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A ficção que precede os fatos – Episódio I

3 de December de 2008, 15:30

Dois dias atrás. A pequena Lourdes passeava na penumbra do backstage, perambulando entre a equipe técnica, com seu iPod nos ouvidos. "Viva la vida", do Coldplay, tocava pela vigésima vez. "Que saco", pensou. "Preciso de músicas novas, já enjoei disso"…

Lourdes já estava acostumada com a movimentação em época de turnê. Mal acabava o show e caixas e mais caixas de equipamento eram levadas para os containers que iam para o aeroporto. Apesar da agitação Lourdes ouvia apenas Chris Martin cantando com doçura em seus ouvidos, enquanto homens grandes passavam carregando caixas ainda maiores para contêiners gigantescos.

Então ela teve uma idéia.

A cabine de som ainda não estava totalmente desmontada e o baú com os CDs dos engenheiros de áudio estava aberta. Lourdes correu até lá e começou a vasculhar a enorme coleção para ver se conseguia achar algum CD de música. Mas as anotações à caneta no verso reluzente dos discos diziam apenas coisas técnicas, como "vinheta inicial", "trilha para o bis" ou "áudio de teste para graves". Lourdes já ia perdendo as esperanças quando, no fundo da caixa, um CD parcialmente encoberto deixava ver apenas as quatro últimas letras do seu título: "…BACK".

- "Ei, será que é Nickelback?", pensou Lourdes enquanto tentava alcançar o CD.
- Porra, Lourdes!!

A voz aguda atrás da menina era inconfundível, e era a sua mãe. E estava brava.

- Te procurei por tudo que é lado, pirralha! Vamos logo que o avião sai amanhã cedo!

Lourdes saiu andando cabisbaixa e jogou o CD de volta no baú, sem nem olhar pra trás. Mas o disco bateu na beirada da caixa, caiu do lado de fora e rolou para fora do palco, caindo num canto escuro e inacessível, e lá ficou, esquecido. E nunca mais ninguém leu as letras negras rabiscadas em sua superfície, que diziam: "PLAYBACK".

Na manhã seguinte, já na Argentina com sua mãe, Lourdes não entendeu bem por que a produção do show estava furiosa, falando em cancelamento, dizendo que "se ninguém achasse seria impossível fazer o show". "Bom, se vamos ficar um dia a mais aqui, acho que vou pedir o motorista pra me levar numa loja de CDs", pensou Lourdes, despreocupada.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u474659.shtml


Dois filmes do final de semana

12 de September de 2005, 22:13

Edifício Master - Documentário brasileiro sobre alguns moradores deste prédio, que fica em copacabana e tem uns duzentos apartamentos. Tinha tudo para ser um pé no saco mas, graças à histórias peculiares de alguns dos moradores, tornou-se interessante. Destaque para o belíssima cena de um senhor que faz uma performance inacreditável de “My Way”, do Frank Sinatra, durante a entrevista, e termina em lágrimas, dizendo:

- Essa música me toca muito… dá até uns “shivers” - diz ele, apontando para o braço arrepiado.

Levou um “melhor documentário” no Festival de Gramado de 2002, por sinal.

Chave Mestra - Filmete de suspense do mesmo roteirista de “O Chamado”. Só que eu detesto filme de terror, e só fui assistir esse porque o maldito primo da minha noiva não disse que era de terror. Mas paciência…

A história é sobre uma enfermeira que vai cuidar de um véio numa casa antiga, e se envolve em uma série de eventos sobrenaturais e misteriosos (que não vou citar pra não estragar a trama). A maior parte do filme segue o procedimento operacional padrão de como dar sustos no espectador:

1) Escureça tudo e coloque o protagonista andando em câmera lenta.
2) Coloque uma música tensa em um vagaroso crescendo
3) Sincronize o ápice da música com uma ação do protagonista que revele algo novo (ex.: abrir uma porta)
4) Quando o protagonista agir, não coloque nada que assuste neste momento. Retire a música e aguarde uns 10 segundos.
5) Sem avisar, insira o susto de verdade, aproveitando que o espectador achou que o momento tenso acabou…

Apesar de tudo o final do filme é surpreendente. O Vilaça deu até três estrelas pra ele.

