O show do Godspeed You! Black Emperor

Pausa nas sagas sofridas do meu estágio canadense (spoiler: tá um saco) pra contar uma coisa muito, muito boa: o show do Godspeed You! Black Emperor de sábado passado.

Preâmbulo: show de quem?

“Saco, lá vem ele falar dessas músicas esquisitas”, você está aí pensando que eu sei. Então eis aqui uma pergunta: você é apaixonado por alguma coisa? Pelo Galão Doido da Massa? Pelo seu carro? Pela sua mulher? Por um livro que putaquepariu cara esse livro explica a VIDA, mano? Claro que é. Tem alguma coisa aí que tu curte pra caralho. A minha é música, particularmente a música que sai do lugar comum e explora um lado inédito, mesmo que esquisito, dessa coisa maluca que é descrever coisas indescritíveis empilhando frequências sonoras.

O Godspeed You! Black Emperor faz isso, e faz usando um som absolutamente colossal, uma massa enorme de fúria composta por três guitarras, dois baixos, duas baterias e uma mocinha tocando violino no meio de tudo. Os guitarristas tocam sentados porque precisam usar os dois pés pra operar suas pedaleiras – e com isso eles conseguem conjurar um som único, uma espécie de leviatã guitarrístico sobrenatural. “Storm”, a faixa que abre o álbum “Lift your skinny fists like antennas to heaven” é uma das músicas mais bonitas que já ouvi.

Nenhuma banda no mundo soa como eles. Eu descobri a banda em 2005, e pra variar dei azar: eles estavam numa espécie de hiato, sem fazer shows ou lançar música nova. O hiato só acabou em 2012, quando veio do nada um (premiado) álbum novo. E esse ano eles não somente lançaram outro álbum como também botaram o pé na estrada pra tocar. E um detalhe muitíssimo importante: eles são canadenses.

Aí esse ano eu tinha tudo pra dar sorte: morando no Canadá, com a banda ressuscitada e fazendo turnê. Mas, como de costume, não alimentei expectativa nenhuma. Até que em julho, o Songkick – um site que te manda alertas de shows das bandas que você curte – mandou o email que eu esperava há décadas.

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O show

É claro que precisamente às dezenove horas eu já estava dentro do Danforth Music Hall, bebericando minha cerveja de R$ 301 e morrendo de expectativa.

Duas horas de espera depois, começa o ritual: sem anúncio nem nada, os caras vão entrando, um a um, pegam os instrumentos e começam a fazer o que aparentemente convencionou-se chamar de “hope drone”. Sabe quando a orquestra tá afinando os instrumentos e eles sempre tocam aquela mesma coisa no começo do espetáculo? “Hope drone” é todo mundo da banda esmerilhando os instrumentos e criando uma massa elétrica de ruído absolutamente delicioso por alguns minutos, enquanto quatro projetores Super8 passam rolos de filme semidestruído atrás do palco onde é possível ler apenas uma palavra: “hope”.

Um comentário sobre o ruído: antes do show começar, eu comecei a olhar em volta e todas as pessoas ao meu redor estavam usando protetores auriculares. Honestamente, nem precisou: o show foi muito alto, mas nada fora do comum. E fica aqui o meu abraço pro engenheiro de som, que acertou magistralmente a mão. Há tempos eu não ia num show com acústica tão boa (e não tem nada mais irritante do que ver músicos brilhantes serem assassinados por uma acústica ruim). Eu me lembro de um momento onde os guitarristas tocavam com chaves de fenda, o baixista usava um arco de violoncelo em um dos pratos da bateria, os bateristas esmigalhavam os bumbos, uma bola de dissonância ensurdecedora, mas dava pra ouvir tudo. Aí a banda parava inteira e o guitarrista solo começava um dedilhado baixinho, e o silêncio era tão perfeito que dava pra ouvir a bartender, no fundo do teatro, colocando uma moeda na jarra das gorjetas. Foi mágico. Em termos de som, nesse sábado deu tudo certinho.

De fato, tudo deu certo nesse show. A começar pela primeira música: para surpresa minha e de todos, Storm. Total “gentileza canadense” da banda. Um cara na plateia ainda gritou: “Thank you!!!!!” e todo mundo caiu na risada. E caras… Storm ao vivo. Eu podia morrer ali naquela hora, cabou, a minha existência estava completa, tudo soou alto e lindo e épico exatamente como eu sempre imaginei que soaria. A sequência das músicas do show também foi perfeita, porque eu mal me recuperava de Storm e eles entram com “Peasantry”, a primeira música do último disco, onde o leviatã das guitarras diz o riff mais “agora a porra ficou séria” de toda a história da banda. E teve música nova (!!!), e depois música velha, e no meio do show eles param tudo e o Moya (o guitarrista) entra com “Moya” (a música), que é praticamente o hino não-oficial do Canadá. Foi de chorar. Gritaram “thank you” da plateia de novo e tudo.

Até o final do show foi perfeito. Lá pelas duas horas de barulheira, do mesmo jeito que entraram no palco, sem alarde, os caras começam a abandonar os instrumentos, um a um. A plateia fica lá, estática, enquanto por algum motivo o palco ainda está elétrico, fazendo barulho sozinho. Então um dos bateristas volta e, solenemente, começa a desligar os amplificadores2, um por um. Não teve bis, ninguém pediu, não precisava.

(1) CAD$ 9, mais $1 de gorjeta, mais dólar canadense a R$ 3,00…
(2) Um deles tinha, bastante apropriadamente, uma bandeira canadense de ponta-cabeça.

Por que Daft Punk, Pharrell e Stevie Wonder fizeram a performance mais picareta da história do Grammy

No domingo eu não vi o Grammy, optei por uma sessão de O Azul é a Cor Mais Quente (que belo filme, por sinal!). Aí na segunda-feira, como esperado, vi as notícias que Daft Punk ganhou um monte de prêmios e que fizeram uma performance inacreditável juntamente com Stevie Wonder. E aí no Feice uma pessoa comentou do Daft + Pharrell + Stevie. E depois outra. E saiu no Lúcio Ribeiro. E saiu no Pitchfork. E no Reddit uns três posts diferentes falando do assunto. “Então tá, vamo ver”, pensei.

O primeiro link que achei tava com a qualidade meio ruim. Aí caçei um link melhor no YouTube, pra ver em HD. Aí vi de novo. Corri pra esquerda e pra direita na barrinha vermelha do player algumas vezes. Revi cenas. Aumentei o volume. Pausei. Olhei com cuidado.

