Windturn No More

Tá bom, é o terceiro post seguido sobre Windturn City… mas meus instantes finais por lá foram peculiares:

Logo depois do almoço fui até o quarto da hospedaria para terminar de arrumar as malas. Liguei a tevê na Globo (ou melhor, TV Vanguarda) e qual não foi a minha surpresa ao ver a falta de luz de ontem noticiada no jornal local…

Lembram da história da demora pra instalar internet? Bem, eu e Michael ficávamos fazendo piada: “só falta eles instalarem no último dia de projeto”, dizíamos nós…

Adivinha só: exatamente na hora em qua eu estava saindo da hospedaria e entrando no carro para ir embora e nunca mais voltar, vi o pessoal da informática passando e perguntei:

– E aí gente, consertaram a internet?
– Sim.

Uma foto que me esqueci: o pseudônimo de “Buraco City”, a cidade vizinha, tem origem nesta placa, que fica na estrada, bem do lado da entrada da cidade…


O pichador se enganou: o buraco é uns 15km mais embaixo…

Windturn City Countdown – O fim?

Ontem foi o penúltimo dia em Windturn City. Tivemos uma grande reunião de trabalho que durou a tarde inteira. Só eu fiquei até o final: Michael e o consultor-líder tinham outros compromissos e, antes da reunião terminar, já estavam a caminho de São Paulo, para voar pra outros lugares.

A reunião fechou nosso projeto, que durou seis meses e foi um sucesso. O cliente gostou, elogiou bastante e (glup!) quer renovar o contrato conosco por mais alguns meses.

Na saída da reunião, enquanto andava de volta para a sala onde trabalhamos, notei que a porta da hospedaria estava aberta. Me deu uma sensação esquisita e resolvi entrar, já que depois das seis todo mundo vai embora e as portas ficam trancadas. Encontrei a faxineira e perguntei:

– Oi, eu vim pegar a chave do quarto número onze. Meu colega Michael esteve aqui mais cedo pra buscar as coisas dele e deve ter deixado a chave com você…
– Chave?
– É, a chave.
– Ué, não está aqui não…

Naquela hora Michael já devia estar a algumas centenas de quilômetros de distância. Peguei o celular e liguei:

– Michael… por favor me diga que você não está com a chave do nosso quarto…
– Uhh… PUTZ!
– Ok, já entendi.

A sorte é que a faxineira tinha a chave reserva. Não fosse por isso e eu ia dormir na praça.

Depois do trabalho eu resolvi sair pra bater fotos da cidade, já que não voltarei mais aqui… ou não.


As montanhas, a antena de celular e o “Windturn River”, que dá nome à cidade.

Acontece que havia chovido e um poste de luz acabou caindo, então metade da cidade estava às escuras. Repare que, na foto acima, só os postes à esquerda do rio estão acesos…

O mais engraçado foi que, no meio da escuridão, um cara me parou na rua para perguntar onde ficava uma pensão que era em cima de uma padaria. E eu SABIA onde era.


A pracinha central da cidade, deserta e sem luz.


Na rua principal tinha luz. Bem, deve ser principal, pois é lá que fica o único semáforo da cidade.


O semáforo solitário (esq.) e a placa de uma lojinha. Repare no telefone com 6 dígitos.


Este prédio parece cenário de novela de época da Globo, mas na verdade é um hospital.


A antiga estação de trem (com trem e tudo) é uma das atrações turísticas.

E, para encerrar minha participação neste projeto com chave de ouro, hoje, às seis e trinta e cinco da manhã, alguém estava tocando corneta para dar aquele “toque de despertar” militar. Não entendi nada. Aí, alguns segundos depois, BUM!!

Alguma coisa havia explodido. O quarto inteiro chacoalhou e meu coração quase saiu pela boca. Lembram que eu contei que a fábrica daqui produz explosivos? Pois é.

O susto só não foi maior porque as explosões eram ritmadas, e eu percebi que aquilo não era a fábrica indo pelos ares, e sim uma saraivada de tiros de canhão. Estavam comemorando aniversário de qualquer-coisa do Exército que tem aqui perto…

Windturn City Countdown – 3 dias…

Pois é, eu fico zoando mas ontem eu me surpreendi ao descobrir que a cidade tem até uma auto escola.