Uma vida, um parágrafo (parte 2)

Milton era bem nascido. Filho de um famoso arquiteto. Cresceu numa casa enorme, entrou para a faculdade de direito. Tomou uns chopes a mais na calourada, saiu de carro. Estava cantando “Jackie Tequila”, do Skank, na maior altura, balançando a cabeça com os olhos fechados, quando ouviu o pára-brisa estourando. Viu de relance um corpo cair do teto do carro. Saiu em disparada. Prometeu nunca mais beber. A festa de formatura foi no Automóvel Clube. Bebeu champanhe pra poder brindar com os pais. Cancelou a promessa. Fez mestrado na Nova Zelândia. Abriu um escritório quando voltou, casou-se, teve uma filha. Pelo menos uma vez por mês tinha pesadelos com o atropelamento, e acordava gritando. Tratou-se com um psicólogo até os cinquenta e quatro anos. Teve uma grave intoxicação alimentar aos sessenta, e morreu.

Wander era superdotado. Com três anos, lia e escrevia. Com dezenove, ao terminar a faculdade, mudou-se para Chicago para fazer mestrado. Num dezembro, nevou quarenta centímetros. Na pressa de fugir do frio, Wander entrou por uma porta errada da faculdade: a da sala do grupo de teatro. Conheceu Tracy. Atriz amadora, loira, linda. Foi amor à primeira vista, embora platônico: ela nunca o notava. A cabeça de artista não a deixava ver muita coisa além da dramaturgia. Wander concluiu o mestrado com louvor, e surpreendeu seus avaliadores do doutorado ao descobrir a solução para o Axioma de Friedrik. O único problema que ele não resolvia era como conquistar Tracy. Acabou conhecendo Valerie, uma moça com QI exatamente igual ao dele. Casou-se e foi criar os filhos numa grande casa no subúrbio. Tinha um robô pra cortar a grama (os vizinhos morriam de inveja). Virou chefe de desenvolvimento da empresa onde trabalhava. Acompanhava secretamente a vida de Tracy, nessa época já casada com um ator. Às vezes, de noite, Wander pegava o carro e passava pela porta da casa de Tracy, com os olhos marejados de lágrimas. Quando se aposentou, reuniu a família para uma viagem de carro. Na primeira noite da viagem, um caminhão desgovernado matou Wander e sua família. Durante o funeral, pouca gente notou uma bela mulher, loira, linda, chorando baixinho no fundo da igreja.

Marluce era pobre. A mãe bebia, o pai também. Aprendeu a ler num curso comunitário que deram na favela. Quando o pai batia nela, ela corria pra biblioteca pública. Passava dias escondida, lendo. Uma das bibliotecárias virou sua “padrinha” e lhe pagou os estudos. Fez curso técnico de enfermagem, arrumou emprego num hospital. Com o primeiro salário, comprou um walkman, daquele modelo amarelo da Sony. Não sabia inglês, mas cantava Guns’n Roses o dia todo enquanto limpava o vômito dos pacientes. Um deles até acordou de um coma enquanto ela cantava. Nunca se preocupou em namorar ou casar. Morava sozinha num quarto-e-sala no centro da cidade. Passava os dias lendo. Também aprendeu a tocar flauta doce, estudando sozinha nos domingos. Quando se aposentou, passou para a flauta transversa. Aos setenta e oito anos, foi dormir e não acordou mais.

