A saga de botar um sistema no ar

No último dia dos namorados, Bethania, espertinha, me deu de presente um par de ingressos para assistirmos um show do The Bad Plus. Detalhe: o show era, “coincidentemente”, em Nova Iorque, onde “coincidentemente” tem os shows da Broadway que ela adora assistir. Coincidências à parte, foi um presentão, já que nós dois adoramos visitar essa cidade absolutamente foda que é NY.

Só tinha um problema: a data do show, coincidentemente, era a mesma data do “go live” do projeto em que estou trabalhando no banco. É a data onde tudo que passei meses fazendo ia, finalmente, ser colocado em produção e processar 500 mil registros de financiamento imobiliário que o cliente está esperando há um tempão.

Pra piorar, aqui no banco, por questões de segurança, quem desenvolve os sistemas não pode ter acesso a eles depois que são colocados em produção, então toda atualização é feita via um método “toma que o filho é teu” onde eu mando um pedido com todas as instruções de como botar o troço no ar pra um outro cara fazer.

Pra piorar ainda mais, meu sistema depende de outros componentes que, há meses, me dão dor de cabeça. Os mais críticos são:

  • Atualizações do “Sarcófago”: um banco de dados super antigo, cujo processo de atualização é um grande mistério, passado apenas via tradição oral (ou seja, sem documentação) entre os grandes anciões (ou seja, os caras que trabalham no banco há décadas)
  • Acesso à “Nuvem Mágica”: um sistema de mensagens, super moderno, propriamente documentado e que roda na “nuvem”. O problema desse aqui não é técnico, é que meu time tinha um cara pra lidar com ela – o “Salim” – e o Salim não entende nada da Nuvem, mas no processo de fingir que sabe, me repassa informações erradas sobre como conectar com a Nuvem 100% das vezes.

Meu gerente de projeto tava sossegado e falou: “Tá tranquilo! A gente bota tudo isso aí no ar na noite anterior à da sua viagem”. Depois dessa frase eu percebi que não poderia contar com a perspicácia do meu GP pra essa história dar certo.

Pra evitar problemas com a Nuvem Mágica, eu que não sou bobo dei meus pulinhos pra achar as configurações certas com antecedência, sem depender do Salim, mas tinha uma delas que não tinha jeito: a senha de acesso à Nuvem. Por segurança, nenhum programador tem acesso às senhas dos sistemas de produção, então eu tive que pedir o Salim pra botar a senha certa pra mim num “cofrinho” de senhas que meu sistema usa na hora que vai pro ar. Vale lembrar que o Salim me passou senhas erradas 100% das vezes ao longo do desenvolvimento do projeto, então pra me garantir eu mandei um email com cópia pra meio mundo pedindo pra ele testar a senha de produção com antecedência, pra garantir que ela estava correta e que ela tinha as permissões de acesso à Nuvem Mágica, e ele respondeu que sim.

Quanto ao Sarcófago, eu também quis me antecipar e, na segunda-feira da semana da viagem/go live, fui consultar um dos anciões para saber se eu poderia mandar atualizar o Sarcófago com mais antecedência, pra minimizar a chance de dar merda. E foi aí que a merda começou, porque ele virou pra mim e disse:

“Então… as tradições dizem que o Sarcófago só pode ser atualizado no final de semana, e o comitê que aprova atualizações do Sarcófago precisa de 48 horas de antecedência”

Fui contar isso pro meu gerente de projeto e ele nem se lembrava que precisava atualizar o Sarcófago. Mas, muita discussão depois e eles finalmente concordaram em abrir uma exceção para atualizarmos o Sarcófago na noite de quarta pra quinta. O duro é que ficou tudo pro mesmo dia: Sarcófago na noite de quarta, meu sistema na manhã da quinta e, no mesmo dia, eu embarcando pra NY.

Na quarta eu deixei as malas prontas, fui dormir e, às cinco da manhã, já estava de pé pra checar a atualização do Sarcófago, que… não rolou. Confuso, entrei em contato com um dos anciões, que me disse o porquê da atualização não ter sido feita:

“Então… as tradições dizem que, ao fazer seu pedido de atualização do Sarcófago, no dia da atualização você precisa ir lá no formulário de pedido e acrescentar um comentário dizendo: ‘Por favor, prossigam com a atualização do Sarcófago’, e como você não fez isso o Sarcófago não foi atualizado”.

Eu JURO pra vocês que foi isso que me disseram.

Aí todo mundo se juntou novamente e meu chefe sugeriu botar meu sistema no ar sem Sarcófago sem nada, pra eu poder finalmente viajar. Uma ótima ideia, não fosse pelo fato de que teríamos que agendar a implantação pra depois do horário de expediente bancário, que termina às 16:30… e meu voo tava marcado pra decolar às 17:30. Aí começou a gincana: fui com o laptop aberto de casa até o aeroporto, trabalhando do trem para preparar todas as instruções pra deixarem tudo certinho pro troço ir pro ar.

Depois de muita correria – incluindo uma conference call na fila do raio X – às 16h estava eu, finalmente, sentado na sala de embarque, olhando pra tela do computador, esperando a implementação começar. Nessas horas eu dei graças a Deus de estar dando minhas corridas na academia e em boa forma cardiovascular porque, meu amigo, eu tava com o coração na boca. Se tudo funcionasse, tanto eu quanto o sistema entraríamos no ar sossegados, mas se desse pau, eu ficaria offline em algum lugar da estratosfera por quase duas horas, roendo as unhas, sem saber o que rolou.

Pontualmente às 16:31 a minha tela começa a piscar, indicando que a publicação começou. O painel de controle que mostra o status da coisa é uma das poucas coisas de tecnologia da vida real que é parecida com a dos filmes: tem uma lista de etapas e cada uma tem um farolzinho que vai ficando verde conforme elas vão concluindo…

Fazendo download do arquivo de configurações....... OK!
Gerando arquivo com credenciais de segurança....... OK!
Estabelecendo conexão com servidor................. OK!
Enviando arquivos.................................. OK!

E aí tava tudo ficando verdinho… e o coração acelerando… até chegar na última etapa:

Iniciando aplicação...

Olhei pro meu portão de embarque. Pela primeira vez na vida, eu queria que meu voo atrasasse. Depois de uma longa pausa, eis que o último farolzinho finalmente muda de cor… e fica vermelho.

Aí olhei pro portão de embarque e, para minha alegria, o horário do voo atrasou meia hora… mas como alegria de pobre dura pouco, o portão mudou pro outro lado do aeroporto. Desesperado, fui catando as malas/mochilas e, ao mesmo tempo, tentando ver o que foi que tinha dado errado na aplicação. Parecia que o problema era – adivinha só! – na senha de acesso à Nuvem Mágica. Aí fui conversar com o Salim, o colega que deveria ter colocado a senha certa no sistema pra mim:

_ Salim, deu pau na senha da Nuvem Mágica.
_ Ah tá. Você tem a senha?
_ Eu não posso saber essa senha, Salim, lembra?
_ Você tem o aplicativo pra enviar senhas encriptadas por email?
_ Não, Salim, eu não posso ver essa senha, se a auditoria pega isso vai dar problema…
_ Peraí que eu vou te mandar aqui no email normal mesmo então…
_ Não, peraí Salim…

E aí minha caixa postal apita e chega a senha. Bom, pelo menos tá registrado que eu avisei, e já que ele mandou a senha eu aproveitei pra testar e confirmar que, sim, a porra da senha tava errada.

Nisso eu já estava correndo pro outro lado do aeroporto e com o laptop aberto na mão. Aí chega um email do meu chefe, que recebeu a notificação de que o go live falhou:

_ Hey Joe, vi aqui que deu pau… não era pra você estar viajando já?
_ Tou na sala de embarque… parece que o Salim não tem a senha certa pra Nuvem Mágica.
_ Hmm… se eu te mandar isso aqui, ajuda?

E eis que meu chefe me encaminha a senha certa da Nuvem Mágica, também por email, sem criptografia sem nada. Subitamente, todas as minhas preocupações com segurança da informação e auditoria desaparecem(1).

Finalmente chegamos no portão de embarque e nem tinha fila, porque todo mundo já tava dentro do avião. Eu não sei como, mas num espaço de trinta segundos eu consegui encaminhar o email com a senha certa pro cara que estava botando o sistema no ar, fechar o laptop, pegar meu passaporte e embarcar. Mas ainda tava todo mundo em pé no corredor do avião porque não tinha lugar pras malas, e o ar condicionado tava desligado, e no assento da nossa frente tinha um casal com uma menina cujo desodorante havia vencido há pelo menos uma semana(2), e tudo que eu queria naquele momento era saber se a porra do sistema tinha ido pro ar, e eu só teria o espaço de alguns minutos pra conseguir checar antes do voo decolar.

Depois de muitos “excuse me” e “sorry” e de brincar de Lego com as malas no bagageiro eu tapei o nariz, abri o computador e eis que lá está outro email do chefe:

“Publicação concluída com sucesso. Boa viagem, Joe!”

Eu mal conseguia acreditar. A bagaça estava no ar. O meu trabalho dos últimos três meses finalmente nasceu e viu a luz do dia.

A primeira parte da saga estava concluída. Ainda faltava a atualização do Sarcófago, mas eu estava mais tranquilo porque botaram um dos anciões pra tomar conta dela, e da minha parte era só mandar reiniciar meu sistema pra ele se reconectar com o Sarcófago e capturar as novas atualizações. Moleza, certo?

A saga de botar um sistema no ar – PARTE 2

Ah, Nova Iorque. Como é bom estar rodeado de turistas o tempo todo e ouvir uma buzina a cada 30 segundos.

Passamos o dia curtindo a cidade, relativamente despreocupados. A única coisa pendente de trabalho pra mim seria conferir, à uma da manhã, se reiniciaram meu sistema pra ele pegar as atualizações do Sarcófago. No fim do dia fomos ver um show da Broadway e chegamos tarde no hotel, aí nem fui dormir e fiquei fazendo hora até dar o horário.