Não é fácil trabalhar numa auto escola em Windturn City. Felizmente, os “windturncityenses” são criativos. Por exemplo: para ensinar a fazer baliza, o instrutor usa dois cavaletes feitos com tubos de PVC, já que não dá pra treinar em vagas normais, compostas de carros de verdade. Afinal, a probabilidade de se encontrar dois carros estacionados na mesma rua por aqui é praticamente nula. Na verdade, a probabilidade de se encontrar carros por aqui já é baixa o suficiente…


A noite de ontem foi especialmente ruim.

Éramos eu, Michael Jackson e o consultor-líder do projeto, no mesmo quarto, dormindo em três camas paralelas. “Igual os Três Porquinhos”, como bem observou Michael.

Acontece que estava um calor do cão e o ventilador que tinha no quarto, misteriosamente, sumiu.

Lembro-me de acordar várias vezes durante a noite. Foram estas vezes aqui, ó:

1) O calor estava insuportável. Retirei a lixa colcha de cima de mim e voltei a dormir.

2) O consultor-líder começou a falar dormindo. Pelo teor da conversa, ele deveria estar sonhando com alguma reunião de trabalho.

3) Michael Jackson começou a roncar um ronco todo especial: uma mistura do “ronc” padrão com aquelas engasgadas típicas de apnéia. Dava algo mais ou menos assim: “Rooonc… rooon *gasp* *gasp*… roonc…”.

4) Michael abriu a porta do quarto pra amenizar o calor. Confesso que fiquei meio vexado, porque qualquer pessoa que fosse até a cozinha da hospedaria pra beber uma água passaria pela nossa porta e veria toda a intimidade dos “três porquinhos” dormindo.

5) Michael fechou a porta. Não tinha melhorado o calor em nada, e já estava amanhecendo mesmo…


Além de ventilador, outra coisa que não temos na hospedaria é acesso a internet. Parece óbvio, mas a história da internet é interessante…

Há seis meses atrás, logo na nossa primeira semana em Windturn City, conversamos com o cliente e dissemos que, do jeito que estava, não ia dar pra ficar na hospedaria. Nós até entendíamos que a empresa precisa reduzir custos, mas tem algumas coisas que são importantes para o desenvolvimento do trabalho e que gostaríamos de ter no nosso quarto da hospedaria. Estas coisas eram simples: uma mesa, duas cadeiras e acesso à internet. Veja bem: apesar do quarto velho e quente, nós nos preocupamos foi em pedir condições para trabalhar fora do horário. O cliente, obviamente, concordou, disse que ia providenciar e tal.

Dois meses depois, a surpresa: eles, finalmente, fizeram melhorias no quarto. Bem, na verdade colocaram uma televisão e um frigobar… e nada da mesa e da internet.

Quatro meses depois tivemos uma reunião importante com o presidente da empresa. Ele, em público, deu a seguinte ordem aos funcionários.

– Vocês devem acomodar os consultores com todo o conforto que eles merecem. E com internet!

Por muito pouco eu não dei um pulo de alegria da cadeira. “Agora vai!”, pensei.

Mas aí as semanas foram passando, passando e, obviamente, nada aconteceu. O problema da mesa nós resolvemos sozinhos: era só descer até o refeitório (sim, a gente dorme em cima do refeitório) e pegar emprestadas duas cadeiras e uma daquelas mesas brancas de plástico. E naquela altura já tínhamos desistido da internet.

Até que, faltando duas semanas para o fim do projeto, qual não foi a minha surpresa ao ver o pessoal instalando canaletas na parede, e passando por elas aquele lindo cabinho Ethernet azul. Mas faltavam duas semanas para o fim do projeto, então eles estavam, basicamente, jogando dinheiro fora. E matando a gente de raiva.

