Quarenta anos

Esta semana eu completei 40 anos, então vai ter textão. Venha rir e se emocionar.

Eu comecei esse blog como esse moleque de vinte e poucos anos aí embaixo.

Eu era recém-saído da faculdade de Computação, ainda vivendo em Belo Horizonte. A internet era tão pequena quanto uma cidade do interior – meu terceiro post aqui era o Interney (Edney Souza, hoje um monstro do marketing digital brasileiro) adicionando um link pro meu blog em seu site.

Hoje eu passei o dia trabalhando num laptop trinta vezes mais poderoso do que o meu desktop da época. Este post, inclusive, é escrito a milhares de quilômetros do Brasil, na prosaica cidadezinha suburbana de Ajax, em Ontario, no Canadá – país que eu escolhi para viver e onde, finalmente, me sinto em casa.

A minha vida mudou total e completamente desde então. Felizmente, a aparência continua mais ou menos a mesma – com o cabelo melhor, eu diria. Fica aí um agradecimento especial aos meus pais pelos bons genes que fizeram o povo da loja de bebidas pedir a minha identidade até os 39 anos.

A foto acima é recente, de maio de 2018, em Nova Iorque, onde fomos comemorar o aniversário da Bê. Vinte anos antes eu conhecia NY só das revistinhas do Homem-Aranha. Hoje eu tenho um cartãozinho da MTA (o “bilhete único” novaiorquino) permanentemente na carteira, e a sala de tevê aqui de casa é lotada de pôsteres de musicais da broadway que a Bê assistiu. Nesses anos todos o meu mundo se expandiu enormemente.

Mas estou tergiversando muito. O que eu realmente quero dizer com essa história do tempo passando é que eu vou morrer.

Sobre olhar a mortalidade no olho

O lado bom de estar mais velho é que agora é adequado parafrasear Nietzsche para dizer que, quando você olha a mortalidade no olho, ela olha de volta pra você.

Não, eu não estou com nenhuma doença terminal. A minha saúde física está, inclusive, excelente: eu durmo bem, como (razoavelmente) bem, corro 5km três vezes por semana e tal. Mas fazer 40 anos é um marco de vida, e apesar do fato de que estou, literalmente, na melhor situação que já estive, a única coisa que consigo pensar é que, daqui pra frente, é morro abaixo, pois já vivi 50% da minha expectativa de vida.

Com os quarenta no horizonte, o meu eu pessimista já esperava ter que lidar com algum problema crônico, tipo colesterol, joelho ruim, talvez até os “países baixos” se rebelando na hora do vamo ver. Naturalmente, não foi nada do que eu esperava.

Tudo começou na primavera. Uma das consequências do inverno no hemisfério norte é o chamado “transtorno afetivo sazonal”, que deixa as pessoas deprimidas por conta do frio e da falta de luz. Convenientemente, a sigla em inglês pra essa doença é “SAD” (triste), o que descreve bem como eu estava quando as neves de março fecharam o invernão. No passado eu ficava só mais preguiçoso que o normal e segurava a onda tomando um suplemento de vitamina D, mas esse ano as coisas… não estavam exatamente fáceis. A rotina não mudou, eu continuava acordando, indo trabalhar e tudo o mais, mas praticamente no automático, simplesmente pra cumprir tabela. Era como se você fosse ao seu restaurante preferido, pedisse o prato que mais gosta, e a comida viesse sem sal, sem tempero.

O frio passou, os gansos voltaram todos grávidos da sua temporada na Flórida e, com o verão chegando, eu achei que o calor e os dias mais longos iriam resolver de vez a história. Afinal, não tinha por que eu me sentir tão mal com a vida, não é? Afinal, eu estou morando no país que sempre quis, numa casa incrível, na carreira onde eu mando bem, com um ótimo salário, com várias outras ofertas de emprego chegando no LinkedIn, a melhor esposa da galáxia, um cão e um gato me amando incondicionalmente, tudo perfeitamente alinhado… então por que diabos eu não sinto vontade de fazer nada? Por que a vida anda tão sem gosto?

Aí o dia-a-dia começou a ser afetado. Conseguir me concentrar no trabalho por mais de cinco minutos ficou impossível. Minha libido foi sumindo de mansinho até sumir de todo. Aí na sexta-feira eu comprava umas cervejas pra poder ir tomando ao longo do final de semana e elas não duravam nem até o sábado. Ou isso ou eu comprava um saco de jujubas pra deixar na mesa do trabalho e acabava comendo meio quilo (literal) de açúcar numa tarde.

Com a idade avançando, eu tava esperando ter que lidar com mazelas físicas – e acabei sendo pego de surpresa com a saúde mental. Pois é. Tem todo um estigma pra falar disso. O cursor do editor parou algumas dezenas de vezes nos parágrafos anteriores até eu conseguir chegar até aqui. Coincidentemente, meu aniversário caiu no Dia Mundial da Saúde Mental, aí resolvi aproveitar a chance pra falar do assunto sem fazer muito rodeio.

Felizmente, o meu caso parece ter sido bem inicial e não chegou ao ponto de afetar drasticamente a minha vida – tipo eu ter que parar de trabalhar, ou precisar de remédios, ou chegar no nível bem mais sério de pensar em se matar. Por sinal, esse ponto do suicídio é algo assustadoramente comum: quando comentei com o meu médico daqui sobre o que eu estava sentindo, essa foi a primeira pergunta que ele fez – depois de contar que mais da metade dos pacientes dele andam se queixando de problemas semelhantes. Semana passada mesmo, no bar com os caras do trabalho, um deles acabou deixando escapar pra mim que, depois de passar por um divórcio no começo do ano, ficou pensando em acabar com a vida. Ano passado um conhecido do Twitter tentou se enforcar, mas felizmente sobreviveu.

Como o meu “bode” não afetou minha cabeça racional, eu concluí rapidinho que havia um bom risco da coisa piorar e, arrumando força de vontade não sei de onde, resolvi que iria tentar todas as possibilidades de auto ajuda antes de ter que embarcar em assistência médica (na verdade, a vergonha de ter que admitir pros outros o meu estado mental também ajudou um bocado). A primeira providência foi voltar a fazer exercícios. É um saco, mas é igual escovar os dentes – não fazer é pior; a segunda foi meditação – foi um tiro no escuro, algo que resolvi tentar achando que seria muita viagem e que não tinha porque dar certo, e que foi, de longe, o que mais me ajudou a voltar ao normal. Tanto que escrevi um post só pra dar os detalhes da minha odisséia meditativa.

Com a chegada dos 40 anos, felizmente, temos tudo sobre controle no departamento da saúde mental. Já no da física, os meus joelhos resolveram começar a doer após as corridas. Bem, dos males o menor – e bicheiras à parte eu me sinto muito grato por chegar a esse marco de vida do jeito que cheguei.

Lições aprendidas

Os meus últimos dez anos foram uma loucura. Eu passei por oito empregos diferentes, comprei dois imóveis, mudei de casa três vezes (incluindo aí a mudança de país), adicionei mais um curso superior no currículo, conheci vários novos países…

Eu comecei esse post falando que eu vou morrer e meu tempo nesse planeta está se acabando, mas, graças à maluquice da última década, acabei aprendendo que o importante não é a quantidade de tempo que se tem disponível, e sim o jeito que você aproveita o tempo que tem. E agora que sou oficialmente um quarentão, sempre que me botarem pra fazer alguma coisa que eu ache perda de tempo, eu posso sair fora com a clássica desculpa de que “estou velho demais pra isso”.

O Primo recomenda: meditação

O “mascote” do fórum sobre meditação no Reddit

Nas minhas muitas noites insones, googlando coisas sobre saúde mental, reparei que meditação aparecia em várias listas de possíveis tratamentos para depressão e ansiedade. Vi, inclusive, revisão de literatura científica sobre os benefícios de meditar, com tudo apontando para uma considerável redução dos sintomas depressivos. Então, resolvi me comprometer a fazer pelo menos as 10 sessões grátis dum aplicativo de meditação guiada (o Headspace – mas há opções em português), só pra ver como é. Afinal, eu não tinha nada a perder: iria custar zero reais e consumir apenas dez minutos do meu dia.

Quando comecei, além de uma certa descrença de que ia fazer alguma diferença, eu também tinha todas aquelas dúvidas comuns de quem não conhece/nunca tentou meditar: é só isso mesmo, sentar e se concentrar na respiração? E se eu não conseguir sossegar meus pensamentos? E se eu não conseguir ficar sentado sem minha perna ficar dormente? E se der uma coceira maluca nas costas no meio da sessão? E se o único tempo que eu tiver for no metrô indo pro trabalho? Curiosamente, as respostas que eu achava para todas estas perguntas era sempre a mesma: “não tem problema”. No início eu achava isso meio largado demais, achava que as sessões tinham que “dar certo” e que eu tinha que conseguir me sentar sem incômodos ou distrações e ficar 100% do tempo não pensando em nada. Mas resolvi confiar nas instruções e continuei fazendo as minhas sessões porcas, tentando concentrar apenas na minha respiração, vendo a minha cabeça resolver relembrar todas as falas do filme Matrix no meio da sessão por 200 vezes e tendo que voltar a focar na respiração 200 vezes. Porque é isso que os guias de meditação que eu li dizem que você tem que fazer quando se distrai:

Devido ao hábito, os pensamentos seguramente invadirão sua prática. Quando surgirem, apenas libere-os ao expirar, sem se identificar com eles, sem responder emocionalmente a eles. Observe o pensamento emergir, passar diante de você e depois desaparecer. Então, deixe que sua atenção repouse, não entorpecida e preguiçosa, mas à vontade.

