A saga do community college canadense

Essa é uma boa vantagem de se mudar pro exterior: todo mundo acha que você está no topo do mundo, acendendo charuto com nota de 100 dólares e tal. Quando eu falo que vim “estudar fora”, nêgo acha que fui fazer mestrado em Harvard. Na verdade, eu fiz um curso que não vale nem um bacharelado em uma escola que não é nem uma faculdade. 

Bem-vindos ao mundo do community college!

Prólogo: Como assim “community college”?

community college é tipo uma “meia-universidade”. É um conceito difícil de entender porque não tem equivalente no Brasil. Na terra da Dilma do Temer, mesmo que você estude numa uniesquina da vida, no fim tu ganha um diploma e recebe o grau de bacharel, reconhecido pelo MEC e tudo. No caso do college, ele te dá um título de “meio-bacharel”, já que o curso tem metade da duração (2 anos). Pra piorar a confusão, o título que o aluno recebe no final chama-se… diploma.

Meu caso é menos pior: como meu curso tem 3 anos, no fim eu receberei um glorioso… (soem os tambores)… advanced diploma de engenharia de software. E como eu já tenho um bacharelado, eu consigo completar o curso em 2 anos e ainda fazer dois semestres de estágio (o tal do co-op que já comentei aqui).

O público-alvo do community college é, basicamente, a sobra do público-alvo das universidades – gente que não passou, que não consegue pagar, etc. Por isso, quando me matriculei, já vim esperando o pior.

O curso termina semana que vem e, depois de seis semestres, posso afirmar que minhas expectativas foram totalmente superadas… para pior, obviamente. Pra vocês sentirem o drama, vou contar pra vocês os causos separados por curso.

Curso: “Comunicação acadêmica”
Proposta do curso: Ensinar inglês no contexto acadêmico, como escrever relatórios, etc.
O que aprendi: Como provar que não colei ao escrever minha “redação-hambúrguer”.

No meio do semestre, o professor sorteou uns temas e deu um trabalho de pesquisa pra fazer em casa. Coisa séria, tinha que escrever cinco páginas no “padrão ABNT” daqui, citar outros textos, troço cheio das nove horas. Como eu gosto de escrever (e de padrões), fiz um textão fuderoso, formatei impecavelmente, e mandei.

Na semana seguinte, chega um email do professor me chamando pra uma reunião com ele antes da aula. O email não mencionava o motivo nem nada. Achei esquisito, mas confirmei. Chegando lá, o cara me solta a bomba…

– Então, como você bem sabe, a minha turma só tem estudantes internacionais e eu sei que o nível geral de inglês é bem básico…

“Bem básico” é elogio – muita gente na minha turma simplesmente não conseguia se comunicar em inglês. Sem exagero: se o prédio pegasse fogo e a pessoa precisasse discar 911 pra pedir socorro, ela morreria queimada. Mas o meu college não quer perder matrículas, então aceita esse povo mesmo assim.

O professor continuou:

– Eu recebi as redações da turma e não entendi nada, porque praticamente todas elas vieram com um inglês impecável. Então estou achando que não foram eles que escreveram. A sua redação, particularmente, estava muito boa, então eu preciso que você me prove que foi você mesmo que escreveu.

E aí ele me fez um monte de perguntas sobre o tema, sobre por que eu escrevi o que escrevi, e acabou convencido. O resto da turma ficou com zero e levou um belo torra.

Essa história da cola – ou “desonestidade acadêmica”, em termos mais educados – é uma das coisas que mais me incomodou.

Curso: “Negócios e tecnologia da informação”
Proposta do curso: Ensinar tudo aquilo que todo bom programador não se interessa em saber.
O que aprendi: Tudo sobre náutica e sobre o mercado imobiliário de Toronto.