Na semana passada eu notei que, além do cabo, instalaram um computador num canto da hospedaria. O computador estava ligado num modem ADSL, e pelo visto deveria estar configurado como servidor. Será que, faltando alguns dias para o final do projeto, eu finalmente teria internet?

Resolvi testar o cabo: ainda não estava funcionando. No dia seguinte consultei as meninas do setor de informática, que disseram que o Speedy estava com problemas e que tudo deveria ser resolvido – adivinhe! – na semana seguinte.

Bem, a “semana seguinte” é esta semana. E faltam três dias para o fim do projeto…

The Windturn City Logistics Saga

12:29 – Sexta-feira. Eu e Michael Jackson almoçávamos, felizes, no refeitório da fábrica de Windturn City.

A felicidade não era porque estávamos em WTCity, e sim porque, em alguns instantes, um motorista da empresa-cliente estaria nos levando até o Aeroporto de Guarulhos, para embarcar às 16:30. Com sorte, antes das 19h eu estaria no conforto do meu lar…

12:30 – No momento em que eu dava a última garfada, aparece a secretária:

– Gente… já avisaram pra vocês do motorista?
– Uhhh… não, o que ouve?
– É que não tem nenhum motorista pra levar vocês em Guarulhos.

A comida se embolou toda no meu estômago.

– Mas nosso vôo é 16:30… o que a gente faz então?
– Não sei…
– Mas quais são nossas opções?
– Bem, a gente pode deixar a chave do hotel com vocês…
– Não dá, temos que ir embora hoje!
– Pois é, mas eu não posso fazer nada… vocês podem tentar conversar com um dos diretores…

12:45 – Eu e Michael entramos na diretoria, que estava completamente deserta por causa do horário do almoço. Aí fudeu tudo.

Basicamente, estávamos entregues à própria sorte. Nossa única saída era um ônibus para São Paulo que saía às 13:30 de Buraco City, a cidade vizinha. Só precisávamos arrumar algum jeito de chegar em Buraco City. Mas como? Os motoristas estavam todos ocupados, não tem táxi em Windturn City e o ônibus intermunicipal que faz a linha “Windturn-Buraco” não seria rápido o suficiente.

Enquanto pensava nisso, vi o carro do Capitão parado na rua. O Capitão é um dos funcionários da empresa-cliente. Pela posição do carro, ele deveria morar na mesma rua onde estávamos. Ele poderia nos levar até Buraco City a tempo. Só faltava descobrir em qual daquelas casas ele morava…

12:48 – “Ô de casa!! Por favor, o Capitão mora aqui? Não? Tá bom, desculpe…”

Corridinha rápida até o portão do lado:

– Ô de casa!!

12:51 – E finalmente, numa casa cheia de crianças brincando no quintal, apareceu o Capitão. Explicamos o problema e ele rapidamente se prontificou a nos ajudar.

A esposa dele gritou lá da cozinha:

– Benhê, tem que levar os meninos na escola antes!

12:55 – Ficou assim: O Capitão foi dirigindo. No banco do passageiro estava eu, com uma pilha de mochilas coloridas no colo.

No banco de trás, Michael carregava outra pilha de mochilas. E do lado dele estavam esses anjinhos aí embaixo:

Sim, eu sei que foi imprudente deixar Michael Jackson perto de crianças, mas não tínhamos outra opção.

13:02 – Algumas centenas de metros depois (sim, Windturn City é muito pequena) e chegamos na escola. Uma rápida distribuição de mochilas e beijos na testa e a meninada já estava correndo pra sala de aula. Só faltava o Capitão nos levar até a rodoviária de Buraco City.

13:18 – Lá estávamos nós, com o coração na mão, entrando em Buraco City. Mas o Capitão resolveu fazer um caminho alternativo. Era para “tangenciar o centro da cidade” e chegar mais rápido, segundo ele.

Do lado de fora, as placas indicando a rodoviária iam ficando pra trás…

13:27 – Depois de vários “tangenciamentos” a rodoviária, finalmente, apareceu. Mas teríamos que ser rápidos.

Enquanto eu pensava nisso, o Capitão entrou no estacionamento da rodoviária e parou o carro… a uns 100 metros do ônibus.

