Um bom cafuné muda tudo

É primavera em Toronto, o que significa que as temperaturas já deveriam estar bem melhores do que estão mas que, na verdade, ainda tá frio pra caralho. Por isso, faziam uns miseráveis 2 graus quando saí pra caminhar com Pavlov, como faço todo santo dia de manhã. Pavlov honra seu nome: ele é um cachorro de hábitos. Era terça, portanto eu já sabia que ele iria querer passear no parque. O roteiro de sempre inclui pegar a trilha padrão e passar bem debaixo da ponte do Humber River.

O que eu não sabia é que, ao passar por lá, eu olharia pra cima e haveria um gato escondido debaixo da ponte.

Eu já vi tudo que é bicho no parque – incluindo guaxinins e até um gambá, mas gato é muito raro de ver – e quando aparecem eles saem correndo e eu acabo ignorando, pensando que trata-se de um clássico gato de rua. Já esse aí parou e me olhou fixamente nos olhos. Esse foi o meu erro. No instante em que fizemos contato visual rolou um momento místico de comunicação não-verbal onde ele me disse, claramente, o seguinte: “help!“.

Naturalmente, eu racionalizei meu instinto e pensei que não tem isso de entender bicho só de olhar pra ele (mentira, eu faço isso todo santo dia com Pavlov), que provavelmente ele veio de alguma das casas da região, que resolveu dar um passeio estendido, e acabei deixando pra lá.

No dia seguinte, uma quarta, choveu muito e não consegui andar com o Pavlov. Quinta é dia dele fazer outro trajeto, pra poder otimizar seus xixis de marcar território e manter seu domínio urinário na maior área possível, mas acabei forçando a barra pra voltarmos pro parque e ver se o gato ainda estava lá. E, de fato, lá estava ele… exatamente no mesmo lugar. Minha racionalização morreu na hora: ficou óbvio que não era um gato de rua, e que eu não ia conseguir simplesmente ignorar aquele fato e ir trabalhar.

Voltei pra casa e comecei a pensar no que fazer. Eu nunca lidei com animais perdidos na vida. Portanto, fiz o que qualquer pessoa racional faria… digitei “o que fazer com gatos perdidos” no Google. O site da prefeitura de Toronto dava algumas instruções e indicava um outro site chamado “ajudando animais perdidos” (helpinglostpets.com). O layout do site está congelado no tempo desde 1990, o que me fez duvidar de que aquilo iria adiantar alguma coisa, mas acabei inserindo um relato de que havia visto o gato na ponte do parque.

Depois, peguei um pouco da comida do Pavlov e voltei ao parque. No frio de 2 graus, vestido de roupa social, eu me dependurei na ponte de maneira bastante irresponsável pra poder deixar um pouco de comida pro bendito do gato. Ele percebeu a manobra, se aproximou pra comer mas logo voltou a se esconder dentro da estrutura da ponte, fora do meu alcance. “Bom, pelo menos de fome ele não morre”, pensei.

Algumas horas depois recebo um email de uma tal Brett, voluntária do “Toronto Cat Rescue” (uma ONG de resgate de animais), dizendo que viu o relato no site e poderia tentar resgatar o gato se eu desse as coordenadas exatas de onde ele estava.

A gente se encontrou no parque e eu vi que estava, de fato, lidando com uma profissional do resgate felino: o marido dela deixou duas gaiolas estrategicamente posicionadas pra conseguir capturar o gato quando ele saísse, e organizamos um mini-plantão pra fiscalizar as gaiolas e garantir que o gato continuava seguro. Apesar de tudo, só no sábado ela conseguiu capturá-lo.