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Sabe, quando alguma coisa me desagrada eu normalmente reclamo no Twitter. Se me irrita muito, eu acabo reclamando no Facebook. Mas quando eu fico realmente furioso, eu ressuscito este blog e escrevo posts enormes como este. Até separo os quilômetros de texto com subtítulos, como este:

A ascensão e queda do Daft Punk (em dois discos)

Eu tenho vontade de pegar todo mundo que ainnnnn eu ammmooooo Get Lucky e botar pra ouvir Rollin’ & Scratchin’, faixa do primeiro disco deles. Mas não é por despeito: é pra que eles entendam o que a adorada bandinha robótica deles estava fazendo em 1994.

Nessa época a dupla, apesar de não mostrar a cara, ainda usava os nomes de batismo e era bem ativa no cenário de festas rave parisienses. Thomas Bangalter (uma das metades da dupla) fazia produções incríveis de um french house de finíssima qualidade. Mas aí eles lançaram o Homework e ficou evidente que o público curtia muito mais as músicas puxadas pro lado do pop (“Around the World, Around The World…”) do que as puxadas pro lado da pista de dança (como a excelente Indo Silver Club, que nem parece mas está no mesmo disco).

Este foi o momento crucial da carreira da dupla: deste disco em diante o Daft Punk, ao invés de optar por fazer música boa, optou por fazer sucesso. E aí eles começaram a seguir o gosto do público. E o que acontece quando você segue o gosto do público? Acontecem dez edições do Big Brother Brasil, acontece o Brasil Urgente, acontece o Sertanejo Universitário, acontece o óxi…

O álbum seguinte (o Discovery) não foi exatamente um sucesso de crítica – porque ainda não era evidente a guinada de objetivo deles. Mas você com certeza conhece One More Time ou Harder Better Faster Stronger – repetidas e remixadas à exaustão.  Pra mim pessoalmente, Discovery foi uma enorme decepção. Onde foram parar os produtores geniais? “Por que esses riffs plastificados, essa idiotização musical toda?”, eu me perguntava, ainda fazendo força pra tentar ver algum resquício da genialidade das antigas músicas da dupla. Mas era tarde demais, eles foram para o lado fácil da música. Pararam de servir suas finas iguarias musicais e começaram a produzir Big Macs.

Foi nessa época também que eles começaram a experimentar com divulgação diferenciada (lembram do desenho japonês feito em cima das músicas do álbum?). Mas ainda não era suficiente. Isso não faria o Daft Punk famoso na medida em que eles queriam. E então veio a segunda grande sacada genial da dupla rumo ao sucesso absoluto.

Não basta seguir o gosto do público: é preciso ditar o gosto do público.

Aprendendo a surfar o hype

Random Access Memories, o bizarramente laureado último trabalho da dupla, foi o disco mais hypado que já vi na vida. Foi a mais incrível estratégia de mídia e PR que já vi para criar uma caralhada de interesse por um álbum totalmente paumolescente, mero eco de estilos musicais de décadas passadas, mas que foi erguido ao Olimpo da música sob gritos estapafúrdios de “uoooohhhhh eles reinventaram o funk e a disco music!”.

Ao longo do ano passado boatos foram espalhados, músicas foram vazadas, depois disseram que eram fake, depois foram vazadas de novo, depois surgiram vídeos de “fãs” no YouTube montando versões completas de Get Lucky (ainda não lançada) com base em previews de 30 segundos estrategicamente tocados de surpresa (ah tá) em telões de grandes festivais de música pelo mundo… só se falava desse bendito disco.

Naquela época eu ainda não estava furioso, então restringi minhas reclamações apenas ao Twitter.

 

 

 

Neste último tweet errei por pouco: o álbum tirou 8.8, num review obviamente comprado.

Este disco marca o momento onde o Daft Punk abraça totalmente o lado negro da força e torna-se o Kelly Slater de surfar a onda do hype: o multiplatinado (e agora Grammyzado) Random Access Memories é um disco irrisório, movido apenas pelo efeito autocolante de Get Lucky. Ou você lembra de cabeça de alguma outra faixa do disco? (dica: tem a do Giorgio Moroder lá.. e aquela do “doin’ it right”… lembrou?) Eu mesmo confesso que não consigo ouvir o álbum inteiro até o final, sob pena de extinguir o que ainda me restava de fé na humanidade.

Este restinho durou até agora há pouco, quando vi a “inacreditável performance” da dupla no Grammy. E esta é a deixa para o último subtítulo desse texto enorme – que, de tão drástico, dá título também a este post:

Por que Daft Punk, Pharrell e Stevie Wonder fizeram a performance mais picareta da história do Grammy

Sério. Eu olho pra todo mundo chamando aquele momento de “histórico” e penso “não, cara”. Pelo visto o hype cega mais que o amor.

Logo que as luzes se acendem e a banda começa, uma coisa terrível fica muito evidente:  Stevie Wonder não sabia cantar Get Lucky. Um Stevie normal normalmente balança a cabeça sorridente e canta com um groove infinitamente superior. O Stevie de “Get Lucky” estava… mudo. Completamente fora de lugar. Até agora, depois de algumas dezenas de audições do vídeo, eu não consigo ouvir o som do harpejji que ele estava tocando.

Pharrell olha para Stevie, sem entender direito o que estava acontecendo. A confusão era tanta que, instantes depois, Pharrell ainda gesticula para Stevie, indicando que era hora dele cantar também. Pense bem nisso: Pharrell está gesticulando para um cego.

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Depois de empurrar o primeiro verso todo com a barriga, para meu completo embasbacamento, Pharrell canta totalmente desafinado no refrão. Mas grosseiramente desafinado, quase meio tom abaixo. Vocês podem achar que é picuinha minha e nem deu pra perceber, mas desculpe: isto não é o karaokê da Liberdade, isto é o maldito Grammy. Não é um monte de japonês bêbado cantando “eu perguntava do you wanna dance”, são músicos profissionais muito bem remunerados. O desastre só não ficou pior porque tem um playback acompanhando o vocal.

E aí – tcharam! – o fundo do palco se abre e eis os Daft Punks. Enquanto a platéia vai ao delírio, a câmera corta para dentro da cabine onde eles estavam e mostra que eles não estavam tocando absolutamente nada. O “equipamento” deles era um painel de luzinhas de disco voador da Xuxa: nenhum instrumento, sampler ou sequencer.

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Só pra vocês terem uma base de comparação, eis aqui um músico que efetivamente toca usando samples. Repare que tudo que acontece na música é de fato comandado pela enorme botoeira à sua frente.

Pra piorar ainda mais o show de horrores, a câmera corta para a plateia. Um auditório lotado com os maiores nomes da música mundial – incluindo a metade viva dos Beatles – e nenhum deles sabe dançar. Yoko Ono faz uns símbolos de “paz e amor”. Stephen Tyler finge dançar uma espécie de “conga” com “macarena”. Ringo era o único cara balançando certinho no ritmo da música, até parece um baterista.

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E o que vem agora?

