Posts da categoria ‘Música’


Vai virar igreja

23 de maio de 2009, 20:16

Ontem. Augusta. Uma da manhã e eu na porta do Club Roxy para, finalmente, ver Pet Duo tocar  – corrigindo, por sinal, um arrependimento de 3 anos atrás.

Aí ouço uma HORDA de pessoas descendo a rua, gritando e fazendo zona. “Normal, Augusta”, pensei.

O pessoal foi chegando mais perto e os gritos foram ficando mais audíveis e eu percebi que a horda gritava, na mesma métrica do “ahh, eu tô maluco”: “AAAAH!!! JESUS TE AMA!!!”. “Normal, turminha ultrajovem dando uma de herético contracultural”, pensei.

Aí o pessoal foi chegando ainda mais perto e eu pude então ler o conteúdo das camisetas: “Jesus te ama”, “Arrependa-se”, e o escambau. E foi aí que eu percebi que aquilo era realmente uma turma de igreja, que veio descendo a Augusta para pregar a nós, “pecadores”, nos bares e portas de boate. Todos estavam empolgadíssimos, sentindo-se o máximo por serem supostos enviados de Deus excursionando valentes em missão sagrada bem no meio da perdição.

E a turba parou em frente à Roxy e, em coro, gritou: “VAI VIRAR IGREJA! VAI VIRAR IGREJA!”.


Aí você pergunta: e o Pet Duo?

Meu amigo, minha amiga… PUTA QUE PARIU. Destruição TOTAL e ABSOLUTA por HORAS. Saí de lá surdo e feliz.


Radiohead na rua, na chuva, na fazenda.

24 de março de 2009, 12:03

Thom Yorke. (Foto by Sérgio Carvalho - "serjaocarvalho" no Flickr)

Show do Radiohead? Fui sim. Não vou discorrer aqui longamente sobre o quão FODA foi o show, mas gostaria de contar uma coisinha que me aconteceu por lá.

Uma das músicas mais bonitas do Radiohead é You And Whose Army. A maior parte dela é apenas Thom Yorke cantando e Johnny Greenwood dedilhando sua guitarra ao fundo, num longo e intenso lamento. Mas o ápice da música vem no final, quando Thom começa a tocar o piano e a banda toda entra enquanto ele canta “we ride tonight / ghost horses”.

E foi este EXATO momento, no meio do show mais esperado da década, que minha mente imbecil escolheu para se dar conta de que a melodia daquela parte é IDÊNTICA ao “tchu tchuru tchu” que tem no finalzinho de Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda, estragando You And Whose Army na minha memória para sempre.

Duvida? Clique nos links aí embaixo e veja você mesmo.

P.s.: Os links levam ao ponto certinho do vídeo, então você não precisa assistir tudo.

P.p.s.: Não posso encerrar este post sem mencionar o show do Kraftwerk. Eu não seria ninguém se aqueles alemães safados não tivessem reinventado a música nos anos 70, então pra mim o show foi também um momento de adoração aos meus deuses musicais particulares. Na multidão, num raio de 100m de onde eu estava eu era, de longe, o mais empolgado, pulando, cantando e gritando enquanto o pessoal à minha volta bocejava e mandava mensagens no celular.

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A hora que o telão escreveu "COMPUTERWORLD" eu quase tive um troço de alegria. (Foto: Wikipedia)


Tom Zé, de graça, no interior de São Paulo

29 de outubro de 2008, 18:34

Eu estou a 400 quilômetros da capital, nesta cidadezinha carinhosamente apelidada de "Dead Cow City", onde não são só as vacas do frigorífico onde trabalho que levam o "dead" do pseudônimo a sério: aqui, diariamente, quase nada acontece.

Então foi com muita surpresa que recebi a notícia de que Tom Zé estava na cidade – e mais, para fazer um show gratuito na pracinha em frente à rodoviária.

Tom Zé e banda

O show é iniciativa do Sesc de São Paulo (que tem twitter, olha só!), como parte de um tal Circuito das Artes. Circuito este que é surpreendentemente ousado: nada de turminha do colégio local fazendo pecinha de teatro ou coral da igreja cantando. O Sesc bateu forte, fugiu da mesmice e apresentou arte de qualidade, abrindo a noite com um espetáculo de dança profissional e de altíssimo nível chamado “Tudo que se espera”, depois passando o premiado (e excelente) curta metragem "Os Filmes que Não Fiz" e, no fim, entregando Tom Zé e sua música nada convencional.

