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Uma centena de metros em uma linha reta perfeita

31 de outubro de 2012, 1:26

Debaixo do proverbial sol de meio-dia de sábado e já uns 15 quilômetros haviam ficado pra trás: os primeiros até a estação Santo Amaro e, de lá, os restantes lado a lado à fedorenta margem do Rio Pinheiros. Sempre ao norte, até o fim da ciclovia, onde tem um posto de apoio debaixo do viaduto que salta sobre a estação Ceasa do trem.

Comprar uma bicicleta – a clássica Caloi 10, mas no modelo 2012 – foi uma grande ideia. Na verdade foi inevitável, depois que entendi que existe um mundo além das mountain bikes e que esse é um mundo de bikes speed, que me ultrapassaram tantas vezes quando fui me aventurar na ciclovia usando a bike tosca de supermercado que eu precisava experimentar como era isso de bicicletas feitas pra voar pelo asfalto liso, ao invés de sofrer em trilhas poeirentas ou de despencar morro abaixo. Nunca vou me esquecer de quando montei na Caloi 10 pela primeira vez: arredia e instável quando lenta, algumas pedaladas depois e eu fascinado com o quanto ela corria. “Isso é um foguete”, pensava.

Pedalar pro norte na ciclovia é normalmente contra o vento, portanto bem sofrido e mais devagar, mas aí você para no posto de apoio e bebe uma água e checa o celular, com a desculpa de ver se aquele app de GPS tá mapeando certo o trajeto, mas que no fundo é pra aliviar a consciência de que ninguém te ligou com alguma bomba no trabalho. O que me remete aos momentos antes de sair pra pedalar. Eu trançando pela casa, inquieto, com um nó no estômago, sem entender se aquilo era ansiedade para sair logo de casa e pedalar ou se era o resultado da semana caótica e da insônia da última quinta-feira. Eu nem me lembro do que eu via na tevê às quatro da manhã de quinta, pra tentar pela décima nona vez ocupar a cabeça com algo que me acalmasse – ou com qualquer outra coisa que não fosse a angústia de ver as horas passando e nenhum sinal de sono, mesmo estando exausto do trabalho, e esse dilema do cansado-mas-aceso dando um aperto no peito, exatamente igual ao que eu sentia na manhã de sábado, capacete da bike na mão, garrafa d’água na outra, decidindo ir logo pra rua pra ver se aquilo passava independentemente da causa.

Então eu fui, e assei no sol de meio-dia, e suei e cheguei bem cansado no posto de apoio e no meu celular não tinha nenhum telefonema do trabalho, só umas notificações do Facebook que nem quis ver pra não quebrar a sensação de que aquele momento ali era só meu.

Era só meu e o caminho da volta ia ser com vento a favor, e ainda restava uma boa meia hora do podcast de Drum’n Bass nos fones. Eu devo boa parte dos 10 quilos que perdi nos últimos meses à precisa curadoria de DJ Risky em seu podcast (semi) semanal. “Risky killin’ it from every single angle!”, diz uma das suas muitas vinhetas. O sentimento é de que você pode levantar qualquer peso na academia, correr qualquer distância, e de que a violência do esforço de músculos cansados na verdade é uma delícia e vai ser ótimo esmigalhar os pedais e acelerar ciclovia abaixo com vento a favor. É um foguete a Caloi, com vento a favor então é ainda mais. E ninguém me ligou, então eu estava livre.

Nos primeiros metros de retorno à ciclovia o velocímetro passou fácil dos 30 quilômetros por hora, e à frente só a longa reta que termina na ponte Cidade Universitária, nenhum outro ciclista por perto. Larguei o guidão, respirei fundo o ar podre do rio Pinheiros e abri os braços por alguns instantes. Antes arredia e instável, agora a Caloi 10 seguiu quase uma centena de metros em uma linha reta perfeita, e me senti relaxado.

Foi o único momento da semana inteira em que me senti relaxado.

No fim das contas acabei exagerando e pedalei cinquenta quilômetros no total – uma ida e volta completa em toda a extensão da ciclovia. Cheguei em casa e demorei umas 2 horas só pra conseguir levantar do sofá e tomar um banho. Com corpo e mente com cansaço finalmente sincronizado, alternei cochilos e sono noturno picado até o final do domingo – mas pelo menos dormi alguma coisa.