Aníbal só aprendeu a falar aos três anos de idade. Passou a adolescência tirando o atraso: era o cara mais conversador da sala. Conhecia todo mundo na escola. Virou presidente do Diretório Acadêmico na faculdade. Começou a fumar maconha. Depois, começou a vender, e ficou ainda mais popular. Numa segunda-feira, tomou um LSD. Na viagem da droga, ao invés de falar, ele escrevia loucamente. Romances psicotrópicos, ensaios de filosofia transcedental, teoremas matemáticos complexos. Teve overdose umas três vezes, mas não morreu. Foi morar junto com uma cliente: uma menina, filha de vereador, descendente de alemães, que fugiu de casa depois de ser molestada pelo pai. Viveram bem por décadas, usando o cartão de crédito da menina, cujo limite estranhamente nunca estourava. Aníbal já acumulava pilhas de cadernos preenchidos sob efeito do ácido, quando morreu engasgado com uma semente de pêssego. Algumas semanas depois do enterro, sua companheira, que estava na faculdade de matemática, achou um teorema anotado nos cadernos-viagem de Aníbal. Ela propôs o teorema na sua monografia, como se fosse seu. Usaram o sobrenome dela para batizá-lo: axioma de Friedrik

Josias jogava bola desde menino. Jogava bem. Dezesseis anos e ele já estava no time júnior do Atlético Mineiro. Treinava de dia e estudava à noite. No terceiro mês de cursinho, foi atropelado quando andava até o ponto de ônibus. Ficou paraplégico, passou dois meses em coma. Acordou quando uma menina da enfermaria cantarolava “Sweet Child O’Mine”, enquanto dava-lhe banho. Josias não aceitou direito o fato de não poder mais jogar bola, e entrou para a faculdade de psicologia. Arrumou um novo hobby: fotografia. Era muito bom nas preto-e-brancas. Aos trinta e dois anos, foi vítima de um sequestro-relâmpago. O susto fez com que a dor de ser incapacitado aflorasse novamente. Engordou, tornou-se hipertenso. Sentia raiva de tudo. Uma vez, na clínica, tratou um paciente que havia cometido um atropelamento bem parecido com o seu. Quanto mais tratava este paciente, mais revivia seu trauma. No fim, enlouqueceu, envenenou o paciente, depois jogou-se da janela. Josias caiu por quatro segundos. Sentiu que voava. Nunca havia se sentido tão livre em toda a sua vida.


Uma vida, um parágrafo

2 de September de 2005, 0:24

Celso nasceu em Roraima. Fez curso técnico de contabilidade e queria fazer Direito na faculdade. Tentou quatro vezes, desistiu e virou caixa de banco. Tocava violão porque sonhava ter uma banda e ficar famoso. Escrevia músicas na hora do almoço, fantasiava que as meninas bonitas que vinham à sua agência eram suas fãs. Celso nem tinha amigos suficientes para formar a tal banda, mas não desistiu do sonho nem depois de se aposentar. Morreu num asilo. Deixou de herança, pra quem quisesse, apenas cadernos com letras cuidadosamente passadas a limpo.

Joaquim era órfão e paulista, da capital. Aos quinze anos tinha uma meta: se tornar professor. Acabou engravidando Silvana, com 14 anos na época. Fez bicos aqui e ali para sustentar a família. Quando finalmente se estabilizou como trocador de ônibus, Silvana saiu de casa pra ir morar com um professor. De inglês. Bebia todo dia, o Joaquim, depois desse dia. Virou mendigo. Morreu no hospital aos 25 anos, depois de comer comida podre de um marmitex que achou no lixo.

Varinha era mineira, nascida em Barbacena. Cresceu tímida por causa do nome. Nunca fez amigos na escola e se fechava nos livros. Formou-se em Medicina, com méritos. Queria ser a melhor médica de todos os hospitais onde passou, para curar o orgulho ferido da infância. Quando concluiu a especialização, viajou para o nordeste, de férias. Durante um passeio de buggy nas dunas, ficou conhecendo a família do bugueiro, que morava numa favela. A filha do bugueiro estava mal de pneumonia. Varinha tratou a menina que, curada, agradeceu-a com lágrimas nos olhos. Varinha jamais se esqueceria daquelas lágrimas. Passou três dias sem sair do hotel, depois nunca mais voltou para Minas Gerais. Largou tudo e virou chefe do posto de saúde que havia no pé da favela. Atendeu centenas de milhares de pobres, de graça. Morreu de câncer aos 67 anos. Mudaram o nome do posto para “Posto de Saúde Dona Varinha”.

