Obrigado, São Paulo

Que saco, é mais um post sobre São Paulo. Azar o de vocês. Aguentem, porque eu não consigo ir embora e não falar daqui de novo.

Ter me mudado pra São Paulo foi, com sublinhado e tudo, uma das melhores decisões que já tomei na vida. Acho que só perde pra ter me casado.

Depois de sete anos morando aqui posso afirmar que aquela frase manjada do Criolo de que “não existe amor em SP” é totalmente verdade. Como tudo aqui é mais difícil – porque é mais caro, mais lotado, mais neurótico ou mais distante – sua visão romântica da vida vai embora rapidinho. A vida aqui não é um mar de rosas e nunca vai ser.

E isso é ótimo.

Eu gosto muito de uma artista iugoslava chamada Marina Abramovic. Aquela, que ficou famosa em 2010 com o “The Artist is Present” no MOMA. Pra quem não conhece ela faz a chamada “arte de performance”, onde o próprio artista usa o corpo como meio de expressão. E Marina é louca: nas suas “obras” ela se coloca em situações extremamente desconfortáveis, dolorosas e corre riscos reais de se ferir ou morrer. Uma vez, numa entrevista, ela disse algo que se tornou minha frase predileta por muitos e muitos anos:

“Você não cresce quando está fazendo o que gosta”.

São Paulo representa muito disso pra mim. Não vim pra cá para curtir um mar de rosas: vim para trabalhar duro. E isso foi incrivelmente recompensador. Aqui aprendi a lidar com a rejeição e com a derrota. Aprendi que nenhum problema é grande demais se você tem disciplina e paciência. Foi aqui que me tornei adulto, e por isso conquistei muita coisa boa. Consegui comprar meu apartamento bem no meio do boom dos preços dos imóveis. Emagreci 12 quilos mesmo com jornadas de trabalho de 12 horas, e retomei o controle da minha própria saúde. E mesmo em 2014, um ano de incertezas profissionais, consegui juntar dinheiro suficiente pra poder ir estudar no Canadá. Eu jamais conseguiria isso tudo em outra cidade.

Mas falando assim parece que eu só sofri em São Paulo. Muito pelo contrário: meus anos aqui talvez tenham sido os mais ricos em termos de cultura e diversão – tanto que os amigos de Beagá chegaram a comentar que viramos “baladeiros” depois que nos mudamos pra SP. De fato, Só no quesito “shows de música boa” teve os quatro shows seguidos do Tortoise, teve o Girl Talk no Planeta Terra, teve o primeiro show do Radiohead no Brasil (e com Kraftwerk!), tiveram os inacreditáveis shows de R$ 5 no SESC Pompéia com nomes absurdos tipo Jaga Jazzist (melhor show de 2014), Mouse on Mars, Gonjasufi, The Sea and Cake… teve o Sónar 2012 com o lineup mais inacreditável de todos os tempos, teve o Oval na Trackers, Daedelus (de graça!) na PUC, teve o Pet Duo na Augusta… e isso é só a ponta do iceberg: tiveram os museus e bienais, as tardes no Ibirapuera, as voltas de bicicleta na ciclovia da marginal… teve também muita comida boa: o fantástico ovo mollet do Le Jazz, o ceviche inacreditável do Rinconcito Peruano (na cracolândia!), o inigualável lomo saltado do Don Mariano, e os chopps e conversas fiadas com os amigos no São Cristóvão, toda terça. Amigos, amigas e até “esposas novas” que vão fazer muita falta.

A vida aqui foi intensa, e eu nem sempre tive a chance de fazer o que gostava. E por isso eu só tenho a agradecer.

Adeus, Itaim

O bom de escrever blog é que uma rápida consulta nos arquivos lhe permite dizer que foi exatamente em julho de 2005 que a consultoria me trouxe a trabalho pra São Paulo. Foi pra um projeto numa emissora de TV. Eu ficava hospedado no Formule One da 9 de julho (apelidado de “habitáculo” por causa do quarto minúsculo).

Nessa época eu basicamente trabalhava, comia na própria empresa do cliente e voltava pra casa na sexta, então por muitos meses o máximo de experiência paulistana que tive foi a de ficar engarrafado toda sexta na Av. Bandeirantes na hora de ir pro aeroporto. Até que teve um feriado bem na quarta-feira e me vi sozinho e com um dia livre na cidade. “Bem, vamos fazer turismo”, pensei.