Tom Zé e o violão entre as pernas O público, definitivamente, não estava preparado. Das muitas vezes em que me virei pra conferir a reação da platéia a expressão geral era de perplexidade. As senhoras tricotadeiras de Dead Cow City não escondiam o espanto de ver Tom Zé rasgar a própria roupa, cantar versos como "vá tomar na virgem/seu filho da cruz" ou, fechando os olhos em êxtase, meter o violão no meio das pernas. Mas isso é ótimo, tira o povo da zona de conforto e mexe naqueles cantinhos da consciência que o povo insiste em esconder quando vai à missa ou assiste novela.

E ninguém melhor que Tom Zé para esta missão. Tanto que sua primeira ação logo após subir ao palco foi DESCER e mandar, pessoalmente, o público vir se sentar perto dele (já que havia um vão de uns 10 metros entre o palco e as primeiras fileiras de cadeiras de plástico onde a platéia estava). Mesmo com boa parte do seu trabalho sendo bem pouco acessível para a platéia, a intenção de Tom Zé de se aproximar do público era clara – entre uma música e outra ele fazia piadinha com o mascote do time de futebol local, contava histórias de quando compunha com Rita Lee ou de quando foi chamado para discursar na ONU e até explicava os porquês do seu trabalho: por exemplo, antes de cantar "Atchim" (do disco "Danc-Êh-Sá"), cuja letra é "atchim" e nada mais, ele explicou que a idéia do disco nasceu quando viu uma pesquisa da MTV onde os jovens declaravam que detestavam músicas com letra muito comprida.

Tom Zé e a backing vocal O show teve várias músicas do seu próximo disco, "Estudando a Bossa". Acho que nunca um nome de disco descreveu tão bem o seu conteúdo, porque todas as canções que ouvi eram exatamente isso: estudos da bossa nova feitos em bossa nova. As letras eram quase "documentarísticas", com versos do tipo "Carnegie Hall foi quem pinçou João Gilberto", mas o divertido eram as performances, todas altamente simbólicas e referenciativas: Tom Zé desmontou e montou várias vezes o violão que tocava – e que era falso, tinha cordas de elástico (gominha, borracha, chame como quiser); botou as "backing vocals" para cantar em banquinhos – vários banquinhos, de todos os tamanhos, numa referência clara ao mesmo João Gilberto da letra da música; cantou em português e, na sequência, botou o guitarrista cantando a mesma música em inglês, e por aí vai. O problema é que o "miolo" do show foi com essa bossa nova do disco novo, que é mais lenta e intimista que todo o resto do repertório, e eu achei que isso acabou quebrando o ritmo da apresentação.

Destaque também para a execução de "Augusta, Angélica e Consolação" – três mulheres cujos nomes são os mesmos de três famosas ruas da capital paulistana. Confesso que perdi a compostura e saí cantando o refrão ("Augusta… queeeee saudaaaaade…") a plenos pulmões, com dor de cotovelo de estar tão longe de São Paulo, essa cidade feia e suja que eu gosto tanto.

O show fechou com o famoso “xique xique” e com a turma dançando forró em frente ao palco enquanto a banda cantava o refrão: “Sacode a cultura, sacode a cultura”. Sacudiu, de fato. E me deu, finalmente, uma lembrança divertida pra guardar de recordação desse fim de mundo…

Tom Zé estilo "messias com pregadores de roupa"


RjDj – A trilha sonora da sua vida

14 de outubro de 2008, 20:53

Esse é mais um da série “links legais demais para simplesmente jogar ali no meu delicious”.

Eis a coisa com maior potencial que já vi na história da música… o RjDj.