Felizmente, nas artes existe o inclemente teste do tempo. Daqui a uns dez, vinte anos, quando comentarmos sobre a música da segunda década do século XXI, se Random Access Memories for realmente isso tudo que dizem ele será respeitosamente lembrado. Vai constar na edição nova do “500 discos para ouvir antes de morrer”. Vai ser compartilhado no (site que substituirá o) Facebook com posts do tipo “RAM, a obra-prima do Daft Punk, completa 20 anos – reveja a histórica apresentação do Grammy de 2014”. Mas, honestamente, eu não vejo isso acontecendo. Na verdade eu não vejo ninguém se lembrando do Grammy deles ano que vem. É um fato que será esquecido da mesma forma que ninguém lembra em quem votou na última eleição.

Vamos torcer pra este blog continuar vivo até lá para o tira-teima.

Update: E agora começou a boataria que nem eram eles dentro das roupas de robô.

Retrospectiva 2013

Eu me lembro de tudo desse dia – menos do ano. Um chute mais ou menos calculado diria que foi há dezessete anos, em 1996. Eu tinha 18 anos e estava começando a faculdade.

Eram seis e pouco da manhã de uma terça-feira e eu seguia com mais uma tentativa frustrada de me acostumar a fazer exercícios físicos: havia me matriculado numa aula de natação na piscina do Colégio Santo Agostinho, ainda em Belo Horizonte, onde estudei durante o ensino fundamental. Mas naquele ano eu já era maior de idade e tinha um Uno Mille 1.0, que por sua vez tinha uma coisa muito importante: um toca-fitas com auto-reverse.

Morrendo de sono, irritado e arrependido da ideia idiota de fazer natação de madrugada, resolvi colocar a fita com uma cópia do “Millions now living will never die”, do Tortoise, que havia sido lançado naquele ano. Eu nunca havia ouvido Tortoise até aquele dia, por isso gravei a fita de um dos CDs do meu primo.

Importante lembrar que, no ano de 1996, desvendar o universo musical não era fácil como hoje. Mas, felizmente, a minha tendência de não-conformidade musical já estava valendo: enquanto todos os meus amigos achavam o rock do Metallica o máximo, eu gostava era de ver os videoclipes da madrugada na MTV. Lembro que foi assim que cheguei ao Sonic Youth, por exemplo: vi o clipe de Little Trouble Girl e fiquei fascinado com aquele som “errado” das guitarras, e a atmosfera ao mesmo tempo familiar e incômoda que elas construíam. O lado B do universo musical ia ficando cada vez mais fascinante.

Felizmente meus primos estavam na mesma pegada, e foi com eles que eu ouvi falar pela primeira vez em uma coisa chamada pós-rock, e foi daí que eu cheguei ao Tortoise.

Os 20 minutos do trajeto de carro até o colégio encaixaram certinho com “Djed”, a longa e intrincada faixa que abre o álbum. Ela começa como uma banda normal de baixos e guitarras mas de repente um dos bateristas assume um vibrafone e a música se transfigura, metamorfoseando timbre, ritmo e estrutura. “Rapaz, isso é bom mesmo”, pensava eu enquanto estacionava o carro e a música ia acabando.

Aí veio a segunda faixa, chamada Glass Museum, que é o motivo de eu estar escrevendo este post enorme e relembrando esta manhã sonolenta dos meus dezoito anos – e tudo que aconteceu desde então. Eu já ia descer do carro e ir pra aula quando Glass Museum começou a tocar.

Mas, como disse, eu não sou bom de memórias. Não me lembro de muita coisa nessa vida. Esqueço quantos anos de casado eu tenho, nunca lembrei o dia do aniversário de nenhum amigo… mas me lembro perfeitamente dos cinco primeiros segundos de Glass Museum naquela manhã. Lembro da sombra que a árvore do canteiro central fazia sobre o capô do Uno Mille, parado a 45 graus na rua íngreme do colégio. Lembro do display âmbar e de todos os botões da frente do toca-fitas, do macete de apertar “FW” e “REW” ao mesmo tempo pra ele inverter o lado da fita. E nunca vou esquecer do arrepio que me subiu dos calcanhares até a nuca por cinco longos segundos. Foi a maior epifania musical que já tive na vida.

O motivo técnico de tamanha surpresa é que, musicalmente falando, logo no início Glass Museum quebra todas as “regras informais” do rock que eu havia ouvido até aquele dia. O compasso da música passava longe do “um dois três quatro” básico, a mistura das guitarras com o vibrafone era inédita, a estrutura não seguia o clássico “verso-refrão-verso” de sempre. Aquilo era completamente diferente de tudo que eu já havia ouvido – e por isso era incrivelmente lindo.

E o mais interessante desta nova beleza é que ela evidenciava todo um novo universo de criatividade estética que só é possível encontrar quando se sai do lugar comum musical. Musicalmente falando, naquele momento eu me senti como um cego que passou de repente a enxergar e que fica, ao mesmo tempo, assustado e fascinado porque descobriu que o mundo não é apenas aquilo que ele achava que era: ele é muito mais. Foi uma espécie de expansão sensorial do meu conhecimento musical.

Não demorou muito e eu desisti de fazer aulas de natação de manhã cedo. Por outro lado as madrugadas na MTV e as cópias piratas em fitas cassete aumentaram drasticamente. E o Tortoise transformou-se na minha banda preferida.

Daí tudo foi mudando. Mudou a cidade onde moro, mudou meu estado civil, mudou até meu emprego – duas vezes só este ano, e vai mudar ainda uma terceira vez, quando eu arrumar outro trabalho. Este talvez tenha sido o evento mais marcante de 2013: deixei a publicidade em novembro e não pretendo voltar.

2013, definitivamente, não foi um ano bom. Talvez ele tenha sido o pior ano desde que comecei a fazer retrospectivas aqui no blog. Tentando entender onde foi que a coisa toda começou a dar errado, passei algum tempo revendo posts antigos e levei um susto grande ao perceber que, no processo de me tornar uma pessoa completamente diferente do moleque de dezessete anos atrás, aconteceu uma mudança muito, muito séria: eu parei de sonhar. 

O principal motivo disso é o tanto de podridão que vi ao longo destes últimos anos. Eu tive que lidar com situações estapafúrdias e com um sem-número de gente má e oportunista, e isso foi profundamente desgastante. Em 2013, por exemplo, eu cheguei a ter um chefe que estava roubando dinheiro da agência. E como diz o ditado, quando você olha pro abismo o abismo olha de volta para você, e acabei me contaminando com essa visão torpe de mundo. Bethania até me apelidou de Boris, o personagem neurótico e misantropo do “Tudo Pode Dar Certo”, do Woody Allen.

Mas este pessimismo todo é apenas o sonho de antigamente com a polaridade negativa. Basta inverter. Está na hora de me reacostumar a ver o mundo com aquele olhar mais simples de dezessete anos atrás.

