Das cidades

Eu nasci em uma capital com alma de cidade de interior (Belo Horizonte), moro numa megalópole caótica superlotada (São Paulo) e atualmente trabalho em uma cidade quadradinha e planejada (Brasília). E sempre gostei das cidades, especialmente das grandes, e prefiro passar o meu tempo nelas do que no mato ou numa praia.

Cidades são conjuntos de pessoas e, exatamente por isso, tornam-se também entidades com características pessoais. Cada uma tem forma própria, tem uma beleza ou feiúra peculiar, cada uma tem tamanhos, climas e problemas próprios – assim como pessoas, e assim como as pessoas que as habitam.

A cidade é a mais humana de todas as obras humanas. E, como criatura, sempre reflete seu criador – e é aí que reside a sua beleza. Não me refiro à beleza plástica, ao ser bonito, e sim ao ser autêntico. Em São Paulo, quando você sai do metrô na Sé e fica entre a imponência santificada da Catedral e a imundície da praça em frente, na verdade é como se você estivesse no meio de um ser humano e de todas as suas incoerências. São Paulo tem muitas delas, e é por isso que eu acho São Paulo uma cidade fascinante.

É é também por isso que eu considero cidades planejadas (sim, você mesma, Brasília) um erro por definição. Não se planeja uma cidade, da mesma forma que não se planeja uma pessoa. Ninguém sabe aonde vai estar daqui a 20 ou 30 anos. Muito menos algumas centenas de milhares de pessoas. Muito menos ainda algumas centenas de milhares de pessoas que convivem no mesmo espaço urbano. Cidades precisam poder crescer ao sabor das épocas, precisam poder registrar a passagem do tempo na fachada dos seus prédios e na urbanização dos seus bairros. Cidades precisam poder ser produto de todos que a compõem, e não apenas ser fruto da cabeça de quem a concebeu. As superquadras do Plano Piloto são prisões da mente de Lúcio Costa.

Já a minha terra natal (Belo Horizonte) é a prova de que uma cidade, como um ser humano, tem alma. Beagá corre atrás para espelhar os progressos e os problemas das outras capitais e, de cima, não deixa nada a desejar à outras metrópoles: tem engarrafamento, tem favela, tem shopping de luxo e tudo o mais. Mas tem algo intangível entre um poste e outro, entre uma e outra buzinada do ônibus. É possível entrever uma atmosfera interiorana, quase provinciana, que o vidro, concreto e aço nunca vão tapar.

Cidades são assim, complexas, mas acima de tudo, antropomórficas. Isso é o que me faz gostar de estar nelas. A cidade, além de ser sua cidade, é também um pouco de você.

Momentos belorizontinos

Ir à BH significa encontrar conhecidos na rua sempre que você sair pra rua. Aparentemente isso inclui a estrada, porque encontrei uma antiga conhecida no meio da BR-381, perto de Três Corações, na viagem da ida.

Já em Beagá, fomos a um concerto no Palácio das Artes e vi logo três conhecidos de uma vez. No dia seguinte fomos ao shopping e, voilá, encontramos um colega leitor deste blog. Mais tarde, em outro shopping, comentei com Bethania:

– E aí, será que vamos encontrar mais um aqui?

30 segundos depois, adivinha…


Numa visita à uma tia de Bethania, eis que acho em cima da mesa uma cópia autografada de “Fresta por onde olhar”, livro da esposa do Exu Caveira Cover, lançado recentemente. Mundo realmente pequeno, este.


A razão da ida pra Beagá foi o aniversário de Bethania que, por sinal, bateu o personal festas de aniversário record: três comemorações em BH e tem mais alguma coisa prevista aqui pra São Paulo.

Numa delas (a comemoração “família”) meu irmãozinho foi comer um cajuzinho depois dos parabéns e, sem a menor cerimônia, solta um grito memorável:

– ESSE DOCE TÁ UMA PORCARIA!!!


A outra frase memorável do feriado foi do meu cunhado. Dizia ele que estava num ônibus e um gay se sentou atrás dele e começou a sussurrar: “Gostoso…”

A resposta dele foi hilária:

– Escuta aqui, você me respeita, porque eu até respeito essa PORRA DE OPÇÃO SEXUAL sua!!


…e, antes de voltar pra São Paulo, passamos no supermercado e gastamos R$ 25 em queijo. Só pra cumprir com o estereótipo.

A Saga do Esquenta

Então, como parte da preparação para o BlogCamp MG que rola em novembro, o pessoal resolveu fazer um "esquenta" – um encontro informal num boteco.

Eu, como estou apostando bastante nessa movimentação dos blogs belorizontinos, não ia perder uma coisa dessas, então fui direto do aeroporto (estava chegando do Rio) para o boteco combinado. Cheguei lá umas 22:30.

