Por que estou deixando o Brasil

Sim, é isso mesmo. Talvez este seja o mais longo e mais importante post deste blog. Se ajeite aí na cadeira.

Preâmbulo: como assim você está saindo do Brasil?!?

Pois é, cara. Depois de anos considerando casualmente a possibilidade de morar fora, este ano começamos a levar a coisa à sério e, após muita fritação de “vamo/não vamo”, eu e Bethania decidimos: vamos pro Canadá.

O plano é eu voltar pra faculdade, para um curso de 2 anos que é um semi-bacharelado em engenharia de software. Em termos de carreira eu até poderia ir e procurar emprego direto, mas decidi voltar a trabalhar na área técnica. Não tem jeito, é o que eu gosto mesmo de fazer. Depois do curso, quero arrumar um emprego lá e, a partir daí, o objetivo é conseguir cidadania canadense e ficar. Bethania, que é muito mais ninja profissionalmente do que eu, já tem inclusive um emprego esperando por ela.

A escolha do país, tecnicamente, foi fácil: o Canadá tem uma política de imigração bem aberta em função da população envelhecida e da demanda por profissionais qualificados. Além do mais eu morei lá por seis meses, em 2005, a trabalho, e não somente conheci como adorei o lugar.

filosoficamente falando, trocar de país é uma coisa bastante complicada – e é o que me motivou a escrever este post.

Você não precisa ficar onde está

“Menino, vai na padaria pra mim!”, me diziam quando eu era criança e vivia em Belo Horizonte. Eu não gostava de ir à padaria porque a distância pra mim era enorme e cheia de ladeiras, e ir comprar pão parecia uma maratona. Aí pula para 2014: dia desses eu estava visitando os parentes em Beagá e acabou coincidindo de eu passar exatamente pelo mesmo trajeto entre meu antigo prédio e a padaria.

Eram só dois quarteirões.

Talvez eu estivesse morando exatamente no mesmo lugar até hoje se não fosse o meu emprego de consultoria, que me fez viajar o Brasil todo – e me levou ao Canadá pela primeira vez. Passar por lugares novos muda o tamanho do lugar onde você vive e, também, quebra a regra invisível de que a sua vida só pode acontecer onde você mora. Em função do hábito, conveniência e da família sempre próxima é fácil se limitar ao que existe (ou não) na sua cidade e moldar sua vida de acordo com o que existe a dois quarteirões de casa, ou achar que o mundo é só aquilo ali, e passar a vida achando que aqueles dois quarteirões são uma distância enorme. Mas você não precisa ficar onde está. Essa frase banal esconde uma verdade universal, libertadora. Foi pela ausência dessa regra que eu e Bethania nos mudamos pra São Paulo: invertemos a lógica de “gostar do que se tem” e fomos pra onde o que a gente gostava estava.

Agora está acontecendo mais ou menos a mesma coisa. A gente quer trabalhos legais mas com menos stress, quer impostos que voltem de fato, quer poder andar na rua sem medo de assalto, quer poder ter filhos em um lugar mais amistoso (e mais acessível!). E São Paulo não permite tudo isso junto. Talvez o Brasil não permita isso – talvez nunca permita.

E este é o gancho importante para falar justamente de algo que me incomoda há muito tempo mas que só fui entender depois dos trinta e muitos anos de idade: o Brasil tem muita DR pra fazer consigo mesmo antes de se tornar uma grande nação, coisa que não vai acontecer tão cedo. Talvez nunca aconteça. E, como só se vive uma vez, eu não posso esperar.

A inigualável cultura brasileira (ou: por que o Brasil é do jeito que é?)

Minha diversão mais recente aqui em São Paulo é usar a ciclovia novinha que o Haddad resolveu passar bem na esquina da minha rua. Todo dia eu arrumo motivo pra ir pra algum canto de bike, muitas vezes só pra dar o exemplo.

No começo, sempre tinha alguém com carro estacionado na ciclovia, e eu sempre reclamava com o motorista. A maioria se fingia de bobo ou arrumava uma desculpa. Uns até xingavam de volta. Uma vez um deles ameaçou me bater e quebrar meu telefone, porque tirei uma foto do seu furgão estacionado bem em cima da faixa vermelha.

Talvez você esteja pensando: “mas cara, tu ta indo embora, pra quê ficar cobrando os motoristas de respeitar ciclovia? Daqui a alguns meses tu nem vai usá-la mesmo, e ainda periga apanhar ou levar um tiro”.

