Um dia na vida do Primo (versão 2016)

Num dia desses de insônia estava revendo os arquivos do blog e me lembrei de quando fazia esses posts.

6:40 – O despertador toca e, como já estamos no outono, lá fora ainda é noite e continuará sendo por pelo menos mais meia hora – que é o tempo de eu entrar debaixo do chuveiro pra terminar de acordar.

7:00 – Já estou pronto e vestido. Pavlov, o cachorro, sabe disso e já está me rodeando porque ele sabe que isso significa que ele vai passear. Uma das vantagens de ser disciplinado é que cachorros entendem isso muito bem. Cães gostam de rotina – isso faz com que eles se sintam seguros.

7:24 – Eu e Pavlov temos um acordo tácito de por onde vamos passar todo dia de manhã. Ele, naturalmente, alterna entre os múltiplos caminhos rotineiros sem que eu precise interferir. Quando chove eu costumo optar por um caminho mais curto (e seco) – e de forma sobrenatural Pavlov já sabe disso e sai andando pelo trajeto “seco” sem que eu precise dizer uma palavra.

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Se você se perguntou “cadê a coleira”, boa pergunta. Em Toronto a lei manda que cachorros fiquem sempre de coleira, mas a essa hora nunca tem ninguém na rua mesmo, e se eu encontro alguém eu prendo ele de novo. Além disso, solto assim, fica mais fácil pra Pavlov praticar seu esporte predileto: perseguir esquilos.

7:40 – Hora do café da manhã, que no meu caso é só um punhado de cereal. Enquanto como, eu preparo a “marmita” do almoço e escuto o noticiário matinal da CBC (via TuneIn Radio) – outra das minhas rotinas matinais.

As notícias locais por aqui costumam ser motivo de piada porque nada de relevante acontece em Toronto. No último inverno, por exemplo, a notícia mais marcante da estação foi que os esquilos estavam ficando gordos demais por causa das temperaturas elevadas. Entretanto, neste dia a CBC passou uma entrevista interessantíssima com uma eleitora do Trump – uma canadense, mas com dupla cidadania nos EUA – e comentou de uma campanha brilhante chamada “Tell America it’s Great” (diga à América que ela é excelente). Os comentaristas diziam que essa foi a coisa “mais canadense” que eles já viram. Concordei.

(em tempo: fica aqui a menção honrosa à minha Bose Soundlink, a “pequena notável”. Comprei usada num site de leilão de produtos devolvidos da Best Buy, paguei uma pechincha, e essa caixinha tem o melhor som que já vi NA VIDA. Sem brincadeira.)

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7:55 – Hora de sair de casa e andar até a estação de trem. O frio ainda está bem suportável (10 graus) então basta uma jaquetinha e pronto.

8:07 – Como de costume, o trem vem sempre exatamente na mesma hora.

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Coincidentemente eu moro bem do lado da linha de trem expressa que conecta o aeroporto até o centro da cidade. A passagem costumava ser bem salgada, mas como ninguém estava usando o trem, acabaram abaixando a tarifa para acessíveis CAD$ 5. Só pra efeito de comparação, pegar ônibus/metrô iria me custar CAD$ 3, mas eu levaria no mínimo o dobro do tempo.

Ainda no assunto da rotina: como eu saio de casa exatamente na mesma hora e pego exatamente o mesmo trem, eu vejo exatamente as mesmas pessoas na estação todo dia. Tem o gordinho que sempre está assistindo desenho japonês no celular e embaralhando seu baralho de Magic, tem o indiano de terno, tem a loira do cabelo produzido que começou a paquerar um outro cara no trem, tem o “casal assimétrico” (a menina mede 1,50m e o namorado tem uns 2m de altura)…

8:24 – O trem chega na Union Station, a estação central. De lá são mais 10 minutos de caminhada até o trabalho – tudo por dentro dos prédios interconectados do centro, para que as pessoas não precisem andar pela rua quando está tudo congelante lá fora.

Além do clima, o cuidado do canadense com a segurança é tão exagerado que chega a ser engraçado. No caminho do trem até o trabalho eu passo por nada menos do que onze portas corta-fogo. A foto abaixo é logo depois de quando eu passo pela primeira delas.

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8:40 – Como o mundo dá voltas. Eu comecei minha carreira como analista de sistemas em um banco, e aqui estou novamente.

Parece a mesma coisa, mas é muito diferente. Os tempos mudaram, e ao invés de uma mesa fixa eu agora trabalho numa “sala de guerra” com o time todo no mesmo local, dividindo uma grande sala de reunião. Isso significa que o tempo todo tem mini-reuniões ou teleconferências acontecendo bem do seu lado.

