Agente Secreto

Na última meia hora alterei dezenas de posts antigos deste blog. Todos eles para que ninguém descubra onde eu trabalho, para quem eu trabalho, o que eu faço direito, entre outras coisas. Confidencialidade é isso aí.

Mal necessário, para que posts, como o abaixo, não dêem dor de cabeça depois.

Reflexões

Hoje eu cheguei a conclusões muito interessantes sobre meu trabalho.

1) Eu sou um camponês, um pior, devido ao meu ranking de pobre trainee. Na verdade eu serei para sempre um pior enquanto não me tornar um senior e estiver conduzindo um projeto.

2) Quando meu chefe me paga um almoço num lugar chique, ele está, na verdade, é fazendo uma caridade.

3) O que vai me destacar no meu trabalho é a maneira pela qual eu faço meu chefe se destacar.

4) No meu ramo, competência é commodity. Todo mundo é competente, então isso é o que menos conta para me definir como um profissional bom ou ruim. Vide reflexão número 3.

5) Um curso de graduação em computação é a pior coisa que você pode ter. Serve apenas como um imã que atrai tarefas horríveis, como fazer sites, matar vírus, programar sistemas inteiros no Excel, além de fazer com que você seja a primeira pessoa que todo mundo da equipe chama quando seus computadores dão problema.

6) O “modo social” está always active em todos os momentos, seja com o cliente, seja com os seus colegas da equipe. Isso faz com que seus colegas pareçam claramente estar sendo falsos quando eles estão sendo falsos.

Luz, câmera, ações

Tem um colega de sala que botou R$ 1000 num fundo de ações. Agora a gente tem que aguentar ele e seu novo brinquedinho.

Ontem ele perdeu R$ 6 e ficou a manhã toda falando nisso. “Putz cara, já tou perdendo dinheiro, é meu primeiro dia de investimento e já me dei mal, ai meu Deus vou botar o dinheiro na poupança”. Imbecil que sou, tentei explicar pra ele:

– Cara, investimento em ações é de longo prazo, cê não pode olhar apenas um dia e achar que tá tudo horrível
– Pois é, mas, cara, eu perdi seis reais!!

Aí hoje, com a mudança (mais do que normal, no curto prazo) da bolsa, ele recuperou os R$ 6 e ganhou mais R$ 20. E começou a matracar:

– Que doido cara!! Recuperei meus seis reais e inda ganhei mais vinte! Que legal cara! Woo! Yay! Olha, o Ibovespa subiu 4%! Doido! Putz, eu vou viciar nisso! Nossa, foi a 23 mil pontos…

Tosco Primo

Sexta-feira passada eu levei Bethania na aula de inglês e acabei condenado a ficar uma hora atoa.

Como o inglês dela é na Savassi, acabei parando o carro em frente ao famoso Tosco Burger. Eu estava atoa mesmo, resolvi fazer uma boquinha.

Se você, leitor, não é de Belo Horizonte, saiba que o lugar realmente chama-se Tosco Burguer, e que realmente vende um sanduíche chamado Tosco. A hierarquia dos sanduíches “tosco” vai de 1 a 6. O Tosco 1 tem 13 ingredientes, e a coisa só vai piorando até o Tosco 6, que tem nada mais nada menos que seis carnes de hambúrguer e QUARENTA ingredientes diferentes.

Já que estava lá, pedi um “Tosco 1”, afinal, como é que se vai no Tosco Burger e não se come um Tosco?

Enquanto esperava, fiquei vendo os cartazes na parede, que citavam os ingredientes dos sanduíches e descreviam os “Desafios Tosco”. São vários. Por exemplo, o Desafio Tosco 1 é o seguinte: você tem duas horas pra comer três Tosco 1. Se conseguir, você não paga e ganha R$ 20 de crédito. O pior dos desafios é o Desafio Tosco 5: coma dois Tosco 5 (composto por 36 ingredientes e cinco carnes de hambúrguer), dois refris e uma taça de sorvete. Saindo vivo, você ganha R$ 35 de crédito, R$ 35 em dinheiro e não paga. Ah, e tem seu nome escrito no cartaz dos campeões tosco.

O supercampeão tosco é um rapaz, um Elder alguma-coisa. Sabe aqueles mórmons? É um deles. Ele venceu o Desafio Tosco 5 por SEIS vezes e foi banido do Tosco Burger, não pode desafiar de novo. Depois deste momento cultural, meu sanduíche chegou. Deitado, num prato. A altura dele era exatamente a largura do prato: uns 25 centímetros. Eu tive medo.

Trinta longos minutos depois, eu terminei de comer. Fiquei até feliz com a minha coragem. Meu estômago já não gostou muito.