Então, cara! O problema é exatamente esse. Meu primeiro impulso também foi pensar e agir assim – e é precisamente por isso que o Brasil é do jeito que é e não vai mudar tão cedo: aqui o individual é mais importante que o coletivo.

Esta cisão entre indivíduo e coletividade provoca um efeito colateral bizarro, que é a divisão mental do brasileiro. Sabe a mania que temos de criticar o país na terceira pessoa? “Brasileiro é tudo burro”, “o povo só quer saber de futebol”, etc, etc? Quem fala, fala como se não fosse brasileiro, efetivamente se separando da própria crítica – afinal sua moral individual é superior à ignorância coletiva.

Se essa cisão fosse só socioeconômica ou política tava bom. O problema é que ela é pior e muito mais profunda: é uma divisão cultural.

Ela aparece, por exemplo, quando tem um mendigo dormindo no meio da calçada e a gente desconsidera mentalmente que ali existe uma pessoa. Ou você olha para aquele cara caído na saída do metrô, preto de fuligem, com uma unha do pé que parece a garra de um bicho, e se pergunta de onde ele veio, se tem filhos – ou se ainda tem sonhos? (por sinal uma fan page genial chamada “SP invisível” faz exatamente isso, vale muito a leitura). Essa divisão está aí o tempo todo, quando você reclama do trânsito (o trânsito é você) ou que o preço do cinema está um roubo (sua carteirinha de estudante é legítima?).

“Mas tudo isso aí pode mudar!”, você poderia alegar – e com razão. A questão é que tem problemas nacionais que dá pra resolver relativamente rápido, como a economia ou a distribuição de renda, mas a questão do “individual sobre o coletivo” é cultural – e mudar uma cultura é incrivelmente difícil. Leva séculos, e pode dar muito errado. Olhe para a história do mundo moderno e me aponte quantos países conseguiram mudar sua identidade nacional da água pro vinho: eu só consigo pensar na Alemanha pré e pós-Hitler e pré e pós muro de Berlim, e ainda assim a mudança só veio com grandes traumas nacionais. Vale o mesmo pro Japão antes e depois das bombas atômicas. Mas mudança orgânica, sem neurose, derramamento de sangue ou hecatombes político-sociais, aí eu não sei de nenhum exemplo.

Eu não queria, mas não tenho como não mencionar as eleições de 2014 – porque elas exemplificam muito do que eu falei aí em cima. No início eu tentei encarar a sujidade e a baixeza com a qual as pessoas, candidatos ou não, se comportaram nestas eleições como imaturidade, efeito de uma democracia que ainda é muito jovem. “Todo mundo quer um Brasil melhor, mas como crianças, estamos todos fazendo birra para isso”, pensava eu. Aí tou vendo milhares de pessoas na Av. Paulista, enquanto escrevo este post, pedindo o retorno do regime militar. Vi o nascimento do chamado “discurso do ódio”, com coisas deprimentes como molecada xingando nordestinos no Twitter pelo resultado da eleição. Com gente do naipe de Ricardo Amorim, economista renomado, postando que “quem estuda não vota na Dilma” – isso só pra citar alguns poucos exemplos. E só consigo entender tudo isso da forma que mencionei anteriormente: com a preponderância do individual sobre o coletivo que, aplicada num processo democrático, vira uma briga de “quem tem a maior melancia na cabeça”.

Faça um auto-exame: ao escolher em quem votou, você pensou no que seria melhor pro país ou no que seria melhor para você? E, se você pensou no coletivo e não no individual… você se lembrou do mendigo na saída do metrô?

Pra piorar ainda mais o banzo: enquanto aqui as eleições terminavam, lá no Canadá um maluco entrou atirando no parlamento, matou Nathan Cirillo (um dos guardas que vigiava o Memorial de Guerra) e depois foi morto. A reação da mídia e das pessoas por lá foi, simplesmente, inacreditável:

  • A cobertura da imprensa canadense foi tão sóbria, factual e isenta de sensacionalismo que arrancou elogios pelo mundo.
  • Kevin Vickers (o “chefe da segurança” do Parlamento) foi o responsável por matar o atacante. No dia seguinte aos ataques, ele simplesmente foi trabalhar normalmente. O vídeo dele sendo aplaudido de pé, ao voltar ao trabalho no parlamento me deixou embasbacado. E no Reddit, além dos elogios, tava todo mundo preocupado em dar apoio psicológico a ele, porque matar alguém pode ser traumático, etc, etc…
  • Ainda no Reddit a outra fonte de preocupações era a única vítima: Nathan Cirillo. Tinha um monte de gente preocupada em abrir um fundo para doações para o filho dele, que era pai solteiro, e inúmeros comentários sobre sua bravura e o quanto isto era uma perda para o Canadá. E ninguém sequer mencionou o atacante. Até hoje eu não sei o nome dele. Mas tinha gente preocupada até em quem ia cuidar dos cachorros do Cirillo daqui em diante.
  • E o cartunista do principal jornal de Ottawa ainda me publica isso aí embaixo.

Em resumo: um evento importante sacudiu o Brasil e saiu muita coisa ruim. Mas quando um evento importante sacode o Canadá…

Pontualidade e outros superpoderes inúteis – e um grande dilema

Outra questão cultural menos grave, mas que me incomoda desde sempre, é o modus operandi brasileiro: improvisado, espontâneo, altamente orientado à relacionamentos pessoais. Não estou criticando este jeito de ser, mas passei quase quarenta anos tentando me adaptar a ele e… não dá, eu não sou assim.

Eu gosto de ordem, planejamento e regras bem definidas. Eu chego no horário quando combinam comigo – e normalmente fico esperando feito bobo, porque ninguém chegou. Eu faço cronograma de viagem de férias. Eu assino Rdio e Netflix (sem proxy!), compro MP3 no Bleep, meu Office é original e licenciado e tenho três backups dos arquivos do computador. Na verdade, culturalmente falando, eu nunca me identifiquei com as coisas nativamente brasileiras (futebol, samba, praia). No entanto eu consigo te explicar todas as regras de um jogo de curling, o único esporte com o qual tive afinidade instantânea foi o esqui e uma das minhas camisetas prediletas é de uma banda chamada Set Fire to Flames – que é canadense.

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Não parece, mas esta é uma camiseta de banda.

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E aí eu e o Brasil ficamos muitos anos nesse casamento de aparências: não temos nada a ver um com o outro mas estamos aí, juntos.

E é isso que me dói e me gera uma crise de consciência enorme. O momento nacional é sério, é importante. Não se trata só de um rebuliço econômico, ou de uma maluquice traumática como foi a ditadura: o Brasil está meio que “entrando na puberdade” do ponto de vista ideológico, e é um momento ímpar onde todo mundo deveria dar o melhor de si pelo país. E a mítica hora que a gente canta no hino, dizendo que “o filho teu não foge à luta”, e no entanto é exatamente isso o que eu estou fazendo.

Mas essa luta é longa demais, e talvez seja impossível vencê-la. Quem me conhece sabe que eu não sou otimista, mas pense comigo: você se enxerga indo ao Mineirão assistir um Atlético e Cruzeiro onde as torcidas não ficam separadas no estádio? Você vê esta realidade em um futuro próximo? E em um futuro distante? E o quão distante está este futuro? Pra mim, este é o melhor indicador possível pra se melhoramos ou não na questão do “individual sobre o coletivo”.

A vida já me deu bastante porrada (felizmente, nenhuma nos estádios). E o que eu aprendi com isso foi que é fundamental saber quais brigas comprar. Então, decidi comprar a da imigração – que é uma senhora briga, vale frisar.

E como faz pra ir pro Canadá?

Ah, rapá, aí nem com dez páginas de post dá pra explicar. É um processo demorado e de MUITA burocracia, até pros padrões brasileiros. O melhor a fazer é ver o site do Ministério da Imigração Canadense, mas em resumo você tem que ter curso superior – ou grana pra fazer um por lá -, tu tem que ter experiência de trabalho numa das profissões que estão em demanda e inglês ou francês bom (e comprovado por um teste tipo IELTS ou TOEFL).

No meu caso eu tinha dois planos (lembra da minha paranóia com backup? Pois é!)

Plano A) Imigrar pelo processo federal (Federal Skilled Worker). Nela, você já chega com visto de residente permanente, o que te permite trabalhar e/ou estudar onde quiser e virar cidadão depois de alguns anos. O problema desta opção: a burocracia dela é inacreditável (o processo que enviei tinha quase cem páginas!), o formato atual dela, que te permite ir sem achar emprego antes, vai ser extinta em 2015 e as vagas de 2014 foram limitadíssimas – apenas 1.000 por profissão.