Bob, o professor deste curso, ficava se gabando o tempo todo de ser o coordenador do curso de Gerenciamento de Projetos da Universidade de Toronto (a “UFMG” ou “USP” daqui, em termos de reputação). No entanto, todas as aulas do Bob se resumiram a:

  • Bob contando que tem um barco e de tudo que faz com o bendito barco.
  • Bob contando de quando ele trabalhava na Xerox em 1980.
  • Bob contando que vendeu a casa e comprou um apartamento.
  • Bob contando que tem uma namorada – que também vendeu a casa e comprou um apartamento.
  • Repita os assuntos acima até a exaustão.

Mas o mais legal foram as provas que fizemos, que tinham uma inovação surpreendente: questões repetidas. O cara reaproveitava questões de provas passadas nas provas seguintes. Não era nem uma paráfrase – as questões eram idênticas. E, pra melhorar ainda mais: as questões eram todas copiadas da internet, do site da editora do livro que ele (não) usava no curso.

Eu parei de assistir a aula do Bob logo no primeiro mês do curso. E fiquei aliviado de não ter torrado dinheiro e tempo na Universidade de Toronto…

Curso: “Conceitos avançados de bancos de dados”
Proposta do curso: Ensinar conceitos básicos de bancos de dados.
O que aprendi: Sempre pode piorar.

Esse curso foi tão ruim, mas tão ruim, que no lugar das minhas anotações de aula eu fiz uma lista das cagadas do professor, pra reclamar depois. Saca só a lista:

  • Numa aula, ele projetou uma lista com uns 25 itens sem o menor sentido e falou: “isso é o trabalho de conclusão de curso de vocês”. Depois, ao invés de mandar pra todos uma cópia da lista, ele mandou a gente anotar manualmente os itens, porque assim a gente seria “forçado a prestar atenção neles”. Na semana seguinte, como ninguém tinha entendido o que ele queria que fizéssemos, uns alunos foram tirar as dúvidas com ele. Ele ficou furioso: “mas eu já falei!!!”
  • Numa aula prática, ele deu pra turma uns 10 exercícios… todos com a mesma resposta. Pra piorar, o enunciado das questões era algo tipo “escreva uma consulta para extrair dados da tabela XYZ”. Adivinha se ele deu pra gente a estrutura e/ou o conteúdo da tabela XYZ?
  • Vários exercícios de “extraia os dados do banco de dados” não tinham resposta ou a resposta era um conjunto de dados vazio, tipo, “escreva uma consulta para calcular o total de vendas do usuário John Smith”, e a tabela de dados nem tinha um John Smith.
  • Várias aulas terminaram mais cedo porque ele olhou pra turma e falou: “vocês estão com cara de cansados”.
  • No meio do curso ele inventou de usar uma ferramenta da Adobe para aulas online. Aí ele passava metade do tempo da aula configurando a ferramenta, enquanto a gente olhava pra parede. Na segunda metade da aula o troço não funcionava e, quando a gente questionava, ele respondia: “vai digitando aí!”.

Curso: “Tecnologias emergentes”
Proposta do curso: Falar do que há de mais recente no mercado de software. Só que o professor usava slides com dados de 2001…
O que aprendi: A pagar o pato da turma que fica copiando trabalho.

Quase teve guerra civil nesse curso. Logo no começo do semestre o professor deu um trabalho em grupo pra turma, e obviamente a cola foi desenfreada. Por algum motivo eu me esmerei muito mais do que o normal com esse trabalho e entreguei o código-fonte mais lindo da minha vida, um primor de software, Bill Gates ficaria orgulhoso.

Na semana seguinte da entrega do trabalho, o professor mandou um e-mail cabeludíssimo pra turma toda, dizendo que tinha analisado minuciosamente todo mundo que colou e que ia mandar os nomes todos pra coordenação do curso caso as pessoas não assumissem a cola. Nem precisa dizer que eu fiquei rindo até a orelha quando vi esse e-mail.

