Posts da categoria ‘Divagações’


Observações pertinentes e oportunas sobre assuntos totalmente aleatórios

23 de janeiro de 2013, 16:01

Achei que tinha desenvolvido uma tolerância à cafeína depois que comecei a ficar com sono logo depois de beber café espresso. Mas aí reparei que a forma que bebo cafeína é que faz diferença no tanto que ele me acorda.

Donde temos a seguinte escala:

  • Espresso – Efeito nulo ou negativo (me dá sono)
  • Café de coador – Efeito leve. Os cafés ruins de escritório (estilo ‘café de asa de barata’), sem açúcar, são um pouquinho mais eficientes.
  • Café solúvel – Efeito considerável. Destaque para o Nestlé DuoGrão (a.k.a. “do ogrão”), que mistura café solúvel com pó de café puro. A cafeína lhe dá um tabefe na cara quando você bebe.
  • Café americano (aquele do Starbucks) – Efeito bastante consideravel, mesmo no tamanho pequeno (“tall”).  No final do copo eu já estou me sentindo meio Papaléguas.

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Estava vendo minha music library e pensando: é praticamente um milagre eu não usar drogas. Nos últimos tempos eu ando ouvindo muuuuita música de noiado/frito/v1d4l0k4. Exemplos:

  • Mad Lib: Discos com 50 faixas de 1 minuto cada, todas feitas de uma brisa das mais abstratas. É filosofia stoner, versão musical.
  • Ras G: Eu ouço e dá pra imaginar o próprio Ras no meio da nuvem de fumaça, falando, arrastado: “Dude…. duuuude… u feelin this?…” (ps.: a faixa 11 do disco se chama “jus feel”)
  • Emeralds: A música se repete, repete, repete, repete, repete… e então o ácido bate.
  • OOIOO: Versão japonesa do Santo Daime.
  • Rustie: É tipo o cara que cheira uma linha e sai andando pela pista de dança se sentindo o próprio Alexandre Frota.
  • SugarBeats: Tu toma um “E” e aquele show de funk (não o carioca, o de James Brown) subitamente fica… crocante.

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Eu continuo naquelas de contratar gente, o que significa ver milhares de CVs, o que significa ver coisas bizarras como:

  • Gente que manda CV e no cabeçalho, logo debaixo do nome, vem o nome artístico.
  • Gente que coloca hashtags no subject do email. Tipo: #Curriculo #Vaga #Projetos.
  • Teve uma menina que incluiu uma citação de Mary Poppins no final do CV. Dizia assim:

Em cada trabalho a ser feito há um elemento de diversão. Você acha a diversão e – pronto! – o trabalho vira um lazer!

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Num fim de semana desses aí fomos conhecer Campos do Jordão. Sim, tá no verão, mas os dias estavam chuvosos e frios (a.k.a. “verão em São Paulo”).

As pessoas chamam Campos do Jordão de “a Suíça brasileira”. Na verdade é uma “Suíça wannabe“, como bem definiu Bethania. Os caras fazem os telhados pontudinhos, servem fondue por tudo que é canto e – voilá! – eis a Suíça… versão brega.

Pra piorar, a cidade não funciona/não entrega:

  • No posto de informações turísticas, logo na porta da cidade, ao ser perguntada sobre opções de turismo para dias chuvosos como aquele, a mocinha respondeu: “então né… chovendo assim é complicado…”
  • Agendamos uma visita à fábrica da Baden Baden, quando o tour começou a mocinha disse que não teríamos acesso à fábrica por questões de segurança e o “tour” foi ela levando a gente pra ver uns barris de cerveja e lendo uma timeline com a história da cervejaria pregada na parede. Durou 10 minutos. No final deram dois copos de cerveja pra cada um, possivelmente pra ver se, bebendo, a gente esquecia aquela picaretagem.
  • O Palácio da Boa vista fecha pro almoço (bem na hora que chegamos lá). Aí, pra não perder a viagem, resolvemos ir ao Café do Palácio, que – surpresa! – não tinha café.
  • A aclamada “Fazenda Lenz Gourmet” é uma terrível armadilha pra turistas: de gourmet só o nome, porque o garçom errou tudo do nosso pedido, do ponto da carne às bebidas. A “área de lazer” da fazenda é deprimente, parece um galpão abandonado.


(Anti) Retrospectiva 2012

16 de dezembro de 2012, 22:49

Sendo bem sincero com vocês:

Eu passei as últimas duas horas olhando pro computador e tentando escrever uma retrospectiva desse ano. Desisti.

