O consultor vai onde o povo está

Tá, eu sei, eu sei que estou devendo a terceira parte do mega-post da lua-de-mel… mas eu acabei de passar dois dias completamente surreais…

Semana passada eu recebi uma boa notícia: seria alocado um projeto como consultor-sênior. Responsa total… com salário maior, trainee só pra mim e tudo o mais.

Na terça, às 18 horas, lá estava eu saindo do Rio de Janeiro, rumo ao meu primeiro dia do novo projeto. Entrei no ônibus e segui viagem…

(Mas peraí… você disse ônibus?)

Rodoviária Novo Rio e meu novo meio de transporte ponto para “decolar”

Pois é, acontece que o projeto seria numa indústria que fica perdida em algum lugar perto da fronteira entre o Rio de Janeiro e São Paulo, numa cidadezinha minúscula que chamarei de Windturn City (ou seja, “aonde o vento faz a curva”). Windturn City é tão minúscula, mas tão minúscula, que eu digitei “Windturn City” no Google Maps, ele localizou a cidade, me mostrou a foto de satélite no zoom máximo, e ainda assim eu levei uns cinco minutos pra localizá-la: “hmmm… será que é essa manchinha cinza? Ali no meio das montanhas?”

Mas então saí do Rio e, quatro horas de ônibus depois, desci na cidade vizinha à Windturn City (porque lá não tem nem rodoviária). De lá, peguei um táxi. O motorista tinha um curioso sotaque de carioca misturado com interior de São Paulo, ou seja, ele puxava o “S” e enrolava o “R” ao mesmo tempo:

– É logo ali, peyrto daquelaix quadraix

Ou seja, “perto daquelas quadras”…

Como você já deve ter imaginado, não tem hotel em Windcurve City, portanto fiquei hospedado dentro da própria empresa, numa vila onde moram outros empregados. Passei a noite num quarto bem espartano, com três camas (uma delas ocupada pelo consultor-líder do projeto), um armário que saiu diretamente do catálogo das Casas Bahia, um ventilador e um banheiro. Parece ruim, mas até que é confortável.


Uau, agora posso dividir quarto com TRÊS pessoas!

No final do corredor tem uma pequena cozinha, com tudo liberado (ou seja, água gelada) e uma tevê “comunitária” de quatorze polegadas, ligada numa antena parabólica, onde todos os canais (exceto a Globo, obviamente) tem mais chiado que imagem. Windturn City é tão longe de tudo, mas tão longe, que até a parabólica pega mal. É sério: pesquisando na net, descobri que a cidade foi escolhida para um encontro nacional de radioamadorismo, justamente pelo fato dela estar longe de grandes centros urbanos e consequentemente quase não ter interferência…

No dia seguinte fomos à sede da empresa pra começar os trabalhos. Depois de vencermos, a pé, a enorme distância que separava o alojamento da sede (ou seja, um quarteirão), fiquei surpreso quando chegamos a uma típica casa colonial daquelas construídas séculos atrás, com piso de madeira, pé direito enorme, janelas e portas compriiiiiiidas… era como se eu estivesse dando consultoria na Casa das Sete Mulheres.


Se você olhar bem de perto vai ver umas câmeras da Globo atrás do arbusto

Uma curiosidade: a janela da sala aonde estamos trabalhando dá direto para a primeira rua de São Paulo aonde foi instalada iluminação pública, segundo nos contaram. Os postezinhos estilo “mil oitocentos e muito antigamente” continuam lá, firmes e fortes.

O dia de trabalho foi, em uma palavra, bucólico. Passarinhos cantando na janela, aquele clima de casa de vó do interior… os diretores da empresa passavam na nossa sala, calmamente… aí paravam pra bater papo e só saíam depois de horas. Quando caiu a noitinha (porque “noite” é coisa de cidade grande), deixamos a vila e fomos procurar um lugar pra jantar em Windcurve City. A caminhada serviu para conhecermos um pouco das atrações locais:

A pracinha
A ponte
O riacho
O sinal de trânsito (só tem UM na cidade inteira)
A antiga estação de trem, restaurada recentemente em comemoração ao seu centenário. Por “restauração”, leia-se “pintura e lâmpadas novas”.

