A incrível engenharia por trás da história do acidente nuclear em Fukushima

Este é mais um da série “links legais demais pra simplesmente irem pro Delicious”.

É um artigo do site BraveNewClimate.com (que, pelo que vi, advoga pela energia nuclear e seu lado ecologicamente correto), que reproduz um texto do Dr. Josef Oehmen, cientista do MIT, que, preocupado com a paranóia que tomou conta da imprensa de que um segundo Chernobyl estivesse prestes a acontecer, explicou, cientificamente, por que ninguém precisa ficar com medo de um desastre nuclear no Japão, mesmo depois do pior terremoto de todos os tempos seguido de tsunami.

É um artigo enorme, que descreve de forma simples como funciona um reator nuclear e – e aí é que está a parte mais espetacular do artigo – descreve em detalhe o nivel ABSURDAMENTE PARANÓICO de segurança de um troço destes. Resumidamente, a planta foi projetada para aguentar o pior acidente natural imaginável, ocorreu um pior ainda, o backup do backup do backup falhou e, ainda assim, se tudo ainda tivesse dado errado, não haveria nenhum vazamento radioativo catastrófico.

É uma engenharia tão fantástica que eu vou perder horas de sono traduzindo uns pedaços pra vocês. Primeiro veja esse desenho da Folha de como funciona o reator (Update: ou veja estes infográficos 3D bacanudos do New York Times) e depois continue abaixo:

O terremoto que atingiu o Japão foi 7 vezes pior do que o que a usina foi projetada para aguentar (a escala Richter é logarítmica; a diferença entre o 8.2 que a usina aguenta e o 8.9 que ocorreu é de 7 vezes mais, e não 0,7). Quando o terremoto começou, os reatores iniciaram um desligamento automático. As varetas de controle [bastões que reagem com o combustível nuclear e impedem a reação em cadeia do urânio, “desligando” o reator e impedindo que seu núcleo derreta] foram inseridas no núcleo e a reação em cadeia parou. Agora o sistema de resfriamento [que usa bombas para retirar água quente e bombear água fria no reator] precisava retirar o calor residual, mas o terremoto destruiu as fontes externas de energia do reator.  Este é um dos acidentes mais sérios para uma usina nuclear e, por isso, eventos como este “blecaute de usina” recebem bastante atenção quando os sistemas de segurança estão sendo projetados.

Durante uma hora tudo correu bem. Um conjunto de geradores elétricos de emergência, movidos a diesel, começou a funcionar. Aí veio o tsunami, muito maior do que o que a usina foi projetada para aguentar (7 vezes maior, como dissemos), e danificou vários conjuntos destes geradores.

Quando uma usina nuclear é projetada, os engenheiros seguem uma filosofia chamada Defense of Depth (“defesa em profundidade”). Isto significa que você constrói tudo para aguentar a pior catástrofe que você pode imaginar, e então projeta a usina de maneira que ela consiga aguentar uma falha de sistema (que você nunca imaginou que pudesse ocorrer) após a outra. Como por exemplo o que ocorreu, do tsunami levar embora todos os geradores de emergência de uma só vez.

A última linha de defesa é deixar tudo dentro da terceira barreira de contenção [a parte mais externa do reator, hermeticamente fechada e que contém a primeira barreira (um tubo de Zircaloy que envolve o combustível nuclear) e a segunda barreira (uma “panela de pressão”, que contém a primeira barreira e o vapor d’água que a envolve). A terceira barreira é construída exclusivamente para, se as duas outras falharem, conter tudo no caso de um “core meltdown” (derretimento do núcleo) e permitir que tudo resfrie naturalmente e com segurança].

Quando os geradores se foram, os operadores do reator alternaram para baterias de emergência, projetadas como “backup do backup”, para fornecer energia para resfriar o núcleo por até 8 horas. E foi o que elas fizeram. Mas até o fim destas horas, outra fonte de energia tinha que ser conectada à usina. Não havia rede elétrica externa por causa do terremoto e os geradores foram destruídos pelo tsunami, então chegaram caminhões com outros geradores a diesel.