Eu não me esqueço desse dia. Saí andando a esmo pelo bairro e, de repente, “achei” a Rua Augusta – que eu só conhecia do Banco Imobiliário e dos “120km/h” daquela música manjada. Mais um pouco e caí também na Oscar Freire. Foi um dia gratificante de exploração urbana descompromissada: um monte de “descobertas” num espaço de apenas alguns quarteirões.

Alguns meses depois eu repeti a dose, também num feriado de quarta, mas com algum planejamento acabei indo conhecer o MASP e o StandCenter, na Paulista. Também não me esqueço desse dia e do quanto eu fiquei fascinado com o tanto que São Paulo podia oferecer. Porque eu saí do hotel, andei alguns minutos a pé e estava ali, em frente à quadros de Bosch, que eu sempre gostei mas, na minha cabeça ainda interiorana, nunca imaginei que fosse ver ao vivo.

Destes dias em diante, SP começou a deixar uma crescente boa impressão, que aumentava conforme os outros detalhes da vida na cidade ficavam evidentes: a rapidez dos serviços, a praticidade do aeroporto bem no meio da cidade, a gastronomia, a oferta cultural absurda. O lado ruim (altos preços e engarrafamentos) era perfeitamente evitável com algum planejamento.

Alguns meses depois eu fui parar em outro projeto e passei a trocar de hotel no meio da semana. Dessa vez era um flat: na verdade o Capital Flat, ali na Teixeira Soares, na beiradinha da Juscelino. Daí em diante, por coincidência, todas as minhas estadias em SP foram em hotéis do Itaim.

Mal sabia eu que, com as fotos panorâmicas que eu tirava da janela dos hotéis, eu estava na verdade fotografando meu futuro bairro.

É seguro dizer que grande parte do meu amor por SP vem dos meses que passei hospedado no Itaim. Foi nele que eu tive ainda mais um dia divertido de exploração urbana, quando saí pra correr no Ibirapuera (acredite se quiser) e dei de cara com uma das Bienais. E fiquei lá embasbacado porque saí pra fazer exercícios e, sem querer, dei de cara com o melhor da arte moderna em quantidades que requerem pelo menos um dia inteiro (e boas pernas) para explorar totalmente. Foi nesse dia que São Paulo ficou pra sempre encrustrada na minha cabeça como uma cidade gratificante, e não defeituosa.

Tanto que, quando em 2008 Bethania arrumou um emprego em São Paulo, eu fui quem mais botou pilha pra gente se mudar. Coincidentemente o emprego novo dela era no Itaim e, por conveniência, alugamos um apartamento no próprio bairro.

Ironicamente, depois de mudar pra SP eu passei a passar menos tempo na cidade – por conta das viagens da consultoria. Tive até que passar um ano inteiro na odiosa Brasília, a cidade mais sem personalidade do mundo. Aí estive no interior de SP, depois em Fortaleza, depois em Cuiabá, depois no interior do Mato Grosso… e, por pura comparação, São Paulo ficava ainda melhor e mais linda na minha cabeça. A felicidade veio mesmo quando, no final do ano passado, eu finalmente arrumei um emprego “geograficamente fixo” e – algumas idas pra Recife à parte – parei de viajar e pude aproveitar bem mais minha casa paulistana.

E que casa. No Itaim o padrão são apartamentos imensos (e caríssimos) de 3 ou 4 quartos ou “habitáculos” de 1 quarto com 40 metros quadrados – mas num golpe de sorte (e de insistência de Bethania) achamos um que era bem grande e que, além do quarto, tinha um pequeno escritório. E que não custava uma fortuna para alugar.

Quanto à localização, morar no Itaim é conseguir, milagrosamente, ter tudo acessível a alguns minutos de caminhada – desde o pet shop do cachorro até um cinema – ou um cartório, ou uma dúzia de restaurantes japoneses, ou um chinês, um italiano, um mineiro… e uma lista infinita de opções. É, sem dúvida, um dos melhores bairros de São Paulo…

…tanto que, com o boom imobiliário, no último reajuste de aluguel a proprietária queria aumentá-lo em 70%. Sem brincadeira. Setenta. Por. Cento. A sorte é que eu me movi primeiro e já estava há quase um ano procurando apartamento.

