Posts da categoria ‘Divagações’


Das cidades

11 de fevereiro de 2010, 10:54

Eu nasci em uma capital com alma de cidade de interior (Belo Horizonte), moro numa megalópole caótica superlotada (São Paulo) e atualmente trabalho em uma cidade quadradinha e planejada (Brasília). E sempre gostei das cidades, especialmente das grandes, e prefiro passar o meu tempo nelas do que no mato ou numa praia.

Cidades são conjuntos de pessoas e, exatamente por isso, tornam-se também entidades com características pessoais. Cada uma tem forma própria, tem uma beleza ou feiúra peculiar, cada uma tem tamanhos, climas e problemas próprios – assim como pessoas, e assim como as pessoas que as habitam.

A cidade é a mais humana de todas as obras humanas. E, como criatura, sempre reflete seu criador – e é aí que reside a sua beleza. Não me refiro à beleza plástica, ao ser bonito, e sim ao ser autêntico. Em São Paulo, quando você sai do metrô na Sé e fica entre a imponência santificada da Catedral e a imundície da praça em frente, na verdade é como se você estivesse no meio de um ser humano e de todas as suas incoerências. São Paulo tem muitas delas, e é por isso que eu acho São Paulo uma cidade fascinante.

É é também por isso que eu considero cidades planejadas (sim, você mesma, Brasília) um erro por definição. Não se planeja uma cidade, da mesma forma que não se planeja uma pessoa. Ninguém sabe aonde vai estar daqui a 20 ou 30 anos. Muito menos algumas centenas de milhares de pessoas. Muito menos ainda algumas centenas de milhares de pessoas que convivem no mesmo espaço urbano. Cidades precisam poder crescer ao sabor das épocas, precisam poder registrar a passagem do tempo na fachada dos seus prédios e na urbanização dos seus bairros. Cidades precisam poder ser produto de todos que a compõem, e não apenas ser fruto da cabeça de quem a concebeu. As superquadras do Plano Piloto são prisões da mente de Lúcio Costa.

Já a minha terra natal (Belo Horizonte) é a prova de que uma cidade, como um ser humano, tem alma. Beagá corre atrás para espelhar os progressos e os problemas das outras capitais e, de cima, não deixa nada a desejar à outras metrópoles: tem engarrafamento, tem favela, tem shopping de luxo e tudo o mais. Mas tem algo intangível entre um poste e outro, entre uma e outra buzinada do ônibus. É possível entrever uma atmosfera interiorana, quase provinciana, que o vidro, concreto e aço nunca vão tapar.

Cidades são assim, complexas, mas acima de tudo, antropomórficas. Isso é o que me faz gostar de estar nelas. A cidade, além de ser sua cidade, é também um pouco de você.


Pare de falar de amor o tempo todo

29 de dezembro de 2009, 0:24

Dia desses a TV estava ligada e começou a passar a abertura daquele velho seriado das bruxas – “Charmed”. A letra do tema de abertura dizia:

I am the sun / I am the heir…

E enquanto os símbolos arcanos vão voando pela tela, a música corta para o refrão:

I am human and I need to be loved…

Todas as vezes que eu vejo isso termino me perguntando: “Por que diabos botaram o amor ali no meio?”. É engraçado porque a intromissão do amor na música de abertura é mais ou menos espelho do que acontece na série: bruxas que, enquanto tentam salvar o mundo de demônios e outras criaturas do mal, ainda tem que lidar com a vida de gente normal – incluindo os romances e namorados.

Não é de hoje que eu me incomodo com inserções românticas no meio de coisas que não tem nada a ver com romance. É meio que uma síndrome do Titanic: não basta ter a melhor história do mundo, ainda assim nêgo enfia uma love story no meio. Acontece nos filmes, nas séries, nos livros… (alguém aí pensou em Crepúsculo e seu amor vampiresco?).

Mas o que eu quero dizer é mais ou menos o seguinte: eu não vejo problema em contar histórias de amor. O problema são as distorções geradas por estas histórias.

