Retrospectiva 2016

É bem possível que o blog se transforme em um “arquivo de retrospectivas” – é a única coisa com alguma previsibilidade por aqui.

Mas tem motivo: reler as retrospectivas anteriores ajuda a dar perspectiva de como a vida vai. E de fato ela “vem em ondas, como mar”. Em 2009 as coisas não pareciam muito boas, dado que eu descrevia o ano como “vazio, ácido e difícil”. Já em 2016 foi o extremo oposto: foi um ano cheio, saboroso e recompensador. Dá até vergonha falar tão bem do ano que absolutamente todo mundo detestou.

O melhor de 2016: Trudeau disse “sim”

O ponto alto do ano foi, sem dúvida, receber o e-mail abaixo: a confirmação de que, sim, agora somos residentes permanentes no Canadá.

Você deve ter notado que o e-mail é endereçado à Bê… é que ela é quem foi a aplicante principal dessa vez, já que, com mestrado e um ano de trabalho no Canadá, a pontuação dela era muito melhor que a minha. “Fui eu quem conseguiu a nossa residência permanente!”, ela fica se gabando. Vou ter que aguentar ouvir isso o resto da vida – o que farei feliz e infinitamente grato. É libertador o alívio que dá não ter mais uma contagem regressiva no meu passaporte e finalmente ganhar todos os direitos do imigrante, como trabalhar sem restrições de tempo/local, ter acesso total à saúde pública daqui e poder reclamar do Maple Leafs perdendo no hóquei.

Outra coisa boa resolvida este ano: acabou a faculdade. Sinceramente, eu não aguentava mais, pelos motivos que expliquei no post anterior. Eu sonhei bastante sobre como seria meu último dia de aula, fiquei com vontade de sair da sala e fazer o Ai Weiwei em frente à escola, mas eu estaria sendo injusto com o lugar que, apesar dos percalços, serviu de degrau pro lugar onde estou hoje. Então apenas entreguei meu último trabalho e fiquei alguns minutos vendo a neve cair enquanto a Bê chegava pra me buscar.

Detalhe: é um troço bobo, mas tenho orgulho das minhas notas. Vou concluir o curso com honors e um GPA (a média daqui) de 4.2 em 4.5.

Ainda não liberaram a maconha, mas já estamos viajando

Mas nem tudo foi estudo. Em setembro, no começo do último semestre, eu matei uma semana de aula para viajar para Banff, na província de Alberta. Quando fui pedir uns dias de folga pro chefe, a resposta dele foi: “eu jamais impediria alguém de viajar para Banff”.

Chegando lá ficou fácil entender porquê. A foto abaixo não é nenhum ponto turístico, é apenas uma foto do meu celular no meio da estrada.

Nunca falei tanto palavrão olhando pra paisagens quanto em Banff. Mesmo com tempo nublado em todos os dias, tudo que a gente via era “putaquepariu que lindo”, “caralho que foda isso”, etc. As fotos não fazem justiça ao quão lindo é aquele lugar.

Essa é uma das melhores coisas de morar no exterior: as viagens. Como praticamente tudo ao seu redor é novo, até mesmo uma viagem curtinha de carro fica super interessante. Como a que fizemos em fevereiro, uma road trip para St. Catherines, onde ficamos num AirBnb fazendo boneco de neve no quintal.

A gente viajou um bocado esse ano – e, curiosamente, mais no outono e no inverno do que no verão. O que de certa forma faz sentido, já que nos meses quentes temos o “lado B” de Toronto. A cidade vira outra: todo mundo está nas ruas e nos parques, tem um monte de coisa acontecendo na cidade, simplesmente não dá pra não aproveitar. E, ao contrário do que muita gente pensa, no inverno tem muita programação pra fazer ao ar livre – só precisa de mais roupa.

Piquenique na Toronto Island

Com tanta viagem e dia de verão nem dá tempo de ter saudades do Brasil. As visitas também contribuem para isso; andei fazendo as contas e em 2016 não passamos nem três meses seguidos sem receber alguma visita brasileira, seja família ou amigos.

Mas não se pode ter tudo; conforme entram as novidades e alegrias, algumas coisas inevitavelmente vão ficando pra trás.

As distâncias e as perdas

O meu tempo por aqui acabou fazendo aflorar um tipo novo de distância – uma distância ideológica, e essa não há visita que supere. A coisa é complicada e tentar explicá-la vai acabar me rotulando como prepotente, mas o resumo da história é que, ao olhar o Brasil se transformando – como aconteceu com a crise toda de 2016, você vê a coisa de um jeito se estiver de dentro, e outra completamente diferente se estiver de fora. Quando as visitas brasileiras chegavam e o assunto era o Brasil, por exemplo, eu não entendia várias opiniões da conversa, e as minhas opiniões também não eram lá muito bem entendidas. No fim, achei por bem parar de acompanhar as notícias brasileiras e de opinar sobre elas nos WhatsApps e Facebooks da vida. Como diria a finada (e amada) avó da Bê, “o silêncio é a base da prosperidade”.

Por outro lado, um entendimento que melhorou ainda mais esse ano foi o do inglês. A transformação do cérebro quando confrontado com uma vida bilíngue é simplesmente fascinante: quando eu saio pra andar com o cachorro e penso na vida, os pensamentos agora saem numa mistura maluca de inglês com português que does not make sense mas que funciona beautifully. Ano passado a cachola ainda sofria pra alternar entre o português e o ingles, e a boca ainda engasgava entre os dois modos de falar. Hoje é bem mais natural.

O lado ruim dessa história é que isso é o começo de um lento e inevitável adeus ao português. Eu nem tinha reparado, mas escrevi este post seguindo, inconscientemente, o detestável esquema da “redação hambúrger” que aprendi ano passado num dos cursos da faculdade – especialmente a regrinha de que cada parágrafo deve começar com uma “frase-sumário” e depois discorrer sobre ela. É que o inglês é uma língua quadrada, dura, porém eficiente, seguindo fielmente sua raiz germânica, enquanto o português tem, literalmente, uma raiz “romântica” (ou seja, do romano/latim), e isso lhe confere uma expressividade inacreditável. E é isso que todos os meus textos em português vão perder lentamente ao longo dos anos. Vou sentir saudade de usar frases deliciosamente ingênuas, profundamente expressivas e inegavelmente brasileiras no meu dia-a-dia, como por exemplo, dizer que “esse cara manja dos paranauês”.

Conclusão – ou, “quem não planeja, é planejado”

Quem me conhece sabe que eu sou bom de planejamento. Quando fomos pra Banff, por exemplo, eu montei um cronograma da viagem inteirinha, dia a dia, com hora de início e fim de todos os itens da programação*. Meus amigos começaram a viagem me zoando… e terminaram me agradecendo.

Há dois anos, quando decidimos vir pro Canadá, é claro que tinha planejamento de longo prazo. A meta de 2016 era eu me formar já com algum emprego engatilhado para 2017, e depois conseguir residência permanente só lá pra 2018. O emprego garantido veio seis meses antes do previsto, e a residência permanente veio anos antes do previsto.

Para 2017, com a residência estabilizada por aqui, ficam liberados os planos nórdicos de longo prazo, como comprar imóveis e tal. Considerando que não tem inverno no mercado imobiliário daqui – ou seja, os preços estão pegando fogo – ano que vem provavelmente teremos um repeteco da mesma novela que foi a compra do meu apê de São Paulo (que, por sinal, estamos vendendo, viu?). E tem também uma “meta secreta”, que será revelada no momento apropriado 🙂

* – O segredo pra um bom cronograma de viagem são duas coisas: encher os prazos de “gordura”, alocando o dobro ou triplo do tempo pra cada coisa, e deixar espaços para acomodar mudanças de roteiro. Planejamento não é pra ser seguido à risca, isso é lenda. Planejamento é para servir de referência na hora de mudar de rota, porque a única certeza que você pode ter sobre o futuro é que você vai ter que mudar o planejado. E quanto às gorduras no cronograma, como diria o meu grande mestre de gerenciamento de projetos, ainda na minha época de consultoria… “cronograma sem margem de erro já nasce atrasado”.

