A saga do primeiro estágio canadense

A principal razão que orientou a minha escolha de faculdade aqui no Canadá não foi qualidade de ensino (que nem tá aquelas coisa toda), e sim a perspectiva de voltar logo pro mercado de trabalho. Foi por isso que escolhi um curso que alternava entre semestres de estudo e do tal “co-op”, que é um semestre onde você faz estágio em alguma empresa. A treta é tão séria que a preparação pro co-op é assunto de uma das matérias do curso, com professor e nota e tudo.

Imagina, cara. Eu, já tendo um bacharelado no currículo, anos de experiência de trabalho, e morando num lugar onde tem Google, IBM, Microsoft, Amazon e um monte de empresa massa pra estagiar… eu não via a hora de chegar a hora do co-op.

Acontece que a minha procura por estágio foi mais ou menos assim…

tumblr_nr7uzhXSkQ1s2yegdo1_250Parte 1: De como fui indicado pra uma vaga no Google

 

Logo que começou a procura por trabalho eu não quis nem saber e comecei mirando alto: pesquisei as empresas onde eu queria trabalhar e fui descobrir como estagiar nelas. Naturalmente, a primeira empresa da lista era a primeira de 11 entre 10 engenheiros de software: o Google. Mas eu sabia que simplesmente jogar meu currículo no RH deles não seria suficiente, então tentei apelar para o meu networking e, sem o menor pudor, acionei tudo que era contato do Google que eu tinha no LinkedIn e demais redes sociais.

A chance era mínima, mas deu certo – um antiquíssimo conhecido do Twitter (sempre o Twitter!) encaminhou minha indicação e o RH de lá entrou em contato comigo. Fiquei empolgadíssimo.

A empolgação durou só uns três emails, onde eu e a mocinha do RH tivemos mais ou menos o diálogo a seguir:

– Recebemos o seu currículo, mas as vagas de estágio são para quem está cursando um bacharelado.
– Eu sei – respondi, cordial. O meu curso atual me dá como título um “advanced diploma”, mas eu já sou bacharel em Ciência da Computação, então creio que eu mais do que satisfaço as condições para esta vaga.
– Sim, mas as vagas são só para quem está em um curso que concede um bacharelado no fim.
– Entendo – insisti eu. Mas veja bem, eu já tenho o título de bacharel. Na verdade, no final do meu curso eu vou ter mais do que o que você pede pra vaga.

É claro que não deu certo. Mas não desanimei, afinal, na paralela do Google eu estava uma metralhadora de currículos, aplicando pra tudo que era vaga de desenvolvimento de software que eu via pela frente. Era questão de tempo até começarem a aparecer as entrevistas, pensava eu.

Parte 2: O silêncio do inbox

Todo dia, depois da aula, eu chegava em casa, pesquisava as vagas de estágio, separava as que interessavam, editava meu currículo para cada uma delas e escrevia uma carta de apresentação para cada uma delas – e só após passar uma ou duas horas pesquisando sobre a empresa na internet para personalizar a carta e demonstrar o maior interesse possível.

Enquanto isso, meus colegas iam recebendo os convites pra entrevistas. “É questão de tempo, daqui a pouco vão me ligar”, pensava eu. Os meus colegas começaram a ser contratados pras vagas onde fizeram entrevistas. Eu continuava mandando currículos, às dezenas, e… nada.

Algo errado com meu currículo, talvez? Não podia ser: ele foi formalmente avaliado pela “professora” do curso de co-op e eu tirei a nota máxima tanto pra ele quanto pra minha carta de apresentação. De fato, ele tava fuderoso: tinha meu GPA(1) altíssimo, tinha meu site, meus projetos pessoais, tinha minha experiência profissional canadense, tava lindão. Ainda assim marquei uma segunda reunião com a professora pra reavaliar o CV e ela continuou falando que tava bom. Os meus colegas contratados também revisaram meu material e também ficaram sem entender por que não me ligavam pra fazer entrevista. “Você é mais bem preparado que eu pra essas vagas”, disse um deles.

Um dia, tarde da noite, frustrado, abri meu currículo pela décima nona vez e, no meio da trigésima sétima revisão, me bateu um palpite bem maldoso. Mas achei que valia a tentativa. Decidi tirar duas coisas do CV:

  • O link pro meu site pessoal
  • O local onde fiz faculdade fora do Canadá – ou seja, tirei a palavra “Brasil” do CV.

Subitamente, o telefone começou a tocar e as entrevistas começaram a aparecer. Chegou ao ponto de me ligarem até depois que eu tinha sido contratado. Eu quero muito crer que a culpa era do meu site, e não do meu país de origem, mas acho que jamais saberemos…

Parte 3: As entrevistas

Ah, as entrevistas. Teve de tudo: tive que debugar scripts PHP no “bloco de notas” de um Mac com teclado desconfigurado, tive que escrever função recursiva pra imprimir árvore binária no campo de chat de texto do Skype, tive que programar à lápis em papel… e teve também as cagadas, tipo quando uma das entrevistadoras me perguntou:

– Que sites você lê pra se manter atualizado sobre tecnologia?
– Bem, eu leio bastante coisa. Atualmente eu ando acessando muito o Hacker News

Mas ao invés de encerrar aí a resposta, eu fui tentar bancar o bonitão:

– …mas esse é bem comum, todo mundo lê.
– Pelo visto eu não sou “todo mundo” – respondeu a entrevistadora, com uma justificadíssima cara de cu.

Lá pela quarta ou quinta entrevista eu, finalmente, fui pegando o jeito. Mesmo porque o semestre de aulas estava acabando e eu precisava arrumar um estágio. O sarrafo de seleção de vagas já tava lá embaixo: eu tava mandando CV até pras vagas de – gasp! – gerente de projeto. E então, finalmente…

Parte 4: A contratação

No último post eu comentei que tenho um lema de vida de que: “expectativas levam à desapontamentos”. Lembra de quando eu comecei a caçar meu co-op, que eu tava pensando em Google e IBM? Acabou que nenhuma empresa quis me contratar.

A única vaga que me ofereceram foi no serviço público, numa divisão do Ministério da Justiça de Ontario. Em circunstâncias normais eu jamais mandaria meu CV prum lugar desses, mas a vaga pedia gente com experiência em desenvolvimento web, então lá fui eu, com a esperança de que pelo menos um Javascriptzinho eu ia fazer.

Como desgraça pouca é bobagem, eu ainda tive a desagradável surpresa de pedir pra minha futura chefe detalhar um pouco mais as responsabilidades da vaga, e eis que me chega uma lista que incluía coisas do tipo:

  • Instalar e configurar as impressoras da equipe
  • Manter o inventário dos equipamentos
  • Realizar manutenção dos cabos e equipamentos de rede, etc

Eu comecei meu semestre falando com o RH do Google e terminei prestes a virar instalador de Windows.

larrymossExpectativa (esq.) vs. realidade (dir.). De fato, meu cabelo tá mais parecido com o do Moss…

Parte 5: o fim?

Talvez vocês tenham a impressão que eu tou mais fudido que a Dilma, que tá tudo dando errado e que tou chorando até dormir todo dia. Mas é exatamente o contrário. Se segura pro momento filosófico do post.

Aquele papo de “expectativa leva ao desapontamento” parece papo de pessimista, mas na verdade tem um viés inacreditavelmente positivo, que é o de tirar a sua cabeça do futuro (ou do passado) e botá-la de volta onde importa, que é o presente. Sonhar em estagiar no Google não adianta nada. Arrumar alguém pra te indicar pro Google é que pode fazer toda a diferença. No meu caso não fez, mas mesmo assim eu colhi vários efeitos colaterais da minha mini-obsessão em descobrir como as empresas contratam desenvolvedores. Descobri que tem um monte de empresa que imita o processo do Google. Descobri até que tem livros especializados em preparação para entrevistas de vagas para programadores. Pro meu próximo semestre de co-op, ao invés de chegar esperançoso, eu vou chegar é muito mais bem preparado.

Outro ponto importante é que, depois de levar muita porrada da vida, a gente aprende que sofrimento e infelicidade são duas coisas completamente diferentes. Eu já comentei aqui da Marina Abramovic, que diz que “você não cresce quando está fazendo o que gosta”. Quando fiz todo esse meu movimento de largar tudo e vir pro Canadá recomeçar uma carreira inteira eu não tinha expectativa de que seria fácil. E eu não alimento ilusões de que vai dar certo, por mais que eu trabalhe duro sempre tem um elemento fora do seu controle(2) e não tem nada que você possa fazer se a vida escolher não sorrir pra você. E no fim dela, ainda por cima, você vai estar morto. Então a única alternativa é extrair satisfação do seu próprio esforço, dar o seu melhor todo santo dia, e o que vier daí é isso mesmo, bom ou ruim.