Apesar da leveza que isso vai fazer no meu bolso, é com pesar que eu deixo o Itaim. Foi o primeiro bairro que me acolheu de verdade em São Paulo e me fez gostar dessa cidade maluca. Foi o palco de jantares, de happy-hours, de cafés-da-manhã na Bienal (a padaria, não a exposição), de bebedeiras no karaokê, de cinemas no Kinoplex, de sinucas no Secreto (no simbólico número 666 da Joaquim Floriano) e de muitas outras memórias.

Living the Paulistano dream

Oito da manhã de qualquer dia da semana e São Paulo está gelada, coisa de uns treze graus. Na garagem do prédio eu me despeço de Bethania, ela vai em direção ao carro, eu vou em direção ao ponto de ônibus.

As ruas estão cheias do barulho de cidade enquanto eu coloco meus fones de ouvido, que são recobertos por uma espuma semi-rígida, parecida com aquelas que operários usam em minas de carvão, altos-fornos e outros lugares barulhentos. Você espreme a espuma para que ela entre no seu canal auditivo e depois, lentamente, ela vai voltando ao tamanho normal e vedando seu ouvido de todos os ruídos externos. Este é um dos momentos mais divertidos do meu dia: conforme os fones vão tapando o ouvido, o volume do som do mundo vai lentamente abaixando até o ponto onde não se ouve mais nada.

E então eu posso escolher a trilha sonora da minha manhã.

Isto é meticulosamente planejado desde o dia anterior. Como agora eu não divido táxis com colegas de trabalho nem sou limitado pela internet horrivelmente lenta dos hotéis, eu posso entupir meu telefone de discos novos e lançamentos que eu passei o último ano inteiro sem tempo para ouvir. E é uma delícia quando se acerta na escolha do playlist da manhã. Outro dia ouvi Further, o novo dos Chemical Brothers, um disco claramente megalomaníaco com uma faixa épica atrás de outra, e desci do meu ônibus na Av. Paulista me sentindo praticamente um deus.

Aí eu entro na estação Brigadeiro para pegar o metrô e completar o trecho final da minha viagem. São só duas estações, mas este é o segundo momento mais divertido do dia, porque – e eis aí uma das minhas bizarrices mais úteis -  eu simplesmente adoro metrô. Tubos gigantes transportando multidões pelos subterrâneos, passando invisíveis pela bagunça do trânsito na superfície. O metrô é uma das obras-primas da engenharia.

Diferentemente de Brasília, aonde estou encerrando um projeto de 12 meses(*), em São Paulo eu lidero não apenas um, mas dois projetos diferentes. Como os clientes não são do governo, o ritmo e a pressão são pesados. Mas algo me faz responder a eles com uma obstinação que eu nem sabia que tinha. Claro que em Brasília eu não ficava moleirando, mas é como se o espírito da capital federal, com sua arquitetura fria e todos aqueles espaços vazios despertasse uma sensação de paradeza, então eu tinha que fazer força pra ir levando os dias. Porque a sensação é nefasta, contagiosa. Já em São Paulo eu saio do metrô me acotovelando com rios de gente na Avenida Paulista, todos querendo andar mais rápido, chegar à algum lugar, fazer, resolver. Aí eu subo pro trabalho e tá todo mundo querendo chegar a algum lugar, fazer resolver. O espírito é contagiante, e como ainda tem a minha vontade de fazer parte da turba apressada, eis aí a razão de eu entrar e sair de ônibus e engarrafamento com um sorriso no rosto.

Muita gente não entende meu amor por São Paulo, mas ele é simples de explicar. São Paulo não é a cidade onde estou porque nasci ou porque meus pais se mudaram pra ela e eu tive que ir junto. Não é a cidade que me foi colocada nas fuças para que eu vivesse – foi a cidade que eu escolhi. E escolhi do jeito que ela é hoje: suja, com trânsito, com violência, com clima cinzento, com preços altos, tudo incluído. Isto faz toda a diferença. Eu não espero que São Paulo se adapte aos meus sonhos ou anseios – e, sem expectativa, não há desapontamento.

(*) – Pois é, nem falei do fim do projeto de Brasília, meu maior até hoje (e o segundo maior da minha empresa em 2009). Nove pessoas sob minha responsabilidade, alguns milhões de reais em jogo. No fim está tudo entregue no prazo, a meta foi batida, o cliente não pára de elogiar a equipe, e pelo que minha equipe andou escrevendo no LinkedIn (“líder versátil”, “controle consistente do projeto a todo momento”, “mantém a equipe unida e focada nos objetivos do projeto”…) acho que mandei bem. Valeu cada noite mal dormida.