Do grupo eu conhecia no máximo duas ou três pessoas "ao vivo", mas fora isso o plano era alguém deixar uma "plaquinha" avisando que aquela mesa era a do BlogCamp. Então eu entrei, olhei, procurei… e nada. Aí fiquei "panguando" na porta do lugar por um tempo, olhando pras mesas, vendo se reconhecia alguém. Entrei no meu email (Deus abençoe o Opera Mini!) para ver se alguém havia mandado alguma mensagem, mudando o lugar do encontro ou avisando que havia sido cancelado. Nada. No Twitter, nada também. Tentei ligar pra Bethania, para dar um "abort mission" e pedir a ela pra me buscar, mas o telefone estava desligado (ela estava vendo uma ópera no Palácio das Artes). Aí, não me sobraram muitas outras opções senão achar o pessoal – isso se eles realmente estivessem reunidos em algum lugar.

Era hora do "plano B" – fui pra frente da Cantina do Lucas (um restaurante próximo que fica dentro do prédio e que é menos barulhento e mais seguro) e liguei para a ÚNICA pessoa do grupo que eu sabia o telefone: Jorge Rocha, o Exu Caveira Cover.

Detalhe que eu nunca havia conversado ao telefone com o cidadão até aquele instante:

– Alô, Jorge?
– Sim…
– Aqui é José Carlos… "O Primo"… tudo bem?
– Fala cara, beleza?
– Tranquilo. Onde você está?
– Uhh… em casa?

E mais uma vez eu estava sem opções de como encontrar o pessoal. Mas, de repente, enquanto os punks e demais criaturas mutantes do Edifício Maletta passavam na minha frente, eu tive um outro lampejo de criatividade e bolei um "plano C" – descobrir o telefone de Esparroman.

Esparroman trabalha na mesma empresa que eu, lê meu blog, eu leio o blog dele, e nós NUNCA nos encontramos ou falamos pessoalmente. Acontece que Michael Jackson (o trainee da época de Windturn City) conhecia Esparroman e uma vez me disse o nome real dele. E Esparroman havia dito, na lista de discussão do BlogCamp, que iria ao "esquenta". Acionei o Opera Mini de novo, fui na extranet da nossa empresa e procurei o telefone dele na lista de contatos. E lá estava o nome dele (que, digamos, era "Eduardo").

– Alô, Eduardo?
– É.
– Eduardo… esparroman?
– É.
– Aqui é O Primo…

Momento épico! E ainda tem a diversão adicional de ver ele narrando este mesmo telefonema no blog dele. Mas no fim das contas descobri que Esparroman também não achou o pessoal no boteco e acabou indo parar em outro bar, com uma amiga.

Bethania continuava com o celular desligado, e eu continuava sem opções de achar o pessoal. Aí resolvi usar a última carta da manga, o "plano D". Eu não queria ter que usar o "plano D" porque ele, bem, geraria um certo desconforto. Mas peguei o telefone e disquei:

– Alô, Norton? Bão?
– Bão…
– Cara, posso te fazer uma pergunta muito esquisita?
– Manda.
– Me passa o telefone da sua ex-namorada..?

Pois é. Renata também tinha dito que ia ao "esquenta". Confesso que liguei pra ela esperando uma resposta do tipo "ah, estou em Sete Lagoas jogando Zelda no meu Wii". E qual não foi a minha surpresa quando ela disse:

– Estou no Redentor com o Bressane.

Bingo – o plano D, a última cartada que eu tinha, funcionou. Fui pro Redentor me encontrar com os dois. Foi bem legal. No fim das contas, pelo que entendi, os dois deram o "esquenta" como fracassado e saíram por conta própria. Naquela altura eu também tinha imaginado que todos haviam dado o bolo em todo mundo e que o "esquenta" sequer tinha acontecido.

Aí, hoje de manhã, começam a chegar os emails na lista do BlogCamp e eu não entendi nada:

"Excelente, deve rolar mais esquentas, a galera se entrosou bem e a conversa rolou solta!"

"Até o Carlos, caladinho aqui na lista apareceu!"

Peraí, o troço rolou? Mas eu não vi ninguém lá! E o comentário no email sobre as plaquinhas foi…

"As plaquinhas duraram só até a garrafa de Anisio chegar na metade, daí pra frente nós acabamos indo parar num mundo paralelo e esquecendo de levar as plaquinhas conosco."

Só esclareci o mistério hoje, depois de chamar Camila no GTalk. Ela me contou que, sim, rolou o "esquenta". Mas como o lugar estava "cheio, abafado e barulhento", eles se mudaram de boteco e foram para a Cantina do Lucas, e lá ficaram até pouco antes das onze da noite.