Pontualmente à uma da manhã lá estava eu, olhando para os faroizinhos que deveriam piscar indicando que meu sistema estava sendo reiniciado. E os faroizinhos, dessa vez, não ficaram vermelhos. Na verdade, eles nem mudaram de cor, o que indicava que nada estava acontecendo. Pra piorar, o cara que iria reiniciar o sistema (chamado “Ted”) nem online estava.

Chamei um dos anciões, que também estava acordado, terminando a atualização do Sarcófago:

“Cara, cadê o Ted?”
“Pois é… vamos esperar um pouco”

Meia hora depois e nada do Ted. E ninguém tinha o telefone do Ted. Tínhamos o do chefe do Ted, mas ele não atendeu. Aí, para minha vergonha, ligamos pro coitado do meu chefe, que também não tinha o telefone do Ted. A coisa entrou num nível tão Trapalhões que saímos fuçando a intranet e abrindo planos de implementação de sistemas antigos pra ver se, em algum deles, constava o telefone do Ted. Obviamente não deu certo e, lá pelas três da manhã, meu chefe mandou todo mundo voltar a dormir e tentar de novo às sete da manhã.

Óbvio que não consegui dormir.

Só lá pelas oito da manhã alguém finalmente achou o Ted, que finalmente reiniciou o meu sistema, que finalmente pegou as atualizações do Sarcófago.

Finalmente eu poderia tomar um banho e sair para morrer de sono nas ruas de aproveitar Nova Iorque. O resto do time ia continuar online, e iniciar o processamento dos 500 mil registros que iriam para a Nuvem Mágica. Enquanto eu tirava meu pijama o pessoal mandou o primeiro registro, só pra testar, e então…

A saga de botar um sistema no ar – PARTE 3

Eu considero que a minha melhor qualidade como engenheiro de software é que eu sou pessimista. Em tecnologia não existe o “vamos torcer pra dar certo”: o bom engenheiro parte do pressuposto que vai dar merda e então medita profundamente sobre a merda: seus possíveis formatos, locais e formas de atuação. Aí, o bom engenheiro desenha sua solução centralizada na merda, com todos os recursos para evitá-la quando possível ou, se ela é inevitável, para fazê-la feder menos quando acontece. E quando o trabalho de conhecer e mitigar a merda está concluído e os engenheiros júniores estão orgulhosos da resiliência do seu trabalho, o engenheiro sênior ainda está preocupado, então ele vai lá e executa o último e importante passo de deixar prontos todos os recursos para identificar, facilmente e rapidamente, as futuras merdas que ele sabe que não pode prever.

Foi por isso que, mesmo sem dormir, seminu, em outro país e usando internet de hotel, demorei apenas trinta segundos para identificar o que havia de errado quando o povo do projeto saiu gritando que o registro que mandaram não apareceu na Nuvem Mágica. É que agora tínhamos a senha certa da Nuvem Mágica, mas não tínhamos as permissões para enviar informações para ela.

Lembra que, na semana anterior, eu tinha mandado um email pro Salim pedindo, explicitamente, pra ele testar a senha e as permissões de acesso à Nuvem Mágica, e ele disse que tava tudo OK? Pois é, não estava. E agora lá estava eu, lidando com a merda do Salim.

Aí pulou todo mundo junto numa conference call pra ver o que tinha acontecido. Salim continuava insistindo que havia pedido pra liberarem as permissões pro nosso usuário, até que um outro programador menciona que estava copiado no email do pedido e que alguém havia digitado errado o nome do servidor da Nuvem Mágica: botaram o servidor de desenvolvimento, ao invés do de produção.

Mas Salim é o pior tipo de idiota, que é o idiota mal intencionado (também conhecido como filho da puta). Então ele, magicamente, começa a botar a culpa do erro na equipe que toma conta da Nuvem Mágica. Pra piorar, demorou quase uma hora e meia pra conseguir entrar em contato com a pessoa do time da Nuvem Mágica que estava de plantão, o que deu ainda mais munição pro Salim. E eu lá, pendurado no telefone, esperando alguém consertar as permissões.

Bethania foi bastante compreensiva, saiu do hotel pra comprar o nosso café da manhã e também pra entrar na fila da TKTS pra comprar ingressos da Broadway(3). E eu entrei no banho e deixei o telefone no viva-voz, pra ouvir o povo batendo cabeça na conference call, e o Salim botando a culpa no time da Nuvem Mágica pela cagada dele mesmo, e vendo a verdade do que aconteceu se perdendo na confusão. Lá pelo meio-dia meu saco, finalmente, encheu. Peguei o telefone e falei:

“OK gente, eu já mandei pra vocês o usuário e as configurações que eu tenho e vocês confirmaram que está tudo certo. Eu estou em Nova Iorque e tenho aqui comigo uma esposa brava e ingressos para um show da Broadway daqui a uma hora. Não tem nada mais que eu possa fazer do meu lado. Qualquer coisa me liguem.”

A parte da “esposa brava” foi só para impacto emocional mesmo, já que Bethania, como sempre, foi super parceira durante todo o ocorrido. Já a parte do show ela fez questão que fosse verdade :), então pegamos o metrô e fomos pra Broadway.

Como bom engenheiro que sou, todos os meus recursos de monitoramento de merda estavam disponíveis também no meu celular, então no intervalo do show abri o link de monitoramento do meu sistema e – surpresa! – tinha um registro enviado com sucesso para a Nuvem Mágica. Alguém finalmente consertou as permissões.

Mandei uma mensagem pro meu gerente de projeto:

“Hey, tou vendo aqui que a Nuvem Mágica voltou a funcionar. Vocês vão rodar os 500 mil registros agora né?”
“Então… agora tem um outro problema em outro sistema, o que lê os registros da Nuvem Mágica, e esse não tem como solucionar agora, então vamos abortar tudo e fazer o processamento só na semana que vem”.

A correria na sala de embarque, a noite não dormida e as seis horas de conference call na manhã do Sábado serviram, portanto, para absolutamente nada. Mas o que realmente importa é que eu estava numa das cidades mais incríveis do mundo com a mulher que eu amo, então me desapeguei rapidinho do fiasco da história toda e fui, finalmente, aproveitar meu final de semana. E tomar mais um café, pra conseguir me manter acordado na cidade que nunca dorme…

Epílogo

Alguns dias depois dessa história toda, eis que eu recebo um email da chefe do Salim…

Oi pessoal. Informo que estou nomeando o Salim para o prêmio de performance deste semestre.

Oi?

A sua contribuição para o [nome do meu projeto] foi incrível, onde ele demonstrou sua habilidade e conhecimento da Nuvem Mágica. Ele colaborou com vários times, como o [nome do meu time e o outro time que também não conseguiu usar a Nuvem Mágica] para assegurar a conectividade dos sistemas de ponta a ponta. Ele verdadeiramente merece o prêmio do trimestre.

E então cumpriu-se a profecia que ouvi de um gerente de projetos, dez anos atrás, num projeto de consultoria no interior do Mato Grosso, que disse:

“Quem faz muito, erra muito. Quem faz pouco, erra pouco. Quem erra pouco… é promovido”

UPDATE

Durante uma das inúmeras conferências que fizemos durante o deploy, o gerente de projetos pediu desculpas por tomar o nosso tempo de viagem e perguntou qual o vinho preferido de Bethania. “Ela gosta dos pinots da Califórnia”, respondi, achando que ele estava me dando uma sugestão de como eu poderia amenizar o incômodo dela…

Outro dia, cheguei no trabalho e, na minha mesa, havia um belo pinot noir do vale de Sonoma, ingressos de cinema, e um cartão assinado pelo time todo agradecendo a minha dedicação ao longo do final de semana 🙂

Notas

(1) – Isso me lembrou um outro episódio aqui do banco onde um gerente de projeto queria que eu fizesse uma coisa num sistema. Quando mencionei que não tinha acesso, ele respondeu: “não tem problema, faz com o meu usuário”, e me enviou, por email, sem criptografia sem nada, a senha do seu usuário pessoal. Com isso eu conseguiria acessar não apenas o sistema que ele queria, como também todos os sistemas de produção que ele acessa, e ainda todos os seus emails, o seu salário, os seus arquivos da rede, os seus nudes, etc.

(2) – Já é a segunda vez que isso acontece quando voamos para Nova Iorque. Pelo visto o custo de vida por lá anda tão alto que falta dinheiro pra desodorante.

(3) – A Bê, que tem praticamente doutorado em musicais da Broadway, me ensinou que tem dois jeitos de ver shows pagando muito menos do que o preço cheio dos tickets.
O primeiro e mais fácil deles é comprar na TKTS, que fica debaixo daquela arquibancada vermelha na Times Square. Tem também outra TKTS no Financial District, bem no sul de Manhattan. Vale a pena chegar próximo da hora que abre, porque obviamente dá fila. Veja os endereços e horários online. A disponibilidade é limitada, mas você consegue descontos de 20% a 50%.
O segundo jeito é comprando os chamados rush tickets, que são meio que uma “sobra” de ingressos que o teatro não vendeu por algum motivo e que são colocados à venda só no dia do espetáculo a preços muito reduzidos. Mas dá trabalho comprar: você precisa ir à bilheteria do teatro com antecedência, perguntar se eles tem rush tickets e que horas a venda começa, e aí chegar lá no mínimo uma hora antes pra ficar na fila. Não tem como escolher lugar e pode ser que não tenha ingressos suficientes pra quem está na fila, mas se tudo dá certo você compra com tipo 70% de desconto, então vale a pena.

O Primo no Japão

Eu não lembro quem sugeriu primeiro, mas o Japão sempre foi um lugar que eu e Bethania queríamos conhecer. A ideia, porém, ficou sempre no fundo da lista de prioridades porque a gente sempre achava que era longe, era caro, tem a barreira da língua, etc etc.

Aí uns amigos nossos foram e adoraram e não tiveram problema nenhum. Aí descobrimos que, daqui do Canadá, um voo pro Brasil demora o mesmo tanto que um voo pro Japão – e que a passagem costuma sair até mais barata. Aí, graças ao fato de Toronto estar cara pra caramba e o Japão estar meio que em recessão, descobrimos que o custo de vida anda mais ou menos o mesmo nos dois lugares. Aí, a Bê tava com férias pra vencer, e a gente foi numa feirinha de cultura japonesa e tinha um stand da Air Canada com um cupom de desconto pra um voo direto de Toronto pra Tóquio… e foi por Tóquio que nossa viagem começou.