– Não, Capitão!! Pare mais perto, senão a gente não consegue carregar todas as malas e chegar a tempo!
– Ah, sim! Pode deixar…

Aí o Capitão deu partida e começou a dar meia-volta, pra pegar a rua novamente…

– Não, Capitão!! Vai por dentro do estacionamento mesmo!!

13:31 – Deu tempo. Eu e Michael conseguimos embarcar.

O vôo de Guarulhos sairia às 16:30, mas ele não era mais uma opção. Nesse horário nosso ônibus deveria estar chegando no Terminal Rodoviário Tietê, dentro de São Paulo. De lá, teríamos que ir até o Aeroporto de Congonhas e procurar algum outro vôo para Belo Horizonte.

16:22 – Chegamos na rodoviária e fomos direto para o táxi. Michael perguntou ao taxista:

– Quanto tempo pra chegarmos em Congonhas?
– Uns vinte minutos, se o trânsito estiver bom.

É claro que eu não acreditei. A minha estimativa era passar uma hora, no mínimo, enfiado nos engarrafamentos paulistas. Mas Michael estava esperançoso:

– Cara! Acho que vai dar tempo de entrarmos naquele vôo da Pampulha!

“Aquele vôo da Pampulha” é o famoso e desejado TAM das 17:57, que tem este apelido porque pousa no Aeroporto da Pampulha. Pra quem não sabe, vôos para a Pampulha são raridade: a maioria deles pousa em Confins. A imagem abaixo mostra o quanto isto faz diferença…

16:37 – Eu mal podia acreditar: o tráfego estava fluindo tão bem que já estávamos pertinho do Ibirapuera, a uns 2 ou 3 quilômetros do aeroporto. Aí eu me animei: liguei para a secretária da empresa-cliente e pedi pra ela mudar nosso bilhete para “aquele vôo da Pampulha”.

16:39 – O trânsito inteiro parou.

17:02 – Depois de passar os últimos vinte minutos andando a 10km/h, avistamos o aeroporto. O nosso tão sonhado vôo provavelmente encerraria o check-in às 17:10.

Era hora de medidas extremas.

– Michael, vamos ter que descer aqui e atravessar aquela passarela a pé. Vai ser mais rápido do que fazer o retorno e entrar com o táxi no aeroporto.

Por alguma estranha razão, todo mundo estava motivado a conseguir. Até o taxista entrou no clima de desespero:

– Faz sinal de braço aí que eu vou encostar então, vamulá!!

17:04 – O táxi encostou a alguns metros da passarela. Olhei o taxímetro: 36 reais. Catei rapidamente o dinheiro da carteira, joguei em cima do painel e fui descendo para pegar a mala.

O taxista se assustou:

– Peraí que a tarifa aumentou, deixa eu ver a tabelinh…

Joguei mais cinco reais e saí correndo. Desci do carro, fui até o porta-malas, catei minha mala, virei para o lado para chamar o Michael e… ele estava abraçado com uma mulher.

Eu juro por Deus que não era ilusão. O vôo iria fechar em cinco minutos e Michael Jackson estava abraçado com uma desconhecida no meio da rua.

Depois do abraço a mulher olhou bem para o Michael e disse:

– Uhh… desculpe, te confundi com outra pessoa…

17:06 – Eu e Michael largamos a mulher e começamos a subir as escadas da passarela… correndo e segurando as malas sobre as cabeças.

Já que eu sou o chefe da equipe, tomei a iniciativa de gritar algumas palavras de motivação:

– Vambora Michael! Faz valer essa academia que você frequenta todo dia! CORRE!!

Acontece que, graças à visita do Bush, a passarela estava cheia de militares armados. Um deles se assustou e já ia levantando o fuzil pra atirar em nós. Felizmente ele percebeu a tempo que não éramos terroristas malucos.

