Post de natal

Não, este ano não vai dar tempo de fazer um novo. Então vou reciclar um post que fiz em 2005 mas que continua pertinente, e que falava de uma antiga campanha que levantei…

Daqui a algumas horas as pessoas vão começar a rotina natalina: se empanturrar na ceia, trocar “lembrancinhas” e tal. Eu já não estou tão “xiita” quanto antes em relação aos costumes natalinos, mas continuo achando a forma de comemorar o natal muito ridícula.

Os argumentos são velhos conhecidos: O consumismo da época, a simbologia que é usada no hemisfério norte (neve, pinheiros, etc) e que fica patética sendo usada no clima tropical do Brasil, a onda de boa-vontade assistencialista que dura só um dia, e tudo o mais.

Mas eu estou mais velho e já não fico mais batendo boca com os outros por causa disso – afinal, eu não vou mudar o mundo mesmo. Por isso, ao invés de ficar só reclamando, vou sugerir uma outra coisa para a noite de natal: dar os parabéns ao aniversariante.

Na noite de natal, tire dois minutos do seu tempo para rezar. Lembre-se do cara honrado que foi Jesus, e que este dia existe é por causa dele, não do Papai Noel. Feche os olhos por pelo menos uns instantes e tente encontrar um pedaço de Deus dentro de você – porque rezar é isso.

Uma boa oração vale muito mais do que você imagina.

E feliz natal para quem leu este post. Feliz natal para vocês, leitores…

Trabalhando para a igreja

Hoje de tarde, no carro, o shuffle do iPod botou pra tocar "Intervention", do Arcade Fire, cuja letra diz:

O rei retoma o trono

A semente inútil é semeada (…)

Trabalhando para a igreja enquanto sua família morre

Você pega o que te dão e deixa dentro de você

Toda faísca de amizade e amor morrerá sem um lar (…)

Trabalhando para a igreja enquanto sua vida desaba

Cantando "aleluia" com medo no coração

Toda faísca de amizade e amor morrerá sem um lar…

…e isso tudo enquanto eu dirigia até um centro espírita, pra fazer uma palestra.

O pior é que não é a primeira vez que o Arcade Fire se cruza com a minha vida religiosa. Seria isso um sinal?

Ecumênico é isso aí

Acabei de perceber que estou preparando uma palestra sobre espiritismo, cujo tema é o Evangelho Segundo o Espiritismo, e para isso estou consultando o verbete sobre a Bíblia da Wikipedia. Tudo isso enquanto ouço Neon Bible, o disco novo do Arcade Fire…

A Igreja do Trance Divino

Não, não é piada. Na verdade, eu bem que queria que fosse.

O troço existe mesmo, fica em Alto Paraíso (Goiás), tem até site, e foi mostrada numa matéria do Jornal Globo (texto e vídeo aqui).

Palavras da “ministra da fé” Anirit Kuyana (??), só pra vocês verem o nível:

“Nossa religião é basicamente musical. Então não existe muita coisa escrita. Existe coisa tocada. Ela te leva em um ritmo enorme e te solta lá em cima sozinho. E aí a mente esvazia, você fica no nirvana, sem o pensamento”.

Gauthana (?!), o missionário, explica melhor como é a igreja:

“Tem missionário, o profeta, a bispa, o monge. E tem os santos. A única santa viva é a Rita Lee”.

É por isso, crianças, que papai fala pra vocês não usarem drogas. Pra não acabar desse jeito.

(Via Boteco HardMOB)

As criaturas da noite

Ontem eu e Bethania levamos o Pavlov pra passear na Praça da Liberdade. Pavlov adora estes passeios, principalmente pela possibilidade de se “socializar” com os outros cachorros: rosnar pra outros machos, cheirar o traseiro das fêmeas e aquela coisa toda de cachorro adolescente.

Só que, desta vez, nós humanos também tivemos nosso momento de socialização, bastante estranho por sinal. Primeiro, fomos abordados por um moço sorridente e três amigos:

– Desculpe a inconveniência, mas posso fazer uma pergunta pra vocês?
– Uhh… claro…
– Vocês são espíritas?

Aí eu já saquei tudo. Provavelmente era um grupo de evangélicos disfarçados.

– Sim, nós dois somos…
– Pois é, é que eu estava conversando aqui com o pessoal…

E eis que o moço sorridente é interrompido por uma bicha roqueira. Sim, era um jovem magrelo, tatuado, de uns 18 anos, que cheirava mal, usava uma camiseta surrada do Led Zeppelin e falava como mulherzinha. E chegou pedindo um cigarro.

– Gente, dá licença, vocês tem aí alguma nicotina?
– Hein?
– É… um papelzinho enrolado, com alcatrão, nicotina e mais de quatro mil substâncias tóxicas…
– Puxa, e você sabe disso mas continua nessa de fumar?
– Ué gente, livre arbítrio né…

O moço alegre sacou um maço do bolso. E, enquanto a bicha fumava, ele tentava emendar alguma conversa:

– E essa tatuagem?

Era uma estrela, bem no meio da testa da bicha.

– Ah, é que eu sou iluminada… fui eu que brilhei lá na hora dos três reis magos, em Belém…
– Você também arrumou uma tatuagem nova aí na boca né?