Digamos que 2012 foi um ano de perdas. Muitas. Perdi brigas, perdi fé, perdi esperanças, perdi sono, perdi 13kg (sim!) e mais um monte de coisa. E, principalmente, perdi a vontade de ficar me desgastando dia após dia.

Então achei que, ao invés de ficar remoendo um ano complicado neste post, era melhor botar uma meta para o ano que vem. Isso deu muito certo em 2010, inclusive.

Assim sendo, declaro para todos os fins que, em 2013, minha meta é me divertir.

Não estou falando de virar um doido inconsequente. A ideia aqui é batalhar forte como batalhei em 2012, mas com o espírito mais leve. Sofrer menos e comemorar mais. Priorizar mais as voltinhas de 50km na ciclovia da marginal do que o trampo de fim de semana. Tomar mais cervejas nas noites de terça com os caras. Se der insônia, ir jogar videogame de madrugada. Ouvir mais música boa, ver mais filmes bons, fugir como louco de qualquer momento de tédio. Trampar sério, mas não tão à sério.

Menos businessman, mais hustler.

No fim todos estaremos mortos, é tudo irrelevante. Foda-se.

Então vem, 2013. Já vou chegar beliscando a sua bunda.


Uma centena de metros em uma linha reta perfeita

31 de outubro de 2012, 1:26

Debaixo do proverbial sol de meio-dia de sábado e já uns 15 quilômetros haviam ficado pra trás: os primeiros até a estação Santo Amaro e, de lá, os restantes lado a lado à fedorenta margem do Rio Pinheiros. Sempre ao norte, até o fim da ciclovia, onde tem um posto de apoio debaixo do viaduto que salta sobre a estação Ceasa do trem.

Comprar uma bicicleta – a clássica Caloi 10, mas no modelo 2012 – foi uma grande ideia. Na verdade foi inevitável, depois que entendi que existe um mundo além das mountain bikes e que esse é um mundo de bikes speed, que me ultrapassaram tantas vezes quando fui me aventurar na ciclovia usando a bike tosca de supermercado que eu precisava experimentar como era isso de bicicletas feitas pra voar pelo asfalto liso, ao invés de sofrer em trilhas poeirentas ou de despencar morro abaixo. Nunca vou me esquecer de quando montei na Caloi 10 pela primeira vez: arredia e instável quando lenta, algumas pedaladas depois e eu fascinado com o quanto ela corria. “Isso é um foguete”, pensava.

Pedalar pro norte na ciclovia é normalmente contra o vento, portanto bem sofrido e mais devagar, mas aí você para no posto de apoio e bebe uma água e checa o celular, com a desculpa de ver se aquele app de GPS tá mapeando certo o trajeto, mas que no fundo é pra aliviar a consciência de que ninguém te ligou com alguma bomba no trabalho. O que me remete aos momentos antes de sair pra pedalar. Eu trançando pela casa, inquieto, com um nó no estômago, sem entender se aquilo era ansiedade para sair logo de casa e pedalar ou se era o resultado da semana caótica e da insônia da última quinta-feira. Eu nem me lembro do que eu via na tevê às quatro da manhã de quinta, pra tentar pela décima nona vez ocupar a cabeça com algo que me acalmasse – ou com qualquer outra coisa que não fosse a angústia de ver as horas passando e nenhum sinal de sono, mesmo estando exausto do trabalho, e esse dilema do cansado-mas-aceso dando um aperto no peito, exatamente igual ao que eu sentia na manhã de sábado, capacete da bike na mão, garrafa d’água na outra, decidindo ir logo pra rua pra ver se aquilo passava independentemente da causa.

Então eu fui, e assei no sol de meio-dia, e suei e cheguei bem cansado no posto de apoio e no meu celular não tinha nenhum telefonema do trabalho, só umas notificações do Facebook que nem quis ver pra não quebrar a sensação de que aquele momento ali era só meu.

Era só meu e o caminho da volta ia ser com vento a favor, e ainda restava uma boa meia hora do podcast de Drum’n Bass nos fones. Eu devo boa parte dos 10 quilos que perdi nos últimos meses à precisa curadoria de DJ Risky em seu podcast (semi) semanal. “Risky killin’ it from every single angle!”, diz uma das suas muitas vinhetas. O sentimento é de que você pode levantar qualquer peso na academia, correr qualquer distância, e de que a violência do esforço de músculos cansados na verdade é uma delícia e vai ser ótimo esmigalhar os pedais e acelerar ciclovia abaixo com vento a favor. É um foguete a Caloi, com vento a favor então é ainda mais. E ninguém me ligou, então eu estava livre.