No mês passado, enquanto fazia uma pausa no envio de currículos pra dar uma passada de olho no Facebook, vi que o SESC anunciou nada menos do que quatro shows seguidos do Tortoise em São Paulo. Não pensei duas vezes e comprei ingresso para ir a todos eles, mesmo porque a promessa era de um setlist diferente em cada um dos dias.

Com isso eu comecei a pensar na possibilidade de realizar um sonho antigo: ouvir Glass Museum ao vivo. O impulso inicial foi de não alimentar muitas esperanças disso acontecer. “Expectativas levam ao desapontamento!”, era o que eu sempre dizia. Além do mais, àquela altura a banda já tinha décadas de estrada e repertório suficiente pra não precisar ficar ressuscitando músicas dos primeiros álbuns.

Apesar dos ingressos esgotados, muita gente não foi e logo no primeiro dia eu consegui me sentar na primeira fileira, e o teatro do SESC era tão bom que eu me sentia como se a banda estivesse tocando na sala da minha própria casa. E foi assim que vi o show em todos os quatro dias: colado na banda e confortavelmente sentado numa poltrona tipo de cinema.

Foi demais. O Tortoise é outra coisa ao vivo. Começa pelo fato de que o setup deles, além dos vibrafones e sintetizadores, usa duas baterias completas, uma de frente pra outra, no meio do palco. Quando eles as tocaram, juntas, em “Monica” – que é uma das músicas que eu também queria muito ver ao vivo, depois que vi este vídeo deles tocando em Barcelona – eu fiquei maravilhado. Ao longo dos shows muitas outras coisas ficaram evidentes. Por exemplo, eu nunca tinha reparado em como as músicas do Standards – o disco com a bandeira dos EUA na capa – soam mesmo norte-americanas, e isso só ficou evidente quando finalmente vi aquelas caras branquelas, caucasianas, fazendo a música acontecer. Também entendi um pouco mais do álbum mais recente, o “Beacons of Ancestorship”, que com sua pegada mais barulhenta e guitarreira está de fato reverenciando as estrelas ancestrais do punk rock. E essa epifania toda veio só pelo fato do John Herndon ter tocado num dos dias usando uma camiseta do Black Flag.

Mas no meio disso tudo o sonho de Glass Museum continuava: em todos os silêncios que precediam uma nova música, eu olhava pra guitarra de Jeff Parker, pra ver se ele daria as mesmas seis notas que ouvi dentro do meu Fiat Uno, naquela manhã de 1996, e que iniciaram um novo ciclo na minha vida.

Foi no terceiro show, o de sábado. Naquele momento o péssimo ano de 2013 foi, oficialmente, encerrado. Dezessete anos depois, chegou a hora de voltar a sonhar.

2012 2011 2010 2009 (b) – 2008 2007 2006 2005

Estudando a Dance Music

Parte 1 – Estudando a DANCE MUSIC?!

Sim, porque se você me conhece deve estar se perguntando por que diabos eu vou escrever um post enorme sobre – gasp! – dance music. Então é importante uma explicação e um pedido. O pedido é que você faça como eu e abra seu coração a uma opinião que pode soar completamente discordante, ou até mesmo diametralmente oposta, a que você possa ter sobre o assunto. Isto posto, a explicação é a seguinte.

A chegada da idade adulta me trouxe uma série de vantagens inesperadas, como não sentir tanto sono quanto antes e também deixar de ter aquele desejo adolescente bobo de me apegar às coisas como verdades absolutas, de achar que meu ponto de vista tem que ser apaixonadamente defendido até a morte. Isso me fez passar a ver as coisas com olhos mais maduros, imparciais e, principalmente, mais abrangentes para entender/analisar as coisas da vida, especialmente aquelas que eu nunca gostei. Como a homossexualidade, por exemplo (brincadeira).

Para a música, especificamente, isso me fez deixar de frescura e entender que há um valor intrínseco em todos os estilos musicais. “Até funk carioca?”, pergunta você. Meu amigo, o funk carioca talvez seja uma das manifestações culturais mais geniais que nosso país tenha produzido desde a bossa nova. Mas isso é assunto para outro post.

E, se você não parou de ler depois do que falei sobre a bossa nova (obrigado!), concluo dizendo que, quando você se dispõe a deixar o preconceito de lado e tentar entender um estilo musical pela sua própria estética, pelo seu propósito e como ele busca cumprí-lo, você pode se divertir um bocado no processo. E é interessante começar nosso estudo justamente por aí…

Parte 2 – Música para dançar: propósito e escopo

Olha, nem tem como enrolar muito aqui: o propósito de um gênero musical chamado dance music é óbvio.

É importante frisar aqui que o que eu estou encaixando na alcunha de dance music não é só aquilo que os leitores com mais de 30 anos (meu caso) ouviam na boate nos anos 90: é tudo que tenha sido construido, como bem diz a Wikipedia, “com o objetivo específico de facilitar ou acompanhar o ato de dançar”. Ou seja, é música pra fazer você mexer a sua bunda. Aqui entram os estilos clássicos com batida 4×4 (o velho “tumtistum” quadradinho, como o house, techno, trance e similares) como também os estilos modernos, com batida quebrada (drum’n bass, dubstep).

Mas para facilitar a análise vamos estreitá-la a alguns poucos gêneros, notadamente eletrônicos, para poder isolar os aspectos que eu considero  fundamentais para se entender a dance music. Vamos chegar neles em breve.

Parte 3 – Eu me remexo muito: os fundamentos de uma música dançante

Pense na música como veículo de expressão emocional. Você ouve o “OK Computer” do Radiohead, por exemplo, e toda a angústia de Thom Yorke é evidente em cada lamento e cada riff de guitarra. E repare que você não precisa entender a letra para capturar este significado; o diálogo da música com o ouvinte acontece em um nível de significância que não é lógico nem evidente. Há gêneros musicais inteiros batizados puramente na base do seu tom emocional (como o emocore) ou com base no fato de serem mais analíticos do que emotivos (math rock). Já a dance music, de uma certa maneira, transcende a obviedade de significado e também todo o aspecto emocional – ou a ausência dele – porque, para ser eficiente, ela precisa falar ao ouvinte em um nível muito mais básico. Ela precisa estimular em você não uma emoção, mas sim um instinto, como o instinto de sobrevivência ou o instinto – tcharammm… – sexual. Afinal, não é para você ponderar sobre a inexorabilidade da vida: é para você mexer a sua bunda.

Talvez não seja exagero dizer que a dance music conversa diretamente com o homo sapiens que existe dentro de cada um de nós. É por isso que uma boa faixa de dance music é marcada não pelo som rebuscado, pela complexidade harmônica ou pelo virtuosismo dos instrumentistas (quais, né?), e sim pela exploração máxima dos elementos mais básicos da música.

