Por que as pessoas são preconceituosas?

Em tempos de Trump e Biroliro o que não falta hoje em dia é opinião sobre preconceito. Mas fato que é bom, nada. Aí outro dia decidi pesquisar o que a ciência tem a dizer sobre isso, e resolvi fazer uma espécie de “anotações públicas” dessa minha pesquisa neste post.

Antes de mais nada é importante separar preconceito de racismo. As coisas são relacionadas, mas o racismo é um preconceito específico de raça (pra não dar bagunça, consideremos “raça” e “etnia” como a mesma coisa). Sobre isso, essa matéria da Superinteressante explica que o ser humano não tem muitas diferenças genéticas entre as supostas “raças” – é algo em torno de 3% a 5% do DNA. Mas isso é suficiente para que se estabeleça “uma relação entre o grupo de origem de uma pessoa e seu genoma”.

No lado sociológico da coisa, a matéria explica muito bem um conceito central para entender o problema: o etnocentrismo, definido na Wikipedia como “o ato de julgar outra cultura com base em preconceitos encontrados nos valores e costumes da própria cultura de quem julga – especialmente quanto à língua, comportamento, costumes e religião”. E isso é encontrado nas comunidades humanas em toda a parte, e há muito tempo:

Os índios urubus, que habitam o vale do Pindaré, no Maranhão, acreditavam que todos os homens vieram da madeira. Acontece que só eles vieram das boas, enquanto seus vizinhos se originaram das podres. “Não existe quase nenhum relato de sociedades tribais que não tenha etnocentrismo”, diz João Baptista Borges Pereira, da USP.

Esse aspecto “nós” vs. “eles”, que, paradoxalmente, surge da nossa adaptação para a vida em grupo, é o ponto central que mais aparece nas pesquisas, segundo um artigo do The Conversation que comenta as mais recentes revisões da literatura científica sobre o assunto:

O racismo é uma das muitas expressões da evolução da nossa capacidade de viver e trabalhar em grupo. A tendência, essencialmente humana, de se identificar com os “nossos” define, de forma ampla, os “outros”.

O “ódio” ao lado de fora do grupo é, portanto, um reflexo do “amor” ao lado de dentro do grupo.

(…)

Para muitos pesquisadores, a nossa crueldade aos “outros” começa com o a bondade aos “nossos”. O ser humano é o único animal que coopera extensivamente com quem não tem parentesco, e os pesquisadores dizem que a vida em grupo, assim como cérebros grandes, é uma adaptação humana quintessencial.

Há também as hipóteses baseadas em achados da neurociência. A parte do cérebro associada à formação de crenças baseadas em raça é a amídala, que também está associada ao medo condicionado. Além disso, ao fazer reconhecimento facial, o cérebro reconhece melhor as pessoas do seu mesmo grupo racial, o que pode sugerir que as faces dos “outros” são percebidas com menos intensidade.

Felizmente, nossos cérebros são bem maleáveis:

Há boas evidências neurocientíficas para o que já se sabe há muito tempo: familiarizar-se com indivíduos de outras raças, bem como o desejo consciente de transcender preconceitos, pode erodir o racismo e outras formas de intolerância.

Outro ponto interessante do artigo do Conversation é o aspecto elusivo do preconceito: muita gente jura de pé junto que não é racista, mas no fundo possui uma série de associações implícitas sobre raça que, inconscientemente, afetam o seu julgamento. Eis aqui um teste de associação implícita (de Harvard, veja só) caso você queira se testar. A coisa é tão inconsciente que, mesmo achando o racismo uma aberração e sendo o cara mais inclusivo de todos no dia-a-dia, o meu próprio teste deu que tenho “preferência automática forte por Brancos comparados a Negros” – o que é consistente com a média geral…

Outro ponto surpreendente das pesquisas científicas que li foi o que pessoas menos inteligentes tendem a ser mais preconceituosas. Essa eu até fui catar o artigo original que vi mencionado neste outro. Não sei se é pragmatismo científico, mas os autores não fazem a menor cerimônia pra explicar a questão:

Estudos longitudinais trazem algumas das evidências mais convincentes. Um destes estudos analisou a inteligência geral em crianças de 10 e 11 anos e, duas décadas depois, reavaliou as crianças quando adultas – e encontrou uma conexão clara entre a baixa inteligência e racismo/sexismo.

