Um bom cafuné muda tudo

É primavera em Toronto, o que significa que as temperaturas já deveriam estar bem melhores do que estão mas que, na verdade, ainda tá frio pra caralho. Por isso, faziam uns miseráveis 2 graus quando saí pra caminhar com Pavlov, como faço todo santo dia de manhã. Pavlov honra seu nome: ele é um cachorro de hábitos. Era terça, portanto eu já sabia que ele iria querer passear no parque. O roteiro de sempre inclui pegar a trilha padrão e passar bem debaixo da ponte do Humber River.

O que eu não sabia é que, ao passar por lá, eu olharia pra cima e haveria um gato escondido debaixo da ponte.

Eu já vi tudo que é bicho no parque – incluindo guaxinins e até um gambá, mas gato é muito raro de ver – e quando aparecem eles saem correndo e eu acabo ignorando, pensando que trata-se de um clássico gato de rua. Já esse aí parou e me olhou fixamente nos olhos. Esse foi o meu erro. No instante em que fizemos contato visual rolou um momento místico de comunicação não-verbal onde ele me disse, claramente, o seguinte: “help!“.

Naturalmente, eu racionalizei meu instinto e pensei que não tem isso de entender bicho só de olhar pra ele (mentira, eu faço isso todo santo dia com Pavlov), que provavelmente ele veio de alguma das casas da região, que resolveu dar um passeio estendido, e acabei deixando pra lá.

No dia seguinte, uma quarta, choveu muito e não consegui andar com o Pavlov. Quinta é dia dele fazer outro trajeto, pra poder otimizar seus xixis de marcar território e manter seu domínio urinário na maior área possível, mas acabei forçando a barra pra voltarmos pro parque e ver se o gato ainda estava lá. E, de fato, lá estava ele… exatamente no mesmo lugar. Minha racionalização morreu na hora: ficou óbvio que não era um gato de rua, e que eu não ia conseguir simplesmente ignorar aquele fato e ir trabalhar.

Voltei pra casa e comecei a pensar no que fazer. Eu nunca lidei com animais perdidos na vida. Portanto, fiz o que qualquer pessoa racional faria… digitei “o que fazer com gatos perdidos” no Google. O site da prefeitura de Toronto dava algumas instruções e indicava um outro site chamado “ajudando animais perdidos” (helpinglostpets.com). O layout do site está congelado no tempo desde 1990, o que me fez duvidar de que aquilo iria adiantar alguma coisa, mas acabei inserindo um relato de que havia visto o gato na ponte do parque.

Depois, peguei um pouco da comida do Pavlov e voltei ao parque. No frio de 2 graus, vestido de roupa social, eu me dependurei na ponte de maneira bastante irresponsável pra poder deixar um pouco de comida pro bendito do gato. Ele percebeu a manobra, se aproximou pra comer mas logo voltou a se esconder dentro da estrutura da ponte, fora do meu alcance. “Bom, pelo menos de fome ele não morre”, pensei.

Algumas horas depois recebo um email de uma tal Brett, voluntária do “Toronto Cat Rescue” (uma ONG de resgate de animais), dizendo que viu o relato no site e poderia tentar resgatar o gato se eu desse as coordenadas exatas de onde ele estava.

A gente se encontrou no parque e eu vi que estava, de fato, lidando com uma profissional do resgate felino: o marido dela deixou duas gaiolas estrategicamente posicionadas pra conseguir capturar o gato quando ele saísse, e organizamos um mini-plantão pra fiscalizar as gaiolas e garantir que o gato continuava seguro. Apesar de tudo, só no sábado ela conseguiu capturá-lo.

– “Ele é super dócil, tá lá no banco de trás do meu carro como se nada tivesse acontecido”, disse ela. Ficou claro que era um gato “criado com vó” que acabou perdido no parque sem a menor noção do que fazer pra sobreviver. Ela contou ainda que o gato possivelmente foi abandonado no parque por alguém que não queria mais ficar com ele. “Acontece muito nessa região”, ela disse. “Ele foi claramente criado dentro de casa, não tem nenhum instinto de sobrevivência”, complementou ela, confirmando o que eu já tinha percebido pela cara do gato de que não tinha a menor ideia de como sair dali. Ela explicou também que o gato ia ser examinado, vacinado, esterilizado, e depois iria pra adoção.

Eu, que nunca tomo decisões por impulso, digo na mesma hora: “eu posso ficar com ela”.

Fica a dica: JAMAIS olhem um gato nos olhos, ou esse tipo de coisa vai acontecer com vocês.

Alguns dias depois, Brett me manda uma mensagem dizendo que:

  • Não é “o gato”, e sim “a gata”
  • Ela tem uns 4 anos e já havia sido esterilizada, confirmando a teoria de que era sim uma gata doméstica que foi abandonada
  • É a gata mais dócil que existe: não curte correr e pular, mas adora ficar na cama e ganhar cafuné
  • Não tem pressão nenhuma pra ficar com ela: se eu mudar de ideia, posso ter certeza de que ela vai ser adotada por outra pessoa e ganhar um lar.

Se você está pensando “cara, mas você já tem um cachorro”, eu te digo que sim, era nisso que eu estava pensando… mas com a diferença de que minha preocupação era a seguinte: “será que meu cachorro vai se dar bem com a gata?”. De novo, nunca olhem um gato perdido nos olhos.

Alguns dias depois resolvi visitar a gata com meu cachorro, pra ver como ele reagiria. Ela estava ficando num quartinho da casa da Brett. “Entra você primeiro, pra gata ir se acostumando, depois a gente entra com o cachorro”, disse ela. Quando entrei no tal quartinho, Brett subiu no meu conceito de “profissional de captura felina” para “doida dos gatos”: o quartinho da casa dela era basicamente um hotel para gatos resgatados, com gaiolas, caixas de areia, brinquedos, música ambiente e uma confortável almofada no peitoril da janela, onde a gata estava deitada. E, pendurada acima dela, uma placa de carro personalizada que dizia “CATRESCUE”

“Agora é só eu chegar perto da gata e ela me morder, ou ela se desesperar com Pavlov, e aí acaba essa viagem errada de ter gato”, pensava eu, tentando achar uma saída lógica e honrosa pra minha situação. Cheguei perto dela, ela me olhou de volta com aquela cara de “ei, eu conheço você, humano”. Falei um “oi” (em inglês, afinal ela é canadense) e fui tocá-la pra ver como ela reagia. Foi quando finalmente paramos de fazer contato visual, porque ela fechou os olhinhos pra ficar curtindo o cafuné. E então, enquanto pensava “me fudi”, aprendi que dá pra sentir amor e desespero ao mesmo tempo.