Mesmo porque de vez em quando vem coisa boa. Por exemplo: esta semana eu comecei o meu bendito estágio de servidor público e – surpresa! – eu tou autorizado pela minha chefe a recusar demandas de TI, porque eles contrataram um help desk terceirizado justamente pra isso e querem usar meu tempo pra projetos mais interessantes. Mas, como de costume, não vou criar muita expectativa 🙂

Posfácio: Deus abençoe a Rainha

Como governo é igual em todo lugar do mundo, hoje é quarta e ainda não terminaram toda a papelada da minha contratação. No entanto já passei por uma etapa bastante importante: diante do meu gestor e de duas testemunhas, eu, solenemente, proferi o seguinte juramento de lealdade:

Eu juro que serei fiel e portarei lealdade verdadeira à Sua Majestade Elizabeth II, Rainha do Canadá, e seus herdeiros e sucessores. Com a graça de Deus.

Sem brincadeira. Isso foi, sem dúvida, a coisa mais fantástica de toda a minha carreira profissional.

(1) GPA significa Grade Point Average – a média das suas notas. A minha é altíssima: 4.3, de um máximo de 4.5. Se eu me formar com essa média eu me formo com “high honors”, inclusive.

(2) Essa semana mesmo, para a mais profunda ironia do destino, deu na imprensa que o Canadá entrou em recessão. Saí da frigideira pra cair na fogueira 🙂

A saga do demo

Antes de sair falando da saga (que, obviamente, é de trabalho) eu preciso contar que, sim, além de estudando eu já tou trabalhando. Mas vamos começar do começo…

Parte 1: Meu primeiro emprego canadense (ou: o menor networking do mundo)

Apesar do meu visto de estudante, o governo permite que eu seja contratado por meio período, e naturalmente eu não ia ficar sossegado só assistindo aula – especialmente com o dólar do jeito que tá. Então, logo que meu semestre começou, comecei eu a procurar um emprego part-time.

Graças ao Twitter (sempre ele!) eu vi que a própria faculdade tinha uma vaga para desenvolvedor web. Mandei meu currículo e me chamaram pra uma entrevista. Como era a minha primeira candidatura a trabalho e ela já tinha dado em entrevista o gênio aqui se empolgou e achou que ia ser moleza conseguir o trabalho, já que no Brasil eu passei numas três entrevistas seguidas antes de me mudar pra cá.

É óbvio que não deu certo. Eu estava craque em entrevistas, é verdade, mas em entrevistas na cultura brasileira e para vagas que não eram técnicas. Aí me botaram numa sala com um cara de nome (e sotaque) russo e o maior semblante anal que já vi. Eu não me abalei e comecei a falar dos meus projetos e de como eu aprendo rápido e de como eu resolvo pepinos com clientes difíceis, até que o Serguei me pergunta, sem a menor cerimônia:

– Mas você sabe pra que serve a tecnologia que estamos usando neste projeto?

No dia seguinte chegou o emailzinho dizendo que eu não tinha passado.

Mas acontece que na minha sala tem outro brasileiro. Gente finíssima, paulistano, super tímido, com o inglês ainda bastante travado, mas genial em termos de código. A entrevista dele, pra mesma vaga, foi logo depois da minha. Coincidentemente, na mesma hora que recebi o e-mail da recusa do emprego, ele recebeu o de aprovação. Achei merecidíssimo, baixei minha bolinha e concluí que estou começando mesmo tudo de novo, do zero. Meu inglês fluente, meu PMP, minhas décadas de experiência profissional valem aproximadamente jack shit.

Algumas semanas depois e eis que no apito do WhatsApp chega uma mensagem do meu amigo brasileiro, dizendo que um dos outros estudantes do projeto pediu demissão e ele me indicou pra vaga. Como no curso a gente fez vários trabalhos em grupo ele viu que, de fato, eu mando bem. E pelo que ele sondou, aparentemente eu causei uma boa impressão durante a entrevista, mas o Serguei não acreditou que eu era bom pra programar e por isso não me escolheu pra vaga.

E foi assim que o meu networking canadense, composto por apenas UMA pessoa, me deu meu primeiro emprego. Nunca fiquei tão feliz por ganhar um salário mínimo.

Parte 2: de como os deuses do PMI estão me punindo

Cheguei empolgadíssimo pra minha primeira reunião de trabalho, segunda-feira, de manhã, tudo certinho conforme o clichê. Pelo que entendi do email do Serguei(1), a reunião era pra eu conhecer o resto do time de projeto e me ambientar com o trabalho. Resumidamente, o projeto é um site pra área de saúde, envolvendo hospitais, médicos e pacientes numa plataforma online para atendimentos virtuais.

Mas eu só sei disso por conta própria, porque ninguém me contou. Não é atoa que eu digo que “expectativas conduzem a desapontamentos”. Pra vocês entenderem, a reunião foi mais ou menos assim:

  • Serguei me introduziu ao projeto com uma explicação resumida sobre o escopo do trabalho, o cliente, o que deveríamos fazer e como o projeto estava estruturado. Esta explicação resumida foi composta por apenas uma palavra: “welcome”. Eu JURO pra vocês que isso foi tudo que ele me disse.
  • Depois desta calorosa introdução, o time entrou diretamente numa discussão das próximas funcionalidades que deveríamos entregar. A primeira surpresa já veio logo daí: nenhum sinal das avançadas tecnologias que discutimos na entrevista e que o Serguei esfregou na minha cara; agora o trabalho envolvia o Drupal, um antiquado – e extremamente complexo – sistema de gestão de conteúdo. Pra vocês entenderem do que se trata, quando contei que estava trabalhando com Drupal, uma das minhas antigas gerentes de projeto do Brasil respondeu, em seu inigualável sotaque recifense:

Mai tu gosta é de sofrer, num é mestre?

Como diria um outro colega nordestino, Drupal é bom, mas morrer queimado é muito melhor.

E a gente precisa desenvolver em cima dum site que já existe. E que não tem documentação. E que não tem servidor de teste (a gente usa as nossas próprias máquinas e um repositório gratuito do Bitbucket). E também não tem documentação do que o cliente quer: o que a gente recebe são e-mails de uma linha e layouts em JPG. Uma vez eu tentei discutir as funcionalidades nas reuniões com o cliente pra entendê-las melhor, e o pessoal começou a mudar os layouts durante a reunião, então achei melhor desistir.

Mas o pior não é isso. O pior é que o projeto não tem líder. O Serguei basicamente encaminha os emails do cliente pra gente e fala: “faz aí”. Aí a gente levanta os riscos técnicos, questiona sobre escalabilidade, fala que pra fazer isso no Drupal tem que ser meio que na gambiarra, e ele fala pra “não preocupar com isso”. É tipo o cliente querendo uma mansão e ele falando pra gente botar uma lona no teto em vez de fazer um telhado. Outro dia eu descobri, por acidente, que tem uma segunda equipe de programadores fazendo uma outra versão do site, para celulares/tablets. Eu não tenho a menor ideia de quando o projeto vai pro ar. Na verdade eu não tenho a menor ideia se o projeto está ou não no ar.

Isso possivelmente são os deuses do PMI me punindo por aquele post de 2011, porque agora o que eu mais queria é um bom gerente de projeto me socorrendo e apontando pra onde esse projeto tá indo(2). Durante o trabalho eu até tive contato com um cara que é “assistente de projetos” – pelo menos é o que diz a assinatura do email dele, porque a gente nunca foi formalmente apresentado e ninguém me explicou o que ele faz no projeto, apesar de ele estar em todas as reuniões. Ele é bem sorridente, esse cara. Acho importante isso.

Além dos sorrisos, em toda reunião ele me pergunta como anda a papelada da minha contratação e diz que logo logo tudo vai estar resolvido. Porque, acredite ou não, tem mais de um mês que estou trabalhando e ainda não recebi meu primeiro salário 😉

Parte 3: O dia da demo (ou: parabéns, você ganhou uma camiseta)

Eu escrevi essa papagaiada toda aí em cima só pra contextualizar o que eu queria realmente contar, que é o seguinte.

