Mouths Trapped in Static (ou: letras de [não] música)

Em 2007 escrevia eu sobre “Telegraphs in Negative/Mouths Trapped in Static”, disco do Set Fire to Flames:

No site da gravadora Alien8, a história de Telegraphs in Negative é contada. Basicamente, os 13 integrantes da banda acharam um grande celeiro abandonado na área rural de Ontario, no Canadá, levaram o equipamento e se trancaram lá. “O álbum foi formado numa situação de isolamento auto-imposto, com a banda funcionando tanto individualmente quanto comunitariamente, em estágios de pouco ou nenhum sono, níveis variados de intoxicação, e confinados fisicamente”, diz o site.

Telegraphs in negative NÃO é um disco divertido. NÃO é um disco fácil. NÃO é um passeio no parque. É uma jornada difícil por consciências atormentadas, por demônios escondidos atrás de cada pilha de feno e de madeira velha.

Mas a penúltima música, uma semi-faixa-título, é o tema deste post. Possivelmente ela foi produzida espontaneamente por algum dos integrantes da banda telefonando para a namorada, após dias de sofrimento auto-imposto. Como ela é a penúltima faixa você chega nela emocionalmente esgotado após passar pelo resto do disco – mais ou menos como a banda deveria estar após os muitos dias de gravação. E “Mouths Trapped in Static” é o necessário contraponto de tudo isso. Não fosse por esta faixa e “Telegraphs in Negative” seria um disco inaudível.

Creio ser uma das maiores músicas de amor que já ouvi.

(P.s.: Se o inglês estiver ruim:)

– Você pode falar aí?
– Sim.
– Quem está aí?
– …nos caminhões. Não, posso falar sim.
– Tem mais alguém aí?
– Não.
(pausa)
– Um minuto.
– *longo suspiro* Cara…
– Você está realmente cansado. Eu sei. Sua voz está horrível. 
(pausa)
– Te amo.
– Também te amo. (pausa) Eu não quero ficar aqui, quero ficar com você.

*ESTÁTICA*

– Eu estava sentada na cama…
– Sim.
– E estava meio que sonhando acordada…
– Mm-hm.
– E estava me lembrando… (longa pausa) hmm… sei lá, estava me lembrando de um monte de coisa.
– Como o quê?
– Estava me lembrando de quando você veio me ver depois da… coleção?
– Sim.
– E de como você simplesmente entrou pela porta.
– Sim.
– E largou tudo no chão.
– Sim.
– Eu estava só me lembrando disso, fazia muito tempo que eu não pensava nisso.
– Sim.
– E do quanto isso foi incrível.
– Sim. Mm-hm.
– Você tem que desligar?
– Não. Sei lá, não vou desligar com você conversando assim comigo.
– (Risos)
– Hm…
– Tem alguém perto de você?
– Ah, eles não estão prestando atenção.
– Hmm.
– Continue.

*ESTÁTICA*

– Você pode falar comigo quanto tempo quiser falar comigo ou você tem que desligar?
– Não, posso falar com você quanto tempo quiser.
– Eu quero falar com você.

*ESTÁTICA*

– …saudades suas. Não é incrível *ESTÁTICA* quanto eu tenho saudades suas? *ESTÁTICA* E o quanto eu quero sentir meu corpo *ESTÁTICA* estar contra o seu?
– Bem, eu *ESTÁTICA* sentimento. *ESTÁTICA*
– Isso é bom!
– Sim. *ESTÁTICA*
– É bom que seja m*ESTÁTICA*útuo.
– Sim (risos).
– *ESTÁTICA* o quê?
– Mm-hm.
– Sabe, *ESTÁTICA*ensando hoje?
– O quê?
– *ESTÁTICA*mais sortudos do mundo porq*ESTÁTICA* isto, vai *ESTÁTICA* cada vez mais forte e *ESTÁTICA* sempre.
– E no *ESTÁTICA*

(Este post foi originalmente publicado no Impop, saudoso blog da Verbeat, hoje extinto)

“Black Sea”, Fennesz (ou: Retrospectiva 2009)

Primeiro é preciso olhar bem para a capa do disco.

blacksea.JPG

Em um mundo normal uma imagem vale por mil palavras. Nos mundos (porque não são músicas, são mundos) construídos por Christian Fennesz apenas com “guitarras elétricas e acústicas, sintetizadores, aparelhos eletrônicos,lloopp e computadores”, são os sons que valem por mil imagens como a da foto – sons de tom frio e monocromático, sons de um longo trajeto cujo destino é obscuro. De fato, “obscuridade” e “amplidão” é o que deve ser lido do nome do disco.