Plano B) Ir como estudante de um curso superior. A burocracia é beeem menor, não tem limite de vagas e dá pra aplicar pro visto pela internet mesmo. O duro desta opção é o custo (e a ausência de renda), mas você ganha direito a um visto de trabalho quando se forma e seu cônjuge pode trabalhar enquanto você estuda.

No meu caso o plano A foi a maior decepção do mundo: passei MESES reunindo documentos, DIAS preenchendo os formulários, gastei uma bolada com cópia autenticada e tradução juramentada, outra bolada fazendo o teste de inglês (IELTS, que fiz de ressaca e com três horas de sono, mas tirei 8 em 9 – história para outro post…), mandei meu diploma (físico) pro exterior pra ser validado, foi uma via crúcis. Aí mandei tudo, fiquei meses fritando se eu ia conseguir entrar nas mil vagas, até que numa segunda-feira vi a cobrança da taxa de análise no meu cartão de crédito indicando que sim, eu havia entrado.

A alegria durou três dias, que foi o tempo de vir um email do consulado avisando que faltou incluir uma data em um documento, que foi desconsiderado e que, por isso, me desqualificou do processo por um ponto.

Agora estamos indo de plano B: já escolhi uma faculdade, fiz matrícula e exatamente hoje, dia que este post (que estou escrevendo há MESES) finalmente vai ao ar, nossos passaportes estão no consulado para receber o visto.

E suas coisas do Brasil?

Ué, tou vendendo tudo! A lista está aqui e aumenta todo dia. Se quiser algo nem precisa comprar pelo Mercado Livre, fale comigo e a gente se acerta.

Quanto ao nosso apartamento, vamos deixá-lo alugado – e se quiser você pode morar nele ou indicar para os amigos. Aproveita que tá barato 🙂

O Primo recomenda: Almanaque Brasil

Não é segredo pra ninguém que eu viajo muito. O problema é que eu viajo REALMENTE MUITO, coisa que fica evidente quando eu vou cortar cabelo no aeroporto de Congonhas e o cabeleireiro já me conhece e chega perguntando se quero “o corte de sempre”, ou quando eu abro a revista da Tam de dezembro e, no editorial, ela mostra todas as capas das edições do ano e eu percebo que li TODAS. E com tanta leitura aeronáutica eu posso afirmar, com alguma autoridade, que revistas de avião são bem ruinzinhas.

Grande parte da revista da Tam, por exemplo, é merchandising disfarçado. Você pega e lê uma reportagem sobre Frankfurt (para onde a Tam começou a voar no início do ano), outra sobre Orlando (para onde a Tam Viagens está, convenientemente, vendendo pacotes de férias) e outra sobre o show da Madonna (que a Tam está patrocinando). Essa da Madonna, por sinal, tem um dos PIORES textos que já vi. Quando as matérias e entrevistas são boas é porque são “emprestadas” de outras publicações: a revista da Gol, por exemplo, é feita pela mesma editora que faz a revista Trip e é de lá que sai grande parte do conteúdo. Mas fora isto as revistas são obrigadas a seguir uma linha editorial estilo “agradar gregos e troianos” e acaba virando uma mistura de “Caras” com “Você S/A” e com “Viagem”. Não é atoa que o saquinho de vômito fica junto com as revistas…

almanaque brasil Então é com muita surpresa que de vez em quando eu encontro uma das melhores publicações da atualidade perdida no meio dessas porcarias: é o Almanaque Brasil, um grande apanhado de cultura e peculiaridades brasileiras. Ao contrário das revistas de avião comuns, onde o texto é muito mais uma distração pra passar o tempo, o “almanaque” é feito para ser lido de verdade, feito para ser leve e divertido mas interessante. E o mais legal é que ele consegue fazer isso pinçando peculiaridades da cultura brasileira – e mais nada. Não se trata de ufanismo defensivo estilo “fora ianques, vamos preservar o que é nosso”, é mais num sentido “olha o tanto de coisa interessante que o seu país tem”.