Fui buscar Pavlov pra conhecê-la. Pavlov, como previsto, demonstrou o típico déficit de atenção de cachorro, que pode ser resumido em:

– “Uau cara! Estamos passeando! Que fantástico! Olha, tem essa casa nova aqui! Uau, tem esse quartinho aqui! Olha, ali tem uma gata! Olha só quanta coisa pra eu ver! Vamos pra rua de novo? Vamos? Vamos?”

Já a gata olhou pra Pavlov e, ao invés de pensar “estamos sendo invadidos!! VAMOS TODOS MORRER!” ou de demonstrar agressividade do tipo “MORRA ESCÓRIA CANINA!!”, ela fez uma cara de “que criatura curiosa”, e voltou a se deitar – o que é um ótimo sinal.

Dois dias depois o pessoal do Toronto Cat Rescue me mandou a papelada da adoção, paguei a taxa e, na sexta à noite, botei a gata no carro e fui pra casa, pensando “putaquepariu agora eu tenho uma gata”.

Junto com os papeis da adoção veio um PDF enorme de procedimentos com felinos, incluindo uma seção sobre como introduzir cães à gatos que pode ser resumida em uma frase: “não vai ser fácil”. Felizmente, violência não seria problema, já que Pavlov é praticamente Gandhi em forma de cachorro e a gata é incrivelmente passiva quando ameaçada – fato já demonstrado pelo fato dela ter ficado uma semana debaixo da ponte no mesmíssimo lugar. O duro é que Pavlov, também honrando a reputação científica, ficou extremamente curioso com a gata e queria desesperadamente cheirar e pegar e rodear e ficar o tempo todo próximo dela… isso tudo no momento mais traumático pra ela, que é a mudança de ambiente. O “manual” em PDF da gata já alertava que seriam umas duas semanas até ela se acostumar com a casa nova – e isso se não tivesse o cachorro.

Felizmente, Deus olha pelos seus filhos irresponsáveis mas de bom coração que pegam bicho na rua, e a adaptação dos dois correu bem – e mais rápido – que eu esperava. A gata achou uns cantinhos na casa pra se esconder dos avanços de Pavlov, e ele foi gradativamente ficando menos curioso. Aos poucos, a gata foi começando a criar coragem de sair dos esconderijos e se aventurar pela casa.

A foto acima é o sexto dia da gata aqui em casa, quando a curiosidade canina e o pânico felino deram lugar a um interesse mais comedido de ambas as partes. Segundo o manual da gata, era pra ela ainda estar tendo “interações supervisionadas com o cachorro encoleirado e sob controle em todos os instantes”, mas basicamente deixamos ambos se virarem sozinhos. Pavlov é dócil mas não é bobo, e começou a “policiar” os corredores e as portas dos cômodos onde a gente ficava, porque percebeu que ela tinha medo de passar perto dele. Já ela aprendeu rapidinho que, se não fizesse a Beyoncé e demonstrasse confiança, iria passar a vida confinada em esconderijos.

Agora já vamos pra duas semanas de gata em casa e ela já está confiante o suficiente pra perambular por onde quer – embora ainda tenha seus cantinhos preferidos. Pavlov está morrendo de ciúmes da confiança dela, mas está aprendendo a dividir a atenção. Tirando uma ou outra provocação eventual, ambos já convivem super bem, a ponto de poderem dormir conosco e tudo.

Mas vou ter que parar de escrever este post porque tem um negócio dando interferência no meu teclado…

Aí você pergunta… mas e o nome da gata? A primeira e mais óbvia opção seria Schrödinger, por razões óbvias, mas ela sendo fêmea e eu menos imaturo acabei deixando passar essa. No fim, Bethania deu uma boa sugestão, inspirada no que a gata mais curte receber:

“E se a gente chamasse ela de Cafuné?”

Um dia na vida do Primo (versão 2016)

Num dia desses de insônia estava revendo os arquivos do blog e me lembrei de quando fazia esses posts.

6:40 – O despertador toca e, como já estamos no outono, lá fora ainda é noite e continuará sendo por pelo menos mais meia hora – que é o tempo de eu entrar debaixo do chuveiro pra terminar de acordar.

7:00 – Já estou pronto e vestido. Pavlov, o cachorro, sabe disso e já está me rodeando porque ele sabe que isso significa que ele vai passear. Uma das vantagens de ser disciplinado é que cachorros entendem isso muito bem. Cães gostam de rotina – isso faz com que eles se sintam seguros.

7:24 – Eu e Pavlov temos um acordo tácito de por onde vamos passar todo dia de manhã. Ele, naturalmente, alterna entre os múltiplos caminhos rotineiros sem que eu precise interferir. Quando chove eu costumo optar por um caminho mais curto (e seco) – e de forma sobrenatural Pavlov já sabe disso e sai andando pelo trajeto “seco” sem que eu precise dizer uma palavra.

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Se você se perguntou “cadê a coleira”, boa pergunta. Em Toronto a lei manda que cachorros fiquem sempre de coleira, mas a essa hora nunca tem ninguém na rua mesmo, e se eu encontro alguém eu prendo ele de novo. Além disso, solto assim, fica mais fácil pra Pavlov praticar seu esporte predileto: perseguir esquilos.

7:40 – Hora do café da manhã, que no meu caso é só um punhado de cereal. Enquanto como, eu preparo a “marmita” do almoço e escuto o noticiário matinal da CBC (via TuneIn Radio) – outra das minhas rotinas matinais.

As notícias locais por aqui costumam ser motivo de piada porque nada de relevante acontece em Toronto. No último inverno, por exemplo, a notícia mais marcante da estação foi que os esquilos estavam ficando gordos demais por causa das temperaturas elevadas. Entretanto, neste dia a CBC passou uma entrevista interessantíssima com uma eleitora do Trump – uma canadense, mas com dupla cidadania nos EUA – e comentou de uma campanha brilhante chamada “Tell America it’s Great” (diga à América que ela é excelente). Os comentaristas diziam que essa foi a coisa “mais canadense” que eles já viram. Concordei.

(em tempo: fica aqui a menção honrosa à minha Bose Soundlink, a “pequena notável”. Comprei usada num site de leilão de produtos devolvidos da Best Buy, paguei uma pechincha, e essa caixinha tem o melhor som que já vi NA VIDA. Sem brincadeira.)

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7:55 – Hora de sair de casa e andar até a estação de trem. O frio ainda está bem suportável (10 graus) então basta uma jaquetinha e pronto.

8:07 – Como de costume, o trem vem sempre exatamente na mesma hora.

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Coincidentemente eu moro bem do lado da linha de trem expressa que conecta o aeroporto até o centro da cidade. A passagem costumava ser bem salgada, mas como ninguém estava usando o trem, acabaram abaixando a tarifa para acessíveis CAD$ 5. Só pra efeito de comparação, pegar ônibus/metrô iria me custar CAD$ 3, mas eu levaria no mínimo o dobro do tempo.