Poucos são os filmes que retratam a REAL dificuldade de um relacionamento, a arte que se precisa ter para casar dois egos humanos, opostos por natureza, em uma convivência não somente suportável como também prazeirosa e gratificante. Na telona todo amor é avassalador, intenso, vivido com pouca atenção à razão e deixando os sentimentos fluírem irrestritamente – e ainda assim tudo sai perfeito. O amor de cinema motiva as pessoas muito mais do que seu próprio instinto de sobrevivência e faz com que elas esqueçam seu egoísmo e sua inveja – coisas que praticamente definem a humanidade dos dias de hoje. E as dificuldades entre os amantes só servem de contraste para tornar o final feliz ainda mais feliz ou para pelo menos dar algum mérito ao casal feliz para sempre. Até o “para sempre” é um problema, pois nenhum expectador vê a velhice, o tédio ou a pobreza chegando depois do “The End”.

De fato, o cinema não precisa mostrar a parte chata da coisa – porque, convenhamos, ela é chata e você tá pagando para ser entretido. O problema está no efeito colateral: no fim do filme você tem um monte de pessoas – muitas delas egoístas e de mau caráter – almejando um amor 100% altruísta e desapegado . Um “amor de cinema”, por assim dizer. E aquilo parece tão bom e tão factível que, instantaneamente, todos saem procurando por ele. E começa um ciclo: como todos querem aquilo, o romance passa a ser a prioridade número um de todos os personagens em todas as histórias veiculadas em todas as mídias, o que faz com que mais pessoas queiram aquilo, sem se dar conta de que aquele amor é IRREAL.

O pior é que isso não é Zé Carlos falando, é fato científico, estudado pela Universidade Heriot-Watt, de Edimburgo, inclusive.

Daí o título deste post. Não dá pra ficar vivendo em função de um conjunto irreal de expectativas. Na minha opinião, amor de cinema não deve ser objetivo de vida, e sim consequência. Uma vida de felicidade infinita ao lado de sua alma gêmea é muito menos esforço de procura ou fruto de sorte e muito mais resultado de uma personalidade com um “mix” difícil de se conseguir, que contém integridade, flexibilidade para as atitudes e interpretações e rigidez na hora de manter seus princípios – em ambas as partes do casal. Ou seja, não é fácil e além de tudo é contra-intuitivo.

Ou parece natural que, para conseguir um relacionamento perfeito com outra pessoa, você precise esquecer a procura pelo par perfeito e redobrar seus esforços para dentro de si?


Pedaços de posts que nunca concluí

29 de dezembro de 2009, 0:22

Em nenhuma ordem ou contexto específico (Viva o caos!).


Teorias sobre motivação, existem várias. Apenas duas funcionam: 1) Dinheiro e 2) Café. Tem também o 3) Sexo, mas essa tem uma série de complicações jurídicas quando usada em ambientes corporativos.


  • E esses bonequinhos 3D em overlay no campo, hein Globo? Tá parecendo Age of Empires…
  • Que mau gosto o dessa camisa do Flamengo. A fonte do nome do jogador é a mesma dos filmes do Homem Aranha que é a mesma do Playstation 3.
  • Esses gritos de guerra do Flamengo não rimam não? “Dá-lhe dá-lhe ô / Mengão do meu coração”?
  • (Quando a TV digital dá interferência e a tela se enche de “glitches”): E pensar que meus filhos nunca vão saber o que são chuviscos de uma TV analógica fora do ar…

Então que agora eu virei consultor-líder do maior contrato do ano da minha empresa de consultoria e meu dia de trabalho consiste, basicamente, de um continuum de reuniões.

Ontem uma delas era para acertar o escopo do trabalho com uma das gerentes do cliente. Daí que eu cheguei e me sentei na mesa todo pimpão e todo mundo tava batendo cabeça e eu incorporei o exu de consultor-líder e saí, ao mesmo tempo, colocando ordem na bagaça e tomando cuidado para não desautorizar a mulher (que, pô, era a gerente da coisa). E ela lá, só ouvindo.

Até que, no meio do meu “leadership spree” eu saio falando que…

- …então acho importante seguir as orientações da Miriam.

E ela rebate:

- Meu nome é Luiza.


Brunetto
Comida Italiana – Site: Não tem.
Rua Dr. Renato Paes de Barros, 465 – Itaim Bibi

Sabe, normalmente a comida italiana me motiva… motiva a tirar um cochilo depois. Só que a do Brunetto (onde almocei hoje) estava TÃO boa que me motivou a escrever este post. Diz Bethania que os donos moraram na Itália, então deve ser por isso que as massas são tão gostosas. Ah, não deixe também de comer a bruschetta do Brunetto (por mais transsexual que isso possa parecer).