17:08 – Finalmente chegamos ao saguão do aeroporto, ainda correndo. As minhas costas estavam suadas, a mochila ia saltitando e se esfregando no suor, e as rodinhas da mala giravam loucamente pelo chão, eventualmente acertando um ou outro pé desavisado pelo caminho. E eu ia pensando: “odeio chegar em cima da hora… odeio chegar em cima da hora… odeio…”

Pulei no primeiro guichê da TAM que estava vazio e perguntei, ofegante:

– O vôo da Pampulha já fechou??
– Não, senhor…

Respirei aliviado. A mocinha continuou a resposta, num tom sarcástico:

– Os vôos estão todos atrasados mesmo…

Nestas horas Murphy e suas leis sempre se fazem presentes. Naquele momento valia aquela que diz: “O atraso do seu vôo é diretamente proporcional ao esforço que você faz para chegar no horário”. A mocinha fez nossos check-ins e fomos embora, suados, cansados, mas embarcados. Então Michael disse:

– Acho que você nem notou né?
– O quê?
– Você furou a fila de deficiente físico pra fazer o check-in…

19:40 – Depois de fazer um lanche, trabalhar um pouco, conversar fiado, ver o Lima Duarte e a Feiticeira, o embarque do nosso vôo finalmente começou. Decolamos lá pelas 20h e às 21h eu, finalmente, pousei em Belo Horizonte…

Rápidas

Começou o “Windturn City Countdown” – 6 dias para o término do projeto.

Eu precisei me lembrar bastante disso para conseguir suportar a noite de ontem: botaram a gente num quarto da hospedaria que fica exatamente em cima do boteco.

Devo acrescentar que o boteco, em meio à barulhada usual, toca como música ambiente um DVD do Roupa Nova. No repeat. Todo dia. E de madrugada tinha algum bêbado tocando New york, new york no piano do bar.

Sim, tem um piano no bar de Windturn City, mas no meu quarto não tem sequer um telefone. Ou um ventilador…

Baralhinho do momento. Bela sacada.

Momentos

Momento “ugh”: Ontem no almoço serviram “dobradinha” no bandeijão de Windturn City…

Momento LOL: O motorista que me trouxe ao aeroporto é chegado numa música sertaneja. Aí, na estrada, em um certo momento, uma voz feminina no rádio cantou assim:

“Meu amor… eu te amo mas a três não rola não…”

Momento l33t: Plena sexta feira, quatro da tarde, e eu estou jogando Doom 3 na sala VIP da Tam do Aeroporto de Guarulhos…

Êêê, meu amigo Murphy…

Lembram que outro dia eu postei uma foto do quarto onde eu estava dormindo aqui em Windturn City? Aquele, que ficava nos fundos da cozinha, que por sua vez ficava nos fundos do restaurante, que ficava nos fundos da pousada?

Pois é. Acontece que do lado deste quarto tem uma escada, que desce até ainda mais pro fundo, num depósito de entulho e coisas velhas. Lá também tem um quarto… adivinha onde eu dormi ontem?

Eu bem que podia ter tirado uma foto com o celular, pra mostrar o quão no fundo fica este quarto. Acontece que meu celular deu um defeitinho. Coisa simples, foi só uma tecla que parou de funcionar: a de ligar/desligar…

Quando a tecla bichou de vez o celular ainda estava ligado. Fiquei tranquilo: “É só não deixar a bateria descarregar totalmente que eu ainda consigo usar o aparelho”, pensei.

Instantes depois ele tocou. Assim que eu abri o telefone para atender, ele travou e apagou…

O celular já estava meio bichado mesmo. Além destas travadas, que começaram a ficar bem frequentes, um dia desses o relógio dele atrasou 1:30h sozinho e quase me fez perder a hora. Isso fora a bateria, que durava no máximo dois dias. Pelo visto não foi atoa que a divisão de celulares da Siemens acabou vendida para a Benq…

Já o trabalho vai bem. E a minha saga de Windturn City está quase no fim, já que o contrato encerra daqui a três semanas.

O problema é que fizemos um serviço tão bom que o cliente quer que fiquemos com ele por mais alguns meses. Tento não pensar muito que isto significa a continuação da minha rotina de ônibus, cama de pensão e comida de bandeijão, e até consigo ficar meio feliz.