Ainda no assunto da rotina: como eu saio de casa exatamente na mesma hora e pego exatamente o mesmo trem, eu vejo exatamente as mesmas pessoas na estação todo dia. Tem o gordinho que sempre está assistindo desenho japonês no celular e embaralhando seu baralho de Magic, tem o indiano de terno, tem a loira do cabelo produzido que começou a paquerar um outro cara no trem, tem o “casal assimétrico” (a menina mede 1,50m e o namorado tem uns 2m de altura)…

8:24 – O trem chega na Union Station, a estação central. De lá são mais 10 minutos de caminhada até o trabalho – tudo por dentro dos prédios interconectados do centro, para que as pessoas não precisem andar pela rua quando está tudo congelante lá fora.

Além do clima, o cuidado do canadense com a segurança é tão exagerado que chega a ser engraçado. No caminho do trem até o trabalho eu passo por nada menos do que onze portas corta-fogo. A foto abaixo é logo depois de quando eu passo pela primeira delas.

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8:40 – Como o mundo dá voltas. Eu comecei minha carreira como analista de sistemas em um banco, e aqui estou novamente.

Parece a mesma coisa, mas é muito diferente. Os tempos mudaram, e ao invés de uma mesa fixa eu agora trabalho numa “sala de guerra” com o time todo no mesmo local, dividindo uma grande sala de reunião. Isso significa que o tempo todo tem mini-reuniões ou teleconferências acontecendo bem do seu lado.

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No início era desesperador tentar trabalhar com dezenas de pessoas conversando ao seu redor – e em inglês, o que aumenta ainda mais a sobrecarga cognitiva na cachola. Mas agora eu já estou (razoavelmente) acostumado. Outra coisa que ajuda é o fato de que a maior parte das estações de trabalho aqui no banco não são fixas e podem ser reservadas online por qualquer pessoa – assim, todo santo dia eu reservo duas ou três horinhas longe da bagunça para conseguir me concentrar.

12:50 – Na minha primeira “temporada” de analista de sistemas eu teria passado a maior parte da manhã procrastinando e vadiando na internet. Atualmente, eu produzo o tempo todo, feliz da vida. Parece aquelas histórias de amor de novela, cheias de desencontros, mas que no fim os protagonistas finalmente descobrem que realmente se amam e foram feitos um para o outro. Eu levei quase uma década flertando com outras carreiras, mas concluí que software é meu amor verdadeiro.

Na hora do almoço, ao invés de sair e ficar duas horas de papo pro ar, eu fiz uma reunião com o meu chefe e ambos almoçamos em frente aos nossos computadores, como é o costume na América do Norte. Abaixo, a minha “marmita” do almoço com uma saudável salada.

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13:58 – Hora de mais reunião, dessa vez no Oasis, que não é a banda londrina e sim o nome do refeitório aqui do andar. Hora também de tomar o chá da tarde (porque o café da máquina daqui é intragável).

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A tevê está ligada no CP24, o canal “oficial” de toda TV pública daqui de Toronto. O canal é tipo uma “Band News” num mosaico fixo de notícias, clima, trânsito, ações, resultados do esporte, tudo na mesma tela.

17:03 – A vantagem de não parar pro almoço é que quando dá cinco horas… acabou o trampo! É hora de voltar pelas minhas onze portas corta-fogo e admirar o trânsito parado do centro da cidade pelas paredes envidraçadas das passarelas onde passo. De carro eu levaria mais de uma hora pra chegar em casa.

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Curiosamente, só porque eu estava registrando este dia pra postar aqui no blog, o trem atrasou uns quinze minutos e veio “lotado”. Nessas horas eu acho engraçado o despreparo do canadense pra lidar com imprevistos. Tava todo mundo indignado com as filas e a muvuca nos corredores do trem…

17:48 – Ao chegar em casa, sou amplamente recepcionado por Pavlov. É sempre assim: eu passo oito horas longe de casa e ele se empolga com a minha chegada como se eu estivesse voltando da Segunda Guerra Mundial. Tanto que mal consegui fotografá-lo pra este post…

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Além dele eu também reencontro Bethania, que chegou de uma viagem de trabalho para NY. Ficamos os dois preguiçosamente no sofá por umas boas duas horas, que foi o tempo de assistir os Blue Jays perderem o quarto jogo da post season e serem eliminados do campeonato pelo time de Cleveland.

Os jogos foram polêmicos, mas por um motivo bem esquisito: o narrador local recebeu uma carta de protesto de um telespectador de origem indígena, e decidiu que não ia usar o nome do time de Cleveland – chamado “Indians” – na transmissão porque aparentemente isso seria “ofensivo”. Teve até um juiz que tentou entrar com um mandato pro time não usar o nome no uniforme e retirar também o seu mascote (um indiozinho pele-vermelha), mas o mandato foi derrubado.

Os torcedores de Cleveland (na foto abaixo), auto-intitulados “a tribo”, não parecem se importar com essas coisas.

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21:19 – Vale lembrar que eu tou numa vida de “jornada dupla”, trabalhando e estudando, então logo depois do jogo, acabou o descanso: hora de ir fazer os trabalhos da faculdade.

Aproveitei a noite pra fechar um trabalho do curso de “game programming” e, ao mesmo tempo, acompanhar o debate presidencial nos EUA.

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O debate foi… bem, digamos que meu trabalho tava muito mais interessante. O professor mandou a gente fazer uma fase de um jogo estilo platformer – joguinho clássico, estilo Mario, de sair pulando em plataformas. A fase precisava ter cinco minutos de gameplay e incluir inimigos, pontuação, sons, etc. Durante a aula o professor viu que meu layout pra fase incluía as clássicas plataformas que se movem e me orientou a tomar cuidado porque “plataformas móveis são difíceis de programar”. E na hora do vamo ver eu levei menos de uma hora pra fazer com que elas funcionassem ¯\_(ツ)_/¯.

A fase inteira não levou nem dois dias pra ficar pronta. Note que o personagem principal veio “emprestado” do Metal Slug, e os sons são “emprestados” do clássico Doom 🙂

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O código-fonte do jogo (Unity/C#) está no meu Github, inclusive.

23:01 – Depois de concluir toda a minha “lição de casa”, hora de dormir e começar tudo de novo amanhã…

Impressões após um ano de Canadá (ou: Retrospectiva 2015)

Exatamente no dia de hoje, um ano atrás, tudo que eu e a Bê tínhamos eram seis malas (sete, contando com a do Pavlov), uma passagem e uma vaga ideia do que viria pela frente na vida.

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Muita coisa rolou neste primeiro ano canadense. Muita coisa foi inesperada, muita coisa deu errado, muita coisa foi melhor que o previsto. Mudar de país também mudou muito do que eu pensava sobre um monte de coisas, que é o que eu vou tentar resumir neste (longo) post.