Kebaberia
Kebabs (comida árabe) – http://www.kebaberia.com.br/
Rua Dr. Renato Paes de Barros, 777 – Itaim Bibi Rua Joaquim Floriano 179 – Itaim Bibi

Quando se pensa em Oriente Médio normalmente o que vem à cabeça é "terrorismo", "petróleo", "Prince of Persia"… e, por último, a comida do Habibs. Então os kebabs – "enrolados" de carne grelhada, originados no Irã – acabam passando despercebidos. Mas são uma delícia, é como se fosse a fast-food das arábias.

No almoço é bem cheio, então dá um ótimo lugar para ataque de homem-bomba chegue cedo.

Bolados
Lanches e sucos – http://www.boladossucos.com.br/
Rua Joaquim Floriano, 373 – Itaim Bibi

Minha mulher odeia o Bolados: “Sanduíche não é almoço”, diz ela. No cardápio tem um de peito de peru com tomate seco que discorda veementemente. Vale lembrar que o Bolados, além de bom, é barato, tornando-se uma ótima sugestão para os dias em que sua carteira teve crises bulímicas e tá magrela.

Pibu’s
Lanches – http://www.pibus.com.br/
Av. Pres. Juscelino Kubitscheck, 819

Opção boa (e razoavelmente barata) quando você quer fugir dos lanches tradicionais do Itaim (New Dog, Joakin’s, Fifties, etc). Mas peça o delivery – o restaurante “físico” é praticamente inexistente.


Rápidas

19 de novembro de 2009, 23:35

O andar logo abaixo do que eu trabalho está em reforma. Às vezes os pedreiros deixam a porta aberta e dá pra perambular um bocado por ali.

 reforma

Virou instantaneamente o meu lugar predileto do prédio.

Hoje eu estava no hall do hotel e a TV passava a abertura de “Caras e Bocas”.

Não reconheci 95% dos nomes de atores/atrizes que aparecem na abertura.

Me senti orgulhoso.

Agora o cooler do meu notebook… er… “canta”. É o popular “pau no cooler” por conta de poeira.

Pelo visto neste final de semana teremos autópsia computacional para limpeza. Desejem-me sorte. Ela anda faltando este ano.


Do porquê de eu gostar de música

10 de novembro de 2009, 21:51

Era sexta-feira e eu estava entrando no avião para voltar pra casa. Os cinco dias de trabalho da semana haviam sido absolutamente caóticos e tanta coisa complicada e estapafúrdia havia acontecido que minha cabeça estava tentando amarrar as pontas soltas e conceber alguma sequência lógica, algum significado de dentro daquela bagunça completa que havia sido minha semana. Até que as duas pontas dos fones foram inseridas dentro dos ouvidos e me veio a epifania que, agora, culmina neste post e que tentarei (ou possivelmente falharei em) detalhar nos parágrafos a seguir.

balmorhea

Primeiro, consideremos a necessidade humana de atribuir sentido a tudo. É natural, biológico; o que nos torna humanos é a insistência do cérebro em contextualizar tudo com o qual tem contato, em buscar padrões, entender processos, motivos, razões. Se você pergunta as horas a alguém e esse alguém responde “desculpe, não sei falar português”, você será automaticamente capturado pelo nonsense de uma resposta como essa e tentará desesperadamente conceber alguma razão para que a pessoa tenha respondido aquilo – mesmo que esta razão não exista. Ou você conseguirá simplesmente ignorar uma resposta como essa? Por alguns instantes, pelo menos, aquela pessoa terá domínio total e completo da sua mente. É por essa insistência do cérebro em produzir sentido que as pessoas vêem borboletas em testes de Rorschach, concluem que :) é um sorriso ou ouvem mensagens satânicas em discos da Xuxa reproduzidos de trás pra frente.

E então temos a música – e não se sabe até hoje ao certo pra que fim prático ela serve ou por que diabos o ser humano resolveu se expressar através dela. Música não é necessária como comer ou dormir, música é efeito mas não é causa, é um fim em si mesma. Música, em essência, não faz sentido – nem sequer estruturalmente. Ao escrever este parágrafo, por exemplo, meus fones tocam “We will rebuild with smooth stones”, música do Balmorhea (que empresta uma de suas capas de disco para ilustrar este post). É uma música tocada por dois violões e apenas por eles. São grupos de sons tocados em tons e volumes diferentes, às vezes ritmados e repetidos – uma descrição que poderia servir para descrever também o barulho de um canteiro de obra.