Também pudemos observar os “nativos” em seu habitat natural, praticando o esporte predileto do lugar: papear com o vizinho no portão, ou ficar na janela vendo o movimento (qual?!?). A breve caminhada foi também um pouco desconfortável, porque parecia que estávamos carregando uma placa escrito “FORASTEIROS”: todo mundo parava o que estava fazendo e ficava olhando fixamente para nós.

Comemos numa pequena pizzaria e andamos de volta. Na chegada, um dos diretores da empresa (que foi conosco) sugeriu uma passadinha no bar da vila. Chegando lá, para minha surpresa, metade da diretoria da empresa estava sentada no boteco, em uma animada conversação levemente amplificada por razões etílicas. Um dos supervisores da fábrica me viu, se apresentou e, cinco minutos depois, parecia o meu melhor amigo: me contou metade da história da empresa, falou da história de sua família, fez piada com o meu time de futebol, falou que gostava de rock’n roll (“até esse mais pesadão!”), depois voltou a falar da empresa…

Eu e o consultor-líder resistimos bravamente por meia hora, depois fomos dormir porque o sono estava brabo – em plenas dez da noite. Numa cidade “normal” eu ficaria acordado até uma da manhã, facilmente, vendo o David Letterman na tevê…

No dia seguinte, tudo exatamente igual. Café-da-manhã, caminhada de um quarteirão e o dia inteiro na Casa das Sete Mulheres. Meu cérebro estava num conflito terrível: eu estava a trabalho num lugar onde era pra eu estar descansando! Tinha um notebook com um slide horroroso do PowerPoint na minha frente, mas eu olhava pro lado e via, pela janela, árvores e vaquinhas pastando. E ao invés do zumbido constante de um ar condicionado ou das buzinas dos motoristas doidos de São Paulo, só tinha barulho de passarinho. E Windturn City deve ficar em cima de um vórtice temporal, porque cada hora levava o dobro de tempo normal pra passar. Em pânico, eu tomava cafezinho atrás de cafezinho para ver se meu corpo voltava ao ritmo normal de cidade grande… mas não adiantava.

Mas o fim do dia acabou chegando e fomos pra rodoviária, para voltar ao Rio. A rodoviária tinha o “kit” completo de rodoviária do interior: pintura com tinta barata, vagas para 6 (seis) ônibus, cachorro sarnento no meio da rua, velho bêbado escornado no chão em frente ao boteco, velhinha com aquele xale marrom-cortina sentada no banquinho, junto com a neta de catorze anos que se veste do jeito que vê em “Malhação”, gente trançado pra todos os lados naquelas fiéis bicicletas de 1980, plaquinha comemorativa do Rotary Club, etc.

Nas quatro horas de ônibus de volta pro Rio eu torrei quase toda a bateria do iPod; quase uma “reintoxicação” com o clima de cidade grande…

E foi assim… vou continuar indo pra lá, toda semana, pelos próximos seis meses. Talvez agora que estou em três projetos ao mesmo tempo, em três cidades diferentes (Rio, São Paulo e Windturn City), eu consiga me cansar dessa vida de viajante. Ou não.

One thought on “O consultor vai onde o povo está”

  1. rs. windrcurve nao fica no ES? rs…a cidade onde nasci é exatamente assim…não, lá tem QUATRO semáforos porque fizeram a proeza de colocar um em cada esquina da maior praça da cidade. rs. acho que vai te fazer bem…vá correr que rapidinho vc aprende a trabalhar em meio à natureza.rs
    (e post 3…quando? rsrsrsrs)

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