E, de fato, ele tem. A revista deste mês, no lugar de entrevistinhas com a celebridade da moda, foi falar com José Júnior, coordenador do AfroReggae. A entrevista é deliciosa: revela a sagacidade do líder que dirige sua obra social como negócio, porque só assim ele consegue ganhar a atenção da molecada de favela antes que o tráfico o faça. Estas matérias mais densas são entremeadas por artigos leves, diversões e curiosidades que talvez nunca aparecessem numa Veja ou Istoé da vida, mas que tem tudo a ver com a proposta da revista – como a divertidíssima história do pessoal do Jogos Perdidos, fãs de futebol que dedicam-se a acompanhar as partidas de times praticamente esquecidos nas terceiras, quartas e quintas divisões do futebol brasileiro (e mundial). A leitura do Almanaque é tão empolgante que eu sempre me pego lendo coisas pelas quais eu jamais me interessaria sozinho, como por exemplo os “causos” de Rolando Boldrim ou as piadas do Barão de Itararé. É que o que veio antes tava tão legal que eu vou lendo no embalo.

Chega a ser difícil acreditar que uma publicação tão boa seja gratuita. E mesmo quem não voa pela Tam pode ler os exemplares passados, inteirinhos, pelo site. Tem também a opção de fazer uma assinatura (meio cara, R$ 8,16 por exemplar) e receber em casa. E mais: o conteúdo do almanaque é licenciado em Creative Commons, podendo ser livremente usado para fins não-comerciais.

They give really good head in Brazil!

Ontem, passando pelo aeroporto internacional de Brasília, notei que o restaurante do aeroporto tem um scotch bar com um nome bem peculiar…

Placa escrito "Good Head"

Pra nós, brasileiros, nada de mais. Mas eu adoraria ver a cara de algum norte-americano lendo aquela placa, já que “good head” significa também “um boquete bem feito”…

Rede Globo deixa famílias menos férteis

Sim, o título deste post é bem sensacionalista. Mas não sou eu quem diz isso, e sim o pessoal de Harvard que, num estudo, percebeu uma correlação entre as novelas da Globo e uma diminuição na quantidade de filhos por família.

O artigo que menciona o estudo, postado no blog da revista Foreign Policy, dá maiores detalhes:

O estudo (…) analisou novelas transmitidas de 1965 a 1999 e descobriu que elas retratam famílias muito menores do que as que atualmente vivem no Brasil. 72% das personagens principais de menos de 50 anos não tinham filhos, e 21% tinham apenas um. Por causa disso, os pesquisadores levantaram a hipótese de que as novelas estivessem agindo como uma forma de controle de natalidade.

Usando dados do censo de 1970 a 1991 e dados de presença da Rede Globo em diferentes mercados, os pesquisadores descobriram que mulheres vivendo em áreas cobertas pelo sinal da emissora têm fertilidade significativamente inferior (e, sim, o estudo avaliou todas as outras variáveis e considerou que a entrada da Globo poderia ter sido efeito de tendências que também contribuem para a diminuição da fertilidade. Estamos poupando você dos detalhes econométricos).

Eu não sei o que é mais curioso nesse estudo: se é o fato de Harvard estar estudando as taxas de natalidade brasileiras ou os comentários adicionais do texto:

Novelas são extremamente populares no Brasil, e a emissora Rede Globo, efetivamente, possui o monopólio das produções (…)

As pessoas que vivem em áreas cobertas pela globo apresentaram uma tendência a batizar seus filhos com nomes de personagens de novela, sugerindo que eram especificamente elas, e não a TV de uma forma geral, que influenciavam a taxa de natalidade.

(Link do artigo via Kottke)

Viradouro proibida de desfilar com carro alegórico sobre o holocausto

Sim, deu no Globo:

A Justiça do Rio de Janeiro proibiu nesta quinta-feira a escola de samba Viradouro de levar para a avenida no domingo o carro alegórico do Holocausto, representado por vários cadáveres nus empilhados e que teria uma pessoa vestida de Hitler sobre os corpos.

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Foto via MSNBC

Imagina isso aí entrando na Sapucaí, o sambão rolando, o pessoal vestido de nazista em cima dos corpos, cantando e sorrindo pras câmeras da Globo. Imagina a cara do pessoal nas arquibancadas ao ver a pilha de gente morta. O que a Fátima Bernardes ia narrar numa hora dessas?

Graças a Deus a justiça proibiu essa bomba de entrar na avenida! Ultimamente os juízes estão meio sem noção (vide proibição do Counterstrike), mas dessa vez, felizmente, eles acertaram. Imagina a repercussão internacional que isso teria: a proibição já saiu até no BoingBoing, mas se o desfile acontecesse ia ser dureza ver, na CNN, manchetes tipo “Nazi Parade in brazilian Carnival”, “Brazil dancing ‘samba’ over holocaust victims”…

Numa boa, coisas assim me dão vergonha do meu país.

