Retrospectiva 2019

…também conhecido como “o último ano antes de eu ser pai” – o que me deixa curioso pra descobrir o que diabos vou escrever na retrospectiva 2020.

Tom nem nasceu e eu já tou exausto. Os últimos sete meses foram basicamente de preparativos pra chegada dele: pintar quarto, montar móvel, fazer chá de bebê, trocar carro, ler livro, fazer exame, preencher papelada de licença maternidade, e pedalar 30km pra achar Toddy pra Bethania (esse post tá nos rascunhos, uma hora sai).

É sério, eu ando muito estressado. A correria é tamanha que eu tive que me impor um limite onde, às nove da noite, eu me forço a parar de resolver coisa.

Como trabalho atrai trabalho, no banco eu estou prestes a ser promovido.

Essa história começou do jeito mais cômico possível. Um belo dia, o chefe veio apresentar um cara novo que havia sido contratado e ele veio na minha mesa e me apresentou como “esse é o Joe, o líder do time”, e eu pensei “como assim líder do time?”. E aí eu notei que todo mundo andava me tratando como líder do time, já que todas as buchas sem dono começaram a vir parar no meu colo porque, em várias delas, eu era o único que dava um jeito e resolvia. O bom é que meu bônus esse ano foi bem gordinho.

Importante lembrar que, em 2013, eu fui demitido duas vezes no mesmo ano. Tem uma moral da história aí, mas ainda não sei bem qual.

Teve também baby moon: em setembro passamos uma semana e meia em Paris. Que cidade fantástica.

Ninguém reparou, mas eu passei esse ano inteiro sem usar o Instagram. Facebook, então, foi sumariamente deletado.

Parece bobagem mas esse é um dilema meio sério. Por um lado, eu estou cada vez mais convencido de que as redes sociais estão para a saúde mental assim como os cigarros estão para a saúde pulmonar, e que ainda estamos nos anos cinquenta achando que fumar é super legal e sem a menor noção das consequências. Além disso, não usar produtos do filho da puta do Zuckerberg é uma forma de consumo ético que tenho tentado praticar.

Por outro lado, esse é mais um passo que me distancia do Brasil. Os filhos dos meus amigos estão todos crescendo e eu não vejo nada. Fulano viajou, sicrano separou, beltrano pode até ter mudado de sexo e eu jamais saberei. E ok, eu poderia usar o meu tempo pra ir falar com cada um deles e saber o que anda acontecendo mas… será que eu não deveria investir meu tempo de socialização aqui no Canadá?

Vida de imigrante é um saguão de aeroporto infinito, você numa fila, seus parentes e amigos lá longe, dando tchau, e a fila não anda, e você no eterno limbo entre o foi e o ficou.

E pra fechar o ano, recebemos e-mail do ministério da imigração marcando a famosa provinha, que é nada mais nada menos do que o penúltimo passo do processo de obtenção de cidadania. Depois, é só jurar fidelidade à Rainha da Inglaterra.

Eu nunca, nem nos meus sonhos mais malucos, imaginei que teria um filho canadense – muito menos um filho de pais canadenses.

Há exatos dez anos eu escrevi a retrospectiva de 2009 em formato de um review do disco “Black Sea”, do guitarrista vienense Christian Fennesz.

Hoje, após basicamente surtar de estresse, eu me sentei na sala, no escuro, e botei o “Black Sea” pra tocar de novo. E então voltei a me sentar, sozinho, na praia cinzenta de uma década atrás – meu lugar seguro – cujo som eu descrevi de forma bem precisa:

…sons de tom frio e monocromático, sons de um longo trajeto cujo destino é obscuro

O destino continua obscuro. E aqui vai uma coisa que ninguém posta no Instagram: eu estou com muito medo do que vem por aí.

Eu até tentei falar desse medo com outras pessoas, mas não deu muito certo. Por exemplo, quando comentei do stress com meu pai, ele respondeu: “isso não é nada, já passaram por perrengues muito piores”.

É por isso que, na praia, eu me sento sozinho, e me sinto sozinho.

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Entendendo o voo da gaivota

Hoje de manhã fui andar com o cachorro e o céu estava mais ou menos assim.