Por sinal nunca tive insônia em São Paulo. Não me surpreende.

Das cidades

Eu nasci em uma capital com alma de cidade de interior (Belo Horizonte), moro numa megalópole caótica superlotada (São Paulo) e atualmente trabalho em uma cidade quadradinha e planejada (Brasília). E sempre gostei das cidades, especialmente das grandes, e prefiro passar o meu tempo nelas do que no mato ou numa praia.

Cidades são conjuntos de pessoas e, exatamente por isso, tornam-se também entidades com características pessoais. Cada uma tem forma própria, tem uma beleza ou feiúra peculiar, cada uma tem tamanhos, climas e problemas próprios – assim como pessoas, e assim como as pessoas que as habitam.

A cidade é a mais humana de todas as obras humanas. E, como criatura, sempre reflete seu criador – e é aí que reside a sua beleza. Não me refiro à beleza plástica, ao ser bonito, e sim ao ser autêntico. Em São Paulo, quando você sai do metrô na Sé e fica entre a imponência santificada da Catedral e a imundície da praça em frente, na verdade é como se você estivesse no meio de um ser humano e de todas as suas incoerências. São Paulo tem muitas delas, e é por isso que eu acho São Paulo uma cidade fascinante.

É é também por isso que eu considero cidades planejadas (sim, você mesma, Brasília) um erro por definição. Não se planeja uma cidade, da mesma forma que não se planeja uma pessoa. Ninguém sabe aonde vai estar daqui a 20 ou 30 anos. Muito menos algumas centenas de milhares de pessoas. Muito menos ainda algumas centenas de milhares de pessoas que convivem no mesmo espaço urbano. Cidades precisam poder crescer ao sabor das épocas, precisam poder registrar a passagem do tempo na fachada dos seus prédios e na urbanização dos seus bairros. Cidades precisam poder ser produto de todos que a compõem, e não apenas ser fruto da cabeça de quem a concebeu. As superquadras do Plano Piloto são prisões da mente de Lúcio Costa.

Já a minha terra natal (Belo Horizonte) é a prova de que uma cidade, como um ser humano, tem alma. Beagá corre atrás para espelhar os progressos e os problemas das outras capitais e, de cima, não deixa nada a desejar à outras metrópoles: tem engarrafamento, tem favela, tem shopping de luxo e tudo o mais. Mas tem algo intangível entre um poste e outro, entre uma e outra buzinada do ônibus. É possível entrever uma atmosfera interiorana, quase provinciana, que o vidro, concreto e aço nunca vão tapar.

Cidades são assim, complexas, mas acima de tudo, antropomórficas. Isso é o que me faz gostar de estar nelas. A cidade, além de ser sua cidade, é também um pouco de você.

A saga do roubo de notebook em Congonhas

No domingo da semana retrasada São Paulo ardia em febre e meu telefone tocou: era um amigo querendo sair pra tomar uma cerveja e afogar aquele calor maluco. “Tudo bem, só preciso levar Bethania em Congonhas pra pegar um avião e a gente toma uma”, respondi.

No caminho, o telefone de Bethania (que viajaria com mais 2 colegas de trabalho) toca com a notícia bombástica: roubaram a mochila e a bolsa de uma delas, bem ali, no passeio logo em frente ao aeroporto. Ela estava com um carrinho de bagagem esperando uma das colegas chegar quando um cara passa, pega a mochila, sai correndo e entra num Gol branco. A menina até tentou correr atrás dos caras (péssima ideia) mas desistiu assim que viu uma arma sendo apontada em sua direção.

roubo Um detalhe: o ladrão deixou cair seu celular durante o roubo. E mais: como o carro dos ladrões parou em fila dupla durante o roubo um dos marronzinhos da CET foi multar o carro e, portanto, anotou a placa.

Enquanto fazíamos o boletim de ocorrência chegaram os policiais civis que ficam de plantão no aeroporto. Um deles, o homem mais GIGANTESCO que já vi, foi o que mais comemorou quando ficou sabendo do celular e da placa do carro. Segundo eles, há semanas eles tentam pegar essa quadrilha – e com o celular e a placa do carro tudo ficou bem mais fácil. Ele até mostrou pra nós um vídeo das câmeras de segurança (esse aí da foto) mostrando um assalto similar ocorrido no dia anterior. O cara estava empolgadíssimo: “agora eu vou me divertir com esses caras, eles vão ter tratamento VIP”, dizia ele, enquanto apalpava efusivamente a pistola que carregava na cintura. A vítima do assalto também estava bem animada com a possibilidade de pegarem os meliantes e até fez uns pedidos especiais ao policial, coisas como “puxa bastante as bolas dele pra ele ficar impotente” e por aí vai.