Maurício herdou o táxi do pai. Sonhava com dinheiro fácil, adulterava o taxímetro, dava voltas para arrancar mais dinheiro dos passageiros mais “trouxas”. Uma vez um “trouxa” deixou cair a identidade no chão ao descer do táxi. Maurício usou o documento para tomar empréstimos e dar calotes. O “trouxa” da identidade era juiz federal, e Maurício foi preso. A pena máxima do estelionato é de oito anos, mas Maurício, inexplicavelmente, passou a vida toda na cadeia.

A pequena Josiane nasceu com uma má formação no pulmão direito. Depois do parto, viveu apenas quatro horas.

Vadão só brincava de boneca quando era criança, para desespero dos pais. Depois de concluir o segundo grau, passou num concurso da Polícia Civil. Ganhou o apelido de “super-homem”: quando foi promovido a delegado, já havia levado quatro tiros, nenhum fatal. Mais três tiros depois, foi promovido à Capitão. Vadão, o invulnerável, o homem das sete balas, diziam os colegas. Jogava na Mega Sena todo santo dia. Nunca ganhou. Casou e teve três filhas. Brincou de boneca com todas. Aposentou-se, comprou uma casa com um jardim enorme, e lá passou o resto dos seus dias.


Conto

20 de August de 2005, 11:02


Fazia dez minutos que ela olhava aquela mancha molhada no travesseiro. Era saliva: ela tinha babado a noite toda sobre o cetim daquela fronha rosada. Sempre acontecia isso quando ela bebia whisky. “Da próxima vez eu só bebo vinho”, dizia ela para si mesma, sem fazer esforço algum para tentar se enganar.

A mão direita tateou o criado-mudo, desviou-se do maço de cigarros, da estatueta de Shiva e alcançou o relógio. Era um relógio antigo, de bolso, com uma inscrição em japonês no verso que dizia “harmonia”. Ela ficou exatos vinte e três segundos observando o movimento dos ponteiros, e se levantou quando eram exatamente duas e trinta e quatro da tarde. Deitar-se ou levantar da cama em horários ímpares trazia má sorte. Pisar no chão com o pé esquerdo também.

Na verdade ela entrou e saiu por todas as portas usando só o pé direito. Foi ao banheiro, entrou no closet, voltou ao banheiro, abriu o chuveiro. Usou o resto do sabonete indiano para se lavar, sempre de cima para baixo, porque as energias negativas são atraídas pelo solo. Enxugou-se assim também.

O ar puro da varanda fazia bem a ela. Riscou um fósforo e acendeu um incenso e um cigarro, meio que por hábito mesmo. Deixou ambos no chão, o incenso inclinado sobre o cinzeiro, pra que as cinzas de ambos fossem parar no mesmo lugar. E, no tapete de palha trançada, tentou fazer um pouco de yoga para a ressaca melhorar. “É o sol da tarde, droga. Não tem mais vitalidade quanto o da manhã”, reclamou.

Desceu as escadas para a grande sala de paredes ora brancas, ora arroxeadas. Muitos espelhos, pirâmides de cristal e estatuetas de Buda, sempre colocadas de costas para a porta de entrada. Sobre a mesa, sua criada havia deixado um rápido desjejum e um dos cadernos do jornal. Como de costume, porque não era ela mulher de descumprir hábitos, foi logo ler o horóscopo.

Júpiter no terceiro quadrante vai deixar você especialmente produtivo hoje. Aproveite para dar o melhor de si no trabalho. Quem sabe aquela tão sonhada promoção aparece…

Desapontada, ela chamou a criada. Estava torcendo pra que o horóscopo fosse igual o de ontem, “separe este dia para renovar suas energias”, porque aí ela teria uma desculpa para não ir ao estúdio.

- O Bill da produtora já telefonou duas vezes hoje, senhora - disse a criada assim que chegou.
- Pode mandar ele vir aqui me buscar - resmungou ela de volta. Tem daquele biscoito integral aí?
- Vou trazer.