Retrospectivas anteriores:

2015 – 2014 (não teve)2013 – 2012 2011 2010 2009 (b) – 2008 2007 2006 2005

A saga do community college canadense

Essa é uma boa vantagem de se mudar pro exterior: todo mundo acha que você está no topo do mundo, acendendo charuto com nota de 100 dólares e tal. Quando eu falo que vim “estudar fora”, nêgo acha que fui fazer mestrado em Harvard. Na verdade, eu fiz um curso que não vale nem um bacharelado em uma escola que não é nem uma faculdade. 

Bem-vindos ao mundo do community college!

Prólogo: Como assim “community college”?

community college é tipo uma “meia-universidade”. É um conceito difícil de entender porque não tem equivalente no Brasil. Na terra da Dilma do Temer, mesmo que você estude numa uniesquina da vida, no fim tu ganha um diploma e recebe o grau de bacharel, reconhecido pelo MEC e tudo. No caso do college, ele te dá um título de “meio-bacharel”, já que o curso tem metade da duração (2 anos). Pra piorar a confusão, o título que o aluno recebe no final chama-se… diploma.

Meu caso é menos pior: como meu curso tem 3 anos, no fim eu receberei um glorioso… (soem os tambores)… advanced diploma de engenharia de software. E como eu já tenho um bacharelado, eu consigo completar o curso em 2 anos e ainda fazer dois semestres de estágio (o tal do co-op que já comentei aqui).

O público-alvo do community college é, basicamente, a sobra do público-alvo das universidades – gente que não passou, que não consegue pagar, etc. Por isso, quando me matriculei, já vim esperando o pior.

O curso termina semana que vem e, depois de seis semestres, posso afirmar que minhas expectativas foram totalmente superadas… para pior, obviamente. Pra vocês sentirem o drama, vou contar pra vocês os causos separados por curso.

Curso: “Comunicação acadêmica”
Proposta do curso: Ensinar inglês no contexto acadêmico, como escrever relatórios, etc.
O que aprendi: Como provar que não colei ao escrever minha “redação-hambúrguer”.

No meio do semestre, o professor sorteou uns temas e deu um trabalho de pesquisa pra fazer em casa. Coisa séria, tinha que escrever cinco páginas no “padrão ABNT” daqui, citar outros textos, troço cheio das nove horas. Como eu gosto de escrever (e de padrões), fiz um textão fuderoso, formatei impecavelmente, e mandei.

Na semana seguinte, chega um email do professor me chamando pra uma reunião com ele antes da aula. O email não mencionava o motivo nem nada. Achei esquisito, mas confirmei. Chegando lá, o cara me solta a bomba…

– Então, como você bem sabe, a minha turma só tem estudantes internacionais e eu sei que o nível geral de inglês é bem básico…

“Bem básico” é elogio – muita gente na minha turma simplesmente não conseguia se comunicar em inglês. Sem exagero: se o prédio pegasse fogo e a pessoa precisasse discar 911 pra pedir socorro, ela morreria queimada. Mas o meu college não quer perder matrículas, então aceita esse povo mesmo assim.

O professor continuou:

– Eu recebi as redações da turma e não entendi nada, porque praticamente todas elas vieram com um inglês impecável. Então estou achando que não foram eles que escreveram. A sua redação, particularmente, estava muito boa, então eu preciso que você me prove que foi você mesmo que escreveu.

E aí ele me fez um monte de perguntas sobre o tema, sobre por que eu escrevi o que escrevi, e acabou convencido. O resto da turma ficou com zero e levou um belo torra.

Essa história da cola – ou “desonestidade acadêmica”, em termos mais educados – é uma das coisas que mais me incomodou.

Curso: “Negócios e tecnologia da informação”
Proposta do curso: Ensinar tudo aquilo que todo bom programador não se interessa em saber.
O que aprendi: Tudo sobre náutica e sobre o mercado imobiliário de Toronto.

Bob, o professor deste curso, ficava se gabando o tempo todo de ser o coordenador do curso de Gerenciamento de Projetos da Universidade de Toronto (a “UFMG” ou “USP” daqui, em termos de reputação). No entanto, todas as aulas do Bob se resumiram a:

  • Bob contando que tem um barco e de tudo que faz com o bendito barco.
  • Bob contando de quando ele trabalhava na Xerox em 1980.
  • Bob contando que vendeu a casa e comprou um apartamento.
  • Bob contando que tem uma namorada – que também vendeu a casa e comprou um apartamento.
  • Repita os assuntos acima até a exaustão.

Mas o mais legal foram as provas que fizemos, que tinham uma inovação surpreendente: questões repetidas. O cara reaproveitava questões de provas passadas nas provas seguintes. Não era nem uma paráfrase – as questões eram idênticas. E, pra melhorar ainda mais: as questões eram todas copiadas da internet, do site da editora do livro que ele (não) usava no curso.

Eu parei de assistir a aula do Bob logo no primeiro mês do curso. E fiquei aliviado de não ter torrado dinheiro e tempo na Universidade de Toronto…

Curso: “Conceitos avançados de bancos de dados”
Proposta do curso: Ensinar conceitos básicos de bancos de dados.
O que aprendi: Sempre pode piorar.

Esse curso foi tão ruim, mas tão ruim, que no lugar das minhas anotações de aula eu fiz uma lista das cagadas do professor, pra reclamar depois. Saca só a lista:

  • Numa aula, ele projetou uma lista com uns 25 itens sem o menor sentido e falou: “isso é o trabalho de conclusão de curso de vocês”. Depois, ao invés de mandar pra todos uma cópia da lista, ele mandou a gente anotar manualmente os itens, porque assim a gente seria “forçado a prestar atenção neles”. Na semana seguinte, como ninguém tinha entendido o que ele queria que fizéssemos, uns alunos foram tirar as dúvidas com ele. Ele ficou furioso: “mas eu já falei!!!”
  • Numa aula prática, ele deu pra turma uns 10 exercícios… todos com a mesma resposta. Pra piorar, o enunciado das questões era algo tipo “escreva uma consulta para extrair dados da tabela XYZ”. Adivinha se ele deu pra gente a estrutura e/ou o conteúdo da tabela XYZ?
  • Vários exercícios de “extraia os dados do banco de dados” não tinham resposta ou a resposta era um conjunto de dados vazio, tipo, “escreva uma consulta para calcular o total de vendas do usuário John Smith”, e a tabela de dados nem tinha um John Smith.
  • Várias aulas terminaram mais cedo porque ele olhou pra turma e falou: “vocês estão com cara de cansados”.
  • No meio do curso ele inventou de usar uma ferramenta da Adobe para aulas online. Aí ele passava metade do tempo da aula configurando a ferramenta, enquanto a gente olhava pra parede. Na segunda metade da aula o troço não funcionava e, quando a gente questionava, ele respondia: “vai digitando aí!”.

Curso: “Tecnologias emergentes”
Proposta do curso: Falar do que há de mais recente no mercado de software. Só que o professor usava slides com dados de 2001…
O que aprendi: A pagar o pato da turma que fica copiando trabalho.

Quase teve guerra civil nesse curso. Logo no começo do semestre o professor deu um trabalho em grupo pra turma, e obviamente a cola foi desenfreada. Por algum motivo eu me esmerei muito mais do que o normal com esse trabalho e entreguei o código-fonte mais lindo da minha vida, um primor de software, Bill Gates ficaria orgulhoso.