A palavra que melhor define Tóquio é… muito. Muito grande. Muito complexa. Muito cheia. Muito limpa. Muito espetacular. Maior do que tudo que já vi nos meus 40 anos, em vários aspectos. Eu achei que, depois de meses planejando essa viagem, eu conseguiria lidar tranquilamente com tamanha envergadura, mas logo na chegada a gente ficou perdido no metrô por duas horas até conseguir chegar no hotel, simplesmente pelo fato de que o sistema de trem/metrô de Tóquio é grande demais. Mas, passado o susto inicial, o resto da viagem correu sem problemas.

Por sinal, internet no celular é indispensável no Japão. Google Tradutor salvou a nossa vida inúmeras vezes. E é muito prático simplesmente apontar a câmera do telefone pras coisas e ter uma tradução (meio que ainda ‘tabajara’) na mesma hora.

Além disso, o Google Maps mostra até o número identificador das entradas e saídas do metrô, o que é bastante prático, especialmente em lugares como Shinjuku, a estação mais movimentada do mundo, com 3.5 milhões de passageiros por dia e nada menos do que duzentas saídas. Minha maior vitória pessoal dessa viagem foi o dia em que não me perdi em Shinjuku.

Outra coisa que Tóquio – e o Japão – tem muito é boa comida. Parece bobagem, mas isso foi, de longe, o maior destaque da viagem pra mim. Eu arrisco dizer que o segredo do sucesso japonês não é a tecnologia, nem a tradição milenar, nem a ética de trabalho, nem a disciplina… é a comida. Porque, com o perdão da palavra, putaquepariu como se come bem naquela porra.

Tivemos dezenas de refeições memoráveis, incluindo:

O tonkatsu secreto

a restaurant entranceEsse fica em Tóquio, e é uma birosca onde cabem só 10 pessoas… mas que está no famoso guia Michelin, ainda que na categoria mais básica. Mas pra comer lá é meio complicado, porque você tem que:

  • Achar o local (tem só uma placa minúscula, apontando pra uma escada que vai em direção a um porão em um beco).
  • Achar a menina que toma conta da fila
  • Deixar com ela uns 10 dólares de depósito pelo seu lugar na fila
  • Tirar uma foto de um pedaço de papel com o seu nome e o horário da entrada na fila
  • Ir dar um passeio e voltar no horário que ela falar pra você voltar
  • Ao retornar, no horário combinado, você tem que mostrar a foto do papel que tirou antes, para confirmar que a reserva do lugar na fila é mesmo sua
  • Já na fila, você deve ver o menu e fazer o seu pedido antes mesmo de entrar no restaurante. Ah, e não tem menu em inglês – se vire com o Google Tradutor, e rápido porque tem mais gente pra pedir.

Quando finalmente você se senta e, logo logo, chega essa maravilha aí embaixo.

Pra quem não conhece, o tonkatsu é carne de porco frita e empanada, servida com arroz e uns acompanhamentos. Eu nunca vou me esquecer da primeira mordida que dei nesse tonkatsu: o jeito que a crocância perfeita, delicadamente temperada, vai se misturando à suculência da carne imaculadamente, perfeitamente cozida, conforme você vai mordendo seu pedaço… é de chorar. É de arruinar qualquer esperança de que um dia eu me torne vegetariano.

O “BO-LI-NHO”

Escrito assim porque você tem que dizer devagar, saboreando cada sílaba. Esse foi totalmente por acidente, fomos ver a estátua do Godzilla em Ginza, tava na hora do almoço, e enquanto ponderávamos onde almoçar eu vi uma fila enorme em frente a um restaurante. Fui investigar e dei uma desanimada, porque era um restaurante de rede, de Hong Kong, mas quando estávamos prestes a sair, notei que o rodapé do menu dizia: “Premiado com 1 estrela Michelin desde 2010”.

Depois de uma hora de fila, pedimos um monte de coisas, todas deliciosas, dentre elas os famosos pork dumplings – que ganharam o nome de “bo-li-nho” desde então. Essa disgrama é uma obra de arte: massa levemente crocante e amanteigada, e um recheio agridoce de carne macia. Bethania ficou absolutamente viciada, tanto que voltamos no dia seguinte pra comer de novo e, pedimos umas três porções do bendito bolinho.

O ramen com o melhor custo benefício do mundo

 

Esse foi o da maior fila que pegamos: uma hora e meia pra sentar e comer. Além do lugar ser minúsculo, ele é super badalado porque foi um dos primeiros restaurantes de ramen do mundo a ganhar uma estrela Michelin.

O macarrão é fresquíssimo, feito no próprio lugar, diariamente, e os ingredientes da sopa vem moídos/fatiados pra se misturar bem, e logo você percebe o porquê: tudo combina incrivelmente bem. A gordura do porco, o crocante do amendoim, a pimenta, as fibras da cebolinha, é um casamento perfeito de intensidade e sabor. Foi, de longe, o melhor ramen que já comi na vida.

Aí vem a conta e você vê que isso tudo aí custou inacreditáveis dez dólares

Os izakayas proibidões

Bom, “proibidão” é um tanto quanto exagerado, mas eles com certeza não eram lugares pra turistas que não falam japonês. Pra quem não sabe, o izakaya é um misto de bar com restaurante cujo menu de comida pode ser descrito como “coisas pra ir beliscando com o seu álcool”.

Um deles era em Kyoto, numa região chamada “pontocho”, que na verdade é um beco com restaurantes por todos os lados. A referência do lugar veio – adivinha! – do guia Michelin, e o Google Maps mandou a gente pro beco, e nenhum dos restaurantes do beco tinha placas em inglês. Aí fomos aprofundando a pesquisa e a treta foi complicando: só tinha uma foto da fachada mostrando uma lanterna de papel, sem nada em inglês, e não tinha nada parecido ali no beco. Depois de muita andança em círculos, descobrimos que tem “sub-becos” dentro do beco, e então eu comecei a explorar os sub-becos e comparar os caracteres em japonês das placas com o nome do lugar em japonês. Depois de muita procura, reparei que uma lanterna de papel tinha umas coisas em japonês que batiam com o nome do lugar. Bingo!

Mas essa foi a parte fácil. Ninguém no restaurante falava inglês, e era impossível usar o Google Tradutor no menu porque ele era escrito a mão… então, peguei o telefone e traduzi para o japonês a frase: “Alguma sugestão?”. Basicamente, conversamos via tradutor do telefone e comemos o que eles recomendaram pra gente – incluindo coisas que eu nem sei o que era – e tava tudo espetacular.

Tivemos ainda muuuuitas outras histórias de comida: teve o okonomiyaki em Hiroshima, nos fundos de uma casa da vizinhança, teve o jantar kaiseki que dura três horas e tem dezoito pratos diferentes, teve o kuro tamago, um ovo cozido no vapor das águas vulcânicas de Hakone e que, teoricamente, lhe dá sete anos a mais de expectativa de vida… mas se deixar esse post vai ser só sobre comida, então melhor mudar o assunto.

A gente fez a maior parte das coisas programação turística normal – ir nos milhões de templos, no cruzamento famoso de Shibuya, nas lojas nerd de Akihabara, nas ruínas do prédio destruído pela bomba de Hirosima que é conservado até hoje, etc., mas foi bem legal experimentar coisas que não são muito comuns nos guias de viagem, como:

  • O museu da Toyota em Nagoya: mas não se engane, não tem nada a ver com os carros. Tanto eu quanto Bethania somos nerds de processo industrial, e a Toyota é tão referência nisso que a metodologia usada nas fábricas deles é referência mundial na indústria. E o museu é totalmente centrado nisso – ele começa contando o passado da Toyota na indústria têxtil (pois é, eu também não sabia) e de como isso influenciou a tecnologia de produção de hoje. E o museu tem um monte de coisas legais, como demonstrações ao vivo de forja de alumínio, ou robôs de solda industrial que você mesmo pode acionar e ver trabalhando.
  • Shinjuku Golden Gai: eu nem deveria estar falando desse lugar, que é tão foda que deveria ser mantido em segredo pra não ser invadido pelos turistas que vão pra olimpíada em 2020. O golden gai fica em Tóquio, e é um emaranhado de becos minúsculos tomados por nada menos do que duzentos e cinquenta bares. Bares do tamanho de um banheiro. Bares onde a área de se sentar é um beliche em cima do barman. Bares cujo tema é Twin Peaks, ou death metal, ou filmes B de terror, ou a Paris de 1950. É a coisa mais incrível de vida noturna que já vi na vida.
  • O pachinko: a explicação simples do pachinko é que é o cassino japonês – inclusive com todo um esquema secreto pra embolsar os ganhos, já que jogos de azar são ilegais no Japão. Mas o que me deixou fascinado sobre o pachinko é o ambiente – centenas de caça-níqueis bipando descontroladamente no último volume em um lugar fechado onde todo mundo fuma. A gente entrou no lugar e eu mal consegui aguentar a completa overdose auditiva/olfativa por trinta segundos. É de estragar o cérebro. Honestamente, não sei como as pessoas conseguem passar horas jogando ali.
  • Os hostshostesses: durante um tour de restaurantes de Tóquio (olhaí a comida de novo), o nosso guia detalhou um pouco desse aspecto bizarro da vida japonesa. Funciona assim: você sai com os caras do trabalho e vai num host bar, onde tem uma menina – a hostess – cujo trabalho é dar atenção à você: ela serve suas bebidas, ri das suas piadas, escuta suas conversas… basicamente, te faz companhia como se fosse sua namorada e estivesse super interessada em você. Não tem sexo, tem só o interesse, o lado emocional do relacionamento, só a companhia. E frequentemente elas exploram esse aspecto pra ganhar presentes dos cabras desavisados, que acham que aquela atração toda é de verdade e que ela se apaixonou por você. É inclusive comum ver gente pagando por essa “namorada de mentirinha” pra fazer coisas comuns, do tipo sair pra jantar.

