Isso não é música de gente séria

Tom Zé, lá em 1973, abriu seu disco “Todos os Olhos” cantando:

Todo compositor brasileiro é um complexado. Porque então esta mania danada, essa preocupação de falar tão sério, de parecer tão sério, de ser tão sério…

Eu, particularmente, adoro quando a música perde a compostura e vira piada, sarcasmo, nonsense ou coisa que o valha. E tem gente muito boa nisso, como por exemplo…

Kid Koala

Like Irregular Chickens – Kid Koala

O garoto coala canadense pode até ser absurdamente habilidoso nas turntables, mas o que eu mais gosto no seu trabalho é o senso de humor. Quem clicou no “play” ali em cima deve ter percebido que “Like Irregular Chickens” é feita com scratches de sons de galinhas (e de gente imitando galinha!). “Flu Season” segue o mesmo processo criativo, mas dessa vez com espirros, tosse e outras pneumopatias. E “Barhopper 2” é a primeira música da história a conter o som de um autêntico “silêncio desconfortável” em um encontro amoroso.

The Rip Off Artist

Sim, o nome do cara é “o artista da cópia descarada”. Todos os seus discos copiam nomes de discos famosos, como o “Pump” do Aerosmith, o “In through the out door” do Led Zeppelin ou o “Pet Sounds” dos Beach Boys. E, ironicamente, o som é um IDM/Glitch cuidadosamente preparado e absolutamente original. E bem humorado, como a faixa abaixo deixa bem claro:

Vibrating Vegetable – The Rip Off Artist

O site dele continha um monte de biografias fantásticas – todas falsas. Atualmente elas foram substituídas por uma mensagem informando que o artista “se aposentou”. Eu estou rezando pra que seja mais uma brincadeira…

Cex

Cex é, literalmente, um moleque. Seu primeiro lançamento foi em 1998, quando ele tinha 16 anos. Os discos da sua fase de IDM seriam um trabalho de altíssima seriedade… não fossem algumas faixas de gozação que sempre abrem, fecham ou entremeiam os seus discos: “High Scores”, por exemplo, é uma pegadinha sonora envolvendo um casal de lésbicas e um Playstation (sério!). “Furcoat” abre com um casal de músicos falsos chegando no tapete vermelho do MTV Music Awards e confrontando um Cex versão gangsta, com facas e tudo.

Beastie Boys

Os caras já são naturalmente espirituosos, mas o lado “piadinhas” dos Beastie Boys sai mesmo do armário é na coletânea “Anthology – The Sounds of Science”, cheia de faixas, digamos, “descompromissadas”, como o inesperado country em “Railroad Blues”“Country Mike’s Theme”, ou a hilária “Boomin’ Granny” que versa sobre o amor pelas velhinhas, e que merece um trechinho da letra reproduzido aqui:

Because I saw you at the check-out line
You dropped your coupons, and you were looking fine
Sophisticated, and so mature
I couldn’t really care if you’re sixty or seventy-four
Because I want ya, and I need ya…

Mas a melhor é “Netty’s Girl”, uma baladinha dor-de-cotovelo cantada por um Mike D. e um Ad Rock que, ou estavam realmente bêbados, ou fizeram a melhor performance pseudo-etílica da história. Ouça você mesmo:

Nettys Girl – Beastie Boys

Acselerêitor

Eu adoro o podcast da revista XLR8R – Não tem locução nem conversa fiada: ou é um apanhado de música nova ou umDJ set de gente muito fina.

Hoje fui almoçar tirando o atraso dos podcasts e ouvi muita música interessante vinda de lá. Clique nos links pra ouvir a faixa que eu comento:

MC Gringo – Alemão – Isso é globalização, meu amigo! MC Gringo é realmente alemão – um jornalista que mora no Rio e canta funk carioca em português com um sotaque hilário. Note que a base da música é emprestada do Kraftwerk…

Christopher Bissonnette – Jour et Nuit – Ah, o ambient. Aquele gênero musical onde cada faixa tem 10 minutos deporra nenhuma acontecendo. Por isso que, quando o ambient é bom, ele é realmente bom: afinal, é complicado fazer uma música boa usando apenas harmonias, texturas e reverb.

Otic Angst – Need That Love – Tem só 23 anos o tal Otic Angst, mas o moleque produz seu “electro-soul” com esmero: cuida da batida, escolhe bem seus samples, inclui uma ou outra variação inusitada para manter o interesse e depois mistura tudo na medida certa. O resultado? “Need That Love” faz você levantar as duas sobrancelhas e sentir vontade de mexer a bunda.

Débruit – Pointy – Soa quebrada, como se o cérebro estivesse doidão de alguma coisa e só conseguisse pensar pelas metades. Pra quem não usa drogas (meu caso) esse tipo de coisa é sempre interessante, é o jeito “limpo” de conseguir uma experiência mental parecida.