Nos primeiros metros de retorno à ciclovia o velocímetro passou fácil dos 30 quilômetros por hora, e à frente só a longa reta que termina na ponte Cidade Universitária, nenhum outro ciclista por perto. Larguei o guidão, respirei fundo o ar podre do rio Pinheiros e abri os braços por alguns instantes. Antes arredia e instável, agora a Caloi 10 seguiu quase uma centena de metros em uma linha reta perfeita, e me senti relaxado.

Foi o único momento da semana inteira em que me senti relaxado.

No fim das contas acabei exagerando e pedalei cinquenta quilômetros no total – uma ida e volta completa em toda a extensão da ciclovia. Cheguei em casa e demorei umas 2 horas só pra conseguir levantar do sofá e tomar um banho. Com corpo e mente com cansaço finalmente sincronizado, alternei cochilos e sono noturno picado até o final do domingo – mas pelo menos dormi alguma coisa.

Durou só até essa madrugada de terça pra quarta. São duas da manhã e nem tentei ir dormir ainda.

2012 não está sendo fácil. 2012 não está sendo nada fácil.


Você não precisa nem do seu nome

19 de agosto de 2012, 10:47

Toda vez que eu escuto o podcast do The Hype Machine eu acabo tendo altos insights, não apenas sobre música mas sobre um monte de coisas.

O podcast tem um quadro onde eles entrevistam gente da “blogosfera musical” e pedem indicações musicais. Na edição de agosto os entrevistados foram os caras do No Fear of Pop, e eles contaram uma história fantástica…

Eles receberam um email anônimo, de uma linha, dizendo apenas: “oi, eu sou um produtor anônimo e esta é uma das minhas músicas”. Foram ver e a faixa era tipo um pós-UK-grime estilo Burial, mas muito bem produzido, e então eles acabaram postando a música. E a partir daí toda semana foram recebendo outros emails anônimos com mais faixas.

E acabou que esse cara totalmente anônimo foi a recomendação musical deles no Hype Machine. Foi curioso ouvir o locutor anunciando: “All right, let’s check it out, this is ‘unknown’ on Hype Machine Radio”.

Pensa bem: um cara anônimo produziu umas coisas em casa, mandou um email pra um casal de blogueiros berlinenses e isso foi parar  em vários outros ouvidos mundo afora – simplesmente surfando no hype. Não foi preciso nenhuma divulgação, jabá, publicidade, endosso de celebridade, nada. Não precisou nem do nome do compositor.

E é interessante como a “máquina do hype” é poderosa. No mesmo podcast comentaram sobre o disco novo do Tame Impala que sai em outubro e dizendo que a banda soltou alguns singles online e os blogs todos repostaram. E só então me toquei que eu nunca vi sequer um bannerzinho em flash em nenhum canto da internet dizendo “Ouça o novo do Tame Impala”. O fato é que, fora do mainstream, simplesmente não existe publicidade para bandas e ainda assim o Tame Impala lotou o Cine Jóia aqui em SP semana passada.

O que me leva a crer que há uma grande chance de que a minha nova profissão não exista mais daqui a algumas décadas.


Delírio sobre viagens de avião

16 de maio de 2012, 23:17

Um dia desses eu tive a ideia de colocar a coleção inteira de Sandman no iPad, pra ler no avião. E que ideia boa: tenho devorado as edições, fascinado. Nunca vi quadrinhos tão bem escritos.

Coincidentemente, lá pela edição 43, Sandman decide viajar à maneira dos mortais e embarca ele mesmo num avião com sua irmã caçula, Delirium.

Delirium é desenhada como uma menina meio maluquinha, de cabelo colorido e esgadanhado, de olhos cada um de uma cor. Como era de se esperar, Delirium não costuma fazer muito sentido quando fala, mas é dela o comentário mais sensato sobre voar de avião que já vi:

Sabe qual a melhor coisa sobre aviões? Digo, além dos amendoins nos saquinhos prateados.

É olhar as nuvens pela janela e pensar que eu poderia andar ali. Que talvez seja um lugar especial onde tudo está bem.

E às vezes eu ando de verdade nas nuvens, mas é só frio e molhado e vazio, mas quando você vê de dentro do avião é um mundo especial… e eu gosto disso.