Mas no final daquela sexta-feira caótica, num mundo que lhe obriga a questionar o tempo todo qual o propósito das coisas que você gasta o dia fazendo – e onde, em vários momentos, esse propósito simplesmente não existe – é que a música nos fones de ouvido apareceu como algo reconfortante, como uma entidade de um universo aonde é permitido não fazer sentido. E isso é a melhor coisa sobre música: é uma das únicas coisas que pode existir confortavelmente sem porquê ou ser sem razão de ser.

A melhor coisa da música é que ela não precisa fazer sentido.


Projeções diversas

5 de novembro de 2009, 22:12

Meu entretenimento predileto em reuniões continua sendo acompanhar as formas que o datashow gera em cima das pessoas que entram na frente dele quando estão apresentando alguma coisa. Outro dia eu tive que segurar MESMO o riso ao ver meu chefe transformar-se instantaneamente em um SUPER-HERÓI MASCARADO ao ficar com a cara bem em frente a um losango vermelho do fluxograma que estávamos projetando.

Domingo passado Bethania arrumou um filme que eu nunca havia ouvido falar chamado “Amantes” (Two Lovers) pra gente assistir. É a história de Leonard (Joaquim Phoenix), um cara com aquelas bicheiras psicológicas modernas (bipolar, borderline, sei lá) que se envolve com duas mulheres.

twoloversalp6-29-09

O filme vai indo super normal até que, no ÚLTIMO MINUTO, o tal Leonard – com apenas uma frase e um gesto – converte instantaneamente o filme de “draminha mediano” para “absolutamente genial”, daqueles que te deixam abobado por vários minutos olhando os créditos subirem, tentando absorver aquilo que acabou de ocorrer. Pelo nome e pela história, “Amantes” pode até parecer comédia romântica de locadora, mas não se engane: é um PUTA filme.

E não posso falar de Amantes sem relembrar a inacreditável entrevista que seu astro principal, Joaquim Phoenix, deu em estado absolutamente irreconhecível (tanto física quanto psicologicamente) para o David Letterman…

Por sinal, na esmagadora maioria das vezes em que fui ver um filme sem saber absolutamente NADA sobre ele – sem sequer ler uma sinopse – eu me dei muito bem. Sinopses só servem pra estragar filmes. “Distrito 9”, por exemplo, que vi outro dia, foi bem marromenos porque ler a sinopse já entregou muito do que o filme tinha de melhor.

Ainda no âmbito cinematográfico, em 2002 eu postei aqui neste blog, abobado, a seguinte frase:

Quando me perguntarem qual o melhor filme que já vi, direi “Evangelion”. E quando me perguntarem “Qual dos três filmes?” eu direi: Evangelion é um filme de 26 episódios.

E não é que outro dia um colega de trabalho de Bethania me avisou que estão fazendo um “rebuild” de Neon Genesis Evangelion em – tchan tchan tchan tchaaan! – quatro longas-metragens?

Os dois primeiros filmes já foram feitos, e esta semana eu consegui tempo pra assistir o primeiro deles. Veredito até agora: WHOA.

evangelionremake

Pelo que li os novos longas são bem fiéis ao original (como o “antes e depois” aí em cima está mostrando), embora incrementados com CG em 3D. E algumas cenas serão totalmente repaginadas pra ficar do jeito que o autor sempre quis.


Das distâncias

16 de setembro de 2009, 1:05

distancia

Primeiramente é bom deixar claro que não me refiro à distância geográfica, pois essa é patética. Sim, patética. Século XXI, globalização, yadda yadda, aperte uns dois ou três botões e você acessa praticamente tudo e todo mundo em qualquer lugar.

Aqui refiro-me à distâncias reais. Distâncias como a que um cego de nascença tem para entender algo como um pôr-do-sol, por exemplo. Por mais que se descreva em texto rimado, em música, em páginas e páginas de braille, sempre haverá uma distância entre o que você e eu vemos e o que ele (não) vê.

Alguns vão achar grosseiro ou preconceituoso esse meu último parágrafo, e aí há também uma distância, essa tão ou mais triste que a cegueira de nascença: a distância de entendimento. Pois, no meu, analogias não constituem ofensas. No de várias pessoas, sim. E assim, colocando-se o seu entendimento no centro de tudo, o dos outros vai ficando cada vez mais equidistante do seu próprio, e criam-se abismos entre irmãos ou cônjuges ou amigos. E alguns passam a vida toda vivendo longe e perto uns dos outros.