1) O mundo é muito maior do que eu imaginava

Quando eu postei sobre o que me fez decidir sair do Brasil eu fiz um comentário sobre o quanto minha passagem por países diferentes mudou – e principalmente expandiu – a minha visão de mundo. Quanta ingenuidade. Cheguei ao Canadá me achando o Jacques Cousteau da exploração mundial e a cada dia que passa eu vejo que não sei quase nada sobre meu próprio planeta.

No meu bairro, predominantemente negro, jerk deixou de ser só um xingamento e se transformou num delicioso tempero jamaicano. Vendo meus vizinhos, vários deles muçulmanos negros, entendi que o Islã é muuuito maior do que eu imaginava. Quando saio pra andar com o Pavlov tenho que tomar cuidado com as mulheres que usam niqab (aquela roupa que cobre o corpo inteiro), porque meu cachorro é um ser impuro na crença delas. E estou quase aprendendo a diferenciar o turbante dos muçulmanos do turbante dos árabes e o dos Sikh.

No Brasil tem o nordestino, o gaúcho, o mineiro, e cada um tem lá sua cultura e costumes diferentes – vários países dentro de um só. Na Índia é tipo isso, mas umas trinta vezes mais zoado: cada estado tem uma língua diferente, uma religião diferente, é uma bagunça completa. Entre os meus colegas, os sobrenomes “Kaur” e “Patel”, de tão comuns, já soam como “Costa” e “Silva”.

O lado asiático parou de ser apenas dividido em “chinês/japonês” e incorporou o malaio, o filipino, o coreano, e o vietcongue com sua língua maluca que parece onomatopéia pra comida (“nhom nhac” em vietcongue significa “banda de música”). Falando em comida, essa é outra vantagem da expansão asiática: o lamen, por exemplo, virou ramen e ganhou variações coreanas (bi bim bap) e vietnamitas (pho). O curry deixou de ser só aquele pozinho amarelo de sabor único: os supermercados tem prateleiras e mais prateleiras de curries em pasta e em pó, e agora estou indeciso se o tikka masala é melhor que o korma. E a minha geladeira tem um frasco de meio litro de sriracha.
sriracha

Viver em Toronto é experimentar uma espécie de ultramulticulturalismo que eu nunca imaginava encontrar no ocidente.

2) Inglês fluente é só o começo

Modéstia às favas, meu inglês sempre foi muito acima da média do que no Brasil se considera “fluente”. Aí cheguei aqui e passava apertado pra falar ao telefone porque não tinha a “leitura labial” pra me ajudar a entender. Quando a tevê dava a previsão do tempo eu me perdia em frases tipo “overcast above freezing in the single digits” ou com todos os novos tipos de neve (slush, flurries…). E a situação do tráfego, com o monte de nomes de ruas e regiões que eu não conhecia, soava como a professora dos desenhos do Charlie Brown.

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Mas com o tempo o seu ouvido vai se acostumando… e então começa o longo processo de reaprender as cores e os pesos das palavras, tão naturais no português, completamente misteriosos na sua nova língua. Um exemplo: eu ficava incomodado quando ia a um restaurante, o garçom me perguntava se eu queria alguma coisa, eu dizia que não e ele me trazia a conta. Custei a entender que o motivo era o “I’m done” que eu dizia quando havia terminado de comer – mas que na verdade significa que eu estou encerrando a refeição.

Toda língua tem sua poesia interna e nenhum livro pode explicá-la.

3) Como é bom o anti-jeitinho brasileiro!

Em outubro, como presente de aniversário, eu me dei uma visita à Art Gallery of Ontario. Quando eu e Bethania chegamos no museu, fui ao caixa e pedi duas entradas, uma delas de estudante.

Como de costume, o cara não me pediu nenhum documento para comprovar meu status de estudante, pois aqui se parte do princípio de que a pessoa está agindo de boa fé. Mas, não satisfeito em me vender uma entrada de estudante, o caixa pergunta pra Bethania:

– Você é estudante também, certo?
– Err… não, não sou – disse Bethania.
– Vai, me ajuda aí. Vou perguntar de novo: você é estudante também, né?
– Bem, e-eu tou fazendo um curso de inglês…
– Pronto, tá aí! Duas entradas de estudante! É que o museu fecha daqui a duas horas, não faz sentido você pagar o preço cheio. Aproveitem!

Toda vez que isso acontece – e é com uma certa frequência que isso acontece – eu sinto uma paz que eu jamais senti no Brasil, a paz que vem da sensação de que, finalmente, eu vivo num lugar onde eu não preciso ficar o tempo todo tomando cuidado pra que ninguém se aproveite de mim. Na verdade, a preocupação agora é garantir que eu estou fazendo o mesmo com as pessoas que me cercam, em todos os momentos. No metrô, por exemplo, eu tomo muito cuidado para não me distrair ouvindo música ou mexendo no telefone, pois pode ter alguém atrás de mim querendo entrar ou sair do vagão e eu não quero que a pessoa passe pelo incômodo de me pedir licença. Outro dia, ao andar com o cachorro no parque, me peguei recolhendo lixo que os outros deixaram no chão. E desenvolvi um ato reflexo de sorrir automaticamente pra todo mundo que fala comigo. O que nos leva ao ponto 4…

4) A todos os garçons brasileiros: me desculpem

Esse ponto é meio polêmico, mas eu preciso falar dele.

Um ponto crucial para entender o Canadá é o fato de que a pirâmide social por aqui é extremamente achatada. No Brasil, quando você diz que alguém é pedreiro, marceneiro, encanador ou garçonete, a ideia que vinha na minha cabeça ignorante era que a pessoa ganha um salário baixo e trabalha em um subemprego. Aí eu me mudei de hemisfério e – surpresa! – não tem mais subemprego: um motorista de ônibus em Toronto, por exemplo, ganha uns cinco mil dólares por mês (quase R$ 15 mil, no câmbio de hoje). Policiais, professores, bombeiros e enfermeiros chegam a ter salários médios de – e aí eu preciso escrever em caps lock – CEM MIL DÓLARES POR ANO. É o mesmo salário de um médico. Moral da história: por aqui, toda ocupação é suficientemente remunerada para que a pessoa tenha uma vida digna. Não tem emprego bom ou ruim: se você contribui para a sociedade com trabalho honesto e legal, você é um bom cidadão.

Logo que cheguei ao Canadá uma das coisas que estranhei foi o tanto que os garçons daqui te dão atenção. Eles se apresentam, sorriem, te explicam o menu todo, fazem uma ou duas brincadeiras pra amenizar o clima, te perguntam o tempo todo se você está precisando de alguma coisa, etc. Não é uma relação comercial, e sim uma relação pessoal. Você não é um cliente, você é uma pessoa como ele ou ela é. E aí eu percebi que meu estranhamento não vinha do fato deles estarem me dando atenção, e sim do fato de que eu é que não dava a devida atenção aos garçons brasileiros. Não cheguei ao extremo de maltratar ninguém, obviamente, mas sabe quando você nem olha pra cara da pessoa, simplesmente faz o seu pedido sem incluir um por favor ou um obrigado? Verdade seja dita, eu me relacionava com aquela pessoa como se ela fosse menos pessoa do que eu.