Acho que é por isso que sempre escolho voar sentado na janela.

(Além do mais, quem sabe um dia desses eu não vejo uma menininha passeando entre as nuvens?)


Silêncio

26 de fevereiro de 2012, 2:09

Se você parar pra pensar, a ideia usual que se tem do silêncio é uma ausência, um vazio.

Daí hoje de madrugada eu aproveitei a quietude da cidade pra pensar nisso e percebi que há um aspecto que normalmente a gente não considera: o do silêncio como uma possibilidade. A falta de sons como a chance de qualquer um deles.

Talvez seja isso que John Cage pensou ao conceber 4’33, sua composição mais famosa, composta unicamente de silêncio. Não usar nenhum som não significa nada, na verdade implica em um universo interpretativo onde tudo é possível.

Alem disso, a não-coisa não existe apenas para que a coisa ao qual ela contrasta exista. Se a sombra é a ausência de luz, isso não faz com que a sombra seja uma não-coisa, pois ela é também um conceito concreto, mesmo que seja feita da ausência de algo. Mas no universo sonoro o silêncio – a não-coisa que define o som – é, por alguma razão, desvalorizado ou até desconsiderado.

Da próxima vez em que tiver a (rara) oportunidade de ouvir o silencio, observe como ele é aquilo que “podia ter sido e que não foi”*. Talvez nisto esteja a base da sua intrínseca beleza.

* – Aproveitando aqui a frase de Manuel Bandeira, para descrever o indescritível.


Retrospectiva 2011

10 de dezembro de 2011, 0:45

Nada poderia me preparar para 2011. E, de certa forma, não fosse tudo que vivi nas últimas décadas e eu não estaria pronto para 2011.

O ano começou comigo pulando de cabeça num mercado completamente novo: o da publicidade. E aí os dias começaram a virar sagas épicas de caos, suor e muito, MUITO trabalho. Eu nunca trabalhei tanto quanto em 2011: meu horário “normal” de sair da agência é lá pelas nove da noite. Trabalhei várias madrugadas, trabalhei finais de semana, trabalhei até no carnaval.

Mas trabalhei todos os dias com gosto e com sangue no olho: eu não estava mais limitado a apenas sugerir coisas pro meu cliente e rezar pra ele ter a boa vontade (ou os colhões) de implementar. Ao contrário dos dias de consultoria, aquilo ali era a minha operação, meus projetos, minha equipe - minhas entregas.

Junte a isso o fato de eu estar finalmente trabalhando com o que eu sempre quis (internet) e pronto: eis um homem totalmente pilhado.

Tão pilhado que me envolvi até mais do que devia, e 2011 acabou também sendo o ano onde eu menos dormi. Eu já estou quase desenvolvendo um padrão de insônia onde eu durmo lá pela meia-noite, acordo pontualmente às 4 da manhã e não consigo mais pegar no sono porque fico pensando em trabalho. E o meu colesterol só tá em ordem graças às estatinas.

Parte disso é justificado porque 2011 foi o ano dos problemas estapafúrdios: tive que lidar com fornecedor tentando me dar o cano, fornecedor abandonando projeto no meio, cliente reclamando porque puseram palavrão em código-fonte de site, princípio de incêndio em aparelho de ar condicionado (sério!) e até sabotagem em projeto. Eu fiz trabalho de psicólogo, diretor de arte, arquiteto de informação, atendimento, mestre de obra, RH, financeiro… fui até organizador de buffet para eventos. Carreguei caixa e montei computador, em pleno sábado, no dia em que tivemos que nos mudar do prédio em Recife porque não cabia mais todo mundo no anterior.

Mas todo o suor, stress e noites mal dormidas compensaram. Estou fechando o ano com centenas de projetos entregues, a grande maioria sem atrasos ou problemas de qualidade. Os problemas críticos da operação todos sumiram. Mesmo com a equipe triplicando de tamanho, o custo do homem/hora quase não variou e a rentabilidade da operação tá tinindo. E em menos de um ano de agência eu fui promovido a diretor.

E o mais legal: no meio desse caos todo eu ainda arrumei tempo (e dinheiro) para, finalmente, comprar um apartamento. A mudança deve ser antes do natal, bem na véspera da festa de fim de ano da agência.

Falando em festa, a imagem aí embaixo é o convite. O tema desse ano vai ser “Las Vegas”:

Vegas, baby!