– “Ele é super dócil, tá lá no banco de trás do meu carro como se nada tivesse acontecido”, disse ela. Ficou claro que era um gato “criado com vó” que acabou perdido no parque sem a menor noção do que fazer pra sobreviver. Ela contou ainda que o gato possivelmente foi abandonado no parque por alguém que não queria mais ficar com ele. “Acontece muito nessa região”, ela disse. “Ele foi claramente criado dentro de casa, não tem nenhum instinto de sobrevivência”, complementou ela, confirmando o que eu já tinha percebido pela cara do gato de que não tinha a menor ideia de como sair dali. Ela explicou também que o gato ia ser examinado, vacinado, esterilizado, e depois iria pra adoção.

Eu, que nunca tomo decisões por impulso, digo na mesma hora: “eu posso ficar com ela”.

Fica a dica: JAMAIS olhem um gato nos olhos, ou esse tipo de coisa vai acontecer com vocês.

Alguns dias depois, Brett me manda uma mensagem dizendo que:

  • Não é “o gato”, e sim “a gata”
  • Ela tem uns 4 anos e já havia sido esterilizada, confirmando a teoria de que era sim uma gata doméstica que foi abandonada
  • É a gata mais dócil que existe: não curte correr e pular, mas adora ficar na cama e ganhar cafuné
  • Não tem pressão nenhuma pra ficar com ela: se eu mudar de ideia, posso ter certeza de que ela vai ser adotada por outra pessoa e ganhar um lar.

Se você está pensando “cara, mas você já tem um cachorro”, eu te digo que sim, era nisso que eu estava pensando… mas com a diferença de que minha preocupação era a seguinte: “será que meu cachorro vai se dar bem com a gata?”. De novo, nunca olhem um gato perdido nos olhos.

Alguns dias depois resolvi visitar a gata com meu cachorro, pra ver como ele reagiria. Ela estava ficando num quartinho da casa da Brett. “Entra você primeiro, pra gata ir se acostumando, depois a gente entra com o cachorro”, disse ela. Quando entrei no tal quartinho, Brett subiu no meu conceito de “profissional de captura felina” para “doida dos gatos”: o quartinho da casa dela era basicamente um hotel para gatos resgatados, com gaiolas, caixas de areia, brinquedos, música ambiente e uma confortável almofada no peitoril da janela, onde a gata estava deitada. E, pendurada acima dela, uma placa de carro personalizada que dizia “CATRESCUE”

“Agora é só eu chegar perto da gata e ela me morder, ou ela se desesperar com Pavlov, e aí acaba essa viagem errada de ter gato”, pensava eu, tentando achar uma saída lógica e honrosa pra minha situação. Cheguei perto dela, ela me olhou de volta com aquela cara de “ei, eu conheço você, humano”. Falei um “oi” (em inglês, afinal ela é canadense) e fui tocá-la pra ver como ela reagia. Foi quando finalmente paramos de fazer contato visual, porque ela fechou os olhinhos pra ficar curtindo o cafuné. E então, enquanto pensava “me fudi”, aprendi que dá pra sentir amor e desespero ao mesmo tempo.

Fui buscar Pavlov pra conhecê-la. Pavlov, como previsto, demonstrou o típico déficit de atenção de cachorro, que pode ser resumido em:

– “Uau cara! Estamos passeando! Que fantástico! Olha, tem essa casa nova aqui! Uau, tem esse quartinho aqui! Olha, ali tem uma gata! Olha só quanta coisa pra eu ver! Vamos pra rua de novo? Vamos? Vamos?”

Já a gata olhou pra Pavlov e, ao invés de pensar “estamos sendo invadidos!! VAMOS TODOS MORRER!” ou de demonstrar agressividade do tipo “MORRA ESCÓRIA CANINA!!”, ela fez uma cara de “que criatura curiosa”, e voltou a se deitar – o que é um ótimo sinal.

Dois dias depois o pessoal do Toronto Cat Rescue me mandou a papelada da adoção, paguei a taxa e, na sexta à noite, botei a gata no carro e fui pra casa, pensando “putaquepariu agora eu tenho uma gata”.