Pra completar a cena, eis que passa uma revoada de gaivotas, voando pro norte por algum motivo. Deviam é ir pro sul e ir parar no México, pra fugir do frio que vem chegando lentamente. E comer guacamole, obviamente.

Esse ano eu parei de usar celular e fone de ouvido ao andar com o cachorro, pra exercitar mindfulness (como fala isso em português?). E me peguei achando aquela cena bem bonita… e então pensando no quanto é estranho a gente achar a natureza bonita. Isso é pré-programado, talvez? O que determina o que é bonito ou feio? E por que a maior parte das coisas naturais nos parece agradável?

Daí o sonso aqui se lembrou de uma frase de Picasso que eu e a Bê vimos no museu de Picasso, no Japão (pois é), e que há meses está escrita no nosso mural de giz da cozinha. Ele diz:

Todo mundo quer entender arte. Por que ninguém tenta entender o canto dos pássaros? Por que as pessoas adoram a noite, as flores, tudo ao seu redor, sem tentar entender essas coisas? Mas quando se trata de uma pintura, as pessoas tem que entender…

Daí foquei em uma das gaivotas. Observei o movimento das asas, às vezes batendo pra se deslocar, outras vezes imóveis e apenas planando ao sabor da brisa. E aí me lembrei de quando era criança e cenas como essas despertavam aquele desejo infantil de como seria legal se a gente pudesse voar. E então lembrei que há muito tempo eu não sentia mais esse tipo de desejo, justamente por que é infantil e eu não sou mais criança.

E então pensei no meu filho, ainda crescendo na barriga da Bê. Pensei em como ele vai passar por todas essas coisas. Em como ele vai sentir esse desejo na sua forma mais autêntica, sem compromisso com a realidade física do nosso mundo duro e pesado. Pra ele, voar vai ser sim uma possibilidade bem palpável. E então fiz um esforço para sentir a mesma coisa: olhei para a gaivota e pensei em como seria fantástico estar lá, acima de tudo, ao sabor do vento.

Quando meu filho olhar para a gaivota e voar com ela em sua mente, eu quero estar junto com ele.

Como falar inglês

“Art and creativity have always been a conversation between a human being and a mystery”

Essa frase é de um podcast do TED que entrevista Elizabeth Gilbert, a autora daquele livro “Comer, Rezar, Amar”. Eu ouvi isso no carro outro dia, mas não me lembro muito mais do que era o tema da entrevista porque, conforme a autora ia falando, eu acabei me distraindo com a forma que ela discursava sobre o tema. Há muito tempo eu não ouvia um inglês tão bem estruturado, tão eloquente e elegante.

E aí você se vê lá no fundinho da curva do efeito Dunning-Kruger, mais uma vez: quando você finalmente acha que aprendeu inglês, depois de quatro anos vivendo em inglês, vê que ainda falta muito pra você aprender inglês.

Os desafios de viver numa nova língua nem são exatamente difíceis, mas você tem que lidar com as coisas mais estapafúrdias possíveis. Por exemplo, quando cheguei ao Canadá eu tinha medo de falar ao telefone. É sério. Ouvir uma língua semi-desconhecida em áudio de péssima qualidade prejudicava muito o entendimento. Também vivenciei experiências traumáticas na fila do Subway (o restaurante, não o metrô), lotado e barulhento, com o atendente gritando o nome de todos os ingredientes que eu poderia botar no meu sanduíche, e eu sem entender absolutamente nada. Mas isso passa mais ou menos nos primeiros seis meses.

Aí você já começa a se soltar no trabalho e vem o segundo desafio: entender o inglês com sotaque. Quando eu achei que tava finalmente me acostumando com o sotaque indiano e asiático, entrou um escocês no meu time. Sabe quando você finalmente derrota o chefão no videogame, mas aí ele ressuscita com duas barrinhas de energia? Pois é.

Demora, mas você finalmente chega num nível aceitável de fala e compreensão. Mas minha meta era mais ousada, o que eu queria mesmo é domínio total da língua. Conversar com alguém e ser confundido com um nativo. Conseguir ler um livro e diferenciar um bom autor de um autor mediano. Entender poesia em inglês. Não basta zerar o joguinho, eu queria abrir 100% do mapa e coletar todos os bônus e fases secretas. Mas, meu amigo… o jogo é grande. O jogo é muito grande.