Essa viagem foi grande demais pra descrever em apenas um post. Felizmente, eu levei uma câmera pra filmar o que vimos e fizemos… então, pra fechar essa história, toma aí mais quinze minutos de Japão.

Retrospectiva 2016

É bem possível que o blog se transforme em um “arquivo de retrospectivas” – é a única coisa com alguma previsibilidade por aqui.

Mas tem motivo: reler as retrospectivas anteriores ajuda a dar perspectiva de como a vida vai. E de fato ela “vem em ondas, como mar”. Em 2009 as coisas não pareciam muito boas, dado que eu descrevia o ano como “vazio, ácido e difícil”. Já em 2016 foi o extremo oposto: foi um ano cheio, saboroso e recompensador. Dá até vergonha falar tão bem do ano que absolutamente todo mundo detestou.

O melhor de 2016: Trudeau disse “sim”

O ponto alto do ano foi, sem dúvida, receber o e-mail abaixo: a confirmação de que, sim, agora somos residentes permanentes no Canadá.

Você deve ter notado que o e-mail é endereçado à Bê… é que ela é quem foi a aplicante principal dessa vez, já que, com mestrado e um ano de trabalho no Canadá, a pontuação dela era muito melhor que a minha. “Fui eu quem conseguiu a nossa residência permanente!”, ela fica se gabando. Vou ter que aguentar ouvir isso o resto da vida – o que farei feliz e infinitamente grato. É libertador o alívio que dá não ter mais uma contagem regressiva no meu passaporte e finalmente ganhar todos os direitos do imigrante, como trabalhar sem restrições de tempo/local, ter acesso total à saúde pública daqui e poder reclamar do Maple Leafs perdendo no hóquei.

Outra coisa boa resolvida este ano: acabou a faculdade. Sinceramente, eu não aguentava mais, pelos motivos que expliquei no post anterior. Eu sonhei bastante sobre como seria meu último dia de aula, fiquei com vontade de sair da sala e fazer o Ai Weiwei em frente à escola, mas eu estaria sendo injusto com o lugar que, apesar dos percalços, serviu de degrau pro lugar onde estou hoje. Então apenas entreguei meu último trabalho e fiquei alguns minutos vendo a neve cair enquanto a Bê chegava pra me buscar.

Detalhe: é um troço bobo, mas tenho orgulho das minhas notas. Vou concluir o curso com honors e um GPA (a média daqui) de 4.2 em 4.5.

Ainda não liberaram a maconha, mas já estamos viajando

Mas nem tudo foi estudo. Em setembro, no começo do último semestre, eu matei uma semana de aula para viajar para Banff, na província de Alberta. Quando fui pedir uns dias de folga pro chefe, a resposta dele foi: “eu jamais impediria alguém de viajar para Banff”.

Chegando lá ficou fácil entender porquê. A foto abaixo não é nenhum ponto turístico, é apenas uma foto do meu celular no meio da estrada.

Nunca falei tanto palavrão olhando pra paisagens quanto em Banff. Mesmo com tempo nublado em todos os dias, tudo que a gente via era “putaquepariu que lindo”, “caralho que foda isso”, etc. As fotos não fazem justiça ao quão lindo é aquele lugar.

Essa é uma das melhores coisas de morar no exterior: as viagens. Como praticamente tudo ao seu redor é novo, até mesmo uma viagem curtinha de carro fica super interessante. Como a que fizemos em fevereiro, uma road trip para St. Catherines, onde ficamos num AirBnb fazendo boneco de neve no quintal.

A gente viajou um bocado esse ano – e, curiosamente, mais no outono e no inverno do que no verão. O que de certa forma faz sentido, já que nos meses quentes temos o “lado B” de Toronto. A cidade vira outra: todo mundo está nas ruas e nos parques, tem um monte de coisa acontecendo na cidade, simplesmente não dá pra não aproveitar. E, ao contrário do que muita gente pensa, no inverno tem muita programação pra fazer ao ar livre – só precisa de mais roupa.

Piquenique na Toronto Island

Com tanta viagem e dia de verão nem dá tempo de ter saudades do Brasil. As visitas também contribuem para isso; andei fazendo as contas e em 2016 não passamos nem três meses seguidos sem receber alguma visita brasileira, seja família ou amigos.

Mas não se pode ter tudo; conforme entram as novidades e alegrias, algumas coisas inevitavelmente vão ficando pra trás.

As distâncias e as perdas

O meu tempo por aqui acabou fazendo aflorar um tipo novo de distância – uma distância ideológica, e essa não há visita que supere. A coisa é complicada e tentar explicá-la vai acabar me rotulando como prepotente, mas o resumo da história é que, ao olhar o Brasil se transformando – como aconteceu com a crise toda de 2016, você vê a coisa de um jeito se estiver de dentro, e outra completamente diferente se estiver de fora. Quando as visitas brasileiras chegavam e o assunto era o Brasil, por exemplo, eu não entendia várias opiniões da conversa, e as minhas opiniões também não eram lá muito bem entendidas. No fim, achei por bem parar de acompanhar as notícias brasileiras e de opinar sobre elas nos WhatsApps e Facebooks da vida. Como diria a finada (e amada) avó da Bê, “o silêncio é a base da prosperidade”.

Por outro lado, um entendimento que melhorou ainda mais esse ano foi o do inglês. A transformação do cérebro quando confrontado com uma vida bilíngue é simplesmente fascinante: quando eu saio pra andar com o cachorro e penso na vida, os pensamentos agora saem numa mistura maluca de inglês com português que does not make sense mas que funciona beautifully. Ano passado a cachola ainda sofria pra alternar entre o português e o ingles, e a boca ainda engasgava entre os dois modos de falar. Hoje é bem mais natural.

O lado ruim dessa história é que isso é o começo de um lento e inevitável adeus ao português. Eu nem tinha reparado, mas escrevi este post seguindo, inconscientemente, o detestável esquema da “redação hambúrger” que aprendi ano passado num dos cursos da faculdade – especialmente a regrinha de que cada parágrafo deve começar com uma “frase-sumário” e depois discorrer sobre ela. É que o inglês é uma língua quadrada, dura, porém eficiente, seguindo fielmente sua raiz germânica, enquanto o português tem, literalmente, uma raiz “romântica” (ou seja, do romano/latim), e isso lhe confere uma expressividade inacreditável. E é isso que todos os meus textos em português vão perder lentamente ao longo dos anos. Vou sentir saudade de usar frases deliciosamente ingênuas, profundamente expressivas e inegavelmente brasileiras no meu dia-a-dia, como por exemplo, dizer que “esse cara manja dos paranauês”.

Conclusão – ou, “quem não planeja, é planejado”

Quem me conhece sabe que eu sou bom de planejamento. Quando fomos pra Banff, por exemplo, eu montei um cronograma da viagem inteirinha, dia a dia, com hora de início e fim de todos os itens da programação*. Meus amigos começaram a viagem me zoando… e terminaram me agradecendo.

Há dois anos, quando decidimos vir pro Canadá, é claro que tinha planejamento de longo prazo. A meta de 2016 era eu me formar já com algum emprego engatilhado para 2017, e depois conseguir residência permanente só lá pra 2018. O emprego garantido veio seis meses antes do previsto, e a residência permanente veio anos antes do previsto.

Para 2017, com a residência estabilizada por aqui, ficam liberados os planos nórdicos de longo prazo, como comprar imóveis e tal. Considerando que não tem inverno no mercado imobiliário daqui – ou seja, os preços estão pegando fogo – ano que vem provavelmente teremos um repeteco da mesma novela que foi a compra do meu apê de São Paulo (que, por sinal, estamos vendendo, viu?). E tem também uma “meta secreta”, que será revelada no momento apropriado 🙂

* – O segredo pra um bom cronograma de viagem são duas coisas: encher os prazos de “gordura”, alocando o dobro ou triplo do tempo pra cada coisa, e deixar espaços para acomodar mudanças de roteiro. Planejamento não é pra ser seguido à risca, isso é lenda. Planejamento é para servir de referência na hora de mudar de rota, porque a única certeza que você pode ter sobre o futuro é que você vai ter que mudar o planejado. E quanto às gorduras no cronograma, como diria o meu grande mestre de gerenciamento de projetos, ainda na minha época de consultoria… “cronograma sem margem de erro já nasce atrasado”.

Retrospectivas anteriores:

2015 – 2014 (não teve)2013 – 2012 2011 2010 2009 (b) – 2008 2007 2006 2005

Por que estou deixando o Brasil

Sim, é isso mesmo. Talvez este seja o mais longo e mais importante post deste blog. Se ajeite aí na cadeira.

Preâmbulo: como assim você está saindo do Brasil?!?

Pois é, cara. Depois de anos considerando casualmente a possibilidade de morar fora, este ano começamos a levar a coisa à sério e, após muita fritação de “vamo/não vamo”, eu e Bethania decidimos: vamos pro Canadá.

O plano é eu voltar pra faculdade, para um curso de 2 anos que é um semi-bacharelado em engenharia de software. Em termos de carreira eu até poderia ir e procurar emprego direto, mas decidi voltar a trabalhar na área técnica. Não tem jeito, é o que eu gosto mesmo de fazer. Depois do curso, quero arrumar um emprego lá e, a partir daí, o objetivo é conseguir cidadania canadense e ficar. Bethania, que é muito mais ninja profissionalmente do que eu, já tem inclusive um emprego esperando por ela.

A escolha do país, tecnicamente, foi fácil: o Canadá tem uma política de imigração bem aberta em função da população envelhecida e da demanda por profissionais qualificados. Além do mais eu morei lá por seis meses, em 2005, a trabalho, e não somente conheci como adorei o lugar.

filosoficamente falando, trocar de país é uma coisa bastante complicada – e é o que me motivou a escrever este post.

Você não precisa ficar onde está

“Menino, vai na padaria pra mim!”, me diziam quando eu era criança e vivia em Belo Horizonte. Eu não gostava de ir à padaria porque a distância pra mim era enorme e cheia de ladeiras, e ir comprar pão parecia uma maratona. Aí pula para 2014: dia desses eu estava visitando os parentes em Beagá e acabou coincidindo de eu passar exatamente pelo mesmo trajeto entre meu antigo prédio e a padaria.

