The Windturn City meeting saga

Parte um: A viagem

Terça-feira. Era dia de eu me enfiar num ônibus para fazer uma reunião importantíssima em Windturn City.

O ônibus saía às seis da tarde. Eu cheguei na rodoviária faltando cinco minutos para as seis.

Quatro minutos para as seis e eu ainda estava correndo, arrastando a mala e com mochila nas costas, para atravessar a plataforma da rodoviária, chegar até o guichê e comprar uma passagem. No meio do caminho eu passei pelo ônibus, de motor ligado, e com o motorista já se preparando pra sair. Medo.

Três minutos para as seis e eu estava furando a fila do guichê para comprar as passagens. Gritei pro balconista:

– Pelo amor de Deus, me vende uma passagem pro ônibus das seis!
– Compra direto com o motorista lá embaixo que é mais rápido – disse o balconista.

Beleza. Basicamente, eu corri até o guichê sem necessidade, gastando preciosos segundos.

Dois minutos para as seis e eu estava no portãozinho do início da rampa que ziguezagueia até o andar de baixo, aonde estava o meu ônibus. No portãozinho tinha uma roleta e um funcionário:

– A passagem, por favor.
– Eu vou comprar com o motorista, abre pra mim!
– Não, precisa ter a passagem…
– Mas eu vou comprar com o motorista!! Abre peloamordedeus, o ônibus tá saindo!!
– Não, tem que ir ali no guichê.
– Mas eu ACABEI de vir do guichê!
– Não, aquele guichê ali…

E apontou para um outro guichê de acesso à rampa que leva aos ônibus. Eu não entendi direito por causa da pressa, mas acho que era um guichê onde gente sem passagem – acompanhantes de passageiros – pagam uma taxa pra poder descer até a plataforma de embarque.

Faltava só um minuto para as seis. Tinha um velhinho na fila do guichê. Eu pulei NA FRENTE DELE e gritei pra atendente:

– Quanto é??
– R$ 1,25…

Enquanto eu pegava o dinheiro da carteira, o velhinho disse um “dá licença” meio azedo e passou na minha frente. Joguei uma nota de R$ 2 dentro do guichê e passei voando pela roleta.

Já eram seis horas quando comecei a descer a rampa. Olhei pra baixo e vi o motorista fechando a porta do ônibus. Era hora de medidas extremas. Abri mão do resto de dignidade que ainda tinha e comecei a assobiar e gritar para chamar a atenção do motorista. A parte do “chamar a atenção” funcionou, porque todo o resto das pessoas na rodoviária percebeu, deu uns gritinhos de “aee atrasado!” e tal. Mas o motorista não estava nem aí e começou a arrancar com o ônibus.

Depois de ziguezaguear a rampa toda eu finalmente consegui pular na frente do ônibus e acenar pro motorista. Só então ele abriu a porta e eu, felizmente, embarquei.

Era o ponto de partida daquela que seria a pior viagem de ônibus da minha carreira de consultoria.

Fisicamente a minha situação não era boa: eu estava saindo de uma intoxicação alimentar maluca, com diarréia, cólicas, febre de 39 graus e tudo. Pra dar uma idéia da gravidade da coisa basta mencionar duas coisas:

1) Eu passei a madrugada do sábado na enfermaria do hospital, tomando remédio na veia, e…
2) Durante a febre, meu cérebro começou a dar pau e eu cantarolava sem parar um trecho de uma música da Wanessa Camargo:

“Vou me arrepender de-poix
Mas eu não resisto a nóix doix… ooooh nããão…”

Na segunda eu já estava bem melhor, mas a tensão dos últimos dois dias (e todo meu tempo de bunda-na-cadeira) acabou virando uma dor horrível nas minhas costas. Imagine o que é ficar num ônibus, por quatro horas, com as costas doendo a cada sacolejada do balaio. Mesmo depois de chegar no hotel, mesmo deitado e imóvel, as costas continuavam doendo. Comecei a ter febre novamente. Era hora de medidas extremas.

Então rezei pra que a dor passasse. A prece funcionou. Recebi uma iluminação divina que me disse assim:

“Seu burro, lembra que tem uns comprimidos de Novalgina na sua mochila?”

Tomei um deles. Por volta de uma da manhã a dor DESAPARECEU. Foi uma delícia, foi como um orgasmo ao contrário.