Para minha surpresa, ao sair do trabalho, notei que há um novo trêiler de sanduíches na praça central daqui de Windturn City. Isto significa um crescimento de 20% no mercado de lanches da cidade, mas também levanta preocupações: afinal, com três trêileres de sanduíche, o mercado Windturncityense já estava mais do que saturado…

The Windturn City meeting saga

Parte um: A viagem

Terça-feira. Era dia de eu me enfiar num ônibus para fazer uma reunião importantíssima em Windturn City.

O ônibus saía às seis da tarde. Eu cheguei na rodoviária faltando cinco minutos para as seis.

Quatro minutos para as seis e eu ainda estava correndo, arrastando a mala e com mochila nas costas, para atravessar a plataforma da rodoviária, chegar até o guichê e comprar uma passagem. No meio do caminho eu passei pelo ônibus, de motor ligado, e com o motorista já se preparando pra sair. Medo.

Três minutos para as seis e eu estava furando a fila do guichê para comprar as passagens. Gritei pro balconista:

– Pelo amor de Deus, me vende uma passagem pro ônibus das seis!
– Compra direto com o motorista lá embaixo que é mais rápido – disse o balconista.

Beleza. Basicamente, eu corri até o guichê sem necessidade, gastando preciosos segundos.

Dois minutos para as seis e eu estava no portãozinho do início da rampa que ziguezagueia até o andar de baixo, aonde estava o meu ônibus. No portãozinho tinha uma roleta e um funcionário:

– A passagem, por favor.
– Eu vou comprar com o motorista, abre pra mim!
– Não, precisa ter a passagem…
– Mas eu vou comprar com o motorista!! Abre peloamordedeus, o ônibus tá saindo!!
– Não, tem que ir ali no guichê.
– Mas eu ACABEI de vir do guichê!
– Não, aquele guichê ali…

E apontou para um outro guichê de acesso à rampa que leva aos ônibus. Eu não entendi direito por causa da pressa, mas acho que era um guichê onde gente sem passagem – acompanhantes de passageiros – pagam uma taxa pra poder descer até a plataforma de embarque.

Faltava só um minuto para as seis. Tinha um velhinho na fila do guichê. Eu pulei NA FRENTE DELE e gritei pra atendente:

– Quanto é??
– R$ 1,25…

Enquanto eu pegava o dinheiro da carteira, o velhinho disse um “dá licença” meio azedo e passou na minha frente. Joguei uma nota de R$ 2 dentro do guichê e passei voando pela roleta.

Já eram seis horas quando comecei a descer a rampa. Olhei pra baixo e vi o motorista fechando a porta do ônibus. Era hora de medidas extremas. Abri mão do resto de dignidade que ainda tinha e comecei a assobiar e gritar para chamar a atenção do motorista. A parte do “chamar a atenção” funcionou, porque todo o resto das pessoas na rodoviária percebeu, deu uns gritinhos de “aee atrasado!” e tal. Mas o motorista não estava nem aí e começou a arrancar com o ônibus.

Depois de ziguezaguear a rampa toda eu finalmente consegui pular na frente do ônibus e acenar pro motorista. Só então ele abriu a porta e eu, felizmente, embarquei.

Era o ponto de partida daquela que seria a pior viagem de ônibus da minha carreira de consultoria.

Fisicamente a minha situação não era boa: eu estava saindo de uma intoxicação alimentar maluca, com diarréia, cólicas, febre de 39 graus e tudo. Pra dar uma idéia da gravidade da coisa basta mencionar duas coisas:

1) Eu passei a madrugada do sábado na enfermaria do hospital, tomando remédio na veia, e…
2) Durante a febre, meu cérebro começou a dar pau e eu cantarolava sem parar um trecho de uma música da Wanessa Camargo:

“Vou me arrepender de-poix
Mas eu não resisto a nóix doix… ooooh nããão…”

Na segunda eu já estava bem melhor, mas a tensão dos últimos dois dias (e todo meu tempo de bunda-na-cadeira) acabou virando uma dor horrível nas minhas costas. Imagine o que é ficar num ônibus, por quatro horas, com as costas doendo a cada sacolejada do balaio. Mesmo depois de chegar no hotel, mesmo deitado e imóvel, as costas continuavam doendo. Comecei a ter febre novamente. Era hora de medidas extremas.