Eram só dois quarteirões.

Talvez eu estivesse morando exatamente no mesmo lugar até hoje se não fosse o meu emprego de consultoria, que me fez viajar o Brasil todo – e me levou ao Canadá pela primeira vez. Passar por lugares novos muda o tamanho do lugar onde você vive e, também, quebra a regra invisível de que a sua vida só pode acontecer onde você mora. Em função do hábito, conveniência e da família sempre próxima é fácil se limitar ao que existe (ou não) na sua cidade e moldar sua vida de acordo com o que existe a dois quarteirões de casa, ou achar que o mundo é só aquilo ali, e passar a vida achando que aqueles dois quarteirões são uma distância enorme. Mas você não precisa ficar onde está. Essa frase banal esconde uma verdade universal, libertadora. Foi pela ausência dessa regra que eu e Bethania nos mudamos pra São Paulo: invertemos a lógica de “gostar do que se tem” e fomos pra onde o que a gente gostava estava.

Agora está acontecendo mais ou menos a mesma coisa. A gente quer trabalhos legais mas com menos stress, quer impostos que voltem de fato, quer poder andar na rua sem medo de assalto, quer poder ter filhos em um lugar mais amistoso (e mais acessível!). E São Paulo não permite tudo isso junto. Talvez o Brasil não permita isso – talvez nunca permita.

E este é o gancho importante para falar justamente de algo que me incomoda há muito tempo mas que só fui entender depois dos trinta e muitos anos de idade: o Brasil tem muita DR pra fazer consigo mesmo antes de se tornar uma grande nação, coisa que não vai acontecer tão cedo. Talvez nunca aconteça. E, como só se vive uma vez, eu não posso esperar.

A inigualável cultura brasileira (ou: por que o Brasil é do jeito que é?)

Minha diversão mais recente aqui em São Paulo é usar a ciclovia novinha que o Haddad resolveu passar bem na esquina da minha rua. Todo dia eu arrumo motivo pra ir pra algum canto de bike, muitas vezes só pra dar o exemplo.

No começo, sempre tinha alguém com carro estacionado na ciclovia, e eu sempre reclamava com o motorista. A maioria se fingia de bobo ou arrumava uma desculpa. Uns até xingavam de volta. Uma vez um deles ameaçou me bater e quebrar meu telefone, porque tirei uma foto do seu furgão estacionado bem em cima da faixa vermelha.

Talvez você esteja pensando: “mas cara, tu ta indo embora, pra quê ficar cobrando os motoristas de respeitar ciclovia? Daqui a alguns meses tu nem vai usá-la mesmo, e ainda periga apanhar ou levar um tiro”.

Então, cara! O problema é exatamente esse. Meu primeiro impulso também foi pensar e agir assim – e é precisamente por isso que o Brasil é do jeito que é e não vai mudar tão cedo: aqui o individual é mais importante que o coletivo.

Esta cisão entre indivíduo e coletividade provoca um efeito colateral bizarro, que é a divisão mental do brasileiro. Sabe a mania que temos de criticar o país na terceira pessoa? “Brasileiro é tudo burro”, “o povo só quer saber de futebol”, etc, etc? Quem fala, fala como se não fosse brasileiro, efetivamente se separando da própria crítica – afinal sua moral individual é superior à ignorância coletiva.

Se essa cisão fosse só socioeconômica ou política tava bom. O problema é que ela é pior e muito mais profunda: é uma divisão cultural.

Ela aparece, por exemplo, quando tem um mendigo dormindo no meio da calçada e a gente desconsidera mentalmente que ali existe uma pessoa. Ou você olha para aquele cara caído na saída do metrô, preto de fuligem, com uma unha do pé que parece a garra de um bicho, e se pergunta de onde ele veio, se tem filhos – ou se ainda tem sonhos? (por sinal uma fan page genial chamada “SP invisível” faz exatamente isso, vale muito a leitura). Essa divisão está aí o tempo todo, quando você reclama do trânsito (o trânsito é você) ou que o preço do cinema está um roubo (sua carteirinha de estudante é legítima?).

“Mas tudo isso aí pode mudar!”, você poderia alegar – e com razão. A questão é que tem problemas nacionais que dá pra resolver relativamente rápido, como a economia ou a distribuição de renda, mas a questão do “individual sobre o coletivo” é cultural – e mudar uma cultura é incrivelmente difícil. Leva séculos, e pode dar muito errado. Olhe para a história do mundo moderno e me aponte quantos países conseguiram mudar sua identidade nacional da água pro vinho: eu só consigo pensar na Alemanha pré e pós-Hitler e pré e pós muro de Berlim, e ainda assim a mudança só veio com grandes traumas nacionais. Vale o mesmo pro Japão antes e depois das bombas atômicas. Mas mudança orgânica, sem neurose, derramamento de sangue ou hecatombes político-sociais, aí eu não sei de nenhum exemplo.

Eu não queria, mas não tenho como não mencionar as eleições de 2014 – porque elas exemplificam muito do que eu falei aí em cima. No início eu tentei encarar a sujidade e a baixeza com a qual as pessoas, candidatos ou não, se comportaram nestas eleições como imaturidade, efeito de uma democracia que ainda é muito jovem. “Todo mundo quer um Brasil melhor, mas como crianças, estamos todos fazendo birra para isso”, pensava eu. Aí tou vendo milhares de pessoas na Av. Paulista, enquanto escrevo este post, pedindo o retorno do regime militar. Vi o nascimento do chamado “discurso do ódio”, com coisas deprimentes como molecada xingando nordestinos no Twitter pelo resultado da eleição. Com gente do naipe de Ricardo Amorim, economista renomado, postando que “quem estuda não vota na Dilma” – isso só pra citar alguns poucos exemplos. E só consigo entender tudo isso da forma que mencionei anteriormente: com a preponderância do individual sobre o coletivo que, aplicada num processo democrático, vira uma briga de “quem tem a maior melancia na cabeça”.

Faça um auto-exame: ao escolher em quem votou, você pensou no que seria melhor pro país ou no que seria melhor para você? E, se você pensou no coletivo e não no individual… você se lembrou do mendigo na saída do metrô?

Pra piorar ainda mais o banzo: enquanto aqui as eleições terminavam, lá no Canadá um maluco entrou atirando no parlamento, matou Nathan Cirillo (um dos guardas que vigiava o Memorial de Guerra) e depois foi morto. A reação da mídia e das pessoas por lá foi, simplesmente, inacreditável:

  • A cobertura da imprensa canadense foi tão sóbria, factual e isenta de sensacionalismo que arrancou elogios pelo mundo.
  • Kevin Vickers (o “chefe da segurança” do Parlamento) foi o responsável por matar o atacante. No dia seguinte aos ataques, ele simplesmente foi trabalhar normalmente. O vídeo dele sendo aplaudido de pé, ao voltar ao trabalho no parlamento me deixou embasbacado. E no Reddit, além dos elogios, tava todo mundo preocupado em dar apoio psicológico a ele, porque matar alguém pode ser traumático, etc, etc…
  • Ainda no Reddit a outra fonte de preocupações era a única vítima: Nathan Cirillo. Tinha um monte de gente preocupada em abrir um fundo para doações para o filho dele, que era pai solteiro, e inúmeros comentários sobre sua bravura e o quanto isto era uma perda para o Canadá. E ninguém sequer mencionou o atacante. Até hoje eu não sei o nome dele. Mas tinha gente preocupada até em quem ia cuidar dos cachorros do Cirillo daqui em diante.
  • E o cartunista do principal jornal de Ottawa ainda me publica isso aí embaixo.

Em resumo: um evento importante sacudiu o Brasil e saiu muita coisa ruim. Mas quando um evento importante sacode o Canadá…

Pontualidade e outros superpoderes inúteis – e um grande dilema

Outra questão cultural menos grave, mas que me incomoda desde sempre, é o modus operandi brasileiro: improvisado, espontâneo, altamente orientado à relacionamentos pessoais. Não estou criticando este jeito de ser, mas passei quase quarenta anos tentando me adaptar a ele e… não dá, eu não sou assim.

Eu gosto de ordem, planejamento e regras bem definidas. Eu chego no horário quando combinam comigo – e normalmente fico esperando feito bobo, porque ninguém chegou. Eu faço cronograma de viagem de férias. Eu assino Rdio e Netflix (sem proxy!), compro MP3 no Bleep, meu Office é original e licenciado e tenho três backups dos arquivos do computador. Na verdade, culturalmente falando, eu nunca me identifiquei com as coisas nativamente brasileiras (futebol, samba, praia). No entanto eu consigo te explicar todas as regras de um jogo de curling, o único esporte com o qual tive afinidade instantânea foi o esqui e uma das minhas camisetas prediletas é de uma banda chamada Set Fire to Flames – que é canadense.

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Não parece, mas esta é uma camiseta de banda.

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E aí eu e o Brasil ficamos muitos anos nesse casamento de aparências: não temos nada a ver um com o outro mas estamos aí, juntos.

E é isso que me dói e me gera uma crise de consciência enorme. O momento nacional é sério, é importante. Não se trata só de um rebuliço econômico, ou de uma maluquice traumática como foi a ditadura: o Brasil está meio que “entrando na puberdade” do ponto de vista ideológico, e é um momento ímpar onde todo mundo deveria dar o melhor de si pelo país. E a mítica hora que a gente canta no hino, dizendo que “o filho teu não foge à luta”, e no entanto é exatamente isso o que eu estou fazendo.

Mas essa luta é longa demais, e talvez seja impossível vencê-la. Quem me conhece sabe que eu não sou otimista, mas pense comigo: você se enxerga indo ao Mineirão assistir um Atlético e Cruzeiro onde as torcidas não ficam separadas no estádio? Você vê esta realidade em um futuro próximo? E em um futuro distante? E o quão distante está este futuro? Pra mim, este é o melhor indicador possível pra se melhoramos ou não na questão do “individual sobre o coletivo”.

