Posts da categoria ‘Arte’


Pavlov – Um artista de vanguarda (parte 4)

20 de agosto de 2007, 18:27

(Leia também a parte um, dois, três e o “bônus”)

No último sabado eu estava no computador quando Pavlov chegou e se assentou ao meu lado. Estava roendo alguma coisa.

Passei a mão em sua cabeça e perguntei: “E aí, o que você está comendo?”

Instantes depois eu estava praticamente em estado de choque, completamente sem palavras: Pavlov tinha em suas garras uma nova obra de arte…


Celular
(Plástico e materiais diversos – 2007 – Acervo do artista)

Este é mais um genial trabalho plástico, um work in progress de “evisceração” de ready-mades eletrônicos. É toda a fúria animal de Pavlov, expressada em suas dentadas e garradas, buscando evocar em quem contempla seu trabalho toda uma gama de sentimentos primitivos de ódio, revolta e violência (como eu mesmo senti).

Curiosamente, o celular não ficou completamente destruído: apenas a tampinha traseira foi mastigada. Com isto, Pavlov manda uma clara e curiosa mensagem de que “sem a casca, o conteúdo perde o valor” e, assim, confronta o valor estético do aparelho contra seu valor funcional. E neste confronto apenas o artista sai ganhando…


Pavlov – Um artista de vanguarda (parte 3)

26 de julho de 2007, 21:35

(Leia a parte 1 aqui e a parte 2 aqui – e um “bonus track” aqui)

A vida moderna nos liberta ou nos escraviza? A tecnologia expande horizontes ou constrange as mentes? Viver num mundo sem fio significa viver acorrentado?

Todas estas questões são levantadas no novo, simples e genial trabalho do artista plástico Pavlov, intitulado Controle.

Controle remoto semidestruido por mordidas
Controle
(plástico, circuito impresso e borracha)
2007 – Acervo do artista

Este trabalho simples tem muito mais do que os olhos vêem. O que parece ser apenas o controle remoto do meu DVD semi-devorado pelo meu cachorro é uma obra-prima de múltiplos significados, em múltiplas instâncias de meta-realidades que convergem tanto para o agora quanto para futuros apocalípticos distantes. A começar pelo título: o controle perde sua função ao ser devorado, pois passa de controlador a controlado. Não é ele quem diz o que vamos ver: agora ele só serve para ser visto.

A evisceração do controle remoto foi feita por Pavlov usando a sua famosa técnica de manipulação oral: mordidas e dentadas, uma catarse aonde o instinto mais animalesco faz nascer a arte mais sublime. A violência do trabalho serve a um fim nobre: mostrar o vazio que realmente há por dentro de toda esta modernidade eletro-eletrônica que nos cerca, revelando o que há por trás da casca destes monolitos bebedores de sangue elétrico que usamos para praticamente tudo (inclusive para ler este post).

Pavlov
Pavlov, com um ar meio blasé


Cinema ruim, robôs, decepções e arte moderna.

23 de julho de 2007, 16:20

Sexta-feira eu assisti Transformers. Que é um filme bem mais ou menos. Eu fui animado por ver os reviews que alguns blogueiros postaram após uma pré-estréia, mas me decepcionei.

Transformers é um episódio de Malhação com eventuais aparições de robôs.

O roteiro é patético e só não cai aos pedaços por causa do carisma de Sam Witwicky, o personagem principal (interpretado por Shia LaBeouf). Falar dos efeitos especiais é desnecessário – bons efeitos são commodities em qualquer filme não-independente feito depois de 2001 – mas o diretor exagerou. O combate final, por exemplo, fica impossível de acompanhar: tem coisas demais acontecendo na tela e roteiro de menos para dar sequência àquilo tudo.

Por sinal, acabei decepcionado em todas as vezes que fui ao cinema este ano. O que diabos aconteceu em 2007? Onde estão os filmes realmente bons? Eu devia ter lido o Vilaça, que deu duas estrelas pra essa joça, antes de gastar R$ 7 no ingresso…

No domingo eu finalmente visitei o Centro de Arte Contemporânea Inhotim, em Brumadinho, à uma hora de carro de Belo Horizonte.

O Inhotim é um mashup (hehe) de museu de arte moderna com parque e jardins planejados. É um ótimo programa para um domingão de sol.

O acervo do Inhotim é excelente, mas uma obra em particular me chamou a atenção: foi Samson, de Chris Burden (foto ao lado). Samson (“Sansão”) é uma escultura conceitual, composta por uma máquina com dois pilares de madeira pressionando as paredes laterais da galeria. No meio deles há um martelo hidráulico de 100 toneladas, que fica conectado à roleta que dá entrada para a galeria. O funcionamento (mostrado com detalhes neste vídeo) é assim: Cada pessoa que passa pela roleta aciona um mecanismo que aciona o martelo e afasta, milímetro a milímetro, os pilares que pressionam as paredes. Assim, se passar gente suficiente pela roleta, a escultura vai acabar demolindo a galeria.