Neste ponto as coisas começaram a dar seriamente errado. Os plugues dos geradores dos caminhões não serviram nos conectores da usina. Então, quando as baterias acabaram, o calor residual do reator não podia mais ser retirado.

Os operadores começaram a seguir os procedimentos de emergência para eventos de “perda de resfriamento”. Este é um passo na sequência das “Defesas de Profundidade”. Nunca deveria faltar energia nos sistemas de resfriamento, mas como faltou, “recua-se” um nível nas linhas de defesa do reator. Isto parece chocante, mas é parte do treinamento do dia-a-dia de um operador de usina nuclear, que cobre todas as etapas até o evento mais crítico, que é o derretimento do núcleo. Neste momento é que começou-se a falar do derretimento, pois se não é possível restaurar o resfriamento, a terceira barreira de contenção (a última linha de defesa) entraria em ação.

Mas a meta neste momento era manter o núcleo e assegurar que a primeira e segunda barreiras de contenção (os tubos de Zircaloy e a “panela de pressão”) ficassem intactos e operacionais pelo maior tempo possível, para dar tempo dos engenheiros consertarem os sistemas de resfriamento.

Para manter a integridade da “panela de pressão” (a segunda barreira) [ainda aquecendo lentamente por ausência de resfriamento], a pressão do vapor d’água precisa ser liberada de tempos em tempos. Como é importante poder fazer isto numa emergência, o reator tem onze válvulas de liberação de pressão. Os operadores abriam-nas de tempos em tempos para controlar a pressão.

Em algum momento destas aberturas, a explosão ocorreu, fora da terceira barreira de contenção (a última linha de defesa) mas dentro do prédio do reator. Os operadores decidiram não liberar a pressão no meio-ambiente, para que a [baixa] radioatividade do vapor decaísse. O problema é que, em altas temperaturas, as moléculas de água “dissociam-se” em hidrogênio e oxigênio – uma mistura explosiva. Foi uma explosão como esta (mas dentro da “panela de pressão”, mal projetada e mal controlada pelos operadores) que provocou a explosão de Chernobyl. Isto nunca foi um risco em Fukushima. O problema da formação de hidrogênio e oxigênio é um dos maiores desafios no projeto de uma usina, então o reator é construído e operado de forma que isto nunca possa ocorrer dentro da segunda barreira de contenção. Então ela ocorreu do lado de fora, onde isto não oferecia risco.

Então a pressão ainda se manteve sob controle. Mas se você fica aquecendo a panela de pressão, o nível de água vai caindo. O núcleo é coberto por vários metros de água para garantir algum tempo (horas ou dias) antes que o núcleo fique exposto. As partes do urânio não cobertas por água atingem a temperatura crítica de 2200 graus celsius após 45 minutos, e aí a primeira contenção (os tubos de Zircaloy) começam a falhar.

E isto começou a ocorrer. O resfriamento não foi restaurado a tempo e houve danos (limitados, mas ainda assim danos) no revestimento de algumas varetas de urânio. O grande problema (o urânio) ainda estava sob controle, mas alguns subprodutos da sua reação atômica (césio radioativo) começaram a se misturar com o vapor, ainda que em pequenas quantidades.

Este foi o sinal para um “plano B”.

A água usada no resfriamento é desmineralizada e muito limpa, porque assim ela praticamente não absorve radiação. Água suja ou com sal absorve radiação em suas partículas. Isto não afeta o núcleo – pois não importa com o que ele é resfriado – mas dificulta o trabalho dos engenheiros, que passam a ter que lidar com água “ativada” (ou seja, levemente radioativa). Como o plano A (manter o núcleo resfriado) falhou, os operadores começaram a usar água do mar para resfriar o núcleo. Como a reação em cadeia do núcleo parou há muito tempo, há muito pouco calor residual sendo produzido. Como há muita água, o núcleo não produz mais calor suficiente para gerar pressão significativa. Além disso, ácido bórico foi adicionado na água do mar. Ácido bórico é uma “vareta de controle” líquida, pois o boro captura os nêutrons e acelera o resfriamento do núcleo.