E aí aconteceu o que sempre acontece quando você faz uma coisa muitas vezes: você fica bom naquilo. Graças à minha mente muito distraída, eu acidentalmente acabei me treinando a largar distrações. Além disso, no processo de largar esses pensamentos, você também aprende a simplesmente observar o que acontece na sua cabeça sem fazer juízo de valor (“sem se identificar com eles, sem responder emocionalmente a eles”), e isso torna o processo de conviver consigo mesmo incrivelmente mais leve. Aí a ficha caiu: é por isso que “não tem problema” se distrair duzentas vezes numa sessão, ou perder a concentração porque a gata tá arranhando a porta do quarto ou porque sua perna direita está toda dormente. O lance é aproveitar esses problemas pra treinar como se dissociar deles. O grande barato da meditação não é não pensar em nada, e sim aprender a postura certa pra lidar com as coisas que você pensa. O importante não é o destino, e sim a jornada.

Quando as 10 sessões grátis do aplicativo acabaram eu, como era de se esperar, continuei o hábito por conta própria. Todo dia de manhã eu acordo, tomo um banho, e medito por vinte minutos, inclusive nos finais de semana. Os efeitos disso são bem notáveis, dá pra perceber que alguma coisa no meu cérebro andou se reorganizando. A minha concentração no trabalho, por exemplo, ficou meio “sobrenatural”; eu consigo me manter focado por muito mais tempo – o que vale ouro pra quem trabalha com software. O meu sono não mudou de quantidade, mas parece ter ficado mais… eficiente. No início eu andei tendo uns pesadelos muito esquisitos, mas foi coisa de uma semana e acabou passando – talvez efeito da tal reorganização cerebral. Na hora de dormir ficou bem mais fácil pegar no sono, mas às vezes a insônia ainda bate e eu acordo lá pelas três, quatro da manhã, e acabo desistindo de tentar voltar a dormir e vou meditar às cinco… e mesmo assim não fico sonolento o dia todo. E se eu dou aquela dormidinha esperta de meia hora no trem, ao voltar pra casa, eu fico novo em folha. E o meu humor e disposição geral pras coisas está de volta ao normal. A vida voltou a ter gosto.

Claro que esse é o meu caso pessoal, e pode ser que você experimente e não seja essas coisas todas pra você, mas no meu caso fez muita diferença. Acho demais que todo mundo devia tentar, afinal, basta se sentar, fechar os olhos e… respirar.

O Primo recomenda – NTS

Quando me perguntam sobre música eu consigo conversar fluentemente sobre estilos, épocas, discos, quem influenciou quem, etc. Mas se tem uma pergunta que me deixa absolutamente confuso é:

Onde foi que você descobriu isso?

É que eu tenho MUITAS origens de descobrir música nova. Pode ter vindo de um comentário de Twitter, de uma referência usada num dos (excelentes) vídeos da Estelle Caswell (da Vox), do lineup de um festival, do algoritmo de recomendação do Google Play… eu não me preocupo muito com de onde veio, e sim pra onde vai.

É por esse motivo que eu não consigo dizer com precisão como diabos eu descobri a NTS – uma rádio que só transmite online, de uma cabinezinha de uns cinco metros quadrados em um bairro pobre de Londres, mas que tem filiais em Los Angeles, Manchester e na China e é extremamente influente no underground musical. Foi ela que resolveu o meu problema de muitas origens de música nova, já que faz meses que ela é praticamente a única coisa que escuto.

NTS home page
A home page da NTS, mostrando a “sede” da rádio. Conhece os artistas? Não? Nem eu.

Uma das coisas que me entediava no processo “normal” de descobrir coisas novas pra ouvir é que você sempre acaba caindo em variações das bandas/artistas que você sempre ouve. O que me interessa mesmo são as coisas autênticas, feitas por gente que gosta genuinamente de música e quer simplesmente se expressar, sem preocupação com dinheiro ou fama, e as coisas surpreendentes, a inventação de moda que é extremamente complicada num universo musical onde todo mundo já fez de tudo, e que, justamente por isso, dá muito certo quando dá certo. A curadoria de shows da NTS vai justamente nessa linha: você não vai conhecer ninguém, a maioria é uma molecada de vinte anos ou gente muito focada em um nicho bem específico, e eles tocam coisas inacreditáveis – tem vaporwave, tem especial de música dos Andes, tem metal, tem mixes de música da Índia, tem música ambiente mixada com gravações do rádio da polícia, tem música de videogame, e tem todas as variedades de música dançante (house, techno, etc.), mas fresquíssima, tipo comida japonesa cujo peixe foi pescado no mesmo dia. Frequentemente é coisa saída direto do Bandcamp/Soundcloud e que está prestes a estourar.

Quando esbarrei com a NTS, o slogan da rádio me chamou a atenção: “don’t assume” (algo como “não julgue”). De fato, você precisa entrar pra ouvir com este espírito, porque na programação da rádio vale absolutamente tudo. Enquanto escrevo este post estou ouvindo o programa do Mobbs (pela primeira vez – explico porque em breve), que é descrito assim:

As produções de Mobbs passam pela linha do grime e outras culturas sonoras, mas a especialidade de seu show é aquela atmosfera da madrugada – seja a da batida porrada, das fitas cassete semidestruídas, ou da música ambiente dopada. Pluga aí.

Nos últimos minutos ele tocou um trecho de entrevista de um cara falando dos atentados do 11 de Setembro (entrecortado com uns ruídos digitais), e mixou com um jazz standard daqueles clássicos de trumpete/piano/bateria, mas com um blues tocado por cima na metade da velocidade (o vocalista soa como um urso bêbado), e agora tá tocando uns instrumentais de sintetizador… e tá valendo.

A diversidade musical da NTS só não é maior do que a diversidade dos artistas que tocam por lá. Gente nova, velha, artistas consagrados (a Bjork fez um show lá mês passado), gente que começou outro dia, héteros, gays, grupos queer/não-binários, russos, latinos, africanos, brasileiras, asiáticos… outro dia um cara levou a mãe pra tocar com ele! Como eu mencionei, vale absolutamente tudo. E o mais legal disso é que, em nenhum momento, a rádio faz alarde do tipo “olha só como o nosso lineup é diversificado”, porque isso acontece naturalmente, como deveria acontecer no resto do mundo. O lineup é diversificado em quantidade também, já que o povo que toca “frequentemente” tem um show de duas horas a cada quinze dias – são CENTENAS de pessoas ativas na programação todo mês. É por isso que, por mais que eu escute a rádio todo santo dia, sempre tem alguma coisa que nunca ouvi antes.

Mas o pior (melhor?) aspecto da NTS é que todos os shows ficam arquivados no Mixcloud. Isso significa que, a qualquer momento, você tem acesso a um acervo de LITERALMENTE CENTENAS DE MILHARES DE HORAS DE MÚSICA CATEGORIZADA POR ARTISTA E TAGUEADA POR GÊNERO. Se você não sabe o que ouvir, tem sempre coisa boa na seção de “recomendados”. Se você quer um gênero específico (tipo, “baile funk”), é só botar a tag no link de “explorar”. Basicamente, agora eu tenho um acervo praticamente infinito de opcões pra descobrir novos artistas, pra tocar enquanto eu lavo a louça, pra ouvir na academia, pra botar no trabalho, pra espantar a insônia, etc.

Alguns artistas/shows que eu particularmente curto muito e faço questão de acompanhar de perto são:

  • Pra música dançante melhor do que tudo isso que tá por aí: A Moxie tem o show mais “alto astral” (como diria o Felipe Cabeça) da NTS. A Shanti Celeste tem praticamente doutorado em house music, e o casal Nadia/Dan, do Rhythm Connection, também são muito fodas.
  • Pra ouvir de manhã: vá de Charlie Bones e seu “Do!! You!!! Breakfast Show” e seu dia vai ser garantidamente bom. Músicas que até seu pai curtiria.
  • Pra música que conta histórias: o Life is Away é uma espécie de ensaio para o rádio, algo como uma história contada por meio de filmes/séries/entrevistas entremeados com música ambiente. Se você vai ouvir só uma das mil recomendações deste post, ouça essa. Brilhante e absolutamente imperdível. O “Who’s That Girl” tem a mesma pegada, mas com a dona do show (Leyla Pillai) fazendo uma espécie de “terapia temática zen” com música e texto. É tipo drogas, mas sem as drogas. Falando nisso…
  • Pra se preparar para a legalização da maconha: tem tanta gente fazendo beats, mas o NahhG ainda consegue filtrar o que tem de melhor por aí. E o Ian, do Minimal Effort é um santo restaurador de vibes.
  • Pra ouvir o que vai tocar amanhã no resto do mundo: Lukid, o cara para quem eu faria questão de pagar uma cerveja se estivesse em Londres. A London Contemporary Orchestra é outra que está na vanguarda da vanguarda.
  • Pra meditar: Perfect Sound Forever é o show cujo título está mais próximo do conteúdo. O Nosedrip também é lindo. E eu ainda vou comprar a camiseta da Kranky que diz “hugs and/or drugs” (abraços e/ou drogas) porque é genial demais.
  • Para não entender porra nenhuma do que está acontecendo: Don’t Trip vai gratinar seus neurônios, Reverie é o que toca no seu subconsciente e você não sabe, Alien Jams é transmitido diretamente de Marte, Beatrice Dillon te pesca no techno e te come no experimental, e a Coucou Chloé é uma DJ/modelo que definitivamente me mete medo.

TNT, Sete Lagoas, e isolamento musical

Hoje o TNT, o famoso álbum do Tortoise, fez 20 anos.

Eu ouço música todo santo dia. Muita música. Meus ouvidos de quase 40 anos devem ter dezenas de milhares de álbuns no seu odômetro, fácil fácil. E se você me perguntar qual álbum eu levaria para uma ilha deserta, é o TNT.

O TNT me lembra uma história de quase duas décadas atrás. Eu estava em Sete Lagoas, terra natal do meu pai, com o primo que indiretamente dá nome a este blog e cujo gosto musical é bem parecido com o meu: “esquisito”, na nomenclatura das pessoas normais. Como Sete Lagoas é uma cidade do interior, musicalmente ela é dominada pelo mainstream, sertanejo e similares, mas naquele dia a banda brasileira mais irmã do Tortoise que existe, o Hurtmold, ia tocar na cidade. Graças à minha fissura com backups e curadoria digital, o registro desse dia tá aqui no blog também. O que não tá registrado é um detalhe que me lembro até hoje. Enquanto esperávamos o show, alguém botou pra tocar o TNT.