Genial. É por isso que eu adoro arte moderna…


Bump, tick, scratch – desconstruindo para construir

16 de julho de 2007, 18:55

Tipo que eu parei de fazer posts que só replicam conteúdo de outros sites: o que eu vejo na net e acho interessante eu boto no meu del.icio.us e aparece ali na coluninha à direita.

Mas esse é muito foda e precisa ser mostrado aqui, com destaque.

Vi no Urbe um pequenino curta chamado “Bump, tick, scratch” que mostra o processo de criação de loops usado por John Pugh, baterista do !!! (leia-se “chk chk chk”). É lindo. É muito lindo. É genial. É um Ctrl+C, Ctrl+V só que de verdade.


Três conselhos que tornam meu casamento mais feliz

25 de maio de 2007, 19:04

Conselho 1

A posição das xícaras na mesa interfere diretamente no bem-estar da minha esposa.


Assim está ERRADO!! Esposa em pânico!! Morte, dor e sofrimento!!!


Assim está CERTO! Esposa feliz! Prosperidade conjugal!

Conselho 2

A qualidade da panela de pressão de seu lar interfere diretamente no branco do seu fogão e de tudo que o circunda. A razão disto é que, quando você cozinhar feijão preto numa panela vagabunda, a válvula de segurança vai estourar e você terá fotos bem nojentas para postar no blog.


…e ainda faltaram fotos dos armários (brancos) e do teto (branco), que ficaram imundos. É sério, voou feijão até o teto.

Conselho 3

As criações em artes plásticas dos seus animais de estimação (leia aqui e aqui para entender) interferem diretamente na integridade física da decoração do lar, bem como no nível de pressão sanguínea dos seus proprietários.

Digo isto porque Pavlov canalizou seu ímpeto criativo/destrutivo para os livros de arte que ficam na mesinha de centro da sala, num trabalho instigante que expressa, ao mesmo tempo, o desprezo pela arte e o desejo de consumí-la, devorá-la. Coisa de gênio.


“Hopper” – Técnica mista (mordidas/patadas) sobre papel impresso
Acervo do artista – 2007

P.s.: Falando em Hopper, alguém mais notou que a propaganda do Ford Fiesta tem um cenário “chupado” do seu quadro mais famoso, o “Nighthawks”?


Pavlov – Um Artista de Vanguarda (parte 2)

26 de fevereiro de 2007, 18:15

Parte um aqui

O tempo traz consigo a maturidade para os jovens artistas. O ímpeto criativo, por vezes descontrolado, pouco a pouco vai ganhando forma e direção. Normalmente é nesta fase da carreira que os artistas produzem suas obras-primas.

Pavlov, artista precoce, não precisou dos favores do tempo e da maturidade para demonstrar direcionamento criativo, e surpreendeu mais uma vez ao produzir as obras da série intitulada “quinas”.


Quina 1
Plástico, terra, plantas, pedras decorativas – 2007
Acervo do artista

Em sua arte, continuam onipresentes o sentimento da fúria primal e da oralidade: Pavlov executa todos os seus trabalhos com a boca, nas madrugadas onde fica sozinho e livre em sua casa. Mas a novidade agora é o objeto do trabalho: as quinas. Quinas que, destruídas, tornam-se “ex-quinas”, e que ilustram o sentimento de estar à beira de algo, à margem, até mesmo encurralado.


Quina 2
Madeira, metal e plástico – 2007
Acervo do artista

As obras da série “quinas” também fazem uma brincadeira com a sua crescente popularidade no mercado da arte. O release publicado no mês passado foi um dos posts mais populares de todos os tempos – bateu o recorde de comentários, por sinal -, mas ainda assim Pavlov se coloca à beira das suas obras, compostas basicamente por grandes móveis, adulterados em apenas uma de suas beiradas. Esta também é uma referência ao poder de sua arte: com simples mordidas, alterações aparentemente insignificantes quando se considera a dimensão do objeto adulterado, Pavlov praticamente os inutiliza e os despe de sua função estética original, depreciando profundamente seu valor – causando assim um impacto e horror profundos em quem os encontra semidestruídos.

Este horror provocou uma reação interessante em Bethania Duarte, a responsável pela curadoria de suas obras: tomada de um sentimento de repulsa pela destruição do móvel usado em “Quina 2″, Bethania cobriu a beirada semidestruída do móvel com pimenta, para impedir que Pavlov concluísse sua obra. No dia seguinte, o móvel continuou sendo trabalhado: Pavlov adorou o sabor da pimenta.