Durou só até essa madrugada de terça pra quarta. São duas da manhã e nem tentei ir dormir ainda.

2012 não está sendo fácil. 2012 não está sendo nada fácil.


O gerente de projeto mais rápido do oeste

17 de fevereiro de 2012, 7:42

Daí que esse ano teremos um projetão monstruoso na agência e o contrato dele com o cliente inclui um GP full-time – que eu estava suando pra achar pra contratar.

Muitos CVs e entrevistas depois, achei um cara. Ele começou a trabalhar na agência numa quarta-feira. Na segunda da outra semana, como ele já estava ambientado, resolvi dar as “boas vindas” oficiais como eu sempre faço: eu tiro uma foto do cara e mando um email pra todo mundo, de SP e de Recife, apresentando “virtualmente” a pessoa pra equipe inteira.

Como de costume, o pessoal de Recife sempre responde o email fazendo alguma piadinha. Dessa vez o pessoal começou a responder com vídeos do YouTube, como:

- “Welcome to the jungle”, do Guns’n Roses

- A cena do bombardeio em Apocalypse Now, ao som da cavalgada das valquírias

- O clipe de “Cilada”, do Grupo Molejo, ou o clássico “É uma cilada, bino!”, do Carga Pesada

Quinze minutos depois dos emails, o cara me chama pra conversar, diz que recebeu uma outra proposta de um projeto “irrecusável” e pede demissão… :)


Retrospectiva 2011

10 de dezembro de 2011, 0:45

Nada poderia me preparar para 2011. E, de certa forma, não fosse tudo que vivi nas últimas décadas e eu não estaria pronto para 2011.

O ano começou comigo pulando de cabeça num mercado completamente novo: o da publicidade. E aí os dias começaram a virar sagas épicas de caos, suor e muito, MUITO trabalho. Eu nunca trabalhei tanto quanto em 2011: meu horário “normal” de sair da agência é lá pelas nove da noite. Trabalhei várias madrugadas, trabalhei finais de semana, trabalhei até no carnaval.

Mas trabalhei todos os dias com gosto e com sangue no olho: eu não estava mais limitado a apenas sugerir coisas pro meu cliente e rezar pra ele ter a boa vontade (ou os colhões) de implementar. Ao contrário dos dias de consultoria, aquilo ali era a minha operação, meus projetos, minha equipe - minhas entregas.

Junte a isso o fato de eu estar finalmente trabalhando com o que eu sempre quis (internet) e pronto: eis um homem totalmente pilhado.

Tão pilhado que me envolvi até mais do que devia, e 2011 acabou também sendo o ano onde eu menos dormi. Eu já estou quase desenvolvendo um padrão de insônia onde eu durmo lá pela meia-noite, acordo pontualmente às 4 da manhã e não consigo mais pegar no sono porque fico pensando em trabalho. E o meu colesterol só tá em ordem graças às estatinas.

Parte disso é justificado porque 2011 foi o ano dos problemas estapafúrdios: tive que lidar com fornecedor tentando me dar o cano, fornecedor abandonando projeto no meio, cliente reclamando porque puseram palavrão em código-fonte de site, princípio de incêndio em aparelho de ar condicionado (sério!) e até sabotagem em projeto. Eu fiz trabalho de psicólogo, diretor de arte, arquiteto de informação, atendimento, mestre de obra, RH, financeiro… fui até organizador de buffet para eventos. Carreguei caixa e montei computador, em pleno sábado, no dia em que tivemos que nos mudar do prédio em Recife porque não cabia mais todo mundo no anterior.

Mas todo o suor, stress e noites mal dormidas compensaram. Estou fechando o ano com centenas de projetos entregues, a grande maioria sem atrasos ou problemas de qualidade. Os problemas críticos da operação todos sumiram. Mesmo com a equipe triplicando de tamanho, o custo do homem/hora quase não variou e a rentabilidade da operação tá tinindo. E em menos de um ano de agência eu fui promovido a diretor.

E o mais legal: no meio desse caos todo eu ainda arrumei tempo (e dinheiro) para, finalmente, comprar um apartamento. A mudança deve ser antes do natal, bem na véspera da festa de fim de ano da agência.