(…)

Por que matemática, habilidades verbais e outras capacidades cognitivas dariam origem, com o passar dos anos, à posturas tão odiosas? [Os autores do artigo] acreditam que possuem a resposta para isto, também com base em abundantes e rigorosas evidências. A teoria deles é a de que as ideologias de direita atraem pessoas com menos habilidade mental porque elas minimizam a complexidade do mundo. Essas ideologias oferecem uma visão bem estruturada e ordenada da sociedade, uma visão que preserva as tradições e normas; assim, esta visão é especialmente atraente àqueles que se sentem ameaçados pela mudança e querem evitar incerteza e ambiguidade. Em contrapartida, pessoas inteligentes são mais capazes de compreender um mundo com nuances, fluidez e relatividade. (…)

Apesar de todas estas hipóteses distintas sobre a origem do preconceito, me parece que esse problema está caminhando naturalmente para uma solução conforme o mundo se torna cada vez mais globalizado e pacificado. Numa sociedade onde as origens dos supostos perigos que dão origem ao etnocentrismo não existem mais, e a percepção do que é o “seu” grupo social passa a englobar gente de todos os países, religiões, raças e costumes, o preconceito se tornaria “inútil” e lentamente desapareceria. Tomara…

Hora do Planeta – FAIL?

Eu tirei uns panoramas da minha janela 10 minutos antes e depois do início da tal “Hora do Planeta” – aquela, onde todo mundo supostamente apagaria as luzes de casa por uma hora para chamar a atenção sobre os problemas do meio ambiente.

Eu diria que ficou parecendo um “jogo dos sete erros”. Quase não dá pra ver janelas apagadas…

horadoplaneta

Bem, é como eu disse no Twitter: hora do planeta é legal, é louvável, mas é o equivalente ambiental ao “atleta de fim de semana”.

P.s.: A Lúcia Malla fala bem melhor do que eu sobre esse assunto.

Update: O Big Picture do Boston.com fez mais ou menos a mesma coisa que eu – só que pelo mundo inteiro e em vários monumentos e locais históricos onde o pessoal realmente apagou as luzes.  Clique nas (belíssimas) fotos para ver as luzes apagadas.

Obama vs. McCain… the remix

Mais um da série “links legais demais para simplesmente jogar ali no meu Delicious”.

Enquanto aqui no Brasil o TSE mal deixa as eleições figurarem na internet, nos EUA o debate político vira até arte…

ReConstruction

Nos EUA há um grupo chamado Sosolimited que faz um trabalho interessantíssimo. Segundo o website deles…

ReConstitution é um remix audiovisual feito ao vivo com os debates presidenciais de 2008. (…) Nós desenvolvemos um software que permite captar e analisar o vídeo, áudio e o texto do closed caption da transmissão. Através de uma série de transformações auditivas e visuais nós reconstruímos o material, revelando padrões linguísticos, expondo conteúdo e estrutura, e fundamentalmente alterando a maneira que você assiste aos debates.

A imagem acima é trecho de um vídeo onde a fala de Obama é lida pelo software através do closed caption (aquela legenda para deficientes auditivos), as palavras são contadas e a quantidade de cada uma delas aparece em vermelho. E lembre-se: tudo isso feito AO VIVO, DURANTE a exibição dos debates. Coisa de gênio.

O site do ReConstitution tem vários outros vídeos e vale muito a visita.