Admitir isso é algo extremamente vergonhoso pra mim, mas é a mais pura verdade. E, após conversar com alguns outros expatriados e ver que vários deles ficam perplexos porque “o pedreiro daqui ganha bem”, eu acho que preciso tornar pública essa reflexão. E, como na vida a lei do karma é coisa séria, chegamos ao ponto 5…

5) Agora eu sou minoria

Na semana que comecei a escrever este post me ocorreu uma história bem apropriada para esta questão.

Dentre todos os colegas que fiz na faculdade, apenas um é canadense de nascença. Ela se chama Winnie e, apesar de ter nascido aqui, é filha de chineses. Ela é tipo uma versão asiática da Phoebe do Friends: é toda voada e cheia das manias estranhas. Mas é super gente boa.

Há algumas semanas tivemos um feriado bem no meio da semana e eu combinei com ela e com um outro amigo para almoçarmos juntos. Fomos a um rodízio de comida japonesa, bom e barato, no bairro dela mesmo. Depois de nos empanturrarmos de sushi ela comentou que ia pra casa de ônibus e, como bons mineiros (e os únicos de carro), eu e a Bê nos oferecemos pra dar carona pra ela. Depois de muuuuita insistência e de ela ligar pros pais pra confirmar, ela deixou a gente deixá-la no ponto de ônibus mais próximo da casa dela porque, por algum motivo, ela não queria que a gente soubesse exatamente onde ela morava. Até aí tudo bem, botei isso na conta de “a Winnie tem lá suas manias estranhas” e deixei pra lá.

Acontece que o lugar onde faço estágio no centro de Toronto é a um quarteirão do lugar onde ela trabalha, então a gente se encontra pra almoçar toda sexta-feira. Numa dessas sextas, papo vai, papo vem e eu voltei no assunto do nosso almoço de quarta e por que ela não deixou a gente levá-la em casa. Surpresa: ela disse que os pais dela não confiam em latinos, porque tem o estereótipo de que não somos confiáveis, e ela não quis desagradar os pais.

Eu queria muito que essa fosse só uma história isolada, mas outro dia mesmo eu estava saindo do Walmart e vi uma senhora carregando várias sacolas com bastante dificuldade. Me ofereci pra ajudar, ela recusou mas ficamos batendo papo no ponto de ônibus. Cinco minutos de conversa depois e a gente ia comentando da bagunça que estava o Walmart quando ela me solta essa pérola:

– Sabe, eu sou cristã e não é com preconceito que eu falo isso, mas aqueles funcionários negros do Walmart são muito mal educados!

Moral da história: a questão do preconceito é bastante delicada por aqui. Mas eu continuo crendo na boa-fé do canadense e confiando que esses são casos isolados pois, felizmente, tenho um monte de contra-exemplos onde me tratam super bem. E, formalmente, Toronto é super liberal e inclusiva.

Mas mudemos pra um assunto mais alegre…

6) As quatro estações (não são mais um disco do Renato Russo)

Por algum motivo eu sempre quis experimentar como é isso de morar num país com as estações certinhas, igual eu via nos livros de geografia. Parece uma bobagem, mas ver as estações passar dá toda uma nova poesia pra vida.

Ao longo do ano eu tirei umas fotos da vista da minha janela e fiz a montagem aí embaixo (clique para ampliar).

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No inverno a encrenca não é só o frio: o que mais me incomodou é que o sol começa a nascer lá pelas 8 da manhã e lá pelas 5 da tarde já está completamente escuro de novo. Acordar cedo pra ir pra aula, com a temperatura em quinze graus negativos e com uma escuridão total na rua é de lascar. Outra chatice são as calçadas e ruas escorregadias. Mesmo depois que você se acostuma a dirigir no inverno, pegar estrada sempre é meio tenso. Os animais todos se escondem ou migram pra lugares mais quentes, e as pessoas naturalmente evitam passar muito tempo na rua. Some-se a isso o fato de que a neve é um ótimo isolante acústico e o resultado disso é o que eu mais gosto no inverno: o silêncio. É indescritível a quietude que o mundo ganha nos meses mais gelados do ano.

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Uma peculiaridade importante do Canadá: aqui não existe a profissão de frentista. Abastecer seu carro no frio de menos trinta graus não é nada divertido…

Em março, quando você já não está aguentando mais passar tanto frio, chega a primavera. Cara, a primavera é um troço completamente mágico: Os troncos de árvore que passaram meses sob temperaturas desumanas e que você já dava como mortos começam a ganhar folhas sabe-se lá Deus como. Os gramados dos parques e das casas ressurgem de repente e se enchem de florzinhas amarelas (dentes-de-leão, super comuns por aqui). Os dias vão ficando progressivamente mais longos e ensolarados, e você passa a comemorar temperaturas de dois graus positivos como se fosse clima de ir pegar praia. Os restaurantes começam a reabrir os seus pátios, os repórteres do noticiário da tevê ficam mais animados para dar as notícias, todo mundo sorri na rua… do jeito mais post de auto ajuda do Facebook possível: primavera é VIDA.

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O verão é quente mesmo, nível Brasil de quentura, mas com muito menos chuva – o que é ótimo. A cidade fica em polvorosa nessa época e tem evento pra tudo que é canto, tem shows, tem feiras, tem exposições, as pessoas lotam os parques, os pátios, as ciclovias, ninguém quer ficar dentro de casa – a não ser que seja pra escapar um pouco da suadeira debaixo do ar condicionado. Os dias longos te enchem de energia: às cinco e meia da manhã já tem sol rachando lá fora, e ele só se põe às 9 da noite. A galera capricha também na decoração dos jardins – as casas se enchem de lírios e outras flores coloridas. No verão o Canadá vira um outro país. Pra você ter uma ideia da diferença, o espelho d’água na foto abaixo, que fica em frente à prefeitura, é o mais famoso ringue de patinação no gelo da cidade.

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O que fecha o verão não são mais as “águas de março”, e sim o outono. Para compensar o retorno do frio, a chegada de uma chuva chata e constante, e o retorno dos dias progressivamente mais curtos, você é recompensado pelo espetáculo que são as árvores mudando de cor e desfolhando.

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Até os feriados da época são apropriados: primeiro tem o thanksgiving onde você agradece tudo de bom que rolou até então, e depois vem o remembrance day. Nesse dia – o dia 11 do mês 11, precisamente às 11 horas e 11 minutos, os ônibus e o metrô param, todo mundo para o que está fazendo, e todo mundo faz um minuto de silêncio para os soldados que morreram na guerra. E ao longo do mês muita gente usa a tradicional florzinha de papoula vermelha na roupa.

 

7) E o lado ruim do Canadá?