Update: Repensando o assunto, retiro o que disse. Acabei desrespeitando um conselho que eu mesmo vivo dando para os outros, que é o de não fazer nada quando se está de cabeça quente. E eu acabei postando de cabeça quente e não vi que estava falando besteira.

Logo depois de postar eu comentei o assunto com Bethania (que agora está rindo por cima do meu ombro ao me ver escrevendo este update). Ela foi a primeira a discordar de mim – e usando como argumento uma frase que eu vivia dizendo pra ela: “não dá para apreciar arte fazendo juízo de valor”. Ela disse também que, pelo jeito que eu fiquei incomodado com a coisa, eu devo ter sido judeu ou vivido na época do holocausto numa encarnação passada (será? 🙂 ). E pra encerrar, o Felipe veio argumentar nos comentários deste post e eu vi que, realmente, pisei na bola.

Assim, revisando minha opinião, ela fica assim: ainda tenho dúvidas se um carro sobre o holocausto, do jeito que foi previsto, ficaria legal numa festa vívida e alegre como o carnaval – e por isso eu não risquei o primeiro parágrafo do post original. Mas, de fato, nada justifica a proibição. Algumas coisas, de fato, ainda me dão vergonha do Brasil (tipo a proibição do Counter Strike, que, essa sim, é completamente sem noção), mas confesso que, ao invés de sentir embaraço, tenho é que tirar o chapéu para o carnavalesco que criou o carro sobre o holocausto, sobretudo pela ousadia de querer colocar na avenida uma obra de arte sobre um tema difícil e com tantas chances de ser mal interpretado por gente menos esclarecida e/ou de cabeça quente… como eu.

Cenas de um jantar globalizado

Semana passada eu tive um evento de trabalho com a presença de vários estrangeiros de várias partes do mundo: tinha um chinês, um croata, uma austríaca, um português e uma finlandesa.

Eventos com estrangeiros são naturalmente interessantes por causa do choque de culturas e por dar a oportunidade de ver o que diabos os gringos acham da nossa terrinha, mas esse bateu todos os recordes. E a culpa de tudo foi da finlandesa.

A menina era completamente doida. Ela fala umas 10 línguas diferentes (inclusive português). E fala sem parar. Some isso a um jantar com vinho e você ouve coisas hilárias, como por exemplo:

  • A passagem dela pelo Rio de Janeiro: "Estávamos em Ipanema, na praia, quando de repente eu olhei em volta e só tinham homens. Aí eu olhei bem e vi que eram todos casais, e aí eles começaram a se beijar e eu lá pensando: ‘uhh, tudo bem, é um casal gay’ e tal. Mas aí um dos caras começou a apalpar o outro! Tipo, botou a mão lá e tudo! Era pornografia gay ali, ao vivo, na praia! Depois um deles se levantou e ficou tentando arrumar as ‘coisas’ dentro do calção" – ou, como ela disse em inglês, "trying to reset the whole thing", o que deixou a história ainda mais engraçada.
  • Aí ela começou a contar as coisas pelas quais o Brasil é conhecido para os finlandeses: "Bem, se colocar em ordem, primeiro vem o futebol. Depois, as sandálias havaianas… e depois a bunda da mulher brasileira."
    Nota mental: comprar ações da Alpargatas, rápido. E depois investir os lucros na "poupança"… (pegou essa?)
  • Falando nisso, descobrimos que a "paixão nacional" dos finlandeses é tomar umas biritas… na sauna. Isso tudo entremeado por mergulhos ocasionais em lagos gelados, pra se refrescar. Mas, segundo ela, todo mundo vai pra sauna usando apenas as Havaianas.
    Sim, eu fiz questão de me certificar, e ela confirmou: na Finlândia, todo mundo toma sauna peladão. Isso era bom demais pra ser real, então chequei na Wikipedia… e é verdade!
  • Momento "animal planet" do jantar: A finlandesa vê uma lagartixa na parede… e sai ALUCINADA para bater uma foto. O que me deu uma idéia genial aqui agora: exportar sandálias havaianas com estampa de lagartixa. Vai vender como nunca na Europa.
  • Para o grand finale, a finlandesa falou que queria adicionar todo mundo no Facebook dela. Aí contamos que no Brasil todo mundo usa Orkut. "Hmm, Orkut não é popular na Finlândia", disse ela. Quando perguntamos o por quê, ela explicou que "Orkku", em finlandês, é uma gíria que significa "orgasmos múltiplos".
    Yeah, baby. Orgasmos múltiplos. Agora eu entendo porque todo mundo quer ter um Orkut…

Por que eu fico desanimado com a internet brasileira

Justifico fazendo uma análise rápida de uma coisa bem web 2.0: sites de confissões anônimas.