Ironicamente, música é um negócio que eu amo profundamente, mas que me isola de todo mundo. É que não dá pra chegar no trabalho e falar “cara, tu já ouviu o mix do Sakamoto na NTS onde ele toca até uma do Dilla?”. Eu ainda não decidi como me sinto com isso, ou se deveria tentar sair da minha bolha e procurar outras pessoas com gosto musical parecido pra compartilhar mais e tornar a experiência menos introvertida. E é por isso que eu me lembrei do TNT tocando em Sete Lagoas antes do show do Hurtmold – naquela tarde eu estava ouvindo um dos discos mais importantes da minha vida com um monte de outras pessoas. 

A Bê costuma dizer que música pra mim não tem vínculo com memória afetiva, que eu busco é criatividade e inovação sonora. Essa parte da criatividade é muito verdade, mas eu tenho sim meus vários momentos de memória afetiva vinculados à música. Por exemplo, ouvir Fennesz e Cocteau Twins me lembra imediatamente dos meus projetos de consultoria no interior de São Paulo (Windturn City, alguém lembra?). Me lembro, inclusive, de ouvir o Donuts, o disco mágico do J Dilla – aquele que mencionei ali atrás – numa das minhas viagens semanais de quatro horas de ônibus pra chegar no trabalho; me lembro até hoje do buzão cruzando a Dutra e eu sentado na janela, maravilhado com a ingenuidade despretensiosa nos meus fones. E o TNT me lembra aquela tarde em Sete Lagoas. Me lembro de olhar em volta e ver todo mundo, sem exceção, curtindo a música – que de fato calhou perfeitamente pra uma tarde de sol e boa música entre amigos. E, principalmente, me lembro de me sentir no meu mundo musical, mas sem estar isolado do mundo.

Retrospectiva 2017

Só três posts esse ano… é a crise, talvez?

É nada, é só ano de gente ocupada. Rolou bastante coisa nos últimos 365 dias:

cat over a table with painting at the backEm abril achei uma gata perdida no parque e adotei. A Bê batizou de Cafuné, mas por algum motivo eu só chamo ela de “gata” mesmo. Pavlov e a gata já tiveram oito meses pra se adaptar um com o outro e eles estão convivendo super bem, tirando um ou outro episódio de ciúme de ambas as partes e um leve territorialismo de ambas as partes: a gata se debruça sobre a tigela de água pra não deixar Pavlov beber, aí em retaliação ele vai e come a comida do potinho dela, e por aí vai.

De noite, a matilha toda – eu e Bethania inclusos – dormimos todo mundo junto e amontoado. Quando me deito a gata sobe na cama, depois sobe em cima de mim, bota o focinho bem na minha cara – estrategicamente me impedindo de mexer no celular – e começa a ronronar. E gato ronronando no seu colo é algo inexplicavelmente precioso.

Em agosto realizamos o sonho máximo dessa jornada canadense: compramos uma casa e fomos morar no subúrbio. Eu sabia que morar em casa ia dar trabalho e custar caro em termos de manutenção, mas nada podia me preparar pros últimos quatro meses… só pra vocês terem uma ideia, eu tive que:

  • Consertar todas as quatro privadas da casa que tavam vazando.
  • Arrancar o carpete do hall do andar de cima – porque ele virou uma extensão do banheiro de Pavlov. Esse trampo foi uma novela mexicana, com instalador trazendo piso errado, demorando um mês pra fazer o serviço, etc, etc.
  • Instalar cortinas e persianas em todas as janelas. Na primeira delas eu ainda era n00b de paredes norte-americanas e fiz uns cinco furos errados até acertar…
  • Trocar todos os três detectores de fumaça da casa, ao descobrir que os antigos donos da casa nos fizeram o favor de deixá-los mais de cinco anos vencidos. Por sinal, um cordial pau no cu dos antigos donos da minha casa, que não cuidaram de absolutamente nada de manutenção e agora tá sobrando tudo pra mim.

kitchen sink

  • Contratar um cara pra trocar as bancadas dos banheiros e da cozinha porque, de tão velhas, elas impediam as gavetas de abrir. A vantagem disso é que agora eu tenho uma pia linda. Ser adulto é uma bosta mesmo, você fica feliz com a sua pia…
  • Improvisar umas travas de metal pra fixar a lava-louça, que caía pra frente quando você abria a porta.
  • Jogar a minha geladeira inteira fora ao descobrir que ela cria umas crostas de gelo de dois em dois meses e as comidas todas estragam porque ela para de gelar – e que nenhum técnico conserta isso porque o problema chama-se “design lixo das geladeiras Samsung”. Depois dessa e do fiasco dos telefones explosivos eu nunca mais compro NADA da Samsung na vida. Aproveitando, uma singela estalactite de gelo no cu dos antigos donos da casa por mais essa.
  • Refazer a vedação das paredes do box de dois banheiros.
  • Abrir um buraco no teto da sala porque o banheiro acima dela estava vazando dentro do drywall. Não é nada divertido ver o teto da sua sala pingando enquanto você toma café da manhã.
  • Pagar um absurdo pra um cara refazer as paredes/azulejos do box do meu banheiro.
  • Brigar com o fiadaputa porque ele fez um trabalho de merda.
  • Tapar o buraco do teto da sala eu mesmo, com todo meu vasto conhecimento de conserto de drywall adquirido às pressas no YouTube. Por sinal, você já teve que lixar drywall? É bem legal, mas morrer queimado é muito melhor…
  • Recolocar um dos azulejos do banheiro, também com treinamento de YouTube, porque o fiadaputa largou sem fazer depois de de ir embora.
  • Refazer, pela terceira vez, a vedação do banheiro que tava vazando – porque o fiadaputa usou o rejunte errado.
  • Trocar o aquecedor da casa que resolveu morrer alguns meses antes do inverno – o que envolveu uma conta caríssima, uns três buracos no teto do porão, e o prejuízo adicional de uma caixinha de som bluetooth que eu tinha e que magicamente desapareceu da casa depois que os instaladores foram embora. Foi meu primeiro furto aqui no Canadá, por sinal.
  • Deixar os buracos do teto no porão porque tivemos uma ideia maluca de montar um projetor com home theater no porão e eles seriam úteis pra fazer a parte elétrica da instalação.
  • Passar madrugadas insones pesquisando distâncias ideais de projeção, comparando com as medidas da sala, conferindo se o tamanho da tela caberia na parede… como diz o ditado, “meça duas vezes, corte apenas uma”.
  • Orçar o trabalho de passar fiação pro projetor com um eletricista licenciado – já que aqui eu sou legalmente impedido de mexer na fiação da minha própria casa sem o aval de um eletricista profissional – e receber um orçamento de quase três mil dólares.
  • Comprar uma extensão e usá-la pra alimentar o projetor, passando o fio estrategicamente por dentro do teto até uma tomada próxima – porque huehue nóis é BR.
  • Construir uma tela de projeção sob medida, montando uma moldura com ripas de madeira e enrolando uma tela barata de PVC por cima dela.
  • Abrir ainda mais buracos no drywall pra passar os fios de áudio/vídeo (essas a lei deixa). Foi tudo no maior esquema gambiarra: eu enfiava o celular nos buracos do teto e usava a câmera pra achar um caminho pros fios, depois passava uma fita métrica no lugar, amarrava as pontas do fios na fita métrica e puxava a fita pra puxar os fios. Foi emocionante enfiar minha furadeira num dos buracos e usá-la às cegas pra abrir passagem pra um dos fios.

Deu muito trabalho, mas valeu a pena.

media room

  • Por fim, tive também que transportar e montar incontáveis móveis da Ikea. Pensando bem, essa é a parte divertida, é tipo Lego de adulto.

No meio disso tudo, em outubro eu troquei de emprego. Um amigo daqui apareceu com uma vaga que pagava 60% a mais do que eu ganhava. A pegadinha: era num projeto meio bucha. Eu pensei comigo que quem sobreviveu a Windturn City sobrevive a qualquer coisa, mas mal sabia eu no que estava me metendo. Digamos que agora eu passo cada dia de trabalho assim:

  • 10% do tempo eu faço trabalho de verdade, que agrega valor.
  • 30% do tempo eu estou consertando servidor caído ou tentando fazer as coisas rodarem no meu computador.
  • 60% do tempo eu estou fazendo facepalms duplos tentando descobrir o que diabos as pessoas fizeram no projeto porque nada tá documentado em lugar nenhum.

Basicamente, agora eu trabalho numa mistura de The Office com Trapalhões cujo cenário é uma daquelas casas bagunçadas de acumuladores compulsivos.

Quando nos mudamos para o Canadá, com seis malas e nenhuma certeza do futuro, uma conversa recorrente no nosso círculo de amigos imigrantes eram os perrengues do inverno. Um deles é o snow shoveling: todo morador daqui de Ontário é legalmente responsável por tirar a neve da calçada da frente da sua casa, ou seja, você tem que sair no frio e tirar a neve com uma pá. Os nossos amigos costumavam comentar que prefeririam morar em apartamento por conta disso, mas eu sempre dizia:

“Ih, se eu tiver que fazer shoveling no inverno eu vou fazer com gosto, porque ter essa obrigação significa que eu finalmente tenho uma casa aqui no Canadá”.

Três anos depois, às 18h do dia 12 de Dezembro de 2017, eu peguei uma pá e tirei a neve da calçada da minha casa canadense pela primeira vez.

snow shovel

 

Retrospectivas anteriores:

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A saga de comprar uma casa no Canadá

Em 2017, com empregos fixos e a imigração concluída, eu e Bethania começamos a planejar o nosso novo grande passo canadense – sair do aluguel e conquistar o sonho da casa própria.