Porque sim, apesar de eu me desdobrar em elogios toda vez que me perguntam sobre a vida em Toronto, aqui também tem lá as suas canseiras.

Uma delas é o transporte público, que está defasado em uns 10 anos. Pra começar, ele é fortemente baseado em ônibus – que, justiça seja feita, são ótimos, tem motores híbridos (diesel/elétrico), todos tem rack para bicicleta, todos tem rampa para cadeira de rodas… mas que são muuuuuito lentos por causa da quantidade de pontos de ônibus espalhados nas ruas. Pra você ter uma ideia, a velocidade média do ônibus que pego todo dia pra ir ao trabalho é de 12km/h. O metrô seria mais rápido, mas Toronto tem míseros 68km de linhas interligando a cidade (São Paulo tem mais de 330km).

Outra chatice é não poder comprar cerveja no supermercado: bebida alcoólica é fortemente regulada e só é vendida em duas lojas (Beer Store – dã! – e LCBO). Beber ao ar livre pode, mas só em áreas licenciadas e fisicamente delimitadas. É comum você ir a um show ou uma feira e ter um “cercadinho” onde as pessoas podem beber.

A Bê me lembrou outras coisas complicadas:

  • O sistema de saúde. Sim, ele funciona e é gratuito, e o Canadá é pioneiro mundial em várias áreas avançadas da medicina (transplantes, por exemplo). Mas pras coisas simples, como fazer um exame de sangue ou comprar seu anticoncepcional, você precisa obrigatoriamente passar por uma consulta médica demorada e inútil. E o padrão da medicina daqui não é nada preventivo: o foco é tratar a doença depois que ela acontece.
  • As festas e a vida noturna. Não tem jeito: ninguém sabe fazer uma boa festa como os brasileiros sabem. As festinhas de escritório então, para aniversariantes, aposentados e etcetera, são desesperadoras. E nem vou comentar o quão ridículo é ver o norte-americano tentando dançar…
  • A tevê. Tirando as minisséries, a programação da TV aberta é praticamente inassistível.
  • O comportamento passivo-agressivo do canadense. Pra gente da cultura latina o normal é sempre deixar claro o que se está sentindo – o que inclui armar eventuais barracos. Já o canadense é reservado e estereotipicamente bonzinho, portanto a sua agressividade é velada e passiva e, portanto, intensamente tóxica. Eu nunca vou me esquecer de um domingo, logo que cheguei, quando eu estava procurando vaga pra estacionar num shopping lotado e, sem querer, “roubei” uma vaga de um cara. Ele passou com o carro do meu lado, me olhou do jeito mais desprezível que existe e disse: “Você sabe dar seta? Pois é, deveria usá-la mais vezes então”.

Mas o principal problema canadense é, sem sombra de dúvida, o inverno. Viver fica bem mais complicado quando você tem boas chances de morrer congelado se sair na rua despreparado.

8) Conclusão?

No post sobre o que me fez decidir sair do Brasil eu usei uma frase bastante peculiar sobre a minha relação com o país:

E aí eu e o Brasil ficamos muitos anos nesse casamento de aparências: não temos nada a ver um com o outro mas estamos aí, juntos.

Pegando carona nessa mesma analogia, esse primeiro ano de Canadá tem sido como aquele primeiro ano de namoro (a chamada “fase rosa”) onde tudo é alegria. As minhas suspeitas de que “a gente tem tudo a ver um com o outro” estão todas se concretizando. Mas eu estou tentando não me apegar enquanto o outro lado não demonstrar que quer mesmo compromisso – em outras palavras, meu visto tem data pra acabar.

De qualquer forma, mesmo se der tudo errado e eu precisar voltar ao Brasil, o que eu traria comigo é um sentimento que esta estadia canadense tem me demonstrado e que, por uma série de motivos, eu nunca aprendi a cultivar: a gratidão. Acho que essa é a principal herança do ano de 2015 e vou me esforçar pra conservá-la – com ou sem thanksgiving.

Retrospectivas anteriores:

2014 (não teve)2013 – 2012 2011 2010 2009 (b) – 2008 2007 2006 2005

Uma centena de metros em uma linha reta perfeita

Debaixo do proverbial sol de meio-dia de sábado e já uns 15 quilômetros haviam ficado pra trás: os primeiros até a estação Santo Amaro e, de lá, os restantes lado a lado à fedorenta margem do Rio Pinheiros. Sempre ao norte, até o fim da ciclovia, onde tem um posto de apoio debaixo do viaduto que salta sobre a estação Ceasa do trem.

Comprar uma bicicleta – a clássica Caloi 10, mas no modelo 2012 – foi uma grande ideia. Na verdade foi inevitável, depois que entendi que existe um mundo além das mountain bikes e que esse é um mundo de bikes speed, que me ultrapassaram tantas vezes quando fui me aventurar na ciclovia usando a bike tosca de supermercado que eu precisava experimentar como era isso de bicicletas feitas pra voar pelo asfalto liso, ao invés de sofrer em trilhas poeirentas ou de despencar morro abaixo. Nunca vou me esquecer de quando montei na Caloi 10 pela primeira vez: arredia e instável quando lenta, algumas pedaladas depois e eu fascinado com o quanto ela corria. “Isso é um foguete”, pensava.

Pedalar pro norte na ciclovia é normalmente contra o vento, portanto bem sofrido e mais devagar, mas aí você para no posto de apoio e bebe uma água e checa o celular, com a desculpa de ver se aquele app de GPS tá mapeando certo o trajeto, mas que no fundo é pra aliviar a consciência de que ninguém te ligou com alguma bomba no trabalho. O que me remete aos momentos antes de sair pra pedalar. Eu trançando pela casa, inquieto, com um nó no estômago, sem entender se aquilo era ansiedade para sair logo de casa e pedalar ou se era o resultado da semana caótica e da insônia da última quinta-feira. Eu nem me lembro do que eu via na tevê às quatro da manhã de quinta, pra tentar pela décima nona vez ocupar a cabeça com algo que me acalmasse – ou com qualquer outra coisa que não fosse a angústia de ver as horas passando e nenhum sinal de sono, mesmo estando exausto do trabalho, e esse dilema do cansado-mas-aceso dando um aperto no peito, exatamente igual ao que eu sentia na manhã de sábado, capacete da bike na mão, garrafa d’água na outra, decidindo ir logo pra rua pra ver se aquilo passava independentemente da causa.

Então eu fui, e assei no sol de meio-dia, e suei e cheguei bem cansado no posto de apoio e no meu celular não tinha nenhum telefonema do trabalho, só umas notificações do Facebook que nem quis ver pra não quebrar a sensação de que aquele momento ali era só meu.