O “pior cenário” que foi evitado foi o do derretimento do núcleo. E se ele tivesse ocorrido, a terceira barreira de contenção seria totalmente selada para que o derretimento não liberasse material radioativo. Haveria uma espera para todo o material radioativo decair dentro do reator. Os sistemas de resfriamento seriam religados para resfriar o núcleo derretido até uma temperatura aceitável. Então a parte de dentro dele seria limpa, o núcleo derretido seria coletado e embalado, pedaço por pedaço, em contêineres de transporte e enviado para usinas de processamento. Dependendo do dano, a usina seria reparada ou desmantelada.

Então como ficamos? A usina está segura agora, e ficará segura. Os sistemas de segurança de todas as usinas japonesas vão ser aperfeiçoados para aguentar um terremoto de categoria 9 (ou pior). O pior problema será a falta prolongada de energia no Japão.


Pra você, que achou o 3D de “Avatar” um espetáculo

 

The Third & The Seventh from Alex Roman on Vimeo.

Aí você pensa: “Tá, ok, um vídeo sobre arquitetura e câmeras antigas?”. Sim, meus amigos, um vídeo sobre arquitetura e câmeras antigas.

Totalmente feito por computador.

É simplesmente assustador o nível de fotorrealismo que esse cara conseguiu. Eu só acreditei que era CG depois que vi o vídeo do making of de uma das cenas.

Recomendo que você assista a versão em alta definição e em full screen.

(Link via @seufelipe)

Obama vs. McCain… the remix

Mais um da série “links legais demais para simplesmente jogar ali no meu Delicious”.

Enquanto aqui no Brasil o TSE mal deixa as eleições figurarem na internet, nos EUA o debate político vira até arte…

ReConstruction

Nos EUA há um grupo chamado Sosolimited que faz um trabalho interessantíssimo. Segundo o website deles…

ReConstitution é um remix audiovisual feito ao vivo com os debates presidenciais de 2008. (…) Nós desenvolvemos um software que permite captar e analisar o vídeo, áudio e o texto do closed caption da transmissão. Através de uma série de transformações auditivas e visuais nós reconstruímos o material, revelando padrões linguísticos, expondo conteúdo e estrutura, e fundamentalmente alterando a maneira que você assiste aos debates.

A imagem acima é trecho de um vídeo onde a fala de Obama é lida pelo software através do closed caption (aquela legenda para deficientes auditivos), as palavras são contadas e a quantidade de cada uma delas aparece em vermelho. E lembre-se: tudo isso feito AO VIVO, DURANTE a exibição dos debates. Coisa de gênio.

O site do ReConstitution tem vários outros vídeos e vale muito a visita.

(Link via Waxy.org)

Blip.fm – Um Twitter que faz barulho

Na última sexta-feira só se falava no Twitter de um tal site novo chamado Blip.fm. À noite, chegando de viagem, liguei o computador e fui conhecer a razão de tanto hype.

Usei o Blip.fm por cinco minutos. Foi o suficiente para dar o meu veredito final sobre o site, que pode ser resumido nesta frase: “A coisa mais genial que vi na internet este ano”.

20080830 

O Blip.fm é um microblog, como o Twitter, mas com um diferencial matador: músicas anexadas aos seus micro-posts (chamados de “blips”). Então, na verdade, o que você posta são as músicas, junto com pequenos comentários sobre elas. Ou o inverso: comentários sobre qualquer coisa, mas “ilustrados” por músicas.

Se no Twitter a pergunta era “what are you doing?” (“o que você está fazendo?”), no Blip.fm a pergunta é “what are you listening to?” (“o que você está ouvindo?”).

“Ah, mas a RIAA vai fechar o Blip.fm rapidinho!”. Sim, eu e metade da internet pensamos exatamente a mesma coisa, mas enquanto eu escrevia este post percebi OUTRA sacada genial dos caras: as músicas que o Blip.fm toca NÃO estão hospedadas no próprio site – ele simplesmente toca músicas que estão espalhadas por toda a internet e que são facilmente encontráveis através do próprio Google ou de serviços especializados, como o Seeqpod.