Junto com os papeis da adoção veio um PDF enorme de procedimentos com felinos, incluindo uma seção sobre como introduzir cães à gatos que pode ser resumida em uma frase: “não vai ser fácil”. Felizmente, violência não seria problema, já que Pavlov é praticamente Gandhi em forma de cachorro e a gata é incrivelmente passiva quando ameaçada – fato já demonstrado pelo fato dela ter ficado uma semana debaixo da ponte no mesmíssimo lugar. O duro é que Pavlov, também honrando a reputação científica, ficou extremamente curioso com a gata e queria desesperadamente cheirar e pegar e rodear e ficar o tempo todo próximo dela… isso tudo no momento mais traumático pra ela, que é a mudança de ambiente. O “manual” em PDF da gata já alertava que seriam umas duas semanas até ela se acostumar com a casa nova – e isso se não tivesse o cachorro.

Felizmente, Deus olha pelos seus filhos irresponsáveis mas de bom coração que pegam bicho na rua, e a adaptação dos dois correu bem – e mais rápido – que eu esperava. A gata achou uns cantinhos na casa pra se esconder dos avanços de Pavlov, e ele foi gradativamente ficando menos curioso. Aos poucos, a gata foi começando a criar coragem de sair dos esconderijos e se aventurar pela casa.

A foto acima é o sexto dia da gata aqui em casa, quando a curiosidade canina e o pânico felino deram lugar a um interesse mais comedido de ambas as partes. Segundo o manual da gata, era pra ela ainda estar tendo “interações supervisionadas com o cachorro encoleirado e sob controle em todos os instantes”, mas basicamente deixamos ambos se virarem sozinhos. Pavlov é dócil mas não é bobo, e começou a “policiar” os corredores e as portas dos cômodos onde a gente ficava, porque percebeu que ela tinha medo de passar perto dele. Já ela aprendeu rapidinho que, se não fizesse a Beyoncé e demonstrasse confiança, iria passar a vida confinada em esconderijos.

Agora já vamos pra duas semanas de gata em casa e ela já está confiante o suficiente pra perambular por onde quer – embora ainda tenha seus cantinhos preferidos. Pavlov está morrendo de ciúmes da confiança dela, mas está aprendendo a dividir a atenção. Tirando uma ou outra provocação eventual, ambos já convivem super bem, a ponto de poderem dormir conosco e tudo.

Mas vou ter que parar de escrever este post porque tem um negócio dando interferência no meu teclado…

Aí você pergunta… mas e o nome da gata? A primeira e mais óbvia opção seria Schrödinger, por razões óbvias, mas ela sendo fêmea e eu menos imaturo acabei deixando passar essa. No fim, Bethania deu uma boa sugestão, inspirada no que a gata mais curte receber:

“E se a gente chamasse ela de Cafuné?”

Coisas do fim de semana

A minha rotina de final da sexta-feira usualmente inclui aeroportos, táxis e, ao chegar em casa, ser recebido por um cachorro alucinado pulando na minha perna.

Só que desta vez eram dois cachorros…

20080519

O outro é Banzé, autêntico vira-lata, pertencente à uma amiga de Bethania, que estava “hospedado” lá em casa enquanto ela viajava. A estadia foi relativamente tranquila e me fez aprender duas coisas sobre cachorros:

  • Cães sentem ciúme. Muito ciúme. Pavlov quase morria de ódio quando eu brincava com Banzé.
  • Cães machos começam a “marcar território” desenfreadamente quando colocados no mesmo ambiente. Isso eu descobri ao ver uma mancha amarelada enorme no edredom que cobria a minha cama.

Aí, quase meia-noite, e lá fui eu fui ao supermercado comprar outro edredom para poder sobreviver à esse frio paulistano. Passando pelo estacionamento, vejo três caras em volta de um carro, portas abertas, som ligado. Um deles se levanta e, completamente de repente, começa a fazer a dancinha do Soulja Boy. Foi épico!