Seis anos atrás, quando comprei meu apê em São Paulo, eu comentei do desespero que foi ir juntando o dinheiro pra dar de entrada enquanto eu via os preços crescendo de forma galopante. Tudo que eu não queria era ter que passar de novo pelo mesmo stress – ou seja, foi exatamente o que aconteceu. Até os números foram iguais: os preços na grande Toronto duplicaram nos últimos 3 anos e seguiram batendo recorde atrás de recorde todo mês. Isso puxou os aluguéis, que também começaram a subir, e meu contrato de aluguel tava lá prestes a vencer no fim do ano.

Além disso, tinha também o dilema do que comprar. Em SP a escolha era entre um apartamento pequeno ou um apartamento minúsculo – casas nem entravam na lista por causa do custo/risco/distância. Aqui, felizmente, tínhamos mais escolha:

  • Apê pequeno, colado no metrô, bem próximo da muvuca do centro, meia horinha e você tá no trabalho;
  • Apê grande, mas dependendo de ônibus + metrô, relativamente próximo do centro, uma hora ou mais pra ir/voltar do trabalho.
  • Uma casa, pequena ou grande, mas que se encaixasse no orçamento.

O problema é que, em fevereiro, o preço médio de uma casa em Toronto bateu um milhão de dólares. Assim sendo, quando a gente ia ver uma casa era sempre assim:

  • O anúncio dizia assim: “renovator’s paradise!” (paraíso do construtor), então a gente sabia que a casa tava caindo aos pedaços.
  • Às vezes a casa nem tava tão caindo aos pedaços, mas era uma stacked townhouse – uma casa geminada dos dois lados e também por cima ou por baixo. Praticamente um apartamento na horizontal.
  • Quando era apenas uma townhouse (geminada só dos lados), ela era colada numa rodovia barulhenta, ou do lado do trilho do trem, ou longe de todo tipo de transporte público, ou num lugar muito velho/bizarro. Não me esqueço de uma que vi, era até bem perto do metrô, mas a casa devia ter uns 50 anos de idade e ficava numa vila que era idêntica à vila do Chaves…
  • Quando a gente finalmente via uma casa legal ela estava 150 mil dólares acima do nosso orçamento – e normalmente era vendida no dia seguinte.

Os apartamentos todos também estavam bem frustrantes, e depois de ver inúmeros deles e não gostar de nenhum começamos a colocar na mesa uma opção nova: e se fôssemos morar… no subúrbio?

O subúrbio aqui não tem a conotação de periferia. Trata-se daquele subúrbio de filme: são as cidades ao redor de Toronto, sempre pequenas, quase sem prédios, com aquele monte de casas todas iguais, onde só moram famílias com filhos, e os pais passam o final de semana fazendo jardinagem, cortando grama ou serrando madeira na garagem. São lugares tão prosaicos que tem um monte de minisséries sobre como morar no subúrbio é tedioso. No trabalho um monte de gente mora nesses lugares – eles são facilmente identificáveis, porque chegam mais cedo pra trabalhar e são os primeiros a ir embora, normalmente correndo porque “tem que pegar o trem” pra voltar pra casa.

Separamos um dia pra ver uma casa em Ajax, uma das cidades ao leste de Toronto, só pra ter uma ideia de como era. Fomos logo depois do trabalho, na tarde de um belo dia de primavera. Enquanto o corretor não chegava, resolvemos dar uma volta pelo bairro e chegamos a um parque, na beira do lago, com a melhor cenografia suburbana que já vi: crianças correndo pela grama, passeando de bicicleta, mães com seus carrinhos de bebê jogando conversa fora com os vizinhos, enquanto o sol se punha sobre as águas do Lago Ontário. Mas o que mais me marcou foi o enorme silêncio – não tinha buzina, não tinha sirene, não tinha caminhão, tinha apenas o gralhar ocasional de uma gaivota e as risadas das crianças.

Aí fomos ver a casa e aí já era: tinha tanto espaço que a antiga dona tinha um piano de (meia) cauda na sala. Tinha um jardim nos fundos, com plantinhas e espaço pra churrasqueira. No andar de cima tinha quartos grandes, tinha vários banheiros… e todo o enorme espaço do primeiro andar ainda aparecia em dobro, no porão. Ainda não tínhamos a papelada toda do financiamento pra comprar, mas a boa notícia é que, na mesma região, havia muito mais opções boas pra ver dentro do que podíamos pagar.

O subúrbio só não nos ganhou naquela hora logo de cara porque eu ainda tinha uma grande dúvida: será que compensa morar num casão, num bairro sossegado, mas gastar horas pra ir trabalhar todo dia? Pra descobrir, peguei um mapa das linhas dos trens suburbanos e marquei os lugares aonde eu poderia morar mas ainda assim levar menos de uma hora pra chegar na estação central. Esse virou meu novo mapa de procurar imóveis:

Pra completar o teste, marcamos de ver umas casas logo depois do trabalho, pra experimentar na pele como é isso de voltar de trem todo dia. Na linha que corre para leste de Toronto tem muita opção de trem na hora do rush, e os trens expressos ainda economizam uns 10 minutos de viagem. Se a opção suburbana já estava atraente, a nossa primeira viagem de trem fechou a fatura:

  • Não é aquela suvaqueira de metrô: o trem é enorme, então todo mundo vai sentadinho 99% das vezes.
  • O andar de cima dos vagões é a quiet zone, onde, na hora do rush, é proibido conversar ou falar ao telefone. Perfeito pra um cochilo, pra atualizar a leitura ou apenas para gente antisocial como eu.
  • A internet do celular funciona o tempo todo, pois o trem corre na superfície.
  • A viagem é razoavelmente rápida: em 37 minutos estávamos a 35 quilômetros do centro. De carro é impossível percorrer essa distância em menos de uma hora. E muitos dos nossos amigos que moram em Toronto gastam o mesmo tempo ou mais pegando o metrô.
  • Tem um trecho onde o trem corre bem do lado do lago. Com o sol nascendo sobre ele de manhã, a vista é de chorar.
Foto (c) Paul Bloxham

Com o foco no subúrbio e as várias opções disponíveis, não demorou muito pra gente achar uma casa que valesse a pena. A escolhida foi uma de dois andares, com só dez anos de vida, ajeitadinha, geminada mas com um grande atrativo: era uma freehold townhome. Na maioria dos casos as casas geminadas são parte de um condomínio, e você é dono apenas do uso do espaço que sua casa ocupa. Nas freehold townhomes, apesar de dividir paredes com vizinhos, a casa – e seu terreno – são 100% seus e você pode fazer o que bem entender com eles.

Mas se você esteve prestando atenção neste post, vai se lembrar de que os preços de imóveis em Toronto e região estavam galopantes, certo? Pois então: decididos a fazer uma oferta na bendita da casa, acabamos inadvertidamente caindo na chamada bidding war: aquela situação onde várias pessoas fazem ofertas em uma casa e o corretor dá um monte de informações confusas/obscuras de forma a forçar os compradores a aumentarem suas ofertas meio que às cegas. É extremamente bizarro, mas é dentro da lei.

Isso foi, de longe, o dia mais estressante do ano. Aquele corretor gente boa, que estava sempre disponível para marcar visitas nas casas, que respondia emails no domingo às 10 da noite, de repente começa a te falar o contrário do que ele vinha te falando há meses e te estimulando a comprar a casa – porque, afinal, ele é comissionado, e quanto mais vendas ele fechar, melhor. O gênio aqui só foi entender isso no dia da negociação. Foi uma situação tão bosta que quando ele ligou pra gente dizendo que nossa oferta tinha sido aceita, nem deu pra ficar feliz.

Mas, tirando o stress, olha só o que tinha acontecido: dois imigrantes brasileiros, pouco mais de dois anos depois de deixar o país, se tornaram donos de um pedaço de terra no Canadá. No meu caso, essa ficha só caiu meses depois; já tínhamos nos mudado e, um belo dia, Bethania estava plantando roseiras no jardim e eu olhei pra ela da janela da cozinha e me toquei que ela estava plantando rosas em solo canadense – o nosso pedacinho de solo canadense.

É pequeno, mas é do tamanho do mundo pra mim.

Como vocês podem ver, ainda não sabemos cortar grama direito.

Um bom cafuné muda tudo

É primavera em Toronto, o que significa que as temperaturas já deveriam estar bem melhores do que estão mas que, na verdade, ainda tá frio pra caralho. Por isso, faziam uns miseráveis 2 graus quando saí pra caminhar com Pavlov, como faço todo santo dia de manhã. Pavlov honra seu nome: ele é um cachorro de hábitos. Era terça, portanto eu já sabia que ele iria querer passear no parque. O roteiro de sempre inclui pegar a trilha padrão e passar bem debaixo da ponte do Humber River.

O que eu não sabia é que, ao passar por lá, eu olharia pra cima e haveria um gato escondido debaixo da ponte.

Eu já vi tudo que é bicho no parque – incluindo guaxinins e até um gambá, mas gato é muito raro de ver – e quando aparecem eles saem correndo e eu acabo ignorando, pensando que trata-se de um clássico gato de rua. Já esse aí parou e me olhou fixamente nos olhos. Esse foi o meu erro. No instante em que fizemos contato visual rolou um momento místico de comunicação não-verbal onde ele me disse, claramente, o seguinte: “help!“.

Naturalmente, eu racionalizei meu instinto e pensei que não tem isso de entender bicho só de olhar pra ele (mentira, eu faço isso todo santo dia com Pavlov), que provavelmente ele veio de alguma das casas da região, que resolveu dar um passeio estendido, e acabei deixando pra lá.

No dia seguinte, uma quarta, choveu muito e não consegui andar com o Pavlov. Quinta é dia dele fazer outro trajeto, pra poder otimizar seus xixis de marcar território e manter seu domínio urinário na maior área possível, mas acabei forçando a barra pra voltarmos pro parque e ver se o gato ainda estava lá. E, de fato, lá estava ele… exatamente no mesmo lugar. Minha racionalização morreu na hora: ficou óbvio que não era um gato de rua, e que eu não ia conseguir simplesmente ignorar aquele fato e ir trabalhar.