É só dar uma olhada na barra de status do Firefox na hora em que você dá “play” numa faixa qualquer: cada hora os dados são lidos de um site diferente…

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Uma olhadinha no FAQ do Blip.fm parece confirmar esta suspeita (grifo meu)…

Eu blipei uma música ontem e hoje ela está “não disponível”, o que houve?

As músicas são armazenas por toda a internet em diferentes servidores e websites. Às vezes o servidor cai e a música não está disponível para tocar, ou o dono do arquivo o removeu da internet de uma vez por todas.

Assim eles têm o maior acervo de músicas do mundo, não tem problemas com largura de banda ou capacidade de armazenamento e – o melhor de tudo – não são legalmente responsáveis por eventuais quebras de copyright. Bom, pelo menos eu acho.

E não é só isso: além de tudo o Blip.fm já tem integração com o Twitter, Last.fm e vários outros (FriendFeed, Pownce, Tumblr, Livejournal e Jaiku). Você pode “blipar” músicas que ouviu recentemente – e que ele “pesca” do Last.fm pra você – e twittar automaticamente a cada vez que você “blipa” uma música. É muito prático.

Genial, fácil de usar, integrado com o que você já usa… o Blip.fm é quase bom demais pra ser verdade.

Qual o instrumento musical mais difícil de tocar?

Taí uma pergunta onde o que é mais interessante não é a resposta, e sim o raciocínio para chegar nela…

Temos muitas coisas pra considerar: pra começar, pense na facilidade (ou não) de fazer o instrumento tocar uma única nota corretamente. Em alguns casos, como num piano, é moleza: você aperta a tecla e o som sai, certinho e sempre afinado. Instrumentos “pré-programados” para tocar sempre as mesmas notas numa afinação fixa são chamados “temperados” e incluem, por exemplo, o violão, a guitarra, a flauta e o saxofone. Richard Clayderman e Kenny G, estão, portanto, fora do nosso páreo.

Tirar o “tempero” dos instrumentos aumenta a dificuldade, já que a afinação passa a depender diretamente do seu bom ouvido e/ou da técnica de tocar: se você achava difícil aprender violão pra poder tocar Legião Urbana nas festinhas e impressionar as garotas, compare-o com o violino

20080714

Note que no “braço” do violão existe um monte de “travas” metálicas (chamadas trastes) que, quando cruzam com as cordas, formam “casas” que indicam o lugar exato onde você deve segurar a corda para tocar uma nota musical. Já o violino não tem isso, então é seu dedo que segura a corda – e se ele estiver um milímetro fora do lugar, a nota sai desafinada.

Ao contrário do piano, que é “tocou, levou”, alguns instrumentos de sopro requerem muito esforço do aprendiz para produzir algum som sequer. Quem estuda flauta, por exemplo, sofre para conseguir acertar a chamada “embocadura” – a posição certa dos lábios e da língua para soprar no instrumento. Normalmente são dias e dias frustrantes soprando assim…

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=i1cyrWlJpzY[/youtube]

…até que, depois de MUUUUITA prática, você fica ninja como o cara aí embaixo, que toca a música do Mario e, ao mesmo tempo, faz as batidas com a boca:

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=gZww6urHGL0[/youtube]

E alguns instrumentos de sopro ainda tem as tais palhetas, uma espécie de bocal aonde o músico sopra. Quem toca oboé, por exemplo, além de aprender o instrumento e a embocadura, tem também que saber como construir suas próprias palhetas, já que a anatomia da boca de cada um é diferente e, por isso, não dá pra fabricar palhetas em série numa fábrica. Além de músico o cara tem que ter, também, um certo talento para o artesanato…