RjDj logo

Imagine ouvir música. Mas imagine que a música que você ouve toma forma de acordo com o ambiente onde você está ou o jeito que você se movimenta. Imagine ouvir batidas agitadas nos fones de ouvido enquanto você anda pela rua, e então entrar num elevador e perceber a música diminuir o ritmo, ficando mais suave… ou então imagine música sendo construida, em tempo real, com os ruídos que acontecem à sua volta, como o barulho do mar, as buzinas de um engarrafamento ou a conversa animada de uma mesa de bar…

Acontece que isso já está disponível desde o último dia 10 de outubro, através de um applet que funciona em qualquer iPhone. E o melhor: uma das versões (a “single”, com uma música) é gratuita.

Tecnicamente o RjDj funciona assim: cada “música” dele é chamada de “scene” (cena), e na verdade é um software que toca sons sequenciados mas que adapta o que é tocado de acordo com dados recebidos pelo microfone ou pelo acelerômetro do iPhone. Para ouvir um exemplo de cair o queixo, dê uma olhada neste trecho de um vídeo que mostra um dos desenvolvedores brincando com seus filhos. Ele está com os fones de ouvido e o RjDj está ligado, captando os sons ambientes pelo microfone do iPhone e transformando, em tempo real, os gritos e passos da criançada em uma trilha sonora suave e etérea. Ficou tão bonito, mas TÃO bonito, que eu quis comprar um iPhone pra mim NA HORA só pra ter este programa.

Outro vídeo legal é esse aí embaixo, mostrando as reações de algumas pessoas ao ouvir as “scenes” pela primeira vez. É simplesmente lindo. Note como todo mundo entende, intuitivamente, como a coisa funciona e começa a cantar no microfone ou a chacoalhar o aparelho. Eu nunca vi algo proporcionar uma experiência tão envolvente em tão pouco tempo e com uma curva de aprendizado inexistente.

A coisa é muito, muito revolucionária. Conforme apontado pelo pessoal do Create Digital Music, isso pode alterar fundamentalmente o que se considera, atualmente, como “música”:

Isso reflete também um novo modelo de como produzir, possuir e precificar música. As cenas que tocam no RjDj são escritas em Pd (Pure Data), um ambiente open-source para criação multimídia. Os artistas normalmente também abrem o código das músicas. Isso cria um tipo de propriedade completamente novo. A música, na verdade, é o software, de uma forma ainda mais direta do que acontece, por exemplo, com a música eletrônica. O software é lançado mais ou menos com o mesmo preço de uma faixa musical vendida online, com a exceção de que, quando você a compra, ela se torna totalmente sua e vai tocar para você de um jeito totalmente diferente do que para qualquer outra pessoa.

Pois é, só sei que estou embasbacado até agora. Alguém tem um iPhone da primeira geração pra me vender, baratinho? :)


O Primo’s Guided Musical Tour 2

25 de setembro de 2008, 22:45

E lá vamos nós de novo! O episódio dois chama-se “Isso não é música de gente séria”. Acho que vocês vão entender rapidinho…

Pra quem ligou agora seu televisor e tá boiando: veja antes o episódio 1.

[youtube]http://br.youtube.com/watch?v=xvNP_z-DnnQ[/youtube]


Acústico Zeca Pagodinho – Uma obra prima

25 de setembro de 2008, 20:01

Ontem eu saí da minha rotina noturna padrão (ficar na internet até dormir) e fui à um churrasco. Carne vai, cerveja vem, então alguém bota um CD do Zeca Pagodinho pra tocar. Acho que é o “Acústico MTV”, o da capinha aí embaixo. Eu já tinha ouvido, incidentalmente (e acidentalmente), vários trechos do CD por aí, mas nunca havia sido exposto à coisa toda de cabo a rabo. E percebi, horrorizado, que o CD é feito de uma genialidade torpe, uma premeditação comercial assustadora e executada com uma perfeição que eu nunca havia visto antes.

20080925 A coisa começa nos arranjos. Na minha cabeça o pagode original era pra ser um ritmo informal, pra tocar batendo na mesa do boteco e chacoalhando a caixinha de fósforo, mas o CD do Zeca Pagodinho tem o oposto disso: arranjos orquestrados, cordas e flautas e o escambau numa produção impecável. Até aí tudo bem, isso é coisa que qualquer Emmerson Nogueira da vida faria, mas o problema é que no CD do Zeca Pagodinho os instrumentos não são tocados, e sim executados – pois há uma diferença entre “fazer música” e “reproduzir o que está numa partitura”. O pagode do Sr. Pagodinho é milimetricamente quadrado, minuciosamente pasteurizado, e soa como um hambúrger do McDonalds. Mas isso tudo é parte do plano.