Vamos aprender com um exemplo de um dos grandes mestres da dance music: Fatboy Slim e sua icônica Rockafeller Skank. Aperte play no vídeo, siga lendo e repare em como ele constrói a faixa inteira trabalhando, basicamente, quatro elementos:

  • Repetição, o elemento mais importante de qualquer música dançante, usada para deixá-la previsível e, por isso, confortável. Com 30 segundos de música, você já tem que ser apresentado à praticamente todos os elementos que a compõem. A estrutura da música muito raramente foge do padrão verso/refrão/verso, normalmente preenchendo o intervalo entre cada parte com “breaks” onde você pisa um pouco no freio mas vai aumentando a pressão gradativamente até explodir de volta no verso principal.
  • Ritmo, sempre cru, intenso e marcado. Principal responsável por lhe provocar sensações estranhas do umbigo pra baixo, nunca foge muito do bumbo/caixa/prato.
  • Textura sonora, sempre gritante (nunca discreta) e sempre contemporânea – também para conforto. Em Rockafeller Skank os elementos são samples bastante familiares de guitarra e baixo, repetidos (lembra?) ao longo da faixa.
  • Vocais, para humanização da música e  com letras “postiças”, usadas só pra reforçar o efeito pretendido e/ou dar instruções de como a música deve ser apreciada/dançada. “Check it out now! The funk soul brother” não é uma letra de música: são as instruções de como ouví-la.

Parte 4 – A semelhança entre o sushi e a dance music

Agora que aprendemos que a estrutura da dance music é básica e previsível, você pode estar imaginando que “qualquer idiota faz isso”. Mas não se iluda: tornar-se um grande produtor de dance music é algo muito mais difícil que parece, por um motivo muito simples: na dance music você tem muito menos espaço para trabalhar.

Puramente para fins científicos, vamos comparar a composição de uma música dançante com o trabalho de um sushiman. O sushi japonês tradicional (desconsiderando essas viagens com morango e cream cheese que servem nos restaurantes aqui no Brasil) é apenas uma fatia de peixe sobre um punhado de arroz. Na alta culinária você tem uma infinidade de sabores, temperos e preparos que pode usar pra fazer pratos deliciosos, mas se você quiser fazer um sushi maravilhosamente gostoso, você pode variar apenas dois elementos: o peixe e o arroz. Não dá pra botar sal, cozinhar mais (ou menos) ou acrescentar qualquer outro elemento sem descaracterizar o sushi. Na dance music é a mesma coisa: qualquer tentativa de quebrar sua estrutura ou forma praticamente padronizada a transforma em “não-Dance Music”, então o produtor se vê forçado a fazer tudo “igual mas diferente”.

E é aí que reside a genialidade: em conseguir um nível enorme de qualidade em um espaço muito pequeno de manobra. Outro dia assisti Jiro Dreams of Sushi, documentário sobre um sushiman japonês cujo restaurante tem meses de fila de espera e três estrelas no guia Michelin. O sushi dele é exatamente “peixe sobre arroz”, mas com tudo, desde a seleção dos ingredientes até a forma de preparo, aperfeiçoada em ínfimos detalhes e ao longo de décadas de trabalho. Esta é exatamente a característica dos mestres da música dançante: é tudo “tumtistum”, mas uns são evidentemente melhores que os outros.

Parte 5 – Os grandes mestres: uma exploração ilustrada

Aperte play nos vídeos e siga lendo.

Estudo de caso “a”: The Chemical Brothers

É importante começar pelos clássicos: os caras praticamente ajudaram a inventar/popularizar a música eletrônica, então deles você não espera nada menos do que genialidade. “Star Guitar” é um ótimo primeiro exemplo. Construída em cima da mesma harmonia da guitarra da introdução de “Starman”, de David Bowie, Star Guitar gira em torno de uma mesma nota praticamente o tempo todo, algumas notas se repetem em ritmo de metralhadora e, principalmente, ela abusa dos “filter sweeps”: quando você coloca um filtro no som e ele desliza do agudo pro grave (bzzzziouunnnn!) e depois pro agudo de novo (whooooosh!). Repare bem: Star Guitar é inteirinha filtrada, e os filtros lhe dão um movimento único e um tom místico, quase astral, reforçado pelo vocal do refrão que diz que “you should feel what I feel, you should take what I take”. Estariam eles falando de drogas, talvez? 🙂

Repare também que o clipe (dirigido por Michel Gondry) é uma representação visual da música: todos os elementos que você vê se repetem no ritmo dela, e se transformam conforme o som se transforma.

Os trabalhos mais recentes dos Brothers estão cada vez mais “dancefloor-oriented”. A música da cena da boate em “O Cisne Negro”, por exemplo, é deles, e contém um único vocal, que diz: “Don’t think – just let it flow”. Na dance music o espírito é exatamente este.

Estudo de caso “b”: Basement Jaxx

Se existe um Olimpo da música dançante, os caras do Basement Jaxx estão lá. “Back 2 The Wild” é o single mais recente deles.

O Basement Jaxx está num nível completamente jedi de produção musical. O normal é você ter uns 5 canais  numa mixagem de música dance: a batida, alguma coisa como baixo, um lead qualquer, um vocal por cima e alguns efeitos, e fazer isso tudo soar bem junto dá mais trabalho do que parece. Mas nas músicas do Basement Jaxx sempre tem tipo quarenta e cinco coisas diferentes tocando ao mesmo tempo, e nada é invasivo, nada briga com nada. Eu já ouvi “back 2 the wild” umas 50 vezes e toda vez eu acho algum elemento que não tinha ouvido antes.

Exercício: tente encontrar, em “Back 2 The Wild”:

  1. Um apito
  2. O “woop!” de “Sound of da police”, do KRS-One
  3. Uma buzina de carro (esse é difícil, mas acredite, tá lá)

E o mais legal é que eles também conseguem perverter a regra da repetição: alguns destes elementos são usados apenas uma vez na música toda, e nunca mais voltam.

Estudo de caso “c”: Crookers

Se você jogou “Ballad of Gay Tony”, a expansão do Grand Theft Auto 4, você já ouviu Crookers: foram eles os responsáveis pelas músicas da boate onde o protagonista trabalha.

A genialidade dos Crookers é seu “custo-benefício”: faixas extremamente simples e incrivelmente poderosas. Ao contrário do Basement Jaxx, as faixas tem uma batida seca com no máximo três elementos (bumbo, caixa, prato), um lead muitas vezes dobrado junto com o baixo, e… apenas isso. Só que eles tem uma capacidade ímpar de escolher exatamente a batida certa, exatamente o lead certo, e de repetir isso na linha extremamente tênue entre o divertido e a idiotice. A impressão inicial ao ouvir Crookers é a de que você está tendo um derrame, mas que isso é divertido.

Repare que “Knobbers” tem apenas um instrumento na música toda… mas ele pesa uma tonelada.