Eis que numa das reuniões com o cliente ele menciona que vai rolar um evento de inovações na área de tecnologia para medicina. Uma feira, onde ele vai ter um stand pra divulgar o site. Naturalmente, nas reuniões de projeto, o pessoal começou a discutir que funcionalidades precisariam estar prontas para que fosse possível fazer uma demo do site nessa feira. Como a treta era séria, eu mesmo fiz questão de pular em frente ao flip chart durante as reuniões e escrever, certinho, o que iríamos demonstrar na tal demo. Eu também provoquei uma reunião entre o nosso time o time da versão mobile do site pra evitar sobreposições de trabalho. Como era de se esperar, Serguei respondia todas as minhas perguntas sobre a demo com algo parecido como “a gente dá um jeito”, então optei por me preocupar em resolver os problemas do Drupal e deixar ele se estapear pra lá com o cliente.

A feira estava programada pra acontecer em Richmond Hill – o equivalente a Barueri (para os Paulistanos), ou Nova Lima (para os belorizontinos), e obviamente ela era bem no dia em que eu tenho aula o dia todo, e obviamente ela era bem no meio da semana das midterms (as provas cabeludas do meio do semestre(3)). Como o Serguei não disse que a gente “precisava” ir à feira, eu desencanei. Aí, faltando uma semana para o dia D, eis que o Serguei começa a mandar emails pedindo confirmação se a gente ia ou não, e então eu subentendi que ele estava subentendendo que a gente é que iria demonstrar o sistema na feira.

Até aí tá fácil. O que deixou a coisa realmente emocionante foi o seguinte:

  • No domingo anterior à semana da feira, eis que chega um emailzinho com uma nova home page pra gente enfiar no site…
  • Paralelamente a tudo isso, meu colega brasileiro, também insatisfeito com o Drupal, resolveu levantar a bola de que ele não é a melhor ferramenta pra gente usar no site. Como alternativa, ele propôs redesenvolver tudo num framework mais moderno, que ele andava estudando. Pra provar que era possível, o maluco refez o site inteiro em três dias usando o framework novo. Até aí tudo bem – eu mesmo adoraria jogar fora o Drupal e usar um framework apropriado – mas acontece que no processo de convencer a turma a sair do Drupal ele fez um videozinho mostrando como tudo tava funcionando no framework novo e mandou pro Serguei… que encaminhou o vídeo pro cliente dizendo “ei, veja tudo isso que já tá pronto!”.

Resultado: às vésperas da demo eu tinha que lidar com a nova home page no Drupal sozinho, porque meu colega estava ocupado com a nova paixão do cliente: o bendito vídeo. Os pedidos de ajuste no vídeo vinham do cliente e o Serguei nos mandava emails pedindo a “nova versão”do vídeo – sem falar o que o cliente tinha pedido. Típico do Serguei. Às vésperas da demo eu e meu colega brasileiro, ao invés de programar ou testar, estávamos gravando simulações de atendimento online onde ele, usando um jaleco emprestado do laboratório, simulava que era um médico enquanto eu fingia ser um paciente. Ou seja, estávamos, literalmente, brincando de médico.

E então chegou o dia da feira. Os últimos ajustes do site foram salvos por mim às seis e vinte da manhã, enquanto eu comia meu cereal matinal às pressas, depois de dormir por umas três ou quatro horas. Na véspera eu, além de estudar pras provas, separei minha melhor roupitcha social pra ir lá pra feira esbanjar simpatia pros clientes do meu cliente.  Eu queria que tudo estivesse perfeito. Eu ainda não recebi sequer o meu primeiro salário.

Aí a gente chega na feira e… bem, digamos que foi então que eu decidi escrever este post, porque a sequência de caos foi inacreditável.

Logo que chegamos na feira fomos direto ao stand do cliente. Eu já ia tirando o laptop da mochila quando ele me cumprimentou e disse:

– Gente, muito obrigado pelo vídeo. Eu vou deixar ele rolando neste monitor aqui, vocês podem aproveitar a feira. Divirtam-se!

…e então eu entendi que ele não queria que a gente fizesse demo nenhuma, e que ele decidiu usar o vídeo (que era só uma prova de conceito de uma nova tecnologia) pra demonstrar o site.

Algum tempo depois chegou um dos caras do outro time (o do site mobile). Pela mobilização do Serguei, parecia que todo mundo de todos os times (umas nove pessoas) ia pra feira. Só chegou eu, meu colega e esse cara. Quando eu contei que não teria demo nenhuma ele não acreditou, e teve que ir falar com o cliente pra confirmar. E quando ele sacou que não tinha absolutamente NADA pra gente fazer na bendita feira, ele naturalmente saiu à francesa.

Instantes depois, chega Serguei, atrasado e fedendo a cigarros. “Desci no ponto de ônibus errado”, diz ele. Logo depois surge a chefe do Serguei  – uma senhorinha de ar absorto, que eu nunca havia conhecido pessoalmente até aquele instante – e pergunta pro Serguei:

– Ué, cadê sua gravata?

Lembra que eu separei minhas melhores roupas sociais pra feira? Serguei estava vestido de calça jeans, tênis e uma daquelas camisetas com coisas escritas em inglês que vendem na seção de roupas do Extra Hipermercados.

Serguei pediu licença pra ir falar com o cliente e a chefe dele vira pra mim e pro meu colega brasileiro e fala: “vocês já ganharam as camisetas?”

Enquanto olhávamos um pro outro, perplexos, ela tira da bolsa duas camisetas da faculdade e entrega pra gente, àquela altura bem mais perplexos.

Algum tempo depois chega um email do Serguei, dizendo que teve que sair às pressas porque um servidor de um outro projeto tinha caído. Na sequência, chega um email da chefe do Serguei dizendo pra gente: “imagino que vocês vão ficar até o final do evento”. Mas é claro! Especialmente depois de ganharmos uma incrível camiseta.

Fomos embora pouco antes do almoço, depois de ver umas palestras esquisitas(4). Na saída, a surpresa final: encontrei, sozinho, perdido na plateia, o “assistente de projetos” do projeto. De sapatos, calça social… e com a camiseta da faculdade por cima da camisa.

(1) Cara, eu realmente estava com saudade de usar pseudônimos.
(2) Aí você pergunta: “mas você é gerente de projetos! Por que não assume isso?”. E eu respondo que, honestamente, eu estou me segurando pra não pular na frente da porra toda e começar a organizar o projeto. Mas se eu fizer isso (porque eu posso) eu vou deixar de fazer o que eu quero. E eu atravessei o mundo pra perseguir o que eu quero, e não o que eu posso.
(3) Eu não contei, mas fazer faculdade no Canadá é muito mais puxado que no Brasil.
(4) Embora esquisitas e meio verborrágicas demais (muito papo, pouco resultado), todas as palestras do evento foram incrivelmente pontuais. Eu fiquei fascinado: na palestra das nove da manhã o palestrante dizia “good morning”, exatamente às nove, nem um minuto a mais. E na hora do “thank you” final, o relógio marcava exatamente o horário de término.

A saga bancária Brasil-Canadá

Eu sei que é meio babaca essa negócio de se mudar e ficar comparando Brasil com outros países, mas permitam-me contar pra vocês uma pequena historinha.

Tudo começa em outubro de 2014, quando chegou a hora de pagar o primeiro semestre dos estudos na faculdade canadense. Como de costume, tentei fazer a operação pela internet, mas não consegui porque meu banco, por segurança, tem um limite bem baixo de valor para movimentações financeiras. “Hmm, que bom que descobri esse problema – isso vai complicar as transferências do meu dinheiro do Brasil pro Canadá”, pensei. Aí tive que ir à agência e fazer a transferência em pessoa e, pra prevenir problemas futuros, tentei entrar em contato com o meu gerente. Achei que ia ser fácil, pois pelo volume de dinheiro que guardei eu estava enquadrado naquela categoria premium de cliente bancário.

Foi aí que meus problemas começaram.

Demorei DIAS para conseguir FALAR com o meu gerente. Quando finalmente consegui, pra não passar o mesmo aperto, pedi a ele que já deixasse cadastrada a conta corrente de uma casa de câmbio para contornar essa questão do limite e eu pudesse transferir valores maiores sem precisar falar com ele. Ele disse que tinha cadastrado tudo e que eu podia ficar tranquilo.

Aí chega novembro e olha eu, todo pimpão, chegando no Canadá. Naturalmente, precisei fazer outra remessa de dinheiro pra cá e qual não foi a minha surpresa ao descobrir que a conta da casa de câmbio não tinha sido cadastrada e eu continuava travado pelos limites de transferência que eu tinha pedido meu gerente pra aumentar. Ou seja: eu simplesmente não conseguia trazer pra cá nenhuma parte do dinheiro que eu passei anos juntando para a viagem.