Confissão do famoso Post Secret.com:

20071009

O texto diz: “Este é o recibo que me deram no dia que abortei meu bebê. Eu ando com o recibo e olho para ele todo dia, para me lembrar. Tenho medo que Deus me castigue um dia, por ter feito essa escolha, mas hoje eu estou deixando isso para trás”.

Agora, uma confissão do Grouphug.us:

Toda noite, antes de dormir, eu rezo e peço para acordar e ter 18 anos novamente, para ter uma chance de fazer escolhas diferentes e não ferrar com a minha vida do jeito que ferrei…

Outra confissão, agora do unburdened.org:

Recentemente eu descobri que meus pais faziam “swing” no final dos anos 60, início dos anos 70. Sem problemas, eu pensei. Eles eram os clássicos hippies “flower power” na época. Depois do meu choque inicial e de me divertir imaginando meu pai pegando uma hippie numa sala cheia de gente cabeluda, eu me toquei de uma coisa:

Ele pode não ser meu pai biológico.

A minha cara quando me toquei disso deve ter sido bem óbvia, poruqe minha mãe disse “pois é, nós não sabemos”. Tomara que meu pai biológico seja rico.

Agora uma confissão brasileira, do (extinto) EuConfesso.com.br:

confesso que eu só consigo cagar peladão !!!

Inscrições abertas para o BlogCamp MG

E em novembro vai rolar aqui em Belo Horizonte o primeiro BlogCamp MG.

20071005

O BlogCamp é um encontro de blogueiros no formato “desconferência” – uma conferência sem programação prévia. Quem quiser falar, vai lá e inscreve sua palestra na hora. Assiste e participa quem quiser. É tudo informal e aberto – e, portanto, divertido.

Este formato é famoso na internet e conhecido como BarCamp – assim, “BlogCamp” ficou sendo o BarCamp dos blogueiros. O primeiro BlogCamp brasileiro rolou em agosto, em São Paulo. Vão rolar outros no Rio, em Curitiba, no Ceará e, agora, aqui na terrinha.

Para o evento de Beagá, a coisa é promissora. A Oi Futuro está por trás da divulgação e tem patrocínio do BlogBlogs e do Dinheirama.

Data: 17 e 18/11, sábado e domingo
Horário: 9:30 às 18:00
Local: Oi Futuro – Museu das Telecomunicações – Avenida Afonso Pena, 4001, térreo

Eu, que sempre tive preguiça da web brasileira, já estou inscrito. Essa movimentação atual dos blogueiros brasileiros é uma coisa ímpar que muito me anima.

Aguardem ampla cobertura aqui no blog e “drops” ao vivo via Twitter nos dias do evento.

Belo Horizonte invadida por zumbis

Eu não acredito que perdi isso!!

Fui ver meu email e vi um excelente post de Maíra comentando sobre o protesto “Fora Lula” de ontem, falando que deu só 200 pessoas metidas a besta e tal… e comentando o que aconteceu logo depois: a primeira Zombie Walk de Beagá!!


BRRAAAINSSS!!….

Zombie Walk é basicamente isso: uma cambada de gente vestida de zumbi perambulando pela cidade. Segundo Maíra, a Zombie Walk belorizontina tinha no mínimo quatro vezes mais gente que o “Fora Lula”. O roteiro dos zumbis era ir da Praça Sete até o Pátio Savassi (pra quem não sabe, um dos shoppings mais grã-finos de BH)! Uma pena terem barrado o pessoal na porta. Eu ia delirar se os zumbis invadissem o Pátio…

As fotos já apareceram na internet e o YouTube, obviamente, já tem vários vídeos do evento. Em um deles, mais completinho e dividido em duas partes, dá pra ver os zumbis “atacando” um ônibus, alguns carros e, no final, um deles gritando pra câmera: “Mãe, eu tou no YouTube!”

Isso é lindo demais. O próximo eu não perco por nada nesse mundo…