Se alguma palavra pudesse descrever o desjejum daquela tarde, seria “eclético”: duas torradas, ricota, húmus, geléia de kiwi, pão integral, chá de jasmim, leite de cabra, um copo d’água e um comprimido para dor de cabeça. Ela uniu as mãos, rezou mecanicamente a sidarhamana, prece dos celtas para dar graças ao alimento, e tentou comer. Pensou em ir fazer uma massagem, talvez uma sessão de cromoterapia antes do trabalho, mas Bill já devia estar a caminho.

Depois de comer, foi cuidar da voz. Gargarejou com uma solução de água e gengibre, entoou um mantra por alguns minutos e cumpriu a rotina de alongamentos. A sensação de estômago embrulhando começou a deixá-la irritada: “Pela Deusa… estou até vendo, a sessão de hoje com o Bill não vai render nada. Ele vai vir com aquele papo de que eu não estou em harmonia com a mãe-terra, que assim eu não produzo, vai ser um suplício. Juro que da próxima vez eu só bebo vinho. Só vinho”. E gritou pra que a empregada trouxesse mais um comprimido para dor de cabeça.

Algum tempo depois, Bill chegou e sentou-se numa das ante-salas da casa. A cortina semitransparente balançava com o vento e roçava uma estátua dourada de Anubis, o deus egípcio. Bill olhou para as orelhas pontudas da estátua e lembrou-se do Batman. Depois lembrou-se do chilique que ela havia dado quando ele contou aquela piada com os xamãs incas. Ficou horas ouvindo as reclamações dela sobre como ele não tinha o menor respeito com os ancestrais do nosso planeta. “É louca mesmo. Não fossem os milhões de discos, eu já devia ter cancelado o contrato com essa mulher”, pensava ele.

No corredor entre o salão principal e a ante-sala onde Bill estava havia um espelho, octogonal por causa do I Ching. Ela aproveitou para conferir o visual antes de ir trabalhar. Vestia um vestido indiano, bege, longo e minuciosamente bordado, desde as mangas compridas até a orla. Cobrindo a cabeça e os ombros, usava um xale, também bege, todo bordado. Estaria linda, não fosse o rosto horrível: os lábios secos, olheiras profundas, e um resto de maquiagem que não saiu direito no banho. Ajeitou os cabelos com pressa e ia apagando o cigarro e o incenso quando Bill apareceu do outro lado do corredor.

- Porra, Enya, cê tá de ressaca de novo?


Diversas

31 de July de 2005, 23:16

E amanhã é dia de acordar às 4:30 da manhã e voar pra São Paulo. Pra coisa ficar ainda mais divertida, na noite passada sonhei que estava num avião que sofreu um acidente. Mas podem ficar tranquilos: o acidente do sonho não foi nada sério e todo mundo sobreviveu…

Como a minha vida anda bem sem-graça, estou tendo que apelar para a ficção. Portanto, quando você vir que a letra mudou por aqui, saiba que nada mais é verdade. Abaixo segue um exemplo.

–o–

A borracha mole do botão do controle remoto fazia-o emperrar toda hora. Mas o Souza continuava zapeando pela TV do hotel, naquela tarde de domingo. Domingo é um dia complicado, principalmente à tarde e principalmente quando você está num quarto de hotel do Rio de Janeiro, longe de casa e sem ter absolutamente nada pra fazer porque o céu está se derretendo todo lá fora.

A tevê só tinha canais abertos e estava lá, ligada, vomitando a programação dominical. Até que o controle emperrou de novo e acabou saltando dois canais e indo parar na Globo, no Domingão do Faustão. Tinha uma dupla caipira fazendo show enquanto o apresentador repetia seus chavões de sempre: “Mais do que nunca, quem sabe faz ao vivo galera!”. Depois, levantou o CD da dupla para que a câmera focalizasse. Souza ainda se perguntava se aquilo era ou não playback quando a câmera cortou para as dançarinas. Eram umas vinte, fazendo coreografias sem sentido, robóticas, decoradas com um sorriso automático. Estendido na cama, Souza se lembrou da festa de sábado.

