A Lua-de-mel do Primo

Parte 2 de 3: ¡Hola Chile!


Vista panorâmica de Santiago, com direito a cordilheira (e nuvem de poluição “a la” São Paulo)

A viagem da Argentina pro Chile vai tornar mais sofridos os meus vôos pela Gol… porque voamos num Boeing 777 da Air France. Nunca comi tão bem em um avião… e depois do rango eu ainda tinha cinco filmes à disposição para assistir na telinha LCD individual do meu assento. Ou, se quisesse, tinha à disposição tapa-olhos, tampões de ouvido, cobertor e travesseiro pra tirar uma soneca.

Mas acabamos não fazendo nada disso direito porque, logo ali, nas janelinhas, estava a magnífica Cordilheira dos Andes…


A gente empolgou tanto com a cordilheira que tiramos DEZENOVE fotos iguaizinhas a essa, sem perceber.

As operadoras de turismo locais estavam há muito tempo sem aprontar alguma conosco, então, na chegada no hotel, o guia fez o favor de quebrar o pé da nossa mala de viagem. Eu já tinha até contado isso, mas não contei que, no dia seguinte, a gente encontrou o guia passando por acaso na rua. Obviamente, perguntamos da mala, e ele disse:

– Bem, eu não posso fazer nada… mas vou mandar um vinho pra vocês no hotel.

Eu tive que rir na cara dele. Por um acaso eu ia calçar o pé da mala com a garrafa de vinho?

Resultado: Bethania ligou pra agência e conseguiu falar com o Gerente de Operações. Só então tivemos um atendimento decente: o cara mandou consertar a mala, e até arranjou transfers privativos pra gente poder ir pro Valle Nevado sem (muito) atraso.


A vista da janela do hotel: melhorou!

Bethania era quem mais estava empolgada com Santiago, tanto que alguns meses antes comprou um guia de viagem com o infame título de “Os Caminhos de Santiago do Chile“. No nosso primeiro dia de viagem resolvemos almoçar num restaurante legal indicado no livro, que não era muito longe do hotel. Aí saímos a pé e andamos (famintos) por quase uma hora. No local aonde deveria estar o restaurante, estava um antigo estúdio de tevê (?!) que hoje funcionava como uma igreja evangélica (?!?!?). Não fosse o porteiro da igreja, que nos indicou um outro restaurante bom – e próximo, estaríamos fritos.

Ainda assim a esperança venceu a experiência e, na noite seguinte, tentamos seguir outra indicação do livro: o restaurante “La Divina Comida”. Segundo o guia, o restaurante ficava no “point” mais agitado de Santiago, com zilhões de restaurantes e bares. Ele teria pratos italianos e era dividido em três ambientes: céu, inferno e purgatório.

Pois é… mal saímos do metrô e já caímos direto no inferno: não tinha nada de “point agitado”, era uma região muito esquisita e as ruas estavam completamente desertas. Era aquele típico cenário de filme aonde as pessoas entram dizendo “eu sei um atalho!” e terminam assaltadas ou mortas.

– Acho melhor a gente sair daqui rápido e entrar num táxi… – sugeri.

Aí, quando olhei em volta, a Ju já estava adiante de nós, andando em ritmo acelerado no melhor estilo “marcha atlética”, e deixando o próprio marido pra trás:

– Como assim, Ju?! Vai deixar o André aqui pra morrer sozinho? E aquele papo de “na saúde e na doença”?
– Ué, alguém tem que sobreviver pra pedir socorro! – Disse ela…

O guia de viagem furado de Bethania e a “marcha atlética” da Ju entraram pro rol de piadas oficiais da viagem…

O city tour de Santiago durou apenas meio dia, mas deu pra ver o básico das atrações da cidade, como a famosa troca da guarda na Praça das Armas, que acontece de dois em dois dias.


A bandinha toca, entra um pelotão, sai um pelotão. Mas é legal!

No pacote também estava incluído uma visita à famosa vinícola Concha y Toro, com degustação de vinhos e tudo o mais. A visita incluiu uma descida na famosa adega (“bodega” para os chilenos) onde é produzido o Casillero del Diablo, que tem esse nome porque, como os criados da fazenda viviam roubando garrafas de vinho, o dono inventou uma história de que o capeta costumava fazer aparições por lá.

Ficamos sabendo disso porque o guia nos levou até a adega, saiu, fechou a porta e apagou a luz… e aí, de repente, algo incrivelmente sobrenatural aconteceu: haviam alto-falantes que tocaram um breve áudio contando a história da adega, e no fim do corredor havia um refletor projetando a sombra do capeta. Coisa pra turista mesmo…


A antiga casa do Sr. Concha y Toro…


Detalhe das “bodegas” (esq.) e o terrível “diablo” que dá nome ao vinho (dir.)