Esta é, sem dúvida, a marca inegável de seu gênio.


Pavlov – Um artista de vanguarda

29 de janeiro de 2007, 21:44

Bem que eu achei que estava ganhando apenas uma bola de pêlo saltitante quando concordei com a história toda de ter cachorro em casa.

Mal sabia eu. Pavlov, apesar do nome de cientista, na verdade é um artista plástico. Até escrevi um release pra ele…


Pavlov – O ego feroz por trás de uma arte instigante


Pavlov em casa, manipulando tecidos para um projeto

Uma arte movida por um desejo primal. Talvez esta seja uma das formas de descrever o trabalho do jovem Pavlov. Sua produção é o produto de um pensamento não-contínuo, algo bestial, que se traduz num desejo incontido recalcado na oralidade da infância e que produz obras cheias de símbolos expressivos, violentos, destrutivos.

 
“Óculos”
Metal, plástico e resina – 2007
Acervo do artista

Pavlov usa como meio de expressão os readymades da vida moderna: objetos comuns do cotidiano. Em seu processo criativo estes objetos são destruídos pelo artista, numa catarse irracional, usando sua própria boca (Pavlov chega a “mastigá-los” por horas a fio) E é neste ponto que começa a beleza de sua obra, que constrói partindo do caminho inverso: o da aniquilação.

A complexidade da arte de Pavlov pode ser percebida em vários outros níveis, ao se considerar, por exemplo, a forma com a qual as peças são trabalhadas. Em “Óculos” percebe-se a “quebra”, a “divisão” da “visão” interior do artista. Teria ele, distorcendo este símbolo de filtro da visão, obtido uma percepção ainda maior da realidade que nos cerca? Teria a sua obra uma mensagem implícita, convidando-nos a jogar fora nosso antigo método de observar o mundo?

 
“Sapato”
Couro e borracha – 2007
Acervo do artista

Em “Sapato”, esta abordagem é ainda mais evidente. Com sua boca, Pavlov trabalha a “língua” do sapato e constrói nele uma nova boca, distorcida e sem voz – como a boca do próprio artista (que não costuma falar muito). A escolha dos objetos também demonstra uma clara afronta a tudo que é rotineiro, corporativo, ligado a escritórios e a trabalho, e ao mundo humano comum. Nada parece escapar ao seu ímpeto criador-destruidor.

A manipulação de objetos representa uma nova fase da carreira de Pavlov, que anteriormente trabalhava de forma ainda inocente, mas agressiva, usando seus excrementos como forma de expressão. O material de produção de suas obras evoluiu, mas sua criação ainda conserva a mesma determinação em chocar seu público e despertar confusão e raiva. Pois é nisto que está o cerne da obra de Pavlov e sua consequente genialidade: em sua obstinação de ser infantil e irracional, ele nos mostra o quão animalizada a criatura humana pode ser quando os objetos-ícones de sua rotina são brutalmente (e oralmente) reestruturados.


Patins e artes cênicas

20 de junho de 2006, 12:02

Ah, o feriado. O feriado serviu, basicamente, para preparativos do casamento, que se aproxima em altíssima velocidade.

O feriado era de Corpus Christi, portanto eu e Bethania fomos pagar nossos pecados fazendo uma peregrinação pelas lojas de móveis de Belo Horizonte. Consegui a proeza de gastar quase 40 litros de gasolina em quatro dias, e muitos outros dinheirinhos com mobília. A coisa tava tão preta que eu e Bethania estávamos pechinchando até na hora de comprar um varal.

Mas como diria Jack Torrance, muito trabalho e pouca diversão fazem de Jack um bobão, então aproveitamos uma das noites para conhecer um restaurante chamado Esopo.

O Esopo é obra de um cara que fez um restaurante no seu ateliê de pintura e que contratou atores para se vestirem de pierrôs e ficarem fazendo brincadeiras com os clientes a noite toda. Os pierrôs trocam o pessoal de mesa, levam o pessoal pra dançar no palco, declaram poesia, é uma balbúrdia. Mas uma balbúrdia divertida.


Momento “todos dançando e rodando” no palco…

Teve também um momento “castanholas”, onde uma senhora, vestida num vestido preto de bolinhas brancas, saiu clac-claquezando, rodopiando por entre as mesas e gritando coisas em espanhol, completamente despirocada, como se tivesse tido uma overdose de guaraná em pó. Ela levou um pessoal para o meio do palco e sapateou com o público. E para horror geral, ela levantava a saia para mostrar como era o sapateado. Mas levantava a saia TODA. Eu ainda estou com essa imagem impregnada no meu cérebro.