No sábado a parte “oficial” da sua viagem de negócios acabara. Eram umas seis da tarde quando encerraram o seminário e começaram o coquetel. A empresa de Souza era muito pequena e desconhecida, então ele passou a maior parte do tempo no bar, vendo o movimento e tentando ver se conseguia lembrar o nome das celebridades que volta e meia perambulavam pelo saguão.

Foi quando o “cara da gravata bege” chegou. Ele não sabia quem era, só viu a figura debruçar-se sobre o bar, pedir outra bebida e puxar conversa da maneira mais padonizada possível:

- Festão hein!
- Pois é…
- Cara, olha isso, quanta mulher maravilhosa tem aqui!
- Verdade.
- Mas o melhor é que dá pra pegar qualquer uma. Qualquer uma mermo

Souza riu e pensou que aquele cara já havia bebido mais que devia. Como não tinha nada a perder, resolveu continuar o papo. Pelo menos ia espantar o tédio.

- No duro? Eu não acredito…
- Pode crer, mermão! Todas as mulheres são umas prostitutas ocultas, é só saber dar o preço que elas pulam no seu colo…
- Eu acho que você está generalizando um pouco demais, não?

O bebum deu dois tapinhas no ombro de Souza e chegou mais perto. A gravata bege pulou para fora do paletó e ele assumiu um tom de voz mais misterioso.

- Olha aqui, vou te contar um segredo. Sabe aquelas dançarinas do Domingão do Faustão? Todas são “da vida”. Putas, quengas, chame como quiser. Mas são sim!
- Sim sim, claro… - desdenhava Souza enquanto bebia outro gole do martini.
- Olha, se você está duvidando, faça o teste. Amanhã, na hora das videocassetadas, eles vão mostrar o rosto de umas duas ou três meninas. Escolha a que mais te agradar e ligue para este telefone aqui…

O engravatado mostrou discretamente um guardanapo dobrado na mão esquerda. Souza riu, pegou o guardanapo e guardou no bolso sem dar a menor atenção. Até moveu-se discretamente, para alimentar a fantasia do engravatado, que continuou delirando sobre sua rede de prostituição na TV aberta:

- Aí quando o programa acabar, eles mandam a mina pra onde você tiver. Não é lá muito barato, mas as meninas são maravilhosas e fazem qualquer coisa. Garantido, mermão!
- Claro, claro. Bom, deixa eu ir ali tirar uma água do joelho.

Dali, Souza foi direto para o táxi. E agora estava deitado na cama, lembrando-se da conversa do homem da gravata bege. Ficou curioso, abriu o armário e meteu a mão no bolso do paletó: o guardanapo dobrado ainda estava lá. Ao desdobrá-lo, a surpresa: um número de telefone.

“Com o patrocínio da Fininvest, vem aí as Videocassetadas, galera!” - Anunciava Faustão.

Souza ajeitou o travesseiro e logo vieram os vídeos. Havia uma noiva desmaiando num casamento, uma criança que cambaleia pela sala e bate a cabeça na câmera, um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Aí a tevê mostrou a primeira dançarina: loira, com olhos castanhos, estava rindo da “cassetada” do cachorro. Depois vieram mais, uma série de “tombos em festas”, com vários americanos gordos se espatifando no chão: uns subiam em mesas e caíam, outros cismavam de rodopiar com suas esposas gordas e acabavam tropeçando. O bloco acabou e mostraram outra dançarina, ruiva, com grandes olhos verdes. Alguns minutos depois, mais cassetadas e a terceira menina, também morena, com dentes alvos e uma pele muito bonita.

Souza nunca havia notado que a tevê realmente mostrava as dançarinas entre os blocos de videocassetadas. Olhou para suas mãos: o controle remoto em uma, na outra o guardanapo com o telefone. Resolveu discar.

Foi num misto de curiosidade e descrédito que ele ouviu o telefone chamar. Uma, duas, três vezes. Na quarta, a linha fez um ruído e uma voz masculina atendeu.

- Alô.
- Er.. de onde fala?