Ainda no ramo das dancinhas: sábado fomos levar os caninos no Ibirapuera e vi uma rodinha de adolescentes com trance “bate-estaca” tocando na maior altura e todo mundo dançando uma mistura psicodélica de Soulja Boy + “moonwalk” do Michael Jackson + Dance Dance Revolution. Perguntei um dos moleques e ele me disse que aquilo era um tal “Hardstyle”.

Pelo que a Wikipedia me disse, existe toda uma cena dessas dancinhas “Hard-qualquer coisa” (esse vídeo mostra algumas variantes). A origem parece ser um tal “Melbourne Shuffle”, que nasceu nos anos 80/90 e ganhou um impulso todo novo por conta do YouTube.

Anoiteceu, e a noite paulistana é famosa no Brasil inteiro pela sua diversidade: tem de tudo, pra todos os gostos, o tempo todo. Fato comprovado, já que no sábado à noite eu e Bethania fomos parar em… um evento beneficente do 1o Grupo Escoteiro São Paulo. Mas foi ótimo, tinha pizza à vontade e aprendemos com os escoteiros que dá pra cozinhar um ovo no espeto. Sim, nós também duvidamos. Sim, nós também fomos procurar vídeos disso no YouTube.

O domingo foi um dia preguiçoso, composto basicamente pelo edredom novo, eu, Bethania e o Discovery Channel. No final do dia fomos ao cinema pra ver “Quebrando a banca”, baseado em livro homônimo (que, me disseram, é melhor que o filme) sobre moleques superdotados que vão à Las Vegas, contam cartas de blackjack e… bem, quebram a banca. Uma das cenas não me saiu da cabeça e não consegui dormir enquanto não entendi o assunto: era uma onde professor e aluno discutiam o chamado “Problema de Monty Hall”, cujo enunciado é mais ou menos o seguinte:

Suponha que você está num programa de auditório e tem 3 portas para escolher. Em uma delas tem um carro; nas outras duas, cabras. Você escolhe uma porta – a número 1, por exemplo – e o apresentador, que sabe o que há atrás das portas, abre outra porta – a número 3, por exemplo – aonde há uma cabra. Daí ele lhe dá uma chance de trocar sua escolha para a porta número 2. É mais vantajoso trocar sua escolha de porta?

A resposta correta é totalmente contra-intuitiva: trocar de porta faz com que suas chances de ganhar aumentem para 66,6%. Eu levei um tempão para entender esta resposta, já que pra mim (e para 10.000 leitores de uma revista americana onde este problema foi publicado) as chances de ganhar trocando ou não de porta eram de 50%. É um bom quebra-cuca.

A incrível árvore genealógica de Pavlov

Outro dia Bethania me entregou o pedigree de Pavlov: um documento com o registro dele na Sobraci e uma penca de informações, incluindo sua árvore genealógica.

E, meus caros, a árvore genealógica de Pavlov é simplesmente inacreditável.

O nome "completo" de todo cachorro é o nome real dele mais o nome do canil ou do criador. Assim, Pavlov é, na verdade, "Pavlov Ours En Peluche", filho de Shayenn Dragon Axe Skywalker, neto de Fatal Vision Thabata, bisneto de Black Devils Lashio e trineto de ninguém menos do que Druida Singtuk of Old Sheperd!

20071113

Pra piorar, o mundo sexual canino é realmente uma cachorrada, então tem macho que é bisavô e trisavô ao mesmo tempo, fêmea que é bisavó por parte de mãe e também de pai, etc.

Um instante nonsense na segunda-feira

Mais ou menos duas e pouco da tarde. Eu estou em casa, no notebook, estudando o emocionante capítulo de "Quality Management" do Livro da Rita – o livro preparatório para o PMP, que pretendo tirar ainda este ano. Já até paguei (caro) para fazer a prova, só falta marcar o dia. Pavlov está dormindo debaixo da mesa, em frente ao subwoofer, como de costume. Aí toca o interfone.

– Quem é?
– Correio. Tem que assinar.

Tem que assinar porque é carta registrada urgente. Bem, pelo menos é isso que diz no selinho dos Correios, porque, pelo carimbo da postagem, ela levou sete dias pra ser entregue.

Levantei e fui colocar uma roupa. É que eu estava estudando de cueca, já que aqui em casa faz um calor absurdo de dia, e a janela do escritório dá de frente para o telhado de amianto de um galpão, que reflete o calor todinho pra dentro da minha casa.

Enquanto eu vestia uma bermuda, Pavlov entra em modo "enlouquecido": ele já aprendeu que, quando estou me vestindo ou calçando algo, é porque provavelmente vou levá-lo para passear. Bem, o passeio é só até a garagem, mas ainda assim ele se empolga como se fosse viajar para o Tibet.

Aí eu abro a porta da garagem e vou até o carteiro. Pavlov vai na frente, alucinado, e fica parado no portão, abanando o rabo. Botei ele no colo para que ele não fugisse e comecei a assinar a papelada. Aí Pavlov começa a se contorcer alucinadamente:

– Ei, peraí Pavlov, senão você vai ca…

"Cair", eu ia dizer. Mas completei a palavra quando ele já tinha se espatifado no chão e saído correndo. Alguns segundos depois eu entendi a razão do desespero: ele viu Toby, o cachorro do vizinho, que apareceu na garagem para fazer não-sei-o-quê com uns pneus velhos. Pavlov e Toby tem uma rixa de longa data: Toby acha que é o dono do prédio e acha que Pavlov é seu concorrente. Pavlov não está nem aí pra isso e só quer "conhecer" Toby. Digo "conhecer" num sentido sexualmente ativo…

O carteiro percebeu e ficou rindo da minha cara:

– Peraí, os dois são machos? Pô, cara, bate um papo lá com seu cachorro, ele tem que se ligar que o lance é outro…

Assinei logo a papelada e corri para tentar colocar alguma clareza nos pensamentos de Pavlov. Toby estava completamente irado e começou a fazer xixi em todos os cantos, como que para mostrar que aquele território era dele e de mais ninguém. Pavlov, completamente sem noção, só queria saber de cheirar a genitália de Toby – inclusive DURANTE os momentos onde ele fazia xixi. Por sinal, eu já mencionei aqui que Pavlov até hoje não levanta a patinha pra fazer xixi? Pois é: ele faz o equivalente canino a "homem mijar sentado no vaso". Decepcionante.

Pra piorar ainda mais a situação, o meu vizinho, dono do Toby, é um ex-presidiário. Daqueles clássicos, cheios de tatuagem feita com tinta de caneta Bic e tal. Ele cumpriu pena porque vendia drogas mas, considerando o tanto de "amigos" que atualmente passam pelo meu prédio para visitá-lo, acho que ele ainda trabalha no ramo de "comércio". Tanto que, enquanto eu apartava os cachorros, ele veio fazendo um "merchan":

– Cara, se você tiver precisando aí de uns Nike Shox, umas roupas de marca e tal, depois cê passa lá em casa pra dar uma olhada, tem umas paradas lá…

E eu lá, confuso, sem saber se ficava no "’ahan’ pra não render" com meu vizinho ou se separava os cachorros.

Agora estou aqui, escrevendo este post, de cueca, olhando pro telhado de amianto e suando. Pavlov está ali, dormindo de barriga pra cima, possivelmente tendo sonhos eróticos com Toby. E tem 35 páginas do capítulo de "Human Resource Management" me esperando.

Coisas que podiam vir pro blog mas são pequenas demais para virar post

  • O botão do ar condicionado do meu carro (Palio 1.0) é igual um botão de "turbo": desligo o ar, o carro fica potente. Ligo o ar e ele só falta botar a língua de fora e gemer feito um asmático.

    Mesmo com o "turbo" ligado (ou seja, ar desligado) esse motor Fire é muito vagabundo. Morro de saudades do meu Fiesta 1.0 Zetec RoCam. Aquilo sim é que é motor. Lembro que uma vez eu estava na via expressa, domingão, pista vazia e eu descendo o pé. Parei num sinal, parou um motoqueiro do meu lado e puxou conversa:

    – Pô, motorzinho bom esse seu, é 1.6?

  • Pavlov me mordeu outro dia. Mas foi sem querer. Ele estava mastigando um dos seus brinquedos, e eu fico puxando o treco pra jogar longe. Ele adora quando faço isso. Coisas de cachorro. Mas numa dessas eu calculei mal e ele foi morder o brinquedo enquanto o dedo indicador da minha mão esquerda estava no meio do caminho. Chegou a quebrar minha unha e deu um belo hematoma embaixo. Não vou poder usar esmalte por um bom temp…ops!
  • Pavlov comeu um pedaço da minha única blusa de frio ontem. E não foi sem querer, foi por birra mesmo. Bethania precisa voltar rápido da viagem dela, esse cachorro tá "crisento" que só vendo.
  • Tou eu e Gabriel no Google Talk, papeando… e sempre rolam aqueles "trocadalhos do carilho". Os de hoje foram bem nerds…

– Ou, sabe o que tem depois do Emmy?
– Hm… o "Enny"?
– Hahah!
– Se for assim, depois do Oscar tem o Papa, depois Quebec, Romeo…

A última piadinha é tão nerd que só lendo aqui mesmo pra entender.

Fatos curiosos sobre meu cachorro

Pavlov versão

Pavlov num momento "death metal" (ou seja, correndo com um brinquedo na boca)

1) Pavlov é mais inteligente que eu.

Sim, é verdade. Um exemplo é o truque que ele inventou para me mostrar que quer sair pra passear:

Quando estou no computador ele começa a cutucar a minha perna e eu digo "agora não, Pavlov". Aí ele sai do escritório e começa a derrubar coisas em algum outro lugar da casa, só para fazer barulho e me forçar a sair da frente do PC. Então eu me levanto e vou ver o que é. Assim que ele me vê de pé, ele corre até a porta, faz uma cara de "pidão" e fica apontando pra ela com a patinha. Aí eu fico com pena e saio com ele. Esse cachorro maldito não só sabe fazer chantagem emocional como sabe que ela funciona comigo, o que prova que ele é muito mais esperto que eu.

2) Pavlov é imune às minhas músicas estranhas

O ouvido de Pavlov é curiosamente seletivo. Quando saio de carro e deixo o som alto ele nem se incomoda e fica dependurado na janela do passageiro, curtindo o vento no rosto.

Até aí, normal. Acontece que ele se comporta como se ouvisse todos os outros sons do ambiente, MENOS a música. Um dia desses eu fui buscá-lo no pet shop e a música estava tão alta que eu mesmo comecei a ficar incomodado. Já Pavlov estava sossegado na janela. Aí, como teste, comecei a batucar de leve no painel do carro e, na mesma hora, ele se virou pra ver que barulho era aquele.

A coisa é ainda mais bizarra quando estou ouvindo música no computador, porque nestes momentos o lugar predileto de Pavlov para tirar um cochilo é em frente ao subwoofer. Eu toco música alta de tudo quanto é tipo (tudo MESMO) e ele continua lá, desmaiado. Aí eu me levanto da cadeira e ele acorda na mesma hora.

pavlov de pé3) Pavlov é um bípede frustrado

Pavlov é capaz de andar um tempão sobre as duas patas traseiras. Quando a gente chega em casa ele sempre está lá, "de pé" com um dos seus brinquedos na boca. Qualquer dia eu ainda vou fazer um vídeo disso e botar no YouTube.

 

4) Pavlov é extremamente ciumento

Tudo que preciso fazer para matar Pavlov de raiva é abraçar Bethania. Especialmente enquanto estamos os três esparramados no tapete da sala de TV – o playground preferido dele. Acho que ele se sente como se eu fosse um "cachorrão" intruso, entrando no território dele e pegando as "cadelas" dele.

Aí é assim. Se eu fico junto de Bethania ele pula no meio para atrapalhar, ele rosna, ele chora, ele não se aguenta de raiva.

5) Pavlov não tem noção do perigo

O mal de cachorro criado "com leite com pêra e Ovomaltino" é que ele fica sem maldade nenhuma.

Dia desses estávamos na rua e passamos em frente a uma casa que tem um vira-lata bravo e territorial, que late furiosamente enquanto não saímos da calçada dele. Só que demos o azar de passar por lá num momento onde a dona da casa estava saindo, então o portão estava aberto. O vira-lata voou pelo portão e avançou direto no pescoço de Pavlov.

Momento tenso: a dona da casa segurou o vira-lata, e eu puxei Pavlov a tempo. O vira-lata ficou lá, rosnando, com a boca cheia de pêlo da "quase-mordida", e Pavlov me puxava na direção do cachorro, com a maior cara de "quer ser meu amigo??"

6) Pavlov tem parentes importantes na trilogia Star Wars

De início eu achava que a semelhança dele era com Chewbacca, mas ele se parece mais é com os Ewoks mesmo.

Pavlov e um Ewok lado a lado
Pavlov e um Ewok. Pavlov é o da esquerda.

7) Pavlov é um artista plástico de renome internacional

Bem, essa eu já contei aqui (parte 1, parte 2, parte 3, parte 4 e bônus)

Pavlov – Um artista de vanguarda (parte 4)

(Leia também a parte um, dois, três e o “bônus”)

No último sabado eu estava no computador quando Pavlov chegou e se assentou ao meu lado. Estava roendo alguma coisa.

Passei a mão em sua cabeça e perguntei: “E aí, o que você está comendo?”

Instantes depois eu estava praticamente em estado de choque, completamente sem palavras: Pavlov tinha em suas garras uma nova obra de arte…


Celular
(Plástico e materiais diversos – 2007 – Acervo do artista)

Este é mais um genial trabalho plástico, um work in progress de “evisceração” de ready-mades eletrônicos. É toda a fúria animal de Pavlov, expressada em suas dentadas e garradas, buscando evocar em quem contempla seu trabalho toda uma gama de sentimentos primitivos de ódio, revolta e violência (como eu mesmo senti).

Curiosamente, o celular não ficou completamente destruído: apenas a tampinha traseira foi mastigada. Com isto, Pavlov manda uma clara e curiosa mensagem de que “sem a casca, o conteúdo perde o valor” e, assim, confronta o valor estético do aparelho contra seu valor funcional. E neste confronto apenas o artista sai ganhando…

Pavlov – Um artista de vanguarda (parte 3)

(Leia a parte 1 aqui e a parte 2 aqui – e um “bonus track” aqui)

A vida moderna nos liberta ou nos escraviza? A tecnologia expande horizontes ou constrange as mentes? Viver num mundo sem fio significa viver acorrentado?

Todas estas questões são levantadas no novo, simples e genial trabalho do artista plástico Pavlov, intitulado Controle.

Controle remoto semidestruido por mordidas
Controle
(plástico, circuito impresso e borracha)
2007 – Acervo do artista

Este trabalho simples tem muito mais do que os olhos vêem. O que parece ser apenas o controle remoto do meu DVD semi-devorado pelo meu cachorro é uma obra-prima de múltiplos significados, em múltiplas instâncias de meta-realidades que convergem tanto para o agora quanto para futuros apocalípticos distantes. A começar pelo título: o controle perde sua função ao ser devorado, pois passa de controlador a controlado. Não é ele quem diz o que vamos ver: agora ele só serve para ser visto.

A evisceração do controle remoto foi feita por Pavlov usando a sua famosa técnica de manipulação oral: mordidas e dentadas, uma catarse aonde o instinto mais animalesco faz nascer a arte mais sublime. A violência do trabalho serve a um fim nobre: mostrar o vazio que realmente há por dentro de toda esta modernidade eletro-eletrônica que nos cerca, revelando o que há por trás da casca destes monolitos bebedores de sangue elétrico que usamos para praticamente tudo (inclusive para ler este post).

Pavlov
Pavlov, com um ar meio blasé

Três conselhos que tornam meu casamento mais feliz

Conselho 1

A posição das xícaras na mesa interfere diretamente no bem-estar da minha esposa.


Assim está ERRADO!! Esposa em pânico!! Morte, dor e sofrimento!!!


Assim está CERTO! Esposa feliz! Prosperidade conjugal!

Conselho 2

A qualidade da panela de pressão de seu lar interfere diretamente no branco do seu fogão e de tudo que o circunda. A razão disto é que, quando você cozinhar feijão preto numa panela vagabunda, a válvula de segurança vai estourar e você terá fotos bem nojentas para postar no blog.


…e ainda faltaram fotos dos armários (brancos) e do teto (branco), que ficaram imundos. É sério, voou feijão até o teto.

Conselho 3

As criações em artes plásticas dos seus animais de estimação (leia aqui e aqui para entender) interferem diretamente na integridade física da decoração do lar, bem como no nível de pressão sanguínea dos seus proprietários.

Digo isto porque Pavlov canalizou seu ímpeto criativo/destrutivo para os livros de arte que ficam na mesinha de centro da sala, num trabalho instigante que expressa, ao mesmo tempo, o desprezo pela arte e o desejo de consumí-la, devorá-la. Coisa de gênio.


“Hopper” – Técnica mista (mordidas/patadas) sobre papel impresso
Acervo do artista – 2007

P.s.: Falando em Hopper, alguém mais notou que a propaganda do Ford Fiesta tem um cenário “chupado” do seu quadro mais famoso, o “Nighthawks”?

Pavlov – Um Artista de Vanguarda (parte 2)

Parte um aqui

O tempo traz consigo a maturidade para os jovens artistas. O ímpeto criativo, por vezes descontrolado, pouco a pouco vai ganhando forma e direção. Normalmente é nesta fase da carreira que os artistas produzem suas obras-primas.

Pavlov, artista precoce, não precisou dos favores do tempo e da maturidade para demonstrar direcionamento criativo, e surpreendeu mais uma vez ao produzir as obras da série intitulada “quinas”.


Quina 1
Plástico, terra, plantas, pedras decorativas – 2007
Acervo do artista

Em sua arte, continuam onipresentes o sentimento da fúria primal e da oralidade: Pavlov executa todos os seus trabalhos com a boca, nas madrugadas onde fica sozinho e livre em sua casa. Mas a novidade agora é o objeto do trabalho: as quinas. Quinas que, destruídas, tornam-se “ex-quinas”, e que ilustram o sentimento de estar à beira de algo, à margem, até mesmo encurralado.


Quina 2
Madeira, metal e plástico – 2007
Acervo do artista

As obras da série “quinas” também fazem uma brincadeira com a sua crescente popularidade no mercado da arte. O release publicado no mês passado foi um dos posts mais populares de todos os tempos – bateu o recorde de comentários, por sinal -, mas ainda assim Pavlov se coloca à beira das suas obras, compostas basicamente por grandes móveis, adulterados em apenas uma de suas beiradas. Esta também é uma referência ao poder de sua arte: com simples mordidas, alterações aparentemente insignificantes quando se considera a dimensão do objeto adulterado, Pavlov praticamente os inutiliza e os despe de sua função estética original, depreciando profundamente seu valor – causando assim um impacto e horror profundos em quem os encontra semidestruídos.

Este horror provocou uma reação interessante em Bethania Duarte, a responsável pela curadoria de suas obras: tomada de um sentimento de repulsa pela destruição do móvel usado em “Quina 2”, Bethania cobriu a beirada semidestruída do móvel com pimenta, para impedir que Pavlov concluísse sua obra. No dia seguinte, o móvel continuou sendo trabalhado: Pavlov adorou o sabor da pimenta.

Esta é, sem dúvida, a marca inegável de seu gênio.