Aí pegamos a bagagem das meninas, botamos de volta no carrinho e saímos do posto policial para remarcar as passagens. Estávamos esperando em frente ao guichê da Tam quando, de repente, um moleque aparece de repente, pega duas das malas que estavam no nosso carrinho e sai andando apressado. Todo mundo ficou IMÓVEL, paralisado pela ideia de que estava acontecendo tudo de novo, até que o “ladrão” se vira, mostra o dedo médio pra nós e sai, esbravejando. E alguém comenta:

– Errr… esse era aquele menino que estava no posto policial com a gente? Um que tinha perdido a carteira?

E todo mundo cai na gargalhada. Aparentemente, nós, vítimas de roubo de bagagem, acabamos “roubando” a bagagem dos outros sem querer – e o que é pior, de dentro da delegacia. Aparentemente estávamos mais competentes pro crime do que os ladrões de verdade…

Mas depois do roubo involuntário e de longas horas remarcando passagem, Bethania e as meninas viajaram no dia seguinte. Quando ela voltou, na terça à noite – surpresa! – a polícia já tinha pego os caras. Segundo ela rolou até um police lineup, com os meliantes enfileirados e a vítima atrás de um espelho falso, pra fazer a identificação dos marginais. Eu dava tudo pra ter visto isso. Rolou até uma matéria sobre o roubo no Jornal da Globo. O vídeo que eles usaram pra ilustrar o roubo, por sinal, é o mesmo que o policial nos mostrou no domingo.

Pelo menos tivemos um final “semi-feliz”: apesar das perdas materiais (nada do roubo foi recuperado), pelo menos os caras foram presos. Inclusive preciso destacar o excelente atendimento dos policiais em todo o ocorrido: foram rápidos, atenciosos, prestimosos e ainda pegaram os caras.

Vai virar igreja

Ontem. Augusta. Uma da manhã e eu na porta do Club Roxy para, finalmente, ver Pet Duo tocar  – corrigindo, por sinal, um arrependimento de 3 anos atrás.

Aí ouço uma HORDA de pessoas descendo a rua, gritando e fazendo zona. “Normal, Augusta”, pensei.

O pessoal foi chegando mais perto e os gritos foram ficando mais audíveis e eu percebi que a horda gritava, na mesma métrica do “ahh, eu tô maluco”: “AAAAH!!! JESUS TE AMA!!!”. “Normal, turminha ultrajovem dando uma de herético contracultural”, pensei.

Aí o pessoal foi chegando ainda mais perto e eu pude então ler o conteúdo das camisetas: “Jesus te ama”, “Arrependa-se”, e o escambau. E foi aí que eu percebi que aquilo era realmente uma turma de igreja, que veio descendo a Augusta para pregar a nós, “pecadores”, nos bares e portas de boate. Todos estavam empolgadíssimos, sentindo-se o máximo por serem supostos enviados de Deus excursionando valentes em missão sagrada bem no meio da perdição.

E a turba parou em frente à Roxy e, em coro, gritou: “VAI VIRAR IGREJA! VAI VIRAR IGREJA!”.


Aí você pergunta: e o Pet Duo?

Meu amigo, minha amiga… PUTA QUE PARIU. Destruição TOTAL e ABSOLUTA por HORAS. Saí de lá surdo e feliz.

Hora do Planeta – FAIL?

Eu tirei uns panoramas da minha janela 10 minutos antes e depois do início da tal “Hora do Planeta” – aquela, onde todo mundo supostamente apagaria as luzes de casa por uma hora para chamar a atenção sobre os problemas do meio ambiente.

Eu diria que ficou parecendo um “jogo dos sete erros”. Quase não dá pra ver janelas apagadas…

horadoplaneta

Bem, é como eu disse no Twitter: hora do planeta é legal, é louvável, mas é o equivalente ambiental ao “atleta de fim de semana”.

P.s.: A Lúcia Malla fala bem melhor do que eu sobre esse assunto.