Na semana seguinte da entrega do trabalho, o professor mandou um e-mail cabeludíssimo pra turma toda, dizendo que tinha analisado minuciosamente todo mundo que colou e que ia mandar os nomes todos pra coordenação do curso caso as pessoas não assumissem a cola. Nem precisa dizer que eu fiquei rindo até a orelha quando vi esse e-mail.

Minha alegria durou só até o dia da próxima aula. O professor voltou atrás do nada e decidiu que, como tinha muita cola, ele ia cancelar o trabalho e redistribuir os pontos de outro jeito. Eu quase surtei – juntamente com a outra meia dúzia (literalmente) de gente que tinha feito o trabalho honestamente, e só depois de muita briga com o bendito do professor é que ele aceitou manter as coisas como estavam.

Cursos: “Integração de sistemas” e “Data warehouse”
Proposta dos cursos: Não sei, parei de me importar com isso.
O que aprendi: A ignorar o fato de que eu paguei o salário desses professores inúteis com o dólar a R$ 3.

Esses foram, de longe, os “melhores dos piores” cursos. Toda semana tinha uma aula teórica e uma aula prática, cada um com um professor. O da teoria chegava na aula atrasado, projetava o primeiro slide, depois tergiversava o resto da aula sobre como esse conhecimento é importante para o mercado, que os salários são ótimos, que a gente tinha muito que aprender aquilo… basicamente, passava a aula falando que o conteúdo era muito importante e não explicava a porra do conteúdo. Aí a aula acabava, ele notava que não passou do primeiro slide, e mandava o povo ler as coisas em casa.

Um dia ele deu uma prova e eu fiz uma pergunta sobre uma das questões. A resposta dele foi rir da minha cara – literalmente – e dizer que “se eu prestasse atenção nas aulas eu saberia”. Eu escrevi uma reclamação formal no papel da prova, dizendo que essa não era a postura que eu esperava de um professor. Ele me respondeu por e-mail alguns dias depois, reclamando que a culpa era minha de ficar o tempo todo no laptop durante as aulas.

Detalhe: o laptop é porque, ao invés de usar lápis e papel, eu faço as anotações das aulas no Evernote. Ou melhor, fazia, porque depois dessa palhaçada eu desisti de frequentar as aulas desse cara.

Ah, e tem o professor da aula prática, que era ainda mais perdido – mas perdido no nível de confundir o dia/horário da aula e simplesmente não aparecer, e de quando aparecer, entrar na sala e perguntar “o que eu tenho que ensinar hoje mesmo?”.

Mas é tudo choro e ranger de dentes nesse seu curso?

Apesar da maior parte dos professores serem desastrosamente ruins, os bons deram cursos bem produtivos. Nunca vou me esquecer da primeira aula de programação de jogos pra web, por exemplo: logo na primeira aula o cara botou a gente pra usar umas DEZ ferramentas/linguagens/tecnologias diferentes logo na primeira meia hora de aula – basicamente, ensinando a coisa mais importante em desenvolvimento de software: ficar confortável quando tu não tem a menor idéia do que está fazendo.

Teve também um professor de “APIs e microsserviços” que protagonizou um dos momentos mais satisfatórios do curso. No final do semestre ele resolveu que, ao invés de uma prova final, a turma faria um projeto de software e teria que integrar umas três tecnologias diferentes e demonstrar no último dia de aula. A turma foi praticamente toda contra, com a desculpa de que já tinha “trabalhos demais”, mas o motivo real deles quererem a prova é que ela é mais fácil pra colar…

Quando o professor anunciou o trabalho, um dos alunos – obviamente um dos grandes coladores – fez uma cara de coitadinho e um discurso triste de que ele tinha num-sei-quantos trabalhos pra entregar nas próximas semanas.  O professor deu a resposta mais linda de todas:

Amigão, o choro é livre. Imagina se você tá no trabalho, seu chefe chega pra você e fala ‘cara, eu preciso que você faça um projeto integrando esse e esse sistema, é pra daqui a duas semanas’. Você vai virar pra ele e falar ‘ah cara, não quero fazer isso não, será que tem como você me dar uma prova ao invés disso’?”

Entre todos os alunos com quem convivi, salva-se só algo tipo 2% da turma. Destaque para – sem bairrismo, juro! – a turma da américa do sul e da américa central: 

  • Fui fazer um trabalho de Java com uma venezuelana e empaquei numa parada maluca que o professor não sabia explicar e cuja documentação online parecia grego. A menina ficou acordada até as três da manhã só pra resolver o negócio.
  • Tinha também o “mexicano mágico”: no grupo do curso de Android eu estava fazendo o papel de “arquiteto de software” e volta e meia eu soltava umas ideias meio vagas, tipo “isso aqui devia ser um singleton” ou “podíamos usar Retrofit nessa integração”. O cara pegava essas frases soltas e, sem pedir explicações, aprendia as paradas por conta própria e, alguns dias depois me aparecia com os troços lindamente integrados no projeto e funcionando redondinhos.
  • Num dos meus empregos de meio-período, na escola mesmo, trabalhei com uma brasileira que fazia o design das telas do sistema e eu implementava. Normalmente, designer costuma ignorar a parte técnica, pedir uns troços impossíveis de implementar e depois reclamar que não tá bom. Essa menina era o oposto – ela lia a documentação técnica do projeto, entendia o que era possível ou não e só depois desenhava. Chegava a escorrer uma lagriminha de alegria quando ela me mandava um layout novo…
  • Por fim, o melhor programador que conheci ao longo destes dois últimos anos por aqui foi um colega paulistano. Trabalhei com ele num projeto onde deram pra gente um sistema antiquado e pediram pra acrescentar um monte de novas funcionalidades. O cara sugeriu reescrever o sistema do zero usando uma tecnologia mais moderna. Pra provar que essa seria a solução mais eficiente, refez o sistema inteiro… em DOIS DIAS.

Epílogo – Valeu a pena?

Bom, esse calvário todo foi a forma que eu escolhi pra me atualizar pra trabalhar de novo com software sem quebrar (muito) as minhas economias, usar os estágios pra pavimentar o caminho pra um bom emprego, conseguir um visto de trabalho pra digníssima e também os futuros requisitos pra residência permanente. E todos os objetivos foram cumpridos.

Pensando racionalmente, acho que a minha decepção é um tanto quanto injusta. Eu não podia mesmo esperar educação nível MIT pagando o preço de Uniesquina. No entanto, não sei se recomendaria esse mesmo caminho para outras pessoas. Talvez valesse mais a pena economizar mais um bocado e pagar por um mestrado ao invés de outra (meia) graduação.

Mas o que importa é que deu certo, estou plugado de novo na Matrix, e não pretendo mais tomar a pílula azul.

Velhice e videogames

Envelhecer é uma experiência bem… interessante. Você fica melhor em um monte de coisas, em outras você fica pior, e com certeza você fica assustado ao ver o tanto que agora precisa rolar o mouse no campo “ano de nascimento” ao preencher um formulário online.

Outro lado ruim da idade é que o mundo começa a ficar realmente entediante, porque você percebe que as novidades de hoje raramente são, de fato, novidades, e sim as mesmas coisas de décadas atrás, só que disfarçadas com outro nome. Você olha pros hipsters e vê exatamente o que o seu pai e sua mãe usavam nas suas fotos de infância. Os filmes reciclam infinitamente as mesmas histórias de “o bem vence o mal”, “o casal sofre mas fica junto no final”, “o herói quase morre mas no fim explode tudo e ainda dá um beijo na mocinha”, etc, etc. Os heróis dos seus livros e quadrinhos (que ainda eram de papel) da infância surgem no cinema, em reboots e mais reboots, como se Hollywood fosse um grande computador com defeito. Na música, então… você finalmente entende porque Cazuza falava do “futuro repetindo o passado”, do “museu de grandes novidades”.