Minha alegria durou só até o dia da próxima aula. O professor voltou atrás do nada e decidiu que, como tinha muita cola, ele ia cancelar o trabalho e redistribuir os pontos de outro jeito. Eu quase surtei – juntamente com a outra meia dúzia (literalmente) de gente que tinha feito o trabalho honestamente, e só depois de muita briga com o bendito do professor é que ele aceitou manter as coisas como estavam.

Cursos: “Integração de sistemas” e “Data warehouse”
Proposta dos cursos: Não sei, parei de me importar com isso.
O que aprendi: A ignorar o fato de que eu paguei o salário desses professores inúteis com o dólar a R$ 3.

Esses foram, de longe, os “melhores dos piores” cursos. Toda semana tinha uma aula teórica e uma aula prática, cada um com um professor. O da teoria chegava na aula atrasado, projetava o primeiro slide, depois tergiversava o resto da aula sobre como esse conhecimento é importante para o mercado, que os salários são ótimos, que a gente tinha muito que aprender aquilo… basicamente, passava a aula falando que o conteúdo era muito importante e não explicava a porra do conteúdo. Aí a aula acabava, ele notava que não passou do primeiro slide, e mandava o povo ler as coisas em casa.

Um dia ele deu uma prova e eu fiz uma pergunta sobre uma das questões. A resposta dele foi rir da minha cara – literalmente – e dizer que “se eu prestasse atenção nas aulas eu saberia”. Eu escrevi uma reclamação formal no papel da prova, dizendo que essa não era a postura que eu esperava de um professor. Ele me respondeu por e-mail alguns dias depois, reclamando que a culpa era minha de ficar o tempo todo no laptop durante as aulas.

Detalhe: o laptop é porque, ao invés de usar lápis e papel, eu faço as anotações das aulas no Evernote. Ou melhor, fazia, porque depois dessa palhaçada eu desisti de frequentar as aulas desse cara.

Ah, e tem o professor da aula prática, que era ainda mais perdido – mas perdido no nível de confundir o dia/horário da aula e simplesmente não aparecer, e de quando aparecer, entrar na sala e perguntar “o que eu tenho que ensinar hoje mesmo?”.

Mas é tudo choro e ranger de dentes nesse seu curso?

Apesar da maior parte dos professores serem desastrosamente ruins, os bons deram cursos bem produtivos. Nunca vou me esquecer da primeira aula de programação de jogos pra web, por exemplo: logo na primeira aula o cara botou a gente pra usar umas DEZ ferramentas/linguagens/tecnologias diferentes logo na primeira meia hora de aula – basicamente, ensinando a coisa mais importante em desenvolvimento de software: ficar confortável quando tu não tem a menor idéia do que está fazendo.

Teve também um professor de “APIs e microsserviços” que protagonizou um dos momentos mais satisfatórios do curso. No final do semestre ele resolveu que, ao invés de uma prova final, a turma faria um projeto de software e teria que integrar umas três tecnologias diferentes e demonstrar no último dia de aula. A turma foi praticamente toda contra, com a desculpa de que já tinha “trabalhos demais”, mas o motivo real deles quererem a prova é que ela é mais fácil pra colar…

Quando o professor anunciou o trabalho, um dos alunos – obviamente um dos grandes coladores – fez uma cara de coitadinho e um discurso triste de que ele tinha num-sei-quantos trabalhos pra entregar nas próximas semanas.  O professor deu a resposta mais linda de todas:

Amigão, o choro é livre. Imagina se você tá no trabalho, seu chefe chega pra você e fala ‘cara, eu preciso que você faça um projeto integrando esse e esse sistema, é pra daqui a duas semanas’. Você vai virar pra ele e falar ‘ah cara, não quero fazer isso não, será que tem como você me dar uma prova ao invés disso’?”