A voz masculina não respondeu e desligou. Aquilo estava cada vez mais estranho. Souza esperou alguns instantes e ligou de novo:

- Alô.
- Eu queria a terceira menina - Disse Souza, destemido.

Resolveu entrar no jogo; se aquilo fosse um engano, ele diria que discou errado e desligaria. Se fosse uma pegadinha, ele sabia que não podem exibí-la sem sua autorização. Na verdade Souza acreditava que aquilo não ia dar em nada. Não fazia sentido que o Domingão do Faustão servisse de “catálogo televisionado” para garotas de programa. Mas a voz masculina do outro lado da linha prosseguiu.

- OK, a morena ainda está livre. Pra quando, agora?

Souza não sabia o que dizer. A voz continuou.

- Senhor, o programa é para agora?
- S-sim, é para agora.
- Certo. São quinhentos reais, duas horas, o táxi é por nossa conta. Qual o endereço?

Souza segurava o telefone com força. A curiosidade era maior que o espanto, por isso deu o endereço mesmo assim. Aquilo devia ser um trote, provavelmente o próprio engravatado iria aparecer, apontar o dedo para a cara de Souza e gritar “te peguei!”. Ou uma quadrilha ia lhe sequestrar e fazer um tour pelos caixas eletrônicos do Rio, limpando todas as suas economias pelo caminho e abandonando-o, seminu, num terreno baldio qualquer. Pelo menos é o que Souza pensava. Enquanto ele se sentia um idiota por ter dado o endereço, o homem continuou:

- Então está combinado. Eu preciso apenas que o senhor pague a menina assim que ela chegar. São as normas. Em quinze minutos… não, vinte, por causa da chuva, ela chega em seu endereço.

E desligou. Assim que o fone tocou o gancho, a vinheta da teve dizia: “é fantastico… tcham!”.

Souza voltou a se deitar, preocupado. Glória Maria narrava os destaques do programa da noite, mas ele nem ouvia.

Duas batidas na porta interrompem os vinte minutos mais longos de sua vida. Souza ainda hesitou, andou lentamente até a porta, passou o trinco e girou lentamente a maçaneta. Do outro lado, lá estava ela. A dançarina do Domingão do Faustão, ainda com a maquiagem do programa no rosto.

- Posso entrar? - disse ela, com a voz doce e provocante.

Ao vivo ela era ainda mais bonita que na tevê. Sem tirar os olhos de Souza, ela passou, empurrou a porta e tomou-o pela mão.

- Vem pra cama comigo.

Foi exatamente como o engravatado dissera: ela fez de tudo com Souza. Um bom tempo depois, os dois se aconchegaram na cama. No escuro, os móveis do quarto faziam sombras que piscavam nas paredes, conforme a tevê ia anunciando: “Hoje, no Domingo Maior…”

Eram sete e quinze da manhã quando Souza acordou, sobressaltado. O quarto estava vazio. No criado mudo, sua carteira estava aberta: faltavam quinhentos reais. E o guardanapo com o telefone havia sumido.

Na tevê estava passando a vinheta de abertura do Bom Dia Brasil.


Quinhentos e tantos quilômetros em dois atos

26 de July de 2005, 23:37

Ato 1

E, pela segunda vez este mês, um taxista me perguntou se eu estava indo pra Brasília receber meu mensalão.

–o–

Abrir o notebook na sala de embarque do aeroporto provocou uma inesperada reação: várias crianças vieram pescoçar o que eu estava fazendo.

A tentação de abrir o emulador e jogar um Street Fighter Zero, só pra esnobar, foi grande.

–o–

Palavras, palavras… eu queria palavras e pedi a aeromoça que me arrumasse uma revista. Nesse meio tempo achei uma revistinha de palavras cruzadas, esquecida no bolsão em frente ao meu assento.

A sorte: ela estava todinha em branco, pronta pra ser desvirginada pela minha enorme, hã, caneta.
O azar: ela era da categoria “moleza super-fácil letra grande”.

