conta do diminutivo, pra eu aprender a parar de botar regra em tudo. Ele vai se chamar Thomas, pra no dia-a-dia a gente poder chamá-lo de… Tom. Afinal:

  • Ao contrário de “Malcolm” ou “Wilfred”, é impossível errar a pronúncia de Tom em português ou em inglês.
  • Já pensou em quanta gente legal se chama Tom? Tom Jobim, Thom Yorke, Tom Zé… o fato de serem todos músicos é coincidência, juro.
  • Em português ainda temos o bônus de todas as piadinhas de tio do pavê que podemos fazer com o nome do menino, como por exemplo a que dá título a este post…

Entendendo o voo da gaivota

Hoje de manhã fui andar com o cachorro e o céu estava mais ou menos assim.

Pra completar a cena, eis que passa uma revoada de gaivotas, voando pro norte por algum motivo. Deviam é ir pro sul e ir parar no México, pra fugir do frio que vem chegando lentamente. E comer guacamole, obviamente.

Esse ano eu parei de usar celular e fone de ouvido ao andar com o cachorro, pra exercitar mindfulness (como fala isso em português?). E me peguei achando aquela cena bem bonita… e então pensando no quanto é estranho a gente achar a natureza bonita. Isso é pré-programado, talvez? O que determina o que é bonito ou feio? E por que a maior parte das coisas naturais nos parece agradável?

Daí o sonso aqui se lembrou de uma frase de Picasso que eu e a Bê vimos no museu de Picasso, no Japão (pois é), e que há meses está escrita no nosso mural de giz da cozinha. Ele diz:

Todo mundo quer entender arte. Por que ninguém tenta entender o canto dos pássaros? Por que as pessoas adoram a noite, as flores, tudo ao seu redor, sem tentar entender essas coisas? Mas quando se trata de uma pintura, as pessoas tem que entender…

Daí foquei em uma das gaivotas. Observei o movimento das asas, às vezes batendo pra se deslocar, outras vezes imóveis e apenas planando ao sabor da brisa. E aí me lembrei de quando era criança e cenas como essas despertavam aquele desejo infantil de como seria legal se a gente pudesse voar. E então lembrei que há muito tempo eu não sentia mais esse tipo de desejo, justamente por que é infantil e eu não sou mais criança.

E então pensei no meu filho, ainda crescendo na barriga da Bê. Pensei em como ele vai passar por todas essas coisas. Em como ele vai sentir esse desejo na sua forma mais autêntica, sem compromisso com a realidade física do nosso mundo duro e pesado. Pra ele, voar vai ser sim uma possibilidade bem palpável. E então fiz um esforço para sentir a mesma coisa: olhei para a gaivota e pensei em como seria fantástico estar lá, acima de tudo, ao sabor do vento.

Quando meu filho olhar para a gaivota e voar com ela em sua mente, eu quero estar junto com ele.

Por que as pessoas são preconceituosas?

Em tempos de Trump e Biroliro o que não falta hoje em dia é opinião sobre preconceito. Mas fato que é bom, nada. Aí outro dia decidi pesquisar o que a ciência tem a dizer sobre isso, e resolvi fazer uma espécie de “anotações públicas” dessa minha pesquisa neste post.

Antes de mais nada é importante separar preconceito de racismo. As coisas são relacionadas, mas o racismo é um preconceito específico de raça (pra não dar bagunça, consideremos “raça” e “etnia” como a mesma coisa). Sobre isso, essa matéria da Superinteressante explica que o ser humano não tem muitas diferenças genéticas entre as supostas “raças” – é algo em torno de 3% a 5% do DNA. Mas isso é suficiente para que se estabeleça “uma relação entre o grupo de origem de uma pessoa e seu genoma”.

No lado sociológico da coisa, a matéria explica muito bem um conceito central para entender o problema: o etnocentrismo, definido na Wikipedia como “o ato de julgar outra cultura com base em preconceitos encontrados nos valores e costumes da própria cultura de quem julga – especialmente quanto à língua, comportamento, costumes e religião”. E isso é encontrado nas comunidades humanas em toda a parte, e há muito tempo:

Os índios urubus, que habitam o vale do Pindaré, no Maranhão, acreditavam que todos os homens vieram da madeira. Acontece que só eles vieram das boas, enquanto seus vizinhos se originaram das podres. “Não existe quase nenhum relato de sociedades tribais que não tenha etnocentrismo”, diz João Baptista Borges Pereira, da USP.

Esse aspecto “nós” vs. “eles”, que, paradoxalmente, surge da nossa adaptação para a vida em grupo, é o ponto central que mais aparece nas pesquisas, segundo um artigo do The Conversation que comenta as mais recentes revisões da literatura científica sobre o assunto:

O racismo é uma das muitas expressões da evolução da nossa capacidade de viver e trabalhar em grupo. A tendência, essencialmente humana, de se identificar com os “nossos” define, de forma ampla, os “outros”.

O “ódio” ao lado de fora do grupo é, portanto, um reflexo do “amor” ao lado de dentro do grupo.

(…)

Para muitos pesquisadores, a nossa crueldade aos “outros” começa com o a bondade aos “nossos”. O ser humano é o único animal que coopera extensivamente com quem não tem parentesco, e os pesquisadores dizem que a vida em grupo, assim como cérebros grandes, é uma adaptação humana quintessencial.

Há também as hipóteses baseadas em achados da neurociência. A parte do cérebro associada à formação de crenças baseadas em raça é a amídala, que também está associada ao medo condicionado. Além disso, ao fazer reconhecimento facial, o cérebro reconhece melhor as pessoas do seu mesmo grupo racial, o que pode sugerir que as faces dos “outros” são percebidas com menos intensidade.

Felizmente, nossos cérebros são bem maleáveis:

Há boas evidências neurocientíficas para o que já se sabe há muito tempo: familiarizar-se com indivíduos de outras raças, bem como o desejo consciente de transcender preconceitos, pode erodir o racismo e outras formas de intolerância.

Outro ponto interessante do artigo do Conversation é o aspecto elusivo do preconceito: muita gente jura de pé junto que não é racista, mas no fundo possui uma série de associações implícitas sobre raça que, inconscientemente, afetam o seu julgamento. Eis aqui um teste de associação implícita (de Harvard, veja só) caso você queira se testar. A coisa é tão inconsciente que, mesmo achando o racismo uma aberração e sendo o cara mais inclusivo de todos no dia-a-dia, o meu próprio teste deu que tenho “preferência automática forte por Brancos comparados a Negros” – o que é consistente com a média geral…

Outro ponto surpreendente das pesquisas científicas que li foi o que pessoas menos inteligentes tendem a ser mais preconceituosas. Essa eu até fui catar o artigo original que vi mencionado neste outro. Não sei se é pragmatismo científico, mas os autores não fazem a menor cerimônia pra explicar a questão:

Estudos longitudinais trazem algumas das evidências mais convincentes. Um destes estudos analisou a inteligência geral em crianças de 10 e 11 anos e, duas décadas depois, reavaliou as crianças quando adultas – e encontrou uma conexão clara entre a baixa inteligência e racismo/sexismo.

(…)

Por que matemática, habilidades verbais e outras capacidades cognitivas dariam origem, com o passar dos anos, à posturas tão odiosas? [Os autores do artigo] acreditam que possuem a resposta para isto, também com base em abundantes e rigorosas evidências. A teoria deles é a de que as ideologias de direita atraem pessoas com menos habilidade mental porque elas minimizam a complexidade do mundo. Essas ideologias oferecem uma visão bem estruturada e ordenada da sociedade, uma visão que preserva as tradições e normas; assim, esta visão é especialmente atraente àqueles que se sentem ameaçados pela mudança e querem evitar incerteza e ambiguidade. Em contrapartida, pessoas inteligentes são mais capazes de compreender um mundo com nuances, fluidez e relatividade. (…)

Apesar de todas estas hipóteses distintas sobre a origem do preconceito, me parece que esse problema está caminhando naturalmente para uma solução conforme o mundo se torna cada vez mais globalizado e pacificado. Numa sociedade onde as origens dos supostos perigos que dão origem ao etnocentrismo não existem mais, e a percepção do que é o “seu” grupo social passa a englobar gente de todos os países, religiões, raças e costumes, o preconceito se tornaria “inútil” e lentamente desapareceria. Tomara…

Apenas mais um

Uma vez me mostraram o Worldometers, um site com contadores para vários indicadores mundiais que vão atualizando “ao vivo”. É bem legal ver a população mundial – ou a quantidade de celulares vendidos este ano – crescendo na sua tela em tempo real.