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No início era desesperador tentar trabalhar com dezenas de pessoas conversando ao seu redor – e em inglês, o que aumenta ainda mais a sobrecarga cognitiva na cachola. Mas agora eu já estou (razoavelmente) acostumado. Outra coisa que ajuda é o fato de que a maior parte das estações de trabalho aqui no banco não são fixas e podem ser reservadas online por qualquer pessoa – assim, todo santo dia eu reservo duas ou três horinhas longe da bagunça para conseguir me concentrar.

12:50 – Na minha primeira “temporada” de analista de sistemas eu teria passado a maior parte da manhã procrastinando e vadiando na internet. Atualmente, eu produzo o tempo todo, feliz da vida. Parece aquelas histórias de amor de novela, cheias de desencontros, mas que no fim os protagonistas finalmente descobrem que realmente se amam e foram feitos um para o outro. Eu levei quase uma década flertando com outras carreiras, mas concluí que software é meu amor verdadeiro.

Na hora do almoço, ao invés de sair e ficar duas horas de papo pro ar, eu fiz uma reunião com o meu chefe e ambos almoçamos em frente aos nossos computadores, como é o costume na América do Norte. Abaixo, a minha “marmita” do almoço com uma saudável salada.

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13:58 – Hora de mais reunião, dessa vez no Oasis, que não é a banda londrina e sim o nome do refeitório aqui do andar. Hora também de tomar o chá da tarde (porque o café da máquina daqui é intragável).

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A tevê está ligada no CP24, o canal “oficial” de toda TV pública daqui de Toronto. O canal é tipo uma “Band News” num mosaico fixo de notícias, clima, trânsito, ações, resultados do esporte, tudo na mesma tela.

17:03 – A vantagem de não parar pro almoço é que quando dá cinco horas… acabou o trampo! É hora de voltar pelas minhas onze portas corta-fogo e admirar o trânsito parado do centro da cidade pelas paredes envidraçadas das passarelas onde passo. De carro eu levaria mais de uma hora pra chegar em casa.

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Curiosamente, só porque eu estava registrando este dia pra postar aqui no blog, o trem atrasou uns quinze minutos e veio “lotado”. Nessas horas eu acho engraçado o despreparo do canadense pra lidar com imprevistos. Tava todo mundo indignado com as filas e a muvuca nos corredores do trem…

17:48 – Ao chegar em casa, sou amplamente recepcionado por Pavlov. É sempre assim: eu passo oito horas longe de casa e ele se empolga com a minha chegada como se eu estivesse voltando da Segunda Guerra Mundial. Tanto que mal consegui fotografá-lo pra este post…

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Além dele eu também reencontro Bethania, que chegou de uma viagem de trabalho para NY. Ficamos os dois preguiçosamente no sofá por umas boas duas horas, que foi o tempo de assistir os Blue Jays perderem o quarto jogo da post season e serem eliminados do campeonato pelo time de Cleveland.

Os jogos foram polêmicos, mas por um motivo bem esquisito: o narrador local recebeu uma carta de protesto de um telespectador de origem indígena, e decidiu que não ia usar o nome do time de Cleveland – chamado “Indians” – na transmissão porque aparentemente isso seria “ofensivo”. Teve até um juiz que tentou entrar com um mandato pro time não usar o nome no uniforme e retirar também o seu mascote (um indiozinho pele-vermelha), mas o mandato foi derrubado.

Os torcedores de Cleveland (na foto abaixo), auto-intitulados “a tribo”, não parecem se importar com essas coisas.

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21:19 – Vale lembrar que eu tou numa vida de “jornada dupla”, trabalhando e estudando, então logo depois do jogo, acabou o descanso: hora de ir fazer os trabalhos da faculdade.

Aproveitei a noite pra fechar um trabalho do curso de “game programming” e, ao mesmo tempo, acompanhar o debate presidencial nos EUA.

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O debate foi… bem, digamos que meu trabalho tava muito mais interessante. O professor mandou a gente fazer uma fase de um jogo estilo platformer – joguinho clássico, estilo Mario, de sair pulando em plataformas. A fase precisava ter cinco minutos de gameplay e incluir inimigos, pontuação, sons, etc. Durante a aula o professor viu que meu layout pra fase incluía as clássicas plataformas que se movem e me orientou a tomar cuidado porque “plataformas móveis são difíceis de programar”. E na hora do vamo ver eu levei menos de uma hora pra fazer com que elas funcionassem ¯\_(ツ)_/¯.

A fase inteira não levou nem dois dias pra ficar pronta. Note que o personagem principal veio “emprestado” do Metal Slug, e os sons são “emprestados” do clássico Doom 🙂

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O código-fonte do jogo (Unity/C#) está no meu Github, inclusive.

23:01 – Depois de concluir toda a minha “lição de casa”, hora de dormir e começar tudo de novo amanhã…