Posts da categoria ‘Viagens’


As Férias do Primo, Parte 1: A viagem

5 de janeiro de 2009, 22:02

Sim, meus amigos! Minhas mini-férias de uma semana foram tão boas (e cheias de histórias) que serão contadas em pedaços. O primeiro deles é a viagem de ida para o lugar escolhido.

A premissa das férias era viajar para descansar, gastando minhas milhas que estavam vencendo e indo para um lugar sossegado, distante da bagunça de reveillon. Após um bocado de adoração ao Deus Google, Bethania, minha esposa, encontrou um lugar que parecia absolutamente perfeito.

Aí você se pergunta: “mas para onde vocês foram?”. Bem, vamos começar dizendo que nós acordamos às 4:30 da manhã do dia 26/12 e voamos até o meio-dia para pousar… em João Pessoa.

João Pessoa
A simpática capital paraibana (foto by Bethania Duarte)

Mas espere: não satisfeitos por estarmos no meio da Paraíba, saímos do aeroporto, almoçamos e fomos direto para… a rodoviária, porque ainda tínhamos uns 100km nos separando de nosso destino final.

Sabe, rodoviárias são um bom espelho do que as cidades realmente contém. A do Rio é abafada e caótica, a de São Paulo é SEMPRE lotada, a de Beagá parece rodoviária de cidade do interior, a de Brasília serve como um bom lembrete do que existe além do plano piloto… e a de João Pessoa tinha uma espécie de “feirinha do paraguai” no andar de cima. E tocava música de crente o tempo todo.

Então chegou o nosso ônibus. E aí eu, este serzinho que viaja por tudo que é buraco desse Brasilzão sem porteira, temi pela minha vida: o ônibus era velho, mas MUITO velho, o que ficava evidente em especial pelo cheiro de carpete velho misturado com o do revestimento dos bancos, feito num couro vermelho já há muito judiado pelo tempo. No vidro que separava o motorista dos passageiros tinha até um adesivo indicando a última vez que o ônibus havia sido dedetizado – mas o adesivo era tão velho que a data já tinha se apagado. E não tinha ar condicionado. E nós na Paraíba, lembram?

Sente o drama:

onibus1
onibus3

 

E os passageiros iam embarcando: Famílias inteiras com a meninada fazendo bagunça, um deficiente com sua muleta, um tiozinho com boné da Lubrax, calça jeans surrada e camiseta do Treze Futebol Clube e por aí vai. Era um legítimo ônibus cata-jeca. E pra terminar de me matar de susto, bem nesta hora, minha digníssima esposa resolve me dizer o seguinte:

- Sabia que o lugar pra onde a gente vai nem aparece no Google Maps?

E o motorista entrou, bateu a porta sem muita cerimônia e pegou a estrada – com uns cinco passageiros em pé e obviamente com uma parada a cada 10 minutos pra pegar ainda mais gente (a parte “cata-jeca” da viagem). Tanto que Bethania sugeriu que a gente cedesse nossos lugares a duas senhoras com crianças e viajamos boa parte do tempo em pé.

Eu ainda estava estupefato com a coisa toda quando numa destas paradas embarcou nada menos do que um vendedor de salgados, de camisa branca e gravata (naquele calor absurdo, nunca é demais lembrar), com uma bacia branca enorme cheia de coxinhas, empadinhas, “cocretes” e outras coisas cujo cheiro de gordura, somado com o cheiro de velho do ônibus, deixou o ar ainda mais empesteado. E o cara se acotovelando conosco no corredor do ônibus, e os passageiros conversando alto enquanto o vendedor gritava “ÓI A COXINHA! ÓI O SALGADO!”, e eu e Bethania nos entreolhando sem acreditar que aquilo tudo estava acontecendo.

onibus2

Algum tempo depois o ônibus sai da estrada, entra no município de Mamanguape e, numa avenida, pára de repente. O burburinho entre os passageiros começa imediatamente:

- Oxe, o que é que foi?
- Ih, foi batida. Olhe ali o carro.
- Mas o cabra tem que tirar o carro da frente, ué.
- Vixe, vai tirar não, o hôme nem saiu do carro… num deve tá querendo tirar o carro do lugar por causa de perícia, seguro ou sei lá.

Aí um tiozinho mete a cabeça pra fora do ônibus e começa a gritar: “TIRE ESSE CARRO DAÍ SEU JUMENTO!”. O burburinho aumenta. O motorista buzina, depois começa a discutir com o cobrador. Duas senhoras desistem da viagem e descem do ônibus, resmungando. E como se o nonsense não estivesse suficiente, aparentemente o dono do carro resmungou alguma coisa que irritou o tiozinho da janela do ônibus, que logo disse:

- Ah é? Deixe esse folgado aí que ele vai ver só uma coisa!