Voltei pra casa e comecei a pensar no que fazer. Eu nunca lidei com animais perdidos na vida. Portanto, fiz o que qualquer pessoa racional faria… digitei “o que fazer com gatos perdidos” no Google. O site da prefeitura de Toronto dava algumas instruções e indicava um outro site chamado “ajudando animais perdidos” (helpinglostpets.com). O layout do site está congelado no tempo desde 1990, o que me fez duvidar de que aquilo iria adiantar alguma coisa, mas acabei inserindo um relato de que havia visto o gato na ponte do parque.

Depois, peguei um pouco da comida do Pavlov e voltei ao parque. No frio de 2 graus, vestido de roupa social, eu me dependurei na ponte de maneira bastante irresponsável pra poder deixar um pouco de comida pro bendito do gato. Ele percebeu a manobra, se aproximou pra comer mas logo voltou a se esconder dentro da estrutura da ponte, fora do meu alcance. “Bom, pelo menos de fome ele não morre”, pensei.

Algumas horas depois recebo um email de uma tal Brett, voluntária do “Toronto Cat Rescue” (uma ONG de resgate de animais), dizendo que viu o relato no site e poderia tentar resgatar o gato se eu desse as coordenadas exatas de onde ele estava.

A gente se encontrou no parque e eu vi que estava, de fato, lidando com uma profissional do resgate felino: o marido dela deixou duas gaiolas estrategicamente posicionadas pra conseguir capturar o gato quando ele saísse, e organizamos um mini-plantão pra fiscalizar as gaiolas e garantir que o gato continuava seguro. Apesar de tudo, só no sábado ela conseguiu capturá-lo.

– “Ele é super dócil, tá lá no banco de trás do meu carro como se nada tivesse acontecido”, disse ela. Ficou claro que era um gato “criado com vó” que acabou perdido no parque sem a menor noção do que fazer pra sobreviver. Ela contou ainda que o gato possivelmente foi abandonado no parque por alguém que não queria mais ficar com ele. “Acontece muito nessa região”, ela disse. “Ele foi claramente criado dentro de casa, não tem nenhum instinto de sobrevivência”, complementou ela, confirmando o que eu já tinha percebido pela cara do gato de que não tinha a menor ideia de como sair dali. Ela explicou também que o gato ia ser examinado, vacinado, esterilizado, e depois iria pra adoção.

Eu, que nunca tomo decisões por impulso, digo na mesma hora: “eu posso ficar com ela”.

Fica a dica: JAMAIS olhem um gato nos olhos, ou esse tipo de coisa vai acontecer com vocês.

Alguns dias depois, Brett me manda uma mensagem dizendo que:

  • Não é “o gato”, e sim “a gata”
  • Ela tem uns 4 anos e já havia sido esterilizada, confirmando a teoria de que era sim uma gata doméstica que foi abandonada
  • É a gata mais dócil que existe: não curte correr e pular, mas adora ficar na cama e ganhar cafuné
  • Não tem pressão nenhuma pra ficar com ela: se eu mudar de ideia, posso ter certeza de que ela vai ser adotada por outra pessoa e ganhar um lar.

Se você está pensando “cara, mas você já tem um cachorro”, eu te digo que sim, era nisso que eu estava pensando… mas com a diferença de que minha preocupação era a seguinte: “será que meu cachorro vai se dar bem com a gata?”. De novo, nunca olhem um gato perdido nos olhos.

Alguns dias depois resolvi visitar a gata com meu cachorro, pra ver como ele reagiria. Ela estava ficando num quartinho da casa da Brett. “Entra você primeiro, pra gata ir se acostumando, depois a gente entra com o cachorro”, disse ela. Quando entrei no tal quartinho, Brett subiu no meu conceito de “profissional de captura felina” para “doida dos gatos”: o quartinho da casa dela era basicamente um hotel para gatos resgatados, com gaiolas, caixas de areia, brinquedos, música ambiente e uma confortável almofada no peitoril da janela, onde a gata estava deitada. E, pendurada acima dela, uma placa de carro personalizada que dizia “CATRESCUE”

“Agora é só eu chegar perto da gata e ela me morder, ou ela se desesperar com Pavlov, e aí acaba essa viagem errada de ter gato”, pensava eu, tentando achar uma saída lógica e honrosa pra minha situação. Cheguei perto dela, ela me olhou de volta com aquela cara de “ei, eu conheço você, humano”. Falei um “oi” (em inglês, afinal ela é canadense) e fui tocá-la pra ver como ela reagia. Foi quando finalmente paramos de fazer contato visual, porque ela fechou os olhinhos pra ficar curtindo o cafuné. E então, enquanto pensava “me fudi”, aprendi que dá pra sentir amor e desespero ao mesmo tempo.

Fui buscar Pavlov pra conhecê-la. Pavlov, como previsto, demonstrou o típico déficit de atenção de cachorro, que pode ser resumido em:

– “Uau cara! Estamos passeando! Que fantástico! Olha, tem essa casa nova aqui! Uau, tem esse quartinho aqui! Olha, ali tem uma gata! Olha só quanta coisa pra eu ver! Vamos pra rua de novo? Vamos? Vamos?”

Já a gata olhou pra Pavlov e, ao invés de pensar “estamos sendo invadidos!! VAMOS TODOS MORRER!” ou de demonstrar agressividade do tipo “MORRA ESCÓRIA CANINA!!”, ela fez uma cara de “que criatura curiosa”, e voltou a se deitar – o que é um ótimo sinal.

Dois dias depois o pessoal do Toronto Cat Rescue me mandou a papelada da adoção, paguei a taxa e, na sexta à noite, botei a gata no carro e fui pra casa, pensando “putaquepariu agora eu tenho uma gata”.

Junto com os papeis da adoção veio um PDF enorme de procedimentos com felinos, incluindo uma seção sobre como introduzir cães à gatos que pode ser resumida em uma frase: “não vai ser fácil”. Felizmente, violência não seria problema, já que Pavlov é praticamente Gandhi em forma de cachorro e a gata é incrivelmente passiva quando ameaçada – fato já demonstrado pelo fato dela ter ficado uma semana debaixo da ponte no mesmíssimo lugar. O duro é que Pavlov, também honrando a reputação científica, ficou extremamente curioso com a gata e queria desesperadamente cheirar e pegar e rodear e ficar o tempo todo próximo dela… isso tudo no momento mais traumático pra ela, que é a mudança de ambiente. O “manual” em PDF da gata já alertava que seriam umas duas semanas até ela se acostumar com a casa nova – e isso se não tivesse o cachorro.

Felizmente, Deus olha pelos seus filhos irresponsáveis mas de bom coração que pegam bicho na rua, e a adaptação dos dois correu bem – e mais rápido – que eu esperava. A gata achou uns cantinhos na casa pra se esconder dos avanços de Pavlov, e ele foi gradativamente ficando menos curioso. Aos poucos, a gata foi começando a criar coragem de sair dos esconderijos e se aventurar pela casa.

A foto acima é o sexto dia da gata aqui em casa, quando a curiosidade canina e o pânico felino deram lugar a um interesse mais comedido de ambas as partes. Segundo o manual da gata, era pra ela ainda estar tendo “interações supervisionadas com o cachorro encoleirado e sob controle em todos os instantes”, mas basicamente deixamos ambos se virarem sozinhos. Pavlov é dócil mas não é bobo, e começou a “policiar” os corredores e as portas dos cômodos onde a gente ficava, porque percebeu que ela tinha medo de passar perto dele. Já ela aprendeu rapidinho que, se não fizesse a Beyoncé e demonstrasse confiança, iria passar a vida confinada em esconderijos.

Agora já vamos pra duas semanas de gata em casa e ela já está confiante o suficiente pra perambular por onde quer – embora ainda tenha seus cantinhos preferidos. Pavlov está morrendo de ciúmes da confiança dela, mas está aprendendo a dividir a atenção. Tirando uma ou outra provocação eventual, ambos já convivem super bem, a ponto de poderem dormir conosco e tudo.

Mas vou ter que parar de escrever este post porque tem um negócio dando interferência no meu teclado…

Aí você pergunta… mas e o nome da gata? A primeira e mais óbvia opção seria Schrödinger, por razões óbvias, mas ela sendo fêmea e eu menos imaturo acabei deixando passar essa. No fim, Bethania deu uma boa sugestão, inspirada no que a gata mais curte receber:

“E se a gente chamasse ela de Cafuné?”

Retrospectiva 2016

É bem possível que o blog se transforme em um “arquivo de retrospectivas” – é a única coisa com alguma previsibilidade por aqui.

Mas tem motivo: reler as retrospectivas anteriores ajuda a dar perspectiva de como a vida vai. E de fato ela “vem em ondas, como mar”. Em 2009 as coisas não pareciam muito boas, dado que eu descrevia o ano como “vazio, ácido e difícil”. Já em 2016 foi o extremo oposto: foi um ano cheio, saboroso e recompensador. Dá até vergonha falar tão bem do ano que absolutamente todo mundo detestou.

O melhor de 2016: Trudeau disse “sim”

O ponto alto do ano foi, sem dúvida, receber o e-mail abaixo: a confirmação de que, sim, agora somos residentes permanentes no Canadá.

Você deve ter notado que o e-mail é endereçado à Bê… é que ela é quem foi a aplicante principal dessa vez, já que, com mestrado e um ano de trabalho no Canadá, a pontuação dela era muito melhor que a minha. “Fui eu quem conseguiu a nossa residência permanente!”, ela fica se gabando. Vou ter que aguentar ouvir isso o resto da vida – o que farei feliz e infinitamente grato. É libertador o alívio que dá não ter mais uma contagem regressiva no meu passaporte e finalmente ganhar todos os direitos do imigrante, como trabalhar sem restrições de tempo/local, ter acesso total à saúde pública daqui e poder reclamar do Maple Leafs perdendo no hóquei.

Outra coisa boa resolvida este ano: acabou a faculdade. Sinceramente, eu não aguentava mais, pelos motivos que expliquei no post anterior. Eu sonhei bastante sobre como seria meu último dia de aula, fiquei com vontade de sair da sala e fazer o Ai Weiwei em frente à escola, mas eu estaria sendo injusto com o lugar que, apesar dos percalços, serviu de degrau pro lugar onde estou hoje. Então apenas entreguei meu último trabalho e fiquei alguns minutos vendo a neve cair enquanto a Bê chegava pra me buscar.

Detalhe: é um troço bobo, mas tenho orgulho das minhas notas. Vou concluir o curso com honors e um GPA (a média daqui) de 4.2 em 4.5.

Ainda não liberaram a maconha, mas já estamos viajando

Mas nem tudo foi estudo. Em setembro, no começo do último semestre, eu matei uma semana de aula para viajar para Banff, na província de Alberta. Quando fui pedir uns dias de folga pro chefe, a resposta dele foi: “eu jamais impediria alguém de viajar para Banff”.

Chegando lá ficou fácil entender porquê. A foto abaixo não é nenhum ponto turístico, é apenas uma foto do meu celular no meio da estrada.

Nunca falei tanto palavrão olhando pra paisagens quanto em Banff. Mesmo com tempo nublado em todos os dias, tudo que a gente via era “putaquepariu que lindo”, “caralho que foda isso”, etc. As fotos não fazem justiça ao quão lindo é aquele lugar.

Essa é uma das melhores coisas de morar no exterior: as viagens. Como praticamente tudo ao seu redor é novo, até mesmo uma viagem curtinha de carro fica super interessante. Como a que fizemos em fevereiro, uma road trip para St. Catherines, onde ficamos num AirBnb fazendo boneco de neve no quintal.

A gente viajou um bocado esse ano – e, curiosamente, mais no outono e no inverno do que no verão. O que de certa forma faz sentido, já que nos meses quentes temos o “lado B” de Toronto. A cidade vira outra: todo mundo está nas ruas e nos parques, tem um monte de coisa acontecendo na cidade, simplesmente não dá pra não aproveitar. E, ao contrário do que muita gente pensa, no inverno tem muita programação pra fazer ao ar livre – só precisa de mais roupa.

Piquenique na Toronto Island

Com tanta viagem e dia de verão nem dá tempo de ter saudades do Brasil. As visitas também contribuem para isso; andei fazendo as contas e em 2016 não passamos nem três meses seguidos sem receber alguma visita brasileira, seja família ou amigos.

Mas não se pode ter tudo; conforme entram as novidades e alegrias, algumas coisas inevitavelmente vão ficando pra trás.

As distâncias e as perdas

O meu tempo por aqui acabou fazendo aflorar um tipo novo de distância – uma distância ideológica, e essa não há visita que supere. A coisa é complicada e tentar explicá-la vai acabar me rotulando como prepotente, mas o resumo da história é que, ao olhar o Brasil se transformando – como aconteceu com a crise toda de 2016, você vê a coisa de um jeito se estiver de dentro, e outra completamente diferente se estiver de fora. Quando as visitas brasileiras chegavam e o assunto era o Brasil, por exemplo, eu não entendia várias opiniões da conversa, e as minhas opiniões também não eram lá muito bem entendidas. No fim, achei por bem parar de acompanhar as notícias brasileiras e de opinar sobre elas nos WhatsApps e Facebooks da vida. Como diria a finada (e amada) avó da Bê, “o silêncio é a base da prosperidade”.

Por outro lado, um entendimento que melhorou ainda mais esse ano foi o do inglês. A transformação do cérebro quando confrontado com uma vida bilíngue é simplesmente fascinante: quando eu saio pra andar com o cachorro e penso na vida, os pensamentos agora saem numa mistura maluca de inglês com português que does not make sense mas que funciona beautifully. Ano passado a cachola ainda sofria pra alternar entre o português e o ingles, e a boca ainda engasgava entre os dois modos de falar. Hoje é bem mais natural.

O lado ruim dessa história é que isso é o começo de um lento e inevitável adeus ao português. Eu nem tinha reparado, mas escrevi este post seguindo, inconscientemente, o detestável esquema da “redação hambúrger” que aprendi ano passado num dos cursos da faculdade – especialmente a regrinha de que cada parágrafo deve começar com uma “frase-sumário” e depois discorrer sobre ela. É que o inglês é uma língua quadrada, dura, porém eficiente, seguindo fielmente sua raiz germânica, enquanto o português tem, literalmente, uma raiz “romântica” (ou seja, do romano/latim), e isso lhe confere uma expressividade inacreditável. E é isso que todos os meus textos em português vão perder lentamente ao longo dos anos. Vou sentir saudade de usar frases deliciosamente ingênuas, profundamente expressivas e inegavelmente brasileiras no meu dia-a-dia, como por exemplo, dizer que “esse cara manja dos paranauês”.

Conclusão – ou, “quem não planeja, é planejado”

Quem me conhece sabe que eu sou bom de planejamento. Quando fomos pra Banff, por exemplo, eu montei um cronograma da viagem inteirinha, dia a dia, com hora de início e fim de todos os itens da programação*. Meus amigos começaram a viagem me zoando… e terminaram me agradecendo.

Há dois anos, quando decidimos vir pro Canadá, é claro que tinha planejamento de longo prazo. A meta de 2016 era eu me formar já com algum emprego engatilhado para 2017, e depois conseguir residência permanente só lá pra 2018. O emprego garantido veio seis meses antes do previsto, e a residência permanente veio anos antes do previsto.

Para 2017, com a residência estabilizada por aqui, ficam liberados os planos nórdicos de longo prazo, como comprar imóveis e tal. Considerando que não tem inverno no mercado imobiliário daqui – ou seja, os preços estão pegando fogo – ano que vem provavelmente teremos um repeteco da mesma novela que foi a compra do meu apê de São Paulo (que, por sinal, estamos vendendo, viu?). E tem também uma “meta secreta”, que será revelada no momento apropriado 🙂

* – O segredo pra um bom cronograma de viagem são duas coisas: encher os prazos de “gordura”, alocando o dobro ou triplo do tempo pra cada coisa, e deixar espaços para acomodar mudanças de roteiro. Planejamento não é pra ser seguido à risca, isso é lenda. Planejamento é para servir de referência na hora de mudar de rota, porque a única certeza que você pode ter sobre o futuro é que você vai ter que mudar o planejado. E quanto às gorduras no cronograma, como diria o meu grande mestre de gerenciamento de projetos, ainda na minha época de consultoria… “cronograma sem margem de erro já nasce atrasado”.

Retrospectivas anteriores:

2015 – 2014 (não teve)2013 – 2012 2011 2010 2009 (b) – 2008 2007 2006 2005

A saga do community college canadense

Essa é uma boa vantagem de se mudar pro exterior: todo mundo acha que você está no topo do mundo, acendendo charuto com nota de 100 dólares e tal. Quando eu falo que vim “estudar fora”, nêgo acha que fui fazer mestrado em Harvard. Na verdade, eu fiz um curso que não vale nem um bacharelado em uma escola que não é nem uma faculdade. 

Bem-vindos ao mundo do community college!

Prólogo: Como assim “community college”?

community college é tipo uma “meia-universidade”. É um conceito difícil de entender porque não tem equivalente no Brasil. Na terra da Dilma do Temer, mesmo que você estude numa uniesquina da vida, no fim tu ganha um diploma e recebe o grau de bacharel, reconhecido pelo MEC e tudo. No caso do college, ele te dá um título de “meio-bacharel”, já que o curso tem metade da duração (2 anos). Pra piorar a confusão, o título que o aluno recebe no final chama-se… diploma.

Meu caso é menos pior: como meu curso tem 3 anos, no fim eu receberei um glorioso… (soem os tambores)… advanced diploma de engenharia de software. E como eu já tenho um bacharelado, eu consigo completar o curso em 2 anos e ainda fazer dois semestres de estágio (o tal do co-op que já comentei aqui).

O público-alvo do community college é, basicamente, a sobra do público-alvo das universidades – gente que não passou, que não consegue pagar, etc. Por isso, quando me matriculei, já vim esperando o pior.

O curso termina semana que vem e, depois de seis semestres, posso afirmar que minhas expectativas foram totalmente superadas… para pior, obviamente. Pra vocês sentirem o drama, vou contar pra vocês os causos separados por curso.

Curso: “Comunicação acadêmica”
Proposta do curso: Ensinar inglês no contexto acadêmico, como escrever relatórios, etc.
O que aprendi: Como provar que não colei ao escrever minha “redação-hambúrguer”.

No meio do semestre, o professor sorteou uns temas e deu um trabalho de pesquisa pra fazer em casa. Coisa séria, tinha que escrever cinco páginas no “padrão ABNT” daqui, citar outros textos, troço cheio das nove horas. Como eu gosto de escrever (e de padrões), fiz um textão fuderoso, formatei impecavelmente, e mandei.

Na semana seguinte, chega um email do professor me chamando pra uma reunião com ele antes da aula. O email não mencionava o motivo nem nada. Achei esquisito, mas confirmei. Chegando lá, o cara me solta a bomba…

– Então, como você bem sabe, a minha turma só tem estudantes internacionais e eu sei que o nível geral de inglês é bem básico…

“Bem básico” é elogio – muita gente na minha turma simplesmente não conseguia se comunicar em inglês. Sem exagero: se o prédio pegasse fogo e a pessoa precisasse discar 911 pra pedir socorro, ela morreria queimada. Mas o meu college não quer perder matrículas, então aceita esse povo mesmo assim.

O professor continuou:

– Eu recebi as redações da turma e não entendi nada, porque praticamente todas elas vieram com um inglês impecável. Então estou achando que não foram eles que escreveram. A sua redação, particularmente, estava muito boa, então eu preciso que você me prove que foi você mesmo que escreveu.

E aí ele me fez um monte de perguntas sobre o tema, sobre por que eu escrevi o que escrevi, e acabou convencido. O resto da turma ficou com zero e levou um belo torra.

Essa história da cola – ou “desonestidade acadêmica”, em termos mais educados – é uma das coisas que mais me incomodou.

Curso: “Negócios e tecnologia da informação”
Proposta do curso: Ensinar tudo aquilo que todo bom programador não se interessa em saber.
O que aprendi: Tudo sobre náutica e sobre o mercado imobiliário de Toronto.

Bob, o professor deste curso, ficava se gabando o tempo todo de ser o coordenador do curso de Gerenciamento de Projetos da Universidade de Toronto (a “UFMG” ou “USP” daqui, em termos de reputação). No entanto, todas as aulas do Bob se resumiram a:

  • Bob contando que tem um barco e de tudo que faz com o bendito barco.
  • Bob contando de quando ele trabalhava na Xerox em 1980.
  • Bob contando que vendeu a casa e comprou um apartamento.
  • Bob contando que tem uma namorada – que também vendeu a casa e comprou um apartamento.
  • Repita os assuntos acima até a exaustão.

Mas o mais legal foram as provas que fizemos, que tinham uma inovação surpreendente: questões repetidas. O cara reaproveitava questões de provas passadas nas provas seguintes. Não era nem uma paráfrase – as questões eram idênticas. E, pra melhorar ainda mais: as questões eram todas copiadas da internet, do site da editora do livro que ele (não) usava no curso.

Eu parei de assistir a aula do Bob logo no primeiro mês do curso. E fiquei aliviado de não ter torrado dinheiro e tempo na Universidade de Toronto…

Curso: “Conceitos avançados de bancos de dados”
Proposta do curso: Ensinar conceitos básicos de bancos de dados.
O que aprendi: Sempre pode piorar.

Esse curso foi tão ruim, mas tão ruim, que no lugar das minhas anotações de aula eu fiz uma lista das cagadas do professor, pra reclamar depois. Saca só a lista:

  • Numa aula, ele projetou uma lista com uns 25 itens sem o menor sentido e falou: “isso é o trabalho de conclusão de curso de vocês”. Depois, ao invés de mandar pra todos uma cópia da lista, ele mandou a gente anotar manualmente os itens, porque assim a gente seria “forçado a prestar atenção neles”. Na semana seguinte, como ninguém tinha entendido o que ele queria que fizéssemos, uns alunos foram tirar as dúvidas com ele. Ele ficou furioso: “mas eu já falei!!!”
  • Numa aula prática, ele deu pra turma uns 10 exercícios… todos com a mesma resposta. Pra piorar, o enunciado das questões era algo tipo “escreva uma consulta para extrair dados da tabela XYZ”. Adivinha se ele deu pra gente a estrutura e/ou o conteúdo da tabela XYZ?
  • Vários exercícios de “extraia os dados do banco de dados” não tinham resposta ou a resposta era um conjunto de dados vazio, tipo, “escreva uma consulta para calcular o total de vendas do usuário John Smith”, e a tabela de dados nem tinha um John Smith.
  • Várias aulas terminaram mais cedo porque ele olhou pra turma e falou: “vocês estão com cara de cansados”.
  • No meio do curso ele inventou de usar uma ferramenta da Adobe para aulas online. Aí ele passava metade do tempo da aula configurando a ferramenta, enquanto a gente olhava pra parede. Na segunda metade da aula o troço não funcionava e, quando a gente questionava, ele respondia: “vai digitando aí!”.

Curso: “Tecnologias emergentes”
Proposta do curso: Falar do que há de mais recente no mercado de software. Só que o professor usava slides com dados de 2001…
O que aprendi: A pagar o pato da turma que fica copiando trabalho.

Quase teve guerra civil nesse curso. Logo no começo do semestre o professor deu um trabalho em grupo pra turma, e obviamente a cola foi desenfreada. Por algum motivo eu me esmerei muito mais do que o normal com esse trabalho e entreguei o código-fonte mais lindo da minha vida, um primor de software, Bill Gates ficaria orgulhoso.

Na semana seguinte da entrega do trabalho, o professor mandou um e-mail cabeludíssimo pra turma toda, dizendo que tinha analisado minuciosamente todo mundo que colou e que ia mandar os nomes todos pra coordenação do curso caso as pessoas não assumissem a cola. Nem precisa dizer que eu fiquei rindo até a orelha quando vi esse e-mail.

Minha alegria durou só até o dia da próxima aula. O professor voltou atrás do nada e decidiu que, como tinha muita cola, ele ia cancelar o trabalho e redistribuir os pontos de outro jeito. Eu quase surtei – juntamente com a outra meia dúzia (literalmente) de gente que tinha feito o trabalho honestamente, e só depois de muita briga com o bendito do professor é que ele aceitou manter as coisas como estavam.

Cursos: “Integração de sistemas” e “Data warehouse”
Proposta dos cursos: Não sei, parei de me importar com isso.
O que aprendi: A ignorar o fato de que eu paguei o salário desses professores inúteis com o dólar a R$ 3.

Esses foram, de longe, os “melhores dos piores” cursos. Toda semana tinha uma aula teórica e uma aula prática, cada um com um professor. O da teoria chegava na aula atrasado, projetava o primeiro slide, depois tergiversava o resto da aula sobre como esse conhecimento é importante para o mercado, que os salários são ótimos, que a gente tinha muito que aprender aquilo… basicamente, passava a aula falando que o conteúdo era muito importante e não explicava a porra do conteúdo. Aí a aula acabava, ele notava que não passou do primeiro slide, e mandava o povo ler as coisas em casa.

Um dia ele deu uma prova e eu fiz uma pergunta sobre uma das questões. A resposta dele foi rir da minha cara – literalmente – e dizer que “se eu prestasse atenção nas aulas eu saberia”. Eu escrevi uma reclamação formal no papel da prova, dizendo que essa não era a postura que eu esperava de um professor. Ele me respondeu por e-mail alguns dias depois, reclamando que a culpa era minha de ficar o tempo todo no laptop durante as aulas.

Detalhe: o laptop é porque, ao invés de usar lápis e papel, eu faço as anotações das aulas no Evernote. Ou melhor, fazia, porque depois dessa palhaçada eu desisti de frequentar as aulas desse cara.

Ah, e tem o professor da aula prática, que era ainda mais perdido – mas perdido no nível de confundir o dia/horário da aula e simplesmente não aparecer, e de quando aparecer, entrar na sala e perguntar “o que eu tenho que ensinar hoje mesmo?”.

Mas é tudo choro e ranger de dentes nesse seu curso?

Apesar da maior parte dos professores serem desastrosamente ruins, os bons deram cursos bem produtivos. Nunca vou me esquecer da primeira aula de programação de jogos pra web, por exemplo: logo na primeira aula o cara botou a gente pra usar umas DEZ ferramentas/linguagens/tecnologias diferentes logo na primeira meia hora de aula – basicamente, ensinando a coisa mais importante em desenvolvimento de software: ficar confortável quando tu não tem a menor idéia do que está fazendo.

Teve também um professor de “APIs e microsserviços” que protagonizou um dos momentos mais satisfatórios do curso. No final do semestre ele resolveu que, ao invés de uma prova final, a turma faria um projeto de software e teria que integrar umas três tecnologias diferentes e demonstrar no último dia de aula. A turma foi praticamente toda contra, com a desculpa de que já tinha “trabalhos demais”, mas o motivo real deles quererem a prova é que ela é mais fácil pra colar…

Quando o professor anunciou o trabalho, um dos alunos – obviamente um dos grandes coladores – fez uma cara de coitadinho e um discurso triste de que ele tinha num-sei-quantos trabalhos pra entregar nas próximas semanas.  O professor deu a resposta mais linda de todas:

Amigão, o choro é livre. Imagina se você tá no trabalho, seu chefe chega pra você e fala ‘cara, eu preciso que você faça um projeto integrando esse e esse sistema, é pra daqui a duas semanas’. Você vai virar pra ele e falar ‘ah cara, não quero fazer isso não, será que tem como você me dar uma prova ao invés disso’?”

Entre todos os alunos com quem convivi, salva-se só algo tipo 2% da turma. Destaque para – sem bairrismo, juro! – a turma da américa do sul e da américa central: 

  • Fui fazer um trabalho de Java com uma venezuelana e empaquei numa parada maluca que o professor não sabia explicar e cuja documentação online parecia grego. A menina ficou acordada até as três da manhã só pra resolver o negócio.
  • Tinha também o “mexicano mágico”: no grupo do curso de Android eu estava fazendo o papel de “arquiteto de software” e volta e meia eu soltava umas ideias meio vagas, tipo “isso aqui devia ser um singleton” ou “podíamos usar Retrofit nessa integração”. O cara pegava essas frases soltas e, sem pedir explicações, aprendia as paradas por conta própria e, alguns dias depois me aparecia com os troços lindamente integrados no projeto e funcionando redondinhos.
  • Num dos meus empregos de meio-período, na escola mesmo, trabalhei com uma brasileira que fazia o design das telas do sistema e eu implementava. Normalmente, designer costuma ignorar a parte técnica, pedir uns troços impossíveis de implementar e depois reclamar que não tá bom. Essa menina era o oposto – ela lia a documentação técnica do projeto, entendia o que era possível ou não e só depois desenhava. Chegava a escorrer uma lagriminha de alegria quando ela me mandava um layout novo…
  • Por fim, o melhor programador que conheci ao longo destes dois últimos anos por aqui foi um colega paulistano. Trabalhei com ele num projeto onde deram pra gente um sistema antiquado e pediram pra acrescentar um monte de novas funcionalidades. O cara sugeriu reescrever o sistema do zero usando uma tecnologia mais moderna. Pra provar que essa seria a solução mais eficiente, refez o sistema inteiro… em DOIS DIAS.

Epílogo – Valeu a pena?

Bom, esse calvário todo foi a forma que eu escolhi pra me atualizar pra trabalhar de novo com software sem quebrar (muito) as minhas economias, usar os estágios pra pavimentar o caminho pra um bom emprego, conseguir um visto de trabalho pra digníssima e também os futuros requisitos pra residência permanente. E todos os objetivos foram cumpridos.

Pensando racionalmente, acho que a minha decepção é um tanto quanto injusta. Eu não podia mesmo esperar educação nível MIT pagando o preço de Uniesquina. No entanto, não sei se recomendaria esse mesmo caminho para outras pessoas. Talvez valesse mais a pena economizar mais um bocado e pagar por um mestrado ao invés de outra (meia) graduação.

Mas o que importa é que deu certo, estou plugado de novo na Matrix, e não pretendo mais tomar a pílula azul.

Um dia na vida do Primo (versão 2016)

Num dia desses de insônia estava revendo os arquivos do blog e me lembrei de quando fazia esses posts.

6:40 – O despertador toca e, como já estamos no outono, lá fora ainda é noite e continuará sendo por pelo menos mais meia hora – que é o tempo de eu entrar debaixo do chuveiro pra terminar de acordar.

7:00 – Já estou pronto e vestido. Pavlov, o cachorro, sabe disso e já está me rodeando porque ele sabe que isso significa que ele vai passear. Uma das vantagens de ser disciplinado é que cachorros entendem isso muito bem. Cães gostam de rotina – isso faz com que eles se sintam seguros.

7:24 – Eu e Pavlov temos um acordo tácito de por onde vamos passar todo dia de manhã. Ele, naturalmente, alterna entre os múltiplos caminhos rotineiros sem que eu precise interferir. Quando chove eu costumo optar por um caminho mais curto (e seco) – e de forma sobrenatural Pavlov já sabe disso e sai andando pelo trajeto “seco” sem que eu precise dizer uma palavra.

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Se você se perguntou “cadê a coleira”, boa pergunta. Em Toronto a lei manda que cachorros fiquem sempre de coleira, mas a essa hora nunca tem ninguém na rua mesmo, e se eu encontro alguém eu prendo ele de novo. Além disso, solto assim, fica mais fácil pra Pavlov praticar seu esporte predileto: perseguir esquilos.

7:40 – Hora do café da manhã, que no meu caso é só um punhado de cereal. Enquanto como, eu preparo a “marmita” do almoço e escuto o noticiário matinal da CBC (via TuneIn Radio) – outra das minhas rotinas matinais.

As notícias locais por aqui costumam ser motivo de piada porque nada de relevante acontece em Toronto. No último inverno, por exemplo, a notícia mais marcante da estação foi que os esquilos estavam ficando gordos demais por causa das temperaturas elevadas. Entretanto, neste dia a CBC passou uma entrevista interessantíssima com uma eleitora do Trump – uma canadense, mas com dupla cidadania nos EUA – e comentou de uma campanha brilhante chamada “Tell America it’s Great” (diga à América que ela é excelente). Os comentaristas diziam que essa foi a coisa “mais canadense” que eles já viram. Concordei.

(em tempo: fica aqui a menção honrosa à minha Bose Soundlink, a “pequena notável”. Comprei usada num site de leilão de produtos devolvidos da Best Buy, paguei uma pechincha, e essa caixinha tem o melhor som que já vi NA VIDA. Sem brincadeira.)

0740

7:55 – Hora de sair de casa e andar até a estação de trem. O frio ainda está bem suportável (10 graus) então basta uma jaquetinha e pronto.

8:07 – Como de costume, o trem vem sempre exatamente na mesma hora.

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Coincidentemente eu moro bem do lado da linha de trem expressa que conecta o aeroporto até o centro da cidade. A passagem costumava ser bem salgada, mas como ninguém estava usando o trem, acabaram abaixando a tarifa para acessíveis CAD$ 5. Só pra efeito de comparação, pegar ônibus/metrô iria me custar CAD$ 3, mas eu levaria no mínimo o dobro do tempo.

Ainda no assunto da rotina: como eu saio de casa exatamente na mesma hora e pego exatamente o mesmo trem, eu vejo exatamente as mesmas pessoas na estação todo dia. Tem o gordinho que sempre está assistindo desenho japonês no celular e embaralhando seu baralho de Magic, tem o indiano de terno, tem a loira do cabelo produzido que começou a paquerar um outro cara no trem, tem o “casal assimétrico” (a menina mede 1,50m e o namorado tem uns 2m de altura)…

8:24 – O trem chega na Union Station, a estação central. De lá são mais 10 minutos de caminhada até o trabalho – tudo por dentro dos prédios interconectados do centro, para que as pessoas não precisem andar pela rua quando está tudo congelante lá fora.

Além do clima, o cuidado do canadense com a segurança é tão exagerado que chega a ser engraçado. No caminho do trem até o trabalho eu passo por nada menos do que onze portas corta-fogo. A foto abaixo é logo depois de quando eu passo pela primeira delas.

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8:40 – Como o mundo dá voltas. Eu comecei minha carreira como analista de sistemas em um banco, e aqui estou novamente.

Parece a mesma coisa, mas é muito diferente. Os tempos mudaram, e ao invés de uma mesa fixa eu agora trabalho numa “sala de guerra” com o time todo no mesmo local, dividindo uma grande sala de reunião. Isso significa que o tempo todo tem mini-reuniões ou teleconferências acontecendo bem do seu lado.

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No início era desesperador tentar trabalhar com dezenas de pessoas conversando ao seu redor – e em inglês, o que aumenta ainda mais a sobrecarga cognitiva na cachola. Mas agora eu já estou (razoavelmente) acostumado. Outra coisa que ajuda é o fato de que a maior parte das estações de trabalho aqui no banco não são fixas e podem ser reservadas online por qualquer pessoa – assim, todo santo dia eu reservo duas ou três horinhas longe da bagunça para conseguir me concentrar.

12:50 – Na minha primeira “temporada” de analista de sistemas eu teria passado a maior parte da manhã procrastinando e vadiando na internet. Atualmente, eu produzo o tempo todo, feliz da vida. Parece aquelas histórias de amor de novela, cheias de desencontros, mas que no fim os protagonistas finalmente descobrem que realmente se amam e foram feitos um para o outro. Eu levei quase uma década flertando com outras carreiras, mas concluí que software é meu amor verdadeiro.

Na hora do almoço, ao invés de sair e ficar duas horas de papo pro ar, eu fiz uma reunião com o meu chefe e ambos almoçamos em frente aos nossos computadores, como é o costume na América do Norte. Abaixo, a minha “marmita” do almoço com uma saudável salada.

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13:58 – Hora de mais reunião, dessa vez no Oasis, que não é a banda londrina e sim o nome do refeitório aqui do andar. Hora também de tomar o chá da tarde (porque o café da máquina daqui é intragável).

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A tevê está ligada no CP24, o canal “oficial” de toda TV pública daqui de Toronto. O canal é tipo uma “Band News” num mosaico fixo de notícias, clima, trânsito, ações, resultados do esporte, tudo na mesma tela.

17:03 – A vantagem de não parar pro almoço é que quando dá cinco horas… acabou o trampo! É hora de voltar pelas minhas onze portas corta-fogo e admirar o trânsito parado do centro da cidade pelas paredes envidraçadas das passarelas onde passo. De carro eu levaria mais de uma hora pra chegar em casa.

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Curiosamente, só porque eu estava registrando este dia pra postar aqui no blog, o trem atrasou uns quinze minutos e veio “lotado”. Nessas horas eu acho engraçado o despreparo do canadense pra lidar com imprevistos. Tava todo mundo indignado com as filas e a muvuca nos corredores do trem…

17:48 – Ao chegar em casa, sou amplamente recepcionado por Pavlov. É sempre assim: eu passo oito horas longe de casa e ele se empolga com a minha chegada como se eu estivesse voltando da Segunda Guerra Mundial. Tanto que mal consegui fotografá-lo pra este post…

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Além dele eu também reencontro Bethania, que chegou de uma viagem de trabalho para NY. Ficamos os dois preguiçosamente no sofá por umas boas duas horas, que foi o tempo de assistir os Blue Jays perderem o quarto jogo da post season e serem eliminados do campeonato pelo time de Cleveland.

Os jogos foram polêmicos, mas por um motivo bem esquisito: o narrador local recebeu uma carta de protesto de um telespectador de origem indígena, e decidiu que não ia usar o nome do time de Cleveland – chamado “Indians” – na transmissão porque aparentemente isso seria “ofensivo”. Teve até um juiz que tentou entrar com um mandato pro time não usar o nome no uniforme e retirar também o seu mascote (um indiozinho pele-vermelha), mas o mandato foi derrubado.

Os torcedores de Cleveland (na foto abaixo), auto-intitulados “a tribo”, não parecem se importar com essas coisas.

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21:19 – Vale lembrar que eu tou numa vida de “jornada dupla”, trabalhando e estudando, então logo depois do jogo, acabou o descanso: hora de ir fazer os trabalhos da faculdade.

Aproveitei a noite pra fechar um trabalho do curso de “game programming” e, ao mesmo tempo, acompanhar o debate presidencial nos EUA.

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O debate foi… bem, digamos que meu trabalho tava muito mais interessante. O professor mandou a gente fazer uma fase de um jogo estilo platformer – joguinho clássico, estilo Mario, de sair pulando em plataformas. A fase precisava ter cinco minutos de gameplay e incluir inimigos, pontuação, sons, etc. Durante a aula o professor viu que meu layout pra fase incluía as clássicas plataformas que se movem e me orientou a tomar cuidado porque “plataformas móveis são difíceis de programar”. E na hora do vamo ver eu levei menos de uma hora pra fazer com que elas funcionassem ¯\_(ツ)_/¯.

A fase inteira não levou nem dois dias pra ficar pronta. Note que o personagem principal veio “emprestado” do Metal Slug, e os sons são “emprestados” do clássico Doom 🙂

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O código-fonte do jogo (Unity/C#) está no meu Github, inclusive.

23:01 – Depois de concluir toda a minha “lição de casa”, hora de dormir e começar tudo de novo amanhã…