Começou, então, a segunda novela de conseguir falar com meu gerente – dessa vez com o agravante de que eu tinha que apelar para telefonemas via Skype feitos em wi-fi emprestada dos Starbucks da vida, que eu tinha que achar saindo de casa e encarando a neve, o vento e a friaca próxima de zero graus. Passei quase uma tarde inteira tentando contato com o filho da mãe até que consegui conversar com o assistente dele, que me confirmou que de fato não tinha rolado nenhum aumento de limite de transferência e que ele não poderia fazer muita coisa porque meu gerente estava fora da agência num treinamento.

Depois de reclamar no SAC, depois na Ouvidoria do Banco, e só depois de ameaçar ir reclamar na Febraban é que, após MESES de briga com o banco, consegui que aumentassem meus limites de transferência. Ironicamente eu tive problemas até pra reclamar na ouvidoria, porque só existe um link para acesso a ela e esse link fica escondido na versão beta da nova interface do internet banking – que foi feita usando como referência o Orkut (não, eu NÃO ESTOU BRINCANDO).

Agora eu gostaria de contar um pouco sobre as minhas experiências bancárias aqui no Canadá.

Logo que chegamos fui ao banco para abrir uma conta corrente. No sábado (sim, os bancos aqui abrem no sábado) visitei uma agência e, usando como documento apenas o meu passaporte, me deram uma conta corrente, uma conta poupança, uma conta específica para dólares americanos e isenção de tarifa por seis meses. O processo todo levou menos de uma hora.

Mas o melhor foi o problema que tive esse final de semana: fui comprar um colchão para a casa nova e, como a compra tinha um valor maior que o usual, o meu cartão do banco daqui deu erro de “limite de compras excedido” – problema bastante parecido com o que tive com a conta brasileira.

Eu já estava prevendo o pior quando o próprio vendedor da loja de colchões falou: “liga lá pro seu banco que eles resolvem isso”. Olhei o número do 0800 atrás do meu cartão e, meu amigo, minha amiga… NADA poderia me preparar para o que aconteceu:

  • O tempo de espera até eu ser atendido foi de ZERO segundos.
  • Após explicar a situação, a atendente confirmou a minha identidade da forma mais simples e intuitiva possível: perguntou o nome da pessoa com quem eu tinha conta conjunta (Bethania) e pediu pra eu contar alguma transação recente que eu tivesse feito com o cartão – valia até mesmo o café que eu havia tomado no Tim Hortons algumas horas atrás.
  • Depois, mudou o meu limite de compras INSTANTANEAMENTE – e ainda aguardou na linha enquanto eu passava o cartão novamente pra comprar o colchão.
  • Sem que eu pedisse, ela se ofereceu pra fazer o cadastro de uma segunda senha pro SAC via telefone – pra facilitar na hora de confirmar minha identidade e agilizar os próximos atendimentos (que, veja você, tinha levado até aquele momento MENOS DE TRÊS MINUTOS).
  • Não satisfeita em resolver meu problema, ainda aproveitou pra me orientar melhor sobre o uso da minha conta poupança, dando macetes (que ela mesma, como pessoa física, usava) de como usá-la para construir um bom score de crédito com o Banco.
  • No fim, ainda me parabenizou pela compra do colchão e desejou boa sorte na montagem da nova casa aqui no Canadá.

Desliguei o telefone e chegou a escorrer uma lagriminha de emoção.

If I could settle down / then I would settle down

Há quatro anos, quando me mudei para São Paulo, comentei que desde 2003 todo ano teve um mega-acontecimento significativo, que provocou mudanças drásticas na minha vida:

2003: Larguei minha carreira em TI

2004: Comecei oficialmente uma nova carreira de consultoria

2005: Morei no Canadá

2006: Me casei

2007: Me mudei para São Paulo

2008: Virei consultor-sênior e me certifiquei como PMP

2009: Fui retirado de um projeto. Pode não parecer, mas isso foi muito significativo e provocou mudanças boas.

2010: Larguei a consultoria e fui trabalhar numa agência de publicidade

…e agora veio a mudança drástica de 2011: eu vou, finalmente, comprar um apartamento em São Paulo.

Já faz um tempo que estávamos pensando nisso. Eu já não sou mais aquele jovem de vinte-e-tantos anos e, conforme vem a idade, chega o momento de começar a estabilizar a vida, formar um patrimônio, pensar no futuro, essas coisas que dizem nas propagandas de previdência privada ou seguro de vida.

Ter meu próprio imóvel na cidade também significa que eu estou colocando um “anel de compromisso” em São Paulo – significa que não estamos mais apenas flertando com a cidade pra ver no que dá. A partir de agora é nóis na vida loka, mano.

O processo todo para achar o apartamento, como tudo na minha vida, foi bem simples:

  • Primeiro eu fui juntando dinheiro pra poder dar de entrada.
  • Enquanto isso veio o boom imobiliário e os preços tipo duplicaram num espaço de três anos.
  • Junto com os preços para compra, subiram também os aluguéis – e meu contrato de aluguel começou a ficar perigosamente próximo de vencer.
  • Trabalhar 12 horas por dia na agência não me deixa exatamente com tempo livre para ficar procurando imóveis. A solução foi usar uns 40 minutos que me sobravam de manhã cedo pra escarafunchar apartamentos na internet, e usar os finais de semana pra ir visitar os bons.
  • Durante estas visitas a gente via que 90% dos “bons da internet” eram um lixo na vida real: eram perto de favelas, eram longe de tudo, eram colados em avenidas barulhentas, eram debaixo da rota dos aviões de Congonhas, enormes mas velhos, novinhos mas minúsculos, etc, etc. Então todo final de semana terminava comigo frustrado e vendo os preços subindo 2% ao mês.
  • Repita os últimos 2 passos por SETE MESES.
Até que, no último sete de setembro, enquanto todo mundo curtia seu feriadão, lá fomos eu e Bethania ver mais apartamentos – e vimos um com preço muito baixo (porque precisava de umas reformas), não muito pequeno e – o mais importante – extremamente bem localizado na Chácara Santo Antônio, a 2km do trabalho de Bethania e com uma estação de trem pertinho, pra eu ir trabalhar. Fizemos uma proposta, a proprietária topou e a saga, finalmente, acabou…
Agora é encarar as próximas sagas que vem por aí: a mudança maluca, as reformas recalcitrantes e o financiamento feroz

O dia da alpaca

Sexta-feira, 7:00 – Minha programação era dormir até 8:30 e chegar no trabalho lá pelas 10, porque durante toda a semana eu chegava cedo, almoçava em frente ao computador e saía da agência lá pras 21, 22h. Mas, naturalmente, perdi o sono.

9:00 – No meu email tinha:

– Duas pessoas brigando por causa de um atraso num job;

– Um email do meu líder de Recife avisando que tava tudo alagado e que talvez o pessoal da equipe de lá não conseguisse sequer chegar no trabalho (o job atrasado do item acima tá todo lá)

Aí uma das meninas de Recife manda no Twitter o GIF animado abaixo:

alpaca

Já sacando que ia ser um dia daqueles, peguei a alpaca e botei no cantinho do meu segundo monitor – como uma espécie de amuleto, pra eu olhar de vez em quando e dar uma risadinha.

9:40 – Me sento no computador e penso: “Pronto, agora vou conseguir finalizar aquela descrição de processo que estou tentando fechar há SEMANAS”. E então me pegam pra uma reunião. E depois outra. E depois outra. E ainda me avisam que o bicho está pegando no email e que eu devia dar uma olhada, mas cadê tempo.

12:30 – Implorei a uns amigos que me levassem pra almoçar. Eu não aguentava mais comida da lanchonete em frente ao monitor. Aí fomos no São Bento, na Vila Madalena.

13:30 – Todos terminam de almoçar e… começa a chover.

13:40 – Começa a chover MUITO. Os garçons tentam fechar as portas às pressas porque o vento está molhando todo mundo nas mesas próximas (ou seja, a nossa). Aí a gente migra às pressas pra uma mesa mais pra dentro. Assim que eu me sento, começa uma goteira bem em cima de mim.

14:10 – A chuva finalmente para e todos começam a pagar a conta. Mas as maquininhas de cartão estão todas fora do ar.

14:45 – Eu finalmente chego na agência e penso: “Beleza, tenho quinze minutos antes da entrevista praquela minha vaga de GP que eu marquei às 3, vou poder pelo menos ver o que diabos tá pegando fogo no email”. Mas o cara já está lá. Nem consigo escovar os dentes e vou direto pra entrevista.

Sabe, essa história de contratar gente vai ter que virar um post individual. Porque contratar gente é um troço SURREAL. Então foi com bastante alívio que a entrevista com o cara começou a ir bastante bem e eu fui ficando animado porque comecei a pensar que, finalmente, após noites e noites lendo dezenas de currículos, eu ia conseguir preencher uma das minhas vagas.