Às vezes é a própria conjuntura da vida que lhe envolve – não por mal, mas por circunstância – em um “mini-mundo” cheio de uma diversidade meio hipnótica e com presenças mais constantes que ausências e há a ilusão de proximidade. Mas se você se dispõe a andar um pouco pelo seu mini-mundo invariavelmente acaba chegando à margem dele, vendo um oceano e um horizonte cheio de nada e, concluindo que seu mundo é apenas uma ilha, se descobrindo distante. Senti isto com muita clareza na última sexta-feira, no aeroporto de Brasília, quando conheci uma senhora que nunca havia usado uma escada rolante. Ela vivia no interior do Piauí, estava seguindo para São Paulo para visitar os filhos no mesmo voo que eu e, portanto, passou a me acompanhar pela sala de embarque – até a hora em que eu subi numa escada rolante e ela parou, perplexa. E disse: “Como é isso? Nunca andei nisso”. A pobrezinha quase levou um tombo ao tentar subir nos degraus móveis. E, no meu mundinho, escadas rolantes são tão comuns que a idéia de alguém que nunca havia usado uma delas era inconcebível.

Era eu, olhando para o horizonte e vendo um monte de nada. E entendendo que a ilusão do nada era resultado de uma enorme distância. Todo o meu vasto conhecimento e experiência com escadas rolantes, e no fim eu só sabia que não sabia de nada. Talvez esteja aí a genialidade de Sócrates, que mediu o mundo observando suas distâncias.

Mas a melhor parte é que as distâncias reais – ao contrário das geográficas – são incrivelmente flexíveis, e podem ser encurtadas em instantes. Basta um pouco de boa vontade para que milhares de quilômetros transformem-se em centímetros. Mais um pouco e os centímetros viram milímetros. E aí opera-se no extremo oposto da distância, num lugar singular chamado proximidade.

Aqui refiro-me à proximidades reais. Raras e magníficas, e que devem ser usufruídas ao máximo, pois tendem a ser efêmeres no curto tempo de vida da vida.


A sexualidade latente dos comerciais de Colgate

26 de agosto de 2009, 23:51

Você está lá, no sofá, cérebro quase desligando enquanto a TV a cabo mostra, pela centésima vez, aquela propaganda manjada daquela série que você não gosta. Mas de repente ela aparece na tela.

A dentista.

colgate1

Mas não é qualquer dentista, é A DENTISTA: uma mulher cuja aparência foi cuidadosamente selecionada por transitar na tênue fronteira entre a atriz superbonita e a pessoa comum da vida real e que, assim, apresentada com uma discreta maquiagem e um jaleco branco, enganam o seu cérebro que fica sem saber distinguir se aquilo é coisa falsa de TV ou uma pessoa real. E aí, num dos cantos da tela, eis que surge o número do registro dela no Conselho Regional de Odontologia. Pronto. Sua mente sai imediatamente do dilema e conclui: aquilo ali, meu amigo, é uma dentista de verdade, tão real que se você tivesse o telefone dela poderia até marcar uma consulta só pra ver aquela beldade lhe dizendo, carinhosamente, pra cuspir na pia ao lado da cadeira. Mas não há tempo de pensar nisso, já que ela está apontando o espelhinho pra você e perguntando sobre a última vez que você sentiu seus dentes limpos. Claro que você JAMAIS pensou nisso em toda a sua vida, mas, desorientado, concorda com absolutamente tudo que aquela voz aveludada diz.

Passaram-se apenas quatro ou cinco segundos de comercial, mas os publicitários (ah, os publicitários!) já sabem exatamente como você está se sentindo: confuso e estranhamente excitado. E então o comercial responde à seu estado emocional – ou, melhor dizendo, corresponde ao tesão que aos poucos começa a tomar conta de você:

colgate2

Uma vidraça amarela aonde está escrito “PLACA” começa a subir pela tela, lentamente. A idéia é representar a formação de placa bacteriana, mas na verdade aquilo representa sua excitação sexual crescente. É como se o comercial dissesse: “eu te entendo, eu sei o que você está sentindo”.

colgate3Neste instante, Colgate Total 12 tem total controle sobre você. Esta mensagem subliminar é reafirmada no instante seguinte, aonde a dentista interrompe o crescimento da placa com a mão. O comercial está lhe dizendo, claramente, que é a dentista quem detém o controle da situação, seja ela a placa bacteriana ou… bem, você entendeu. O princípio é o mesmo de um jogo de sedução erótica, onde a excitação cresce, cresce, mas nunca é liberada totalmente.