Era só meu e o caminho da volta ia ser com vento a favor, e ainda restava uma boa meia hora do podcast de Drum’n Bass nos fones. Eu devo boa parte dos 10 quilos que perdi nos últimos meses à precisa curadoria de DJ Risky em seu podcast (semi) semanal. “Risky killin’ it from every single angle!”, diz uma das suas muitas vinhetas. O sentimento é de que você pode levantar qualquer peso na academia, correr qualquer distância, e de que a violência do esforço de músculos cansados na verdade é uma delícia e vai ser ótimo esmigalhar os pedais e acelerar ciclovia abaixo com vento a favor. É um foguete a Caloi, com vento a favor então é ainda mais. E ninguém me ligou, então eu estava livre.

Nos primeiros metros de retorno à ciclovia o velocímetro passou fácil dos 30 quilômetros por hora, e à frente só a longa reta que termina na ponte Cidade Universitária, nenhum outro ciclista por perto. Larguei o guidão, respirei fundo o ar podre do rio Pinheiros e abri os braços por alguns instantes. Antes arredia e instável, agora a Caloi 10 seguiu quase uma centena de metros em uma linha reta perfeita, e me senti relaxado.

Foi o único momento da semana inteira em que me senti relaxado.

No fim das contas acabei exagerando e pedalei cinquenta quilômetros no total – uma ida e volta completa em toda a extensão da ciclovia. Cheguei em casa e demorei umas 2 horas só pra conseguir levantar do sofá e tomar um banho. Com corpo e mente com cansaço finalmente sincronizado, alternei cochilos e sono noturno picado até o final do domingo – mas pelo menos dormi alguma coisa.

Durou só até essa madrugada de terça pra quarta. São duas da manhã e nem tentei ir dormir ainda.

2012 não está sendo fácil. 2012 não está sendo nada fácil.

O gerente de projeto mais rápido do oeste

Daí que esse ano teremos um projetão monstruoso na agência e o contrato dele com o cliente inclui um GP full-time – que eu estava suando pra achar pra contratar.

Muitos CVs e entrevistas depois, achei um cara. Ele começou a trabalhar na agência numa quarta-feira. Na segunda da outra semana, como ele já estava ambientado, resolvi dar as “boas vindas” oficiais como eu sempre faço: eu tiro uma foto do cara e mando um email pra todo mundo, de SP e de Recife, apresentando “virtualmente” a pessoa pra equipe inteira.

Como de costume, o pessoal de Recife sempre responde o email fazendo alguma piadinha. Dessa vez o pessoal começou a responder com vídeos do YouTube, como:

“Welcome to the jungle”, do Guns’n Roses

A cena do bombardeio em Apocalypse Now, ao som da cavalgada das valquírias

– O clipe de “Cilada”, do Grupo Molejo, ou o clássico “É uma cilada, bino!”, do Carga Pesada

Quinze minutos depois dos emails, o cara me chama pra conversar, diz que recebeu uma outra proposta de um projeto “irrecusável” e pede demissão… 🙂

Retrospectiva 2011

Nada poderia me preparar para 2011. E, de certa forma, não fosse tudo que vivi nas últimas décadas e eu não estaria pronto para 2011.

O ano começou comigo pulando de cabeça num mercado completamente novo: o da publicidade. E aí os dias começaram a virar sagas épicas de caos, suor e muito, MUITO trabalho. Eu nunca trabalhei tanto quanto em 2011: meu horário “normal” de sair da agência é lá pelas nove da noite. Trabalhei várias madrugadas, trabalhei finais de semana, trabalhei até no carnaval.

Mas trabalhei todos os dias com gosto e com sangue no olho: eu não estava mais limitado a apenas sugerir coisas pro meu cliente e rezar pra ele ter a boa vontade (ou os colhões) de implementar. Ao contrário dos dias de consultoria, aquilo ali era a minha operação, meus projetos, minha equipe – minhas entregas.

Junte a isso o fato de eu estar finalmente trabalhando com o que eu sempre quis (internet) e pronto: eis um homem totalmente pilhado.

Tão pilhado que me envolvi até mais do que devia, e 2011 acabou também sendo o ano onde eu menos dormi. Eu já estou quase desenvolvendo um padrão de insônia onde eu durmo lá pela meia-noite, acordo pontualmente às 4 da manhã e não consigo mais pegar no sono porque fico pensando em trabalho. E o meu colesterol só tá em ordem graças às estatinas.

Parte disso é justificado porque 2011 foi o ano dos problemas estapafúrdios: tive que lidar com fornecedor tentando me dar o cano, fornecedor abandonando projeto no meio, cliente reclamando porque puseram palavrão em código-fonte de site, princípio de incêndio em aparelho de ar condicionado (sério!) e até sabotagem em projeto. Eu fiz trabalho de psicólogo, diretor de arte, arquiteto de informação, atendimento, mestre de obra, RH, financeiro… fui até organizador de buffet para eventos. Carreguei caixa e montei computador, em pleno sábado, no dia em que tivemos que nos mudar do prédio em Recife porque não cabia mais todo mundo no anterior.

Mas todo o suor, stress e noites mal dormidas compensaram. Estou fechando o ano com centenas de projetos entregues, a grande maioria sem atrasos ou problemas de qualidade. Os problemas críticos da operação todos sumiram. Mesmo com a equipe triplicando de tamanho, o custo do homem/hora quase não variou e a rentabilidade da operação tá tinindo. E em menos de um ano de agência eu fui promovido a diretor.

E o mais legal: no meio desse caos todo eu ainda arrumei tempo (e dinheiro) para, finalmente, comprar um apartamento. A mudança deve ser antes do natal, bem na véspera da festa de fim de ano da agência.

Falando em festa, a imagem aí embaixo é o convite. O tema desse ano vai ser “Las Vegas”:

Vegas, baby!

Simbólico. O destino me deu boas cartas este ano – e, modéstia às favas, eu joguei bem pra caralho.

If I could settle down / then I would settle down

Há quatro anos, quando me mudei para São Paulo, comentei que desde 2003 todo ano teve um mega-acontecimento significativo, que provocou mudanças drásticas na minha vida:

2003: Larguei minha carreira em TI

2004: Comecei oficialmente uma nova carreira de consultoria

2005: Morei no Canadá

2006: Me casei

2007: Me mudei para São Paulo

2008: Virei consultor-sênior e me certifiquei como PMP

2009: Fui retirado de um projeto. Pode não parecer, mas isso foi muito significativo e provocou mudanças boas.

2010: Larguei a consultoria e fui trabalhar numa agência de publicidade

…e agora veio a mudança drástica de 2011: eu vou, finalmente, comprar um apartamento em São Paulo.

Já faz um tempo que estávamos pensando nisso. Eu já não sou mais aquele jovem de vinte-e-tantos anos e, conforme vem a idade, chega o momento de começar a estabilizar a vida, formar um patrimônio, pensar no futuro, essas coisas que dizem nas propagandas de previdência privada ou seguro de vida.