Lembra do quarto parágrafo deste post? A Cantina do Lucas era o lugar onde fiquei telefonando pro pessoal!

Resumo da ópera: aparentemente, eu cheguei por coincidência no lugar onde o grupo do "esquenta" oficial estava e me desencontrei deles por uma questão de minutos. E, por sorte, encontrei Renata e Bressane no que acabou se tornando um "esquenta paralelo". Maravilha!

Inscrições abertas para o BlogCamp MG

E em novembro vai rolar aqui em Belo Horizonte o primeiro BlogCamp MG.

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O BlogCamp é um encontro de blogueiros no formato “desconferência” – uma conferência sem programação prévia. Quem quiser falar, vai lá e inscreve sua palestra na hora. Assiste e participa quem quiser. É tudo informal e aberto – e, portanto, divertido.

Este formato é famoso na internet e conhecido como BarCamp – assim, “BlogCamp” ficou sendo o BarCamp dos blogueiros. O primeiro BlogCamp brasileiro rolou em agosto, em São Paulo. Vão rolar outros no Rio, em Curitiba, no Ceará e, agora, aqui na terrinha.

Para o evento de Beagá, a coisa é promissora. A Oi Futuro está por trás da divulgação e tem patrocínio do BlogBlogs e do Dinheirama.

Data: 17 e 18/11, sábado e domingo
Horário: 9:30 às 18:00
Local: Oi Futuro – Museu das Telecomunicações – Avenida Afonso Pena, 4001, térreo

Eu, que sempre tive preguiça da web brasileira, já estou inscrito. Essa movimentação atual dos blogueiros brasileiros é uma coisa ímpar que muito me anima.

Aguardem ampla cobertura aqui no blog e “drops” ao vivo via Twitter nos dias do evento.

Leis de trânsito para Belo Horizonte

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Cena típica do trânsito belorizontino. Repare no nome da auto escola e na marca do carro…

Você, leitor de outros estados, quando vier à bela capital mineira, é bom saber como o pessoal daqui costuma dirigir.

  • Dar seta aqui é PROIBIDO. Na verdade, as setas dos carros de Belo Horizonte tem apenas uma função: indicar que você quer pegar a vaga daquele carro que está saindo, no estacionamento do BH Shopping.
    Por sinal, a fábrica da Fiat, em Betim (responsável por 99,9% da frota de veículos da cidade) até tentou vender a seta como opcional, juntamente com ar condicionado e direção hidráulica, mas o prefeito não deixou – o risco de guerra civil no BH Shopping por causa de vagas era muito grande.
  • Algumas pessoas dão seta quando fazem barbeiragem, como quando vão pegar um retorno proibido ou fechar três faixas da via expressa, de repente, para não perder a rua onde queriam virar. Isto é ERRADO. Nestes casos, o correto é enfiar metade do corpo pra fora do carro e sinalizar com a mão mesmo.
  • Dar seta ou sinalizar com o braço é terminantemente proibido quando você reduzir bruscamente a velocidade numa avenida porque está procurando um endereço e precisa ler os números das casas.

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99% dos carros de BH são Palio prata. Destes, uns 50% tem um amassado no porta-malas parecido com o da foto acima.

  • O pisca-alerta ligado anula todas as leis de trânsito num raio de 50m do veículo. Assim, com o pisca-alerta ligado, você pode parar em fila dupla, parar no passeio, ficar no meio de um cruzamento, etc. Isso é bastante usado, principalmente no centro da cidade.
  • Carros lentos devem, obrigatoriamente, trafegar à esquerda e ignorar carros mais velozes que queiram passar.

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A frota da cidade é constantemente renovada com a ajuda dos carroceiros.

  • Se você quiser mostrar gentileza, uma boa pedida é parar de repente no meio de uma avenida para deixar outro carro passar – mesmo quando o "Pare" é para o OUTRO carro.
  • Quando há uma fila grande de carros (tipo pra entrar no BH Shopping – eu já disse que todo mundo adooora shopping aqui em BH?), sempre é permitido furar fila. Passe todo mundo pela direita e fique lá na entrada do estacionamento, esperando alguém lhe dar passagem, como quem não quer nada. NÃO dê seta para sinalizar que quer passar na frente: lembre-se, o correto é botar metade do corpo pra fora da janela, dar um sorriso malandro e fazer um "joinha" com o polegar.
  • A Polícia Militar sempre fecha duas faixas das avenidas para fazer blitz na sexta-feira, às 18 horas, na Savassi. Tudo pela sua segurança.
  • Quando o Governo anuncia um aumento no preço da gasolina para o dia seguinte, o belorizontino forma filas quilométricas nos postos pra pegar o último dia de gasolina mais barata. Mesmo se o aumento for de R$ 0,05, o que significa uma economia de APENAS DOIS REAIS para encher um tanque de 40 litros. Mas o que vale mesmo é a tradição.
  • As cores dos sinais de trânsito de Belo Horizonte são assim:
    Vermelho – Pare. Pare também de olhar para o sinal. Pense na vida. Relaxe. Esqueça que está dirigindo. Ignore que, eventualmente, o sinal vai abrir.
    Amarelo – Siga APENAS se for fechar um cruzamento.
    Verde – Aguarde o carro atrás de você buzinar. Depois, siga.
  • E, em Beagá, é assim que se estaciona:

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Palio preto ou prata é uma praga

Hoje vi no Sampaist um comentário sobre uma nota da Glória Kalil sobre o fato dos carros em São Paulo terem apenas cores monótonas (leia-se preto e prata).

Curiosamente, meu carro é preto, e por pouco eu não compro (a MUITO contragosto) um prata – Bethania salvou o dia ao achar, aos quarenta e sete do segundo tempo, um outro modelo em preto, pronta-entrega, e mais barato.

Talvez a culpa seja mesmo das montadoras (conforme aponta um comentário do post), que não deixam nada para pronta-entrega sem ser preto ou prata. Mas talvez as montadoras não tenham outras cores porque o cliente não compra nada sem ser preto ou prata – teoricamente são as cores que mais saem na hora de revender o carro. Típico caso do dilema Tostines. Ou seria apenas o fato do brasileiro ser meio “mosca morta” na hora de decidir as coisas por conta própria?

O fato é que isso me incomoda mais do que eu gostaria. Aqui em Belo Horizonte, além da combinação preto/prata, a frota é ainda mais homogênea porque uns 70% dos carros que circulam são da Fiat. Sei lá, talvez seja a montadora logo ali em Betim, mas o fato é que às vezes eu páro num sinal e me dou conta de que na minha frente tem um Palio, atrás tem um Uno e do lado tem mais dois Palios. Tudo prata.

Belo Horizonte invadida por zumbis

Eu não acredito que perdi isso!!

Fui ver meu email e vi um excelente post de Maíra comentando sobre o protesto “Fora Lula” de ontem, falando que deu só 200 pessoas metidas a besta e tal… e comentando o que aconteceu logo depois: a primeira Zombie Walk de Beagá!!


BRRAAAINSSS!!….

Zombie Walk é basicamente isso: uma cambada de gente vestida de zumbi perambulando pela cidade. Segundo Maíra, a Zombie Walk belorizontina tinha no mínimo quatro vezes mais gente que o “Fora Lula”. O roteiro dos zumbis era ir da Praça Sete até o Pátio Savassi (pra quem não sabe, um dos shoppings mais grã-finos de BH)! Uma pena terem barrado o pessoal na porta. Eu ia delirar se os zumbis invadissem o Pátio…

As fotos já apareceram na internet e o YouTube, obviamente, já tem vários vídeos do evento. Em um deles, mais completinho e dividido em duas partes, dá pra ver os zumbis “atacando” um ônibus, alguns carros e, no final, um deles gritando pra câmera: “Mãe, eu tou no YouTube!”

Isso é lindo demais. O próximo eu não perco por nada nesse mundo…

Bode na Trincheira 2 – The Satanic Files

Lembram que outro dia eu comentei que um colega confirmou que tem uma estátua de um bode demoníaco numa trincheira recém-construída aqui em Belo Horizonte?

Pois é. Um outro amigo me enviou um email com uma notícia de jornal simplesmente fantástica em sua bizarrice:

TRE apreende panfletos que acusam Pimentel por construir templo maligno

Foram apreendidos, no final da tarde deste sábado, dia 18, vários panfletos falsos com acusações contra o candidato à reeleição à prefeitura de Belo Horizonte, Fernando da Mata Pimentel, da Coligação “BH no Rumo Certo”. O material estava na residência da candidata a vereadora pelo Partido Social Cristão (PSC), Rosemary Aparecida Freitas de Araújo. (…)

Segundo a coligação, a candidata estava distribuindo panfletos nos quais aparecem fotografias de “um bicho denominado Javna” e que, segundo o texto, “se alimenta uma semana a cada ano roubando a força vital dos jovens, invocando o poder da magia negra, do olho do mau para ganhar a eterna juventude.” Ao final do panfleto, segundo a coligação, aparece escrita a seguinte frase: “Javna construído pelo prefeito Pimentel do PT.”

Segundo a representação apresentada ao juiz, o panfleto estava sendo distribuído sem autoria explícita, apontando que teria sido construído na cidade um templo do “senhor das trevas”, que seria a trincheira da Avenida Antônio Carlos. A trincheira seria o “portal do inferno”, pois aparecem nas fotos dela a imagem desse Javna, que seria uma espécie de “arauto do inferno.”(…)