Entre todos os alunos com quem convivi, salva-se só algo tipo 2% da turma. Destaque para – sem bairrismo, juro! – a turma da américa do sul e da américa central: 

  • Fui fazer um trabalho de Java com uma venezuelana e empaquei numa parada maluca que o professor não sabia explicar e cuja documentação online parecia grego. A menina ficou acordada até as três da manhã só pra resolver o negócio.
  • Tinha também o “mexicano mágico”: no grupo do curso de Android eu estava fazendo o papel de “arquiteto de software” e volta e meia eu soltava umas ideias meio vagas, tipo “isso aqui devia ser um singleton” ou “podíamos usar Retrofit nessa integração”. O cara pegava essas frases soltas e, sem pedir explicações, aprendia as paradas por conta própria e, alguns dias depois me aparecia com os troços lindamente integrados no projeto e funcionando redondinhos.
  • Num dos meus empregos de meio-período, na escola mesmo, trabalhei com uma brasileira que fazia o design das telas do sistema e eu implementava. Normalmente, designer costuma ignorar a parte técnica, pedir uns troços impossíveis de implementar e depois reclamar que não tá bom. Essa menina era o oposto – ela lia a documentação técnica do projeto, entendia o que era possível ou não e só depois desenhava. Chegava a escorrer uma lagriminha de alegria quando ela me mandava um layout novo…
  • Por fim, o melhor programador que conheci ao longo destes dois últimos anos por aqui foi um colega paulistano. Trabalhei com ele num projeto onde deram pra gente um sistema antiquado e pediram pra acrescentar um monte de novas funcionalidades. O cara sugeriu reescrever o sistema do zero usando uma tecnologia mais moderna. Pra provar que essa seria a solução mais eficiente, refez o sistema inteiro… em DOIS DIAS.

Epílogo – Valeu a pena?

Bom, esse calvário todo foi a forma que eu escolhi pra me atualizar pra trabalhar de novo com software sem quebrar (muito) as minhas economias, usar os estágios pra pavimentar o caminho pra um bom emprego, conseguir um visto de trabalho pra digníssima e também os futuros requisitos pra residência permanente. E todos os objetivos foram cumpridos.

Pensando racionalmente, acho que a minha decepção é um tanto quanto injusta. Eu não podia mesmo esperar educação nível MIT pagando o preço de Uniesquina. No entanto, não sei se recomendaria esse mesmo caminho para outras pessoas. Talvez valesse mais a pena economizar mais um bocado e pagar por um mestrado ao invés de outra (meia) graduação.

Mas o que importa é que deu certo, estou plugado de novo na Matrix, e não pretendo mais tomar a pílula azul.

Como vai a vida aqui no Canadá (ou: a maior poker face do baseball)

Tem seis meses de assunto represado pra falar aqui no blog – já passei por dois estágios, mais da metade da faculdade já foi embora e rolou até uma inesperada adiantada na papelada pra minha permanência definitiva aqui no Canadá.

Mas este post vai falar é de baseball.

Baseball é um dos esportes mais chatos que existe. Jogos de 3 horas e meia onde o máximo de emoção acontece em lances muito esporádicos, e que duram no máximo uns quinze segundos – e que você só consegue curtir se souber muito bem as (muitas) regras. Exemplo: essa semana um dos lances mais lindos da rodada foi o Kevin Pillar prevenindo um double com uma defesa inacreditável… que, na verdade trata-se apenas de um pobre coitado se estabacando contra uma parede. “Arte é contexto”, diria Marina Abramovic.

É óbvio que baseball é o esporte que eu mais ando curtindo. Eu não sei mais quem é o técnico da seleção brasileira, mas consigo recitar a escalação do Blue Jays (o time daqui de Toronto) todinha – incluindo aquele que rapidamente tornou-se o meu jogador predileto do time: o mexicano Roberto Osuna.

osuna

Talvez você se lembre dos desenhos animados do Charlie Brown, onde ele sobe naquele “montinho” e arremessa a bola pra alguém rebater. Esse é o pitcher (“lançador”), e é a posição mais importante da defesa de um time. Basicamente, um bom pitcher evita que o outro time marque pontos. Por conta disso, os times tem vários pitchers, cada um com uma especialidade: tem os que abrem o jogo e arremessam quase toda a partida (os starters), tem os que entram especificamente pra “aliviar” o starter quando ele cansa (os relievers), e tem uns que quase não aparecem porque são especializados em jogar apenas o finalzinho da partida e fechar o jogo – os chamados closers. É o caso do Osuna – ou seja, meu jogador predileto joga, no máximo, uns 10 minutos por jogo… e nem é em todos os jogos.