Simbólico. O destino me deu boas cartas este ano – e, modéstia às favas, eu joguei bem pra caralho.


A falácia do gerenciamento de projetos segundo o PMI

13 de outubro de 2011, 0:56

Bem, este vai ser um post polêmico (e longo). Mas eu preciso botar isso pra fora.

Primeiramente, antes que você me acuse de não saber do que estou falando, é importante mencionar que eu, além de possuir a certificação de PMP, já dei inúmeros treinamentos e implantei vários escritórios de projeto Brasil afora nos meus sete anos de consultoria. Mas durante este tempo todo eu ficava com um incômodo estranho, uma sensação de que havia algo errado com o gerenciamento de projetos aos modos do Project Management Institute – o famoso PMI – e de sua “bíblia”, o PMBOK, até então o “estado da arte” em GP. Tudo era complexo demais, as pessoas se perdiam no método e gastavam mais tempo montando documentação e estudando cronogramas do que efetivamente entregando os projetos. Pra piorar, eu fui trabalhar numa agência e quando cheguei, achei inúmeros projetos, a maioria com prazos ridículos para acontecer, sem documentação formal, sem tratamento de riscos, tocados por gerentes de projeto sem nenhum treinamento… e que ficavam prontos, às dezenas.

E foi então que a ficha caiu e consegui identificar a razão do meu incômodo. Ela é meio complicada de explicar, mas vamos lá.

Problema número 1: As práticas do PMI foram concebidas com foco nos meios, e não nos fins.

A impressão que dá é que o PMI atacou o problema  de “como gerenciar um projeto” como bons engenheiros: dividiram o problema em partes menores – escopo, tempo, custo, etc. – e se enfiaram numa análise minuciosa de tudo que precisa ser feito em cada uma dessas partes – o que resultou nas mais de 450 páginas cheias de fluxogramas aracnídeos do PMBOK.

O PMBOK já está em sua quarta edição e até agora ninguém se tocou que ele foi feito em cima da pergunta errada. A certa deveria ser: “O que é que faz um projeto dar errado?”. Porque, apesar de cada projeto ser único, eu aposto que uma boa pesquisa encontraria vários problemas iguais ocorrendo em projetos de mercados e/ou produtos diferentes. Aí você analisaria estes problemas, detectaria suas causas e só então estabeleceria um jeito padronizado de agir.

Se você não sabe o que quer resolver, acaba sendo genérico demais para cobrir todas as possibilidades ou minucioso demais tentando tapar todos os possíveis furos. É como se você tivesse que instruir alguém a fazer uma longa viagem a pé e, sem saber nada sobre o caminho por onde a pessoa vai passar, você fala que a pessoa pode levar roupas de calor, de frio, de chuva, uma bóia pra se tiver um rio, um esqui pra se tiver neve, etc., etc., e ela passa dias decidindo e sai com 150 quilos de bagagem e não consegue chegar ao destino porque não aguenta arrastar toda aquela traquitana.

Só que, infelizmente, a galera que montou o PMBOK fez um belo trabalho e concebeu um framework de gestão que, apesar de complexo, é muito bem amarrado, tanto que chega a ser fascinante. O que nos leva ao…

Problema número 2: As pessoas se deslumbram com o framework do PMBOK

Imagine que você é um daqueles caras formado em alguma ciência exata, como engenharia ou computação. Você naturalmente gosta de um desafio intelectual, então acaba se dando bem na sua profissão e, algumas promoções depois, acaba caindo num cargo de gerente de projeto (porque todos os concorrentes da sua empresa também tem um). De repente todo aquele seu conhecimento técnico passa a não valer de nada, porque seu trabalho mudou da água pro vinho e você tem que lidar com pessoas, processos e políticas ao invés de diagramas e softwares. Seus dias de trabalho ficam bem desconfortáveis.

Aí você, como bom engenheiro, vai buscar um “manual” que te explique como lidar com aquilo tudo. E você quer logo o melhor que existe. Então não demora muito até você chegar ao PMBOK.

Já na primeira leitura você começa a ver todas aquelas coisas que está tendo problemas para lidar, todas elas rotuladas, descritas e categorizadas. Aquela bagunça de gente onde você não sabe quem manda em quem no projeto vira uma “estrutura matricial balanceada”. Aqueles momentos onde você não sabe se deve mandar um email ou ligar para a pessoa viram “comunicações formais escritas” ou “horizontais formais orais” ou “verticais informais escritas”. Aquele livro mágico te dá um prisma para você entender esse mundo novo todo – e ainda por cima te dá todo o processo para lidar com seus projetos. É como o Player’s Handbook para projetos.