O Primo recomenda: Encontros e Desencontros

Primeiro eu preciso falar duas coisas: A coisa um é que eu vou me referir a este filme pelo seu nome original, Lost in Translation (ou, abreviando, LIT), já que o “encontros e desencontros” é uma tradução horrééével. A coisa dois é a história pré-filme:

É fato que eu ando estressado com trabalho. Aí neste fim de semana eu estava parecido com uma mulher de TPM. Primeiramente, eu sugeri pra Bethania que fôssemos assistir Simplesmente Amor. Com Rodrigo Santoro e tudo. Felizmente, Deus não me permitiu este nonsense e, quando chegamos ao cinema, o filme já havia saído de cartaz.

Aí fomos ver as outras opções e paramos em frente a um cartaz de Mestre dos Mares. Eu parecia uma criança pequena no cinema e fiquei gritando “aeee vamos ver vamos ver vamos ver!”. Depois de todos concordarem, assim que entramos na fila pro ingresso, demos de cara com o cartaz do LIT.

– Ahhh não, vamos ver o LIT!
– Não, vamo ver o Mestre dos Mares mesmo!
– Não, mudei de idéia! Vamo no LIT!
– Tá. Par ou impar?

Eu pedi ímpar. Ela botou 2, eu botei 5. E lá fomos nós pro cinema. Lá dentro eu fiquei dando mais chiliques, por causa do Mar sem Fim, livro do Amyr Klink que comprei pra Bethania e que ela não queria me deixar ver, porque o 100 dias entre céu e mar, livro do Klink que ela ganhou, eu acabei lendo primeiro que ela e ela cismou de ter ciúme dos livros que eu leio antes dela. Aí ficamos os dois, no cinema, cutucando um ao outro pra pegar o livro:

– Dexover!
– Não!
– Por quê?
– Porque não!
– Uhh… dexover!

Como podem ver, minha situação é deplorável. Agora, falemos do filme.

Lost in Translation é o filme novo de Sofia Coppola. Dela, eu só tinha visto As Virgens Suicidas, filme que assisti porque viciei na trilha sonora (composta pelo Air) antes mesmo de ver o filme. As Virgens é um filme legal, intimista, discreto até. Como eu costumo dizer, dos filmes bons ele é um dos piorzinhos, mas é melhor do que a esmagadora maioria das coisas que estão no cinema e nas locadoras. Aí veio o LIT.

Pontos para a diretora, porque está definindo que tem um estilo todo próprio de fazer filmes. Um estilo bem “mulherzinha”, onde os detalhes é que contam a história. Outro destaque é para a fotografia; claro que, por se passar no Japão, o filme já estava com a fotografia mais ou menos garantida de ser boa, mas o olho bom da diretora soube usar paisagens que por si só já são lindas para destacar detalhes da história. Quando Charlotte fica sentada na janela do quarto do hotel, sem fazer nada, a paisagem urbana que se vê pela janela é de cair o queixo. Mas ao mesmo tempo é um mar de pedra e de solidão.

Charlotte e Bob passam o filme inteiro no meio de milhões de pessoas e… sozinhos. E este é o mote do filme: lentidão e solidão. O jet lag sofrido pelos personagens principais estende-se por amargos dias, onde o sono é difícil e tudo é estranho. E a estranheza oriental é a parte engraçada do filme, que pelo que li pela Internet andou até sendo confundida com racismo.

A trilha sonora é… putz, é fodassa! Exatamente como nas Virgens Suicidas. Talvez isso até cause a impressão errônea de que a fotografia e a trilha servem para apaziguar um enredo ruim, mas, putz, o roteiro do filme é excelente! E o Lost in Translation é isso, um filme, sobre todos os ângulos, excelente.

Até me surpreendi de vê-lo em cartaz num shopping. Minha irmã e o namorado foram ao cinema comigo, acharam o filme “lento”. Bethania achou que tinha pouca história pra muito filme. Eu achei que tudo estava na medida certa. E recomendo.

Destaques do filme:

– O toque do celular de Bob. Parece música do Castlevania…
– O karaokê, com o japa cantando God save the Queen dos Sex Pistols. Eu caí na gargalhada no cinema. Só eu. E não sei como o Lúcio Ribeiro menciona essa cena e não fala do God save the Queen!
– Charlotte passeando no fliperama japonês. Um dos jogos tem uns oito botões grandes, redondos, e um japa de camisa branca “tocando piano” neles, no ritmo da música. É o mesmo jogo deste vídeo.
– O “Johnny Carson” japonês, que estava mais pra Leão Lobo sob efeito de Ecstasy.
– A cena inicial do filme. A primeiríssima mesmo, aquela onde aparece o título. O cinema inteiro ria, sem entender.
– A reação do cinema quando o filme acabou: “Hah! Queisso!”, “Pelamordedeus…”, “Filme horrível”. Durante o filme eu ouvia gente bocejando alto de propósito.
– O Monte Fuji.
– A entrevista da loira-burra no salão de convenções do hotel, falando de reencarnação e de como Keanu Reeves morre e renasce no filme dela. Referência ao Matrix?