Então rezei pra que a dor passasse. A prece funcionou. Recebi uma iluminação divina que me disse assim:

“Seu burro, lembra que tem uns comprimidos de Novalgina na sua mochila?”

Tomei um deles. Por volta de uma da manhã a dor DESAPARECEU. Foi uma delícia, foi como um orgasmo ao contrário.

Parte dois: A reunião

Às seis da manhã meu celular tocou Tommib, música do Squarepusher que está na trilha sonora do filme Encontros e Desencontros. É o toque que uso como despertador. Eu me senti um pouco Bob Harris mesmo, perdido num lugar estranho e sofrendo de jet bus lag.

Passamos a manhã toda nos preparando para a bendita reunião. Às duas da tarde, nosso consultor-líder subiu no palco e começou a apresentar o PowerPoint que me ocupou durante as últimas madrugadas.

Era o ponto de partida daquela que seria a reunião mais bizarra da minha carreira de consultoria.

A primeira bizarrice começou no slide número sete, que mostrava a previsão de gastos com os projetos para o ano de 2007. O presidente da empresa se levantou da cadeira e gritou:

– Eu NÃO CONCORDO com esses números!!

Todo mundo gelou, especialmente eu, que passei os últimos dias debruçado exatamente em cima daqueles números.

– Nós já enfiamos num-sei-quantos milhões nestes projetos no ano passado e vocês ainda dizem que precisam de mais?!?!?

Aí eu respirei aliviado. Na verdade ele não entendeu que os projetos atrasaram e que o dinheiro mostrado ali era pra concluir o planejamento de 2006. O vice-presidente tentou acalmá-lo e explicar o mal entendido, mas não adiantou. Ele estava furioso. A saliva se acumulava nos cantos da boca enquanto ele vociferava. Até que num determinado momento ele disse:

– Sabe por que isso está assim? Porque essa empresa não tem dono!!

Sim, é isso mesmo. O dono da empresa reclamando que a empresa não tinha dono. Ele reclamou mais algumas coisas e, para espanto geral, saiu da reunião e não voltou mais. Acho que este foi o momento mais “what the fuck” da minha carreira.

Aí o consultor-líder foi embora (tinha um vôo pra pegar) e o resto da reunião foi conduzida por mim. As minhas costas estavam doendo de novo, o pessoal questionava os números, todo mundo falava ao mesmo tempo. Foi um pandemônio. E no meio do caos Michael Jackson ainda me interrompia para fazer perguntas altamente significativas, do tipo: “quer que desligue o datashow?”…

No final o vice-presidente foi dizer algumas palavras e acabou dando uma palestra de 30 minutos. Foi assim:

Começou pedindo a todo mundo que tivesse “calma”
Contou que a mulher dele reclamou que ele anda dizendo muito palavrão. “É a minha válvula de escape para o stress”, disse ele.
Fez um ranking detalhado dos diretores mais “explosivos” da empresa: “Primeiro vem o fulano, sem dúvida. Esse é hours concours. Depois o ciclano”…
Comentou que estava louco pra ir fazer a caminhada noturna de sempre com o presidente, pra ouvir ele desabafar e tal.
Gastou alguns clichês motivacionais, dizendo coisas do tipo “vamos ganhar essa guerra”.
Encerrou dizendo: “Muita paz e muita felicidade para todos vocês!”

Foi uma coisa surreal. Mitológica, até. Mas não deu tempo de aproveitar o pós-reunião porque eu tinha que pegar um ônibus na cidade vizinha e voltar pro Rio. Tomei outra novalgina, entrei no táxi e tive outro orgasmo invertido enquanto a dor nas costas passava com o efeito do remédio.

O ônibus ia parar num daqueles postos de gasolina metidos a besta, com restaurantes, lojinhas e tal. Tudo que eu precisava fazer era comprar uma passagem e esquecer o sofrimento dos últimos dias. Aí fui até o guichê, abri minha carteira… e não tinha NENHUM REAL dentro dela.