E pra completar, te dizem que, se você aprender direitinho o que tem no PMBOK, pode fazer uma prova super difícil, de 400 perguntas, que vai te certificar como um disputadíssimo Project Management Professional. Pronto: está lançado o teu novo desafio intelectual.

E pronto, você foi convertido.

Só que, como eu disse ali em cima no problema 1, todo esse framework é montado em cima de uma premissa errada. Mas ao invés da pessoa perceber isto, ela acaba enfiando a cabeça mais e mais nele. Pior, ela adota o mesmo modelo mental usado pelo PMI para conceber o PMBOK como seu próprio modelo mental para tocar os projetos. Assim, ao invés de focar em resolver os problemas do projeto, o gerente acaba achando que a solução está em novos fluxos, formulários, categorizações, modelos de priorização, etc, etc, “ensimesmando-se” no método cada vez mais ao invés de focar nos resultados desejados e estruturar seu plano de ação a partir deles.

Durante a minha carreira eu cansei de ver gerentes de projeto com PMPs, MSCs, PHDs e o escambau, conhecedores de tudo que existe por aí em termos de metodologias, processos, frameworks, softwares e o escambau… todos eles incapazes de gerenciar um projeto. Uns eram muito bunda-moles, outros tinham problemas sérios de relacionamento… um deles, que conheci recentemente, quando questionado por que seu projeto ia mal, respondia, indignado, que “não estão me dando condições de cumprir todos os ritos da metodologia”.

“Puxa, mas não é possível que ninguém se toca disso no mercado”, você deve estar pensando. Acontece que, quando você olha por aí pra ver o que os “grandes especialistas” do assunto estão dizendo, fica horrorizado porque ELES não somente são os maiores punheteiros de metodologia que existe, como também estão usando esta ilusão coletiva para ganhar dinheiro. O que nos leva ao…

Problema número 3: A comunidade de gerenciamento de projetos em torno do PMI é repleta de picaretas.

OK, sei que esta é uma acusação séria, mas ela fica mais fácil de entender à luz dos problemas 1 e 2 que eu expus anteriormente.

Sob a ótica que estou defendendo neste texto, o bom profissional de gerenciamento de projetos deveria ser aquele que entrega resultados. Aquele que pega projetos de risco e consegue concluí-los, aquele que tem uma consistência de entregas bem-sucedidas ao longo de sua carreira, aquele que consegue mobilizar bem as equipes, aquele que garante o ROI do capital investido. Acontece que, em todos os meus anos trabalhando com gerenciamento de projetos, eu nunca vi nenhum dos tais fodões do GP falando em resultados dos seus projetos. Na verdade eu nunca vi nenhum desses fodões dando detalhes de NENHUM projeto que tenha entregue. Mas vejo esses caras o tempo todo punhetando metodologia com cara de deslumbrados.

A maior autoridade do Gerenciamento de Projetos no Brasil hoje em dia é Ricardo Vargas. No site tem a biografia dele. Diz lá que ele foi responsável por mais de 80 “major projects” compondo um portifólio de investimentos de “over 18 billion dollars”. Mas foi ele quem tocou os projetos? E qual foi o ROI destes 18 bilhões investidos? Por essa mesma ótica eu posso falar que, com nove meses de agência, sou responsável por centenas de projetos (são meus GPs quem tocam, mas em última instância eu sou o responsável), compondo um portifólio de investimento de vários milhões de reais (valor pago pelos clientes, somado). Ou seja, sem falar em ROI é fácil ficar expondo números grandes por aí. Mas ao invés de focar nessas coisas, a biografia de Ricardinho fala de seus inúmeros títulos, certificações, as suas empresas e os seus inúmeros livros escritos – livros estes que foram o que o alavancou para a fama.

Os outros nomes poderosos do GP no Brasil também costumam ser conhecidos por suas palestras e treinamentos. Uma vez, quando o PMI lançou o “standard para Gerenciamento de Portifólios”, eu fui fazer um treinamento de gestão de portifólio com um desses fodões do mercado. Foi o pior treinamento que já fiz em toda a minha vida: o cara gastou 10 minutos lendo o fluxograma do livro e depois passou o resto do tempo repetindo coisas sobre gerenciamento de projetos (era um treinamento de portifólio!), mostrando videozinhos motivacionais, falando de coisas nada a ver. Eu desci tanto o pau no formulário de avaliação do curso que o pessoal da escola chegou a me telefonar pra saber o que tinha sido tão errado.