No dia seguinte fomos conhecer duas famosas cidadezinhas costeiras chilenas: Valparaíso e Viña del Mar. Valparaíso pode ser descrita como “uma favelinha colorida”: casas de cores espalhafatosas, espalhadas por encostas de montanha, com elevadores que sobem os morros na diagonal e com uma bela vista para o porto e para o Oceano Pacífico.


Valparaíso é isso aí

Uma peculiaridade de Valparaíso é a quantidade de albergues (uns três por quarteirão). Outra são as pichações e grafitagens em geral, que são tão onipresentes que um dos vendedores de rua da cidade estava oferecendo ímãs de geladeira com fotos delas, que já viraram “marca registrada” do lugar.

Pela descrição, Valparaíso parece ser um muquifo. Mas o céu, o sol, o mar e as cores me deixaram fascinado com o lugar…


Casinhas coloridas, céu azul, sol quentinho (esq.)… e pichações (dir.)!

Viña del Mar é a “vizinha rica” de Valparaíso. É como se fosse a “Miami Beach” do Chile: praias bonitas, gente bonita, casas bonitas, luxo, glamour, etc. Foi lá que almoçamos, num restaurante de frutos do mar. O pessoal aproveitou e pediu uma “paella” que incluía umas coxas de frango (?!) no meio…


Viña del Mar beach, beirando o Oceano Pacífico. Valparaíso está lá no fundão da foto…

A comida no Chile não é muito diferente da Argentina, exceto por um detalhe: a palta. Apesar do nome, não são linhas num caderno nem itens pra discutir numa reunião, e sim “pasta de abacate”. Os chilenos botam palta em praticamente tudo: no Valle Nevado, por exemplo, eu comi um cachorro-quente com palta em vez de maionese. Bethania detestava a tal da palta; já eu, que tenho estômago de avestruz, comia tudo facinho…

O nosso aproveitamento culinário no Chile foi razoável, comemos em lugares bons e ruins. Um dos bons foi o “Giratório”, que fica no alto de um prédio e que realmente gira (devagarinho, claro) enquanto você come. Um bem ruim foi o “Galeão”, que fica no Mercado Central de Santiago. Ele já começou mal na hora que entramos no mercado: TODOS os garçons de TODOS os restaurantes pulavam na frente da gente gritando coisas como:

– Brasileños! Brasileños! Vengam comer aqui!
– Vieram de Brasil? Aqui, buena comida! Quierem mirar? Cardápio! Mira!

Eu não sei como é que ficou tão na cara que éramos brasileiros. Um dos garçons disse que é por causa das nossas esposas: segundo ele, as chilenas são feiosas, e estávamos muito bem acompanhados para sermos chilenos…

Eu nunca fui tão obsediado por garçons como naqueles trinta metros que andamos para atravessar o mercado. Aí, quando finalmente chegamos no restaurante que queríamos (o tal Galeão), a comida era ruim e cara. E a paella, além de frango, incluía linguiça!


“Giratório”, restaurante bom (esq.) e “Galeão”, restaurante ruim, com linguiça na paella (dir.)

Uma curiosidade: a maioria dos restaurantes incluía no cardápio o famoso “lomo a lo pobre”, que quer dizer, literalmente, “bife de pobre”. É um PF básico com carne, arroz, ovo e batata frita…

A nossa relação com a comida na Argentina e no Chile foi engraçada por causa da barreira linguística: no nosso primeiro almoço lá em Buenos Aires, a gente ficou meia hora tentando entender o menu, e o prato de Bethania ainda deu problema. Já no Chile a gente estava mais habilidoso: sabíamos que, por exemplo, “lechugas” eram “alfaces”, “choclo” era “milho”, “lomo” era “carne de boi”, “pollo” era “carne de frango”, “churrasco” era “hamburguer”, “zanahoria” era “cenoura”… só que a gente chamava cenoura de “anarriê” (como nas quadrilhas de festa junina), pra ficar fácil de decorar.