– Moça… me diz que você aceita cheque, por favor…
– Não – respondeu ela, rindo.
– Então, por favor, me diz que tem um caixa eletrônico aqui perto…
– Tem um ali atrás…

Era um do Banco 24 Horas. Meti meu cartão nele e pensei: “só falta não estar funcionando”. Adivinha…

Felizmente, o gerente do restaurante foi extremamente legal comigo, passou R$ 50 no meu cartão de crédito e me deu o dinheiro. Comprei a passagem, entrei no ônibus e tive uma grata surpresa: ele era bem espaçoso, tinha cobertores, travesseiros e uma TV que passava filmes durante a viagem. Pensei que, finalmente, meu sofrimento havia acabado.

Aí o filme começou. Era Batman e Robin… dublado!

Uma noite inesquecível em Windturn City


Rodoviária do Rio: O quadro de horários, inalterado desde 1940 (esq.) e uma mulher jogando paciência “analógica” pra passar o tempo (dir.)

Quatro horas de ônibus depois e eu finalmente cheguei em Windturn City, para dormir na hospedaria da fábrica. Michael Jackson, meu fiel trainee, estava de pijaminha, sentado na beirada da cama, digitando freneticamente no seu notebook. Estava fazendo um resumo de um livro de trabalho, para estudar. Sugestão do chefe dele – no caso, eu. Bom garoto…

Normalmente eu não reclamo da falta de conforto aqui em Windturn City, mas a coisa está ficando abaixo da crítica. Ontem, Michael só conseguiu toalhas pra gente tomar banho porque outros hóspedes pularam a janela da sala da governança e pegaram algumas. E a roupa de cama que estão nos dando é áspera feito uma lixa.

Além disso fazia um calor infernal, o ventilador do quarto parecia a turbina de um Boeing, e pra completar eu tive uma crise horrenda de insônia e fiquei horas rolando em cima do lençol-lixa. E pra piorar comecei a sentir umas coceiras estranhas pelo corpo. “Pronto, só falta ter pulga nesse colchão velho”, pensei.

Às três da manhã eu, finalmente, peguei no sono. Quatro horas depois o celular de Michael me acordou ao som do tema de Star Wars. Ao levantar, descobri a razão da minha coceira noturna: tinham formigas mortas no meu lençol. “Ah, era isso”, pensei. “Mas de onde vieram essas formig…”

O pensamento ficou suspenso quando olhei para a cama extra ao lado da minha, que estava coberta por CENTENAS de formigas. E pra piorar, o destino delas era uma sobra de doces que comprei na viagem e deixei no bolso da minha mochila.


Tive que tirar uma foto.
Porque senão nem eu acreditaria.

As formigas desciam pela janela (aberta por causa do calor), atravessavam o quarto inteiro e se esbaldavam por cima da cama. Eu entrei em pânico quando imaginei aqueles pontinhos pretos, condutores de eletricidade, entrando pelo buraco de ventilação do meu notebook, se escondendo no conector do cabo do meu iPod…

Alguns minutos de “mata-mata” depois e a situação ficou sob controle. Eu ainda não voltei para a hospedaria e não sei como ficou a situação do quarto, mas a idéia de milhões de formigas se esfregando em mim durante a noite passou o dia todo pelo meu cérebro lesado de pouco sono…

Windturn City – O Filme

Na hospedaria de Windturn City a gente não tem telefone no quarto. Como fica muito caro ligar o tempo todo via celular, eu tenho usado os telefones públicos da cidade (quando eles estão funcionando, é claro).

Ontem a coisa foi feia e eu tive que andar meio quilômetro – ou seja, ir a pé até o centro da cidade – para achar um telefone que funcionasse. E, na volta, ainda choveu…

Mas como eu estava de bom humor resolvi documentar o caminho com fotos do celular. Depois montei com elas esse ultra-curta-metragem aí embaixo, só pra mostrar o caminho para vocês, fiéis leitores, que adoram se deliciar com meus suplícios…