Era uma cicatriz, bem recente. A bicha se empolgou e começou a contar a história:

– Isso? É que eu resolvi criar caso com um boyzinho na Savassi… eu estou lá, na boa, e o bofe começa com uns papos de “olha a bicha, olha o viado de merda”… eu cheguei pra ele e perguntei: Olha aqui… quem é viado de merda? Aí levantei a barra da minha calça Yuzix – porque eu sou chique né – e dei nele um “karatê”… IÁ!!! Aí voou tudo da mesa… voou Smirnoff Ice, voou Red Bull, voou tudo! E ele veio e me bateu com uma garrafa…

Nessa altura todo mundo já estava rindo. A bicha se empolgou.

– Mas sabe o que me irritou? O bofe estava com a blusa do Axé (Axé Brasil, carnaval temporão belorizontino)! Vê se eu vou aguentar desaforo de um cara com camiseta do “Axé Bosta”! Mas eu já sei de tudo, ele tá de camarote, vou lá, comprar um cutelo e picotar ele todinho, depois congelar e comer aos pouquinhos… estilo “canibalismo”…

O moço feliz toda hora tentava entrar no papo com algum argumento religioso. E falhava miseravelmente:

– Sabe onde está o espírito que te fez brigar com esse cara?
– Onde?
– Aqui, ó.

E apontou pra sola do pé. Ninguém entendeu nada, a bicha ignorou o comentário e continuou a tagarelar. Ela falou por um bom tempo, mencionou até uma suposta frase de Baudellaire (“é preciso manter-se bêbado”)… Mas a melhor parte do discurso do cara foi o “vamos brincar de Radiohead”:

– Aí eu fui com um amigo meu no Extra [o hipermercado] pra dar a Elza…
– Elza?
– É, dar a elza… roubar, pô! O segurança já ficou assustado logo que a gente entrou. Mas aí eu peguei um carrinho e falei com meu amigo: “Vamos brincar de Radiohead?”

E eu, sozinho, caí na gargalhada, porque aparentemente fui o único que entendi do que ele estava falando.

Assim que o cigarro acabou, a bicha se foi. O moço feliz resolveu continuar o assunto comigo. Assumiu um ar de profeta e começou:

– Mas como eu ia lhe dizendo… uma vez, um senhor de 80 anos saiu à noite… e ele foi se encontrar com Jesus…
– Era Nicodemos, né?

Eu não resisti. Saquei que ele estava falando de um trecho do capítulo 3 do Evangelho de João, onde Jesus conversa com um senhor chamado Nicodemos. É um trecho polêmico porque dá margem à muita interpretação, mas ainda assim famoso entre os espíritas quando o assunto é reencarnação, portanto o CDF aqui conhecia-o de cor e salteado. O moço ainda tentou continuar:

– Sim, você sabe o que Jesus diss…
– Falou que é preciso nascer de novo.
– Mas Nicodemos ficou com dúvidas se…
– Se Jesus estava dizendo que era pra voltar pra barriga da mãe e renascer.
– Pois é, e Jesus respondeu que…
– Que era pra renascer “da carne e do espírito”…

E então ele viu que a Bíblia não era novidade pra mim, se despediu com um rápido aperto de mão e saiu, sem graça. Acabei ficando com a consciência pesada: não tinha a menor necessidade de eu ficar me exibindo daquele jeito. Bem, pelo menos ficou a lição pra que, da próxima vez, eu não saia por aí dando uma de teólogo.

O Cristão

Olha, eu sou bastante cristão, mas tem horas que não dá.

Hoje eu cheguei em casa e minha irmã estava jogando Wolf ET online. No servidor da Christian Gaming Network.

Enquanto ela metia balas na cabeça de outros jogadores, o servidor exibia citações bíblicas num dos cantos da tela…

Isso só não é pior que o fato de existir uma Associação Cristã de Caçadores de Veados. Porque Jesus deve ter dito, entre os “amai ao próximo como a ti mesmo”, que “bem-aventurados são os que caçam veados na floresta”…

O Profano

– Hmm… ahhh… isso, tira essa blusa, tira…
– Mmm, vai, tira a camisa também, isso…
– Ahh eu adoro esse seu corpo! Vem, vem, vamos pra cama vem…
– Hmm… ei, isso faz cócegas!
– É essa calça sua, muito apertada!
– Tira logo então!… ahhh, isso…
– Hmmm, como é bom…
– Ohhhhh eu quero você… quero você agora…
– Ah, ah, ah…. ahhh que delícia! Hmmm eu quero o Dostoiévsky!!
– Hein?
– Deixa eu ler o Dostoiévsky, por favor…
– Do que diabos você está falando??
– Dostoiévsky, ué. “Crime e Castigo”, está na gaveta do criado mudo, vai, por favor…
– Putz, Jennifer, não acredito! Eu achei que aquilo que saiu nos jornais era mentira!!

E disse Jesus: Alfa Beta Gama…

Uma vez eu conversei com um cara que sabia grego. Ele tinha tamanha fluência na língua que podia, inclusive, ler a Bíblia no original grego.

Hoje achei este artigo, escrito por ele, que explica, tintim por tintim, como a tradução de um trecho da Bíblia acaba mascarando uma referência clara sobre reencarnação. Nem é culpa do tradutor, e sim deficiências da língua mesmo.

Vale a leitura, mesmo que só pra ver os trechos originais gregos, e o quanto é maluca uma pessoa que aprende uma lingua daquelas!