No fim o cara pergunta: “Eu tenho só uma dúvida. Obviamente, eu fui te stalkear no Twitter pra me preparar pra entrevista, e fiquei com uma dúvida se te mandava minha pretensão salarial ou não, porque no anúncio pedia pra mandar, mas você escreveu o contrário no seu Twitter”…

P.s.: Se você está me stalkeando aqui no blog pras entrevistas desta semana, parabéns! Isso demonstra proatividade, engenhosidade e curiosidade, três coisas que eu valorizo. Conte que leu isso na entrevista, vai contar pontos a seu favor.

15:40 – Eu volto pra sala pensando “pronto, AGORA vou conseguir pelo menos ver meu email”. Só que não tem luz na agência porque a chuva fez a energia acabar.

 

Algum tempo depois os geradores foram ligados e tudo (menos o ar condicionado) voltou a funcionar.

16:40 – Mais uma reunião, sob um job monstruoso que estava chegando. O problema é que a reunião começou a desandar e a veemência virou insistência, que virou apelação, que por sua vez virou bate-boca. E lá estava eu, no finzinho da sexta, num calor insuportável, todo mundo suando naquela sala sem ar condicionado, e aos berros numa reunião de um job que sequer havia começado.

O pior é que eu entendo o porquê dessas coisas. É muito trabalho, pouco prazo e stress em níveis absurdos. Claro que isso não justifica apelação, apenas a explica. Mas o que era mesmo inexplicável na situação era um colega, que estava sentado perto de onde a gente estava, e que estava dando risada do quebra-pau todo. E enquanto gritavam comigo na reunião, eu tive um insight de por que diabos o cara tava daquele jeito (já já explico).

Quando eu já estava bastante confuso com o bate-boca, vi meu chefe aparecer e logo dar cabo de toda a reunião. E quando eu achei que o caos tinha acabado, eis que ele me leva pra um canto da sala e começa, ele também, a soltar os cachorros por conta de outro assunto. Tipo, tava todo mundo desabafando comigo. E quando eu não estava entendendo mais absolutamente nada, chega uma das minhas gerentes de projeto e – adivinha! – começa ela também a soltar os cachorros por conta de outro job.

18:50 – Sentindo um misto de esgotamento com confusão mental com desespero, me sentei no computador. E dei de cara com a alpaca. A alpaca que eu tinha deixado no cantinho do monitor. Tinha me esquecido completamente dela…

De repente tudo passou e eu fiquei uns bons minutos olhando pra alpaca e rindo sozinho.

19:15 – Lembram do colega que tava dando risada do caos da reunião? Dei de cara com ele, folheando uma revista no meio do corredor, alheio a tudo e todos.

Aí eu não resisti e joguei um verde pra ver se meu insight estava correto…

– Cara, me conta qual é esse remedinho que cê anda tomando pra passar por dias caóticos como esse e ficar aí numa boa.

O cara fez uma cara de “como diabos ele descobriu” e, como não fazia mais sentido mentir daquele ponto em diante, confirmou exatamente o que eu suspeitava:

– Errr… haxixe?

22:10 – Todo mundo já tinha ido embora. Só restava eu, uma das atendimentos e o big boss. Tudo que eu queria era sair de lá, tomar uma cerveja e capotar na cama.

Mas não podia. Alguns minutos depois, desci, peguei o carro (com Bethania e mais duas amigas) e me enfiei na Fernão Dias. Mesmo morto de cansaço, dirigi por quatro horas e, 300 kms depois, lá estava eu…

…em Alfenas, no sul de Minas Gerais.

Era o sítio de uma das meninas. Elas iam ficar quatro dias (já que terça é feriado em SP). Já eu tive que voltar no domingo mesmo, porque a agência não emendou. Mas foram dois dias excelentes. Dias de ouvir o silêncio – que levei décadas para aprender a apreciar adequadamente. Dias de ficar horas tomando café-da-manhã e proseando como só bons mineiros sabem prosear. Dias de ver vaca pastando. De ficar com a pele vermelha na beirada da piscina. De comer feito rei (porque, diacho, como cozinham bem aquelas meninas!). De dar um merecido descanso pro corpo e pra cabeça.

Dias de descansar pra poder voltar e estressar tudo de novo…

Brasília: Como não amar esta cidade?

A segunda-feira acabou às 18:35. Eu e mais dois colegas estávamos dentro do táxi, prestes a voltar pro hotel. Como um deles quis fazer uma parada na comercial da 203 pra comprar umas frutas, o táxi desviou pra L1, na parte de dentro das quadras – que é a parte mais engarrafada de todo o trânsito local. Mas tudo bem, a frutaria fica a apenas duas quadras de distância, a 1,5km de onde estávamos, então não tinha como demorar. Mesmo porque Brasília é uma cidade planejada, e o trânsito foi especialmente desenhado para evitar semáforos e cruzamentos.

UMA HORA DEPOIS, chegamos na comercial. Fica até fácil fazer as contas e determinar nossa velocidade média: 1,5 quilômetros por hora. Se fôssemos a pé chegaríamos TRÊS VEZES mais rápido. Na verdade daria pra ir a pé fazendo paradas a cada cinco metros para fazer um moonwalk, dar uma pirueta, gritar WOOOOO! e continuar andando.

Depois de comprar as frutas, quando estávamos de saída tentando descobrir como diabos faríamos para conseguir voltar pro hotel, meu telefone toca. É o André, velho amigo e também hóspede, dizendo que acabou a luz no Setor Hoteleiro Norte todinho.

Nota: É a segunda vez em menos de duas semanas que temos três ou quatro horas de blecaute na região do hotel. A foto abaixa mostra o Eixo Monumental no dia do primeiro blecaute. Tive que subir seis andares de escada e tomar banho à luz dos faróis de carro…

Então começou o plano “B”: ir jantar em algum lugar pra esperar o trânsito melhorar e a luz do hotel voltar. O consenso foi para comermos uma boa carne, então, como estávamos parcialmente abençoados pelos deuses do reembolso de despesas, sugeriu-se o ótimo Corrientes 348, lááá na outra ponta da asa sul.

E que estava fechado.

O plano “C” era o BSB Grill, que não era muito longe. E que também estava fechado. Talvez o comércio esteja adotando uma escala de trabalho parecida com a do Congresso, sei lá.

Então tínhamos que arrumar um plano “D”, e alguém sugeriu o Fogo de Chão – este, já muito acima das nossas capacidades de reembolso e perigosamente próximo da região afetada pelo blecaute. Uma rápida pesquisa no Google e liguei pra lá:

– Restaurante Fogo de Chão, boa noite.
– Boa noite. Vocês tem… er… energia elétrica?

Já eram quase 20h quando entramos na churrascaria. O jantar foi sem pressa, já que da janela dava pra ver o setor hoteleiro todo apagado. Só lá pelas 22h a luz voltou e, finalmente, voltamos ao hotel. E aqui cabe um pequeno interlúdio hoteleiro:

Antes a equipe toda ficava hospedada no hotel Sonesta, que é tão ruim que foi extensivamente “avaliado” neste meu post. Depois de MESES de reclamações e nenhuma solução, nossa empresa finalmente cedeu à pressão e mudou todo mundo pro Nobile Suites – recém-inaugurado, situado logo em frente ao Sonesta. Aí você pensa: “Que bom, pelo menos com hotel você não está sofrendo mais!”. Bem, parafraseando um dos meus colegas da saga desta noite, o Nobile Suites tem que melhorar muito pra ficar ruim igual o Sonesta. Ele é limpo, tem água quente e internet boa, mas o serviço é TÃO RUIM que na semana passada a gerente deixou, no quarto de todo mundo da equipe, um pratinho de frutas e uma carta com um pedido de desculpas:

Temos ciência de que falhamos nos serviços oferecidos nas semanas anteriores, e estamos fortemente empenhados a mudar a imagem que a equipe da sua empresa tem de nosso hotel. (…)

Sim, claro. Depois de esperar MEIA HORA pra fazer checkin, entrei no quarto e dei de cara com essa PILHA de “empenho” aí da foto em cima da cama.

Ah, Brasília. Como não amar essa cidade?

O Primo’s Data Transformation Saga

network Era dezembro do ano passado e, enquanto todos achavam que a década estava acabando, eu me perguntava como iria fazer para ganhar dinheiro em janeiro, já que recebo por dia trabalhado e meu cliente brasiliense e governamental iria, obviamente, trabalhar a 10% de sua capacidade entre o Natal e o carnaval – o que significava “férias forçadas” pra mim.

Daí me toca o telefone. Era o consultor-líder de outro projeto, perguntando se eu podia ajudá-lo, em janeiro, a desdobrar umas metas de venda para o departamento comercial de uma empresa. Era uma semana de trabalho – mas trabalho chato, de micreiro. Só que iam me pagar como consultor-sênior e o trabalho era a exatamente dois quilômetros da minha casa, em São Paulo.

Então lá fui eu topar tudo por dinheiro no palco.

Acontece que esse negócio de “desdobrar meta” não é nada simples: é pegar uma meta de alguns BILHÕES de reais e dividí-la para cada um dos SESSENTA MIL clientes, o que obviamente envolve muitos dados. Tradicionalmente, meus colegas consultores – que raramente são profissionais de TI – sempre deram um jeito de fazer o trabalho com a única ferramenta que conhecem: “programando” com fórmulas de duas, três linhas de comprimento em planilhas de Excel enormes, facilmente propensas a erro e cuja manutenção é um pandemônio. E normalmente eles não conseguem porque esbarram nas limitações “físicas” das planilhas do Excel, que “só” aguentam um milhão e quarenta e oito mil linhas.

Aí você pensa: “Isso é muita gambiarra, é praticamente um data warehouse feito em Excel, vocês deviam arrumar alguém de TI pra construir um sistema pra isso”. Mas meus colegas consultores, ao invés de pensar nisso, dizem: “Não cabe no Excel? Então vamos fazer no Access, que aguenta mais linhas!”. E ao invés de abandonar a gambiarra eles vão para um software aonde cabem ainda mais gambiarras.

AccessError

O Microsoft Access é um enigma pra mim. Ele é marqueteado como um banco de dados para aplicações simples, como um sisteminha de vendas e estoque pra tia Neusa, dona da papelaria da esquina. Ou seja, o Access te entrega toda a funcionalidade complexa de um banco de dados (integridade referencial, consultas em SQL, etc.) para situações onde um caderninho de estoque ou uma planilha de Excel resolveriam. E quando você tenta usar o Access como um banco de dados de verdade, descobre que ele é absurdamente lento e armazena no máximo 2 gigabytes de dados.

E então você lembra dos bilhões de reais da meta divididos entre os milhares de clientes e pensa: “Ah, então é nessa hora que eles arrumam alguém de TI pra construir um sistema decente pra fazer o trabalho, né?”.

Não, meus caros. É nessa hora que eles me ligam.

E o meu trabalho ainda tinha mais alguns agravantes:

  • Eu tinha que entender um desdobramento antigo que havia sido feito por outro consultor pra poder descobrir como desdobrar a meta nova. Felizmente ele tinha deixado um “passo-a-passo” de como atualizar tudo… um passo-a-passo com sessenta e cinco passos do tipo “Execute a consulta X no arquivo Y”, “Importe os dados da tabela Z no banco de dados K”, “Copie os dados da coluna G da planilha XPTO do Excel para a coluna F da planilha Y”, e por aí vai. Era o equivalente digital da foto do começo deste post.
  • O último nível de desdobramento (o dos clientes) estava todo feito usando o CNPJ do cliente, e me pediram pra abandonar os CNPJs e fazer tudo com um tal “código de cliente”. E tem CNPJs que tem dois códigos de cliente vinculados. E tem clientes novos que não tinham meta no desdobramento velho e tinham que receber meta no novo.
  • Eu deveria desdobrar todas as metas para 2010. Os dados para um mês de metas ocupavam 2GB no Access. E o Access tem aquele limite de no máximo 2GB por arquivo, então eu normalmente trabalhava migrando dados de um arquivo Access para outro e esperando esse outro arquivo entupir e o Access dar pau. Aí eu migrava tudo de novo pra um terceiro arquivo, e assim por diante.
  • Eu tinha que trabalhar no Access evitando ao máximo consultas do tipo união (UNION ALL no SQL) e subconsultas (consultas dentro de consultas), porque qualquer um desses dois recursos colocava o Access no modo “velhinha de óculos com uma caneta marca-texto e uma régua comparando os dados de duas folhas de papel linha a linha”. Ou seja, era MUITO lento. E ainda assim, usando as consultas “rápidas” do Access, eu levava mais ou menos uma hora para desdobrar cada mês de dados de metas. Qualquer erro no desdobramento poderia implicar num retrabalho de, no mínimo, mais doze horas. E eu tinha apenas 40 delas disponíveis pra terminar tudo.

E foi assim que passei a semana perdido entre dezenas de Excéis e Acceses, empurrando dados de um arquivo pra outro. Tinha uma planilha que era tão complexa que, depois de qualquer mexidinha nela, o Excel travava por quinze minutos recalculando as fórmulas e referências cruzadas. Minha sequência de trabalho envolvia tantas coisas em paralelo que eu tinha que desenhar fluxogramas numa folha de papel, indicando aonde eu estava e como os dados iam de um arquivo pra outro, senão eu me perdia. Ontem foi o último dia de trabalho. Eu almocei um McDonalds em frente ao computador, sobrevivi o resto do dia à base de café e uma tortinha de maçã (também do McDonalds) e, lá pelas oito da noite, quando minha cabeça já doía e eu já apertava Enter pensando “ok, dê-me logo o próximo pau que vou ter que resolver”, eis que me aparece a tabela final, com as metas novas, certinhas e todas divididas por cliente.

Sabe, é um trabalho tão frustrante e gambiarrado que no fim você não tem exatamente aquela sensação de dever cumprido: é mais um misto de alívio por ter conseguido sair vivo do outro lado do buraco. Mas pelo menos fiquei menos falido nesse começo de ano…

Pequenas sagas do meu filho devorador de tweets

Quando me perguntam quando é que eu vou ter filhos, usualmente eu respondo:

– Eu já tenho um cachorro e um website, e eles já dão trabalho suficiente.

As encrencas que Pavlov me arruma eu já vivo contando por aqui. Já as do Blablabra

Mini-saga 1: O backup que desbeckapeia

Foi assim: era sexta feira e eu estava mexendo na parte do código do Blablabra que separa as palavras de dentro dos tweets. Era cedinho e eu havia acabado de colocar uma alteração na versão de produção (a que fica no ar), e notei que uma coisa estava errada e algumas palavras poderiam estar sendo duplicadas na tabela onde elas ficam guardadas. “Ah, tudo bem. Vou voltar um backup e consertar os registros errados”.

Aí fui lá no painel de controle do meu provedor de hospedagem (Dreamhost) e mandei voltar o backup de duas tabelas – tabelas que, é bom salientar, são o “coração” do site. Como elas são enormes (a maior delas tinha DEZ MILHÕES de linhas na época), deixei o backup restaurando e fui fazer outras coisas. Aí chega um email todo serelepe do Dreamhost, avisando que o backup havia sido restaurado.

Maravilha. Me ajeitei na cadeira, dei aquela esticada nos dedinhos sobre o teclado e falei, sorridente: “Vamulá acertar isso agora”. Tentei abrir uma das tabelas e… erro de “Table not found”. Tentei abrir a outra e deu o mesmo erro. Achando aquilo meio esquisito, resolvi olhar o banco de dados e meu queixo caiu: não somente o backup não havia sido restaurado como as tabelas originais haviam sido apagadas.

Sim, as tabelas tomaram Doril e simplesmente desapareceram. Aí eu morri, ressuscitei, fiquei branco de medo, vermelho de raiva e, sobretudo, furioso pela injustiça da coisa toda: pô, eu teoricamente tomei minhas precauções, eu tinha backups, backups são como uma vacina para a lei de Murphy, eles são feitos pra SALVAR a sua vida nessas horas – não complicá-las ainda mais!

Então, com o coração na boca, abri um chamado no suporte do NightmareHo… digo, Dreamhost. Eles tem uma opção no formulário que serve pra você indicar a gravidade/urgência do problema e eu fiz questão de escolher a mais séria delas, intitulada: “OMG TÁ TUDO DANDO PAU TEM GENTE MORRENDO!!!!” (não, isso não é exagero, a opção do menu deles tem exatamente este texto). E ainda assim eles demoraram QUATRO HORAS para me responder. E ainda disseram:

“Pedimos desculpas. Tudo que eu posso fazer é restaurar um backup mais antigo do seu banco de dados que esteja funcionando”.

Só que isso ia me fazer perder AINDA MAIS dados de outras tabelas. O retrabalho seria enorme, eu perderia umas 24 horas de tweets monitorados e, pra piorar, dali a algumas horas eu tinha pegar Bethania no trabalho e, de carro, viajar 600 kms para passar o fim de semana em Belo Horizonte.

A sorte é que ela foi bastante compreensiva e me deixou ficar o sábado e o domingo debruçado em cima do notebook, pegando carona no wi-fi da casa da sogra e reprocessando MILHÕES de tweets gravados na base para recompor as tabelas perdidas. Era a opção menos pior – e mais rápida, considerando que a simples troca de dois emails com a turminha do Dreamhost levou quase oito horas. Mas no fim deu tudo certo e o Blablabra se recuperou plenamente de sua primeira grande baleiada.

Mini-saga 2: O backup que AINDA desbeckapeia

Aí ontem, depois do almoço, eu estava dando uma conferida nos trending topics do Blablabra quando o site, de repente, sai do ar. E não somente o site: o banco de dados não entrava mais, FTP caiu, Shell/SSH caiu, e até este blog, que fica na mesma hospedagem, havia ido pro limbo. “Pfft, aposto que alguém chutou a tomada do servidor lá no Dreamhost”, pensei.

Deve ter sido o caso, porque uns cinco minutos depois foi tudo voltando pro ar. Só que o Blablabra parou de mostrar os gráficos e os resultados das buscas. Fuça daqui, fuça dali, e achei o problema: uma tabela corrompida no banco de dados.

Acontece que não era uma simples tabela: era uma daquelas tabelas da mini-saga anterior. E, sim, era a de dez milhões de linhas – que, naquela altura do campeonato, já tinha VINTE milhões. Aí apertei o botãozinho vermelho que desliga tudo (bem, na verdade é uma variável de configuração do Blablabra cujo nome é, convenientemente, “SERIOUSLY_BROKEN_MODE”) e, com o coração na boca, fui pensar no que fazer.

É óbvio que “restaurar um backup da tabela” é a opção mais óbvia, simples e indolor, mas depois da saga anterior eu estava feito cachorro mordido por cobra que fica com medo de linguiça (especialmente agora, que não tem mais trema na palavra). Mas dessa vez não tinha jeito, eu precisava dos dados do backup, então fui lá e marquei uma opção de “restaurar a tabela com um nome diferente e não mexer nas tabelas originais”.

Enquanto o sistema restaurava os dados, fui pesquisar minhas opções e resolvi tentar dar um comando chamado REPAIR TABLE. Eu estava descrente, já que a tabela estava realmente detonada e eram vinte milhões de linhas. “Nunca vai funcionar”, pensei eu. Mas dei o comando mesmo assim e fiquei lá, com o coração na mão, feito um médico que deu um choque pra reanimar um paciente e agora está lá, olhando o monitor cardíaco, esperando que ele dê algum sinal de vida. Acontece que, no meu caso, este instante de suspense demorou mais de uma hora.

E quando eu já estava achando que era EU quem ia precisar de desfibrilador, *plim*! O “repair table” terminou de “repairzar” a tabela e – surpresa! – eis que ela havia ressuscitado dos mortos, perfeitinha, com todos os dados, como se nada tivesse acontecido. Deixei tudo funcionando e fui resolver outras coisas.

Aí, no finalzinho da tarde, eu fui checar meus emails e tinha um do Dreamhost, avisando que a restauração daquele backup que eu pedi havia terminado. “Bom, nem preciso mais da tabela antiga, deixa eu ir lá apagá-la”. No banco de dados a tabela antiga estava lá e havia sido restaurada com um nome diferente, do jeitinho que eu pedi. Só que a tabela original, a que eu tinha consertado milagrosamente… desapareceu.

Mas dessa vez foi mais fácil recuperar os dados. Bastou ficar urrando de ódio por uns cinco minutos, esmurrar bastante as paredes e depois reprocessar alguns milhares de tweets para recompor os dados perdidos…

O Primo não recomenda: Tim

…e lá vamos nós adicionar mais um episódio para as minhas sagas de problemas com operadora de celular.

Até então a minha lista de problemas com a Tim envolvia:

  • A cobertura horrível no bairro onde moro. Frequentemente dá “congestionamento” na rede celular deles e eu não consigo ligar pra ninguém.
  • Quando me mudei pra SP me cobraram uma multa por cancelamento, coisa que a atendente me garantiu que não seria cobrada. Só resolveu quando botei a Anatel no meio.
  • Daí outro dia um atendente da Tim gritou comigo no telefone e chamei a Anatel de novo. Me ligaram, pediram desculpas, mas ficaram todos escorregadios quando perguntei se ia acontecer alguma coisa com o atendente deles.
  • E então outro dia eu passei um papelão ridículo, sofrendo com informação desencontrada em visitas em lojas e ligações para a central de atendimento, tudo para ativar um simples plano de dados.

Neste momento minha relação com a Tim tava estilo “shotgun wedding” – a gente, no máximo, se aguentava. Mas com a iminência da portabilidade (e com a BABA de dinheiro que eu deixava na Tim todo mês) eu pensei em ligar pra lá e ver se me ofereciam alguma vantagem financeira pra continar aguentando aquele serviço vagabundo.

E aí é que começa o problema.

A atendente do “Serviço de Relacionamento Especial” (vulgo “setor onde a operadora abre as pernas para não deixar cliente cancelar a linha”) me ofereceu nada menos do que um iPhone 3G (de 8GB) a R$ 700 para me “refidelizar” e eu continuar cliente deles por mais 12 meses. Neste exato instante o iPhone brasileiro, um dos mais caros do mundo, apareceu em minha mente como uma realidade plausível e eu instantaneamente fui capturado pelo campo de distorção da realidade de Steve Jobs. Só que, em vez de concordar com a oferta deles, eu preferi ligar depois para ver se conseguia pegar o de 16GB.

E esta foi a idéia MAIS ESTÚPIDA que já tive.

Daquele momento em diante começou um revival da minha saga com a Oi, de quando eu tive que ligar pra lá cinquenta e duas vezes até conseguir receber o celular com desconto que me ofereceram. Só que com a Tim o processo era assim:

  • Eu ligava uma vez, ficava eternamente na espera e não era atendido
  • Eu ligava de novo, caía numa atendente, eu pedia pra me transferir pro SRE (setor de relacionamento especial) e ela dizia que não podia me transferir porque o sistema estava fora do ar.
  • Eu ligava mais umas duas ou três vezes até que algum atendente conseguisse me transferir pro SRE. Aí, de duas uma: ou me falavam que o sistema DELES estava fora do ar e eles não conseguiam checar o estoque, ou eles checavam o estoque e diziam que não tinham o aparelho.

Isso sem contar as mentiras que eu ouvia dos atendentes: alguns diziam que a opção 5 (cancelamento) do menu da Central me transferia direto pro SRE, o que nunca funcionou. Outros diziam que “só alguns atendentes conseguem fazer a transferência para o SRE”, ou seja, que meu atendimento era na base da loteria. E sobre o estoque de aparelhos eu ouvia cada hora uma coisa: um atendente me dizia que ele era renovado “a qualquer momento”. Outro dizia que era “semanalmente”. Outro me disse que era “diariamente”. Um deles chegou a dizer que era “trimestralmente”. “Você sabe que ‘trimestralmente’ é de três em três meses, né?”, perguntei pra esse último.

Não é atoa que o novo slogan da Tim é “mente sem fronteiras”…

Aí eu fui ficando sem paciência de brincar de ligar pra Central e comecei a contar as ligações que fazia e anotar os números de protocolo. Contei TRINTA E SEIS LIGAÇÕES. Afinal, “vida de babaca é atribulada”, diria o Cris Dias. Mas na trigésima sétima eu achei o iPhone de 8GB no estoque e, obviamente, encomendei. Pediram sete dias úteis para entregar.

samara
“Sete dias”, é o que dizia a Samara, ao telefone, antes de matar a pessoa. Coincidência?

Mas aí chegou o sétimo dia e nada de iPhone. Resolvi ligar pra central. Precisei de mais SEIS tentativas até conseguir falar no SRE, e quando consegui, o atendente me disse assim:

– Senhor, o seu telefone foi para a assistência técnica.
– Como é que é?!
– Está aqui no sistema que ele foi pra assistência técnica, ele estava com um problema no… no… no botão de “impressão check”, e aí gerou um erro na sua fidelização…

Sim, meus caros, a Tim não está brincando com aquele papo de “mente sem fronteiras”. Essa foi a mentira mais mentirosa de todos os tempos. Ou a Apple tem o pior controle de qualidade do mundo (e a Tim anda abrindo as embalagens antes de entregar aparelhos novos), ou ela iria me vender algum aparelho de mostruário e/ou usado. Ou então eles só queriam me enrolar pra eu continuar cliente deles por mais algum tempo.