E se você envelhece mas continua jogando videogames, aí meu amigo… aí a rebordosa é ainda pior, porque além do repeteco de histórias você tem também o repeteco de mecânicas e artifícios de jogo, de clichês, de enredos, de tanta coisa… todos os first person shooters são iguais, todos os RPGs são iguais… e todos batem recordes de vendas, porque a molecada pega o Call of Duty: Ghosts, que é IDÊNTICO A TODOS OS OUTROS DA SÉRIE, e acha do caralho porque “agora dá pra jogar com personagem mulher, cara!”. E a mesma molecada, quando confrontada com o genialíssimo e inovador Portal, reclama que “pô, não dá pra atirar em ninguém?”.

screenshot do Portal

Mas o problema não é a molecada, e nem a mentalidade de “na minha época era melhor”. O problema é que os trintões como eu jogaram os pais e avôs dos FPSs, dos RPGs, dos jogos com sandbox e open world, então a novidade deles já não é mais novidade pra nós.

Outra questão que aflige o gamer balzaquiano é que a idade traz – felizmente! – o refinamento dos prazeres. Aos vinte anos a gente até topava encher a cara de Skol e vinho Chapinha; agora curtimos apreciar um cabernet sauvignon e  a cerveja tem que respeitar a Reinheitsgebot – e nos jogos acontece a mesma coisa. A gente não fica satisfeito só com explosões e gráficos fantabulósicos: o jogo tem que ter uma boa história. Videogame, convenhamos, não é filme pornô. Recentemente joguei a trilogia Mass Effect, que é um bom exemplo disso: a mistura de shooter com RPG é bem básica, mas a profundidade da história é fantástica e, pra completar, é construída num universo tão criativo e minucioso que ouso dizer que é melhor que o de Star Wars ou do Senhor dos Anéis: é uma obra-prima de ficção científica. Paradoxalmente, eu morria de tédio nas partes de combate e passava horas explorando as opções de diálogos com cada personagem e conhecendo mais sobre cada raça alienígena – e são dezenas (clique na imagem abaixo), todas com uma história complexa e interessantíssima – e quando vou visitar meu irmão (de 12 anos) ele dá skip em todos os diálogos dos seus jogos…

Mass Effect characters wallpaper

Há problemas também no universo multiplayer: quando jovens, nossos modems não transmitiam a mais de 14.4 kb/s e o jogo online estava na sua infância. Hoje estamos no paraíso multijogador, com internet rápida e sem fio e centenas de milhares de pessoas conectadas te esperando… e eu simplesmente não tenho sacoRecentemente baixei o beta do Destiny, o FPS online da Bungie que está surfando a crista da onda do hype para seu lançamento em setembro. Primeiro você só tem acesso aos modos cooperative, onde não vi cooperação nenhuma: às vezes aparecia um outro jogador, fazia uma dancinha na minha frente (sério!) e saía correndo sozinho. Aí cheguei na parte de deathmatch e a idade pesou mesmo. Quando jovem eu botava um hard techno nos fones e passava horas online no Quake 3 tranquilamente. Hoje em dia, pra conseguir um resultado minimamente relevante jogando contra a molecada, é preciso fazer um esforço enorme. Não é divertido ficar o tempo todo tenso, correndo feito louco pelo mapa, em estado de alerta total e incessante porque basta uma bobeira de uma fração de segundo pra alguém lhe explodir a fuça.

(pra não dizer que não gostei de nada, a trilha sonora do Destiny me agradou bastante 🙂 é um ambient bem espacial e relaxante).

Por sinal esta é outra coisa que vem com a idade e que transforma sua experiência de jogar: você passa a buscar sossego e tranquilidade ao invés de agitação. Esse ano eu ganhei o Watch Dogs de presente de Dia dos Namorados, e ele tem uma funcionalidade bem inovadora: como o jogo tem temática hacker, uma das coisas que dá pra fazer é invadir o jogo de outra pessoa, numa mistura bem criativa do single player com o multiplayer: você está lá, cuidando da sua vida, sozinho no mundo do jogo, e de repente surge a mensagem “you are being hacked“, e você tem que procurar o jogador que se conectou pela internet ao seu Playstation e “invadiu” seu jogo para eliminá-lo. Acontece que, no meu caso, toda vez que eu era invadido a sensação era realmente de que estavam se intrometendo no meu momento de jogo single player, e ao invés de ser emocionante eu achava aquilo extremamente irritante.

Watch Dogs online hacking

Felizmente, o mercado dos jogos cresceu o suficiente para poder ter nichos onde o gamer trintão consegue achar algo interessante – em especial na comunidade indie. Tem muita gente boa inovando e criando obras de arte em forma de jogo, como o sublime Journey (que o Bruno explicou melhor do que eu explicaria neste post). E recentemente encontrei uma preciosidade independente que vai consumir todas as minhas horas de jogo daqui pra frente: o Euro Truck Simulator 2.

O nome diz tudo que você precisa saber sobre o jogo: o Euro Truck Simulator é um simulador de caminhões ambientado na Europa. Só isso. Ele não é multiplayer, você não aposta corrida com ninguém, o caminhão não tem turbo nem nenhuma firula intergalática: exatamente como na vida real, você simplesmente transporta carga de um canto a outro, dirigindo a prosaicos 80 km/h nas autobahns alemãs ou nas charmosas estradinhas francesas. Sua maior preocupação é respeitar os limites de velocidade, dar seta antes de fazer as curvas e parar de 12 em 12 horas para dormir. Pra passar o tempo, o rádio do caminhão, convenientemente, pega streaming de estações de rádio reais europeias, deixando a experiência ainda mais envolvente e, principalmente, relaxante.

Euro Truck Simulator screenshot

E assim as novas e velhas gerações de jogadores vão convivendo, cada uma no seu mundinho particular. A molecada, vermelha de raiva, martela os botões do controle e segue gritando impropérios aos n00bs em seus headsets. Nós, os gamers de trinta e muitos anos, abrimos uma Heineken e calmamente transportamos uma caçamba de areia de Dusseldorf para Stutgard. E o mundo segue girando até o dia em que, finalmente, chegará o nosso inevitável game over.

Retrospectiva 2013

Eu me lembro de tudo desse dia – menos do ano. Um chute mais ou menos calculado diria que foi há dezessete anos, em 1996. Eu tinha 18 anos e estava começando a faculdade.

Eram seis e pouco da manhã de uma terça-feira e eu seguia com mais uma tentativa frustrada de me acostumar a fazer exercícios físicos: havia me matriculado numa aula de natação na piscina do Colégio Santo Agostinho, ainda em Belo Horizonte, onde estudei durante o ensino fundamental. Mas naquele ano eu já era maior de idade e tinha um Uno Mille 1.0, que por sua vez tinha uma coisa muito importante: um toca-fitas com auto-reverse.

Morrendo de sono, irritado e arrependido da ideia idiota de fazer natação de madrugada, resolvi colocar a fita com uma cópia do “Millions now living will never die”, do Tortoise, que havia sido lançado naquele ano. Eu nunca havia ouvido Tortoise até aquele dia, por isso gravei a fita de um dos CDs do meu primo.

Importante lembrar que, no ano de 1996, desvendar o universo musical não era fácil como hoje. Mas, felizmente, a minha tendência de não-conformidade musical já estava valendo: enquanto todos os meus amigos achavam o rock do Metallica o máximo, eu gostava era de ver os videoclipes da madrugada na MTV. Lembro que foi assim que cheguei ao Sonic Youth, por exemplo: vi o clipe de Little Trouble Girl e fiquei fascinado com aquele som “errado” das guitarras, e a atmosfera ao mesmo tempo familiar e incômoda que elas construíam. O lado B do universo musical ia ficando cada vez mais fascinante.

Felizmente meus primos estavam na mesma pegada, e foi com eles que eu ouvi falar pela primeira vez em uma coisa chamada pós-rock, e foi daí que eu cheguei ao Tortoise.