É preciso:

  • Aprender o peso e a cor das palavras. Seria amazing mais maravilhoso do que awesome?
  • Aprender as expressões idiomáticas que usam conceitos de coisas que você não necessariamente conhece. Se você não entende de baseball, não vai conseguir entender a metáfora das bases para indicar o nível de intimidade sexual, por exemplo.
  • Aprender a reconhecer os detalhes de intonação que ditam o fim das falas em uma conversa. Achei que só o mandarim tinha essa palhaçada…
  • Desaprender os significados implícitos que existem no português e não existem no inglês. Uma vez um amigo me ofereceu algo e eu respondi com um thanks (que, em português, num contexto onde você não aceitou fisicamente a oferta, significa “não, obrigado”). Ele ficou lá, parado, sem saber se eu queria ou não, até desfazermos o mal entendido.

E enquanto você bate cabeça com todas essas coisas, várias interações do dia-a-dia ressaltam ainda mais o tamanho do buraco que você está tentando preencher. Por exemplo, outro dia eu me senti confiante com a língua e fui tentar entender as letras de um gênio do rap chamado MF Doom:

Try the straight pliers, if not—the vice grips
A real price-saver way to acquire nice whips
What a steal for real on wheels of steel
Stunner, a funner summer number-one meal deal-bummer

Aí tu não entende nada, vai no Genius e vê que o verso acima fala sobre roubar carros, além de conter referências às paradas musicais do rádio e também aos combos do McDonalds, e vice grips tem o duplo sentido de ser uma ferramenta e uma referência ao domínio do vício, e what a steal é usado no sentido figurado (“uma pechincha”) e literal ao mesmo tempo… e não somente as frases rimam entre si como as sílabas também. MF Doom é uma espécie de Chico Buarque gangsta.

Mas o desafio final das músicas em inglês é o dancehall jamaicano. A Jamaica tem o sotaque mais incrível do caribe, pena que é absolutamente incompreensível. Sinta a poesia de Reggie Stepper no seu clássico “Cuh Oonuh”:

Set of satellite, oonuh set of munu-cunu
Set of idiot, oonuh set of damn tukoo
Set of masquerade, oonuh set of damn Junkanoo
A wha’ oonuh a try? A wha’ oonuh a try? A wha’ oonuh a try fi do?

Demora, mas chega um dia em que alguma coisa desperta no seu cérebro e você vai falar alguma coisa complicada e a frase simplesmente rola naturalmente da sua língua e você fica “peraí, como foi que eu fiz isso?”. Essa é a beleza do subconsciente: ele tá lá no fundão da mente, inacessível, mas a insistência na atividade consciente de botar a cabeça pra funcionar em inglês acaba, pouco a pouco, reprogramando também o subconsciente. Aí acaba aquele processo manual de “pensar em português -> traduzir -> falar em inglês”, e as frases começam a já nascer anglófonas. Isso seria lindo… se não tivesse o efeito colateral de estragar o português. É quando você começa a se pegar falando coisas bizarras do tipo “preciso salvar dinheiro pra consertar o carro”, ou quando demora meses pra conseguir escrever um post em português no seu blog. Não tem jeito: pra ir pro céu, tem que morrer.

Mas é bem provável que eu já esteja a caminho do céu. Quando penso na entrevista do “Comer, Rezar, Amar”, preciso considerar também o fato de eu conseguir distinguir o quanto o inglês da autora é bom. Saber da própria ignorância é também uma forma de saber, e isso é muito positivo. E aí é que está o detalhe crucial para aprender uma língua: se você só pensar no que não sabe ou no que não consegue, aprender se torna traumático; em contrapartida, quando o desconhecido desperta uma curiosidade, que quando resolvida gera uma satisfação, aprender se torna prazeiroso – e nossos cérebros adoram um prazerzinho.