E, esticando o braço até o meio das costas, saca de lá nada menos do que um facão. “Se ele falar mais alguma coisa eu vou lá e lhe encho de furo”, disse. E enquanto isso o motorista ia dando ré no ônibus pra tentar desviar, com o cobrador do lado de fora ajudando a manobrar e o tiozinho branindo seu facão (mais de exibido do que de corajoso), disparando bravatas tipo “na favela onde eu mora nêgo folgado igual esse aí já tinha morrido”. E eu pensando onde diabos fui me meter…

Muitas manobras depois o motorista consegue se desviar do acidente e o balaio segue viagem. E o tempo passa, a noite vem chegando, os passageiros começam a desembarcar e eu ali, perguntando o trocador (sim, tinha trocador) de 10 em 10 minutos se ainda faltava muito… até que, depois de quase duas horas na estrada nós, finalmente, chegamos.

(Continua…)


O Primo’s Amazonic Project Management Saga

22 de novembro de 2008, 12:51

A imagem era idêntica as que se vê nos documentários da tevê sobre a amazônia: um mar de árvores. Mata fechada, cortada apenas por rios sinuosos de água marrom. Num deles tinha até uma canoa passando. Aì, de repente, aparece uma cidade.

Foi vendo isto da janela do avião que eu pousei em Marabá, interior do Pará…

maraba1

Minha missão era simples: atualizar o cronograma de um projeto de reforma de um frigorífico. O problema é que os engenheiros responsáveis estão "fugindo ostensivamente" de mim. Não atendem telefone, não respondem email… outro dia achei um deles no Skype e ele me disse: "Como você me achou? Tava me escondendo de você"…

Então resolvi visitar a obra pessoalmente. Só que esta foi a última semana de reforma antes do frigorífico voltar a operar e está tudo um pandemônio, portanto ninguém teria tempo de se sentar comigo e me atualizar sobre o projeto.

maraba2 A solução? Arrumei um capacete e me enfiei audaciosamente pelo canteiro de obra, no calor paraense, atolado até o tornozelo na lama do canteiro de obra (porque choveu horrores), com um cronograma impresso numa mão e uma planta do frigorífico em outra. E tive que descobrir, por conta própria, o que foi ou não executado e, então, atualizar o status do projeto.

Acho que nunca trabalhei em condições tão insalubres de trabalho. Eu vi placas de aço caindo a alguns metros de mim, vi fagulhas de solda e de metal incandescente voando pra tudo que é lado, vi caminhões atolando na lama, vi um trator quase atropelar dois peões, andei por cima do forro do telhado a uns 5 ou 6 metros do chão, me apoiando em tubos e trepando por cima de dutos de ventilação, saí pelo canteiro de obra à noite em locais onde os peões viviam achando cobras (amazônia, lembram?), e por aí vai…

Mas o saldo final foi positivo: os engenheiros fujões viram que eu não estou de brincadeira e me evitar apenas vai adiar o inevitável e, de brinde, comecei a acompanhar um outro projeto de reforma de uma das fábricas anexas – coisa que vai deixar Darth Vader, meu chefe, bastante contente.


Drill, baby, drill

22 de outubro de 2008, 22:46

Engraçado como o mundo dá voltas. Quando eu entrei pra faculdade de Ciência da Computação, em 1998, eu jamais imaginei que, dez anos depois, eu entraria num canteiro de obra no Mato Grosso, olharia para uma perfuratriz e pensaria: “droga, o projeto tá atrasado”…

Falando em Mato Grosso, deixa eu apresentar pra vocês a cidade onde estou trabalhando, a 200km de Cuiabá, e que eu chamo pelo carinhoso pseudônimo de “Ovomaltino”…

Ovomaltino

Pois é. Diz a Wikipedia que aqui tem 18 mil habitantes, só não sei onde eles estão. Mesmo assim Windturn City continua ganhando como o maior fim-de-mundo onde eu já me enfiei a trabalho.

Bem, na verdade eu comecei a falar da perfuratriz porque hoje paguei um belo mico por causa dela: depois de um longo dia cheio de problemas que se multiplicam como coelhinhos no cio, estou eu preparando um relatório quando resolvo olhar pela janela pra ver a obra, a uns 200m de distância. O relatório dizia que a perfuratriz estava trabalhando até as 22h pra compensar uns atrasos do cronograma, mas o que eu vi pela janela foi a perfuratriz parada e do lado de fora do canteiro de obra. Saí da sala e fui direto procurar o engenheiro-chefe, que estava na salinha de café com uma pessoa. Não quis nem saber e cheguei interrompendo:

- Por que diabos a perfuratriz tá parada??
- Não tá não, agora é pra ela estar na área 12, inclusive.
- Acabei de olhar pela janela e ela tá parada e fora do canteiro de obra. Como é que eu vou escrever no relatório que ela tá funcionando até as 22h?
- Sei lá, ela deve ter estragado então. Eu vou ver aqui e te falo…

Voltei pra sala já pensando no pior. Aí olho pra janela de novo e lá estava a perfuratriz… dentro do canteiro de obra e perfurando feito louca. O cansaço e o trauma dos problemas do dia, pelo visto, já estavam me fazendo enxergar coisas. Voltei pra salinha do café com o rabinho entre as pernas e falei com o engenheiro-chefe que eu tinha me enganado.

E o grand-finale foi quando ele voltou pra sala onde eu estava e disse:

- Pô cara, que vergonha hein? Você me puxando a orelha por coisa que não tava errada… e na frente do prefeito de Ovomaltino


Um hotel para toda a família

3 de setembro de 2008, 20:56

Ah, a consultoria. Graças a ela eu vim parar numa cidadezinha a 200km de Cuiabá e estou ficando num legítimo hotel de posto de gasolina de beira de estrada.

Que, como vocês podem ver pelas instruções afixadas na porta do quarto, é um lugar totalmente família…

Aviso de hotel


As lembranças que trouxe de Belém do Pará

9 de agosto de 2008, 15:29

É, eu fui lá dar um treinamento. E não me esquecerei de várias coisas, a saber: 

  • O calor. Onipresente. Sufocante. Absurdo. E no inverno. “Não é atoa que a criminalidade aqui é alta. Eu mataria por um ar condicionado”, pensei eu, nos dez minutos que esperei, ao ar livre, a porta da sala de treinamento se abrir. Outra coisa que pensei foi que deve ser impossível ter um computador com overclock em Belém.
    Continuo morrendo de vontade de morar num país com as quatro estações funcionando do jeitinho que eu aprendi nos livros de geografia…
  • O Rio Guamá. Mas foi tudo planejado pela turma que reformou os galpões antigos do porto e os transformou em um agradabilíssimo lugar com restaurantes e bares (e ar condicionado!). Aí você vai lá jantar à noite e dá de cara com aquele absurdo de rio e com o reflexo da lua batendo nas águas.
    Mas o mais incrível foi na hora de ir embora. O avião decolou e me deu, como grand finale da viagem, esse pôr-do-sol sobre o rio…

Pôr do sol sobre o Rio Amazonas

  • A comida típica. Inventei de pedir um “combo” de comida paraense com um monte de maluquices, incluindo maniçoba (a “mandioca brava”, cozida por sete dias e preparada como uma espécie de feijoada indígena) e o pato no tucupi (que faz sua língua ficar dormente e, no meu caso, dispara a música “confortably numb” em loop na sua cabeça imediatamente).
    A maniçoba era uma delícia. O pato no tucupi, nem tanto.
  • As dicas que recebi pelo Twitter. Nenhum guia turístico me traria resultado melhor. Graças ao Ian eu experimentei o sorvete de uxi (uma fruta doida – e deliciosa) na Cairu. Graças ao Doda Vilhena eu tenho um monte de bombons de cupuaçu na minha mochila nesse exato momento. E agora tem um a menos :)
    E fica aqui meu pedido público de desculpas ao Renmero, ilustre cidadão paraense e companheiro de Impop, a quem prometi umas cervejas no final da sexta-feira. Acabei antecipando meu vôo de volta e deixei o cara na mão. Shame on me.
  • O palco de música ao vivo montado no guindaste do galpão, nas docas, que fica se deslocando por cima das mesas. Idéia genial, só faltou tirar a música ao vivo.

Palco móvel das docas no Pará

Isso dá até uma reversal russa: No Pará, a música ao vivo passa por cima de VOCÊ.

  • A banca de discos que vi numa das ruas da cidade. Tinha tudo que é velharia em vinil. E tinha uma TV passando o videoclipe de “Neon Lights”.
    Imagine você, derretendo nas ruas de Belém do Pará, ao som de Kraftwerk. Surreal.


Dias de cão

31 de julho de 2008, 23:18

E eu estava aqui contente, me divertindo entre blogs, IM, YouTube e a multitude de coisas (e pessoas) divertidas online quando estiquei as pernas debaixo da mesa e esbarrei em alguma coisa.

O meu primeiro impulso foi o de dizer “Opa, desculpa Pavlov”, já que meu cachorro tem o hábito de se acomodar debaixo da mesa e tirar uns cochilos enquanto fico no computador.

E, tão rápido quanto veio o primeiro impulso, veio a constatação da realidade: não, eu não estou em casa. Estou é sozinho, num quarto de hotel, numa cidade distante. E o que eu chutei debaixo da mesa foi um sapato.

Já se vão aí uns seis anos de consultoria, viagens, hotéis e aeroportos, e o bode da distância e da solidão está batendo cada vez mais forte.


Momentos belorizontinos

5 de maio de 2008, 12:28

Ir à BH significa encontrar conhecidos na rua sempre que você sair pra rua. Aparentemente isso inclui a estrada, porque encontrei uma antiga conhecida no meio da BR-381, perto de Três Corações, na viagem da ida.

Já em Beagá, fomos a um concerto no Palácio das Artes e vi logo três conhecidos de uma vez. No dia seguinte fomos ao shopping e, voilá, encontramos um colega leitor deste blog. Mais tarde, em outro shopping, comentei com Bethania:

- E aí, será que vamos encontrar mais um aqui?

30 segundos depois, adivinha…


Numa visita à uma tia de Bethania, eis que acho em cima da mesa uma cópia autografada de “Fresta por onde olhar”, livro da esposa do Exu Caveira Cover, lançado recentemente. Mundo realmente pequeno, este.


A razão da ida pra Beagá foi o aniversário de Bethania que, por sinal, bateu o personal festas de aniversário record: três comemorações em BH e tem mais alguma coisa prevista aqui pra São Paulo.

Numa delas (a comemoração “família”) meu irmãozinho foi comer um cajuzinho depois dos parabéns e, sem a menor cerimônia, solta um grito memorável:

- ESSE DOCE TÁ UMA PORCARIA!!!


A outra frase memorável do feriado foi do meu cunhado. Dizia ele que estava num ônibus e um gay se sentou atrás dele e começou a sussurrar: “Gostoso…”

A resposta dele foi hilária:

- Escuta aqui, você me respeita, porque eu até respeito essa PORRA DE OPÇÃO SEXUAL sua!!


…e, antes de voltar pra São Paulo, passamos no supermercado e gastamos R$ 25 em queijo. Só pra cumprir com o estereótipo.


Here comes a new challenger!

30 de abril de 2008, 10:18

Ontem de manhã, eu atoa em casa, toca o telefone. Era o pessoal da empresa onde trabalho:

- Estamos ligando pra saber se você tem interesse em substituir um consultor num projeto… doze meses de trabalho a partir de julho… na Espanha.

20080430

Pelo visto a treta é séria mesmo. Hoje de manhã já fizeram um teste de inglês comigo via telefone (é a língua que o cliente espanhol usa, segundo me disseram) e estou negociando para levar Bethania comigo – condição sine qua non para minha ida, afinal as prioridades mudam depois que se casa. Vamos ver no que vai dar…


Momento "Engenharia Social"

11 de abril de 2008, 14:47

20080410 A internet do meu hotel aqui em Brasília é simplesmente impraticável de lenta. Já reclamei inúmeras vezes com a gerente e nada aconteceu.

Mas ontem à noite eu me irritei. Era hora de medidas drásticas. Peguei o telefone e disquei.

- Hotel Aaron, boa noite.
- Boa noite. Eu tou aqui no bar tentando acessar a internet sem fio, qual é mesmo a chave da rede?
- É “ponto”, senhor. Tudo em minúsculas.
- Obrigado.

Não, eu não estava no bar do Hotel Aaron. Eu sequer estava hospedado no Hotel Aaron: estou no concorrente, logo ao lado. O telefone eu achei no catálogo.

Ah, como é bom ter internet sem fio na cama…


O Primo’s Sunday Traveling Saga

18 de fevereiro de 2008, 23:00

Domingo. Acordei sozinho, às nove da manhã, no quarto de um hotel em Joaçaba, interior de Santa Catarina. Trabalhei sexta e sábado dando um curso, mas vôo para me levar de volta pra São Paulo que é bom, só no domingo. O término do horário de verão, que foi bom pra todo mundo, pra mim significou uma hora a mais para ficar longe de casa. Nada bom.

Tomei um café e o taxista apareceu para me levar ao aeroporto… de Chapecó, a duas horas e meia de distância (sei lá quantos quilômetros eram, pra mim o que importa é em quanto tempo eu conseguiria atravessá-los). A viagem incluiu passagens por lugares de nomes pitorescos como Xanxerê, Xaxim e a inacreditável Faxinal dos Guedes, tudo ao som do melhor da música de corno sertaneja no rádio do carro. Como por exemplo a belíssima “Não me procura”, de Alan e Aladin. Sente só uma das estrofes (mas leia com bastante vibrato na voz, para dar efeito):

Voce caprichou dessa vez
Fez tudo como manda o figurino
Bati o escanteio dos meus sonhos
E a bola deu na trave do destino

O vôo atrasou uma hora (normal) e quando embarquei, havia um moleque sentado no meu assento. O assento que eu havia escolhido cuidadosamente, com DIAS de antecedência, porque era uma janela e ficava do lado oposto ao que o sol ia bater durante o vôo. Assim eu não sentiria calor e a luz seria perfeita para eu fazer o que mais gosto: botar meus fones de ouvido, ficar olhando a paisagem e me esquecer do mundo por algumas horas. Mas o moleque birrento estava chorando tanto que não tive outra opção e fui me sentar no corredor. E só aí percebi a enrascada onde me meti:

20080218

Eu estava cercado por nada menos do que QUATRO crianças. A mãe dos meninos da minha esquerda (que andavam de avião pela primeira vez) estava longe e falava com eles o tempo todo. Eu não podia simplesmente botar o meu superfone de ouvido e ficar surdo para o resto do mundo porque, de cinco em cinco minutos, ela me perguntava se as crianças estavam incomodando. “Eles não, mas a senhora está”, foi o que pensei, mais vezes do que é saudável para um rapaz cristão. E o bebê de colo, como todo bom bebê em avião, estava chorando.

Na hora do serviço de bordo, o menino da minha esquerda solta a pérola:

- Eu quero ir no banheiro.

Até aí tudo bem, não fosse o fato do layout da cabine naquele momento ser mais ou menos o do desenho abaixo:

20080218_2

Depois de um empurra-empurra e um trança-trança entre cadeiras básico, o menino foi lá se aliviar.

Alguns minutos depois o avião ficou estranhamente sereno e eu achei que os instantes finais de viagem (até a escala em Floripa) seriam, finalmente, sossegados. Mas a aeromoça, nos alto-falantes, mandou apertar o cinto por causa de uma “área de instabilidade”.

Eu acho que no crachá dela devia estar escrito “Nostradamus” ou “Mãe Dinah”, porque no EXATO momento em que ela terminou de dizer “instabilidade” o avião começou a chacoalhar. Mas chacoalhar MUITO. Mas MUITO MESMO, dava pra ver a cabine se retorcendo e ouvir as malas batendo umas nas outras nos bagageiros. Era meu “personal turbulência record” sendo batido.

Agora adivinha a reação das crianças em volta de mim. Pânico? “Eu quero minha mãe”? Choro e ranger de dentes? Pelo contrário: as crianças estavam adorando a turbulência! O bebê de colo morria de rir das sacolejadas do avião e o moleque do xixi gritava:

- Uhuuu!! Dá friozinho na barriga, olha!!

Eu não tenho medo dessas coisas e estava tranquilo… até que olhei pro assento do menino mijão e vi que o copo de coca-cola dele estava desgovernado, patinando na mesinha. “SEGURA SEU COPO!!”, gritava a mãe, mas o menino estava tão entretido com a turbulência que eu tive que me salvar de levar um banho de coca-cola por umas três vezes. E quando a situação não podia piorar, a mãe dos meninos me cutucou e disse:

- Rápido, me passa seu saquinho de vômito, ela vai vomitar!

A mãe do birrento estava branca como defunto e com aquela cara típica de quem vai chamar o Hugo. E eu não achei saquinho de vômito na minha cadeira. E o copo do menino-mijão continuava esquecido na mesinha, deslizando perigosamente. Ou eu procurava o saquinho e me arriscava a levar um banho de coca, ou segurava o copo e ganhava um avião cheirando a vômito até São Paulo.

Foram instantes tensos. Mas uns 15 minutos depois o avião sossegou e pousou em Floripa. Os meninos, hiperativos, queriam descer do avião antes mesmo dele parar no terminal. Confesso que eu também queria, mas a mãe deles foi bem direta e disse:

- Nós vamos descer por último!

O avião parou no terminal e eu fiquei lá, desolado, esperando a hora do jardim de infância aéreo ir embora. O menino-mijão, impaciente, me cutucou e pediu licença. Respondi, resignado:

- Não posso, estou obedecendo sua mãe.


« Posts anteriores