Agora imagine um instrumento que, além de precisar da embocadura certa, não é “temperado” e requer um cuidado extra com a afinação: eis aí os trombones, trumpetes e a tuba, famosa nos desenhos animados do Pernalonga. E ainda tem os instrumentos aonde o que complica é a coordenação motora para tocá-los, como a bateria. Às vezes o baterista está tocando um ritmo com o pé direito, outro ritmo na mão esquerda, mais um terceiro ritmo com a outra mão e, em alguns casos, cantando num andamento totalmente diferente de todo o resto. É de fundir o cérebro. Não é atoa que os bateristas são conhecidos por fazer aquela cara de “estou prestes a ter um derrame” enquanto tocam…

20080714_2Outro instrumento que parece ter sido construído pra complicar é o bandoneón – essa “sanfona” aí do lado, que os tocadores de tango usam. Sabia que cada botãozinho do bandoneon dá uma nota diferente quando você está abrindo o fole… e outra diferente quando você está fechando o fole?

Moral da história: não dá pra definir um ou outro instrumento como “o mais difícil de todos os tempos”. Cada um é complicado à sua própria maneira, cada um tem um problema diferente. E é bom que seja difícil; a variedade de desafios para ser produzida ajuda a deixar a música ainda mais interessante.

O discurso de formatura de J.K. Rowling

J.K. Rowling é a autora da série Harry Potter. No último dia 5 ela deu um discurso de formatura em Harvard, intitulado “Os benefícios do fracasso e a importância da imaginação”, que está começando a correr a internet.

Eu li e meu queixo está caído ali no chão. Enquanto não consigo encaixá-lo de volta, resolvi traduzir algumas partes e colocar aqui pro pessol que não sabe inglês também poder ler:

(…)O que eu mais temia para mim mesma na idade de vocês não era a pobreza, e sim o fracasso.

Na idade de vocês, apesar de uma distinta falta de motivação na universidade, aonde eu passei muito tempo na lanchonete escrevendo histórias e pouco tempo nas aulas, eu tinha uma habilidade para passar nas provas, e isto, por muitos anos, foi a medida do sucesso da minha vida e da vida dos meus colegas.

Não sou tola o suficiente para supor que vocês, por serem jovens, dotados e bem-educados, nunca tenham experimentado dificuldades ou decepções. Talento e inteligência ainda não imunizaram ninguém contra os caprichos do destino, e não imagino em momento algum que a vida de vocês tenha sido de privilégio e contentamento irrestrito.

No entanto, o fato de estarem se formando em Harvard sugere que vocês não estejam acostumados com o fracasso. Talvez vocês sejam tão motivados pelo medo de fracassar quanto pela vontade de acertar. De fato, a concepção de fracasso de vocês talvez não esteja tão distante da idéia de sucesso para pessoas comuns, dada a altura do vôo acadêmico de vocês.

Em última instância, todos temos que decidir por nós mesmos o que é fracasso, mas o mundo lhe empurra rapidamente um conjunto de parâmetros, se você o permitir. Então acho justo dizer que, meros sete anos após minha formatura, eu havia atingido um fracaso de proporções épicas. Um casamento excepcionalmente curto havia implodido e eu estava desempregada, era mãe solteira e era tão pobre quanto é possivel ser na Grâ-Bretanha sem ser uma sem-teto. Os temores que meus pais tiveram por mim, e que eu mesma tive, todos aconteceram e, sob todos os critérios usuais, eu era a maior fracassada que já tinha visto.

Mas eu não vou dizer que fracasso é divertido. Este período da minha vida foi um período negro, e eu não fazia idéia de que aconteceria o que a imprensa definiu como uma reviravolta de conto-de-fadas. Eu não fazia idéia do tamanho do túnel, então, por muito tempo, qualquer luz no fim dele era mais uma esperança do que uma realidade.

Então por que estou falando dos benefícios do fracasso? Simplesmente porque o fracasso significou deixar de lado o que não era essencial. Eu parei de fingir que era algo diferente do que eu era, e direcionei toda a minha energia no único trabalho que importava pra mim. Se eu tivesse sido bem-sucedida em qualquer outra coisa, talvez eu nunca tivesse encontrado a determinação de vencer na única arena que eu achava ser a minha. Eu fui libertada, porque meu maior medo havia sido descoberto, e ainda estava viva, e ainda tinha uma filha que eu amava, e tinha uma velha máquina de escrever e uma grande idéia. E então o fundo do poço se tornou a base sólida sobre a qual reconstruí a minha vida.