E não há facilidades. “Black Sea” é denso e difícil. As melodias são escassas: todo o resto do espaço sonoro não é nem preenchido, e sim consumido por sons graves e distorção árida. Mas no fundo, bem no fundo de suas paisagens tristes e monótonas, “Black Sea” carrega consigo uma beleza autêntica, autêntica por não ser plástica, por não ser ordinária, uma beleza que surge justamente da aceitação de que todas as outras aproximações da beleza que são vistas espalhadas pelas artes são, de certa forma, tentativas de negação do que realmente somos: torpes, imperfeitos e maus. “Black Sea” não tenta se distanciar desta realidade; ao contrário, é uma enorme imersão nela – e é nessa franqueza que sua beleza se encontra.

“Black Sea” é a melhor coisa que ouvi no ano de 2009. E “Black Sea” é a representação perfeita de como foi o meu ano de 2009 – vazio, ácido e difícil, mas salutar à sua maneira. Por muitas e muitas vezes eu coloquei os fones de ouvido e me sentei naquela praia cinzenta, sozinho, e olhei o mar por horas a fio enquanto a música ilustrava o lento submergir dos cadáveres das minhas utopias, que desciam lentamente, solenemente, até o fundo do oceano.

MySpace – Official Site

PS.: Este post foi originalmente publicado no Impop, blog da Verbeat, hoje extinto.

Beacons of Ancestorship, faixa a faixa

beacons.jpg

Depois de um hiato de cinco anos sem lançar material inédito, eis o retorno do Tortoise, banda das mais caras ao coração deste que vos escreve, retorno este que deu-se da seguinte forma:

1. High Class Slim Came Floatin’ In – É o início do disco, mas você chega logo a uma conclusão: Toda banda muito boa tem, obrigatoriamente, um PUTA baterista – coisa mais do que confirmada a cada disco do Tortoise. Foi assim em “Djed”, foi assim em “Seneca”, e dessa vez não é diferente. “High Class Slim Came Floating’ In” é longa (8’14”) mas contém umas cinco músicas diferentes dentro de si. Mais umas duas ou três audições e você terá a surpresa de notar que as cinco músicas fazem referências umas às outras. Sim, Tortoise tem muitas camadas.

2. Prepare Your Coffin – Bem, digamos que é uma daquelas “putaquepariu que filhos da puta como é que eles fazem isso” kind of song.

3. Northern Something – A terceira faixa traz duas certezas: uma é a que a distorção veio FORTE nesse disco, e a outra é que toda banda muito boa, sim, tem um PUTA baterista. Mas note que a parte do “puta” em “puta baterista” refere-se menos à técnica e mais a um certo senso rítmico, uma compreensão dos alicerces de uma boa batida.

4. Gigantes – O título em provável-português, as palmas e as cordas beliscadas dão uma impressão meio “capoeira” à coisa toda. Mas da segunda metade da música em diante o norte-americanismo do Tortoise volta a dominar.

5. Penumbra – É uma “música-pintura” de um minuto: mais estática que dinâmica, pinta uma paisagem de timbres muito mais do que desenvolve uma história.

6. Yinxianghechengqi – Barulhenta demais numa primeira audição e genial em todas as subsequentes. Pense na estética do punk rock usado como veículo para a técnica de progressão harmônica do jazz moderno. Pouquíssimas bandas teriam os colhões para tentar uma coisa dessas. Menos ainda a habilidade de se dar bem no final.