A vida já me deu bastante porrada (felizmente, nenhuma nos estádios). E o que eu aprendi com isso foi que é fundamental saber quais brigas comprar. Então, decidi comprar a da imigração – que é uma senhora briga, vale frisar.

E como faz pra ir pro Canadá?

Ah, rapá, aí nem com dez páginas de post dá pra explicar. É um processo demorado e de MUITA burocracia, até pros padrões brasileiros. O melhor a fazer é ver o site do Ministério da Imigração Canadense, mas em resumo você tem que ter curso superior – ou grana pra fazer um por lá -, tu tem que ter experiência de trabalho numa das profissões que estão em demanda e inglês ou francês bom (e comprovado por um teste tipo IELTS ou TOEFL).

No meu caso eu tinha dois planos (lembra da minha paranóia com backup? Pois é!)

Plano A) Imigrar pelo processo federal (Federal Skilled Worker). Nela, você já chega com visto de residente permanente, o que te permite trabalhar e/ou estudar onde quiser e virar cidadão depois de alguns anos. O problema desta opção: a burocracia dela é inacreditável (o processo que enviei tinha quase cem páginas!), o formato atual dela, que te permite ir sem achar emprego antes, vai ser extinta em 2015 e as vagas de 2014 foram limitadíssimas – apenas 1.000 por profissão.

Plano B) Ir como estudante de um curso superior. A burocracia é beeem menor, não tem limite de vagas e dá pra aplicar pro visto pela internet mesmo. O duro desta opção é o custo (e a ausência de renda), mas você ganha direito a um visto de trabalho quando se forma e seu cônjuge pode trabalhar enquanto você estuda.

No meu caso o plano A foi a maior decepção do mundo: passei MESES reunindo documentos, DIAS preenchendo os formulários, gastei uma bolada com cópia autenticada e tradução juramentada, outra bolada fazendo o teste de inglês (IELTS, que fiz de ressaca e com três horas de sono, mas tirei 8 em 9 – história para outro post…), mandei meu diploma (físico) pro exterior pra ser validado, foi uma via crúcis. Aí mandei tudo, fiquei meses fritando se eu ia conseguir entrar nas mil vagas, até que numa segunda-feira vi a cobrança da taxa de análise no meu cartão de crédito indicando que sim, eu havia entrado.

A alegria durou três dias, que foi o tempo de vir um email do consulado avisando que faltou incluir uma data em um documento, que foi desconsiderado e que, por isso, me desqualificou do processo por um ponto.

Agora estamos indo de plano B: já escolhi uma faculdade, fiz matrícula e exatamente hoje, dia que este post (que estou escrevendo há MESES) finalmente vai ao ar, nossos passaportes estão no consulado para receber o visto.

E suas coisas do Brasil?

Ué, tou vendendo tudo! A lista está aqui e aumenta todo dia. Se quiser algo nem precisa comprar pelo Mercado Livre, fale comigo e a gente se acerta.

Quanto ao nosso apartamento, vamos deixá-lo alugado – e se quiser você pode morar nele ou indicar para os amigos. Aproveita que tá barato 🙂

Natal e ano novo na Grã-Bretanha

No meio do ano passado eu e Bethania estávamos conversando e o assunto era “o que fazer no réveillon”.

– Onde será que tem uma festa legal de ano novo? – perguntou ela.
– Você diz, aqui em São Paulo?
– Não, no mundo inteiro.

Algumas pesquisas no Google depois e decidimos que a virada do ano seria em Edimburgo, na Escócia, pra conhecer o famoso Hogmanay – e, de quebra, passar o natal em Londres. Deus abençoe as milhas de cartão de crédito.

(Todas as fotos by Bethania)

Parte 1 – Londres

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Londres me fez nunca mais reclamar do clima de São Paulo. Aprendi isso logo no primeiro dia: descemos da estação de trem e tínhamos apenas 600 metros de caminhada até o hotel. Mas fazia um frio de cinco graus, chovia e era impossível usar guarda-chuva por causa do vento. Míseros duzentos metros tentando empurrar mala depois, desistimos e entramos num táxi.

Londres também me fez nunca mais reclamar dos preços de São Paulo. Com a libra a quase R$ 4 um mísero pint de cerveja custava uns quinze reais. Mas com um pouquinho de planejamento prévio (e com o Yelp instalado no celular) comemos e bebemos super bem – com direito até a restaurante estrelado Michelin no nosso roteiro.

Mas falando assim fica parecendo que eu odiei Londres, o que é exatamente o oposto: foi, de longe, o lugar que eu mais curti.

Na noite de Natal (onde a cidade morre e fica tudo fechado) fomos pra um pub em Camden Town. Morremos de rir da completa ausência de malemolência inglesa ao ver os(as) londrinos(as) tentarem dançar, batemos papo com altos bêbados solitários de bar (um deles era produtor de hip hop) e Bethania já ia levando uma cantada de um sérvio bêbado quando mencionei que ela era minha esposa. E o maluco ainda me respondeu assim:

– Ah, vocês são um casal? Mas ela tem cara de européia, de sul-africana… já você parece mesmo brasileiro com esse cabelo enrolado…

No dia 25, onde TUDO fica fechado em Londres (inclusive todo o transporte público), passamos o dia andando nas Boris Bikes – as “bicicletas do Itaú” deles. Teria sido um dia perfeito, não fosse o meu celular, que caiu do bolso numa dessas pedaladas e não sobreviveu, perecendo com a tela estilhaçada em frente ao Palácio de Buckingham.

(Inclusive ninguém acredita, mas foi só por isso que comprei o Nexus 5. Juro, eu não ia trocar de telefone, foi puramente por necessidade).

Outra atração londrina memorável foi quando fomos à Fabric, que a DJMag elegeu “melhor club do mundo” por três anos seguidos. O lugar é enorme e a música… a música… MEU AMIGO… nada menos que três ambientes com DJs esmerilhando um nível inacreditável de qualidade musical – e olha que eu já gastei o ouvido em centenas de podcasts e sets gravados por grandes nomes das pick-ups mundiais.

Apesar do tempo chuvoso todo santo dia (cumprindo o estereótipo) Londres foi só alegrias: pirei na Tate Modern, surtei no inacreditável metrô londrino, ardi a goela comendo comida asiática, ganhei alguns quilos comendo fish and chips e tomando cerveja em pubs enquanto assistia jogos do Campeonato Inglês, e ainda curti uma viagenzinha de trem a 180km/h até Glasgow.

Parte 2 – Glasgow

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Ainda no universo musical, uma das coisas que eu gosto em viagens é conhecer o ambiente que inspira a produção musical dos artistas que gosto. O clima provinciano, simples mas austero de Glasgow explica muito do som do Mogwai, Belle and Sebastian, Camera Obscura, Frightened Rabbit e tantas outras bandas boas. Ficamos na cidade apenas uma noite que, apesar de gelada, ainda acomodou um jantar indiano incrível e depois um “bar hopping” no centro da cidade pra conhecer lugares como o King Tut’s, que tem uma escadaria para o terraço onde rolam os shows e onde cada degrau é pintado com os nomes das bandas que tocaram no lugar a cada ano. Gente de respeito, tipo Oasis, Radiohead, The Killers, Juliette Lewis, Pulp, Florence & The Machine…

Parte 3 – Edimburgo

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Bem, Edimburgo era pra ser o grand finale da viagem com o famoso Hogmanay, a enorme festa de rua que fecha o centro histórico da cidade, é cheio de shows e atrações e culmina na queima de fogos nos céus do castelo à meia-noite. Mas a moral da história é que, de fato, ninguém no mundo sabe fazer festa como nós brasileiros.

O Hogmanay foi basicamente um “Réveillon na Paulista” piorado. Tava muito cheio, não dava pra circular entre os palcos pra ver todos os shows (perdi um do Chvrches por causa disso) e, em relação ao público, infelizmente descobrimos que o escocês não bebe para se divertir – bebe pra cair.

Pra piorar, a gente comprou os ingressos antes de anunciarem o show principal, que foi ninguém menos que os… Pet Shop Boys. O palco onde eles tocaram era separado e foi inacreditavelmente subdimensionado: tinha umas 8 mil pessoas num espaço pra duas mil, então a multidão começou a se espalhar por uma colina gramada perto do palco que, por causa da chuva, virou um lamaçal.

Como não queríamos começar 2014 na lama, a solução foi fugirmos para o esquecido palco de música típica escocesa: uma espécie de “quadrilha” com gaita de fole, que estava vazio e onde, felizmente, tinha banheiros e acesso ao bar com menos de uma hora de fila. Resultado: gastamos uma fortuna em Smirnoff Ice (é, eu sei, eu sei) e, depois dos fogos, dançamos quadrilha com um bando de desconhecidos bêbados até as duas da madrugada.

Por sinal a música típica escocesa foi uma das melhores coisas da viagem: ela lembra muito o country norte-americano ou a nossa música caipira, mas com toques de música celta, um violino (o “fiddler”), letras em um inglês de sotaque inentendível e até elementos de stand-up comedy (sério, os caras contam altas piadas entre uma música e outra). No hotel onde estávamos conseguimos entrar de penetras num show do North Sea Gas, um trio famoso de música da Escócia. Foi incrível. Os caras alternam músicas de piadinha sobre bebedeiras ou comida com canções emocionantes sobre a guerra ou simplesmente sobre o amor pela Caledônia (o nome poético que os cantores usam para falar da Escócia). Até compramos os CDs dos caras.

E aí, como foi de férias?

(crédito de quase todas as imagens: Bethania)

Lembram da minha resolução de ano novo, de menos estresse e mais diversão? Então. Saí de férias no começo de fevereiro e fomos pros EUA. Destino: Las Vegas e road trip na Califórnia.