Falando em festa, a imagem aí embaixo é o convite. O tema desse ano vai ser “Las Vegas”:

Vegas, baby!

Simbólico. O destino me deu boas cartas este ano – e, modéstia às favas, eu joguei bem pra caralho.


If I could settle down / then I would settle down

15 de setembro de 2011, 22:38

Há quatro anos, quando me mudei para São Paulo, comentei que desde 2003 todo ano teve um mega-acontecimento significativo, que provocou mudanças drásticas na minha vida:

2003: Larguei minha carreira em TI

2004: Comecei oficialmente uma nova carreira de consultoria

2005: Morei no Canadá

2006: Me casei

2007: Me mudei para São Paulo

2008: Virei consultor-sênior e me certifiquei como PMP

2009: Fui retirado de um projeto. Pode não parecer, mas isso foi muito significativo e provocou mudanças boas.

2010: Larguei a consultoria e fui trabalhar numa agência de publicidade

…e agora veio a mudança drástica de 2011: eu vou, finalmente, comprar um apartamento em São Paulo.

Já faz um tempo que estávamos pensando nisso. Eu já não sou mais aquele jovem de vinte-e-tantos anos e, conforme vem a idade, chega o momento de começar a estabilizar a vida, formar um patrimônio, pensar no futuro, essas coisas que dizem nas propagandas de previdência privada ou seguro de vida.

Ter meu próprio imóvel na cidade também significa que eu estou colocando um “anel de compromisso” em São Paulo – significa que não estamos mais apenas flertando com a cidade pra ver no que dá. A partir de agora é nóis na vida loka, mano.

O processo todo para achar o apartamento, como tudo na minha vida, foi bem simples:

  • Primeiro eu fui juntando dinheiro pra poder dar de entrada.
  • Enquanto isso veio o boom imobiliário e os preços tipo duplicaram num espaço de três anos.
  • Junto com os preços para compra, subiram também os aluguéis – e meu contrato de aluguel começou a ficar perigosamente próximo de vencer.
  • Trabalhar 12 horas por dia na agência não me deixa exatamente com tempo livre para ficar procurando imóveis. A solução foi usar uns 40 minutos que me sobravam de manhã cedo pra escarafunchar apartamentos na internet, e usar os finais de semana pra ir visitar os bons.
  • Durante estas visitas a gente via que 90% dos “bons da internet” eram um lixo na vida real: eram perto de favelas, eram longe de tudo, eram colados em avenidas barulhentas, eram debaixo da rota dos aviões de Congonhas, enormes mas velhos, novinhos mas minúsculos, etc, etc. Então todo final de semana terminava comigo frustrado e vendo os preços subindo 2% ao mês.
  • Repita os últimos 2 passos por SETE MESES.
Até que, no último sete de setembro, enquanto todo mundo curtia seu feriadão, lá fomos eu e Bethania ver mais apartamentos – e vimos um com preço muito baixo (porque precisava de umas reformas), não muito pequeno e – o mais importante – extremamente bem localizado na Chácara Santo Antônio, a 2km do trabalho de Bethania e com uma estação de trem pertinho, pra eu ir trabalhar. Fizemos uma proposta, a proprietária topou e a saga, finalmente, acabou…
Agora é encarar as próximas sagas que vem por aí: a mudança maluca, as reformas recalcitrantes e o financiamento feroz


De por quê eu adoro transporte coletivo

17 de junho de 2011, 18:03

14:10 – Estou na Vila Olímpia, após um almoço com um fornecedor. Ligo para a cooperativa e peço um táxi pra voltar pro trabalho. A menina me diz que me liga em seguida para informar qual o número do carro que vai me atender.

Mau sinal. Se ela não me disse o número do carro na mesma hora é porque não tem carro livre…

14:20 – Cansei de esperar a ligação. Começo a andar até a estação do trem.

14:30 – Chego na estação e pego o trem.

14:45 – Desço do trem.

14:50 – Chego no trabalho, escovo os dentes.

15:05 – Entro numa reunião.

15:20 – Saio da reunião.

15:25 – O telefone toca. É a cooperativa, dizendo o número do carro e avisando que ele chega em 5 minutos.