No ano retrasado, Rita Mulcahy veio ao Brasil para uma palestra. Rita é uma personalidade mundial do gerenciamento de projetos – se você estudou para a certificação PMP, com certeza usou o “Livro da Rita”, já que ela é autora do melhor livro preparatório para o exame. Um amigo meu foi ver a (disputadíssima) palestra dela e ficou horrorizado: foi basicamente uma palestra de auto-ajuda, cheia de “dinâmicas de integração”, piadinhas, lições de moral estilo Paulo Coelho.ppt… e nenhum resultado de projeto foi mencionado.

De fato, se você for ver a programação dos grandes eventos e seminários de GP que acontecem todo ano, no Brasil ou no mundo, vai ver como também nestes casos a falta de foco em resultados e a masturbação metodológica é predominante. Em novembro tem o Congresso Brasileiro de GP, no Ceará. São três dias de palestras. Apenas UMA delas é um estudo de caso – que eu aposto que vai focar na metodologia usada na gestão do projeto e não no que ele entregou. Eu já cheguei ao absurdo de ver eventos desses cuja programação incluía palestras sobre o gerenciamento dos jogos panamericanos do Rio – que foram cheios de atrasos e que custaram mais de 10 vezes o que foi previsto!

Aí você pergunta: “então ferrou, como é que eu vou tocar meus projetos então?”. Bom, lá na firrrma o que tem dado certo é:

1) Ignorar quase tudo do PMI e usar metodologias ágeis, como o Scrum. A turminha de agile acertou muito a mão, mesmo porque eles partiram da premissa certa para montar sua forma de trabalho.

 

Isso fica bem óbvio no Agile Manifesto:

Estamos descobrindo maneiras melhores de desenvolver software, fazendo-o nós mesmos e ajudando outros a fazerem o mesmo. Através deste trabalho, passamos a valorizar:

Indivíduos e interações mais que processos e ferramentas

Software em funcionamento mais que documentação abrangente

Colaboração com o cliente mais que negociação de contratos

Responder a mudanças mais que seguir um plano

 

Percebe que, nas entrelinhas dos últimos quatro parágrafos, eles não somente elencam os principais problemas de projetos de software como também proclamam um modo de trabalho focado nos fins, nos resultados, ao invés dos meios?

Importante: este post não é propaganda gratuita de Scrum – mesmo porque o Scrum, apesar de eficaz, tem problemas bem parecidos com o PMI, como por exemplo uma “indústria de certificação” onde basta você fazer um treinamento de 16 horas para se tornar um Certified ScrumMaster. É ridículo.

 

2) Formalizar só o que for estritamente necessário, tomando muito cuidado pra não “solucionar problemas que não existem” e adicionar complexidade onde não precisa. Por exemplo: para vários projetos pequenos lá da agência um simples email de “briefing” do trabalho vale como declaração de escopo do projeto. Porque no tempo que eu levaria para montar uma WBS, dicionário da WBS, declaração formal de escopo e não-escopo, já passou metade do prazo e o escopo já vai ter mudado todo…

Pra descobrir o que tem que ser formalizado e documentado, sugiro uma regra simples: se a falta de formalização de alguma coisa é causa de problemas nos projetos, formalize. Caso contrário, deixe como está. É como dizem: “se não está quebrado, não conserte”.

3) Selecionar GPs com “sangue no olho”, mesmo sem conhecimento do método. Sabe aquele cara que pode nunca ter tido um treinamento de GP na vida, mas que tem sabe avaliar um problema, tem uma atenção obsessiva para datas (mesmo sem cronograma) e um carisma tamanho que a equipe do projeto toda come na mão dele? Esse cara vale mais do que qualquer metodologia de projeto. Porque na hora em que tudo dá errado o que você precisa mesmo é de alguém que demonstre liderança, que pegue o touro pelo chifre, que articule com todo mundo no olho do furacão e faça o que for preciso pra entregar.

Além do mais, é fácil dar conhecimento do método para um GP – basta botá-lo em treinamentos. Já “sangue no olho”, foco nos resultados, ou o cara tem ou não tem, não há treinamento ou coaching no mundo que implante isso, especialmente nos viciados em metodologia.