No entanto, um contador que sempre me chama a atenção é o de pessoas mortas. Eu olho para o número e lá estão trinta e um milhões, seiscentas e oitenta e oito mil e noventa e cinco pessoas mortas este ano. Se fosse só um número grandão e imóvel ele pareceria distante, como uma estatística, mas ver o número crescendo na sua frente o torna terrivelmente real. Tanto que, um instante depois, o contador pula para noventa e seis. E noventa e sete. Noventa e oito.

Aí eu olho em volta e me vejo no computador, trabalhando no meio de uma tarde qualquer. Dois colegas passam conversando no corredor. O contador pula para noventa e nove. No cubículo ao lado do meu, outro colega digita e clica, digita e clica. Agora são cem pessoas mortas. Ele digita mais um pouco. Cento e uma.

E então eu vejo o tamanho do abismo de indiferença que existe entre o horror da morte e o milagre da vida.


Era fim de sexta e, enquanto Bethania ainda estava no trabalho, eu estava é na correria de chegar em casa e dar comida pros bichos, porque a gente ia se encontrar com uns amigos e eu precisava pegar o carro de volta pra Toronto mas não sabia o horário que ela tinha combinado, então entre o pote de ração e a lata de patê eu peguei o celular e não entendi por que tinha uma mensagem de Bethania dizendo: “não precisa vir”. Então liguei pra ela:

“Não precisa? Por quê?”
“Me ligaram do Brasil. Meu pai acabou de falecer.”
Breve pausa.
“Pega um táxi então e vem pra casa. Enquanto isso vou começar sua mala e vou olhando o voo de onze e meia da noite pra você”.

As próximas horas foram uma corrida maluca. A passagem de avião foi comprada no meio da estrada pro aeroporto, e Bethania só embarcou graças à generosa política que a Air Canada tem para emitir passagens quando morre gente na família.

Depois de deixar a Bê no aeroporto, eu voltei para o carro e, no instante em que saí do estacionamento, dei de cara o mais incrível pôr-do-sol de verão. Um céu inacreditavelmente alaranjado reluzindo sobre a estrada. Nuvens cobrindo o horizonte em tons de cinza dignos de uma pintura de Monet.

E então me lembrei do site com os contadores, indiferente ao céu espetacular, indiferente à Bê entrando no avião para enterrar o pai. Para o contador, era simplesmente mais um – mas para nós, esse “mais um” era muito.


No sábado seguinte, passei o dia em “modo faxina”: limpei a casa inteira, cada cantinho. Lavei a roupa, troquei os lençóis. Lavei toda a louça e deixei a cozinha limpinha. A cozinha toda limpa, por sinal, é o meu “pôr do sol particular”: adoro ficar olhando pra ela, já que dura apenas alguns minutos… Por fim, comprei flores pra levar pra Bê no domingo de madrugada, pra entregar no aeroporto quando o voo dela chegar.

Depois de um belo cochilo (prioridades), fiquei na cama ouvindo ela contar dos detalhes da viagem. Da canseira que é tentar resolver qualquer coisa no meio da burocracia brasileira. De como o pessoal que ia receber os móveis doados da casa do pai dela cancelaram o carreto em cima da hora, entre outros detalhes nada divertidos da semana. No final, depois dos desabafos, ela disse que trouxe uma surpresa pra mim. Na hora achei que era, sei lá, goiabada cascão ou paçoquinha…

Eram dois testes de gravidez. Ambos positivos.


No site dos contadores tem também um com o número de nascimentos. Só este ano já nasceram oitenta milhões, novecentas e trinta e três mil, seiscentas e sessenta e sete pessoas. Setenta e oito. Setenta e nove…

No começo do ano que vem, o contador vai contar mais um. Para o contador, será só mais um. Para nós, esse “mais um” será a coisa mais importante das nossas vidas.

Como falar inglês

“Art and creativity have always been a conversation between a human being and a mystery”

Essa frase é de um podcast do TED que entrevista Elizabeth Gilbert, a autora daquele livro “Comer, Rezar, Amar”. Eu ouvi isso no carro outro dia, mas não me lembro muito mais do que era o tema da entrevista porque, conforme a autora ia falando, eu acabei me distraindo com a forma que ela discursava sobre o tema. Há muito tempo eu não ouvia um inglês tão bem estruturado, tão eloquente e elegante.

E aí você se vê lá no fundinho da curva do efeito Dunning-Kruger, mais uma vez: quando você finalmente acha que aprendeu inglês, depois de quatro anos vivendo em inglês, vê que ainda falta muito pra você aprender inglês.

Os desafios de viver numa nova língua nem são exatamente difíceis, mas você tem que lidar com as coisas mais estapafúrdias possíveis. Por exemplo, quando cheguei ao Canadá eu tinha medo de falar ao telefone. É sério. Ouvir uma língua semi-desconhecida em áudio de péssima qualidade prejudicava muito o entendimento. Também vivenciei experiências traumáticas na fila do Subway (o restaurante, não o metrô), lotado e barulhento, com o atendente gritando o nome de todos os ingredientes que eu poderia botar no meu sanduíche, e eu sem entender absolutamente nada. Mas isso passa mais ou menos nos primeiros seis meses.

Aí você já começa a se soltar no trabalho e vem o segundo desafio: entender o inglês com sotaque. Quando eu achei que tava finalmente me acostumando com o sotaque indiano e asiático, entrou um escocês no meu time. Sabe quando você finalmente derrota o chefão no videogame, mas aí ele ressuscita com duas barrinhas de energia? Pois é.

Demora, mas você finalmente chega num nível aceitável de fala e compreensão. Mas minha meta era mais ousada, o que eu queria mesmo é domínio total da língua. Conversar com alguém e ser confundido com um nativo. Conseguir ler um livro e diferenciar um bom autor de um autor mediano. Entender poesia em inglês. Não basta zerar o joguinho, eu queria abrir 100% do mapa e coletar todos os bônus e fases secretas. Mas, meu amigo… o jogo é grande. O jogo é muito grande.

É preciso:

  • Aprender o peso e a cor das palavras. Seria amazing mais maravilhoso do que awesome?
  • Aprender as expressões idiomáticas que usam conceitos de coisas que você não necessariamente conhece. Se você não entende de baseball, não vai conseguir entender a metáfora das bases para indicar o nível de intimidade sexual, por exemplo.
  • Aprender a reconhecer os detalhes de intonação que ditam o fim das falas em uma conversa. Achei que só o mandarim tinha essa palhaçada…
  • Desaprender os significados implícitos que existem no português e não existem no inglês. Uma vez um amigo me ofereceu algo e eu respondi com um thanks (que, em português, num contexto onde você não aceitou fisicamente a oferta, significa “não, obrigado”). Ele ficou lá, parado, sem saber se eu queria ou não, até desfazermos o mal entendido.

E enquanto você bate cabeça com todas essas coisas, várias interações do dia-a-dia ressaltam ainda mais o tamanho do buraco que você está tentando preencher. Por exemplo, outro dia eu me senti confiante com a língua e fui tentar entender as letras de um gênio do rap chamado MF Doom:

Try the straight pliers, if not—the vice grips
A real price-saver way to acquire nice whips
What a steal for real on wheels of steel
Stunner, a funner summer number-one meal deal-bummer

Aí tu não entende nada, vai no Genius e vê que o verso acima fala sobre roubar carros, além de conter referências às paradas musicais do rádio e também aos combos do McDonalds, e vice grips tem o duplo sentido de ser uma ferramenta e uma referência ao domínio do vício, e what a steal é usado no sentido figurado (“uma pechincha”) e literal ao mesmo tempo… e não somente as frases rimam entre si como as sílabas também. MF Doom é uma espécie de Chico Buarque gangsta.

Mas o desafio final das músicas em inglês é o dancehall jamaicano. A Jamaica tem o sotaque mais incrível do caribe, pena que é absolutamente incompreensível. Sinta a poesia de Reggie Stepper no seu clássico “Cuh Oonuh”:

Set of satellite, oonuh set of munu-cunu
Set of idiot, oonuh set of damn tukoo
Set of masquerade, oonuh set of damn Junkanoo
A wha’ oonuh a try? A wha’ oonuh a try? A wha’ oonuh a try fi do?

Demora, mas chega um dia em que alguma coisa desperta no seu cérebro e você vai falar alguma coisa complicada e a frase simplesmente rola naturalmente da sua língua e você fica “peraí, como foi que eu fiz isso?”. Essa é a beleza do subconsciente: ele tá lá no fundão da mente, inacessível, mas a insistência na atividade consciente de botar a cabeça pra funcionar em inglês acaba, pouco a pouco, reprogramando também o subconsciente. Aí acaba aquele processo manual de “pensar em português -> traduzir -> falar em inglês”, e as frases começam a já nascer anglófonas. Isso seria lindo… se não tivesse o efeito colateral de estragar o português. É quando você começa a se pegar falando coisas bizarras do tipo “preciso salvar dinheiro pra consertar o carro”, ou quando demora meses pra conseguir escrever um post em português no seu blog. Não tem jeito: pra ir pro céu, tem que morrer.

Mas é bem provável que eu já esteja a caminho do céu. Quando penso na entrevista do “Comer, Rezar, Amar”, preciso considerar também o fato de eu conseguir distinguir o quanto o inglês da autora é bom. Saber da própria ignorância é também uma forma de saber, e isso é muito positivo. E aí é que está o detalhe crucial para aprender uma língua: se você só pensar no que não sabe ou no que não consegue, aprender se torna traumático; em contrapartida, quando o desconhecido desperta uma curiosidade, que quando resolvida gera uma satisfação, aprender se torna prazeiroso – e nossos cérebros adoram um prazerzinho.

Hoje mesmo eu tive um desses. Tem um show de hip-hop/beats da NTS que eu curto bastante chamado “Tuesday Trips”. Semana passada, NahhG, o cara que produz o show, postou no Twitter que o próximo show seria no dia do seu aniversário e pediu umas mensagens de voz com parabéns pra botar entre as músicas. Como esse ano eu adotei uma política pessoal de não economizar elogios pras coisas que eu gosto, mandei a minha. Tá lá no show dessa semana, bem na marca dos 50 minutos. Quando ouvi de volta a gravação, fiquei surpreso ao ver o quanto meu inglês – gravado rapidinho no celular, entre duas reuniões de trabalho – ficou excelente. Outra agradável surpresa foi que a gravação ficou coincidentemente posicionada logo depois de uma batida com samples de um funk carioca sobre “bucetada na pistola”…

Assim sendo, seguimos aqui nesta eterna sequência de pânico e alívio linguístico, aspirando pelo dia onde vou afirmar com segurança que, sim, eu finalmente atingi o nível máximo de domínio da língua – que é facilmente definido em português por uma das minhas frases preferidas: “eu manjo das putarias”.

A saga de botar um sistema no ar

No último dia dos namorados, Bethania, espertinha, me deu de presente um par de ingressos para assistirmos um show do The Bad Plus. Detalhe: o show era, “coincidentemente”, em Nova Iorque, onde “coincidentemente” tem os shows da Broadway que ela adora assistir. Coincidências à parte, foi um presentão, já que nós dois adoramos visitar essa cidade absolutamente foda que é NY.

Só tinha um problema: a data do show, coincidentemente, era a mesma data do “go live” do projeto em que estou trabalhando no banco. É a data onde tudo que passei meses fazendo ia, finalmente, ser colocado em produção e processar 500 mil registros de financiamento imobiliário que o cliente está esperando há um tempão.

Pra piorar, aqui no banco, por questões de segurança, quem desenvolve os sistemas não pode ter acesso a eles depois que são colocados em produção, então toda atualização é feita via um método “toma que o filho é teu” onde eu mando um pedido com todas as instruções de como botar o troço no ar pra um outro cara fazer.

Pra piorar ainda mais, meu sistema depende de outros componentes que, há meses, me dão dor de cabeça. Os mais críticos são:

  • Atualizações do “Sarcófago”: um banco de dados super antigo, cujo processo de atualização é um grande mistério, passado apenas via tradição oral (ou seja, sem documentação) entre os grandes anciões (ou seja, os caras que trabalham no banco há décadas)
  • Acesso à “Nuvem Mágica”: um sistema de mensagens, super moderno, propriamente documentado e que roda na “nuvem”. O problema desse aqui não é técnico, é que meu time tinha um cara pra lidar com ela – o “Salim” – e o Salim não entende nada da Nuvem, mas no processo de fingir que sabe, me repassa informações erradas sobre como conectar com a Nuvem 100% das vezes.

Meu gerente de projeto tava sossegado e falou: “Tá tranquilo! A gente bota tudo isso aí no ar na noite anterior à da sua viagem”. Depois dessa frase eu percebi que não poderia contar com a perspicácia do meu GP pra essa história dar certo.

Pra evitar problemas com a Nuvem Mágica, eu que não sou bobo dei meus pulinhos pra achar as configurações certas com antecedência, sem depender do Salim, mas tinha uma delas que não tinha jeito: a senha de acesso à Nuvem. Por segurança, nenhum programador tem acesso às senhas dos sistemas de produção, então eu tive que pedir o Salim pra botar a senha certa pra mim num “cofrinho” de senhas que meu sistema usa na hora que vai pro ar. Vale lembrar que o Salim me passou senhas erradas 100% das vezes ao longo do desenvolvimento do projeto, então pra me garantir eu mandei um email com cópia pra meio mundo pedindo pra ele testar a senha de produção com antecedência, pra garantir que ela estava correta e que ela tinha as permissões de acesso à Nuvem Mágica, e ele respondeu que sim.

Quanto ao Sarcófago, eu também quis me antecipar e, na segunda-feira da semana da viagem/go live, fui consultar um dos anciões para saber se eu poderia mandar atualizar o Sarcófago com mais antecedência, pra minimizar a chance de dar merda. E foi aí que a merda começou, porque ele virou pra mim e disse:

“Então… as tradições dizem que o Sarcófago só pode ser atualizado no final de semana, e o comitê que aprova atualizações do Sarcófago precisa de 48 horas de antecedência”

Fui contar isso pro meu gerente de projeto e ele nem se lembrava que precisava atualizar o Sarcófago. Mas, muita discussão depois e eles finalmente concordaram em abrir uma exceção para atualizarmos o Sarcófago na noite de quarta pra quinta. O duro é que ficou tudo pro mesmo dia: Sarcófago na noite de quarta, meu sistema na manhã da quinta e, no mesmo dia, eu embarcando pra NY.

Na quarta eu deixei as malas prontas, fui dormir e, às cinco da manhã, já estava de pé pra checar a atualização do Sarcófago, que… não rolou. Confuso, entrei em contato com um dos anciões, que me disse o porquê da atualização não ter sido feita:

“Então… as tradições dizem que, ao fazer seu pedido de atualização do Sarcófago, no dia da atualização você precisa ir lá no formulário de pedido e acrescentar um comentário dizendo: ‘Por favor, prossigam com a atualização do Sarcófago’, e como você não fez isso o Sarcófago não foi atualizado”.

Eu JURO pra vocês que foi isso que me disseram.

Aí todo mundo se juntou novamente e meu chefe sugeriu botar meu sistema no ar sem Sarcófago sem nada, pra eu poder finalmente viajar. Uma ótima ideia, não fosse pelo fato de que teríamos que agendar a implantação pra depois do horário de expediente bancário, que termina às 16:30… e meu voo tava marcado pra decolar às 17:30. Aí começou a gincana: fui com o laptop aberto de casa até o aeroporto, trabalhando do trem para preparar todas as instruções pra deixarem tudo certinho pro troço ir pro ar.

Depois de muita correria – incluindo uma conference call na fila do raio X – às 16h estava eu, finalmente, sentado na sala de embarque, olhando pra tela do computador, esperando a implementação começar. Nessas horas eu dei graças a Deus de estar dando minhas corridas na academia e em boa forma cardiovascular porque, meu amigo, eu tava com o coração na boca. Se tudo funcionasse, tanto eu quanto o sistema entraríamos no ar sossegados, mas se desse pau, eu ficaria offline em algum lugar da estratosfera por quase duas horas, roendo as unhas, sem saber o que rolou.

Pontualmente às 16:31 a minha tela começa a piscar, indicando que a publicação começou. O painel de controle que mostra o status da coisa é uma das poucas coisas de tecnologia da vida real que é parecida com a dos filmes: tem uma lista de etapas e cada uma tem um farolzinho que vai ficando verde conforme elas vão concluindo…

Fazendo download do arquivo de configurações....... OK!
Gerando arquivo com credenciais de segurança....... OK!
Estabelecendo conexão com servidor................. OK!
Enviando arquivos.................................. OK!

E aí tava tudo ficando verdinho… e o coração acelerando… até chegar na última etapa:

Iniciando aplicação...

Olhei pro meu portão de embarque. Pela primeira vez na vida, eu queria que meu voo atrasasse. Depois de uma longa pausa, eis que o último farolzinho finalmente muda de cor… e fica vermelho.

Aí olhei pro portão de embarque e, para minha alegria, o horário do voo atrasou meia hora… mas como alegria de pobre dura pouco, o portão mudou pro outro lado do aeroporto. Desesperado, fui catando as malas/mochilas e, ao mesmo tempo, tentando ver o que foi que tinha dado errado na aplicação. Parecia que o problema era – adivinha só! – na senha de acesso à Nuvem Mágica. Aí fui conversar com o Salim, o colega que deveria ter colocado a senha certa no sistema pra mim:

_ Salim, deu pau na senha da Nuvem Mágica.
_ Ah tá. Você tem a senha?
_ Eu não posso saber essa senha, Salim, lembra?
_ Você tem o aplicativo pra enviar senhas encriptadas por email?
_ Não, Salim, eu não posso ver essa senha, se a auditoria pega isso vai dar problema…
_ Peraí que eu vou te mandar aqui no email normal mesmo então…
_ Não, peraí Salim…

E aí minha caixa postal apita e chega a senha. Bom, pelo menos tá registrado que eu avisei, e já que ele mandou a senha eu aproveitei pra testar e confirmar que, sim, a porra da senha tava errada.

Nisso eu já estava correndo pro outro lado do aeroporto e com o laptop aberto na mão. Aí chega um email do meu chefe, que recebeu a notificação de que o go live falhou:

_ Hey Joe, vi aqui que deu pau… não era pra você estar viajando já?
_ Tou na sala de embarque… parece que o Salim não tem a senha certa pra Nuvem Mágica.
_ Hmm… se eu te mandar isso aqui, ajuda?

E eis que meu chefe me encaminha a senha certa da Nuvem Mágica, também por email, sem criptografia sem nada. Subitamente, todas as minhas preocupações com segurança da informação e auditoria desaparecem(1).

Finalmente chegamos no portão de embarque e nem tinha fila, porque todo mundo já tava dentro do avião. Eu não sei como, mas num espaço de trinta segundos eu consegui encaminhar o email com a senha certa pro cara que estava botando o sistema no ar, fechar o laptop, pegar meu passaporte e embarcar. Mas ainda tava todo mundo em pé no corredor do avião porque não tinha lugar pras malas, e o ar condicionado tava desligado, e no assento da nossa frente tinha um casal com uma menina cujo desodorante havia vencido há pelo menos uma semana(2), e tudo que eu queria naquele momento era saber se a porra do sistema tinha ido pro ar, e eu só teria o espaço de alguns minutos pra conseguir checar antes do voo decolar.

Depois de muitos “excuse me” e “sorry” e de brincar de Lego com as malas no bagageiro eu tapei o nariz, abri o computador e eis que lá está outro email do chefe:

“Publicação concluída com sucesso. Boa viagem, Joe!”

Eu mal conseguia acreditar. A bagaça estava no ar. O meu trabalho dos últimos três meses finalmente nasceu e viu a luz do dia.

A primeira parte da saga estava concluída. Ainda faltava a atualização do Sarcófago, mas eu estava mais tranquilo porque botaram um dos anciões pra tomar conta dela, e da minha parte era só mandar reiniciar meu sistema pra ele se reconectar com o Sarcófago e capturar as novas atualizações. Moleza, certo?

A saga de botar um sistema no ar – PARTE 2

Ah, Nova Iorque. Como é bom estar rodeado de turistas o tempo todo e ouvir uma buzina a cada 30 segundos.

Passamos o dia curtindo a cidade, relativamente despreocupados. A única coisa pendente de trabalho pra mim seria conferir, à uma da manhã, se reiniciaram meu sistema pra ele pegar as atualizações do Sarcófago. No fim do dia fomos ver um show da Broadway e chegamos tarde no hotel, aí nem fui dormir e fiquei fazendo hora até dar o horário.

Pontualmente à uma da manhã lá estava eu, olhando para os faroizinhos que deveriam piscar indicando que meu sistema estava sendo reiniciado. E os faroizinhos, dessa vez, não ficaram vermelhos. Na verdade, eles nem mudaram de cor, o que indicava que nada estava acontecendo. Pra piorar, o cara que iria reiniciar o sistema (chamado “Ted”) nem online estava.

Chamei um dos anciões, que também estava acordado, terminando a atualização do Sarcófago:

“Cara, cadê o Ted?”
“Pois é… vamos esperar um pouco”

Meia hora depois e nada do Ted. E ninguém tinha o telefone do Ted. Tínhamos o do chefe do Ted, mas ele não atendeu. Aí, para minha vergonha, ligamos pro coitado do meu chefe, que também não tinha o telefone do Ted. A coisa entrou num nível tão Trapalhões que saímos fuçando a intranet e abrindo planos de implementação de sistemas antigos pra ver se, em algum deles, constava o telefone do Ted. Obviamente não deu certo e, lá pelas três da manhã, meu chefe mandou todo mundo voltar a dormir e tentar de novo às sete da manhã.

Óbvio que não consegui dormir.

Só lá pelas oito da manhã alguém finalmente achou o Ted, que finalmente reiniciou o meu sistema, que finalmente pegou as atualizações do Sarcófago.

Finalmente eu poderia tomar um banho e sair para morrer de sono nas ruas de aproveitar Nova Iorque. O resto do time ia continuar online, e iniciar o processamento dos 500 mil registros que iriam para a Nuvem Mágica. Enquanto eu tirava meu pijama o pessoal mandou o primeiro registro, só pra testar, e então…

A saga de botar um sistema no ar – PARTE 3

Eu considero que a minha melhor qualidade como engenheiro de software é que eu sou pessimista. Em tecnologia não existe o “vamos torcer pra dar certo”: o bom engenheiro parte do pressuposto que vai dar merda e então medita profundamente sobre a merda: seus possíveis formatos, locais e formas de atuação. Aí, o bom engenheiro desenha sua solução centralizada na merda, com todos os recursos para evitá-la quando possível ou, se ela é inevitável, para fazê-la feder menos quando acontece. E quando o trabalho de conhecer e mitigar a merda está concluído e os engenheiros júniores estão orgulhosos da resiliência do seu trabalho, o engenheiro sênior ainda está preocupado, então ele vai lá e executa o último e importante passo de deixar prontos todos os recursos para identificar, facilmente e rapidamente, as futuras merdas que ele sabe que não pode prever.

Foi por isso que, mesmo sem dormir, seminu, em outro país e usando internet de hotel, demorei apenas trinta segundos para identificar o que havia de errado quando o povo do projeto saiu gritando que o registro que mandaram não apareceu na Nuvem Mágica. É que agora tínhamos a senha certa da Nuvem Mágica, mas não tínhamos as permissões para enviar informações para ela.

Lembra que, na semana anterior, eu tinha mandado um email pro Salim pedindo, explicitamente, pra ele testar a senha e as permissões de acesso à Nuvem Mágica, e ele disse que tava tudo OK? Pois é, não estava. E agora lá estava eu, lidando com a merda do Salim.

Aí pulou todo mundo junto numa conference call pra ver o que tinha acontecido. Salim continuava insistindo que havia pedido pra liberarem as permissões pro nosso usuário, até que um outro programador menciona que estava copiado no email do pedido e que alguém havia digitado errado o nome do servidor da Nuvem Mágica: botaram o servidor de desenvolvimento, ao invés do de produção.

Mas Salim é o pior tipo de idiota, que é o idiota mal intencionado (também conhecido como filho da puta). Então ele, magicamente, começa a botar a culpa do erro na equipe que toma conta da Nuvem Mágica. Pra piorar, demorou quase uma hora e meia pra conseguir entrar em contato com a pessoa do time da Nuvem Mágica que estava de plantão, o que deu ainda mais munição pro Salim. E eu lá, pendurado no telefone, esperando alguém consertar as permissões.

Bethania foi bastante compreensiva, saiu do hotel pra comprar o nosso café da manhã e também pra entrar na fila da TKTS pra comprar ingressos da Broadway(3). E eu entrei no banho e deixei o telefone no viva-voz, pra ouvir o povo batendo cabeça na conference call, e o Salim botando a culpa no time da Nuvem Mágica pela cagada dele mesmo, e vendo a verdade do que aconteceu se perdendo na confusão. Lá pelo meio-dia meu saco, finalmente, encheu. Peguei o telefone e falei:

“OK gente, eu já mandei pra vocês o usuário e as configurações que eu tenho e vocês confirmaram que está tudo certo. Eu estou em Nova Iorque e tenho aqui comigo uma esposa brava e ingressos para um show da Broadway daqui a uma hora. Não tem nada mais que eu possa fazer do meu lado. Qualquer coisa me liguem.”

A parte da “esposa brava” foi só para impacto emocional mesmo, já que Bethania, como sempre, foi super parceira durante todo o ocorrido. Já a parte do show ela fez questão que fosse verdade :), então pegamos o metrô e fomos pra Broadway.

Como bom engenheiro que sou, todos os meus recursos de monitoramento de merda estavam disponíveis também no meu celular, então no intervalo do show abri o link de monitoramento do meu sistema e – surpresa! – tinha um registro enviado com sucesso para a Nuvem Mágica. Alguém finalmente consertou as permissões.

Mandei uma mensagem pro meu gerente de projeto:

“Hey, tou vendo aqui que a Nuvem Mágica voltou a funcionar. Vocês vão rodar os 500 mil registros agora né?”
“Então… agora tem um outro problema em outro sistema, o que lê os registros da Nuvem Mágica, e esse não tem como solucionar agora, então vamos abortar tudo e fazer o processamento só na semana que vem”.

A correria na sala de embarque, a noite não dormida e as seis horas de conference call na manhã do Sábado serviram, portanto, para absolutamente nada. Mas o que realmente importa é que eu estava numa das cidades mais incríveis do mundo com a mulher que eu amo, então me desapeguei rapidinho do fiasco da história toda e fui, finalmente, aproveitar meu final de semana. E tomar mais um café, pra conseguir me manter acordado na cidade que nunca dorme…

Epílogo

Alguns dias depois dessa história toda, eis que eu recebo um email da chefe do Salim…

Oi pessoal. Informo que estou nomeando o Salim para o prêmio de performance deste semestre.

Oi?

A sua contribuição para o [nome do meu projeto] foi incrível, onde ele demonstrou sua habilidade e conhecimento da Nuvem Mágica. Ele colaborou com vários times, como o [nome do meu time e o outro time que também não conseguiu usar a Nuvem Mágica] para assegurar a conectividade dos sistemas de ponta a ponta. Ele verdadeiramente merece o prêmio do trimestre.

E então cumpriu-se a profecia que ouvi de um gerente de projetos, dez anos atrás, num projeto de consultoria no interior do Mato Grosso, que disse:

“Quem faz muito, erra muito. Quem faz pouco, erra pouco. Quem erra pouco… é promovido”

UPDATE

Durante uma das inúmeras conferências que fizemos durante o deploy, o gerente de projetos pediu desculpas por tomar o nosso tempo de viagem e perguntou qual o vinho preferido de Bethania. “Ela gosta dos pinots da Califórnia”, respondi, achando que ele estava me dando uma sugestão de como eu poderia amenizar o incômodo dela…

Outro dia, cheguei no trabalho e, na minha mesa, havia um belo pinot noir do vale de Sonoma, ingressos de cinema, e um cartão assinado pelo time todo agradecendo a minha dedicação ao longo do final de semana 🙂

Notas

(1) – Isso me lembrou um outro episódio aqui do banco onde um gerente de projeto queria que eu fizesse uma coisa num sistema. Quando mencionei que não tinha acesso, ele respondeu: “não tem problema, faz com o meu usuário”, e me enviou, por email, sem criptografia sem nada, a senha do seu usuário pessoal. Com isso eu conseguiria acessar não apenas o sistema que ele queria, como também todos os sistemas de produção que ele acessa, e ainda todos os seus emails, o seu salário, os seus arquivos da rede, os seus nudes, etc.

(2) – Já é a segunda vez que isso acontece quando voamos para Nova Iorque. Pelo visto o custo de vida por lá anda tão alto que falta dinheiro pra desodorante.

(3) – A Bê, que tem praticamente doutorado em musicais da Broadway, me ensinou que tem dois jeitos de ver shows pagando muito menos do que o preço cheio dos tickets.
O primeiro e mais fácil deles é comprar na TKTS, que fica debaixo daquela arquibancada vermelha na Times Square. Tem também outra TKTS no Financial District, bem no sul de Manhattan. Vale a pena chegar próximo da hora que abre, porque obviamente dá fila. Veja os endereços e horários online. A disponibilidade é limitada, mas você consegue descontos de 20% a 50%.
O segundo jeito é comprando os chamados rush tickets, que são meio que uma “sobra” de ingressos que o teatro não vendeu por algum motivo e que são colocados à venda só no dia do espetáculo a preços muito reduzidos. Mas dá trabalho comprar: você precisa ir à bilheteria do teatro com antecedência, perguntar se eles tem rush tickets e que horas a venda começa, e aí chegar lá no mínimo uma hora antes pra ficar na fila. Não tem como escolher lugar e pode ser que não tenha ingressos suficientes pra quem está na fila, mas se tudo dá certo você compra com tipo 70% de desconto, então vale a pena.

Sobre espaço-tempo, buracos negros e visitas ao Brasil

Às onze da manhã do dia 22 de dezembro o avião finalmente tocou o solo do aeroporto de Guarulhos. Catei malas e mochilas e, no instante em que passei da porta do avião pra fora, sou recebido por aquela onda quente e úmida de trinta graus de calor paulistano. Meu corpo se retraiu todo. Olhei pro lado e Bethania estava suspirando, emocionada: “Ahhh que delícia!”.

Depois de quatro anos, eu estava de volta ao Brasil.

Quando expliquei aqui as razões que me fizeram abandonar o país, uma delas era a falta de afinidade com as coisas locais – incluindo o calor. Assim, meus trinta primeiros segundos de volta correram exatamente como eu esperava. Já o resto foi uma montanha-russa de coisas que ainda não sei bem definir direito.

Quando decidi me mudar foi bem fácil enumerar os motivos pelos quais eu achava que aquilo era a melhor coisa a se fazer. Voltar ao Brasil deixou bem claro o quanto essa reflexão havia sido incompleta. Começando pela minha premissa de que “você não é onde você mora”, ou de que eu estaria começando uma vida nova em outro lugar, ou – e principalmente – de que é preciso olhar pra frente e deixar pra trás o que passou. Eu analisei bastante o espaço, mas me esqueci completamente do tempo e de como ele espalha quem eu sou ao longo de quarenta anos. Eu sou o menino que cresceu em Belo Horizonte, o jovem que amadureceu em São Paulo, e hoje o adulto que vive no Canadá, todos ao mesmo tempo, irrevogavelmente unidos e coexistindo nessa dobrinha pessoal de espaço-tempo chamada eu.

Nos meus quatro anos de Canadá eu ignorei completamente – e intencionalmente – esse passado, achando que era assim que se adapta a uma nova realidade. Aí a gente foi comer um pão de queijo em Guarulhos e eu me peguei nostálgico ao ouvir a mocinha do caixa perguntar se eu queria “CPF na nota” (nem lembrava mais que havia isso). Cada coisa – das mais simples – que eu via ou ouvia ressuscitava anos de memórias esquecidas nos porões da minha cabeça. Andar pelo embarque de Guarulhos e voltar de Confins pela Linha Verde me lembrava os inúmeros voos da minha época de consultoria. As ruas de Beagá, então, eram prateleiras inteiras de incontáveis pedaços meus, todos voltando a cada esquina, a cada ladeira, a cada prédio onde um dia estive, ou até mesmo os que hoje deram lugar à farmácia ou supermercado. Por exemplo: a Igreja São José, no centro, não era só a igreja – era aquele domingo onde saí do meu plantão de suporte no provedor de internet onde estagiava e fui encontrar com a minha nova namorada, que foi acompanhar a avó na missa. Eu achava que era impossível se sentir em casa onde você não mora mais. Que bom que me enganei.


A programação da viagem era basicamente passar tempo com a família no Natal, mas havia uma coisa que eu decidi que queria fazer: visitar o túmulo da minha mãe.

Eu acho que nunca mencionei minha mãe aqui no blog. Ela tinha um personalidade enorme, um sorriso fácil e um amor infinito pelos filhos. Em 1993 ela foi diagnosticada com câncer de mama, e morreu cinco anos depois. Como a família na época era toda espírita, a crença é de que a morte não existe, e então não se falou muito mais sobre isso. Foi mais ou menos nesse período que eu comecei a enterrar minhas memórias. Mas, felizmente, quando você enterra coisas férteis elas acabam brotando novamente.

Voltar ao cemitério, mesmo décadas depois, foi trazendo o dia do enterro todo de volta. O lugar do velório estava lá, do mesmo jeito. Eu me lembrei dos parentes chegando, das flores, até do que minha mãe vestia (uma camiseta do Menino Maluquinho – a pedido dela) quando foi sepultada, mas quando penso no que eu sentia, a resposta é… nada. O mesmo “nada” que senti quando desliguei o telefone no dia anterior, quando meu pai ligou do hospital, para contar que ela havia morrido. Quando ouvi a notícia eu fiquei sem reação por alguns segundos, com a cabeça sobrecarregada, e então alguma coisa se arrebentou dentro de mim, e sobrou apenas o nada. Um buraco negro no meu espaço-tempo pessoal. Um nada tão grande que eu nunca chorei a morte dela, até hoje.

Essa volta ao Brasil me despertou incontáveis memórias em praticamente todos os lugares onde estive. Mas quando me vi novamente de pé, sobre o túmulo dela, na semana passada, eu não senti… nada.

Bom, parece que este pedaço meu eu vou ter que resgatar de outro lugar.


Na quinta de manhã o meu voo de volta finalmente pousou em Toronto. No instante em que pisei fora do avião, fui recebido pela brisa seca de Dezembro em seus zero graus. Fechei os olhos, respirei fundo, e disse baixinho para mim mesmo, sorrindo, enquanto expirava:

“hell yeah”.

Retrospectiva 2018

O que dizer desse ano que mal passou e já considero pacas?

Posso começar dizendo que esse ano viajamos bastante. Além do Japão, passamos uma semana no México, para fugir do inverno. Fomos naquele esquema de resort com tudo incluído e, três dias de resort depois, concluímos que esse não é o nosso esquema, alugamos um carro e saímos passeando por conta própria. É assustador o quanto o México não-turístico é idêntico ao Brasil – enquanto eu dirigia na estrada para Playa Del Carmen eu podia jurar que estava no Recife, na BR 101.

Uma das coisas que tentamos fazer foi ir à Cozumel, mas o destino não deixou. Eu cheguei a comprar a passagem da balsa pra ir pra lá e, na véspera, enquanto googlava um pouco das notícias locais, vi uma delas contando de quando a balsa explodiu… “que coisa, deixa eu ver quando foi isso”, pensei, achando que se tratava de uma notícia antiga. Aí vi que a matéria era do mesmo dia…

Depois de remarcarmos a passagem (em outra balsa, naturalmente), finalmente embarcamos pra ilha e, na hora de desembarcar, a minha ressaca mais desidratação bateu de repente e eu simplesmente desmaiei. Bethania, coitada, quase surtou. Tudo que vimos de Cozumel foi o porto, enquanto eu me recuperava pra voltarmos. Agora, vou ter que aguentar a gozação da Bê toda vez que entramos num barco: “tá tudo bem aí né? não vai desmaiar dessa vez?”.

Além de visitar os good hombres da América Central, fizemos um bocado de passeios de carro – vários em Ontário mesmo, e também um feriadão onde dirigimos 800km até Chicago, que é absolutamente incrível. A viagem foi toda errada: teve bate-boca com a locadora do carro, teve o fato de que estava tendo a famosíssima Maratona de Chicago quando chegamos lá (e não sabíamos) e tava tudo interditado, teve chuva, era pra ter sido um saco e foi fantástico.

O aniversário da Bê este ano foi no lugar predileto dela: Nova Iorque. Essa deve ter sido a nossa quinta vez em NYC e ainda tem tanta coisa pra fazer por lá que vamos voltar muitas outras vezes ainda.

E, pra fechar o ano, estou prestes a fazer uma coisa que eu não faço há quatro anos: visitar o Brasil. Sendo bem sincero, eu não tenho a menor vontade de ir ao Brasil. O principal motivo que me faria voltar – matar saudade das pessoas – nem conta, já que, felizmente, família e amigos vem nos visitar frequentemente. Outro dia eu fiz a conta e, em média, tínhamos visitantes aqui em casa de três em três meses. Só estamos indo dessa vez por motivos familiares mesmo, e eu ainda estou sem saber como vou me sentir por lá. Por todos os motivos que já detalhei exaustivamente por aqui, ir pro Brasil me parece algo como visitar uma ex-namorada.


Se você se incomodou com esse último parágrafo, eu entendo. Eu me mudei há quatro anos, e a cada ano que passa eu continuo saindo mais e mais do país. A internet permite que eu continue tendo contato com todo mundo que ficou, e o que parece uma bênção tem se transformado lentamente, dolorosamente, em uma eterna despedida de aeroporto. Cada whatsapp onde você vê que não está mais ali é mais um aceno de alguém querido, vendo você entrar na fila do embarque. As eleições só pioraram as despedidas. Mas é natural, é a vida no Brasil se ajeitando sem sua presença. E o mundo gira indiferente à tudo que é especial pra você.

Uma das coisas que nenhum post de blog, nenhum guia de imigração, nenhum livro sobre multiculturalismo me ensinou foi que ser um imigrante significa não pertencer, de fato, a lugar nenhum. No trabalho tem um grupinho fechado no Slack (o programa de mensagens que a gente usa) onde o pessoal combina a cervejinha de quinta-feira. A esmagadora maioria dos nossos grupos sociais aqui no Canadá são outros brasileiros imigrantes, mas esse do trabalho é diferente porque a maioria é nascida e criada por aqui, então o happy hour de quinta é uma oportunidade especial de conviver com o “Canadense da gema” em seu habitat natural. Por mais que eu tenha me integrado bem nesse ambiente, tem sempre aquele momento da noite onde o assunto baldeia para alguma coisa que só os nativos entendem e você bóia na conversa porque não passou a adolescência ouvindo Tragically Hip (a “Legião Urbana” local), ou você não passou pela famosa tempestade de gelo de 2012 onde Toronto inteira ficou sem luz elétrica por dias, ou algo assim.

É o preço que se paga.


Já que o post entrou nas vibes pesadas, falemos da depressão que eu comentei aqui anteriormente. Felizmente, tudo continua sob controle, mas eu continuo estudando minuciosamente a minha própria cabeça pra entender o que influencia o problema. Um fator que tem se mostrado cada vez mais crucial é a meditação, que ganhou até um post só pra ela. No meu caso, ela é incrivelmente efetiva. Até me dei de presente de natal o livro “The Mind Illuminated” (“A Mente Iluminada”, ainda sem tradução para o português), que é escrito por um PhD em neurosciência (!!) que se aposentou da academia e hoje é, digamos, um “monge budista faixa-preta”. Esse approach científico do assunto me pareceu bem interessante: segundo ele, há uma forte correlação entre os estados mentais descritos pela bioquímica cerebral e os estados mentais descritos pelos adeptos da meditação. Mas não acredite nele; melhor seguir um conselho do próprio Buda:

Não acredite cegamente no que digo. Não creia porque outros convenceram você. Não acredite em nada que vê, lê ou ouve de outras pessoas – sejam elas autoridades, religiosos, ou seus textos. Não dependa somente da lógica, ou da especulação. Não julgue pelas aparências, nem seja enganado por elas. Não abra mão da sua autoridade e siga a vontade dos outros às cegas. Isto leva apenas à desilusão. Descubra por sua conta o que é a verdade, o que é real.

Retrospectivas anteriores:

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O Primo no Japão

Eu não lembro quem sugeriu primeiro, mas o Japão sempre foi um lugar que eu e Bethania queríamos conhecer. A ideia, porém, ficou sempre no fundo da lista de prioridades porque a gente sempre achava que era longe, era caro, tem a barreira da língua, etc etc.

Aí uns amigos nossos foram e adoraram e não tiveram problema nenhum. Aí descobrimos que, daqui do Canadá, um voo pro Brasil demora o mesmo tanto que um voo pro Japão – e que a passagem costuma sair até mais barata. Aí, graças ao fato de Toronto estar cara pra caramba e o Japão estar meio que em recessão, descobrimos que o custo de vida anda mais ou menos o mesmo nos dois lugares. Aí, a Bê tava com férias pra vencer, e a gente foi numa feirinha de cultura japonesa e tinha um stand da Air Canada com um cupom de desconto pra um voo direto de Toronto pra Tóquio… e foi por Tóquio que nossa viagem começou.

A palavra que melhor define Tóquio é… muito. Muito grande. Muito complexa. Muito cheia. Muito limpa. Muito espetacular. Maior do que tudo que já vi nos meus 40 anos, em vários aspectos. Eu achei que, depois de meses planejando essa viagem, eu conseguiria lidar tranquilamente com tamanha envergadura, mas logo na chegada a gente ficou perdido no metrô por duas horas até conseguir chegar no hotel, simplesmente pelo fato de que o sistema de trem/metrô de Tóquio é grande demais. Mas, passado o susto inicial, o resto da viagem correu sem problemas.

Por sinal, internet no celular é indispensável no Japão. Google Tradutor salvou a nossa vida inúmeras vezes. E é muito prático simplesmente apontar a câmera do telefone pras coisas e ter uma tradução (meio que ainda ‘tabajara’) na mesma hora.

Além disso, o Google Maps mostra até o número identificador das entradas e saídas do metrô, o que é bastante prático, especialmente em lugares como Shinjuku, a estação mais movimentada do mundo, com 3.5 milhões de passageiros por dia e nada menos do que duzentas saídas. Minha maior vitória pessoal dessa viagem foi o dia em que não me perdi em Shinjuku.

Outra coisa que Tóquio – e o Japão – tem muito é boa comida. Parece bobagem, mas isso foi, de longe, o maior destaque da viagem pra mim. Eu arrisco dizer que o segredo do sucesso japonês não é a tecnologia, nem a tradição milenar, nem a ética de trabalho, nem a disciplina… é a comida. Porque, com o perdão da palavra, putaquepariu como se come bem naquela porra.

Tivemos dezenas de refeições memoráveis, incluindo:

O tonkatsu secreto

a restaurant entranceEsse fica em Tóquio, e é uma birosca onde cabem só 10 pessoas… mas que está no famoso guia Michelin, ainda que na categoria mais básica. Mas pra comer lá é meio complicado, porque você tem que:

  • Achar o local (tem só uma placa minúscula, apontando pra uma escada que vai em direção a um porão em um beco).
  • Achar a menina que toma conta da fila
  • Deixar com ela uns 10 dólares de depósito pelo seu lugar na fila
  • Tirar uma foto de um pedaço de papel com o seu nome e o horário da entrada na fila
  • Ir dar um passeio e voltar no horário que ela falar pra você voltar
  • Ao retornar, no horário combinado, você tem que mostrar a foto do papel que tirou antes, para confirmar que a reserva do lugar na fila é mesmo sua
  • Já na fila, você deve ver o menu e fazer o seu pedido antes mesmo de entrar no restaurante. Ah, e não tem menu em inglês – se vire com o Google Tradutor, e rápido porque tem mais gente pra pedir.

Quando finalmente você se senta e, logo logo, chega essa maravilha aí embaixo.

Pra quem não conhece, o tonkatsu é carne de porco frita e empanada, servida com arroz e uns acompanhamentos. Eu nunca vou me esquecer da primeira mordida que dei nesse tonkatsu: o jeito que a crocância perfeita, delicadamente temperada, vai se misturando à suculência da carne imaculadamente, perfeitamente cozida, conforme você vai mordendo seu pedaço… é de chorar. É de arruinar qualquer esperança de que um dia eu me torne vegetariano.

O “BO-LI-NHO”

Escrito assim porque você tem que dizer devagar, saboreando cada sílaba. Esse foi totalmente por acidente, fomos ver a estátua do Godzilla em Ginza, tava na hora do almoço, e enquanto ponderávamos onde almoçar eu vi uma fila enorme em frente a um restaurante. Fui investigar e dei uma desanimada, porque era um restaurante de rede, de Hong Kong, mas quando estávamos prestes a sair, notei que o rodapé do menu dizia: “Premiado com 1 estrela Michelin desde 2010”.

Depois de uma hora de fila, pedimos um monte de coisas, todas deliciosas, dentre elas os famosos pork dumplings – que ganharam o nome de “bo-li-nho” desde então. Essa disgrama é uma obra de arte: massa levemente crocante e amanteigada, e um recheio agridoce de carne macia. Bethania ficou absolutamente viciada, tanto que voltamos no dia seguinte pra comer de novo e, pedimos umas três porções do bendito bolinho.

O ramen com o melhor custo benefício do mundo

 

Esse foi o da maior fila que pegamos: uma hora e meia pra sentar e comer. Além do lugar ser minúsculo, ele é super badalado porque foi um dos primeiros restaurantes de ramen do mundo a ganhar uma estrela Michelin.

O macarrão é fresquíssimo, feito no próprio lugar, diariamente, e os ingredientes da sopa vem moídos/fatiados pra se misturar bem, e logo você percebe o porquê: tudo combina incrivelmente bem. A gordura do porco, o crocante do amendoim, a pimenta, as fibras da cebolinha, é um casamento perfeito de intensidade e sabor. Foi, de longe, o melhor ramen que já comi na vida.

Aí vem a conta e você vê que isso tudo aí custou inacreditáveis dez dólares

Os izakayas proibidões

Bom, “proibidão” é um tanto quanto exagerado, mas eles com certeza não eram lugares pra turistas que não falam japonês. Pra quem não sabe, o izakaya é um misto de bar com restaurante cujo menu de comida pode ser descrito como “coisas pra ir beliscando com o seu álcool”.

Um deles era em Kyoto, numa região chamada “pontocho”, que na verdade é um beco com restaurantes por todos os lados. A referência do lugar veio – adivinha! – do guia Michelin, e o Google Maps mandou a gente pro beco, e nenhum dos restaurantes do beco tinha placas em inglês. Aí fomos aprofundando a pesquisa e a treta foi complicando: só tinha uma foto da fachada mostrando uma lanterna de papel, sem nada em inglês, e não tinha nada parecido ali no beco. Depois de muita andança em círculos, descobrimos que tem “sub-becos” dentro do beco, e então eu comecei a explorar os sub-becos e comparar os caracteres em japonês das placas com o nome do lugar em japonês. Depois de muita procura, reparei que uma lanterna de papel tinha umas coisas em japonês que batiam com o nome do lugar. Bingo!

Mas essa foi a parte fácil. Ninguém no restaurante falava inglês, e era impossível usar o Google Tradutor no menu porque ele era escrito a mão… então, peguei o telefone e traduzi para o japonês a frase: “Alguma sugestão?”. Basicamente, conversamos via tradutor do telefone e comemos o que eles recomendaram pra gente – incluindo coisas que eu nem sei o que era – e tava tudo espetacular.

Tivemos ainda muuuuitas outras histórias de comida: teve o okonomiyaki em Hiroshima, nos fundos de uma casa da vizinhança, teve o jantar kaiseki que dura três horas e tem dezoito pratos diferentes, teve o kuro tamago, um ovo cozido no vapor das águas vulcânicas de Hakone e que, teoricamente, lhe dá sete anos a mais de expectativa de vida… mas se deixar esse post vai ser só sobre comida, então melhor mudar o assunto.

A gente fez a maior parte das coisas programação turística normal – ir nos milhões de templos, no cruzamento famoso de Shibuya, nas lojas nerd de Akihabara, nas ruínas do prédio destruído pela bomba de Hirosima que é conservado até hoje, etc., mas foi bem legal experimentar coisas que não são muito comuns nos guias de viagem, como:

  • O museu da Toyota em Nagoya: mas não se engane, não tem nada a ver com os carros. Tanto eu quanto Bethania somos nerds de processo industrial, e a Toyota é tão referência nisso que a metodologia usada nas fábricas deles é referência mundial na indústria. E o museu é totalmente centrado nisso – ele começa contando o passado da Toyota na indústria têxtil (pois é, eu também não sabia) e de como isso influenciou a tecnologia de produção de hoje. E o museu tem um monte de coisas legais, como demonstrações ao vivo de forja de alumínio, ou robôs de solda industrial que você mesmo pode acionar e ver trabalhando.
  • Shinjuku Golden Gai: eu nem deveria estar falando desse lugar, que é tão foda que deveria ser mantido em segredo pra não ser invadido pelos turistas que vão pra olimpíada em 2020. O golden gai fica em Tóquio, e é um emaranhado de becos minúsculos tomados por nada menos do que duzentos e cinquenta bares. Bares do tamanho de um banheiro. Bares onde a área de se sentar é um beliche em cima do barman. Bares cujo tema é Twin Peaks, ou death metal, ou filmes B de terror, ou a Paris de 1950. É a coisa mais incrível de vida noturna que já vi na vida.
  • O pachinko: a explicação simples do pachinko é que é o cassino japonês – inclusive com todo um esquema secreto pra embolsar os ganhos, já que jogos de azar são ilegais no Japão. Mas o que me deixou fascinado sobre o pachinko é o ambiente – centenas de caça-níqueis bipando descontroladamente no último volume em um lugar fechado onde todo mundo fuma. A gente entrou no lugar e eu mal consegui aguentar a completa overdose auditiva/olfativa por trinta segundos. É de estragar o cérebro. Honestamente, não sei como as pessoas conseguem passar horas jogando ali.
  • Os hostshostesses: durante um tour de restaurantes de Tóquio (olhaí a comida de novo), o nosso guia detalhou um pouco desse aspecto bizarro da vida japonesa. Funciona assim: você sai com os caras do trabalho e vai num host bar, onde tem uma menina – a hostess – cujo trabalho é dar atenção à você: ela serve suas bebidas, ri das suas piadas, escuta suas conversas… basicamente, te faz companhia como se fosse sua namorada e estivesse super interessada em você. Não tem sexo, tem só o interesse, o lado emocional do relacionamento, só a companhia. E frequentemente elas exploram esse aspecto pra ganhar presentes dos cabras desavisados, que acham que aquela atração toda é de verdade e que ela se apaixonou por você. É inclusive comum ver gente pagando por essa “namorada de mentirinha” pra fazer coisas comuns, do tipo sair pra jantar.

Essa viagem foi grande demais pra descrever em apenas um post. Felizmente, eu levei uma câmera pra filmar o que vimos e fizemos… então, pra fechar essa história, toma aí mais quinze minutos de Japão.

Quarenta anos

Esta semana eu completei 40 anos, então vai ter textão. Venha rir e se emocionar.

Eu comecei esse blog como esse moleque de vinte e poucos anos aí embaixo.

Eu era recém-saído da faculdade de Computação, ainda vivendo em Belo Horizonte. A internet era tão pequena quanto uma cidade do interior – meu terceiro post aqui era o Interney (Edney Souza, hoje um monstro do marketing digital brasileiro) adicionando um link pro meu blog em seu site.

Hoje eu passei o dia trabalhando num laptop trinta vezes mais poderoso do que o meu desktop da época. Este post, inclusive, é escrito a milhares de quilômetros do Brasil, na prosaica cidadezinha suburbana de Ajax, em Ontario, no Canadá – país que eu escolhi para viver e onde, finalmente, me sinto em casa.

A minha vida mudou total e completamente desde então. Felizmente, a aparência continua mais ou menos a mesma – com o cabelo melhor, eu diria. Fica aí um agradecimento especial aos meus pais pelos bons genes que fizeram o povo da loja de bebidas pedir a minha identidade até os 39 anos.

A foto acima é recente, de maio de 2018, em Nova Iorque, onde fomos comemorar o aniversário da Bê. Vinte anos antes eu conhecia NY só das revistinhas do Homem-Aranha. Hoje eu tenho um cartãozinho da MTA (o “bilhete único” novaiorquino) permanentemente na carteira, e a sala de tevê aqui de casa é lotada de pôsteres de musicais da broadway que a Bê assistiu. Nesses anos todos o meu mundo se expandiu enormemente.

Mas estou tergiversando muito. O que eu realmente quero dizer com essa história do tempo passando é que eu vou morrer.

Sobre olhar a mortalidade no olho

O lado bom de estar mais velho é que agora é adequado parafrasear Nietzsche para dizer que, quando você olha a mortalidade no olho, ela olha de volta pra você.

Não, eu não estou com nenhuma doença terminal. A minha saúde física está, inclusive, excelente: eu durmo bem, como (razoavelmente) bem, corro 5km três vezes por semana e tal. Mas fazer 40 anos é um marco de vida, e apesar do fato de que estou, literalmente, na melhor situação que já estive, a única coisa que consigo pensar é que, daqui pra frente, é morro abaixo, pois já vivi 50% da minha expectativa de vida.

Com os quarenta no horizonte, o meu eu pessimista já esperava ter que lidar com algum problema crônico, tipo colesterol, joelho ruim, talvez até os “países baixos” se rebelando na hora do vamo ver. Naturalmente, não foi nada do que eu esperava.

Tudo começou na primavera. Uma das consequências do inverno no hemisfério norte é o chamado “transtorno afetivo sazonal”, que deixa as pessoas deprimidas por conta do frio e da falta de luz. Convenientemente, a sigla em inglês pra essa doença é “SAD” (triste), o que descreve bem como eu estava quando as neves de março fecharam o invernão. No passado eu ficava só mais preguiçoso que o normal e segurava a onda tomando um suplemento de vitamina D, mas esse ano as coisas… não estavam exatamente fáceis. A rotina não mudou, eu continuava acordando, indo trabalhar e tudo o mais, mas praticamente no automático, simplesmente pra cumprir tabela. Era como se você fosse ao seu restaurante preferido, pedisse o prato que mais gosta, e a comida viesse sem sal, sem tempero.

O frio passou, os gansos voltaram todos grávidos da sua temporada na Flórida e, com o verão chegando, eu achei que o calor e os dias mais longos iriam resolver de vez a história. Afinal, não tinha por que eu me sentir tão mal com a vida, não é? Afinal, eu estou morando no país que sempre quis, numa casa incrível, na carreira onde eu mando bem, com um ótimo salário, com várias outras ofertas de emprego chegando no LinkedIn, a melhor esposa da galáxia, um cão e um gato me amando incondicionalmente, tudo perfeitamente alinhado… então por que diabos eu não sinto vontade de fazer nada? Por que a vida anda tão sem gosto?

Aí o dia-a-dia começou a ser afetado. Conseguir me concentrar no trabalho por mais de cinco minutos ficou impossível. Minha libido foi sumindo de mansinho até sumir de todo. Aí na sexta-feira eu comprava umas cervejas pra poder ir tomando ao longo do final de semana e elas não duravam nem até o sábado. Ou isso ou eu comprava um saco de jujubas pra deixar na mesa do trabalho e acabava comendo meio quilo (literal) de açúcar numa tarde.

Com a idade avançando, eu tava esperando ter que lidar com mazelas físicas – e acabei sendo pego de surpresa com a saúde mental. Pois é. Tem todo um estigma pra falar disso. O cursor do editor parou algumas dezenas de vezes nos parágrafos anteriores até eu conseguir chegar até aqui. Coincidentemente, meu aniversário caiu no Dia Mundial da Saúde Mental, aí resolvi aproveitar a chance pra falar do assunto sem fazer muito rodeio.

Felizmente, o meu caso parece ter sido bem inicial e não chegou ao ponto de afetar drasticamente a minha vida – tipo eu ter que parar de trabalhar, ou precisar de remédios, ou chegar no nível bem mais sério de pensar em se matar. Por sinal, esse ponto do suicídio é algo assustadoramente comum: quando comentei com o meu médico daqui sobre o que eu estava sentindo, essa foi a primeira pergunta que ele fez – depois de contar que mais da metade dos pacientes dele andam se queixando de problemas semelhantes. Semana passada mesmo, no bar com os caras do trabalho, um deles acabou deixando escapar pra mim que, depois de passar por um divórcio no começo do ano, ficou pensando em acabar com a vida. Ano passado um conhecido do Twitter tentou se enforcar, mas felizmente sobreviveu.

Como o meu “bode” não afetou minha cabeça racional, eu concluí rapidinho que havia um bom risco da coisa piorar e, arrumando força de vontade não sei de onde, resolvi que iria tentar todas as possibilidades de auto ajuda antes de ter que embarcar em assistência médica (na verdade, a vergonha de ter que admitir pros outros o meu estado mental também ajudou um bocado). A primeira providência foi voltar a fazer exercícios. É um saco, mas é igual escovar os dentes – não fazer é pior; a segunda foi meditação – foi um tiro no escuro, algo que resolvi tentar achando que seria muita viagem e que não tinha porque dar certo, e que foi, de longe, o que mais me ajudou a voltar ao normal. Tanto que escrevi um post só pra dar os detalhes da minha odisséia meditativa.

Com a chegada dos 40 anos, felizmente, temos tudo sob controle no departamento da saúde mental. Já no da física, os meus joelhos resolveram começar a doer após as corridas. Bem, dos males o menor – e bicheiras à parte eu me sinto muito grato por chegar a esse marco de vida do jeito que cheguei.

Lições aprendidas

Os meus últimos dez anos foram uma loucura. Eu passei por oito empregos diferentes, comprei dois imóveis, mudei de casa três vezes (incluindo aí a mudança de país), adicionei mais um curso superior no currículo, conheci vários novos países…

Eu comecei esse post falando que eu vou morrer e meu tempo nesse planeta está se acabando, mas, graças à maluquice da última década, acabei aprendendo que o importante não é a quantidade de tempo que se tem disponível, e sim o jeito que você aproveita o tempo que tem. E agora que sou oficialmente um quarentão, sempre que me botarem pra fazer alguma coisa que eu ache perda de tempo, eu posso sair fora com a clássica desculpa de que “estou velho demais pra isso”.