Só então, com você completamente dominado, é que vem a mensagem publicitária de verdade: entra uma locução (em voz masculina, já que agora a coisa é séria) e a embalagem do produto é mostrada pela primeira vez. Daí vem um blablablá sobre partículas limpadoras enquanto a tela mostra uma animação 3D de dentes sendo higienizados. Este instante é breve e preenche apenas nove ou dez segundos do comercial.

colgate4 E então a dentista (ah, a dentista!) aparece de novo, desta vez usando o produto para segurar a placa de vidro amarela. Desta vez ela não está mais com ar sério, lhe enchendo de perguntas, te olhando com as sobrancelhas franzidas e ar dominador: pela primeira vez, no comercial inteiro, ela sorri. Isso, de certa forma, dá fim ao jogo de sedução e à tensão crescente, e vincula a imagem do creme dental a este alívio.

Mas o melhor ainda está por vir…

Toda a volúpia do comercial, os jogos de criar/liberar tensão sexual, os conceitos de saúde bucal erotizados… tudo isso foi mostrado de forma velada. À primeira vista aquilo é apenas um comercial de creme dental, mas qualquer pessoa dotada de instinto reprodutor (ou seja, toda a humanidade) pressentiu que há alguma coisa escondida por trás daquilo tudo, já que o lado sexual do comercial não foi totalmente revelado. Então, subitamente, para demonstrar que dá pra sentir os dentes mais limpos depois de usar Colgate, a dentista, sem a menor cerimônia, passa a língua sobre os dentes.

colgate5

Isto, meus caros, é simplesmente genial: um gesto sexual disfarçado de demonstração de limpeza bucal. É a dica que faltava para confirmar toda a fantasia erótica construída em seu inconsciente. Este sim é o clímax da propaganda – e talvez o instante mais erótico de toda a publicidade televisiva.

O vídeo do comercial inteiro é esse aí embaixo – infelizmente, em espanhol. Claro que este post foi idealizado com a versão brasileira em mente, só que ela não existe em nenhum lugar da internet – nem mesmo no site oficial da Colgate. Uma pena.


Este post é porque tem muito tempo que eu não escrevo no blog

13 de agosto de 2009, 23:38

Sim, exatamente o que o título diz. O problema é que, como você já deve ter concluído por consequência, é que eu não tenho assunto para este post. Mas estou escrevendo mesmo assim.

Woohoo, olha só, já estou no segundo parágrafo! Filma eu, Galvão!

Na verdade até tem assunto. Por exemplo, acabei de me lembrar do dia em que estava na sala de espera do médico e uma das revistas tinha uma matéria sobre nada menos do que o prepúcio de Jesus. Sim, prepúcio, aquela pele que envolve a ponta do pênis – mas não de qualquer pênis, era o pênis de Nosso Senhor Jesus Cristo.

prepucio

É estranho escrever sobre o pênis de Jesus aqui no blog. Eu fico com a sensação de que Deus está me olhando com uma cara feia enquanto anota meu nome num caderninho.

Mas veja você que essa minha ideia de escrever sem assunto até está rendendo: a foto da página da revista me fez lembrar de algumas outras que tirei com o celular e que também rendem um ou dois parágrafos. Como essa aí embaixo.

mavica

Meu antigo cliente de Brasília renovou o projeto e tive que refazer meu crachá para entrar no prédio – o que incluiu bater uma nova foto. Até aí tudo bem, mas o que você não deve ter reparado é que aquela câmera ali é uma Sony MAVICA – Sim, aquela que foi uma das primeiras câmeras digitais, e que guardava as fotos em DISQUETES DE 1,44”. Sim, cara, disquetes. A Mavica é o Tiranossauro Rex* das câmeras digitais.

* – Sim, essa foi proposital e especial pra vocês, Tiagón e Renmero.