Ter meu próprio imóvel na cidade também significa que eu estou colocando um “anel de compromisso” em São Paulo – significa que não estamos mais apenas flertando com a cidade pra ver no que dá. A partir de agora é nóis na vida loka, mano.

O processo todo para achar o apartamento, como tudo na minha vida, foi bem simples:

  • Primeiro eu fui juntando dinheiro pra poder dar de entrada.
  • Enquanto isso veio o boom imobiliário e os preços tipo duplicaram num espaço de três anos.
  • Junto com os preços para compra, subiram também os aluguéis – e meu contrato de aluguel começou a ficar perigosamente próximo de vencer.
  • Trabalhar 12 horas por dia na agência não me deixa exatamente com tempo livre para ficar procurando imóveis. A solução foi usar uns 40 minutos que me sobravam de manhã cedo pra escarafunchar apartamentos na internet, e usar os finais de semana pra ir visitar os bons.
  • Durante estas visitas a gente via que 90% dos “bons da internet” eram um lixo na vida real: eram perto de favelas, eram longe de tudo, eram colados em avenidas barulhentas, eram debaixo da rota dos aviões de Congonhas, enormes mas velhos, novinhos mas minúsculos, etc, etc. Então todo final de semana terminava comigo frustrado e vendo os preços subindo 2% ao mês.
  • Repita os últimos 2 passos por SETE MESES.
Até que, no último sete de setembro, enquanto todo mundo curtia seu feriadão, lá fomos eu e Bethania ver mais apartamentos – e vimos um com preço muito baixo (porque precisava de umas reformas), não muito pequeno e – o mais importante – extremamente bem localizado na Chácara Santo Antônio, a 2km do trabalho de Bethania e com uma estação de trem pertinho, pra eu ir trabalhar. Fizemos uma proposta, a proprietária topou e a saga, finalmente, acabou…
Agora é encarar as próximas sagas que vem por aí: a mudança maluca, as reformas recalcitrantes e o financiamento feroz

De por quê eu adoro transporte coletivo

14:10 – Estou na Vila Olímpia, após um almoço com um fornecedor. Ligo para a cooperativa e peço um táxi pra voltar pro trabalho. A menina me diz que me liga em seguida para informar qual o número do carro que vai me atender.

Mau sinal. Se ela não me disse o número do carro na mesma hora é porque não tem carro livre…

14:20 – Cansei de esperar a ligação. Começo a andar até a estação do trem.

14:30 – Chego na estação e pego o trem.

14:45 – Desço do trem.

14:50 – Chego no trabalho, escovo os dentes.

15:05 – Entro numa reunião.

15:20 – Saio da reunião.

15:25 – O telefone toca. É a cooperativa, dizendo o número do carro e avisando que ele chega em 5 minutos.

Como perder o ônibus de maneira épica

8:45:33 – Estou terminando de comer meu café da manhã na padaria da esquina. A padaria é bem em frente ao ponto de ônibus que eu usaria para chegar ao trabalho (já que a CPTM tava de greve).

Distraído, observo os ônibus passando enquanto dou minha última mordida no pão. Veio um, dois, cinco ônibus, e nenhum era o meu. Aí pensei: “aposto que, quando eu estiver pagando minha conta no caixa, meu ônibus vai passar e eu vou perder”.

8:45:40 – “Bom, já que é assim eu não vou levantar, assim não perderei o ônibus”.

8:45:45 – “Tá, mas se eu não me levantar eu não chego no trabalho, então não tenho muita opção”.

8:46:02 – Estou na fila do caixa. Olho para o lado e – adivinha! – é o meu ônibus. Sorrio um sorriso amarelo de descrença e self-schadenfreude e começo a me sentir duplamente um idiota: por acreditar nessa superstição de que eu perderia o ônibus e por ela realmente ter acontecido.

8:46:04 – Reparei que haviam mais dois ônibus na frente do meu, fazendo uma espécie de fila no ponto. Olhei para a fila do caixa e só havia uma pessoa na minha frente.

E me deu um estalo: se eu for rápido o suficiente e entregar o dinheiro trocado, dá pra correr até o ponto em tempo de pegar o ônibus.

8:46:06 – O primeiro ônibus arranca e vai embora. Olho pra conta na minha mão: 3,00 do suco de laranja mais 1,50 do pão na chapa. Abro a carteira apressado, retiro duas notas de R$ 2 e começo a escarafunchar o compartimento de moedas, rezando para achar cinquenta centavos.

8:46:08 – Olho de novo pro ponto. O segundo ônibus já havia parado e saído, e só sobrou meu ônibus, já abrindo as portas pro embarque/desembarque. A fila do caixa continuava parada e, no meio das minhas moedas, só achei uma de R$ 1.

8:46:09 – “Que se dane!”, pensei. Peguei os R$ 5, deixei em cima do balcão junto com a conta e comecei a correr em direção ao ponto.

8:46:10 – Meu ônibus arrancou e saiu.

Top Chef – Comida Caseira Edition

Aqui em casa anda-se comendo muito bem. Méritos todos de Bethania, já que minha participação se resume apenas a arrumar a cozinha depois.

Uma das causas disto é que outro dia uma amiga mineira veio nos visitar e acabou emprestando um livro de receitas: “Revolução na Cozinha”, de Jamie Oliver. Eu sempre achava que “culinária de TV” era tudo picaretagem, até que Bethania começou a fazer algumas receitas do livro.

Meu amigo, minha amiga, eu fiquei perplexo. Cê junta meia dúzia de ingredientes (as receitas são surpreendentemente simples) e de repente sai comida nível “restaurante grã-fino que ganha estrelas Michelin”. Sem exagero.

A última que fizemos foi um stir-fry de salmão, à moda asiática. A combinação do peixe com o leite de coco e o curry ficou, simplesmente, espetacular. E o tempo de cozimento foi o mesmo de um miojo: TRÊS minutos.

 

Mas foi no carnaval que a gente abusou do livro. Fizemos um salmão com molho pesto, vagens e batatas amassadas que, meu amigo…

Nunca imaginei que molho pesto ia tão bem com salmão. Acho que daí é que vem a genialidade do livro: combinações inusitadas, simples e surpreendentemente boas.

Outra delas é a ideia de enrolar frango em presunto parma, temperar e fritar. Fica inacreditavelmente crocante.

Outra variação dessa história de enrolar que achamos no livro envolvia bacalhau e nada menos do que bacon – a iguaria predileta de toda a internet. Claro que bacon transforma tudo em uma bomba de colesterol, mas eu simplesmente TINHA que comer aquilo.

 

O livro é tão bom que acabou “sequestrado” aqui em casa, e estamos deliberadamente enrolando pra devolvê-lo para sua dona original (que, por sinal, fez um frango indiano incrível pra nós – em receita também retirada do livro). Mas é questão de tempo até comprarmos nossa própria cópia – que custa uns R$ 60, mas que rende dezenas de jantares que com certeza custariam o triplo disso.