Apêndice: Leitura (auditiva) Complementar

Outros nomes interessantes da música dançante para explorar:

  • Buraka Som Sistema – Produtores portugueses que “recolonizaram” a África e pegaram emprestado seus melhores elementos rítmicos. Fora que dance music cantada em português é sempre engraçado. (Amostra: Sound of Kuduro – não é aquela porcaria da novela, é “the real deal”, direto de Angola)
  • Simian Mobile Disco – Eles tem uns discos ruins, mas o Attack Decay Sustain Release é um espetáculo, e alguns álbuns menos conhecidos (como o “Delicacies”) são feitos bem especificamente para a pista de dança. (Amostra: Hustler)
  • Rustie – Décadas ouvindo música eletrônica e nunca ouvi nada como esse cara. A energia contida em cada uma das suas faixas poderia alimentar uma pequena cidade por 6 meses. (Amostra: Ultra Thizz)
  • Vitalic – No mesmo estilo “Crookers”, mas para um público mais classe A, faixas simples mas que pesam uma tonelada. (Amostra: La Rock 01)
  • Toy Selectah – Essa história de globalização tem uns produtos engraçados, tipo essa mistura de raggaton colombiano com música de festa rave. (Amostra: La Ravertona)

Observações pertinentes e oportunas sobre assuntos totalmente aleatórios

Achei que tinha desenvolvido uma tolerância à cafeína depois que comecei a ficar com sono logo depois de beber café espresso. Mas aí reparei que a forma que bebo cafeína é que faz diferença no tanto que ele me acorda.

Donde temos a seguinte escala:

  • Espresso – Efeito nulo ou negativo (me dá sono)
  • Café de coador – Efeito leve. Os cafés ruins de escritório (estilo ‘café de asa de barata’), sem açúcar, são um pouquinho mais eficientes.
  • Café solúvel – Efeito considerável. Destaque para o Nestlé DuoGrão (a.k.a. “do ogrão”), que mistura café solúvel com pó de café puro. A cafeína lhe dá um tabefe na cara quando você bebe.
  • Café americano (aquele do Starbucks) – Efeito bastante consideravel, mesmo no tamanho pequeno (“tall”).  No final do copo eu já estou me sentindo meio Papaléguas.

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Estava vendo minha music library e pensando: é praticamente um milagre eu não usar drogas. Nos últimos tempos eu ando ouvindo muuuuita música de noiado/frito/v1d4l0k4. Exemplos:

  • Mad Lib: Discos com 50 faixas de 1 minuto cada, todas feitas de uma brisa das mais abstratas. É filosofia stoner, versão musical.
  • Ras G: Eu ouço e dá pra imaginar o próprio Ras no meio da nuvem de fumaça, falando, arrastado: “Dude…. duuuude… u feelin this?…” (ps.: a faixa 11 do disco se chama “jus feel”)
  • Emeralds: A música se repete, repete, repete, repete, repete… e então o ácido bate.
  • OOIOO: Versão japonesa do Santo Daime.
  • Rustie: É tipo o cara que cheira uma linha e sai andando pela pista de dança se sentindo o próprio Alexandre Frota.
  • SugarBeats: Tu toma um “E” e aquele show de funk (não o carioca, o de James Brown) subitamente fica… crocante.

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Eu continuo naquelas de contratar gente, o que significa ver milhares de CVs, o que significa ver coisas bizarras como:

  • Gente que manda CV e no cabeçalho, logo debaixo do nome, vem o nome artístico.
  • Gente que coloca hashtags no subject do email. Tipo: #Curriculo #Vaga #Projetos.
  • Teve uma menina que incluiu uma citação de Mary Poppins no final do CV. Dizia assim:

Em cada trabalho a ser feito há um elemento de diversão. Você acha a diversão e – pronto! – o trabalho vira um lazer!

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Num fim de semana desses aí fomos conhecer Campos do Jordão. Sim, tá no verão, mas os dias estavam chuvosos e frios (a.k.a. “verão em São Paulo”).

As pessoas chamam Campos do Jordão de “a Suíça brasileira”. Na verdade é uma “Suíça wannabe“, como bem definiu Bethania. Os caras fazem os telhados pontudinhos, servem fondue por tudo que é canto e – voilá! – eis a Suíça… versão brega.

Pra piorar, a cidade não funciona/não entrega:

  • No posto de informações turísticas, logo na porta da cidade, ao ser perguntada sobre opções de turismo para dias chuvosos como aquele, a mocinha respondeu: “então né… chovendo assim é complicado…”
  • Agendamos uma visita à fábrica da Baden Baden, quando o tour começou a mocinha disse que não teríamos acesso à fábrica por questões de segurança e o “tour” foi ela levando a gente pra ver uns barris de cerveja e lendo uma timeline com a história da cervejaria pregada na parede. Durou 10 minutos. No final deram dois copos de cerveja pra cada um, possivelmente pra ver se, bebendo, a gente esquecia aquela picaretagem.
  • O Palácio da Boa vista fecha pro almoço (bem na hora que chegamos lá). Aí, pra não perder a viagem, resolvemos ir ao Café do Palácio, que – surpresa! – não tinha café.
  • A aclamada “Fazenda Lenz Gourmet” é uma terrível armadilha pra turistas: de gourmet só o nome, porque o garçom errou tudo do nosso pedido, do ponto da carne às bebidas. A “área de lazer” da fazenda é deprimente, parece um galpão abandonado.

Você não precisa nem do seu nome

Toda vez que eu escuto o podcast do The Hype Machine eu acabo tendo altos insights, não apenas sobre música mas sobre um monte de coisas.

O podcast tem um quadro onde eles entrevistam gente da “blogosfera musical” e pedem indicações musicais. Na edição de agosto os entrevistados foram os caras do No Fear of Pop, e eles contaram uma história fantástica…

Eles receberam um email anônimo, de uma linha, dizendo apenas: “oi, eu sou um produtor anônimo e esta é uma das minhas músicas”. Foram ver e a faixa era tipo um pós-UK-grime estilo Burial, mas muito bem produzido, e então eles acabaram postando a música. E a partir daí toda semana foram recebendo outros emails anônimos com mais faixas.

E acabou que esse cara totalmente anônimo foi a recomendação musical deles no Hype Machine. Foi curioso ouvir o locutor anunciando: “All right, let’s check it out, this is ‘unknown’ on Hype Machine Radio”.

Pensa bem: um cara anônimo produziu umas coisas em casa, mandou um email pra um casal de blogueiros berlinenses e isso foi parar  em vários outros ouvidos mundo afora – simplesmente surfando no hype. Não foi preciso nenhuma divulgação, jabá, publicidade, endosso de celebridade, nada. Não precisou nem do nome do compositor.