Como perder o ônibus de maneira épica

4 de junho de 2011, 1:02

8:45:33 – Estou terminando de comer meu café da manhã na padaria da esquina. A padaria é bem em frente ao ponto de ônibus que eu usaria para chegar ao trabalho (já que a CPTM tava de greve).

Distraído, observo os ônibus passando enquanto dou minha última mordida no pão. Veio um, dois, cinco ônibus, e nenhum era o meu. Aí pensei: “aposto que, quando eu estiver pagando minha conta no caixa, meu ônibus vai passar e eu vou perder”.

8:45:40 – “Bom, já que é assim eu não vou levantar, assim não perderei o ônibus”.

8:45:45 – “Tá, mas se eu não me levantar eu não chego no trabalho, então não tenho muita opção”.

8:46:02 – Estou na fila do caixa. Olho para o lado e – adivinha! – é o meu ônibus. Sorrio um sorriso amarelo de descrença e self-schadenfreude e começo a me sentir duplamente um idiota: por acreditar nessa superstição de que eu perderia o ônibus e por ela realmente ter acontecido.

8:46:04 – Reparei que haviam mais dois ônibus na frente do meu, fazendo uma espécie de fila no ponto. Olhei para a fila do caixa e só havia uma pessoa na minha frente.

E me deu um estalo: se eu for rápido o suficiente e entregar o dinheiro trocado, dá pra correr até o ponto em tempo de pegar o ônibus.

8:46:06 – O primeiro ônibus arranca e vai embora. Olho pra conta na minha mão: 3,00 do suco de laranja mais 1,50 do pão na chapa. Abro a carteira apressado, retiro duas notas de R$ 2 e começo a escarafunchar o compartimento de moedas, rezando para achar cinquenta centavos.

8:46:08 – Olho de novo pro ponto. O segundo ônibus já havia parado e saído, e só sobrou meu ônibus, já abrindo as portas pro embarque/desembarque. A fila do caixa continuava parada e, no meio das minhas moedas, só achei uma de R$ 1.

8:46:09 – “Que se dane!”, pensei. Peguei os R$ 5, deixei em cima do balcão junto com a conta e comecei a correr em direção ao ponto.

8:46:10 – Meu ônibus arrancou e saiu.


Top Chef – Comida Caseira Edition

12 de abril de 2011, 0:24

Aqui em casa anda-se comendo muito bem. Méritos todos de Bethania, já que minha participação se resume apenas a arrumar a cozinha depois.

Uma das causas disto é que outro dia uma amiga mineira veio nos visitar e acabou emprestando um livro de receitas: “Revolução na Cozinha”, de Jamie Oliver. Eu sempre achava que “culinária de TV” era tudo picaretagem, até que Bethania começou a fazer algumas receitas do livro.

Meu amigo, minha amiga, eu fiquei perplexo. Cê junta meia dúzia de ingredientes (as receitas são surpreendentemente simples) e de repente sai comida nível “restaurante grã-fino que ganha estrelas Michelin”. Sem exagero.

A última que fizemos foi um stir-fry de salmão, à moda asiática. A combinação do peixe com o leite de coco e o curry ficou, simplesmente, espetacular. E o tempo de cozimento foi o mesmo de um miojo: TRÊS minutos.

 

Mas foi no carnaval que a gente abusou do livro. Fizemos um salmão com molho pesto, vagens e batatas amassadas que, meu amigo…

Nunca imaginei que molho pesto ia tão bem com salmão. Acho que daí é que vem a genialidade do livro: combinações inusitadas, simples e surpreendentemente boas.

Outra delas é a ideia de enrolar frango em presunto parma, temperar e fritar. Fica inacreditavelmente crocante.

Outra variação dessa história de enrolar que achamos no livro envolvia bacalhau e nada menos do que bacon – a iguaria predileta de toda a internet. Claro que bacon transforma tudo em uma bomba de colesterol, mas eu simplesmente TINHA que comer aquilo.

 

O livro é tão bom que acabou “sequestrado” aqui em casa, e estamos deliberadamente enrolando pra devolvê-lo para sua dona original (que, por sinal, fez um frango indiano incrível pra nós – em receita também retirada do livro). Mas é questão de tempo até comprarmos nossa própria cópia – que custa uns R$ 60, mas que rende dezenas de jantares que com certeza custariam o triplo disso.