Outra coisa que me assustou foi o esmero dos músicos em cobrir expectativas. Se existem “clichês musicais”, eles fizeram todos. Sem exceção. Não há absolutamente NADA de surpreendente, nada fora do usual. Pelo contrário: se existe um procedimento padrão para produzir pagode(*), eles seguiram tudo à risca. No lugar aonde a letra pede aquela frase solta cantada mais aguda, típica de pagode, ele ia lá e cantava. Quando o refrão dá um espaço para você pensar “putz, aqui é exatamente o lugar aonde deveria entrar aquele backing vocal cantando lá-laiá”, pronto, lá estava o backing vocal cantando lá-laiá.

Isso, somado com a execução milimétrica dos instrumentos, gera um ambiente musical que, para meu horror, carregava uma semelhança absurda com a identidade sonora da Rede Globo. É sério, pense naquele som lavado e artificial do jingle de abertura de um Jornal Hoje ou de um Jornal da Globo. Temas musicais como esses tem que ser “não desafiantes”, afinal o telespectador continua assistindo quando se sente confortável, e a música fácil ajuda a construir esse sentimento de conforto. E o CD do Zeca Pagodinho era planejado para ser exatamente assim, para entregar exatamente o que o ouvinte esperava ouvir, e portanto soar confortável e familiar.

Com as letras das músicas a palavra de ordem era a mesma: manter-se dentro do ordinário, não ser desafiante e investir no que se tornaria facilmente acessível e que, portanto, geraria facilmente uma identificação do ouvinte. Como neste verso:

Se eu quiser fumar eu fumo
Se eu quiser beber eu bebo
Pago tudo que eu consumo
Com o suor do meu emprego

Eu confesso um certo medo ao perceber o poder de um verso desses. De certa forma isso é manipulação em forma de música. 90% dos brasileiros que ouvem isso devem, instantaneamente (e instintivamente), sorrir no canto da boca e pensar: “porra, eu ralo mesmo, eu deveria ter o direito de tomar a minha cervejinha sem encheção de saco”. E aí um Zeca Pagodinho virtual dá uns tapinhas no ombro dessa pessoa e diz: “Viu? Eu te entendo, cara!”. E o elo se forma.

O reforço do elo vem com as outras letras, relatos de histórias fáceis da vida de todo o dia e de todo mundo. Elas não tinham NENHUMA poesia, NENHUM lirismo. O foco era pintar uma imagem mental fácil, um capítulo de novela em forma de música, então algumas eram relatos secos, factuais, quase jornalísticos de coisas como um penetra numa festa de aniversário.

Bebeu demais
Comeu de tudo
Dançou sozinho
Encheu o bolso de salgadinho
Foi pra fila da pipoca
Roubou o pedaço de bolo e o refrigerante
que estava na mão do aniversariante
Fez a criança chorar

E no churrasco meus colegas de trabalho cantavam junto e exclamavam entre si:

- Cara, esse CD é perfeito. É bom pra caralho.

Eles têm razão. O CD é, de fato, perfeito. Como produto, o disco de Zeca Pagodinho é uma das maiores obras-primas que a indústria da música brasileira já produziu.

(*) – Quanto pê, hein? Dá até uma sigla: PPPPP, ou P5, pra ficar muderrrrno.


Blip.fm – Um Twitter que faz barulho

30 de agosto de 2008, 21:28

Na última sexta-feira só se falava no Twitter de um tal site novo chamado Blip.fm. À noite, chegando de viagem, liguei o computador e fui conhecer a razão de tanto hype.

Usei o Blip.fm por cinco minutos. Foi o suficiente para dar o meu veredito final sobre o site, que pode ser resumido nesta frase: “A coisa mais genial que vi na internet este ano”.

20080830 

O Blip.fm é um microblog, como o Twitter, mas com um diferencial matador: músicas anexadas aos seus micro-posts (chamados de “blips”). Então, na verdade, o que você posta são as músicas, junto com pequenos comentários sobre elas. Ou o inverso: comentários sobre qualquer coisa, mas “ilustrados” por músicas.