Nessas questões linguísticas, Bethania era nossa intérprete oficial, já que o portunhol do André e da Ju (e principalmente o meu) era terrível. Eu cometia gafes fabulosas nos restaurantes, como pedir pra incluir a “gorrheta” no “cartón”, quando o certo seria incluir a “propina” na “tarjeta”…


Dançarinos de cueca (hehehe)

Outra pegadinha linguística do Chile é a “cueca”. Se o guia turístico lhe chamar pra ver a cueca, não se assuste que ele não é gay: só está convidando você para um show da famosa dança típica chilena, que leva este mesmo nome. Cueca mesmo, de vestir, é “calzoncillo”…

A gente não podia sair do Chile sem, hã, “ver a cueca”, então no último dia de viagem fomos ao Bali Hai, que é um lugar tipo o Señor Tango (jantar + show), só que com cueca. Digo, com show de cueca. Quer dizer, com show da dança típica chamada Cueca (aff!) e várias outras danças regionais do Chile.

Uma delas foi a dos habitantes da Ilha de Páscoa, ou seja, gente vestida de índio fazendo ula-ulas e dando gritos no melhor estilo “homem primata”. E o pior: o show era “interativo”, ou seja, eles desciam do palco e pegavam os pobres turistas desavisados pra pagar mico no palco…


Os aborígenes prestes a atacar (esq.) e eu no palco, tentando dançar e falhando miseravelmente (dir.)

É óbvio que me pegaram. A dançarina me botou no palco, falou: “Mira!” e deu uma rebolada. Era pra eu fazer igual, mas a vergonha, somada com a minha “malemolência de granito”, não deu muito resultado.

Todo mundo acabou indo pro palco pra passar vergonha. Bethania, inclusive, acabou fazendo par com um dançarino gordo, seminu e suado. Pela cara dela na foto abaixo dá pra perceber o tanto que ela estava se divertindo…


“Irk!”<;/div>

Ainda teve muito mais coisa durante a noite. Pegaram um argentino superempolgado, botaram no palco e tiraram quase toda a roupa dele. Ele ficou só de calça e com um colarzinho havaiano no pescoço. E adorou. Teve também um outro cara venezuelano que subiu no palco e começou a estrebuchar como se estivesse tendo uma crise epilética. A platéia foi ao delírio… e além disso tinha um velhinho guitarrista na banda que não tocava absolutamente nada: ele só ficava dedilhando algumas coisas, parava, olhava pro amplificador, mexia nos botões, olhava pra frente, fazia um pouquinho de backing vocal, depois repetia tudo de novo. Eu não ouvi o som da guitarra dele em nenhum momento do show…


A “irreverente” plaquinha de “não fume” (esq.), o tiozinho enganador da guitarra (meio) e o argentino que foi “strip-teaseado” no palco (dir.)

No fim da noite a banda continua tocando pra quem quiser ficar dançando. No playlist da banda tinha Daniela Mercury, Skank e várias outras bandas brasileiras. É incrível: as pessoas acham que os turistas viajam pra longe das suas casas justamente pra ouvirem exatamente as mesmas coisas que ouvem em casa…

Depois do show voltamos pro hotel de táxi, já que o metrô só funciona até as dez da noite. O pessoal ficou me zoando o tempo todo porque eu adorava andar de metrô. Eu realmente gosto muito de metrô por várias razões: é rápido, é barato, e tem um jeitão urbano-sujo-pós-moderno que eu curto bastante. E além do mais é impossível andar de ônibus em Santiago, porque os ônibus são extremamente velhos, pichados e mal conservados. Os motoristas são meio “donos” dos ônibus, e recebem um salário unha-de-fome e uma comissão por cada passageiro transportado. Aí eles podem fazer o que quiserem com o busão, inclusive botar neon debaixo. Eu juro que eu vi um buzú assim, mas infelizmente não deu tempo de tirar foto.

Falando em ônibus, a gente apelidou os que os “carabineros” (a polícia chilena) usam de “caveirão”, que é o mesmo nome dos carros blindados que a polícia do Rio usa pra subir os morros atrás de traficante. Os do Chile são usados em missões mais pacíficas, do tipo “controlar multidões de pessoas durante os protestos”, como o que teve próximo ao nosso hotel num dos dias da viagem. Foi só um “piquetinho”, mas foi legal…


O “caveirão” da polícia (esq.) e o protesto perto do hotel (dir.)

E então, duas semanas de viagem depois, chegou a hora de voltar pra casa. A viagem de volta foi quase uma saga: pra começar, o sistema da Tam estava fora do ar e passamos um tempão na fila, porque a funcionária teve que fazer tudo à mão, inclusive os cartões de embarque e tudo o mais. E teríamos que tirar toda a bagagem no Aeroporto de Guarulhos e fazer check-in de novo e despachar as malas tudo de novo pra finalmente ir pra Belo Horizonte.