Explosions in the PowerPoint

11 de abril de 2011, 23:47

Outro dia, na agência, o cara de uma produtora de software foi lá apresentar seus serviços pra ver se a gente o contratava.

Aí a gente se sentou, ele ligou seu Macbook no projetor, lascou um F5 no seu PowerPoint e, de repente, WHOOSH! – um raio luminoso corta a tela inteira, deixando partículas eletrificadas no ar que, lentamente, vão desenhando uma frase: “Inovação em Software”.

E eu pensando: “Não.”

Mas os raios e trovões continuavam: ZAP! “Soluções em TI”. BZIIIUM! “Resultados”. E, estupefato, tive que aceitar os fatos: eu estava diante de uma daquelas infames introduções em Flash. Mas era no PowerPoint.

A cena final tinha o nome e logomarca da empresa… e um meteoro de luz caindo ao fundo e explodindo na forma de uma galáxia. KA-BOOM!

Foi um arraso.


A saga das contratações

21 de fevereiro de 2011, 23:29

Como todo bom gestor brasileiro, estou com menos gente do que deveria na minha equipe. Só que, ao contrário do Esparroman, fui liberado para preencher minhas vagas faltantes.

E, meus amigos, vocês não sabem o suplício que é contratar gente.

Pra começar eu estava contratando gerentes de projeto (uma profissão relativamente nova), para tocar projetos online numa agência de publicidade (outra coisa relativamente nova), o que reduz consideravelmente meu público-alvo. Pra piorar, o RH da agência também está “understaffed and overworked” e não poderia me ajudar muito: eu teria que fazer a maior parte da seleção sozinho.

Outro agravante é que, no meu networking, só tem GPs que tocam projetos “analógicos” (construir prédio, etc.) e/ou GPs que moram em Belo Horizonte, então eu teria que sair buscando currículos no atacadão mesmo (ou seja, nos @trampos da vida).

A outra opção seria evocar os poderes do PMP e buscar um GP usando a seção de “vagas” do site do PMI São Paulo. Só que, como eles estavam lançando uma versão nova do site, num ato de estupidez inexplicável, eles tiraram a versão antiga do ar por uma semana. E, claro, foi justamente na semana que eu tinha pra selecionar gente. Sei lá, eles devem achar que fazer um upgrade de website é igual uma reforma de prédio onde tem que fechar tudo antes.

Mas, sites “under construction” à parte, anunciei a vaga por aí e então começaram a vir os CVs. E então, meu amigo, abriu-se a caixa de Pandora:

  • Se eu fosse considerar erros de português como critério eliminatório, não sobrava ninguém. Era “pretenção salarial” pra lá, “trabalhei a 4 anos” pra cá. Tinha de tudo. Tinha até um cara que se dizia “fluente em quarto idiomas”.
  • Eu achei que era lenda urbana, mas recebi uns 2 ou 3 currículos de mulher com foto. Uma delas, inclusive, tomou o cuidado de posar meio de lado pra deixar o decote bastante evidente.
  • Tinha gente que não tinha o perfil da vaga e, por isso, mandava uma carta de apresentação que mais parecia um testamento, implorando pelo emprego. Teve gente que argumentava dizendo que veio do nordeste, que era de família pobre. Chega a ser triste.

E os CVs iam chegando, às dezenas. Me lembro que um dia já era quase meia-noite e eu lá, com os olhos ardendo do brilho do monitor, lendo currículos; eu abria um deles, fechava os olhos e rezava baixinho: “por favor, Deus, faça pelo menos esse ser bom, por favor”.

Como ainda não perdi as manias de consultor, eu tinha um método para peneirar os currículos: se o CV estivesse muito fora do perfil (você não imagina o quanto de currículo de redator que eu recebi), era desclassificado na hora.  O resto recebia duas notas: uma para formação (escolaridade), outra para experiência e outra para conhecimento, todas numa escala de 0 a 10 e com pesos diferentes (formação tinha peso 1, conhecimento tinha peso 2 e experiência, peso 3). Daí a média ponderada das três notas dava um score inicial do candidato. Os mais bem-colocados eram entrevistados, e recebiam uma nota de 0 a 10 pela entrevista. A nota da entrevista era sempre multiplicada pelo score  inicial, o que resultava numa nota final variando de 0 a 100. A multiplicação é importante, porque fazia a entrevista valer muito: uma boa entrevista podia elevar muito o score de um candidato mediano – ou gongar um que era brilhante no CV mas ruim em pessoa.

E as entrevistas… bem, teve candidato que deu sono, teve candidato que tentou me enrolar quando não sabia responder alguma coisa técnica, teve candidato que, quando perguntado por que queria deixar o emprego atual, disse: “Pois é, eu me fiz essa mesma pergunta quando estava vindo pra cá”. E teve uns que foram brilhantes.

Mas como estávamos entrevistando gente para trabalhar com essa coisa moderna que é a internetcha, é óbvio que eu Googlei todo mundo antes, fuçei Twitter, Linkedin e o escambau. E para vários deles eu separei um tweet bem polêmico que eles tivessem postado (reclamando do emprego atual, falando mal de algum cliente, etc.), imprimi e, no meio da entrevista, botei na frente deles e disse: “me explica isso”.

Sacanagem? Bom, no dia-a-dia de gerente de projeto eles também teriam que rebolar diante de situações inesperadas – e era isso que eu queria testar. O assunto do tweet pouco importava. Alguns gaguejaram mas se saíram bem, outros debandaram para o desculpismo ou a negação.

E horas, horas, horas e mais horas de entrevistas depois, eu tinha os campeões. O último deles assumiu o trabalho ontem. Satisfeito por fazer a minha parte para as estatísticas de trabalho formal da Dilma Roussef, limpei o suor da testa e pensei: “Pronto. Não vou precisar mexer com contratações tão cedo”.

No mesmo dia saiu na imprensa a notícia de que a agência havia conseguido uma conta gigantesca. Mas gigantesca MESMO. E um email do meu chefe:

“Cara, vamos ter que contratar muita gente!”…


Pauta da reunião: urina

11 de janeiro de 2011, 22:16

Daí que ontem, no meio do caos de sempre, pintou uma reunião-surpresa com meu chefe, um dos VPs e o CEO da agência.

Acho que o fato de eu estar trabalhando numa agência deixou Murphy mais criativo, então ele resolveu que eu não teria aqueles problemas de sempre de falar alguma gafe ou de escrever onde não devo. Murphy resolveu inovar.

Foi a reunião começar e eu precisei, imediatamente, ir ao banheiro. “Ah, paciência, vou ter que aguentar até acabar”, pensei. E aí Murphy, com um inesperado, porém total, domínio das minhas funções renais, foi fazendo o aperto ficar rapidamente cada vez pior.

Cinco minutos de reunião e eu já me endireitei na cadeira e cruzei as pernas.

Dez minutos e eu já evitava me mover porque tudo ardia dentro da barriga.

Quinze minutos depois e me corriam uns arrepios na espinha que me faziam (discretamente) me contorcer na cadeira e agarrar os braços estofados dela, naquele estilo “orgasmo de pornô softcore”.

Obviamente o normal seria eu me levantar e ir ao banheiro, mas o assunto da reunião era seríssimo. Então eu fiquei esperando o assunto bandear pra alguma coisa irrelevante ou alguém vir com algum papo fora da pauta, porque isso sempre acontece em reunião. Mas não! Não naquele dia, onde todo mundo estava possuído por um espírito de praticidade que eu NUNCA havia visto em toda a minha carreira, e TUDO que era dito era relevante. E eu sequer conseguia pensar, com aquele pequeno oceano querendo vazar das minhas virilhas.

Eu aguentei até onde deu. Até a hora em que fiz que meu celular tinha tocado e saí da sala. Meus pensamentos no breve trajeto sala de reunião – banheiro – sala de reunião  foram:

- Putaquepariu putaquepariu putaquepariu putaquepariu putaquepariu putaquepariu putaquepariu putaquepAAAAHHHHH… putamerda tenho que voltar rápido putaquepariu putaquepariu putaquepariu putaquepariu putaquepariu…


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