(Link via Waxy.org)

Olimpíadas 2008: um quadro de medalhas com uma comparação diferente

Hoje, com o fim dos jogos olímpicos, eu me peguei pensando no critério para classificar os países no quadro de medalhas. O Comitê Olímpico (e o resto do mundo) acha que é a quantidade de medalhas de ouro e coloca a China em primeiro lugar. Já o New York Times acha que é a quantidade de medalhas de qualquer tipo e coloca os Estados Unidos na frente…

Mas o que me incomoda no ranking é que ele compara países que levam delegações com mais de 600 atletas (como a China) com outros que levaram apenas seis. Então fiquei pensando: e se comparássemos não apenas as medalhas conquistadas, mas sim quantos atletas de cada país voltaram pra casa com medalhas? E se contássemos o número de “medalhas per capita“? Aí a comparação seria mais justa, pois o que conta não seria o número de atletas para cada país, e sim a qualidade deles…

Foi assim que bolei rapidamente um “índice de aproveitamento olímpico”, um percentual do quanto cada delegação olímpica rendeu nas olimpíadas, calculado assim:

 Fórmula do Índice de Aproveitamento Olímpico

Assim, se um país levou cinco atletas e os cinco voltaram com medalhas de ouro, considera-se que o país teve 100% de aproveitamento na Olimpíada. Os percentuais multiplicados para as medalhas de prata e bronze na fórmula servem para que um país onde todos os atletas ganharam medalha de bronze, por exemplo, não fique também com os 100% de aproveitamento. Além disso, no caso dos esportes coletivos, contam-se as medalhas “físicas” recebidas, ou seja, o ouro do Brasil no vôlei feminino conta como 12 medalhas para não avacalhar o cálculo.

E como ficaria o resultado das olimpíadas deste ano sob este critério? Um domingo inteiro e muitas gambiarras no Excel depois (muitas MESMO, até macro eu fiz), eis o meu quadro de medalhas com os 20 primeiros colocados ordenados pelo percentual de aproveitamento:

Quadro de medalhas (com % de aproveitamento)
Clique na imagem para ver o quadro completo (JPG) ou aqui para baixar a planilha Excel.

Sob este critério o Brasil fica em vigésimo, três posições acima de sua posição no ranking oficial. E ainda tem algumas surpresas interessantes:

  • O grande destaque é a Nigéria, onde três de cada quatro atletas voltaram pra casa com medalhas. Mas como nenhuma delas foi de ouro, no ranking oficial a Nigéria ficou na posição 61. E alguns dos seus vizinhos africanos também tiveram ótima performance: a Etiópia e o Zimbábue tem o sétimo e oitavo melhor índice, respectivamente, e mesmo com apenas 56 atletas o Quênia obteve um melhor aproveitamento do que o Brasil – inclusive no ranking oficial.
  • A segunda maior delegação dos jogos é a dos Estados Unidos, com 596 atletas – e mais da metade deles recebeu medalhas. É, de fato, um desempenho impressionante. E mesmo com mais de 600 atletas e vencendo mais competições, a China ficou apenas na posição 13 deste ranking, com uma medalha para cada três atletas.
  • Países com delegações pequenas e performances invejáveis, como a Islândia, o Panamá, as Bahamas ou a Indonésia mal aparecem no ranking oficial. A Islândia competiu apenas no handebol mas foi a segunda melhor, levando a medalha de prata. O Panamá levou apenas três atletas, mas um deles fez o melhor salto em distância da competição e levou o ouro.
  • Na América Latina o destaque são nostros hermanos da Argentina, que mandou menos da metade de atletas que o Brasil e obteve 22,8% de aproveitamento – 6,4 pontos percentuais a mais do que nós.
  • A pior performance é da Venezuela, que mandou 109 atletas e voltou apenas com uma medalha de bronze. Mas ainda assim ela foi melhor do que os 117 países (e seus mais de 800 atletas) que voltaram pra casa de mãos vazias.

A ignorância que te faz dormir à noite

No Kottke, numa nota sobre Eric Haseltine, um cara que foi da Disney para a NSA (a agência de inteligência mais bam-bam-bam da onda anti-terrorismo norte-americana), o último parágrafo é digno de tradução e postagem aqui:

No fim da sessão, a entrevistadora Jane Mayer perguntou a Haseltine se, porventura, o governo Bush não estava tendo uma reação exagerada ao terrorismo… se essa idéia de que o perigo está em toda parte é apropriada, realista. Ele respondeu dizendo que, desde que se envolveu com inteligência, ele não dorme bem à noite. “Eu sei muito”.