A questão não é o quanto joga, e sim como joga. O que eu acho mais fantástico no jogo do Osuna é a consistência. Ele vai lá, arremessa com exatamente a mesma expressão facial o tempo todo (a maior poker face do baseball), fecha o jogo, tira o boné, faz o sinal da cruz, aponta pra cima pra agradecer a Deus e vai embora como se nada tivesse acontecido. É assim quando o time tá ganhando, quando tá perdendo, quando tá prestes a ser eliminado ou quando tá prestes a ganhar campeonato. Quando o Osuna erra um lance e o outro time subitamente ganha de virada, a cara dele continua lá, igualzinha. Quando ele faz inacreditáveis nove strikes seguidos e destrói três rebatedores em três minutos, a cara dele nem se altera.

Esse vídeo de highlights do Osuna em 2015 chega a ser repetitivo por conta disso – repare que ele só demonstra alguma emoção aos 3 minutos e 50 segundos, no jogo em que o Blue Jays quebrou um jejum de mais de uma década e virou campeão da American League East.

Eu nunca na vida tive ídolos no esporte. Na verdade acho que nunca tive ídolo nenhum. Aí me chega esse cara, não faz alarde, tem uma atuação super reduzida e específica, tem um dos menores salários do time, não tá preocupado com fama nem nada – só quer ir lá, fazer o trabalho dele sem pirotecnia ou sofrimento, agradecer e ir embora, independentemente da circunstância.

Acho que é aí o ponto onde eu me identifico. No final do ano passado eu comecei meu primeiro estágio e, quando percebi, tinha caído numa armadilha: era uma vaga de desenvolvimento web onde, no fim das contas, eu não tinha nem acesso ao servidor web. Só dava pra, literalmente, programar em Excel. Mas ao invés de me abater eu mantive a minha poker face, fui lá e fiz o melhor que pude. Quatro meses depois, saí colecionando elogios e deixei minha chefa me pedindo pra ficar por lá mais tempo.

Aí veio mais um semestre de estudo e esse foi, de longe, o semestre mais desastroso de todos: teve professor que entrava na sala e perguntava pra turma o que ele tinha que ensinar, teve professor cancelando o trabalho mais foda que já entreguei porque mais de 80% da sala tinha colado, teve aula de “tecnologias emergentes” onde os dados atualizadíssimos que o professor mostrava eram de 1999, teve trabalho de grupo onde eu tive que carregar o grupo inteiro nas costas – e ainda ter que aguentar os coleguinhas vindo reclamar comigo, uma semana depois do prazo de entrega das paradas, que eu “não dei chance” deles fazerem a parte deles. Mas fui lá, fiz meu melhor, mantive as notas boas e o mais importante: arrumei um lugar fuderosíssimo pra fazer meu segundo estágio.

Isso foi meio que o equivalente do Osuna assinando com o Blue Jays e indo jogar na primeira divisão. Meu estágio é no maior banco canadense, e um dos meus “lugares-meta” pra arrumar um emprego quando me formasse. E mais: entrei num projeto onde meu papel é usar o que há de mais novo em desenvolvimento de software pra modernizar os serviços antigos do banco. E ainda mais: o programa de estágio do banco é famoso por ser o lugar de onde eles fazem suas novas contratações, então eu sabia que, se eu mandasse bem, podia transformar o estágio de hoje no sonhado emprego fixo de amanhã.

É óbvio que a coisa começou complicada: o projeto é enorme e me deram um monte de aplicações incompletas pra eu fazer funcionar. Documentação? Bom, um dos sistemas tinha um arquivo TXT com 20 linhas. Requisitos? Só conversando com um dos arquitetos de sistema, que começava a falar do projeto, depois tinha ideias megalomaníacas, depois se perdia e me perguntava: “do que é que a gente tava falando mesmo?”.