Hoje mesmo eu tive um desses. Tem um show de hip-hop/beats da NTS que eu curto bastante chamado “Tuesday Trips”. Semana passada, NahhG, o cara que produz o show, postou no Twitter que o próximo show seria no dia do seu aniversário e pediu umas mensagens de voz com parabéns pra botar entre as músicas. Como esse ano eu adotei uma política pessoal de não economizar elogios pras coisas que eu gosto, mandei a minha. Tá lá no show dessa semana, bem na marca dos 50 minutos. Quando ouvi de volta a gravação, fiquei surpreso ao ver o quanto meu inglês – gravado rapidinho no celular, entre duas reuniões de trabalho – ficou excelente. Outra agradável surpresa foi que a gravação ficou coincidentemente posicionada logo depois de uma batida com samples de um funk carioca sobre “bucetada na pistola”…

Assim sendo, seguimos aqui nesta eterna sequência de pânico e alívio linguístico, aspirando pelo dia onde vou afirmar com segurança que, sim, eu finalmente atingi o nível máximo de domínio da língua – que é facilmente definido em português por uma das minhas frases preferidas: “eu manjo das putarias”.

Sobre espaço-tempo, buracos negros e visitas ao Brasil

Às onze da manhã do dia 22 de dezembro o avião finalmente tocou o solo do aeroporto de Guarulhos. Catei malas e mochilas e, no instante em que passei da porta do avião pra fora, sou recebido por aquela onda quente e úmida de trinta graus de calor paulistano. Meu corpo se retraiu todo. Olhei pro lado e Bethania estava suspirando, emocionada: “Ahhh que delícia!”.

Depois de quatro anos, eu estava de volta ao Brasil.

Quando expliquei aqui as razões que me fizeram abandonar o país, uma delas era a falta de afinidade com as coisas locais – incluindo o calor. Assim, meus trinta primeiros segundos de volta correram exatamente como eu esperava. Já o resto foi uma montanha-russa de coisas que ainda não sei bem definir direito.

Quando decidi me mudar foi bem fácil enumerar os motivos pelos quais eu achava que aquilo era a melhor coisa a se fazer. Voltar ao Brasil deixou bem claro o quanto essa reflexão havia sido incompleta. Começando pela minha premissa de que “você não é onde você mora”, ou de que eu estaria começando uma vida nova em outro lugar, ou – e principalmente – de que é preciso olhar pra frente e deixar pra trás o que passou. Eu analisei bastante o espaço, mas me esqueci completamente do tempo e de como ele espalha quem eu sou ao longo de quarenta anos. Eu sou o menino que cresceu em Belo Horizonte, o jovem que amadureceu em São Paulo, e hoje o adulto que vive no Canadá, todos ao mesmo tempo, irrevogavelmente unidos e coexistindo nessa dobrinha pessoal de espaço-tempo chamada eu.

Nos meus quatro anos de Canadá eu ignorei completamente – e intencionalmente – esse passado, achando que era assim que se adapta a uma nova realidade. Aí a gente foi comer um pão de queijo em Guarulhos e eu me peguei nostálgico ao ouvir a mocinha do caixa perguntar se eu queria “CPF na nota” (nem lembrava mais que havia isso). Cada coisa – das mais simples – que eu via ou ouvia ressuscitava anos de memórias esquecidas nos porões da minha cabeça. Andar pelo embarque de Guarulhos e voltar de Confins pela Linha Verde me lembrava os inúmeros voos da minha época de consultoria. As ruas de Beagá, então, eram prateleiras inteiras de incontáveis pedaços meus, todos voltando a cada esquina, a cada ladeira, a cada prédio onde um dia estive, ou até mesmo os que hoje deram lugar à farmácia ou supermercado. Por exemplo: a Igreja São José, no centro, não era só a igreja – era aquele domingo onde saí do meu plantão de suporte no provedor de internet onde estagiava e fui encontrar com a minha nova namorada, que foi acompanhar a avó na missa. Eu achava que era impossível se sentir em casa onde você não mora mais. Que bom que me enganei.


A programação da viagem era basicamente passar tempo com a família no Natal, mas havia uma coisa que eu decidi que queria fazer: visitar o túmulo da minha mãe.