E o ponto alto da noite foi numa hora em que os pierrôs e umas dançarinas de flamenco estavam no palco com alguns clientes, e de repente um senhor, baixinho, barbudo e grisalho, sobe no palco e começa a gesticular com as mãos para o alto, e depois começa a “comandar” as bailarinas com gestos e poses estilo “eu sou foda pra caralho”, como se ele fosse um deus, completamente alheio à movimentação do resto do pessoal. A “performance” dele foi tão autista que até os garçons pararam pra ver.

Era ninguém menos que o dono do lugar…

O cara é o típico artista doido. Atrás do palco fica uma tela enorme de 4 metros de altura e 8 metros de comprimento, intitulada “O Equilíbrio Humano”, que levou 4 anos pra ser pintada (e outros 15 só de preparação, estudos e concepção). Não perca a explicação da tela, dada pelo próprio autor, no site.

Em outra das noites, após a peregrinação obrigatória, fomos experimentar um ringue de patinação no gelo que montaram num shopping. Levei de brinde algumas bolhas nos pés e essa foto aí do lado, que minha irmã bateu. É de um gayzinho que passou horas rodando, como uma bailarina, no centro do ringue.

Nunca imaginei que ser gay fosse uma coisa tão… gay.


O artista arteiro

12 de abril de 2006, 0:10

Em janeiro de 2006 o artista plástico japonês Souzousareta Geijutsuka foi convidado especial do Museu de Arte Contemporânea de Fortaleza, com a mostra “Geijitsu Kakuu”. Os jornais publicaram belas resenhas do cara, que até deu entrevista por e-mail.

Aí no dia da exposição não tinha obra nenhuma do cara. Nem mesmo o cara tava lá. Só umas mensagens na parede. Uma delas dizia:

“O que me interessa é interrogar sobre a qualidade do que compõe todo esse sistema de legitimação estética: críticos, jornais, artistas, curadores, galerias, museus e o próprio público”

Souzousareta Geijutsuka, em japonês, significa “artista inventado”. Geijitsu Kakuu (o nome da mostra) significa “arte e ficção”. Ou seja, era tudo inventado. O golpe todo aí foi obra de um artista plástico real, cearense, chamado Yuri Firmeza.

Eu li isso no avião hoje, e achei simplesmente magnífico. Pena que o link com mais informações que achei saiu do ar.


A Última Pergunta (ou: filmes vs. livros)

23 de janeiro de 2006, 16:30

Eu nunca tive muita paciência para livros.

Não que eu não goste de ler, mas é que, em se tratando da arte de contar histórias, eu preferia muito mais os filmes do que os livros, em grande parte por pressa. É que, numa análise superficial, é bem mais rápido assistir a trilogia de O Senhor dos Anéis no cinema do que passar os olhos, letra a letra, pelas milhares de páginas da obra de Tolkien. E olha que são umas nove horas de filme no total.

Eu já sabia que este meu argumento era falho. Mas foi hoje que percebi o quanto ele é falho.

Tava vendo os links no populicio.us e tinha um deles intitulado The Last Question (A Última Pergunta) – É um conto de Isaac Asimov que eu nunca tinha lido e que estava prefaciado no site mais ou menos assim:

Isaac Asimov foi o autor de ficção científica mais prolífico de todos os tempos. Em cinquenta anos ele produziu, em média, um artigo de revista, conto ou livro novo a cada duas semanas, a maioria deles numa máquina de escrever mecânica. Asimov considerava “A Última Pergunta” (…) como o melhor conto que já escreveu. Mesmo que você não tenha conhecimento científico suficiente para entender todos os conceitos apresentados, a história possui um final mais impactante do que qualquer outro livro que já li. Não leia o final da história antes!

Como o conto é curtinho, li rapidamente… e meu queixo foi no chão logo após ver as palavras finais da história. Há tempos eu não lia nada tão genial quanto aquilo, e pelo visto vão passar ainda mais muitos anos até que eu leia algo tão genial novamente.

Aí eu lembrei dos filmes e percebi a dimensão do meu erro ao comparar uma coisa com a outra: um filme sobre este conto JAMAIS faria jus à sua grandiosidade. Esta é uma história cuja dimensão só pode ser concebida mentalmente quando lida – imagens num filme representariam apenas uma fração da história – até limitariam a percepção dela – e no final estragariam tudo.

Eu recomendo que você pare o que estiver fazendo e vá ler o conto. Tem uma tradução meio tosca aqui. E, repetindo: NÃO LEIA O FINAL antes!


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