Por sinal, nem contei aqui da renovação do projeto de Brasília: voltei a visitar a “Washington brasileira” semana passada, nesse que é o maior contrato de consultoria que a empresa onde trabalho fechou este ano. Tenho uma treta enorme pra entregar, uma equipe de nove consultores pra orientar e uma gravata enrolada no pescoço pra atrapalhar. E no fim tudo tem que rimar. Mas em compensação tenho o melhor cliente EVER (lembram?). A gente termina uma reunião e emenda com conversas sobre coisas como Jack Kerouac, pra vocês terem uma idéia.

congonhas Outra coisa que voltou com a renovação do projeto é a rotina de aeroportos. Na última segunda-feira eu estava na fila do check-in curtindo um mau humor triplo – resultado de três coisas que me irritam profundamente (aeroportos, filas em aeroportos e as horas do dia anteriores às nove da manhã) quando reparei que o assoalho do aeroporto de Congonhas é quadriculado como um tabuleiro de xadrez. E pensei:

“Nada mais apropriado. Os engravatados acham que são reis, as dondocas acham que são rainhas, mas todo mundo é peão”.

Eu ia até twitar isso, mas acho que me chamaram pra fazer check-in e acabei deixando pra lá.

Tem também outra foto que eu queria postar aqui mas que não vou conseguir conectar com os outros assuntos de jeito nenhum, então vai assim mesmo. Amigos, amigas, eis o banheiro recursivo:

recursivo

É o banheiro de um cinema (que, obviamente, não lembro qual é), cujos espelhos ficam um de frente pro outro.

E este foi “o post porque tem muito tempo que eu não escrevo no blog”. Até que rendeu. Até a próxima, amiguinhos!


Pequenas otimizações do dia-a-dia

29 de julho de 2009, 19:12

Quando fervo água no microondas – pra fazer chá ou cappuccino, pois café requer água fervida apropriadamente, no fogão – ao invés de digitar o tempo (dois minutos) e depois apertar “iniciar”, eu pressiono o botão “+30 segundos” quatro vezes. Eu gasto o mesmo número de pressionamento de botões que eu gastaria digitando o tempo, mas o microondas já começa a funcionar logo que aperto o “+30 segundos” pela primeira vez.

Considerando que o teclado do microondas requer um intervalo mínimo de meio segundo entre cada pressionamento de botão, isto me faz ganhar um segundo e meio de vida.

Ao entrar em um elevador eu sempre abro a porta apenas o suficiente para que eu consiga entrar (pois assim ela fecha mais rápido) e, imediatamente, pressiono o botão do meu andar. Se estou chegando em casa, eu saio do elevador com a chave de casa em mãos e na posição correta para entrar na fechadura da porta. Isto me faz ganhar aproximadamente seis segundos de vida por viagem de elevador.

Puxar a porta para que ela feche mais rápido não é uma boa idéia: o mecanismo que fecha a porta automaticamente costuma empurrá-la para fora e isto provoca um abrir/fechar adicional da porta interna do elevador – uma enorme perda de tempo de aproximadamente quatro segundos.

Por questões de segurança a garagem do meu prédio tem dois portões: você abre o portão externo, entra e só depois de fechar o portão externo fica possível abrir o portão interno, que dá acesso ao edifício.

Acontece que um portão não precisa estar completamente fechado para que você possa abrir o outro: quando um dos portões está aproximadamente 80% fechado, o outro já aceita o comando para ser aberto. Eu também medi o ponto mais distante da rua onde o controle remoto consegue acionar o portão (para ganhar tempo quando estou chegando) e, se estou saindo, antes de ligar o carro eu já abro o portão interno da garagem, pois o tempo dele abrir é exatamente o tempo que gasto para manobrar o carro e colocá-lo no ponto de sair da garagem.

Tudo isso me permite ganhar entre dez e quinze segundos de vida toda vez que saio com o carro.

Eu também descobri um jeito de abrir os dois portões ao mesmo tempo, mas isso seria inseguro – e considerando um certo cartaz que ficou pregado no elevador durante algumas semanas, o síndico não deve ter ficado nada satisfeito com minha descoberta.

Eu quase nunca desligo ou reinicializo o notebook. Quando vou dormir deixo-o na mesa em modo de espera ("sleep”), e na manhã seguinte ele volta a funcionar num instante.  E se tenho que transportá-lo de mochila para ir pro trabalho, uso a hibernação do Windows: ele inicializa muito mais rápido e com todos os programas abertos do jeito que estavam antes de eu guardá-lo. Isto me faz economizar cerca de cinco minutos de vida por dia.

É claro que esses ganhos são irrisórios. Mas eu gosto de pensar em como otimizar as coisas que faço todo dia, mesmo que seja só como um exercício de criatividade.


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