Eu acho que nunca mencionei minha mãe aqui no blog. Ela tinha um personalidade enorme, um sorriso fácil e um amor infinito pelos filhos. Em 1993 ela foi diagnosticada com câncer de mama, e morreu cinco anos depois. Como a família na época era toda espírita, a crença é de que a morte não existe, e então não se falou muito mais sobre isso. Foi mais ou menos nesse período que eu comecei a enterrar minhas memórias. Mas, felizmente, quando você enterra coisas férteis elas acabam brotando novamente.

Voltar ao cemitério, mesmo décadas depois, foi trazendo o dia do enterro todo de volta. O lugar do velório estava lá, do mesmo jeito. Eu me lembrei dos parentes chegando, das flores, até do que minha mãe vestia (uma camiseta do Menino Maluquinho – a pedido dela) quando foi sepultada, mas quando penso no que eu sentia, a resposta é… nada. O mesmo “nada” que senti quando desliguei o telefone no dia anterior, quando meu pai ligou do hospital, para contar que ela havia morrido. Quando ouvi a notícia eu fiquei sem reação por alguns segundos, com a cabeça sobrecarregada, e então alguma coisa se arrebentou dentro de mim, e sobrou apenas o nada. Um buraco negro no meu espaço-tempo pessoal. Um nada tão grande que eu nunca chorei a morte dela, até hoje.

Essa volta ao Brasil me despertou incontáveis memórias em praticamente todos os lugares onde estive. Mas quando me vi novamente de pé, sobre o túmulo dela, na semana passada, eu não senti… nada.

Bom, parece que este pedaço meu eu vou ter que resgatar de outro lugar.


Na quinta de manhã o meu voo de volta finalmente pousou em Toronto. No instante em que pisei fora do avião, fui recebido pela brisa seca de Dezembro em seus zero graus. Fechei os olhos, respirei fundo, e disse baixinho para mim mesmo, sorrindo, enquanto expirava:

“hell yeah”.

Retrospectiva 2018

O que dizer desse ano que mal passou e já considero pacas?

Posso começar dizendo que esse ano viajamos bastante. Além do Japão, passamos uma semana no México, para fugir do inverno. Fomos naquele esquema de resort com tudo incluído e, três dias de resort depois, concluímos que esse não é o nosso esquema, alugamos um carro e saímos passeando por conta própria. É assustador o quanto o México não-turístico é idêntico ao Brasil – enquanto eu dirigia na estrada para Playa Del Carmen eu podia jurar que estava no Recife, na BR 101.

Uma das coisas que tentamos fazer foi ir à Cozumel, mas o destino não deixou. Eu cheguei a comprar a passagem da balsa pra ir pra lá e, na véspera, enquanto googlava um pouco das notícias locais, vi uma delas contando de quando a balsa explodiu… “que coisa, deixa eu ver quando foi isso”, pensei, achando que se tratava de uma notícia antiga. Aí vi que a matéria era do mesmo dia…

Depois de remarcarmos a passagem (em outra balsa, naturalmente), finalmente embarcamos pra ilha e, na hora de desembarcar, a minha ressaca mais desidratação bateu de repente e eu simplesmente desmaiei. Bethania, coitada, quase surtou. Tudo que vimos de Cozumel foi o porto, enquanto eu me recuperava pra voltarmos. Agora, vou ter que aguentar a gozação da Bê toda vez que entramos num barco: “tá tudo bem aí né? não vai desmaiar dessa vez?”.

Além de visitar os good hombres da América Central, fizemos um bocado de passeios de carro – vários em Ontário mesmo, e também um feriadão onde dirigimos 800km até Chicago, que é absolutamente incrível. A viagem foi toda errada: teve bate-boca com a locadora do carro, teve o fato de que estava tendo a famosíssima Maratona de Chicago quando chegamos lá (e não sabíamos) e tava tudo interditado, teve chuva, era pra ter sido um saco e foi fantástico.

O aniversário da Bê este ano foi no lugar predileto dela: Nova Iorque. Essa deve ter sido a nossa quinta vez em NYC e ainda tem tanta coisa pra fazer por lá que vamos voltar muitas outras vezes ainda.