Escopolamina – a droga mais perigosa do mundo

Em termos de alucinógenos eu achava que o fundo do poço eram os meninos africanos que deixam fezes no sol e depois cheiram o metano resultante para se drogar. Parece que não.

Deu no BoingBoing um artigo sobre a escopolamina, que é, de longe, a droga mais maléfica do mundo:

A coisa é terrível, um pouquinho de pó provoca um dos seguintes efeitos na vítima: a) morte ou b) perda total do livre-arbítrio. Criminosos normalmente tentam obter este último efeito, pois isso permite que eles dêem ordens às suas vítimas e mandem elas esvaziar as contas de banco, dar o carro pros ladrões, fazer sexo com eles, basicamente qualquer coisa que o criminoso mande.

Daí saiu a reputação da escopolamina como a "droga do zumbi", pois as vítimas parecem estar completamente sóbrias e racionais, quando na verdade parecem autômatos.

E além de tudo a droga pode provocar amnésia. Pensa bem: basta um pouquinho da droga na sua bebida e você vai fazer TUDO que o ladrão disser. E no fim não vai se lembrar de nada. Parece coisa de filme, mas, infelizmente, é real.

O artigo do BoingBoing tem um link pra um excelente documentário do VBS.TV, em nove partes, sobre a droga. Os caras viajaram até a Colômbia, conversaram com vítimas, acharam a planta de onde a droga é extraída (que é tão comum que pode ser encontrada nas ruas de Bogotá), até acharam um traficante que vendeu um pouco de escopolamina pra eles. As histórias do documentário são de arrepiar. Uma das vítimas conta que tem efeitos colaterais até hoje – lapsos de memória e pesadelos. Uma prostituta conta que bastou esfregar um papelzinho impregnado de droga na cara de uma dona da casa, para que ela morresse na hora de ataque cardíaco. Outra vítima conta que foi abordada por um cara que perguntou "onde é esse endereço" e colocou um papelzinho bem próximo do rosto dela – e depois disso ela não se lembra de mais nada.

E pra coisa ficar ainda mais impressionante, é bem possível que você já tenha usado escopolamina, já que, segundo a Wikipedia, ela é o princípio ativo do popular Buscopan. Obviamente a dosagem é ínfima e ela vem numa outra forma (butilbrometo de escopolamina) que não passa da barreira hematoencefálica e, portanto, não chega no seu cérebro. Imagina se chegasse…

Bye bye, privacidade

Acabei de ver na Foia de Sumpaulo:

Projeto cria cadastro de internautas para inibir crime

Os usuários de internet no Brasil deverão ser cadastrados, e os registros das correspondências eletrônicas armazenadas durante um período pelos provedores de internet. É o que prevê o projeto de lei do senador Delcídio Amaral (PT-MS), que foi discutido hoje em audiência pública na Comissão de Educação.

A proposta tem como objetivo estabelecer algum tipo de controle sobre o que é veiculado na internet e facilitar a apuração de crimes cometidos na rede mundial de computadores, explicou Amaral.

Ma putaquepariu nesse governo de merda. Tomanucu. Cambada de burro do caralho. Desculpem os palavrões, mas assim não dá.

Spam de notícias

Tá bom, gente, já sei que o Roberto Marinho morreu. Não precisa estampar em TODOS os jornais, TODOS os sites noticiosos, TODOS os noticiários de TV/rádio…

Na rádio CBN eles já estavam dando notícias assim: “A morte de roberto marinho foi noticiada no site da NBC….”, depois, “A morte de Roberto Marinho foi notícia no site da BBC de Londres…”. Só pra não parar de falar no assunto já tavam noticiando ONDE MAIS estava se falando do assunto. Haja.

Crime

Deu na Folha:

Os voluntários para servir de “escudos humanos” no Iraque estão participando de “um crime contra a humanidade”, algo passível de pena grave, afirmou nesta quarta-feira o secretário norte-americano de Defesa, Donald Rumsfeld.

Crime contra a humanidade? Ah, é, só os americanos são humanos, o resto não é não.