Pra piorar, todos os sistemas usavam tecnologias, frameworks e coisas que eu jamais havia ouvido falar. Aí eu ia pesquisar uma delas no Google e o site onde fica a documentação é bloqueado pelo firewall do Banco. Então eu ia pesquisar outra e, ao achar a página do projeto no GitHub, ela dizia assim:

“Atenção! Este projeto ainda não está pronto para ser usado! Ele ainda está em desenvolvimento e vai ser modificado no futuro”.

Se estivesse na minha situação, o que Osuna faria? Sim, exatamente isso que você pensou: iria manter exatamente a mesma cara impassível e a concentração de sempre e ia lançar as suas bolas.

Nem bem fez um mês de estágio e lá estava eu colocando no ar a minha primeira entrega, já sendo usada por uma das áreas do Banco em outro projeto. Algumas semanas depois e eu entreguei a documentação do sistema, que ficou tão boa que o arquiteto-chefe repassou pro time inteiro dizendo que “este é o padrão que todos vocês tem que seguir daqui pra frente”. E segunda-feira passada, faltando uma semana pra chegar na metade do estágio, a chefona do projeto veio me pedir pra, ao invés de voltar a estudar no semestre que vem, pra eu aceitar uma vaga de emprego full time que ela quer me oferecer.

A vida, como o baseball, é chata e maçante durante 90% do tempo. Mas quando você acerta…

Eleições 2015

Assim como no Brasil, aqui no Canadá também querem derrubar o líder do governo.

(brincadeirinha – é que esse ano tem eleições federais 🙂 )

Tem sido fascinante acompanhar o processo eleitoral por aqui. Eis alguns dos meus destaques.

O boneco de Lego e os partidos coloridos

Quando o primeiro ministro anunciou as eleições, em agosto, a imprensa destacou que seria o mais longo período de campanha eleitoral em mais de um século. Como as eleições são em outubro, este enooooooorme período de campanha não chega nem a três meses

O que eu mais gosto no atual primeiro-ministro é que o cabelo dele é idêntico ao de um boneco de Lego:

Stephen-Harper1

Super-resumidamente, o cenário político canadense é dividido em cores:

  • Os azuis são os conservadores, ou “Tories” (longa história). É o partido do Harper e a maioria atual da câmara. Como o governo conservador já vai pra quase uma década tá todo mundo meio que de saco cheio deles.
  • Os laranjas são os “novos democratas” (NDP), o partido de centro-esquerda ou centro-direita, o que for mais conveniente 🙂 . O candidato democrata (Tom Mulcair) parece o FHC, mas só fisicamente. Mas pelo que entendi da história recente, o NDP é meio que “queimado” entre o eleitorado.
  • O vermelho é dos liberais e o seu candidato é o Justin Trudeau: jovem, cheio de marra, e neto de um político famoso do passado. E fisicamente ele também parece o Aécio. As diferenças estão é na ideologia do partido, que quer liberar aborto, maconha e essas coisas todas que tiram o sono dos conservadores.
  • O azul claro é o bloc québecoise, do candidato Gilles Duceppe, mas ninguém fala neles fora do Quebec.

O cartoon abaixo, simplesmente genial, resume tudo no melhor estilo RPG: Harper é o clérigo sem emoções, Trudeau é o bardo fumador de cachimbo, Mulcair é o guerreiro ambidestro e o Duceppe é o morto-vivo.

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Além desses quatro tem também os partidos nanicos bizarros, tipo o partido pirata, o Marijuana (!!) e até o Rhinoceros –  que, entre suas origens, cita a história brasileira do rinoceronte Cacareco, e cuja plataforma política é não cumprir nenhuma promessa de campanha. Mas esses nunca aparecem na mídia.