Opinião

Eu devia ir dormir mas não quero. Então vou fazer uma parcial das minhas opiniões sobre a lista dos discos preferidos de 2003 do Blog Preto

1) The Coral – Magic and Medicine

É bom lembrar que eu detesto a maioria das bandas nascidas perto dos anos 60. Rolling Stones, Beatles, The Doors, tudo pra mim é lixo. Aí outro dia um amigo me pegou ouvindo Belle and Sebastian e exclamou:

– Você gosta disso e não gosta de Beatles? Cara, eu não te entendo.

Aí eu peguei o CD do The Coral e nem eu me entendi. Parecia que o disco havia sido gravado há 40 anos atrás. Órgãos velhos, guitarras folk-quase-country, letras num inglês rebuscado, e dum romantismo lambrecante, quase mexicano, e quase nenhum reverb pra cobrir os vazios dos poucos instrumentos. E eu adorei.

Don’t Think You Are The First é, numa palavra, foda. Secret Kiss, então, é noir e foda ao mesmo tempo.

2) The Raveonettes – The Chain Gang of Love

“Banda de duas pessoas”, estilo White Stripes – foi a primeira coisa que percebi. Só que a guitarra tem um pouquinho mais MUITO MAIS distorção.

Mas os Raveonettes tem um problema: todas, eu disse TODAS as músicas são tocadas exatamente no mesmo tom. Aí a chiadeira, no mesmo tom, com os mesmos trejeitos, e o mesmo estilo vocal durante o disco todo, não deu pra aguentar.

3) The Strokes – Room on Fire

Essa foi interessante: o primeiro disco dos Strokes que eu ouvi foi esse. Eu NUNCA ouvi o primeiro disco, exceto pela já gasta Last Nite, que infectou os rádios, a MTV e tudo o mais.

E minha opinião sobre Last Nite era que era uma música absolutamente normal. Eu não entendia o frenesi de todo mundo por cima dos Strokes.

Aí peguei o Room on Fire, ouvi uma, duas vezes… e aí eu finalmente percebi. Os Strokes são legais. E não são legais por causa disso ou daquilo, são legais simplesmente porque são.

Reptilia tem o mini-solo de guitarra mais legal do ano. Aí vem o baixo e deixa o mini-solo ainda mais legal… Under Control me deixa perplexo, por ser tão bem executada. E durante o dia, eu às vezes me pego no corredor do trabalho, apressado, cantarolando You Talk Way Too Much:

Gimme some time, I just need a little time! Gimme some time, I just need a little time!

4) Elefant – Sunlight Makes Me Paranoid

Esse disco eu havia ouvido bem antes de ver a lista do Blog Preto. E foi por causa dele que eu me animei a caçar os discos da lista do Blog Preto.

A razão é bem óbvia. Elefant é muito, mas muito foda. Quando ouvi Make Up, a primeira música do disco, eu levei um tapa na cara quando vi a letra mais legal dos últimos tempos se desenhando, entremeada pelo baixo mais legal dos últimos tempos.

You finally took your make-up off… I like your eyes…
You finally took your lipstick off… I like your smile…

Só pra gastar uma frase beeem piegas, Sunlight Makes Me Paranoid é um disco de amor. As letras são letras de amor. E, pra usar outra palavra piegas, as letras são “poderosas”! Tipo este trecho, da segunda música mais legal do disco, chamada Tonight Let’s Dance:

So I walk up to her / Grab her arm, to show the world
Tonight… we’ll dance… like we’re in love

Eu perdi a conta do número de vezes em que dirigi com a música no talo, enquanto cantava, sem dar a mínima pra se alguém estava vendo ou rindo do meu showzinho particular.

Por enquanto foram estes os discos que ouvi. Mas na fila tem o Elvis Costello, o Ted Leo and the Pharmacists e o Therapy?, já baixados, só esperando que o primo tenha algum tempo para ouví-los minuciosamente.

Aonde você está indo?

A música do Godspeed You Black Emperor é parecida com a trilha sonora de um mundo que não se enxerga, mas que está oculto em todas as coisas.

Outro dia eu estava dirigindo, voltando do trabalho. Exatamente o mesmo trajeto. Mas com o som ligado, bem alto, eu tive medo. As guitarras e os violinos urravam e pareciam que estavam prestes a romper algo na minha cabeça, a despertar uma realidade alternativa por trás de tudo o que eu enxergava na rua. Era como se a verdade estava prestes a pular na minha cara. E este “quase” me assustava.

Aí, numa noite dessas, eu estava no terraço do apartamento, olhava pra rua vazia enquanto Providence, do disco F#A# Infinity, ia suave nos fones de ouvido.

Passavam duas ou três pessoas na rua. A música entrou num momento espacial, e uma voz meio lírica, cantava repetindo:

Where are you going?… where are you going?…

P.s.: Providence também é o nome de uma das músicas mais lindas do Sonic Youth. Ela é curta, composta apenas de um piano mal gravado e de uma mensagem de secretária eletrônica, onde Watt liga para Thurston para dizer a ele que não encontrou a sacola e para perguntar se ele tinha jogado-a fora por acidente.

P.p.s.: Eu sou um cara muito estranho.