Update: O Big Picture do Boston.com fez mais ou menos a mesma coisa que eu – só que pelo mundo inteiro e em vários monumentos e locais históricos onde o pessoal realmente apagou as luzes.  Clique nas (belíssimas) fotos para ver as luzes apagadas.

A rua Augusta e a fraternidade universal

Quando o sol se põe e a noite chega é como se Deus removesse do céu o seu olho gigante e incandescente e deixasse o mundo momentaneamente sem supervisão. E então é como se seus habitantes, que passam as horas claras do dia mantendo a compostura e cumprindo seus contratos sociais, percebessem que “o chefe saiu”.

Talvez isto justifique o que se vê à noite na Rua Augusta. Desde que me mudei pra São Paulo eu comecei a criar um fascínio cada vez maior por ela – mais especificamente pela “baixa Augusta” – a parte onde ficam os inferninhos, puteiros, botecos e casas noturnas.

augusta_inferno

Andar pela Augusta tarde da noite é surreal. De um lado do passeio tem uma mini-equipe de produção com câmeras e holofotes entrevistando as pessoas que passam. Mais adiante tem uma rodinha de violão, depois um grupo de moleques praticamente uniformizados com seus pretos e piercings na porta de uma boate. Há muitas câmeras, muitos celulares e muita gente gritando “onde você tá?” neles, para encontrar os amigos no meio daquele pandemônio. As paredes são cobertas de pichações e cartazes de artistas urbanos: um deles diz, em letras garrafais: “AMOR É IMPORTANTE, PORRA”. Os seguranças da porta das casas de shows adultos divulgam as atrações: “mulheres bonitas, quantidade e qualidade!”, diz um deles. “Todas apertadinhas”, diz outro. Mesmo se você estiver acompanhado, não tem problema. “Temos mesa pra casal”, dizem eles.

Ontem eu estava lá, com esposa e amigos, na porta do Inferno Club – uma casa de shows com um neon vermelho clássico na fachada, portas acolchoadas e reproduções de quadros de Hieronymus Bosch nas paredes. Um dos amigos que estava conosco não estava acostumado a “sair de balada” e estava visivelmente assustado. Então eu disse a ele alguma coisa mais ou menos assim:

– Não precisa se preocupar. Você olha pras pessoas e parece que elas vão te atacar e te matar, mas na verdade todo mundo está aqui com o mesmo objetivo: se divertir.

E é por isso que eu me sentia tranquilo no meio daquilo tudo. Todo mundo estava ali para, à sua maneira, exorcisar seus próprios demônios; fugir um pouco das vistas do olho incandescente de Deus e dar vazão aos desejos tortos que ficam engavetados de segunda à sexta. E por isso é como se todo mundo estivesse unido pelo desejo comum de se divertir.

A rua Augusta talvez seja um dos poucos lugares aonde o ser humano se comporte de maneira genuinamente fraternal.

Safári na selva de pedra

Nos quatro dias do último feriadão tivemos quatro amigos belorizontinos hospedados em casa. Foi excelente, quatro dias explorando São Paulo e sua quantidade absurda de opções de lazer (todas cheias, é claro).

Uma delas foi bem interessante: o MAM está com uma exposição excelente de trabalhos de artistas japoneses, por conta do centenário da imigração. E japonês é tudo doido mesmo: as obras envolviam desde motion capture até vômito rosa. Mas a mais divertida era uma sala espelhada com som surround e projeções nas paredes…

 

Usualmente, depois de alimentar o espírito, a gente matava a fome do corpo. Comemos de tudo, desde o clássico sanduíche de mortadela do mercadão até os petiscos fashion do restaurante Skye – que tem a melhor vista da cidade.

Mas não dá pra falar de São Paulo sem falar do trânsito – que gerou o episódio mais engraçado do feriado…

Bethania estava dirigindo pelo Itaim quando dois carros pararam em frente a dois restaurantes para os ocupantes descerem e os manobristas estacionarem. Só que os dois carros estavam bloqueando a rua inteira sem a menor cerimônia. Bethania ficou furiosa, começou a buzinar… e aí um dos manobristas teve a audácia de gritar pra ela:

– Tá com pressa, moça? Compra um helicóptero!

Aí Bethania abaixou o vidro e respondeu, aos berros, com a frase mais marcante do feriado:

– O RLY??? Folgado! Fechando a rua!

Ééé, amigos… ela realmente gritou “O RLY” para o manobrista…