Mas a essa altura eu já estava furioso no telefone e questionando o atendente:

– Mas mesmo se isso fosse verdade por que vocês não pegam outro aparelho no estoque e mandam?? E mais, se eu não tivesse ligado pra vocês ninguém ia me avisar não?
– Errr… senhor, o que eu posso fazer é estar re-fidelizando o senhor e fazendo um novo pedido.
– Sei, e aí são mais sete dias, se é que ainda tem iPhone no seu estoque, né?
– Sim senhor.
– Eu vou perguntar apenas uma vez: Existe alguma coisa que você possa fazer para resolver o meu problema?
– Errr… eu posso refazer sua fidelizaç…
– Você não precisa repetir o que eu já sei. Eu estou te dando uma chance de resolver o meu problema e arrumar um telefone e me entregar no prazo que você combinou comigo antes. Você tem como resolver o meu problema?
– Olha senhor, eu só posso estar te refidelizando.

E então eu desliguei o telefone, peguei minhas contas antigas da Tim e, na mesma hora, fui visitar a concorrência. Conversei, pesquisei, fiz as contas e quatro horas depois eu já estava virando cliente da Vivo – e com um iPhone 3G 8GB novinho em mãos.

iphone

Claro que paguei bem mais caro pelo iPhone, mas é que o campo de distorção da realidade de Steve Jobs é REALMENTE poderoso. Em termos de tarifas e custo mensal a coisa vai ficar “elas por elas”, com a vantagem de ter mais minutos e pagar R$ 1 a menos por Adicional de Deslocamento (uma das coisas que mais me quebra quando viajo). Mas a minha primeira impressão da Vivo foi muito boa: levei coisa de 5 minutos pra ser atendido (contra 1h de espera média em qualquer loja Tim), conversei com dois vendedores e ambos foram excelentes. E ainda me pediram para dar uma nota para o trabalho deles no final, como parte de um esforço da Vivo em medir a eficiência do atendimento. Se estes dados viram informação gerencial no futuro são outros quinhentos, mas pelo menos há uma preocupação de, pelo menos, causar boa impressão.

Imagino que você deva estar pensando que perdi tempo (e dinheiro), que “operadora de celular é tudo ruim” e que “sair da Tim tem tanto efeito quanto boicotar o McDonalds” (como diria o Exu Caveira Cover), mas eu ia me sentir um trouxa se continuasse cliente de uma empresa que me tratou do jeito que tratou. Se fosse só esse episódio da fidelização tudo bem, eles nem tinham obrigação de me dar desconto ou entregar tudo em tempo hábil, mas é que o conjunto de irritações que a Tim já me causou deixou a situação intolerável. E se minha saída não é significativa pra Tim, tem os meus reclames aqui no blog que de vez em quando acabam sendo ouvidos (tipo o da revista Seleções, que o pessoal até mandou email pedindo direito de resposta e tudo).

P.s.: No processo de escrever este post eu acabei entrando na parte corporativa do site da Tim. Descobri que eles tem seis diretorias e apenas três pessoas ocupando os cargos (sendo uma delas o diretor-presidente/presidente do conselho/diretor geral. Praticamente um super-homem). Mas o pior é que eu não vi uma diretoria de operações ou alguma que pareça cuidar do atendimento, ou seja, eu nem sei quem eu devo mandar tomar no cu.

P.p.s.: Pra não dizer que a Tim é pior em tudo, olha um lugar onde ela é campeã: no ranking de reclamações do ReclameAqui.com

reclameaqui

Sim, a Vivo tá lá também… bem como TODAS as grandes operadoras de telefonia móvel. Mas a tim tem o DOBRO de reclamações da Vivo, e com uma base de clientes muito menor.

Update (26/03): Me ligou uma mocinha da Tim pra agendar a entrega do meu aparelho. Tadinha. Expliquei a situação toda pra ela e falei que já tinha pulado fora. Segundo ela, o papo de “botão impressão check estragado” que me passaram foi um erro de interpretação do atendente: segundo ela, o botão estragado era do sistema da Tim, e não do telefone que iam me mandar. Mas ela mesma sacou que era tarde demais para tentar me ganhar de volta e apenas pediu desculpas por todo o ocorrido.

Por sinal a minha portabilidade já está funcionando, mas não imune a problemas. Primeiro foi a Vivo que me ligou dizendo que eu tinha que ligar pra Tim por conta de uma divergência de cadastro. Precisei ligar pra Tim umas SEIS vezes pra conseguir resolver, mas deu certo: meu telefone novo já recebe chamadas do meu número de sempre (inclusive, quem tentar me ligar e não conseguir, avise aí nos comentários). O problema é que o de Bethania, que está vinculado ao meu CPF mas não foi portado ainda. Isso não cheira bem…

E olhaí o Esparroman também se embrenhando com a Tim

O fim de Dead Cow City

Interrompemos nossa programação de posts das férias para contar aqui a coisa mais estapafúrdia que já me aconteceu em 15 anos no mercado de trabalho.

Não vou entrar em detalhes mas a coisa foi mais ou menos assim:

  • Meu projeto estava com uns problemas e resolvi conversar com os consultores-líderes para ver se eles me davam uma mãozinha.
  • Na conversa eu tentei explicar o problema mas o pessoal acabou me pedindo pra detalhar OUTRA coisa. Mas vá lá, fiz o que eles pediam e avisei que ainda precisava continuar o assunto. Mas aí veio o natal e o ano-novo e o assunto ficou pausado.
  • No meu primeiro dia de trabalho de 2009 o consultor-líder me liga e fala que meu projeto precisa de uma “virada de mesa” e que eu não tenho o perfil necessário para isto, e que estava contactando nossa empresa de consultoria pra discutir minha substituição. Obviamente eu levei um puta susto, mas como ele afirmou que nada estava resolvido e que conversaríamos na próxima semana, pensei que até lá a gente pudesse esclarecer seja lá o que foi que provocou uma reação tão extrema deles em tão pouco tempo. Problema de comunicação, talvez?
  • No dia seguinte, outro susto: recebo um email oficializando a minha saída do projeto. Mas o consultor-líder continua afirmando que “nada estava definido” e que conversaríamos na próxima semana.
  • Chega a próxima semana e eu me reúno com o consultor-líder. Discutimos longamente os problemas do projeto e os acontecimentos recentes. No fim, ele vira pra mim e diz que meu substituto estava na sala ao lado e que ele ia chamá-lo para eu passar a ele as informações sobre o trabalho.

Não, não. É sério. Vou resumir ainda mais pra fazer ainda menos sentido: Fui discutir os problemas do projeto com meus superiores e eles me expulsaram do projeto.

Aí você pergunta: “Mas por quê?”. É estranho mesmo. O cliente gostava do nosso trabalho,  o chefe da engenharia chegou a dizer que “estaria perdido” se nós não estivéssemos lá. Outro dia me contaram que uma das meninas da minha equipe (que o cliente até tentou contratar, veja você) comentou que eu fui a “salvação” do projeto. As opiniões das pessoas que conversei e que acompanharam a história variam. Umas acham que eu fui usado de bode expiatório para o caso do projeto fracassar. Outras acham que eu posso ter ferido o ego dos líderes e estava pagando o preço. Alguns especularam que eu fui removido para dar lugar a alguém da “panelinha” deles que devia estar em casa, sem trabalho (e sem honorários a receber). Mas eu prefiro a explicação, sucinta e assertiva, de um amigo meu: “É, o mundo corporativo é assim mesmo”.

Pois então. Como diz o mestre Tom Zé, a gente “passa mal, toma Sonrisal, se engana mas vai em frente”. Então, no fim da tarde da última terça-feira, fui embora de Dead Cow City para nunca mais voltar. E digo que fui embora com a cabeça erguida e com a consciência tranquila de que fiz um bom trabalho nos sete meses em que estive por lá.

Mas o mais legal é a sequência da história: coisa de alguns DIAS depois e me liga outro consultor-líder, avisando que nosso antigo cliente de Brasília – um que vive aparecendo no jornal, especialmente nessa época de crise – está mesmo querendo fechar um contratão de consultoria e pergunta se eu não tenho interesse em ficar full time (todos os dias do mês) no projeto.

Sabe o que me impedia de trabalhar full time com eles antes? O projeto do qual fui expulso.

Hoje o consultor-líder me ligou contando que o cliente ficou feliz da vida com minha nova disponibilidade. “Eles gostam mesmo de você”, acrescentou. O projeto deve começar em março, e até lá terei que fazer o grande sacrifício de ficar em casa, jogando GTA IV.

É, o mundo corporativo é assim mesmo 🙂