Essa é uma lista resumida do que fizemos em três semanas de viagem:

  • Ganhar, do nada, um upgrade de quarto em Las Vegas. Fomos parar numa suite maior que o meu apartamento. A foto abaixo é de metade da varanda. A outra metade não cabe na foto porque ela dá a volta por todo o quarto.
Varanda do hotel
  • Perder dinheiro nos cassinos. Fomos jogar só no último dia. Eu vim preparado: há meses eu vinha jogando blackjack no celular, estudei a estratégia básica e tudo. Aí me sentei numa mesa e perdi US$ 60 em cinco minutos. Lição aprendida. Ah, e vi a Milla Jovovich num dos cassinos. Acredite se quiser, mas a pele dela ao vivo é horrorosa.
Caesar Palace
  • Comer como um louco nos “all-you-can-eat buffets”. Implodi uns bons meses de regime nessas, mas valeu a pena. Bufê em Vegas parece coisa de turista, mas o do Caesar Palace foi recém-reformado, é enorme, caro, mas é imperdível: tem todas as variedades possíveis de comida, do japonês ao hambúrger, da lagosta à pizza… e não é tudo feito na baciada, é comida nível gourmet mesmo. A foto abaixo é só a parte de sobremesas do Caesar. Já comeu pirulito de cheesecake? Não parece, mas é uma delícia.
Caesar Palace buffet
  • Atirar com uma arma de fogo. Sim, esse é o tipo de coisa que dá pra se fazer em Vegas! Pra ficar ainda melhor, foi com uma AK47 (foto da esquerda), vários outros fuzis e pistolas e até uma Browning M1919 (a da direita)!

Atirando com uma AK-47 e uma Browning M1919

  • Visitar o Grand Canyon. Mas como o tempo era curto, fomos de helicóptero.

Helicópteros pousados

  • Ver mulher pelada em Vegas, mesmo estando com a esposa junto. Foi no Zumanity, o show “adulto” do Cirque du Soleil. Apresentado por uma drag queen, tem desde contorcionistas seminuas numa banheira transparente até um anão stripper-trapezista. Mas tudo com muita classe.
  • Dirigir 1000 km até o Napa Valley, na Califórnia. Contornamos o Yosemite Park no meio de cenários fantásticos como esse aí embaixo.

Estrada nevada da California

  • Passar o dia percorrendo vinícolas e provando vinhos, de bicicleta. Por sinal, você sabe que virou adulto quando percebe que gastou mais dinheiro com vinhos do que com eletrônicos numa viagem pro exterior…

Bicicleta no Napa Valley

  • Jantar num restaurante com estrela do guia Michelin. Foi no vale do Napa mesmo, no Solbar, que apesar de estrelado é acessível para meros mortais como eu. Eu não tenho coragem de tentar descrever a comida aqui, basicamente, estrela Michelin = a porra fica muito séria.
  • Conhecer a prisão de Alcatraz, em San Francisco. Fiquei uns 30 segundos dentro da solitária e não consegui imaginar como as pessoas aguentavam dias ali dentro. E ainda vi uma Tommy Gun de verdade!

Tommy Gun

  • Atravessar a ponte Golden Gate… também de bicicleta. É meio tétrico ver os telefones para “emergência e aconselhamento em momentos de crise” espalhados pela ponte, com as plaquinhas de “ainda há esperança, não pule, ligue para…”. Numa nota mais positiva, é de chorar o tanto que as cidades californianas são boas pra andar de bicicleta.

Ponte Golden Gate

  • Visitar a sede da Apple, em Cupertino. Porque, né. O mais irônico foi que dias antes eu havia comprado um Nexus 4 🙂
  • Conhecer o aquário de Monterey. Achei que era só um aquário mas, cara… é embasbacante. Tinha gente chorando de tão bonito.

Aquário de Monterrey

  • Descer de carro pelo Big Sur. Meus amigos… esse dia foi foda. O Big Sur é um trecho da Pacific Coast Highway que desce de Carmel até próximo a San Luis Obispo, ladeando o oceano. É uma das estradas mais bonitas do mundo, com certeza. Esse dia foi perfeito do início ao fim: começamos fazendo a 17-mile drive em Monterey (que também é linda), dirigimos o dia todo ouvindo a discografia do Nightmares on Wax – a música perfeita para aquela estrada – e terminamos vendo o sol se pôr no oceano, numa praia cheia de leões marinhos descansando.

Big Sur

  • Comer os melhores cinnamon rolls da Califórnia. Foi puramente por acidente, estávamos lavando roupa num laundromat de San Luis Obispo e, pra matar o tempo, atravessamos a rua pra ver o que tinha. Aí passamos em frente ao Emily’s Cinnamon Rolls e o cara da loja do lado nos disse: “Cuidado, isso aí é viciante”. Se um dia na sua vida você passar próximo à San Luis Obispo, você PRECISA comer um desses.

Emily's Cinnamon Rolls

  • Fazer um piquenique nas praias selvagens de Lompoc. O caminho até lá é curioso: você passa umas plantações, depois uns radares do exército norte-americano (?), depois uns galpões da Nasa (!), e aí chega na praia. Que estava bem cheia, como vocês podem ver aí embaixo.

Praia de Lompoq

  • Pegar um barco e ver baleias no Oceano Pacífico. Que nesse dia fez juz ao nome e estava parecendo uma enorme piscina, de tão tranquilo. Ps.: a foto não é de uma baleia com escoliose, é que na verdade são duas.
Baleias na baía de Ventura, California
  • Conhecer os estúdios da Warner, em Los Angeles. Esse é um tour “adulto”, não é como o da Universal, que na verdade é apenas mais um “brinquedo” do parque temático deles. Na Warner, enquanto o guia te leva pra ver os sets de um monte de séries (entramos no de The Big Bang Theory!), ele explica muito do processo de produção cinematográfica, que foi o que mais me interessou, de longe. E pra completar o lado turístico da coisa, você pode tirar uma foto no sofá de Friends, montado numa réplica do set do Central Perk, e ver o “museu do automóvel” deles, que tem TODOS os Batmóveis de todos os filmes.

Sofá de Friends e Batmóvel modelo 2012

  • Comprei uma Buddha Machine, na Amoeba Records de Los Angeles. Sempre quis ter uma! Bethania não entendeu nada quando eu entrei numa loja com milhões de CDs e saí só com um “radinho AM”. No hotel, ela caiu na gargalhada quando viu que aquela caixinha só toca loops repetitivos. E, alguns minutos depois, caiu no sono por causa deles 🙂
Buddha Machine
  • Ver de perto um ônibus espacial de verdade. Foi a Endeavour, que se aposentou recentemente e foi levada para o California Science Museum. Nerdgasm total. Esse é o tipo de coisa que você tem que ver ao vivo, porque ele é completamente diferente das fotos, muito maior do que eu achava, e parece todo acolchoado por causa da proteção térmica/de radiação.

Endeavour

  • Passar debaixo da “Levitated Mass”, obra de Michael Heizer, que fica nos jardins do LACMA. É basicamente uma rocha de 240 toneladas montada nas paredes de uma trincheira, de maneira que você pode ficar lá debaixo desse monstro rochoso. Vocês podem achar isso uma grande bobagem, mas isso era uma das coisas que eu mais queria ver na viagem.

Levitated Mass

  • Ver a Shamu no SeaWorld. Bethania queria nadar com os golfinhos (e nadou), já eu fiquei só vendo os shows. Todos eles começam com umas apresentações institucionais de como o SeaWorld resgata animais no mundo todo, mas ao mesmo tempo no celular eu lia  uns posts do PETA crucificando o parque como um monte de “porcos capitalistas mentirosos”. Não sei bem o que pensar.

Shamu, no SeaWorld

  • …e para o gran finale, já no caminho de volta pro Brasil, alugar um Mustang conversível e passear por Miami. Primeira vez na vida que precisei de protetor solar pra sair de carro 🙂

Mustang conversível

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Ainda na onda “menos businessman, mais hustler”, resolvi usar os skills de trabalho pra dentro de casa e toquei a viagem como um projeto, minuciosamente planejado e montado em várias madrugadas e finais de semana. Tínhamos planilha de custo, roteiro (cronograma) para todos os dias, um “backup” impresso com todas as reservas de hotéis/atrações, incluindo os roteiros de estrada plotados no Google Maps (parte do meu gerenciamento de riscos). Fiz até a playlist da viagem no iPod, horas de música especificamente selecionada pra pegar estrada na Califórnia.

Resultado final? Sucesso completo, tudo dentro do prazo, custo “estourado dentro do previsto”, com Bethania me promovendo a “planejador oficial das viagens de férias” do casal. Como é bom ser gerente de projetos 🙂

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Estas férias espetaculares não seriam possíveis sem esta coisa maravilhosa chamada internet. Agradecimentos especiais para:

  • Wikivoyage, a Wikipedia de viagem. É perfeita para o básico dos lugares que você vai visitar e tem indicações de coisas que nunca tem em guia turístico. (ps.: assim como na Wikipedia, ignore a versão em português)
  • Reddit Travel. O “buscai e achareis” bíblico funciona muito bem ali. Vários itens inusitados da minha programação (exemplo: as armas de fogo em Vegas) vieram das sugestões de outros redditors.
  • TripAdvisor, para indicações de hotéis e passeios. Indispensável pra separar o joio do trigo, especialmente em lugares tipo Las Vegas, cheios de armadilha pra turista.
  • Yelp!, para restaurantes. Yelp era simplesmente infalível nos EUA, todos os lugares que fomos por indicação dele eram ótimos. Exemplo: a Eating House em Miami, restaurante barato, criativo (couve-de-bruxelas com lo mein, waffles de Foie Gras, sobremesa que parece um vaso de plantas), delicioso e que nunca apareceria num guia de viagem. Uma pena não funcionar no Brasil.
  • Google Maps, para a parte “terrestre” da viagem. Calculei nele todos os tempos de estrada, estudei o trânsito caótico de Los Angeles, no Street View conferi a cara das cidadezinhas minúsculas que escolhemos pra dormir, as estradas que escolhemos, e ainda imprimi todos os roteiros.
  • Garmin, pelo seu GPS sempre certeiro, que literalmente nos conduziu pelo vale da morte (é sério, no primeiro dia de viagem, sem saber, passamos pelo Death Valley!). Nosso modelo indicava onde tinha engarrafamentos e mostrava até uma imagem da placa que ia aparecer em cima da saída da freeway, pra não ter erro. Gostamos tanto que Bethania deu um nome pra ele: “Aguiar” (pegou essa? “a guiar”…)

Observações pertinentes e oportunas sobre assuntos totalmente aleatórios

Achei que tinha desenvolvido uma tolerância à cafeína depois que comecei a ficar com sono logo depois de beber café espresso. Mas aí reparei que a forma que bebo cafeína é que faz diferença no tanto que ele me acorda.