E é interessante como a “máquina do hype” é poderosa. No mesmo podcast comentaram sobre o disco novo do Tame Impala que sai em outubro e dizendo que a banda soltou alguns singles online e os blogs todos repostaram. E só então me toquei que eu nunca vi sequer um bannerzinho em flash em nenhum canto da internet dizendo “Ouça o novo do Tame Impala”. O fato é que, fora do mainstream, simplesmente não existe publicidade para bandas e ainda assim o Tame Impala lotou o Cine Jóia aqui em SP semana passada.

O que me leva a crer que há uma grande chance de que a minha nova profissão não exista mais daqui a algumas décadas.

O fracasso total da minha primeira compra na iTunes Store BR

O Satanique Samba Trio é uma das pouquíssimas bandas brasileiras que eu sou realmente fã: comprei todos os discos, a maioria no saudoso eMusic, (que por uma imbecilidade jurídica está bloqueado para brasileiros), fui em vários shows deles (um deles na maldita Brasília)… até a única camiseta de banda que tenho é deles.

O último disco deles era de 2010, e como não tenho mais tempo pra acompanhar música, só na última quinta descobrir que eles tinham lançado um disco novo em janeiro desse ano. Fiquei louco e, na pressa de descobrir a maneira mais rápida de adquirir o disco, lembrei da iTunes Store brasileira. E ele tava lá, a US$ 10, preço mais do que justo. Comprei na hora.

Resolvi separar o pouquíssimo tempo diário que eu consigo passar sozinho e sem interrupções – ou seja, o trajeto de trem que eu faço de casa pro trabalho – pra poder saborear o disco novo tranquilamente. Aí me preparei todo, botei o disco em dois iPods diferentes pra não ter erro, peguei meus caríssimos fones de ouvido novos, saí de casa e, sorridente, apertei o play.

E então eu descobri que todas as faixas tinham sido baixadas pela metade.

Sim, faixas originais, compradas diretamente da Apple na iTunes Store brasileira… todas com a porra do download corrompido! Arruinou completamente a minha primeira audição de um disco que eu esperava desde 2010.

Mas o que mais me indignou é que, se eu tivesse baixado o disco no torrent ou nos inumeros blogspots de música pirata da internet, com toda certeza do mundo o disco ia estar perfeitamente funcional.

Foi minha primeira e última compra na iTunes Store.  E se bobear minha primeira e última compra em qualquer distribuição digital que não seja diretamente relacionada ao artista.

Update: Nas últimas semanas tá rolando um rebuliço na internet por causa da história de Ellen White, estagiária da NPR (uma rádio norte-americana), que escreveu um post dizendo que tem 11000 músicas no iTunes e que só comprou 15 CDs até hoje. Uma das melhores respostas foi uma longa carta aberta do músico David Lowery que é tão tocante que me fez abandonar completamente e de uma vez por todas o download de música pirata na internet. É sério, acabo de gastar US$ 30 no Bleep.com inclusive 🙂

Silêncio

Se você parar pra pensar, a ideia usual que se tem do silêncio é uma ausência, um vazio.

Daí hoje de madrugada eu aproveitei a quietude da cidade pra pensar nisso e percebi que há um aspecto que normalmente a gente não considera: o do silêncio como uma possibilidade. A falta de sons como a chance de qualquer um deles.

Talvez seja isso que John Cage pensou ao conceber 4’33, sua composição mais famosa, composta unicamente de silêncio. Não usar nenhum som não significa nada, na verdade implica em um universo interpretativo onde tudo é possível.

Alem disso, a não-coisa não existe apenas para que a coisa ao qual ela contrasta exista. Se a sombra é a ausência de luz, isso não faz com que a sombra seja uma não-coisa, pois ela é também um conceito concreto, mesmo que seja feita da ausência de algo. Mas no universo sonoro o silêncio – a não-coisa que define o som – é, por alguma razão, desvalorizado ou até desconsiderado.

Da próxima vez em que tiver a (rara) oportunidade de ouvir o silencio, observe como ele é aquilo que “podia ter sido e que não foi”*. Talvez nisto esteja a base da sua intrínseca beleza.

* – Aproveitando aqui a frase de Manuel Bandeira, para descrever o indescritível.

Shows que merecem um post: Girl Talk

Shows sempre são cheios de surpresas pra mim. Da última vez, quis ver o Radiohead mas acabei fritando mesmo com o Kraftwerk. Sábado passado, no Planeta Terra, não foi diferente: fui pra ver o Pavement, mas gostei mesmo foi de ninguém menos que Girl Talk.

Já eram duas da manhã e eu estava exausto, desidratado, e gastando minha última ficha de cerveja em frente ao “palco Indie” (que nomezinho) quando Girl Talk subiu sozinho no palco. Ainda não tinha nada tocando mas o cara já estava em cima da mesa de som, gritando, alucinado: “LEMME HEAR YOU MAKE SOME NOOOOOOOOOOOOOOISE!!!!”. E aí entra a música e uns assistentes dele pegam uns leafblowers (sabe, aqueles sopradores de folha?) com rolos de papel higiênico amarrados na ponta e começam, numa gambiarra genial, a disparar papel higiênico no público como se fosse serpentina. E era MUITO papel higiênico. Ironicamente, no outro palco Billy Corgan tocava um show chato usando uma camiseta escrito “NATURE”, ao invés do clássico “ZERO”, enquanto a gente tava lá desperdiçando metros e mais metros de papel. E quando o caos já estava completamente instalado, de repente sobem umas TRINTA pessoas no palco – gente aleatória, da produção, de outras bandas, VIPs, repórteres, etc. – que começam a dançar e jogar ainda mais papel higiênico uns nos outros. Gregg Gillis (o Girl Talk em si) era de longe o mais animado: o cara estava absolutamente elétrico, pulando e dançando e gritando o tempo todo com um vigor indescritível, inacreditável.

Entendi a proposta na hora.

Instantes depois, apesar de exausto e desidratado, eu fui parar na grade em frente ao palco, pulando e cantando junto. E foi assim que eu vi um dos shows mais divertidos de toda a minha vida.

Aí você deve estar pensando “Porra! Mas teve PAVEMENT no mesmo dia e cê tá aí pagando pau pra um cara que não faz nada além de tocar Britney Spears misturado com Kanye West misturado com Rihanna?”. Sim, porque a proposta de Girl Talk não era a de fazer um show “musical”, como o das outras bandas, que efetivamente tocaram alguma coisa, que possuem importância histórica e uma discografia ilibada (como o Pavement). A proposta do show do Girl Talk era justamente a de largar toda essa seriedade de lado e simplesmente se divertir. E nada mais divertido que música pop, pirateada e misturada de forma avacalhada – o que, em si, é uma forma de perverter a indústria do entretenimento, coisa que sempre dá uma satisfação interior. Claro que teve um monte de indies cabeçudos que não se permitiram curtir o show porque tocava 30 segundos de Britney Spears ou porque misturava Jay-Z com Black Sabbath. Eu mesmo confesso um breve instante de descrença de mim mesmo quando me peguei cantando, a plenos pulmões, o refrão de “Living on a prayer”. Mas era justamente isso a parte divertida do show: a oportunidade de abandonar preconceitos e festejar.