Se no Twitter a pergunta era “what are you doing?” (”o que você está fazendo?”), no Blip.fm a pergunta é “what are you listening to?” (”o que você está ouvindo?”).

“Ah, mas a RIAA vai fechar o Blip.fm rapidinho!”. Sim, eu e metade da internet pensamos exatamente a mesma coisa, mas enquanto eu escrevia este post percebi OUTRA sacada genial dos caras: as músicas que o Blip.fm toca NÃO estão hospedadas no próprio site – ele simplesmente toca músicas que estão espalhadas por toda a internet e que são facilmente encontráveis através do próprio Google ou de serviços especializados, como o Seeqpod.

É só dar uma olhada na barra de status do Firefox na hora em que você dá “play” numa faixa qualquer: cada hora os dados são lidos de um site diferente…

20080830_2 20080830_3

Uma olhadinha no FAQ do Blip.fm parece confirmar esta suspeita (grifo meu)…

Eu blipei uma música ontem e hoje ela está “não disponível”, o que houve?

As músicas são armazenas por toda a internet em diferentes servidores e websites. Às vezes o servidor cai e a música não está disponível para tocar, ou o dono do arquivo o removeu da internet de uma vez por todas.

Assim eles têm o maior acervo de músicas do mundo, não tem problemas com largura de banda ou capacidade de armazenamento e – o melhor de tudo – não são legalmente responsáveis por eventuais quebras de copyright. Bom, pelo menos eu acho.

E não é só isso: além de tudo o Blip.fm já tem integração com o Twitter, Last.fm e vários outros (FriendFeed, Pownce, Tumblr, Livejournal e Jaiku). Você pode “blipar” músicas que ouviu recentemente – e que ele “pesca” do Last.fm pra você – e twittar automaticamente a cada vez que você “blipa” uma música. É muito prático.

Genial, fácil de usar, integrado com o que você já usa… o Blip.fm é quase bom demais pra ser verdade.


Assistir American Idol me lembra por que eu gosto tanto de música

4 de agosto de 2008, 22:00

No último sábado eu apresentei à Bethania um clássico do YouTube: o vídeo do “American Idol” belga onde a participante canta uma música de Mariah Carey chamada… “Ken Lee”.

Risadas à parte, isso só me fez lembrar por que eu acho música uma coisa tão legal. É que, quando a performance é tosca, não é incomum que a intenção do artista seja a mais pura possível.

Música é uma coisa acessível, talvez mais do que todas as outras artes. Mas música também é muito acessível do ponto de vista emocional. É fácil se identificar com aquilo que está tocando, mesmo que a música seja em inglês e a pessoa não saiba uma palavra do que o cantor está dizendo. Ou mesmo se o ouvinte não souber distinguir qual é o som de uma guitarra e qual é o de um violão. Ainda assim a pessoa é tocada – e de uma forma muito intensa, tão intensa que a vontade de “participar” dessa coisa chamada música fica tão grande que ofusca a noção do ridículo.

É claro que há muitos casos onde a pessoa se expõe por vaidade, mas falo aqui dos casos onde a falta de noção fica muito evidente. Como exemplos cito Delfin Quishpe, o equatoriano que canta a tristeza de ter o amor de sua vida assassinado nos atentados de 11 de Setembro…

Ou então Ednaldo Pereira, o cantor e compositor paraibano que, de tão “bom”, foi parar até no Programa do Jô.

Música é legal por isso, por ser algo que converte, facilmente, um sentimento intangível em algo tão concreto que afeta profundamente as pessoas. Aí a vontade enorme de “viver” a música – e principalmente a emoção/sensação/sentimento que aquilo representa – fica maior do que qualquer preocupação com reputação ou amor-próprio. O resultado pode até ser um mico, mas nenhum dos “artistas” dos vídeos acima pareceu arrependido…


O Primo’s Guided Musical Tour

18 de julho de 2008, 16:58

Eu vinha mastigando essa idéia há tempos… aí resolvi executar.