Donde temos a seguinte escala:

  • Espresso – Efeito nulo ou negativo (me dá sono)
  • Café de coador – Efeito leve. Os cafés ruins de escritório (estilo ‘café de asa de barata’), sem açúcar, são um pouquinho mais eficientes.
  • Café solúvel – Efeito considerável. Destaque para o Nestlé DuoGrão (a.k.a. “do ogrão”), que mistura café solúvel com pó de café puro. A cafeína lhe dá um tabefe na cara quando você bebe.
  • Café americano (aquele do Starbucks) – Efeito bastante consideravel, mesmo no tamanho pequeno (“tall”).  No final do copo eu já estou me sentindo meio Papaléguas.

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Estava vendo minha music library e pensando: é praticamente um milagre eu não usar drogas. Nos últimos tempos eu ando ouvindo muuuuita música de noiado/frito/v1d4l0k4. Exemplos:

  • Mad Lib: Discos com 50 faixas de 1 minuto cada, todas feitas de uma brisa das mais abstratas. É filosofia stoner, versão musical.
  • Ras G: Eu ouço e dá pra imaginar o próprio Ras no meio da nuvem de fumaça, falando, arrastado: “Dude…. duuuude… u feelin this?…” (ps.: a faixa 11 do disco se chama “jus feel”)
  • Emeralds: A música se repete, repete, repete, repete, repete… e então o ácido bate.
  • OOIOO: Versão japonesa do Santo Daime.
  • Rustie: É tipo o cara que cheira uma linha e sai andando pela pista de dança se sentindo o próprio Alexandre Frota.
  • SugarBeats: Tu toma um “E” e aquele show de funk (não o carioca, o de James Brown) subitamente fica… crocante.

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Eu continuo naquelas de contratar gente, o que significa ver milhares de CVs, o que significa ver coisas bizarras como:

  • Gente que manda CV e no cabeçalho, logo debaixo do nome, vem o nome artístico.
  • Gente que coloca hashtags no subject do email. Tipo: #Curriculo #Vaga #Projetos.
  • Teve uma menina que incluiu uma citação de Mary Poppins no final do CV. Dizia assim:

Em cada trabalho a ser feito há um elemento de diversão. Você acha a diversão e – pronto! – o trabalho vira um lazer!

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Num fim de semana desses aí fomos conhecer Campos do Jordão. Sim, tá no verão, mas os dias estavam chuvosos e frios (a.k.a. “verão em São Paulo”).

As pessoas chamam Campos do Jordão de “a Suíça brasileira”. Na verdade é uma “Suíça wannabe“, como bem definiu Bethania. Os caras fazem os telhados pontudinhos, servem fondue por tudo que é canto e – voilá! – eis a Suíça… versão brega.

Pra piorar, a cidade não funciona/não entrega:

  • No posto de informações turísticas, logo na porta da cidade, ao ser perguntada sobre opções de turismo para dias chuvosos como aquele, a mocinha respondeu: “então né… chovendo assim é complicado…”
  • Agendamos uma visita à fábrica da Baden Baden, quando o tour começou a mocinha disse que não teríamos acesso à fábrica por questões de segurança e o “tour” foi ela levando a gente pra ver uns barris de cerveja e lendo uma timeline com a história da cervejaria pregada na parede. Durou 10 minutos. No final deram dois copos de cerveja pra cada um, possivelmente pra ver se, bebendo, a gente esquecia aquela picaretagem.
  • O Palácio da Boa vista fecha pro almoço (bem na hora que chegamos lá). Aí, pra não perder a viagem, resolvemos ir ao Café do Palácio, que – surpresa! – não tinha café.
  • A aclamada “Fazenda Lenz Gourmet” é uma terrível armadilha pra turistas: de gourmet só o nome, porque o garçom errou tudo do nosso pedido, do ponto da carne às bebidas. A “área de lazer” da fazenda é deprimente, parece um galpão abandonado.

Delírio sobre viagens de avião

Um dia desses eu tive a ideia de colocar a coleção inteira de Sandman no iPad, pra ler no avião. E que ideia boa: tenho devorado as edições, fascinado. Nunca vi quadrinhos tão bem escritos.

Coincidentemente, lá pela edição 43, Sandman decide viajar à maneira dos mortais e embarca ele mesmo num avião com sua irmã caçula, Delirium.

Delirium é desenhada como uma menina meio maluquinha, de cabelo colorido e esgadanhado, de olhos cada um de uma cor. Como era de se esperar, Delirium não costuma fazer muito sentido quando fala, mas é dela o comentário mais sensato sobre voar de avião que já vi:

Sabe qual a melhor coisa sobre aviões? Digo, além dos amendoins nos saquinhos prateados.

É olhar as nuvens pela janela e pensar que eu poderia andar ali. Que talvez seja um lugar especial onde tudo está bem.

E às vezes eu ando de verdade nas nuvens, mas é só frio e molhado e vazio, mas quando você vê de dentro do avião é um mundo especial… e eu gosto disso.

Acho que é por isso que sempre escolho voar sentado na janela.

(Além do mais, quem sabe um dia desses eu não vejo uma menininha passeando entre as nuvens?)

10 minutos

Daí que minha operação em Recife tá mudando de prédio neste fim de semana e eu vim para ajudar na mudança.
No domingo, lá pelas 16h, encerramos o dia. Voltei pro hotel e decidi que queria tomar uma água de coco na praia, no quiosque que fica bem em frente ao hotel.
Agora tou aqui, HORRORIZADO.
Fiquei no quiosque não mais do que 10 minutos. Nestes 10 minutos eu:
  • Fui abordado por quatro pessoas (um mendigo e três pivetes) pedindo esmola.
  • Vi um dos mendigos comprando crack.
  • Vi o traficante que vendeu o crack do item 2 juntar mais uns capangas e fazer a contabilidade do dia com todos, no meio da calçada.
Cara. Foram DEZ MINUTOS. E eu não tava na boca da favela, tava na praia de Boa Viagem.
Pelo visto a Dilma ainda tem muito trabalho pela frente…

Masturbação e caos aéreo

Daí que esta semana eu fui à Recife e estava, com o coordenador geral de lá e com a líder da equipe de social media, entrevistando uns candidatos pra uma vaga que abriu no mês passado.

Eu ainda não tinha participado de nenhuma entrevista pras vagas de Recife, e a primeira coisa que notei é que meu coordenador falava mais que a entrevistada. Bem mais. Mas tudo bem, eu me intrometia e perguntava outras coisas, tentava deixar a menina mais à vontade e apesar de tudo a entrevista seguia bem.

Acontece que na nossa equipe de social media tem um cara chamado Tomás, cujo apelido não é lá muito fraterno: “Tomás Turbano” (possível origem do apelido aqui). E na entrevista meu coordenador, falando pelos cotovelos, começa a contar da equipe de social media:

– Então, tem três pessoas, a fulana, a sicrana e o Tomás Turbano…

Eu achei que meu pior episódio com aeroporto iria acontecer na minha carreira de consultoria, mas não: foi agora, no voo de volta de Recife.

Pra começar não tinha nenhum voo em horário decente, então acabei obrigado a vir num que saía de lá às 23h e que, por causa do horário de verão, chegava em SP – ou melhor, em Guarulhos – às três da manhã.

E aí o voo atrasou nada menos do que TRÊS HORAS.

Pra piorar, no embarque tinha uma família barraqueira. Mas barraqueira MESMO. Não fossem os detectores de metal da sala de embarque eu tenho certeza que um dos tiozões lá tinha tirado a peixeira da cintura e cortado o bucho de alguém, no melhor estilo nordestino. Teve bate-boca, teve bate-bate na porta de vidro que dá acesso ao finger, teve de tudo. E o voo ia atrasando.

E pra piorar ainda mais, lá pelas duas da manhã, o povo da família barraqueira começou a passar mal. Primeiro foi uma das crianças, que vomitou no chão bem em frente ao portão. Aí uma senhora idosa começou a querer desmaiar e o pessoal, aos gritos, começou a pedir um médico. Veio um funcionário da Anac, que sem o menor tato avisou que o médico ia demorar porque estava atendendo “um caso muito mais urgente que esse aí”. Aí a família barraqueira perdeu a compostura que ainda restava e ficou berrando coisas tipo “CADÊ O MÉDICO DESSA PORRA?!” por uns quinze minutos, até que o médico finalmente apareceu.

Aí o embarque finalmente começou. Botei meus fones e pensei: “finalmente, agora vou conseguir dormir um pouco no voo”. Só que o piloto fez o favor de botar o ar condicionado numa temperatura POLAR e eu, ao invés de cochilar, tremi de frio por três horas.

Pra completar, quando pousei em Guarulhos, lá pras seis e meia da manhã, desorientado de cansado, já tinha engarrafamento na marginal, na Av. Stos Dumont e na 23 de maio.

Cheguei em casa com minha mulher já se arrumando pra ir trabalhar. Aí chutei o balde e resolvi que ia pra agência só à tarde. Troquei de roupa, me enfiei debaixo das cobertas e pensei: “pronto, AGORA eu durmo, pelo menos algumas horinhas”.

Mal sabia eu. Peguei no sono e, dez minutos depois, POU POU POU POU: havia alguém destruíndo meu quarto – a marretadas. Acordei em pânico e demorei uns minutos pra descobrir o que diabos era aquilo: meu vizinho está reformando o apartamento e estavam quebrando exatamente a parede que divide meu quarto com o dele. Mas o som era como se Thor estivesse tendo uma crise nervosa e quebrando toda a minha mobília. Pra piorar um pouquinho mais, entre uma marretada e outra, tinha um cara com a clássica furadeira.

Foi lindo.