Entendendo o voo da gaivota

Hoje de manhã fui andar com o cachorro e o céu estava mais ou menos assim.

Pra completar a cena, eis que passa uma revoada de gaivotas, voando pro norte por algum motivo. Deviam é ir pro sul e ir parar no México, pra fugir do frio que vem chegando lentamente. E comer guacamole, obviamente.

Esse ano eu parei de usar celular e fone de ouvido ao andar com o cachorro, pra exercitar mindfulness (como fala isso em português?). E me peguei achando aquela cena bem bonita… e então pensando no quanto é estranho a gente achar a natureza bonita. Isso é pré-programado, talvez? O que determina o que é bonito ou feio? E por que a maior parte das coisas naturais nos parece agradável?

Daí o sonso aqui se lembrou de uma frase de Picasso que eu e a Bê vimos no museu de Picasso, no Japão (pois é), e que há meses está escrita no nosso mural de giz da cozinha. Ele diz:

Todo mundo quer entender arte. Por que ninguém tenta entender o canto dos pássaros? Por que as pessoas adoram a noite, as flores, tudo ao seu redor, sem tentar entender essas coisas? Mas quando se trata de uma pintura, as pessoas tem que entender…

Daí foquei em uma das gaivotas. Observei o movimento das asas, às vezes batendo pra se deslocar, outras vezes imóveis e apenas planando ao sabor da brisa. E aí me lembrei de quando era criança e cenas como essas despertavam aquele desejo infantil de como seria legal se a gente pudesse voar. E então lembrei que há muito tempo eu não sentia mais esse tipo de desejo, justamente por que é infantil e eu não sou mais criança.

E então pensei no meu filho, ainda crescendo na barriga da Bê. Pensei em como ele vai passar por todas essas coisas. Em como ele vai sentir esse desejo na sua forma mais autêntica, sem compromisso com a realidade física do nosso mundo duro e pesado. Pra ele, voar vai ser sim uma possibilidade bem palpável. E então fiz um esforço para sentir a mesma coisa: olhei para a gaivota e pensei em como seria fantástico estar lá, acima de tudo, ao sabor do vento.

Quando meu filho olhar para a gaivota e voar com ela em sua mente, eu quero estar junto com ele.

Apenas mais um

Uma vez me mostraram o Worldometers, um site com contadores para vários indicadores mundiais que vão atualizando “ao vivo”. É bem legal ver a população mundial – ou a quantidade de celulares vendidos este ano – crescendo na sua tela em tempo real.

No entanto, um contador que sempre me chama a atenção é o de pessoas mortas. Eu olho para o número e lá estão trinta e um milhões, seiscentas e oitenta e oito mil e noventa e cinco pessoas mortas este ano. Se fosse só um número grandão e imóvel ele pareceria distante, como uma estatística, mas ver o número crescendo na sua frente o torna terrivelmente real. Tanto que, um instante depois, o contador pula para noventa e seis. E noventa e sete. Noventa e oito.

Aí eu olho em volta e me vejo no computador, trabalhando no meio de uma tarde qualquer. Dois colegas passam conversando no corredor. O contador pula para noventa e nove. No cubículo ao lado do meu, outro colega digita e clica, digita e clica. Agora são cem pessoas mortas. Ele digita mais um pouco. Cento e uma.

E então eu vejo o tamanho do abismo de indiferença que existe entre o horror da morte e o milagre da vida.


Era fim de sexta e, enquanto Bethania ainda estava no trabalho, eu estava é na correria de chegar em casa e dar comida pros bichos, porque a gente ia se encontrar com uns amigos e eu precisava pegar o carro de volta pra Toronto mas não sabia o horário que ela tinha combinado, então entre o pote de ração e a lata de patê eu peguei o celular e não entendi por que tinha uma mensagem de Bethania dizendo: “não precisa vir”. Então liguei pra ela:

“Não precisa? Por quê?”
“Me ligaram do Brasil. Meu pai acabou de falecer.”
Breve pausa.
“Pega um táxi então e vem pra casa. Enquanto isso vou começar sua mala e vou olhando o voo de onze e meia da noite pra você”.

As próximas horas foram uma corrida maluca. A passagem de avião foi comprada no meio da estrada pro aeroporto, e Bethania só embarcou graças à generosa política que a Air Canada tem para emitir passagens quando morre gente na família.

Depois de deixar a Bê no aeroporto, eu voltei para o carro e, no instante em que saí do estacionamento, dei de cara o mais incrível pôr-do-sol de verão. Um céu inacreditavelmente alaranjado reluzindo sobre a estrada. Nuvens cobrindo o horizonte em tons de cinza dignos de uma pintura de Monet.

E então me lembrei do site com os contadores, indiferente ao céu espetacular, indiferente à Bê entrando no avião para enterrar o pai. Para o contador, era simplesmente mais um – mas para nós, esse “mais um” era muito.


No sábado seguinte, passei o dia em “modo faxina”: limpei a casa inteira, cada cantinho. Lavei a roupa, troquei os lençóis. Lavei toda a louça e deixei a cozinha limpinha. A cozinha toda limpa, por sinal, é o meu “pôr do sol particular”: adoro ficar olhando pra ela, já que dura apenas alguns minutos… Por fim, comprei flores pra levar pra Bê no domingo de madrugada, pra entregar no aeroporto quando o voo dela chegar.

Depois de um belo cochilo (prioridades), fiquei na cama ouvindo ela contar dos detalhes da viagem. Da canseira que é tentar resolver qualquer coisa no meio da burocracia brasileira. De como o pessoal que ia receber os móveis doados da casa do pai dela cancelaram o carreto em cima da hora, entre outros detalhes nada divertidos da semana. No final, depois dos desabafos, ela disse que trouxe uma surpresa pra mim. Na hora achei que era, sei lá, goiabada cascão ou paçoquinha…

Eram dois testes de gravidez. Ambos positivos.


No site dos contadores tem também um com o número de nascimentos. Só este ano já nasceram oitenta milhões, novecentas e trinta e três mil, seiscentas e sessenta e sete pessoas. Setenta e oito. Setenta e nove…

No começo do ano que vem, o contador vai contar mais um. Para o contador, será só mais um. Para nós, esse “mais um” será a coisa mais importante das nossas vidas.