E, convenhamos, tem umas combinações que você jamais imaginaria que funcionariam tão bem, como Lady Gaga e Aphex Twin…

Veja uma parte do show aqui (dá até pra me ver em 5:50), ou baixe All Day, o disco novo de Girl Talk, gratuito e ilegal, aqui.

Músicas que merecem um post: “A Real Woman”, Squarepusher

Primeiro, contexto. Você precisa saber de quem estou falando, se é que ainda não sabe. Segundo o olhar penetrante de Jimmy Wales:

Squarepusher é o pseudônimo de Tom Jenkinson, um músico inglês contratado pela Warp Records. Ele é especializado nos gêneros de música eletrônica chamados drum and bassacid, com influências significativas de jazzmusique concrète.

É importante você saber também que Tom Jenkinson não é apenas um “produtor” que sabe operar um laptop e alguma parafernália eletrônica: ele é um baixista. Isto é importante para entender por que “A Real Woman”, a quarta faixa do disco “Just a Souvenir” (de 2008), é tão genial que, sozinha, mereceu este post enorme.

Agora você já pode clicar no “play” aí embaixo e continuar lendo.

“A Real Woman” já garante uma “simpatia” inicial ao partir de uma combinação simples mas extremamente eficiente de punk rock, Kraftwerk e jungle/drum and bass. Mesmo que seja pra ouvir só en passant, sem prestar muita atenção, enquanto lê/come/vê TV/etc., a música já funciona bem pela facilidade com a qual os três elementos se misturam. As qualidades de cada um deles – o repique do drum and bass, o vigor do punk e a voz “vocoderzada” do Kraftwerk – foram cuidadosamente orquestradas para se misturar sem disputar espaço, complementando uma à outra.

Daí você pega os fones de ouvido e escuta “A Real Woman” de novo, desta vez prestando bastante atenção nos detalhes. E aí ela vai ficando cada vez mais genial.

Comecemos pela mixagem: a faixa abre só com a bateria, que soa fabulosamente bem, a ponto de eu não conseguir distinguir se ela é eletronicamente programada ou não. Artistas do drum and bass tomam um cuidado todo especial com a bateria (porque, oras, ela é 50% do drum and bass), e em especial com o snare drum (a “caixa”). Ela, assim como o bumbo, é repetida à exaustão e é quem sustenta todo o som da bateria – o bumbo marcando o tempo e a caixa, no contratempo. Sabendo que a combinação bumbo-caixa é a “alma” de uma boa música, Squarepusher obteve, sei lá como, o som mais lindo de snare drum que eu já ouvi em toda a minha vivência musical e botou nesta faixa. Na mixagem eu quase consigo enxergar (sim, com os olhos, sinestesia FTW) a pele do tambor vibrando, tamanha a precisão e clareza sonora. Repare também que nenhum outro tambor é usado na música – simplesmente porque não precisa. Todos os fills são feitos só com os pratos, o bumbo e variações do repique da caixa – todos inacreditáveis.

E então a música abre e segue sua levada punk. Uma das notoriedades do punk rock é sua “pobreza harmônica”. Mas sem ofensa; refiro-me ao fato de que o punk rock é baseado na “simplicidade com intensidade”: letras fáceis, guitarra tocada de forma básica e – aqui vem o principal – uma harmonia muito, muito simples. Quatro acordes, no máximo. Nada de firulas como “Sol com quinta aumentada” ou “Fá diminuto” – é tudo simplão, toscão, são todos acordes que qualquer um aprenderia a tocar só de ler numa revistinha, daquelas de banca, com músicas cifradas da Legião Urbana (hehe) e tal. Só que Squarepusher é conhecido pelas suas influências de jazz – e jazz está no extremo oposto da simplicidade harmônica do punk. Além do mais, ele é um baixista, e baixistas, como fazem uma espécie de “base harmônica” no som de uma banda, tendem a entender muito bem de harmonia e não se intimidar para fazer modulações, usar dissonâncias e fazer transições bem pouco intuitivas ao longo de uma música. Só que em “A Real Woman” Squarepusher se propôs a fazer um punk rock. E é aí que reside outro aspecto da genialidade da música: ele usa a simplicidade do punk como elemento de contraste, intercalando, em três momentos no meio da música, uma longa frase de baixo, complexa, dissonante e em tercinas – que, por ser o oposto de todo o resto da música, a completa como obra de arte.

Tá, essa foi difícil de entender, eu admito. Mas vamos por partes: primeiramente, estou falando de uma frase musical, ou seja, não é nada que ele canta, e sim uma sequência rápida de notas que ele toca no baixo. Esta frase aparece pela primeira vez aos 0:41 segundos e termina aos 0:51. Ouviu? Agora repare que a estrutura da música é assim:

  • Introdução e o primeiro verso
  • A frase maluca do baixo (aos 0:41, durando 10 segundos), que quebra a sequência simples que a música tinha até então, circula por uma série de tons malucos, mas termina no mesmo tom do primeiro verso (lá bemol).
  • Um segundo verso, musicalmente igual ao primeiro mas com a letra diferente.
  • A frase maluca de novo, aos 1:26 segundos – mas repare que desta vez ela está quatro segundos mais longa (vai até 1:40), e não termina no mesmo tom do verso anterior, e sim uma quinta menor abaixo (em mi), o que permite introduzir…
  • …um verso todo novo, um pouco mais, digamos, “agressivo”, que começa a quebrar a sequência punk-rockeira simples e até termina dissonante (aos 1:57), como que para dar a entender que há algo muito mais complexo querendo sair de dentro da faixa.
  • Aí vem um terceiro verso, também musicalmente igual ao primeiro, mas com pequenas variações na letra e nos fills da caixa da bateria. E aí a música caminha para o fim…
  • …aos 2:46, quando a frase maluca de baixo volta e é tocada inteira, fechando a música.

A beleza desta frase de baixo (que, após algumas audições, vai ficando mais amistosa e fácil de entender) é que ela é o que “costura” os versos da música: se você deixa de lado os 4 segundos finais dela, você “desce” da sequência de notas em lá bemol e pode engatar os versos-base. Se você toca ela inteira, vai “descer” dela numa quinta menor, e aí pode tocar o verso diferente ou finalizar a música. É como se a sequência de notas fosse o DNA da faixa.

A discografia de Squarepusher é bastante rica. Além do “Just a Souvenir”, valem uma audição o “Hard Normal Daddy” (de 1997, um clássico) e o “Go Plastic”. O “Big Loada” tem o clipe mais divertido da história (o de “Come on my selector”, imperdível), mas o disco é meio mais ou menos.