Os 20 minutos do trajeto de carro até o colégio encaixaram certinho com “Djed”, a longa e intrincada faixa que abre o álbum. Ela começa como uma banda normal de baixos e guitarras mas de repente um dos bateristas assume um vibrafone e a música se transfigura, metamorfoseando timbre, ritmo e estrutura. “Rapaz, isso é bom mesmo”, pensava eu enquanto estacionava o carro e a música ia acabando.

Aí veio a segunda faixa, chamada Glass Museum, que é o motivo de eu estar escrevendo este post enorme e relembrando esta manhã sonolenta dos meus dezoito anos – e tudo que aconteceu desde então. Eu já ia descer do carro e ir pra aula quando Glass Museum começou a tocar.

Mas, como disse, eu não sou bom de memórias. Não me lembro de muita coisa nessa vida. Esqueço quantos anos de casado eu tenho, nunca lembrei o dia do aniversário de nenhum amigo… mas me lembro perfeitamente dos cinco primeiros segundos de Glass Museum naquela manhã. Lembro da sombra que a árvore do canteiro central fazia sobre o capô do Uno Mille, parado a 45 graus na rua íngreme do colégio. Lembro do display âmbar e de todos os botões da frente do toca-fitas, do macete de apertar “FW” e “REW” ao mesmo tempo pra ele inverter o lado da fita. E nunca vou esquecer do arrepio que me subiu dos calcanhares até a nuca por cinco longos segundos. Foi a maior epifania musical que já tive na vida.

O motivo técnico de tamanha surpresa é que, musicalmente falando, logo no início Glass Museum quebra todas as “regras informais” do rock que eu havia ouvido até aquele dia. O compasso da música passava longe do “um dois três quatro” básico, a mistura das guitarras com o vibrafone era inédita, a estrutura não seguia o clássico “verso-refrão-verso” de sempre. Aquilo era completamente diferente de tudo que eu já havia ouvido – e por isso era incrivelmente lindo.

E o mais interessante desta nova beleza é que ela evidenciava todo um novo universo de criatividade estética que só é possível encontrar quando se sai do lugar comum musical. Musicalmente falando, naquele momento eu me senti como um cego que passou de repente a enxergar e que fica, ao mesmo tempo, assustado e fascinado porque descobriu que o mundo não é apenas aquilo que ele achava que era: ele é muito mais. Foi uma espécie de expansão sensorial do meu conhecimento musical.

Não demorou muito e eu desisti de fazer aulas de natação de manhã cedo. Por outro lado as madrugadas na MTV e as cópias piratas em fitas cassete aumentaram drasticamente. E o Tortoise transformou-se na minha banda preferida.

Daí tudo foi mudando. Mudou a cidade onde moro, mudou meu estado civil, mudou até meu emprego – duas vezes só este ano, e vai mudar ainda uma terceira vez, quando eu arrumar outro trabalho. Este talvez tenha sido o evento mais marcante de 2013: deixei a publicidade em novembro e não pretendo voltar.

2013, definitivamente, não foi um ano bom. Talvez ele tenha sido o pior ano desde que comecei a fazer retrospectivas aqui no blog. Tentando entender onde foi que a coisa toda começou a dar errado, passei algum tempo revendo posts antigos e levei um susto grande ao perceber que, no processo de me tornar uma pessoa completamente diferente do moleque de dezessete anos atrás, aconteceu uma mudança muito, muito séria: eu parei de sonhar. 

O principal motivo disso é o tanto de podridão que vi ao longo destes últimos anos. Eu tive que lidar com situações estapafúrdias e com um sem-número de gente má e oportunista, e isso foi profundamente desgastante. Em 2013, por exemplo, eu cheguei a ter um chefe que estava roubando dinheiro da agência. E como diz o ditado, quando você olha pro abismo o abismo olha de volta para você, e acabei me contaminando com essa visão torpe de mundo. Bethania até me apelidou de Boris, o personagem neurótico e misantropo do “Tudo Pode Dar Certo”, do Woody Allen.

Mas este pessimismo todo é apenas o sonho de antigamente com a polaridade negativa. Basta inverter. Está na hora de me reacostumar a ver o mundo com aquele olhar mais simples de dezessete anos atrás.

No mês passado, enquanto fazia uma pausa no envio de currículos pra dar uma passada de olho no Facebook, vi que o SESC anunciou nada menos do que quatro shows seguidos do Tortoise em São Paulo. Não pensei duas vezes e comprei ingresso para ir a todos eles, mesmo porque a promessa era de um setlist diferente em cada um dos dias.

Com isso eu comecei a pensar na possibilidade de realizar um sonho antigo: ouvir Glass Museum ao vivo. O impulso inicial foi de não alimentar muitas esperanças disso acontecer. “Expectativas levam ao desapontamento!”, era o que eu sempre dizia. Além do mais, àquela altura a banda já tinha décadas de estrada e repertório suficiente pra não precisar ficar ressuscitando músicas dos primeiros álbuns.

Apesar dos ingressos esgotados, muita gente não foi e logo no primeiro dia eu consegui me sentar na primeira fileira, e o teatro do SESC era tão bom que eu me sentia como se a banda estivesse tocando na sala da minha própria casa. E foi assim que vi o show em todos os quatro dias: colado na banda e confortavelmente sentado numa poltrona tipo de cinema.

Foi demais. O Tortoise é outra coisa ao vivo. Começa pelo fato de que o setup deles, além dos vibrafones e sintetizadores, usa duas baterias completas, uma de frente pra outra, no meio do palco. Quando eles as tocaram, juntas, em “Monica” – que é uma das músicas que eu também queria muito ver ao vivo, depois que vi este vídeo deles tocando em Barcelona – eu fiquei maravilhado. Ao longo dos shows muitas outras coisas ficaram evidentes. Por exemplo, eu nunca tinha reparado em como as músicas do Standards – o disco com a bandeira dos EUA na capa – soam mesmo norte-americanas, e isso só ficou evidente quando finalmente vi aquelas caras branquelas, caucasianas, fazendo a música acontecer. Também entendi um pouco mais do álbum mais recente, o “Beacons of Ancestorship”, que com sua pegada mais barulhenta e guitarreira está de fato reverenciando as estrelas ancestrais do punk rock. E essa epifania toda veio só pelo fato do John Herndon ter tocado num dos dias usando uma camiseta do Black Flag.

Mas no meio disso tudo o sonho de Glass Museum continuava: em todos os silêncios que precediam uma nova música, eu olhava pra guitarra de Jeff Parker, pra ver se ele daria as mesmas seis notas que ouvi dentro do meu Fiat Uno, naquela manhã de 1996, e que iniciaram um novo ciclo na minha vida.

Foi no terceiro show, o de sábado. Naquele momento o péssimo ano de 2013 foi, oficialmente, encerrado. Dezessete anos depois, chegou a hora de voltar a sonhar.

2012 2011 2010 2009 (b) – 2008 2007 2006 2005

Resumo das coisas que pensei ao pedalar 46km

(Todas as fotos são do meu Instagram)

Primeiros 5km – Depois que acordei e vi que a previsão do tempo dizia, basicamente, que “the winter is coming” (vem aí recordes de frio e chuva na semana que vem), achei por bem aproveitar o último dia de sol. O roteiro que imediatamente me veio à cabeça foi percorrer a Ciclovia do rio Pinheiros, inteira, entrando pela estação Santo Amaro e saindo pela Vila Olímpia.

Estes 5km são o trecho de rua que percorro até a estação Santo Amaro. Normalmente é lá que eu me preocupo com o vento e decido se vou começar pedalando pro norte ou pro sul, mas dessa vez pensei: “não faz diferença, nesse circuito de hoje eu vou me ferrar de qualquer jeito”. Então entrei na ciclovia, coloquei os fones, apontei a bike para o sul e comecei a pedalar.

Do km 5 ao km 12
Me sinto:
Ótimo
Dores: Nenhuma

Ciclovia

Este trecho vai até o “final pobre” da ciclovia, que fica em Interlagos. Eu chamo de “final pobre” não por preconceito, é porque o estado da ciclovia aqui pra baixo é tenebroso em comparação com o “trecho nobre” (ao norte da Vila Olímpia, já já falo dele). O asfalto é mal preservado, a pintura está velha e horrível. Mas o vento, meus amigos, o vento estava a favor e eu fiz esse trecho numa média de deliciosos 40km/h. É como naquelas questões de física do colégio, quando o professor dava um problema de mecânica clássica e te falava pra desconsiderar o atrito. Mas ao invés de curtir, a única coisa que eu pensava era que esse vento a favor logo logo seria um vento contra – e eu iria percorrer toda a extensão da ciclovia com Deus flutuando na minha frente e me soprando de volta pra trás, como naquelas ilustrações do século XIX.

Do km 12 ao km 20
Me sinto:
Um cara esforçado
Dores: Nenhuma

Eu esperava vento contra, mas o que encontrei foi o pior vento contra de toda a história dos ventos contra da ciclovia. Se você não tem costume de pedalar isso pode parecer exagero, mas eu te provo com um dado bem simples: minha velocidade média de 40km/h caiu pela metade e eu estava lá, bufando a 20km/h e me sentindo como se estivesse subindo o Everest. Mas a coisa toda só estava começando e eu ainda tinha bastante gás.

Os outros ciclistas desistiam de forçar e subiam em ritmo de passeio. Alguns estavam parando no acostamento pra descansar.

Do km 20 ao km 25
Me sinto: 
Um cara esforçado e também persistente
Dores: Punhos meio doloridos do guidão, mas tranquilo.

Ponte Estaiada

É nesse trecho que eu passo debaixo da Ponte Estaiada, principal cartão postal da rede Globo de São Paulo. Isso me lembou uma das primeiras vezes que vim à ciclovia, ainda com uma bicicleta “genérica” daquelas de comprar em supermercado. Lembro que nos primeiros quilômetros eu pensava, empolgado: “cara, como isso é divertido!”. A diversão durou até meu pneu dianteiro furar, pouco antes da Ponte…

Foi um balde de água fria daqueles. E isso me lembrou de todas as outras inúmeras vezes que tentei fazer algum tipo de exercício e alguma coisa atrapalhava. Quando era jovem e morava em Belo Horizonte eu tentei correr na rua um monte de vezes: numa delas chovia todo dia, outra vez eu tropecei e ralei os dois joelhos, e em todas as vezes eu me sentia injustiçado pelo destino.

Felizmente, depois de adulto, adotei uma regra simples para a vida: para todo e qualquer problema da minha vida, inclusive – e especialmente – os problemas causados por “má sorte” ou “injustiças”, o culpado sempre sou eu mesmo. Pneu furou? Culpa minha, que não me planejei para isso e não trouxe um kit de reparo ou uma bombinha de ar de emergência (qualquer ciclista sério sempre sai de casa com um desses). Choveu? Culpa minha, que não viu a previsão do tempo e/ou trouxe uma roupa impermeável pra se proteger.

Pensar assim me fez parar com mimimi e ser mais esperto e criativo em relação às coisas da vida. Ou pelo menos era a intenção: adivinha se eu havia lembrado de trazer meu kit de reparo de pneus…

Do km 25 ao km 30
Me sinto:
Suave na nave.
Dores: Nenhuma. Ou seja, na hora que eu parar…

Chegada dos ciclistas na Estação Vila Olímpia

Passei a estação Vila Olímpia e cheguei no “trecho nobre” da ciclovia. Gente bonita, bicicletas importadas, asfalto novinho e pintadinho, tudo na mais perfeita vibe coxinha. Mas o mais legal é que, mesmo usando uma Caloi 10 vagabunda, sem sapatilha, e equipada na base do DealExtreme, nenhuma bike fashion de 10 mil reais havia me ultrapassado. Na verdade nenhuma bike tinha me ultrapassado desde que entrei na ciclovia.

Lembrei dos meus primeiros dias de academia, pouco mais de um ano atrás. Eu estava gordo e sem preparo físico, e com um longo histórico de tentativas fracassadas de emagrecer. Só que dessa vez eu decidi que tentaria duas coisas novas:

  • Para exercícios, o método “calma, cara” – Eu não ia cair na conversa dos professores de academia que ficam gritando “VAAAAI BOTA MAIS PESO NESSA PORRA AÊ”. Eu iria devagar. Sem forçar. Pegar pouco peso, aumentar carga só quando eu me sentisse definitivamente confortável. É como diz o ditado gringo: “slow and steady wins the race”. Isso foi essencial pra que eu não mandasse os treinadores da academia para lugares não muito felizes durante os treinos, e também pra que eu não me frustrasse ao não ver nenhum resultado após me matar de treinar.
  • Para dieta, um único e simples indicador: calorias – Eu não sei como não percebi isso esses anos todos. Emagrecer é matemática simples: se você comer menos calorias do que gasta, você emagrece. Caso contrário, engorda. A única coisa que faltava no meu caso era contar as malditas calorias. Aí instalei o FatSecret no meu telefone e passei a anotar tudo que comia e os exercícios que fazia. E me pesava todo dia. Aí o óbvio aconteceu: nos dias em que eu comia menos do que gastava, eu emagrecia. E pela primeira vez eu tive a certeza diária do que ia acontecer com o meu peso – porque, afinal, eu estava medindo.

Resultado: perdi 13kg em um ano.

Antes e depois

Lembro que nas minhas primeiras idas à ciclovia eu via meu desempenho e me achava o máximo – e então algum triatleta maluco passava voando por mim. Mas ao invés de me frustrar eu segui firme no método “calma, cara” – tão distraidamente que só hoje reparei no quanto meu preparo físico está ótimo.

Do km 30 ao km 35
Me sinto: 
Lance Armstrong (sem o doping)
Dores: Meio dolorido, mas só quando me mexo.

Bicicletas estacionadas no final da ciclovia

Como já ia aí mais de uma hora de ciclovia, tomei um gelzinho de maltodextrina (basicamente um carboidrato de fácil absorção) pra manter o nível de energia até a volta pra casa. Da primeira vez que tomei isso foi muito engraçado: era um dia em que tinha me alimentado mal e estava morrendo lá pelo km 15, aí tomei o gel e ele me deu um boost de energia tão absurdo que entendi Lance Armstrong perfeitamente.

Esse trecho é a reta final da ciclovia, um trecho sem nenhuma lombada que vai até o Villa-Lobos e tem um retão no final. Era pra eu estar morrendo com o vento contra, mas estava tão bem que outra ciclista até pegou carona em mim até o final da pista.

Esse negócio de pegar carona no vácuo de outro ciclista, que vai na frente “cortando” o vento pra você, é muito divertido. Eu nunca entendi aqueles papos de estratégia de equipes no Tour de France até ver a diferença absurda que faz ter alguém abrindo o vento na sua frente. Tanto que não é incomum que os ciclistas do rio Pinheiros façam uns pequenos pelotões involuntários e revezem entre si, mesmo que não se conheçam. Normalmente eu sou o “caroneiro”, mas hoje eu reboquei uns dois ou três.

No fim da pista o pessoal normalmente para pra tomar uma água e descansar. Já eu, quando percebi que não tinha sequer colocado o pé no chão desde que entrei na ciclovia, inventei de completar todo o trajeto sem parar.

Do km 35 ao km 40
Me sinto: 
Runner’s high!
Dores: Não ouviu? Runner’s high!

Nessa hora eu estava bem no trecho que menciono neste post, de 2012, que escrevi quando estava afundado em insônia e stress. Mas agora o cenário é outro: troquei de trabalho e foi como se eu tivesse trocado o inferno pelo céu. É triste como a gente se acostuma com uma vida miserável sem perceber.

No post eu menciono que, ao começar a descer a ciclovia de volta, com o vento novamente a favor, eu me senti relaxado pela única vez naquela semana. Dessa vez eu estava relaxado, feliz, leve, passarinhos assobiando que a vida é bela enquanto pétalas de flores levitavam na brisa suave e o asfalto da ciclovia reluzia em um milhão de luzes tal qual estrelas de uma galáxia distante.

Tudo culpa das endorfinas que inundaram meu cérebro. Na real mesmo eu estava é todo dolorido, desviando de cocô de capivara, vendo urubus sobrevoando a pista e sentindo o cheiro fétido do rio.

Do km 40 ao km 46
Me sinto: 
Zumbi.
Dores: Dói tudo!

Ciclovia

Finalmente cheguei na estação Vila Olímpia, o ponto onde iria sair da ciclovia e voltar pra casa pela Berrini e Chucri Zaidan. No instante em que eu parei a bicicleta, os 40km cobraram seu preço: músculos que eu nem sabia que existiam gritavam de dor. As coxas fraquejavam. A bunda se sentia sodomizada pelo selim, e eu tinha dúvidas se conseguiria ter filhos no futuro. Empurrar a bicicleta escada acima para subir a passarela e sair da ciclovia foi uma espécie de décimo-terceiro trabalho de Hércules. A única posição que não doía muito era, ironicamente, sentado e pedalando. Então respirei fundo e saí Berrini abaixo, desviando dos ônibus.

Eu uso frequentemente a bicicleta no meio do trânsito, durante a semana, pra ir pra academia. O que mais me deixa surpreso é que os motoqueiros são o veículo que mais respeita bicicleta. Reduzem pra você passar (mesmo no corredor), tomam o maior cuidado contigo. Até puxam papo no farol. Outra coisa bizarra é o quanto os pedestres ignoram as bicicletas. É como se você não fosse um veículo: a pessoa atravessa a rua e praticamente salta na sua frente, esperando você desviar dela.

Com o ritmo ditado pelos faróis da Berrini, e após sofrer com os calombos das mal pavimentadas e insistentemente remendadas ruas paulistanas, finalmente cheguei em casa.

Tempo total: 1 hora e 50 minutos
Distância total: 46,1 quilômetros
Velocidade média: 25km/h
Frequência cardíaca média: 159 bpm
Calorias ingeridas: 326 kcal (um Gatorade e um sachê de maltodextrina)
Calorias consumidas: 1596 kcal

Observações pertinentes e oportunas sobre assuntos totalmente aleatórios

Achei que tinha desenvolvido uma tolerância à cafeína depois que comecei a ficar com sono logo depois de beber café espresso. Mas aí reparei que a forma que bebo cafeína é que faz diferença no tanto que ele me acorda.

Donde temos a seguinte escala:

  • Espresso – Efeito nulo ou negativo (me dá sono)
  • Café de coador – Efeito leve. Os cafés ruins de escritório (estilo ‘café de asa de barata’), sem açúcar, são um pouquinho mais eficientes.
  • Café solúvel – Efeito considerável. Destaque para o Nestlé DuoGrão (a.k.a. “do ogrão”), que mistura café solúvel com pó de café puro. A cafeína lhe dá um tabefe na cara quando você bebe.
  • Café americano (aquele do Starbucks) – Efeito bastante consideravel, mesmo no tamanho pequeno (“tall”).  No final do copo eu já estou me sentindo meio Papaléguas.

– – – –

Estava vendo minha music library e pensando: é praticamente um milagre eu não usar drogas. Nos últimos tempos eu ando ouvindo muuuuita música de noiado/frito/v1d4l0k4. Exemplos:

  • Mad Lib: Discos com 50 faixas de 1 minuto cada, todas feitas de uma brisa das mais abstratas. É filosofia stoner, versão musical.
  • Ras G: Eu ouço e dá pra imaginar o próprio Ras no meio da nuvem de fumaça, falando, arrastado: “Dude…. duuuude… u feelin this?…” (ps.: a faixa 11 do disco se chama “jus feel”)
  • Emeralds: A música se repete, repete, repete, repete, repete… e então o ácido bate.
  • OOIOO: Versão japonesa do Santo Daime.
  • Rustie: É tipo o cara que cheira uma linha e sai andando pela pista de dança se sentindo o próprio Alexandre Frota.
  • SugarBeats: Tu toma um “E” e aquele show de funk (não o carioca, o de James Brown) subitamente fica… crocante.

– – – –

Eu continuo naquelas de contratar gente, o que significa ver milhares de CVs, o que significa ver coisas bizarras como:

  • Gente que manda CV e no cabeçalho, logo debaixo do nome, vem o nome artístico.
  • Gente que coloca hashtags no subject do email. Tipo: #Curriculo #Vaga #Projetos.
  • Teve uma menina que incluiu uma citação de Mary Poppins no final do CV. Dizia assim:

Em cada trabalho a ser feito há um elemento de diversão. Você acha a diversão e – pronto! – o trabalho vira um lazer!

– – – –

Num fim de semana desses aí fomos conhecer Campos do Jordão. Sim, tá no verão, mas os dias estavam chuvosos e frios (a.k.a. “verão em São Paulo”).

As pessoas chamam Campos do Jordão de “a Suíça brasileira”. Na verdade é uma “Suíça wannabe“, como bem definiu Bethania. Os caras fazem os telhados pontudinhos, servem fondue por tudo que é canto e – voilá! – eis a Suíça… versão brega.

Pra piorar, a cidade não funciona/não entrega:

  • No posto de informações turísticas, logo na porta da cidade, ao ser perguntada sobre opções de turismo para dias chuvosos como aquele, a mocinha respondeu: “então né… chovendo assim é complicado…”
  • Agendamos uma visita à fábrica da Baden Baden, quando o tour começou a mocinha disse que não teríamos acesso à fábrica por questões de segurança e o “tour” foi ela levando a gente pra ver uns barris de cerveja e lendo uma timeline com a história da cervejaria pregada na parede. Durou 10 minutos. No final deram dois copos de cerveja pra cada um, possivelmente pra ver se, bebendo, a gente esquecia aquela picaretagem.
  • O Palácio da Boa vista fecha pro almoço (bem na hora que chegamos lá). Aí, pra não perder a viagem, resolvemos ir ao Café do Palácio, que – surpresa! – não tinha café.
  • A aclamada “Fazenda Lenz Gourmet” é uma terrível armadilha pra turistas: de gourmet só o nome, porque o garçom errou tudo do nosso pedido, do ponto da carne às bebidas. A “área de lazer” da fazenda é deprimente, parece um galpão abandonado.

(Anti) Retrospectiva 2012

Sendo bem sincero com vocês:

Eu passei as últimas duas horas olhando pro computador e tentando escrever uma retrospectiva desse ano. Desisti.

Digamos que 2012 foi um ano de perdas. Muitas. Perdi brigas, perdi fé, perdi esperanças, perdi sono, perdi 13kg (sim!) e mais um monte de coisa. E, principalmente, perdi a vontade de ficar me desgastando dia após dia.

Então achei que, ao invés de ficar remoendo um ano complicado neste post, era melhor botar uma meta para o ano que vem. Isso deu muito certo em 2010, inclusive.

Assim sendo, declaro para todos os fins que, em 2013, minha meta é me divertir.

Não estou falando de virar um doido inconsequente. A ideia aqui é batalhar forte como batalhei em 2012, mas com o espírito mais leve. Sofrer menos e comemorar mais. Priorizar mais as voltinhas de 50km na ciclovia da marginal do que o trampo de fim de semana. Tomar mais cervejas nas noites de terça com os caras. Se der insônia, ir jogar videogame de madrugada. Ouvir mais música boa, ver mais filmes bons, fugir como louco de qualquer momento de tédio. Trampar sério, mas não tão à sério.

Menos businessman, mais hustler.

No fim todos estaremos mortos, é tudo irrelevante. Foda-se.

Então vem, 2013. Já vou chegar beliscando a sua bunda.

Uma centena de metros em uma linha reta perfeita

Debaixo do proverbial sol de meio-dia de sábado e já uns 15 quilômetros haviam ficado pra trás: os primeiros até a estação Santo Amaro e, de lá, os restantes lado a lado à fedorenta margem do Rio Pinheiros. Sempre ao norte, até o fim da ciclovia, onde tem um posto de apoio debaixo do viaduto que salta sobre a estação Ceasa do trem.

Comprar uma bicicleta – a clássica Caloi 10, mas no modelo 2012 – foi uma grande ideia. Na verdade foi inevitável, depois que entendi que existe um mundo além das mountain bikes e que esse é um mundo de bikes speed, que me ultrapassaram tantas vezes quando fui me aventurar na ciclovia usando a bike tosca de supermercado que eu precisava experimentar como era isso de bicicletas feitas pra voar pelo asfalto liso, ao invés de sofrer em trilhas poeirentas ou de despencar morro abaixo. Nunca vou me esquecer de quando montei na Caloi 10 pela primeira vez: arredia e instável quando lenta, algumas pedaladas depois e eu fascinado com o quanto ela corria. “Isso é um foguete”, pensava.

Pedalar pro norte na ciclovia é normalmente contra o vento, portanto bem sofrido e mais devagar, mas aí você para no posto de apoio e bebe uma água e checa o celular, com a desculpa de ver se aquele app de GPS tá mapeando certo o trajeto, mas que no fundo é pra aliviar a consciência de que ninguém te ligou com alguma bomba no trabalho. O que me remete aos momentos antes de sair pra pedalar. Eu trançando pela casa, inquieto, com um nó no estômago, sem entender se aquilo era ansiedade para sair logo de casa e pedalar ou se era o resultado da semana caótica e da insônia da última quinta-feira. Eu nem me lembro do que eu via na tevê às quatro da manhã de quinta, pra tentar pela décima nona vez ocupar a cabeça com algo que me acalmasse – ou com qualquer outra coisa que não fosse a angústia de ver as horas passando e nenhum sinal de sono, mesmo estando exausto do trabalho, e esse dilema do cansado-mas-aceso dando um aperto no peito, exatamente igual ao que eu sentia na manhã de sábado, capacete da bike na mão, garrafa d’água na outra, decidindo ir logo pra rua pra ver se aquilo passava independentemente da causa.

Então eu fui, e assei no sol de meio-dia, e suei e cheguei bem cansado no posto de apoio e no meu celular não tinha nenhum telefonema do trabalho, só umas notificações do Facebook que nem quis ver pra não quebrar a sensação de que aquele momento ali era só meu.

Era só meu e o caminho da volta ia ser com vento a favor, e ainda restava uma boa meia hora do podcast de Drum’n Bass nos fones. Eu devo boa parte dos 10 quilos que perdi nos últimos meses à precisa curadoria de DJ Risky em seu podcast (semi) semanal. “Risky killin’ it from every single angle!”, diz uma das suas muitas vinhetas. O sentimento é de que você pode levantar qualquer peso na academia, correr qualquer distância, e de que a violência do esforço de músculos cansados na verdade é uma delícia e vai ser ótimo esmigalhar os pedais e acelerar ciclovia abaixo com vento a favor. É um foguete a Caloi, com vento a favor então é ainda mais. E ninguém me ligou, então eu estava livre.

Nos primeiros metros de retorno à ciclovia o velocímetro passou fácil dos 30 quilômetros por hora, e à frente só a longa reta que termina na ponte Cidade Universitária, nenhum outro ciclista por perto. Larguei o guidão, respirei fundo o ar podre do rio Pinheiros e abri os braços por alguns instantes. Antes arredia e instável, agora a Caloi 10 seguiu quase uma centena de metros em uma linha reta perfeita, e me senti relaxado.

Foi o único momento da semana inteira em que me senti relaxado.

No fim das contas acabei exagerando e pedalei cinquenta quilômetros no total – uma ida e volta completa em toda a extensão da ciclovia. Cheguei em casa e demorei umas 2 horas só pra conseguir levantar do sofá e tomar um banho. Com corpo e mente com cansaço finalmente sincronizado, alternei cochilos e sono noturno picado até o final do domingo – mas pelo menos dormi alguma coisa.

Durou só até essa madrugada de terça pra quarta. São duas da manhã e nem tentei ir dormir ainda.

2012 não está sendo fácil. 2012 não está sendo nada fácil.

Você não precisa nem do seu nome

Toda vez que eu escuto o podcast do The Hype Machine eu acabo tendo altos insights, não apenas sobre música mas sobre um monte de coisas.

O podcast tem um quadro onde eles entrevistam gente da “blogosfera musical” e pedem indicações musicais. Na edição de agosto os entrevistados foram os caras do No Fear of Pop, e eles contaram uma história fantástica…

Eles receberam um email anônimo, de uma linha, dizendo apenas: “oi, eu sou um produtor anônimo e esta é uma das minhas músicas”. Foram ver e a faixa era tipo um pós-UK-grime estilo Burial, mas muito bem produzido, e então eles acabaram postando a música. E a partir daí toda semana foram recebendo outros emails anônimos com mais faixas.

E acabou que esse cara totalmente anônimo foi a recomendação musical deles no Hype Machine. Foi curioso ouvir o locutor anunciando: “All right, let’s check it out, this is ‘unknown’ on Hype Machine Radio”.

Pensa bem: um cara anônimo produziu umas coisas em casa, mandou um email pra um casal de blogueiros berlinenses e isso foi parar  em vários outros ouvidos mundo afora – simplesmente surfando no hype. Não foi preciso nenhuma divulgação, jabá, publicidade, endosso de celebridade, nada. Não precisou nem do nome do compositor.

E é interessante como a “máquina do hype” é poderosa. No mesmo podcast comentaram sobre o disco novo do Tame Impala que sai em outubro e dizendo que a banda soltou alguns singles online e os blogs todos repostaram. E só então me toquei que eu nunca vi sequer um bannerzinho em flash em nenhum canto da internet dizendo “Ouça o novo do Tame Impala”. O fato é que, fora do mainstream, simplesmente não existe publicidade para bandas e ainda assim o Tame Impala lotou o Cine Jóia aqui em SP semana passada.

O que me leva a crer que há uma grande chance de que a minha nova profissão não exista mais daqui a algumas décadas.

Delírio sobre viagens de avião

Um dia desses eu tive a ideia de colocar a coleção inteira de Sandman no iPad, pra ler no avião. E que ideia boa: tenho devorado as edições, fascinado. Nunca vi quadrinhos tão bem escritos.

Coincidentemente, lá pela edição 43, Sandman decide viajar à maneira dos mortais e embarca ele mesmo num avião com sua irmã caçula, Delirium.

Delirium é desenhada como uma menina meio maluquinha, de cabelo colorido e esgadanhado, de olhos cada um de uma cor. Como era de se esperar, Delirium não costuma fazer muito sentido quando fala, mas é dela o comentário mais sensato sobre voar de avião que já vi:

Sabe qual a melhor coisa sobre aviões? Digo, além dos amendoins nos saquinhos prateados.

É olhar as nuvens pela janela e pensar que eu poderia andar ali. Que talvez seja um lugar especial onde tudo está bem.

E às vezes eu ando de verdade nas nuvens, mas é só frio e molhado e vazio, mas quando você vê de dentro do avião é um mundo especial… e eu gosto disso.

Acho que é por isso que sempre escolho voar sentado na janela.

(Além do mais, quem sabe um dia desses eu não vejo uma menininha passeando entre as nuvens?)