E deste ponto em diante o disco muda COMPLETAMENTE:

7. The Fall of Seven Diamonds Plus One – É a versão musical de um pai dizendo ao filho, num tom preocupado: “Sente aqui, meu filho. Preciso lhe dizer umas verdades”. A analogia com uma conversa não é por acaso: as guitarras dedilhadas tocam melodias tão evidentes, tão expressivas, que são mais diálogo que música. Destaque para o ritmo “assombrado”, marcado de quatro em quatro tempos ora por um baque seco, ora pelo tilintar de correntes metálicas.

8. Minors – O título dá a dica: progressões harmônicas em acordes menores, tocadas com timbres veranescos. Serve para resgatar o ouvinte do clima taciturno da faixa anterior e para dar o tom do resto do disco (basicamente: menos distorção).

9. Monument Six One Thousand – O disco começa a esfriar a partir daqui. As guitarras escalam escalas modernas sobre um chão de baixo meio ácido. A música parece não saber bem para onde está indo – coisa rara nos discos do Tortoise.

10. De Chelly – É um pequeno interlúdio de menos de dois minutos, bem solene. Lembra Bach e Laranja Mecânica.

11. Charteroak Foundation – Uma faixa bem cerebral, pra fechar o disco. Teclados dançando sobre um ever-repeating baixo tocado fora do ritmo, tanto do jeito certo (tercinas) quanto do jeito errado (realmente fora do tempo em alguns momentos). E, onze faixas depois, você tem a reconfortante certeza de que o Tortoise continua desgraçadamente bom.

Fly Pan Am

Nas artes visuais, especialmente as modernas, aonde conceitos de forma, estética e plástica foram bastante, digamos, “dilatados”, paira sempre aquele incômodo do que é que separa o trabalho de um artista real do que “qualquer criança de cinco anos faria igual”. Mas uma coisa que eu percebi em minhas observações (absolutamente amadoras, vale lembrar) é que o trabalho dos bons artistas, apesar de parecer sem sentido ou pueril, sempre “cutuca” algum lugar diferente dentro da sua mente.

É como um quadro de Basquiat. Uma olhada rápida dá a impressão de que é desenho de jardim de infância. Mas continue olhando e um certo incômodo se apresenta, como se sua mente dissesse que “aquilo não é o que parece” ou que há algo muito mais profundo por trás da impressão inicial.

BasquiatUntitled1981.jpg

Isso é o que eu acho mais fascinante na arte: a capacidade de se adulterar percepções inconscientes e de visitar recônditos da alma que jamais seriam tocados pela ciência, religião ou coisa que o valha.

E depois dessa explicação toda aí em cima podemos, finalmente, falar da banda que torna-se cada vez mais uma das minhas favoritas: o Fly Pan Am. Que faz EXATAMENTE ISTO que eu falei, mas usando música.

A formação da banda, formada por canadenses de Montreal, segue as convenções de guitarra/baixo/bateria costumeiras. Aí você vai ouvir as músicas e elas são longas, difíceis e até sufocantes… e depois de algum tempo de aclimação, absolutamente geniais. Acostumar-se com Fly Pan Am é mais ou menos como aprender a fumar – aparte as complicações para a saúde.

Não dá pra dizer que Fly Pan Am é experimental, porque ele sabem muito bem o que estão fazendo. Os riffs que se repetem longamente não são experimentos: são a forma de acessar aqueles recônditos intocados da alma, de transparecer musicalmente coisas que você jamais esperava encontrar em uma gravação, como o sarcasmo de “La Vie Se Doit D’Etre Vecue Ou Commençons a Vivre” ou a sabotagem (explicitada inclusive no nome) de “Partially Sabotaged Distraction Partiellement Sabotee” – aonde você será enganado e vai achar que há algo de errado com seu aparelho de som. São músicas que andam por caminhos que eu jamais imaginava existirem.

Uma pena o Fly Pan Am estar em um “hiato” indefinido e ter nos deixado apenas três discos e um EP. Mas o que falta em quantidade é fartamente compensado em profundidade.

Site oficial – Página do All Music Guide

P.s.: Este post foi originalmente publicado no Impop, blog da Verbeat, hoje extinto.

Reviews de música que não falam de música

“Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não vêem; e ouvindo, não ouvem nem entendem.” – Jesus Cristo (Mt, 13:13)

Então outro dia eu estava com os fones de ouvido numa estrada qualquer, olhando pela janela, e pensando no quanto a música é uma experiência que existe num nível diferente, separado da realidade, e que por isso é difícil de descrever em palavras. “Escrever sobre música é como dançar sobre arquitetura”, disse Elvis Costello, em frase relembrada aqui no Impop pelo Renmero. Então veio a idéia maluca: “E se pudéssemos escrever sobre música sem falar de música?”

Este post é uma tentativa de implementação desta idéia, em oito mini-reviews de discos que tenho ouvido recentemente.

As diretrizes para os mini-reviews são simples: não posso comentar sobre a música nem sobre nada relacionado à sua sonoridade. Não vale, por exemplo, citar bandas parecidas nem usar adjetivos que se refiram ao tipo do som. Mas posso fazer analogias com qualquer outra coisa, citar experiências similares, etc. Vale tudo para falar da música – menos falar de música.

Então vamos lá. (P.s.: Os links apontam para algum lugar onde você possa ouvir alguma coisa do disco, caso queira).

um.jpg
Qua – Painting Monsters on Clouds: É como um livro de colorir, que pertence a uma criança bastante hiperativa. Nele ela inventa aquelas histórias fantásticas e cheias de reviravoltas, que nem sempre tem a continuidade de uma narrativa adulta mas que deixam transparecer, nas suas “entrelinhas”, a maturidade do futuro adulto escondido ali.

dois.jpg
Steve Roach – Darkest before dawn: Uma hora e vinte minutos olhando o planeta Terra da janela da Estação Espacial Internacional, enquanto ela orbita lentamente. A cada volta você vê o planeta exatamente do mesmo jeito; as variações são mínimas e, de tão lentas, são quase imperceptíveis (uma nuvem que saiu do lugar, o sol batendo diferente numa montanha, etc.), mas a paisagem em si é absolutamente fascinante e, de uma maneira misteriosa, absorve toda a sua atenção.

tres.jpg
Dabrye – One/Three: É um ciborgue ao contrário. Pense bem: o ciborgue tem a aparência humana e, por dentro, é uma máquina. Neste caso nós temos algo que cospe digital por todas as suas interfaces de saída mas que, por dentro, não somente é um ser humano como é um negão de sunga, passeando sorridente por Miami Beach.

quatro.jpg
Flying Lotus – 1983: Um Ford conversível, daqueles largos e achatados, modelo 1975, cruzando nem rápida nem lentamente pelas ruas sujas do Brooklin novaiorquino. E o negão-ciborgue do review do disco do Dabrye está dirigindo.

cinco.jpg
Deadmau5 – Get Scraped: Um moleque norte-americano, até gente boa, que trabalha no Wal Mart, mora com os pais e vai pro trabalho ouvindo sempre a mesma rádio FM no carro.

seis.jpg
Lindstrom – It’s a feedelity affair: É a porta de uma casa noturna da Rua Augusta num sábado, por volta da meia-noite.

sete.jpg
Nightmares on Wax – Thought so… : Aquela festa na praia está começando a desacelerar. Todos os seus amigos estão lá, se divertindo horrores. O dia foi excelente. Você adorou cada momento e, levemente bêbado, se senta na areia, olha o sol se pondo e pensa no quanto a vida é boa.

oito.jpg
Rovo – MON : Deus, criando o universo.

(P.s.: Este post foi originalmente publicado no Impop, blog da Verbeat, hoje extinto)

Providência

Eu tinha algo entre 15 e 20 anos, nunca vou me lembrar corretamente e, de fato, datas não importam muito. Mas graças à boa-vontade de Luiz, meu primo, eu ouvia o Daydream Nation do Sonic Youth, numa fita cassete. É, uma fita cassete, cara.

E o Sonic Youth ia entregando obra-prima atrás de obra-prima. “Teenage riot” abria o disco como o hino nacional abre um jogo de copa do mundo, depois vinha “Silver Rocket” se fazendo de punk-rock, depois emendava com “The Sprawl” e “Cross the breeze” e as guitarras seguiam resolutas, naquele timbre lindo que só o Sonic youth sabe fazer e que ninguém mais fará igual.

Até que chega “Providence”, a oitava faixa. Tudo muda. O vigor das guitarras dá lugar a uma atmosfera escura e solene, pontuada pelo zumbido grave de um amplificador estourado e pelo lamento triste de um piano mal gravado.

E então, a letra. Falada e entregue por ninguém menos do que duas gravações de secretária eletrônica:

Watt here, I’m downstairs in this window.. yr uh, punk phone booth..

*beep*

Thurston, Watt.. Thurston.. I think it’s 10:30.. we’re callin’ from Providence, Rhode Island. Did you find your shit? You gotta watch the mota, Thurston.. Yr fuckin memory just goes out the window. We couldn’t find it in the van at all, we were wondering if you looked in that trash can.. when we threw out that trash, man.. with the bag in yr hand, did you dump it? Call later, bye.

Por alguma razão a faixa 8 caiu exatamente no finalzinho do lado A, então depois de “Providence” a fita parou e eu fui entregue a um silêncio levemente desconfortável. E no meio desse silêncio e em algum nível muito obscuro da minha cabeça, eu entendi a coisa toda, como que numa epifania.

Até hoje “Providence” continua sendo uma das melhores músicas que já ouvi.

Felizmente hoje temos Wikipedia pra enriquecer meu entendimento “formal” sobre a música:

Distante da maioria das sensibilidades roqueiras do álbum está a peça de musique concrete “Providence”, mostrando algumas das tendências mais experimentais da banda. A música consiste de um solo de piano tocado por Thurston Moore e gravado com um walkman na casa de sua mãe, o som de um amplificador superaquecido e duas mensagens telefônicas mixadas, deixadas por Mike Watt, que ligou para Moore de um telefone público em Providence, Rhode Island. A música foi inusitadamente lançada como single e recebeu até um vídeoclipe de uma tomada só.

O clipe é esse aqui, meio tosquinho e com os palavrões censurados, mas vá lá. Fuçando mais os tubos da internet ainda descobri que a “letra” da música é por conta de uma sacola com cabos de guitarra e fitas cassete que Thurston havia comprado na noite anterior, quando a banda tocou em NY, e que havia sumido. Mike Watt estava ligando de Providence por conta de um show do Firehose que seria feito lá. A “Mota” que ele se refere é o apelido deles para maconha, que aparentemente andava lesando com a memória de Thurston.

Meus melhores de 2008 (so far)

É uma lista altamente parcial (no sentido de “incompleta”, não de “tendenciosa”), já que eu não fico caçando lançamentos do ano pra ouvir. Tanto que meu vício mais recente tem sido “Heaven or Las Vegas”, disco do Cocteau Twins lançado em 1990. Além do mais faltam links e imagens das capas dos discos porque a maldita internet desse maldito hotel dessa maldita cidade está, mais uma vez, me deixando na mão.

Mas chega de disclaimer, vamulá:

Girl Talk – Feed The Animals

É o último trabalho de Greg Gillis, o mestre do mashup pop/rock/rap/Billboard top 100. Infelizmente, “Feed The Animals” repete EXATAMENTE a mesma fórmula do disco anterior, o “Night Ripper”, validando a afirmativa de que Girl Talk é um mágico de um truque só.

Só que o truque dele é MUITO divertido!

Vampire Weekend

É a melhor coisa que ouvi em 2008. O som dos caras – que por alguma estranha razão anda sendo chamado de afro-pop – é muito amistoso, as letras são espertas e a dinâmica das músicas passeia num espaço agradável entre o vigoroso e o tranquilo. Mexidas no andamento, nos instrumentos (um órgão retrô ali, uma flauta acolá, um bongô mais adiante) e até na “estética” do som (às vezes puxando pro punk, pro caribenho ou pro kitsch) mantém o interesse firme e forte ao longo do disco. E ainda tem os competentes vocais de Ezra Koenig – que é homem, apesar do nome.

É uma obra-prima cujo único problema é ter apenas 34 minutos.

E, sim, tem muito hype em cima dos caras, mas não se deixe levar por isso.

Portishead – Third

Yeah, yeah, terceiro e antecipadíssimo disco dos papas do trip-hop e tal. Normalmente expectativas elevadas geram uma decepção proporcional, que, felizmente, não aconteceu. Mesmo depois de um hiato de 10 anos, o Portishead entrega o que todos esperavam – e com muita classe.

O disco é denso e construído sob os velhos (e funcionais) pilares do trip-hop: arranjos espartanos, tocados lentamente e em performances fortemente emocionais. Puxa pra baixo o mesmo tanto que o Vampire Weekend puxa pra cima – o que, portanto, o torna des-recomendável pra quem não curte navegar em emoções tristes.

Fly Pan Am – Ceux Qui Inventent N’Ont Jamis Vecu (?)

Olha, apesar deste disco fazer parte desta lista eu confesso que não entendo direito o rock experimental dos franco-canadenses do Fly Pan Am.

As músicas não parecem ir à lugar algum: os caras constróem uma “cena sonora” repetindo acordes nas guitarras por longos minutos, depois misturam live recordings com ruído e vocais perdidos, depois passam longos minutos em hiatos semi-silenciosos, depois “estragam” de propósito trechos das músicas, fazendo-as soar como se fossem glitches de um CD riscado ou um MP3 mal “encodado”, e assim por diante. Só que existe uma “moral da história” no meio dessa bagunça: uma construção abstrata mas palpável e, num nível muito estranho da mente, perfeitamente compreensível.

E é isso que, de alguma forma, os torna geniais.

Bonus Tracks: Comentários rápidos sobre outros lançamentos 2008itenses que ouvi.

Daedelus – Love To Make Music To é delicioso como todos os outros discos de Daedelus. Mas, diferentemente do “Daedelus Denies the Day’s Demise”, esse investe numa atmosfera mais neutra ao invés daquela “animação toda” de sempre e, portanto, demora um pouco mais pra “bater”

“Með suð í eyrum við spilum endalaust” (também conhecido como “disco do Sigur Rós com os caras pelados na capa”)… bem, esse aí é uma grande incógnita. Comprei, ouvi e ele ficou lá, encostado na prateleira virtual do meu iTunes. Não que o disco seja ruim, mas, sei lá, parece que foi apagado pela sombra do disco anterior (o absurdamente maravilhoso “Takk”).

A faixa 4 de “The Midnight Organ Fight”, do Frightened Rabbit, é tão boa que, sozinha, me fez comprar o disco na hora. Agora pergunta se eu tive tempo de ouvir o resto das músicas… :/

A eMusic inventou uma tal selo chamado “eMusic Selects” para promover bandas. Sim, é jabá, então fiquei olhando torto até que, de repente, apareceu “Keeper’s”, do Deastro

E o Tape lançou “Luminarium” em 2008, disco atmosférico e rico de texturas que, infelizmente, não tive tempo de ouvir direito até agora.

Um pouco de muitos ou muito de poucos?

“Bati 2300 artistas no Last.fm”, disse um transeunte do meu timeline do Twitter. O mesmo que, alguns dias antes, disse também: “fico orgulhoso quando faço download de uma banda que não tem nada mencionado no last.fm”. Ficou claro que esse aí investe na variedade e se orgulha disso.

Já eu às vezes sofro com meus 65 downloads mensais da eMusic. É que eles expiram se você não utilizá-los, e às vezes eu estou apenas começando a realmente aproveitar as compras do mês anterior quando me vejo obrigado a apressar a compra do mês atual. Além disso, às vezes eu curto ouvir bandas e discos já “velhos de guerra” (especialmente com fones de ouvido) e perceber detalhes, nuances e tudo aquilo que normalmente só se revela depois que o disco é revisitado.

São dois prazeres distintos. Um é horizontal: varrer o mundo buscando novidades – e como o mundão musical é bem amplo ouvem-se muitos discos poucas vezes. O outro é vertical, onde a idéia é aprofundar audições em um número pequeno de discos e bandas “eleitas”. São poucos discos ouvidos muitas vezes.

Mas o que é melhor? Poucas bandas ouvidas com profundidade ou muitas bandas ouvidas superficialmente?

Pra piorar a escolha, alguns gêneros musicais parecem privilegiar uma ou outra abordagem. Discos esteticamente complexos, que investem mais em texturas e camadas, normalmente recompensam audições sucessivas. Isso é muito comum na música eletrônica, normalmente construída na base da “sobreposição” de sons. Já os álbuns que investem no clássico “verso-refrão-verso” e em conjuntos de timbres conhecidos (como o campeão “guitarra-baixo-bateria”) não costumam guardar muitas surpresas sonoras na manga – mesmo se forem, como o velho e bom rock’n roll, uma delícia de se ouvir várias vezes.

Taí uma discussão sem fim – o que não é exatamente um problema. De qualquer forma aguardo para saber o que meus colegas de Impop (e você, meu querido telespectoleitor) tem a dizer…

“Kind of Blue” – Um comentário sobre jazz feito por quem não entende nada de jazz

Miles_Ahead.jpg

Semana passada eu ia lendo meus blogs e feeds quando topei com um post, favoritado pelo grande chapa Tiagón, sobre “Kind of Blue”, o megaboga disco de Miles Davis. O post dizia que era “o disco mais vendido da história do jazz”, “um dos mais importantes e influenciais de toda a música” e tal. Aí encasquetei que, naquela semana mesmo, ouviria “Kind of Blue” pela primeira vez.

O que me motivou foi o fato de que eu não sei nada de jazz. De fato, eu só tenho UM disco de jazz (“Giant Steps”, de John Coltrane) e li algumas coisas muito picadas sobre como é que os músicos fazem jazz. Então resolvi me usar de cobaia para ver qual o efeito que “Kind of blue”, erigido ao status de master-obra-prima-música-dos-deuses por quem entende da coisa, teria em meus ouvidos de neófito, despreparados para receber tais divindades.

Decidi ouvir o disco na sexta-feira, enquanto voava de Brasília para São Paulo – era o momento mais agradável do fim da semana de trabalho e ainda me dava a garantia de que eu não seria interrompido por ninguém durante uma hora e meia.

A primeira faixa, “So what”, abriu, cuidadosamente, os trabalhos. A primeira sensação foi de conforto por perceber que os músicos estavam seguindo o “padrão jazz” que eu já conhecia: apresentar um setting – tipo um tema musical – e depois improvisar por cima. O tema me pareceu simples, duas notinhas, uma longa e uma curta – que até parecem mesmo dizer: “so what?”. No entanto as progressões harmônicas eram bastante agradáveis – e desafiantes. Atualmente eu já ouvi o disco umas três vezes mas ainda não consegui me localizar totalmente nas mexidas de tom que os caras dão, especialmente em “Freddie Freeloader”, a segunda faixa, que de repente descamba para um tom diminuto que, sei lá, eu não queria ser o cara que ia improvisar em cima daquilo.

Falando em improvisos, eles eram bem do jeito que eu havia lido: o esquema não era exibir técnica e velocidade, e sim trabalhar o lado melódico da coisa – coisa que, pelo que percebi, nosso amigo Miles faz tomando um cuidado todo especial não somente com a melodia, mas com a dinâmica e a expressão. E se considerarmos a melodia como ostorytelling da música, a experiência de ver a história do disco sendo “escrita” em tempo real fez os quase 20 minutos das duas primeiras faixas passarem voando.

“Blue in green”, a terceira faixa, reduziu a marcha do disco ainda mais, o que deixou bastante espaço para os instrumentos ficarem ainda mais expressivos. Eu acho isso bastante interessante, essa coisa de dizer mais com menos, de colocar intensidade no meio de discrição (até comentei disso no meu blog “normal” outro dia), mas eu ainda não sabia que o melhor estava guardado para o final. Prosseguindo, em “All Blues”, a faixa seguinte, reparei que até então os músicos praticamente não haviam caído em nenhum daqueles “clichês melódicos” – sabe, aquelas sequências manjadas que você vê espalhadas por aí, desde o fim das frases na música clássica (seeempre voltando pro tom básico e resolvendo a tensão construída anteriormente) até nas melodias pop de rádio. E aí eu pensava na base de “All Blues” e aquilo parecia induzir as progressões mais óbvias. Mas é como eu disse antes, não entendo nada de jazz – talvez não seja nada disso, mas pra mim o aparente esforço dos músicos em andar por um caminho genuinamente criativo deixava tudo ainda mais interessante.

E aí veio “Flamenco Sketches” – “esboços de flamenco”, numa tradução livre. Meu amigo, minha amiga, eu lhes digo que “Flamenco Sketches” me propiciou uma experiência que tem que ser descrita no detalhe:

Nos primeiros 30 segundos, apoiado pelo piano e pelo contrabaixo, Miles expõe a primeira parte do tema no seu trompete. Melodicamente aquilo não tinha nada de mais, mas eram notas tão bem escolhidas, tocadas de um jeito tão bonito… era um daqueles casos onde o músico pega um punhado de notas simples, descompromissadas, e na hora de junta tudo acaba nascendo uma frase inesquecível – como as notas do tema de Star Wars ou da introdução de Come As You Are, do Nirvana.

Aí, na sequência, a base do piano/contrabaixo faz uma curva de, sei lá, um tom e meio e, para minha surpresa, vai parar num acorde ainda mais bonito. E Miles entra com uma nota – uma única nota – longa, alta e pungente em seu trumpete. Precisamente nesse instante me passaram algumas centenas de coisas na cabeça: a primeira foi “Uou!”; a segunda foi “ah, então é ISSO que aquelas cantoras ficam tentando fazer quando dão aqueles agudos chatérrimos e que todo mundo acha lindo e fica aplaudindo”. É que no caso das cantoras elas até acertam a nota, dão a entonação certinha, botam um vibrato pra dar “um plus a mais” mas ainda assim sempre faltava alguma coisa… precisamente a coisa que estava, de alguma forma, contida naquele agudo pungente do trumpete de Miles Davis. Daquele instante em diante a fama de obra-prima de “Kind of Blue” estava plenamente justificada pra mim.

Só na terceira (ou quarta parte, sei lá) do tema, quando o piano toca aquela sequência realmente típica de flamenco (sabe a música do Vega, do Street Fighter? Mais ou menos aquilo ali) é que a música explica seu nome. E Miles vai acompanhando e, de uma forma que eu nunca vi antes, colocando música em todo e qualquer movimento do seu trumpete – inclusive na hora de silenciar as notas ou de tocar, bem en passant, um semitom. É mais ou menos como se o cara produzisse beleza musical até quando está parando de tocar, revestindo tudo de uma expressividade com a qual eu, definitivamente, não estava acostumado.

Fechando o disco veio um take diferente da mesma “Flamenco Sketches”, também muito bom mas que não teve muita graça por causa do meu nível de fascínio com o take anterior. E aí o disco acabou e eu fiquei ali, perdido em algum ponto do céu do interior de São Paulo, sem saber que disco eu teria condições psicológicas de ouvir na sequência.

O veredito, portanto, é esse: eu posso não entender muito da coisa, mas achei o “Kind of Blue” fenomenal.

Para ouvir agora – DF Tram

No MySpace do cara tá escrito assim:

DF Tram is one of the most respected chillout djs/producers in north america and also one of the brains behind the band jumpcut and the ambisonic collective.

Os sets dele são simplesmente geniais: faixas clássicas de ambient temperadas com samples obscuros, divertidos ou inusitados: jingles de comerciais dos anos 60, trechos de palestras sobre drogas, canções infantis, áudio de missões da NASA e o que mais der na telha. Acontece bem do jeitinho que o slogan da Rádio AmbiSonic diz: “tuning you in, chilling you out”.

Uma boa iniciação ao trabalho de DF Tram são os sets da Chillits, pequena (e exclusiva) festa anual do gênero. Todos os sets de todos os DJs que tocaram na festa, desde o ano 2000, estão disponíveis para download. Os de 20052007eu garanto.