Don Cavalli – New Hollywood Babylon – Imagine Wesley Wilis compondo folk rock para filmes de Bollywood. Coisa linda! E o tal Don Cavalli é, surpreendentemente, francês.

Bonus: Synth Tax, DJ set de Kid Kameleon (que escreve para a revista), contém funk carioca e Bonde do Rolê, mas AINDA ASSIM é a coisa mais divertida do universo e é absolutamente IMPERDÍVEL. Baixe djá e ouça sem preconceitos.

Meus discos do mês

Comprei na eMusic. Sim, babo ovo mesmo.

20080428.jpgFennesz & Sakamoto – Sala Santa Cecilia

As paredes de barulho sonoro que o austríaco Christian Fennesz constrói com sua guitarra e seu Mac não são exatamente “acessíveis”. Tanto que a comunidade dele no Orkut, por exemplo, tem minguados 37 membros.

“Sala Santa Cecília” é uma parceria de Fennesz e Ryuichi Sakamoto, gravada ao vivo na Itália para o festival Romaeuropa. Sakamoto contribuiu com pitadas eletrônicas, Fennesz entrou com sua sempre competente guitarra “ambient”, e o resultado são 19 minutos* de uma sintonia ímpar – e olha que não é exatamente simples “sintonizar” barulho de guitarra hiperprocessado com pops/clicks/glitches aparentemente aleatórios. (Myspace – Site oficial)

* – DICA QUENTE: Músicas longas são o melhor custo benefício da eMusic, já que você paga por faixa. Neste disco você leva 19 minutos de música por US$ 0,26 (sim, vinte e seis CENTAVOS de dólar).

20080428_2.jpgOOIOO – Kila Kila Kila

É meu terceiro disco do OOIOO. Nesse ritmo eu vou completar minha coleção rapidinho…

“Kila Kila Kila” segue a receita básica do OOIOO, ou seja, loucura psicodélica total, guitarras e batidas semi-tribais se repetindo por longas faixas, vocais meio “mantra” meio “coisas que o xamã da sua tribo cantaria”. E é por isso que eu aprecio esse pessoal, pois há uma linha muito, muuuuito tênue entre o nonsense puro e simples e a música extraída do meio do nonsense – habilidade esta que eles esbanjam e que me fascina. (MyspaceSite oficial)

 

20080428_3.jpgTape – Opera

Opera é uma espécie de joguinho entre texturas “analógicas” e “digitais”: acordeons misturados com glitches, violões e gaitas mesclados com ruído rosa e por aí vai.

A abordagem do trio de multi-instrumentistas suecos responsáveis por este disco é bem evidente logo na primeira audição. Os instrumentos não são usados do jeito convencional – ao invés de tocar músicas (sequências de notas) eles emprestam texturas, timbres e cores para as faixas. A “moral da história” de cada faixa não está na sequência das notas que são tocadas, e sim em como estas texturas se misturam e se alternam. Se bobear, o título do disco (Opera) deve até ser uma piadinha com este jeito convencional de compor… (Myspace – Site oficial)

A música mais desagradável do mundo

Komar e Melamid, dois artistas, fizeram uma pesquisa online para descobrir quais são as características mais indesejáveis em uma música.

O resultado? “A música mais indesejada tem 25 minutos aproximadamente, varia entre partes calmas e barulhentas, tempos rápidos e lentos, timbres extremamente altos ou baixos, e essa dicotomia deve ser apresentada de forma abrupta” – ou seja, como qualquer faixa do Godspeed You! Black Emperor, uma das minhas bandas prediletas.

Mas o melhor é que os caras resolveram montar uma música com estas características, compondo o que seria uma música cientificamente desagradável (que pra mim é perfeitamente audível). Tem também o oposto, uma música construída apenas com características desejáveis, que – previsivelmente – soa como uma mistura de Kenny G com qualquer faixa que toque na Jovem Pan.

No ramo da música “desagradável” (note as aspas), minha melhor recomendação é uma banda “irmã” do Godspeed, chamada Set Fire To Flames, e seu disco duplo intitulado “Telegraphs in Negative”. Citando eu mesmo:

No site da gravadora Alien8, a história de Telegraphs in Negative é contada. Basicamente, os 13 integrantes da banda acharam um grande celeiro abandonado na área rural de Ontario, no Canadá, levaram o equipamento e se trancaram lá. “O álbum foi formado numa situação de isolamento auto-imposto, com a banda funcionando tanto individualmente quanto comunitariamente, em estágios de pouco ou nenhum sono, níveis variados de intoxicação, e confinados fisicamente”, diz o site.

Telegraphs in negative NÃO é um disco divertido. NÃO é um disco fácil. NÃO é um passeio no parque. É uma jornada difícil por consciências atormentadas, por demônios escondidos atrás de cada pilha de feno e de madeira velha. É um disco que vai incomodar e vai lhe deixar deprimido.