A política passivo-agressiva canadense

O aspecto cultural mais interessante de morar no Canadá é ver que, de fato, o canadense é estereotipicamente bonzinho – e isso reflete na política. O melhor exemplo disso é a campanha difamatória que os conservadores botaram na TV para criticar os liberais. O slogan da campanha difamatória é simplesmente bombástico:

Justin Trudeau – ele simplesmente não está pronto.

Isso é tipo o equivalente político a “não vote no fulano porque ele é bobo feio e chato”.

Os debates são outro bom exemplo. Apesar da campanha curta, os candidatos debateram cinco vezes na tevê. Em setembro tinha debate quase toda semana. Diferentemente do Brasil, o mediador lança um tema e os candidatos podem falar quando querem. Claro que tem bate-boca, mas os candidatos escutam e obedecem o mediador. E ao invés de “o senhor candidato é um mentiroso salafrário”, as críticas são do tipo: “isto não está correto” ou “o senhor precisa verificar estes dados”. É um troço inacreditável.

No último debate que vi teve um lance engraçado: Stephen Harper estava se defendendo de uma crítica e, como o tempo acabou, o mediador pediu que ele resumisse sua opinião em uma frase curta pra encerrar o assunto. Ele deu uma de esperto e falou mais uns 30 segundos. Na sequência, o candidato do NDP deu a cutucada mais canadense de todas: “Mas que frase longa, senhor candidato!” – e a plateia caiu na risada.

Este é o climão maneiro dos debates canadenses.

Uma coisa bem ruim que rolou com os debates é uma estratégia muito retardada mas que parece funcionar bem por aqui: a da distração. Funciona assim: você aborda um tema super polêmico mas pouco importante do ponto de vista nacional e ele vira o foco de todas as discussões, então as pessoas se esquecem de discutir e avaliar outras coisas tipo propostas de reajustes fiscais, melhorias de infraestrutura, desempenho econômico, etc. Aqui a polêmica foi o niqab: aquele véu que as mulheres islâmicas usam para cobrir o rosto quando saem em público. É que para fazer o juramento de cidadania canadense a lei diz que a pessoa não pode encobrir o rosto, e parece que uma imigrante islâmica foi contestar essa proibição e aí fez-se o circo e a mídia ficou “niqab pra lá, niqab pra lá” e ninguém mais falou em mais nada. Foi bem chato.

Tiririca não teria chances na terra da Rainha

Uma coisa na qual os canadenses pegam pesado é na reputação dos candidatos. Esta eleição inclui também votos para a house of commons (a “câmara dos deputados”), e toda semana a mídia dava notícia de algum candidato expulso do seu partido. Os motivos eram sempre coisas seriíssimas:

  • Um candidato foi expulso porque descobriram que, no passado, ele tinha um programa de rádio onde passava trotes para pessoas e, nesses trotes, debochava de deficientes físicos.
  • Muita gente rodou por causa de posts no Facebook e no Twitter. Um candidato foi expulso porque tuitou que “aborto não deveria ser opção de gente irresponsável”, outro porque, anos atrás, xingou alguém dizendo: “você é um desperdício de esperma”.
  • O mais recente foi um candidato expulso porque acharam um artigo de jornal de sua autoria, intitulado “é errado um homossexual se tornar normal?”, onde ele supostamente apoiava a tal “cura gay”. O candidato pediu desculpas e culpou a tradução, dizendo que na tradução (o artigo foi escrito em punjabi) traduziram straight (heterossexual) como “normal”.

No quesito “roubalheiras e contas na Suíça” eu só vi a rebarba de um princípio de escândalo envolvendo o Senado, cujos membros são indicados pelo primeiro-ministro. Parece que, em 2012, um senador (já demitido e respondendo a processo) teria recebido um reembolso de despesas ilegal, na exorbitante quantia de… tcharammm… 90 mil dólares. A reação popular, ao invés do clássico “político é tudo ladrão”, foi o início de uma conversa sobre extinguir o senado inteiro, conversa tão séria que tem apoio de 41% da população!