Aí entramos no avião e, como os check-ins foram feitos todos à mão, tinha um monte de gente com assento duplicado, ou seja, mais de um passageiro marcado pro mesmo assento. Ficamos observando enquanto todo mundo nos assentos próximos aos nossos ia sendo abordado por outros passageiros. Logo que aconteceu isso com o André e a Ju, o André virou pra trás e me disse:

– Tá chegando perto, daqui a pouco vai acontecer com vocês aí…

No mesmo instante chega um cara pra mim com a passagem na mão. Olha pra mim, olha pra passagem, olha pro número do assento, depois olha pra passagem de novo… eu não aguentei e caí na risada.

Além do atraso por causa dos assentos, outra coisa que fez o avião demorar ainda mais pra decolar foi – pasmem – a pia de um dos banheiros, que estava entupida. Ficamos mais de uma hora sentados dentro do avião, parados na pista do aeroporto, enquanto o som ambiente repetia pela quinquagésima vez aquela música chatérrima da Ana Carolina onde ela fica repetindo:

– Mas eu não seeeei de que forma mesmo você fooooi emboooooraaaaaa…

Ela repete essa frase – e apenas essa frase – por trinta segundos ininterruptos, pra encher linguiça quando a música está acabando. Eu não aguentava mais. E por sinal a música tem o apropriado título de “A canção tocou na hora errada”…

Nesse meio tempo veio um funcionário da Tam ver o problema dos nossos assentos. Ele pegou nossos cartões de embarque e falou: “vou ali verificar o que houve”. E saíu do avião. E começou a demorar, e a demorar… até que o avião fechou as portas e começou a taxiar. Basicamente o cara sumiu com nossos cartões de embarque. Isso só não foi um problema sério porque tínhamos que fazer check-in de novo no Brasil. Há males que vem pro bem…

O avião também tinha telinhas LCD individuais em cada assento, como o da Air France. Num dos canais tinha aquele mapa interativo, que fica mostrando aonde o avião está, a velocidade, distância percorrida e o escambau. Só que uma das telinhas era enigmática: mostrava apenas o avião, uma seta, um ícone de uma casinha e algumas palavras escritas em árabe. Como na foto da direita aí embaixo…


André, Bê e Ju na estação do metrô (esq.) e a telinha enigmática do avião (dir.)

Somente quando estávamos quase pousando no Brasil eu saquei o que era aquilo: trata-se de um mapa para o caso de você pertencer à religião islâmica e tiver que fazer uma de suas cinco orações diárias durante o vôo. Afinal, no islamismo, as preces tem que ser feitas ajoelhando-se sempre em direção à Meca… que é o que o mapinha indicava! (Ka’aba é o nome da pedra sagrada da religião islâmica, que fica em Meca).

Depois de pousar em Guarulhos e despachar as malas todas de novo, embarcamos para o trecho final da viagem (o vôo de São Paulo pra Belo Horizonte). Voamos num Fokker 100 (leia-se “fucker cem”), cheio de crianças fazendo bagunça, gritando e chorando. Completando a orgia sonora, tinha também um cachorro latindo. É sério…

No final das contas chegamos em casa na madrugada do domingo, perfazendo um total de quase 14 horas viajando. Mas foi muito bom e eu quero repetir a dose ano que vem de qualquer jeito…

P.s.: Notaram que este post ficou enorme? Pois é, quase uma semana pra escrever tudo, revisar, cortar as fotos, etcetera, etcetera… E ainda faltam as histórias que eu mais quero contar: as do esqui… tombos (e vídeos) incluídos… aguardem…

P.p.s: Esqueci de mencionar no post anterior que quem descobriu a pronúncia certa de “alfajores”, na Argentina, foi Bethania…

Por sinal, hoje já fizemos um mês de casados (woo hoo!). O chato é que estou em São Paulo e ela em BH, então a comemoração vai ser só no fim-de-semana…

3 thoughts on “A Lua-de-mel do Primo”

  1. Boa, Zé! Tá ficando doido demais!! Mas não enrola e manda logo a parte 3, ok? hehehehe

    E tenho de deixar registrado: esse negócio de invadir lua-de-mel é o mó-legal!
    Alguém pretende se casar em breve aí? 🙂

  2. Adorei sua narrativa! Parece que vc estava descrevendo a minha viagem a Santiago.Fomos nos mesmos lugares e achei a mesma coisa que vc, Só não andei de metrô, porque fiquei pouco tempo. Viajei em outubro de 2007, e não mudou nada. Até o dançarino era o mesmo. Só não entendi Lua de mel acompanhado!!! heheheeh

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *