A Lua-de-mel do Primo


Eu, no alto da montanha… pronto para os tomb… digo, as descidas! (Foto by Bethania)

Nota inicial: Pra todo mundo que está reclamando que depois que eu casei eu não atualizo mais o blog como antigamente… aparentemente, Murphy ouviu as preces de vocês.

Na sexta-feira eu tomei um “chá de Galeão” ao tentar voltar do Rio. Fiquei empacado no aeroporto das 18:00 às 21:30, e tive tempo de sobra pra completar este esperado post…

Parte 3 de 3: Esquiando no Chile!

Eu esperei quase um ano por isso. Eu trabalhava dias inteiros e saía cansado à noite pra fazer cooper justamente por causa disso. Eu contei cada dia da viagem até que finalmente chegou “o” dia. Eu contei cada hora deste “o” dia até que, no começo da tarde, meus dois pés estavam dentro de botas de plástico rígido, e debaixo delas haviam dois esquis, e debaixo deles havia neve e ladeiras e mais ladeiras da Cordilheira dos Andes pra que eu descesse.

Finalmente eu estava esquiando novamente…


Foto dos óculos de esqui do André… ou seria um auto-retrato meu?

A programação da viagem incluía cinco dias para o esqui. A idéia inicial era ficar hospedado no Valle Nevado, mas quando marcamos a viagem (com meses de antecedência) o hotel já estava lotado. Aparentemente, ficar no Valle Nevado está na moda: neste feriado de sete de setembro o hotel estava praticamente todo reservado para brasileiros…

A minha idéia era aproveitar o máximo de tempo de montanha que eu pudesse, mas não teve jeito: eu só começava a esquiar mesmo lá pelas 11:30 da manhã, e tinha que parar às quatro da tarde. É que tínhamos que subir e descer a montanha todo santo dia, de van. A viagem durava aproximadamente uma hora e meia, e os filhos-da-puta da operadora de turismo se atrasaram TODOS os dias. O atraso seria ainda pior se Bethania não tivesse reclamado na operadora e conseguido uma van exclusiva pra nós, porque aí teríamos que fazer via-sacra por todos os hotéis de Santiago pra catar mais turistas.

Mas chega de reclamar e vamos ao que interessa:

Dia 1: Esqui em El Colorado

O primeiro dia foi o mais desgastante, por várias razões: no dia anterior o motorista deixou um recado dizendo que ia atrasar, e acabou aparecendo mais cedo; aí saímos do hotel sem nem tomar café-da-manhã. Some a isso o efeito da altitude e todo mundo acabou ficando muito cansado. Pra piorar, o pessoal resolveu fazer aulas de esqui com um instrutor “pirata”, que dava aulas do lado de fora da estação. Aí, obviamente, não tinha teleférico e o pessoal tinha que subir a montanha a pé, carregando os esquis, pra poder treinar as descidas.

Como ninguém estava aguentando nada, a diversão do dia acabou sendo brincar na neve: fazer bonecos, jogar bolinhas um no outro…


O abominável homem das neves (óculos opcional)… e o André prestes a levar um naco de neve na cabeça.

Eu não participei das aulas piratas: comprei um ticket e fui direto pra montanha. Mas devo ter descido apenas umas duas vezes, porque a desnutrição e a altitude me deixaram extremamente cansado. O simples ato de caminhar até a base do teleférico pra começar a subir foi um tormento; era uma caminhada pela neve de no máximo 150 metros, e eu tinha que parar pra descansar porque o peso dos esquis e das botas na neve fofa era de matar.

Mas tudo ficou bem no dia seguinte, quando fomos ao…

Dia 2: Valle Nevado!

Logo que chegamos e eu dei uma olhadinha no tamanho do Valle Nevado, eu sabia que aquele era o lugar. Ficou fácil de entender as hordas de brasileiros que vão pra lá todo ano. No próximo, acho que eu vou me juntar a elas…


El Mirador: te leva looonge…

O André, a Ju e Bethania ainda estavam meio tímidos no esqui, então ficaram na parte de iniciantes. Eu dei umas descidas e depois resolvi pegar um teleférico chamado “Mirador”. Subi na cadeirinha e ela foi subindo, subindo, subindo… até que, vinte minutos depois, ela me deixou 350 metros mais alto do que a base da montanha.

O silêncio lá no alto era absoluto. E o hotel estava muito, mas muito longe. Aí comecei a descida, obviamente pela pista mais fácil. Depois, peguei um desvio e fui por uma pista intermediária, que faz o mesmo caminho do teleférico só que, obviamente, morro abaixo.

Depois de uns dez minutos eu finalmente estava de volta à base da montanha, sem nenhum tombo. Aí fui numa outra pista intermediária, uma, duas vezes… também sem tombos. Eu estava bem, muito bem nos esquis, e a autoconfiança só aumentava.

Aí encontrei com o pessoal na pista de iniciantes e pedi a Bethania pra me filmar descendo a pista intermediária.

Peguei o teleférico, fui até o começo da descida e esperei ela dar o sinal. E mandei ver. Curva pra lá, curva pra cá, resolvi fazer um “slalom” nas bandeirinhas da beirada da pista, pra dar uma “incrementada” na filmagem.

O resultado você vê neste vídeo

(Sim, está sem som e com qualidade MUITO tosca. Eu não tenho placa de captura de vídeo no PC, então acabei filmando a telinha de LCD da filmadora, usando a câmera fotográfica. Tudo isso pra vocês poderem rir da minha cara)

Por incrível que pareça esse foi meu ÚNICO tombo do dia…

Aí, com o moral abalado, dei uma parada e fiquei fotografando os tombos do resto do pessoal. Afinal eu tenho direito a, pelo menos, alguma vingancinha…


Bethania em posição “filma eu Galvão!” e depois fazendo um “quatro deitado”

André em altíssima velocidade, e depois chafurdando na neve…

Juliana descendo… e descendo…

E aí você pergunta: “Cadê a foto do tombo da Ju?”. Bem, logo depois da segunda foto ela realmente caiu, mas não foi nada bonito e ela acabou torcendo o joelho. Felizmente não foi nada muito sério: era só botar um pouco de gelo (que foi muito difícil de encontrar, sabe como é) e descansar.

Já que tínhamos dado uma paradinha, aproveitamos pra almoçar a comida mais cara da América Latina. No Valle Nevado, uma coca-cola sai a OITO reais, e uma “promoção” de cheeseburger, fritas e refri não sai por menos de R$ 28. Ai meu olho…

Dias 3 e 4: Mais Valle Nevado!

As emoções de todos os dias de esqui já começavam na van. Eram emoções das mais diversas:

Medo, quando o motorista fazia, em alta velocidade, as curvas ultra-fechadas da minúscula estradinha (essa da foto acima)
Empolgação (indignação, no meu caso), quando o motorista coloca Ivete Sangalo pra tocar durante a viagem
Friozinho na barriga, quando o café-da-manhã começa a reclamar das sacudidelas constantes
Impaciência, quando você não aguenta mais ver curva e o Valle Nevado ainda esta loooonge…

Mas eu esquecia tudo quando chegávamos e eu botava os esquis no pé.


Snowboarder perdido na neve

Conforme o tempo foi passando, o pessoal foi se soltando e já esquiávamos todos juntos pelas pistas mais fáceis. Descíamos umas três delas na sequência e, lá no final, pegávamos o teleférico de volta para o topo.

O problema é que o teleférico passava ao lado do snow park, que é uma pista com rampas, corrimãos e outros obstáculos para os snowboarders e esquiadores freestyle fazerem manobras mais radicais. A cada subida que passava eu ficava vendo o pessoal voando pelas rampas do snow park. Uma delas era bem pequena: “É, acho que aquela ali eu consigo fazer”.

E pronto: agora meu objetivo era aprender a saltar…

Era divertido: eu entrava na pista, via a rampa e descia direto. Aí o vento começava a passar assustadoramente rápido pelas orelhas, uivando forte por causa da velocidade, e a adrenalina subia. Então vinha a rampa e não tinha mais jeito: eu só podia pular e fazer de tudo pra cair em pé. Aí eu conseguia e freava violentamente porque depois do salto a velocidade já estava num patamar absurdo. Eu me achava o mais radical dos radicais.

Aí pedi Bethania pra me filmar. Todo mundo se empolgou e foi pro teleférico: combinamos que eu faria o salto quando eles estivessem no meio da subida do teleférico, pra ter o melhor ângulo de visão possível. E todo mundo foi na maior empolgação: “O Zé vai dar um mega-salto!”

Desta vez eu não caí, mas mesmo assim o vídeo não deixou de ser ridículo. Note que, à minha direita, um esquiador de verdade vai na rampa maior e voa REALMENTE alto. Logo atrás venho eu, e pulo a impressionante altura de VINTE CENTÍMETROS…

Depois do meu “mega-jump”, o André contou que ficou se perguntando: “Ele saiu do chão?”.

Clique aqui e veja o vídeo deste vexame. Eu juro, quando você pula parece muito mais…

Aí eu fiquei revoltado: era a segunda vez que me filmavam e eu só passando vergonha. Resolvi partir pro tudo ou nada, e tentar saltar na rampa REALMENTE grande. Novamente, foi todo mundo pro teleférico, e eu fui pra cabeceira da pista…

E o que aconteceu foi o seguinte: entrei na pista e fui, resoluto, pra rampa grande. Era agora ou nunca. Era a glória ou a desgraça. Aí saltei e, obviamente, me esborrachei com a bunda no chão.

Felizmente, o André estava com a máquina a postos no momento do tombo…


Se eu não contar que estava caindo, até parece que eu estava num carving radical…

Mas o fracasso não foi completo e eu ainda estava com os dois esquis nos pés. Do teleférico o pessoal gritava:

– SAI DO CHÃO ZÉÉÉÉ!!!

Aí me levantei, dei um tchauzinho pro pessoal pra mostrar que eu estava bem, e continuei descendo, o moral lá no dedão do pé. Como a rampa menor ficava no meio do caminho, pensei: “Ah, vou passar por lá, pelo menos aquele pulinho de criança pequena eu consigo fazer”. Nem reduzi a velocidade nem nada, fui direto.

E, novamente, eu me esborrachei na neve. Dessa vez foi feio, porque eu estava muito rápido, e o final da rampinha é uma descida BEM íngreme. Eu levantava uma nuvem enorme de neve enquanto tentava desesperadamente frear com os esquis e com os braços. Consegui parar uns vinte metros depois, todo coberto de branco. Tinha entrado neve pelas luvas, pela calça, eu estava molhado em todos os lugares onde o sol não bate. Do meu lado, um casal de esquiadores olhava perplexo, tentando entender o que diabos era aquilo.

No teleférico, Bethania dizia baixinho: “Ele caiu de novo!! Nãããão, Zé… nãããão, Zé!!”…

E, com vocês, o vídeo desse infortúnio todo

Dia 5: Portillo!

A despedida do esqui foi nesta outra estação, que fica perto da divisa entre o Chile e a Argentina, na beirada de uma estrada que corta os Andes e liga os dois países. Por sinal, um dos teleféricos passa por cima desta estrada.


Aquilo ali atrás do baú do caminhão é… um esquiador?!

Acontece que Portillo é mais longe que as outras estações de esqui. Além disso, o motorista da van chegou atrasado no hotel e quando chegamos na montanha já era mais de meio-dia. Pra piorar, o motorista veio com um papo de que precisava voltar por volta das quatro da tarde pra buscar alguém no aeroporto. E pra piorar ainda mais, quando mencionamos que precisávamos devolver o equipamento alugado de esqui, ele disse que não poderia nos levar porque a loja ficava do outro lado da cidade.

Aí a minha paciência acabou: assim que ele terminou de falar eu cruzei os braços e, com uma cara de psicopata, olhos arregalados e tudo, perguntei com o meu melhor portunhol:

– Y AHORA?! QUE VAMOS HACER??!??

O cara se assustou tanto que, minutos depois, já tinha ligado pra loja e combinado pra que eles buscassem as coisas no hotel mesmo. Por outro lado, meus amigos acharam aquilo a coisa mais engraçada do mundo e até hoje ficam me imitando: cara de psicótico, olho arregalado, braço cruzado, e o bordão agora famoso… “Y AHORA?!?…”


Em Portillo, a escola de esqui é dirigida por ninguém menos que Jesus Cristo, como indicava a plaquinha…

Problemas de logística à parte, Portillo é muito legal. É uma estação de esqui mais profissional, aonde as seleções de vários países do hemisfério norte costumam vir pra treinar durante o verão (sacumé, verão lá, inverno aqui). As pistas são enormes, tanto que eu custei a achar as pistas mais fáceis (onde Bethania queria ficar).

O André e a Ju já estavam estropiados e resolveram não esquiar mais neste dia. Também, com a vista que tinha lá…


Eu juro por Deus que isso NÃO é Photoshop…

A brasileirada também chegou até Portillo. Tinha umas cearenses se esforçando pra ficarem de pé nos esquis e exclamando, no melhor sotaque nordestino: “Óia que eu ainda num peguei o jeitcho do bichinho não…”

Falando em sotaque, um momento surreal dos dias de esqui foi quando eu subi no teleférico com um carioca, que falava superempolgadamente no seu walkie-talkie:

– Aê… Lu? Aqui é o Gui… pô, aí, peguei um boardercross, tesããão!!!!

Voltando a Portillo, o dia foi tranquilo e passei a maior parte do tempo tentando convencer Bethania a descer uma das pistas intermediárias. Ela não era difícil, mas metia medo. Na verdade, todas as pistas metiam medo. As escarpas eram íngremes demais e era tudo muito alto e largo, e consequentemente intimidador.


Aqueles dois tracinhos ali são pessoas esquiando, acredite ou não.

Para meu orgulho, Bethania criou coragem e desceu a pista intermediária comigo. Várias vezes, inclusive. Depois, ficamos brincando num pequeno slalom que montaram na pista de iniciantes. Enquanto um descia, o outro tirava as fotos…


Casal que faz slalom unido, permanece unido…

O teleférico da pista advanced

No fim do dia, pra encerrar a temporada de esqui, resolvi descer uma pista de nível avançado. A coisa começou bem logo no teleférico, que passa por cima de uma montanha, pra que os esquiadores possam descer dando a volta por trás dela, numa encosta larga e íngreme. A “viagem” é linda, a vista é de babar, e a cadeirinha se movendo lentamente através do silêncio e passando bem em cima dos rochedos… foi demais.

Confesso que quando eu cheguei no alto e vi a descida que me esperava, deu um friozinho na barriga. Mas eu já tinha aprendido a lição com os tombos anteriores. Era só eu não tentar nada “boyzado” e tudo ficaria bem. Então mandei ver… e tive uma grata surpresa.

A neve da encosta era do tipo powder, ou seja, fina como pó. É o melhor tipo que existe, a sensação é de esquiar sobre as nuvens. A descida foi simplesmente uma delícia, tanto que no final eu ria gostosamente enquanto deslizava rumo à base da montanha…

Enquanto isso, quentinhos no saguão do hotel, o André e a Ju ficavam filmando o pessoal descendo à distância, e tentando descobrir quais daqueles pontinhos poderiam ser eu e Bethania. A filmagem ficou engraçada: eles começaram a acompanhar um casal onde o homem ficava circulando a mulher, que descia devagarinho… e acharam que era eu e Bethania. Aí a mulher leva um tombo; na narração da fita, a Ju fica dizendo:

– Olha, acho que aqueles ali são os dois… ahahahah, ela caiu!!… ops, desculpa Bethania!

E foi assim a temporada de esqui 2006. Já comecei a contar os dias para a temporada de 2007. Desta vez quem sabe eu não volte com um video decente da minha performance no esqui…

6 thoughts on “A Lua-de-mel do Primo”

  1. êÊba!!! viu só? sabia que valia a pena ficar aqui insistindo pelo post 3! rs. ri muito e achei ótimo. Linda, a viagem de vcs. Valeu pela paciência com estes (a) leitores (a) impacientes, mas quero registrar que lei de murphy não vale para analisar o caso do sumiço do post 3.rs. Um abraço!!

  2. Zé Carlos, parabéns pelo seu blog.

    Kra… Estou indo pra Santiago, seguindo seus passos, heheheh, também em lua de mel. Seu post foi extremamente esclarecedor e incentivador na escolha do destino, parabéns…
    Peguei emprestado algumas fotos suas e publiquei no meu blog, espero que não se importe, pode acessar lá pra ver.

    Gostaria de aproveitar e pegar com você mais algumas dicas que são:
    1-Onde você alugou os equipamentos de esqui?
    2-Você alugou roupas de esqui ou comprou? Se comprou, comprou onde?
    3-Onde você contratou o translado para os pontos de esqui?
    4-Nestes lugares aceitavam cartão?
    Mais uma vez, parabéns pelo belo POST e fotos.

    Um abraço, Leandro.

  3. Vamulá Leandro:

    1) Num lugar indicado pelo nosso guia, em Santiago mesmo. O esquema é alugar ANTES de subir porque na montanha eles alugam mas é bem mais caro.

    2) Eu já tinha umas, mas minha esposa e nossos amigos não, então eles alugaram junto com os esquis. As que eu tinha eu comprei no Canadá.

    3) O traslado eu fechei com a agência de turismo que olhou hotel/passagem Argentina-Chile/etc. Mas se você quer passar mais tempo esquiando (tipo 1 semana) o esquema é ficar hospedado no hotel da própria estação de esqui.

    4) Sim, aceitam “tarjeta” em tudo que é lugar 🙂

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