Testei uma delas e, noventa segundos depois, vi que teria que me contentar com a revista mesmo. Também não adiantou: meia hora depois e até reportagens do tipo “Troque o Prada pelo prana”, escrita por uma professora de yoga, eu já tinha traçado.

Voltei para as palavras cruzadas e decidi ver quantas eu conseguia fechar antes do avião aterrisar. Não me lembro quantas foram, mas a última eu fechei entre o instante em que o trem de pouso tocou o chão e o momento em que o avião parou no terminal…

Ato 2

O cabelo daquela aeromoça estava me incomodando muito. Aquele coque dela, o gel e o tingido de loiro davam a impressão de que estava tudo repuxado para trás, esticando a pele do rosto até doer. Mas ela ria e nem se incomodava, enquanto eu não conseguia tirar os olhos dela. Eu olhava esperando dor e via só um sorriso. Aquilo era muito bizarro. Talvez fosse o whisky, o suor do copo que ficava molhando os meus dedos gordos. Eu não devia ter bebido esse whisky, mas nessa altura isso não vai mais fazer diferença.

Eu só conseguia alternar o olhar entre o telão e a aeromoça. Aquele maldito filme ianque finalmente acabou e a tela mostrava só a rota do avião, em algum lugar sobre o Mediterrâneo. No meu relógio ainda faltavam quatro horas pra terminar a viagem. E o coque da aeromoça fazia parecer que a pele dela ia estourar a qualquer momento. Ela foi chegando mais perto e eu prestava ainda mais atenção, enquanto ela me dizia alguma coisa em inglês, toda sorridente. Acho que ela pediu que eu a acompanhasse. Era bonita, a moça, e estávamos a 12500 pés de altitude, segundo o telão. Sei porque vi de relance, enquanto eu e ela passávamos pelo corredor. Tinha uma senhora saindo do banheiro, então a aeromoça parou e esperou que ela passasse. A senhora tinha a pele normal. Dobrinhas, rugas e tudo o mais. O cabelo estava solto, e seria normal não fosse aquela cor esquisita. “Acaju”, diria minha irmã. Pra mim era vermelho. A aeromoça ainda estava sorrindo, e aquele coque-tortura repuxando o rosto dela. Talvez fosse por isso que ela não tivesse nenhuma ruga. Nenhuma mesmo. E os olhos castanhos pareciam ainda maiores, repuxados, me olhando esquisito da cabeça aos pés.

Eu nem sei se ela me empurrou para o banheiro ou pediu que eu entrasse, mas sei que acendeu uma luzinha engraçada no teto quando ela trancou a porta. Um tal de “occupied”. Eu achei aquilo engraçado mas não consegui ler muito mais porque ela começou a me beijar. Apesar de todo aquele repuxado eu achei que fosse sentir algo estranho quando o rosto dela tocou o meu, mas estava macio. Macio e um pouco dormente. Deve ter sido o Whisky, ou a pressão atmosférica dos 12500 pés. O resto do corpo não estava dormente, porque ela passava as unhas pelos meus ombros e eu sentia tudo. A minha mão estava na cintura dela, metade sobre aquele casaquinho estranho, metade sobre a blusa branca por baixo. Era macio e liso, 50% algodão, 50% poliéster. Não sei se era isso, mas parecia com uma camisa que eu tinha e que, na etiqueta, dizia isso. A mão dela não desceu muito pelas costas e logo passou para a frente, pra ir desabotoando a minha blusa. Eu não estava entendendo mas não conseguia pensar muito pra decidir o que diabos era aquilo, por causa do maldito coque, ali na minha frente, amarrado numa redinha esquisita que mantinha o cabelo preso, e porque estava gostoso, aquilo tudo. Menos o coque.

Aí de repente ela ficou impaciente e arrancou a camisa num golpe só, depois parou com uma cara assustada quando ela viu toda aquela dinamite em volta da minha barriga. A cara repuxada dela fez uma expressão diferente, como se fosse gritar, e eu tive que pensar rápido. Não ia ter jeito mesmo, então puxei o pino do detonador.

Ninguém viu a bola de fogo sob o céu do Mediterrâneo.