No entanto, Telegraphs in negative é intenso, e por isso mesmo profundamente expressivo, atingindo extremos onde, por exemplo, uma faixa contendo apenas trechos gravados de telefonemas (“Mouths trapped in static”) fica linda e é mais emocional do que quaisquer 20 minutos de guitarra urrando no último volume.

 

(Links da música desagradável/agradável via MeioBit)

Do que é preciso para fazer 10 minutos de música

Porque vivemos na era do rapidshare, do speeddating, do quicktime e do fasttracking.

Nem todo mundo anda com tempo de ouvir música comprida. Exemplinho: lembra do Daft Punk? Fez “One More Time”, que tem 6:05 minutos na sua versão original. Aí botou pra tocar no rádio. E o rádio não tinha “time” para “one more time” inteira, então passaram a faca no break de dois minutos que ela tinha bem no meio, sem cerimônia. Dois minutos, cara! “Dá pra tocar uma Rihanna nesses dois minutos”, devem ter dito.

Aí tem gente que faz músicas com oito, dez, vinte minutos. Algumas são tão boas que é o resto do mundo que pára para elas tocarem. Assim, para inaugurar minha participação neste blog (primeiro post êêê!), aqui vai meu TOP 10 músicas longas.

10) “Everything lay still”, Colleen (10 minutos e 47 segundos)
Imagine que você ficou preso dentro de uma caixinha de música…

9) “Another near miss”, Laura (8 minutos e 51 segundos)
Laura é australiana e muito interessante. Esta faixa fecha o disco “Radio Swan is Down”, a obra-prima da banda. Mas atenção para o spoiler: a música morre no final.

8) “13 angels standing guard ‘round the side of your bed”, A Silver Mt. Zion (7 minutos e 22 segundos)
É exatamente como 13 anjos da guarda em volta da sua cama soariam. E o engraçado é que esta faixa é uma exceção no trabalho normal do A Silver Mt. Zion, que normalmente faz música bem mais seca e difícil. (Curiosidade: “A Silver Mt. Zion” é apenas um resumo do nome correto da banda, “Thee Silver Mt. Zion Memorial Orchestra & Tra-La-La Band”)

7) “Autobahn”, Kraftwerk (22 minutos e 43 segundos)
A música é mais velha que eu. E os mais velhos tem muito a ensinar. Vovô Schneider e Vovô Hutter já sabiam, há 34 anos, como construir belas experiências através de música – até mesmo experiências como a de viajar de carro.

(p.s.: descanse em paz, Klaus Dinger)

6) “Milano”, Sigur Rós (10 minutos e 25 segundos)
O segredo da boa música longa são longos crescendos que desembocam em momentos de completa apoteose sonora, guitarra esmigalhando, bateria destruíndo, etc., como a que acontece bem no meio de “Milano”. Você nem repara a voz de mulherzinha do vocalista….

5) “First breath after coma”, Explosions in the sky (9 minutos e 33 segundos)
É como “Milano”, mas não tem vocalista com voz de mulherzinha. De fato, não tem vocal nenhum. Mas muita coisa é dita pela melodia das guitarras.

4) “TNT”, Tortoise (7 minutos e 33 segundos)
Essa música me lembra um amigo que, ao ouví-la pela primeira vez, fez uma cara inesquecível de “estou absolutamente fascinado com essa bateria”.

3) “Djed”, Tortoise (20 minutos e 59 segundos)
Os caras do Tortoise parecem se relacionar com a música em um patamar diferente das pessoas comuns. É como se eles morassem naquele andar 7 e 1/2 do filme “Quero Ser John Malkovich”.

2) “La canción de gurb”, Migala (8 minutos e 30 segundos)
É meio que uma versão mais longa para “Gurb’s song”, gravada três anos antes. “Gurb’s song” conta, com um inglês cheio de sotaque español, a história de um amor súbito e incrivelmente intenso. E “La canción de Gurb” mostra, sem vocais mas com incrível nitidez de detalhes, a intensidade desse amor. Ouça com fones, bem alto.

1) “Storm”, Godspeed You! Black Emperor (22 minutos e 32 segundos)
Storm é perfeição. Primeiro a música sobe aos céus num looongo e maravilhoso crescendo de 10 minutos. Depois você é arrebatado por sete minutos da “tempestade” que dá nome à faixa. E o que resta pelos últimos cinco minutos não é a bonança, e sim uma paisagem destruída, pós-apocalíptica, magistralmente bela em sua tristeza profunda.

Eu conto na mão esquerda do Lula as bandas que eu tenho vontade de ver ao vivo. O GY!BE é a banda do dedão, a primeirona da lista. Reza a lenda que o som ao vivo é tão alto que o público tem que ir se afastando do palco aos poucos. Eu acho que nessa hora eu também me afastaria. De joelhos.