Talvez vocês nunca fracassem do jeito que eu fracassei, mas algum fracasso na vida é inevitável. É impossível viver sem fracassar em algo, a menos que você viva com tanto cuidado que acaba não vivendo de verdade – sendo que, neste caso, você fracassa automaticamente.

O fracasso me deu uma segurança interior que eu nunca havia obtido passando em provas. O fracasso me ensinou coisas sobre mim mesma que eu não poderia ter aprendido de outra forma. Eu descobri que eu possuía uma grande força de vontade, e mais disciplina do que eu suspeitava; Também descobri que eu tinha amigos cujo valor era maior do que o de pedras preciosas.

O conhecimento de que você saiu mais sábia e forte das dificuldades significa segurança da sua habilidade de sobreviver. Você nunca conhece de verdade sua própria força, ou a força dos seus relacionamentos, até que ambos tenham sido testados pela adversidade. Este tipo de conhecimento é uma dádiva, pois é obtido através de sofrimento, e valeu mais do que qualquer título que eu tenha recebido.

(…)

Talvez vocês pensem que eu tenha escolhido meu segundo tema, a importância da imaginação, por causa do papel dela na reconstrução da minha vida, mas isto não é tudo. Embora eu sempre vá defender o valor das histórias lidas ao pé da cama, aprendi a valorizar a imaginação em um sentido muito mais amplo. A imaginação é a capacidade não apenas humana de visualizar o que não há, e portanto é a fonte de toda invenção e inovação. Em sua capacidade plenamente justificada de transformar e revelar, a imaginação é o poder que nos permite criar empatia com outros seres humanos cujas experiências nunca tenhamos compartilhado.

Uma das experiências mais decisivas na minha formação pessoal aconteceu antes de Harry Potter (…). Nos meus 20 anos, eu pagava o aluguel trabalhando no setor de pesquisa da matriz da Anistia Internacional, em Londres.

(…)

Todos os dias, eu via evidências do mal que a humanidade inflige em seus companheiros humanos, para obter ou manter o poder. Comecei a ter pesadelos, literalmente, sobre muitas das coisas que vi, ouvi e li.

E ainda assim eu aprendi mais do que nunca sobre a bondade humana na Anistia Internacional.

(…)

Diferentemente de qualquer outra criatura neste planeta, seres humanos podem aprender e entender sem ter que vivenciar uma experiência. Eles podem se colocar na mente de outras pessoas, imaginar-se no lugar do outro. (…) E muitos preferem não usar sua imaginação. Muitos escolhem se manter confortavelmente nos limites de sua própria experiência pessoal, sem passar pelo inconveniente de se perguntar como seria sua vida se eles tivessem nascido de outra forma. Podem se recusar a ouvir os gritos ou espiar dentro das prisões; Podem fechar suas mentes e corações à qualquer sofrimento que não os afete pessoalmente; Podem se recusar a tomar conhecimento.

Eu poderia me sentir tentada a invejar pessoas que podem viver desta forma, mas não acho que eles teriam menos pesadelos do que eu. Escolher uma vida em um lugar estreito pode provocar um tipo de agorafobia mental, que traz consigo seus próprios horrores. Acho que os que escolhem viver sem imaginação vêem mais monstros e têm mais medo.

E mais, os que escolhem não criar empatia com outros podem criar monstros reais. Mesmo sem cometer nenhum ato maléfico real, podemos ser coniventes com o mal por nossa própria apatia.

Uma das muitas coisas que aprendi no fim das prateleiras de Literatura Clássica, aonde me aventurei quando tinha 18 anos procurando por algo que não conseguia definir, foi algo escrito pelo autor grego chamado Plutarco: O que conquistamos dentro de nós mesmos altera nossa realidade exterior.

Esta é uma frase estupenda que se prova verdadeira mil vezes, todos os dias de nossas vidas. Ela exprime, em parte, nossa inescapável conexão com o mundo exterior, o fato de que tocamos a vida dos outros simplesmente pelo fato de existirmos.

Mas qual a possibilidade de vocês, graduandos de 2008, tocarem a vida de outras pessoas? Sua inteligência, sua capacidade de trabalhar duro, a educação que vocês mereceram e receberam, lhes dão um status e responsabilidades únicas. (…) Se vocês escolherem usar seu status e sua influência para falar em nome dos que não tem voz; se vocês escolherem se identificar não apenas com os poderosos, mas com os despoderados; se vocês conservarem a habilidade de se imaginarem vivendo as vidas daqueles que não tem as mesmas vantagens que vocês tiveram, então não serão apenas suas famílias que celebrarão, com orgulho, sua existência, e sim milhares e milhões de pessoas cuja realidade vocês tenham mudado para melhor. Não é preciso magia para mudar o mundo. Nós temos todo o poder que precisamos dentro de nós mesmos: o poder de imaginar melhor.

(…)

E amanhã espero que, se vocês não se lembrarem de nenhuma das minhas palavras, que se lembrem das de Sêneca, outro daqueles velhos romanos que conheci quando corri para as prateleiras de Literatura Clássica, fugindo dos planos de carreira e buscando a sabedoria dos antigos: “Como uma história, assim é a vida: o que importa não é o quão comprida ela é, e sim o quão boa ela é”.

Desejo a todos vocês vidas muito boas.

Muito obrigado.

Bookmarks esquecidos na gaveta

E nesse meu processo de testar o Firefox 3 beta 5 para ver se ele, finalmente, chegou no nível do Opera (hehe), inventei de importar meus bookmarks do Opera no Firefox.

Só que, há ANOS, eu nem mexia nos meus bookmarks do Opera.

Acabei revendo muitos sites interessantes, alguns arquivados anos atrás, em eras onde não existia RSS ou delicious. Saca só:

  • The Scene – Uma minissérie, feita para a web, sobre um “release group” – hackers responsáveis por pegar filmes e botar na internet antes que eles saiam no cinema. O mais legal é que ela é 100% fiel do ponto de vista de tecnologia: o vídeo mostra o que acontece na tela do computador dos caras e é tudo baseado em pesquisas reais sobre como os grupos atuam, que ferramentas usam, etc. Eu acho até que a série foi produzida por um release group real.
  • Ishkur’s Guide to Electronic Music – Um guia ultracompleto de tudo que rolou nos 40 últimos anos da música eletrônica, com samples de cada gênero e comentários (bem humorados).
  • Trendalicious – Ranking em tempo real das 100 páginas mais populares de acordo com o del.icio.us, digg, e reddit. Hoje uso o Popurls para esse tipo de coisa.
  • Transcrições dos diálogos de TODOS os episódios de Friends. Para quando você precisar saber em qual episódio Chandler fez *aquela* piada engraçadíssima.
  • Cooking by numbers – Tem um listão de comidas na página. Você clica indicando o que tem disponível na sua casa e o site te dá opções de possíveis receitas.
  • Versão do clássico “Campo minado”… em 3D.
  • Coleção ENORME – não, você não entendeu, ENORME MESMO – de GIFs animados de videogames. Excelente para achar papel de parede pro celular.
  • Todos os DJ sets tocados no Chillits, um festival anual de música ambient2007, 2006, 2005, 2004, 2003, 2002, 2001 e 2000 (os dos outros anos não foram gravados). Foi aí que eu descobri DF Tram, um dos maiores gênios do gênero.
  • Blentwell – De longe o melhor lugar para DJ sets na internet.
  • Pop Experiment – Ilustrações lindas de morrer. Na época era um site estático, hoje descobri que virou um blog e continua atualizado.
  • Tabela com a programação da TV norte-americana – Essa eu ainda uso, você se cadastra e filtra só os seriados que acompanha pelo, er, “torresmo”…
  • Camisa Online – Você manda a estampa e eles imprimem. Meio que um Camiseteria de pobre 🙂
  • Vídeo do Gato Fedorento (grupo de humoristas portugueses) intitulado “Primo Zé Carlos“. Como é o meu nome é ainda mais engraçado.
  • Webcam em Belo Horizonte, no topo da CEMIG. Para matar a saudade. Note que ela ainda funciona positiva e operante num domínio GEOCITIES!
  • Bash.org – Repositório de citações de IRC. Para nerds das antigas e para quando a largura de banda tá faltando (o site é megarápido, só texto e HTML simplão).
  • Let them sing it for you – Digite qualquer coisa (em inglês) e o site “canta” pra você usando palavras sampleadas de músicas reais.

O cérebro tem um estoque limitado de força de vontade

Sim, você leu certo. Deu no NY Times, num artigo intitulado “aperte o cinto, fortaleça a mente“. Ele é tão interessante que eu preciso traduzir uns pedaços pra vocês lerem. Os grifos são meus:

Com a possibilidade cada vez mais concreta de recessão, muitas famílias americanas podem estar planejando “apertar o cinto” financeiramente. Mas o interessante é que restringir os gastos, no curto prazo, pode acabar fazendo o cinto das calças afrouxar. A conexão entre as duas coisas é que o cérebro tem uma capacidade limitada para se controlar, de modo que gastar força de vontade em uma área pode levar à recaídas em outras. (…)

O estoque de força de vontade do cérebro se esgota quando as pessoas controlam os pensamentos, sentimentos e impulsos, ou quando elas modificam seu comportamento para atingir uma meta. O psicólogo Roy Baumeister e outros pesquisadores descobriram que pessoas bem-sucedidas em uma tarefa que requer auto-controle são menos persistentes nas tarefas subsequentes (…)

Em um estudo pioneiro, um grupo de pessoas, prestes a tentar resolver um quebra-cabeças impossível, recebeu rabanetes para comer enquanto outro ganhou biscoitos de chocolate assados na hora. O grupo que ganhou rabanetes levou oito minutos, em média, para desistir do quebra-cabeça – menos da metade do tempo que o grupo que comeu biscoitos (ou que não quis rabanete) gastou trabalhando no mesmo quebra-cabeça. Em outro estudo semelhante, pessoas obrigadas a circular todas as letras “e” numa página de texto demonstraram menos persistência para assistir um vídeo com uma mesa e uma parede onde nada acontecia.

Outras atividades que esgotam a força de vontade incluem resistir à comida ou bebida, reprimir respostas emocionais, suprimir impulsos agressivos ou sexuais, fazer provas ou tentar impressionar alguém. A persistência também reduz quando se está estressado ou cansado por esforço físico ou falta de sono.

Mas o que limita a força de vontade? Alguns sugerem que a resposta está no nível de açúcar no sangue, principal fonte de energia para as células do cérebro (…). O auto-controle reduz o nível de açúcar no sangue, o que reduz a capacidade de continuar mantendo este auto-controle. Pessoas que bebem um copo de lemonada no meio de uma tarefa que requer força de vontade, depois outro ao começar uma segunda tarefa, mostram bons resultados em ambas, ao passo que pessoas que bebem limonada diet cometem mais erros na segunda tarefa do que na primeira. (…)

Foco contínuo no resultado é importante, já que a força de vontade aumenta com o tempo e se fortalece com o uso – como um músculo. A idéia de exercitar a força de vontade pode ser vista no treinamento militar, onde recrutas são treinados para superar desafios um atrás do outro.

Em estudos psicológicos, mesmo coisas simples, como escovar os dentes com a mão não-dominante por duas semanas, pode aumentar o estoque de força de vontade. Pessoas que cumprem rigorosamente um programa de exercícios por dois meses relatam ter reduzido seus gastos por compulsão e seu consumo de fast food, álcool e cigarros. Elas também estudam mais, assistem menos TV e fazem mais trabalho doméstico. (…)

Fiquei sabendo disso via Kottke, meu blogueiro predileto. Faço minhas as palavras dele sobre o assunto:

“Isso explica tanta coisa“!