Neste ponto o Brasil está anos-luz à frente. 90 mil dólares não enchem cueca de nenhum deputado brasileiro.

Por sinal, parece que os deputados daqui ralam bastante e são bem próximos da população. Outro dia fui andar com meu cachorro às 6:30 da manhã, escuro ainda, num frio de 10 graus, e um cara me ofereceu um santinho do candidato democrata aqui do bairro. Quando fui ver, quem me entregou o santinho foi o próprio candidato. 

Mas fica fácil entender por que isso acontece por aqui quando você entende…

O sistema eleitoral canadense: cada voto vale muito.

Aqui rola o chamado voto distrital: cada distrito (aqui chamado de riding) elege um candidato. Como eu moro numa das cidades mais populosas do Canadá, o meu riding é mais ou menos do tamanho do meu bairro. O meu “deputado federal” vai ser o deputado do meu bairro. Achei massa isso.

riding é proporcional à população e não tem voto de legenda ou primeiro e segundo turno: é maioria simples. Isso significa que eleger alguém com, sei lá, 30% dos votos é bem possível. Significa também que rola voto estratégico para evitar o “desperdício” de votos e derrotar a oposição.

Com a eleição chegando, o bairro se enche de plaquinhas dos candidatos nos gramados em frente às casas – que, obviamente, só podem ser colocados pelo dono da casa. Se você nao apoia ninguém, pode dar aquela zoada:

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Outra coisa que me surpreendeu: aqui não rola de “chutar o cavalete do candidato da oposição”. Destruir propaganda eleitoral é crime federal.

O governo facilita muito a vida do eleitor canadense. Esse ano o Canadá bateu o recorde do chamado “voto adiantado”: se você não quiser esperar até o dia da eleição, o “TSE canadense” permite registrar e votar durante quatro dias na semana anterior ao dia oficial da votação, pra facilitar a vida de quem trabalha em horários malucos ou só pode ir no final de semana. Se você estiver fora do seu riding (o seu “distrito” eleitoral) ou até fora do país, é só se registrar que o TSE te manda um kit pra você votar pelo correio.

No entanto o voto não é obrigatório, então grande parte da propaganda política não é focada no “vote em mim”, e sim no “vá votar”. O turnout da última eleição foi em torno de 60% e esse número tem tendência de queda. E aparentemente, o que decide a eleição é exatamente isso: quem vota ou deixa de votar. Pelo que andei vendo, o governo conservador atual só está lá porque quem se interessa por política é o canadense conservador, mais velho, e como eu li na mídia outro dia, se a “geração do celular” for votar, o Harper perde.

A cobertura das eleições na mídia, por sinal, me pareceu esquisita no começo. Meio “sem sal”, como se estivesse faltando alguma coisa. Só depois de um tempo é que percebi que, na verdade, eu estava é estranhando a transição do “jornalismo com posicionamento político”, ao qual eu fui exposto à vida toda, para o “jornalismo neutro” daqui. O apoio a um ou outro candidato, quando rola, é feito só na base do editorial.

Mas quem vai ganhar?

As últimas pesquisas apontam vitória liberal, então provavelmente vai dar Aécio Nev… digo, Justin Trudeau 🙂

Mas o mais legal é ver como o país é dividido: a imagem abaixo mostra cada distrito com a cor do partido que está liderando as pesquisas. O que deve dar a vitória pro Trudeau não aparece muito no mapa, mas é o voto dos grandes centros urbanos: repare em como Vancouver (na costa oeste) e Toronto (no sudeste, no meio de um monte de distritos azuis) estão vermelhinhas.

polls

 

No meu bairro – predominantemente pobre, negro, de imigração caribenha/africana e religião islâmica (!!), o candidato liberal, um imigrante senegalês de nome árabe (?!??) lidera com quase 50% dos votos. Eu queria muito encontrar ele na rua pra bater um papo sobre as propostas do partido, mas não rolou.