Parte dois: A reunião

Às seis da manhã meu celular tocou Tommib, música do Squarepusher que está na trilha sonora do filme Encontros e Desencontros. É o toque que uso como despertador. Eu me senti um pouco Bob Harris mesmo, perdido num lugar estranho e sofrendo de jet bus lag.

Passamos a manhã toda nos preparando para a bendita reunião. Às duas da tarde, nosso consultor-líder subiu no palco e começou a apresentar o PowerPoint que me ocupou durante as últimas madrugadas.

Era o ponto de partida daquela que seria a reunião mais bizarra da minha carreira de consultoria.

A primeira bizarrice começou no slide número sete, que mostrava a previsão de gastos com os projetos para o ano de 2007. O presidente da empresa se levantou da cadeira e gritou:

– Eu NÃO CONCORDO com esses números!!

Todo mundo gelou, especialmente eu, que passei os últimos dias debruçado exatamente em cima daqueles números.

– Nós já enfiamos num-sei-quantos milhões nestes projetos no ano passado e vocês ainda dizem que precisam de mais?!?!?

Aí eu respirei aliviado. Na verdade ele não entendeu que os projetos atrasaram e que o dinheiro mostrado ali era pra concluir o planejamento de 2006. O vice-presidente tentou acalmá-lo e explicar o mal entendido, mas não adiantou. Ele estava furioso. A saliva se acumulava nos cantos da boca enquanto ele vociferava. Até que num determinado momento ele disse:

– Sabe por que isso está assim? Porque essa empresa não tem dono!!

Sim, é isso mesmo. O dono da empresa reclamando que a empresa não tinha dono. Ele reclamou mais algumas coisas e, para espanto geral, saiu da reunião e não voltou mais. Acho que este foi o momento mais “what the fuck” da minha carreira.

Aí o consultor-líder foi embora (tinha um vôo pra pegar) e o resto da reunião foi conduzida por mim. As minhas costas estavam doendo de novo, o pessoal questionava os números, todo mundo falava ao mesmo tempo. Foi um pandemônio. E no meio do caos Michael Jackson ainda me interrompia para fazer perguntas altamente significativas, do tipo: “quer que desligue o datashow?”…

No final o vice-presidente foi dizer algumas palavras e acabou dando uma palestra de 30 minutos. Foi assim:

Começou pedindo a todo mundo que tivesse “calma”
Contou que a mulher dele reclamou que ele anda dizendo muito palavrão. “É a minha válvula de escape para o stress”, disse ele.
Fez um ranking detalhado dos diretores mais “explosivos” da empresa: “Primeiro vem o fulano, sem dúvida. Esse é hours concours. Depois o ciclano”…
Comentou que estava louco pra ir fazer a caminhada noturna de sempre com o presidente, pra ouvir ele desabafar e tal.
Gastou alguns clichês motivacionais, dizendo coisas do tipo “vamos ganhar essa guerra”.
Encerrou dizendo: “Muita paz e muita felicidade para todos vocês!”

Foi uma coisa surreal. Mitológica, até. Mas não deu tempo de aproveitar o pós-reunião porque eu tinha que pegar um ônibus na cidade vizinha e voltar pro Rio. Tomei outra novalgina, entrei no táxi e tive outro orgasmo invertido enquanto a dor nas costas passava com o efeito do remédio.

O ônibus ia parar num daqueles postos de gasolina metidos a besta, com restaurantes, lojinhas e tal. Tudo que eu precisava fazer era comprar uma passagem e esquecer o sofrimento dos últimos dias. Aí fui até o guichê, abri minha carteira… e não tinha NENHUM REAL dentro dela.

– Moça… me diz que você aceita cheque, por favor…
– Não – respondeu ela, rindo.
– Então, por favor, me diz que tem um caixa eletrônico aqui perto…
– Tem um ali atrás…

Era um do Banco 24 Horas. Meti meu cartão nele e pensei: “só falta não estar funcionando”. Adivinha…

Felizmente, o gerente do restaurante foi extremamente legal comigo, passou R$ 50 no meu cartão de crédito e me deu o dinheiro. Comprei a passagem, entrei no ônibus e tive uma grata surpresa: ele era bem espaçoso, tinha cobertores, travesseiros e uma TV que passava filmes durante a viagem. Pensei que, finalmente, meu sofrimento havia acabado.

Aí o filme começou. Era Batman e Robin… dublado!

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