Pronto, falei. Agora me xingue aí nos comentários, afinal estamos na internet é pra isso :)


Minha primeira demissão

6 de maio de 2011, 0:27

Primeiramente é bom esclarecer que não, eu não fui demitido. Na verdade eu estava é do outro lado da mesa: um dos meus gerentes de projeto pisou feio na bola e, como o problema era recorrente e não se resolvia mesmo depois de um monte de feedbacks e segundas chances, acabei obrigado a desligá-lo.

Antes de assumir cargos de gestão eu, como muita gente, achava que ser chefe é uma função de tirano: manda prender e manda soltar ao seu bel prazer. E junto dessa tirania costuma vir a impressão de que uma demissão é “coisa que chefe tem um prazer perverso em fazer”.

Mas pra mim vocês não fazem idéia do quanto isso é distante da verdade.

Na noite anterior à demissão eu já estava fritando e mal dormi. E nessa eu sei que o sono não vai vir fácil, porque o tempo todo eu fico pensando que, em algum lugar dessa cidade, alguém chegou em casa desempregado, sentindo-se um fracassado, e com uma incerteza em relação ao futuro tão grande quanto a angústia que se acomoda dentro dela. E que fui eu o responsável por isso.

Não que a demissão tenha sido injusta – porque não foi. Na verdade eu até fui paciente demais: tolerei atitudes que não devia ter tolerado, tolerei coisas que inclusive poderiam ter comprometido meu trabalho. Mas com a mesma clareza com a qual eu entendo todos os fatos que justificam a demissão, eu também entendo como essa pessoa deve estar se sentindo.

Mas é a vida. “It’s all in the game, yo”, diria Omar Little – num contexto criminoso, é verdade, mas nem por isso menos brutal.


O valuation-tion, o valuation… (e os sites de compra coletiva)

27 de março de 2011, 11:45

Daí que o Facebook outro dia foi avaliado em 75 bilhões de dólares. Setenta e cinco. Bilhões.

A boa notícia é que não, isso não é uma segunda bolha de internet, então eu não devo perder meu novo emprego. A má notícia é que, na verdade, isso é tipo um esquema de pirâmide para venture capitalists. De qualquer forma, sempre tem alguém que perde muito dinheiro nessas histórias de “eu acho que tal coisa vale tanto”.

E na real, eu acho um erro terrível estimar o valor de qualquer empresa de internet. Pra começar, você está usando métodos de valuation criados para um tipo de “ecossistema econômico” que é completamente diferente do que existe hoje na internet. Coisas que tem muito valor no offline podem não valer tanto assim no online, como por exemplo – ahá! – a informação.

“Ah, mas o Google tem ganhado muito dinheiro lidando justamente com informação”, você deve estar pensando. Na verdade o grande segredo do Google é prover os meios de acesso à informação relevante e, na sequência, colocar os anunciantes pra venderem seus produtos no lugar onde as pessoas estão procurando por eles. O segredo de ganhar dinheiro com a internet continua sendo o de sempre: usar o meio digital para provocar um negócio no mundo real.

E o Facebook ainda está engatinhando neste sentido

Update: perguntaram nos comentários o que eu acho do Groupon, avaliado em 25 bilhões, e que de fato provoca negócios no mundo real. Só que aí existe um problema muito sério… tanto que em 1962 (veja bem, quarenta e nove anos atrás), David Ogilvy já falava da falácia dos descontos, em seu livro “Confissões de um publicitário” (grifos meus):

Hoje em dia o mundo da publicidade enfrenta quatro problemas com dimensões críticas.

O primeiro problema é que os fabricantes de produtos de largo consumo, que sempre foram o fundamento da publicidade, estão gastando hoje duas vezes mais em acordos de descontos do que em publicidade. Eles estão obtendo volume através do desconto de preços, em vez de usar a publicidade para construir marcas fortes. (…)

Andrew Ehrenberg, da London Business School, é dono de uma das maiores inteligências do marketing hoje em dia. Ele relata que uma oferta de preço reduzido pode levar as pessoas a experimentarem uma marca, mas elas voltam para suas marcas habituais como se nada tivesse acontecido. (…)

Promoções de desconto são como drogas. Pergunte a um gerente de produto viciado o que aconteceu com seu market share depois que o delírio do desconto acabou. Ele mudará de assunto. Pergunte-lhe se o acordo incrementou os seus lucros. Mais uma vez ele vai mudar de assunto.

Ou seja, no caso do Groupon e demais sites de compra coletiva, o que se tem é o uso do meio digital pra provocar um problema de negócio no mundo real.


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