A idéia é usar o YouTube pra “mini-podcasts legendados”: uma mistura de texto e som, tornando-o uma mídia bastante apropriada para, por exemplo, falar sobre música. Você pode ler os comentários no vídeo e, ao mesmo tempo, ouvir a música que estou comentando.

Fiz uma primeira experiência aí embaixo, falando sobre como a música que eu ouço costuma ser feita sobre paradigmas muito diferentes do normal e tentando explicar alguns aspectos deles que acho interessantes. Veja aí então, diga o que achou depois nos comentários…

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=tddAVwWVG4c[/youtube]


Qual o instrumento musical mais difícil de tocar?

14 de julho de 2008, 18:57

Taí uma pergunta onde o que é mais interessante não é a resposta, e sim o raciocínio para chegar nela…

Temos muitas coisas pra considerar: pra começar, pense na facilidade (ou não) de fazer o instrumento tocar uma única nota corretamente. Em alguns casos, como num piano, é moleza: você aperta a tecla e o som sai, certinho e sempre afinado. Instrumentos “pré-programados” para tocar sempre as mesmas notas numa afinação fixa são chamados “temperados” e incluem, por exemplo, o violão, a guitarra, a flauta e o saxofone. Richard Clayderman e Kenny G, estão, portanto, fora do nosso páreo.

Tirar o “tempero” dos instrumentos aumenta a dificuldade, já que a afinação passa a depender diretamente do seu bom ouvido e/ou da técnica de tocar: se você achava difícil aprender violão pra poder tocar Legião Urbana nas festinhas e impressionar as garotas, compare-o com o violino

20080714

Note que no “braço” do violão existe um monte de “travas” metálicas (chamadas trastes) que, quando cruzam com as cordas, formam “casas” que indicam o lugar exato onde você deve segurar a corda para tocar uma nota musical. Já o violino não tem isso, então é seu dedo que segura a corda – e se ele estiver um milímetro fora do lugar, a nota sai desafinada.

Ao contrário do piano, que é “tocou, levou”, alguns instrumentos de sopro requerem muito esforço do aprendiz para produzir algum som sequer. Quem estuda flauta, por exemplo, sofre para conseguir acertar a chamada “embocadura” – a posição certa dos lábios e da língua para soprar no instrumento. Normalmente são dias e dias frustrantes soprando assim…

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=i1cyrWlJpzY[/youtube]

…até que, depois de MUUUUITA prática, você fica ninja como o cara aí embaixo, que toca a música do Mario e, ao mesmo tempo, faz as batidas com a boca:

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=gZww6urHGL0[/youtube]

E alguns instrumentos de sopro ainda tem as tais palhetas, uma espécie de bocal aonde o músico sopra. Quem toca oboé, por exemplo, além de aprender o instrumento e a embocadura, tem também que saber como construir suas próprias palhetas, já que a anatomia da boca de cada um é diferente e, por isso, não dá pra fabricar palhetas em série numa fábrica. Além de músico o cara tem que ter, também, um certo talento para o artesanato…

Agora imagine um instrumento que, além de precisar da embocadura certa, não é “temperado” e requer um cuidado extra com a afinação: eis aí os trombones, trumpetes e a tuba, famosa nos desenhos animados do Pernalonga. E ainda tem os instrumentos aonde o que complica é a coordenação motora para tocá-los, como a bateria. Às vezes o baterista está tocando um ritmo com o pé direito, outro ritmo na mão esquerda, mais um terceiro ritmo com a outra mão e, em alguns casos, cantando num andamento totalmente diferente de todo o resto. É de fundir o cérebro. Não é atoa que os bateristas são conhecidos por fazer aquela cara de “estou prestes a ter um derrame” enquanto tocam…

20080714_2Outro instrumento que parece ter sido construído pra complicar é o bandoneón – essa “sanfona” aí do lado, que os tocadores de tango usam. Sabia que cada botãozinho do bandoneon dá uma nota diferente quando você está abrindo o fole… e outra diferente quando você está fechando o fole?

Moral da história: não dá pra definir um ou outro instrumento como “o mais difícil de todos os tempos”. Cada um é complicado à sua própria maneira, cada um tem um problema diferente. E é bom que seja difícil; a variedade de desafios para ser produzida ajuda a deixar a música ainda mais interessante.


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