E, pra fechar o ano, estou prestes a fazer uma coisa que eu não faço há quatro anos: visitar o Brasil. Sendo bem sincero, eu não tenho a menor vontade de ir ao Brasil. O principal motivo que me faria voltar – matar saudade das pessoas – nem conta, já que, felizmente, família e amigos vem nos visitar frequentemente. Outro dia eu fiz a conta e, em média, tínhamos visitantes aqui em casa de três em três meses. Só estamos indo dessa vez por motivos familiares mesmo, e eu ainda estou sem saber como vou me sentir por lá. Por todos os motivos que já detalhei exaustivamente por aqui, ir pro Brasil me parece algo como visitar uma ex-namorada.


Se você se incomodou com esse último parágrafo, eu entendo. Eu me mudei há quatro anos, e a cada ano que passa eu continuo saindo mais e mais do país. A internet permite que eu continue tendo contato com todo mundo que ficou, e o que parece uma bênção tem se transformado lentamente, dolorosamente, em uma eterna despedida de aeroporto. Cada whatsapp onde você vê que não está mais ali é mais um aceno de alguém querido, vendo você entrar na fila do embarque. As eleições só pioraram as despedidas. Mas é natural, é a vida no Brasil se ajeitando sem sua presença. E o mundo gira indiferente à tudo que é especial pra você.

Uma das coisas que nenhum post de blog, nenhum guia de imigração, nenhum livro sobre multiculturalismo me ensinou foi que ser um imigrante significa não pertencer, de fato, a lugar nenhum. No trabalho tem um grupinho fechado no Slack (o programa de mensagens que a gente usa) onde o pessoal combina a cervejinha de quinta-feira. A esmagadora maioria dos nossos grupos sociais aqui no Canadá são outros brasileiros imigrantes, mas esse do trabalho é diferente porque a maioria é nascida e criada por aqui, então o happy hour de quinta é uma oportunidade especial de conviver com o “Canadense da gema” em seu habitat natural. Por mais que eu tenha me integrado bem nesse ambiente, tem sempre aquele momento da noite onde o assunto baldeia para alguma coisa que só os nativos entendem e você bóia na conversa porque não passou a adolescência ouvindo Tragically Hip (a “Legião Urbana” local), ou você não passou pela famosa tempestade de gelo de 2012 onde Toronto inteira ficou sem luz elétrica por dias, ou algo assim.

É o preço que se paga.


Já que o post entrou nas vibes pesadas, falemos da depressão que eu comentei aqui anteriormente. Felizmente, tudo continua sob controle, mas eu continuo estudando minuciosamente a minha própria cabeça pra entender o que influencia o problema. Um fator que tem se mostrado cada vez mais crucial é a meditação, que ganhou até um post só pra ela. No meu caso, ela é incrivelmente efetiva. Até me dei de presente de natal o livro “The Mind Illuminated” (“A Mente Iluminada”, ainda sem tradução para o português), que é escrito por um PhD em neurosciência (!!) que se aposentou da academia e hoje é, digamos, um “monge budista faixa-preta”. Esse approach científico do assunto me pareceu bem interessante: segundo ele, há uma forte correlação entre os estados mentais descritos pela bioquímica cerebral e os estados mentais descritos pelos adeptos da meditação. Mas não acredite nele; melhor seguir um conselho do próprio Buda:

Não acredite cegamente no que digo. Não creia porque outros convenceram você. Não acredite em nada que vê, lê ou ouve de outras pessoas – sejam elas autoridades, religiosos, ou seus textos. Não dependa somente da lógica, ou da especulação. Não julgue pelas aparências, nem seja enganado por elas. Não abra mão da sua autoridade e siga a vontade dos outros às cegas. Isto leva apenas à desilusão. Descubra por sua conta o que é a verdade, o que é real.

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O Primo recomenda: meditação

O “mascote” do fórum sobre meditação no Reddit

Nas minhas muitas noites insones, googlando coisas sobre saúde mental, reparei que meditação aparecia em várias listas de possíveis tratamentos para depressão e ansiedade. Vi, inclusive, revisão de literatura científica sobre os benefícios de meditar, com tudo apontando para uma considerável redução dos sintomas depressivos. Então, resolvi me comprometer a fazer pelo menos as 10 sessões grátis dum aplicativo de meditação guiada (o Headspace – mas há opções em português), só pra ver como é. Afinal, eu não tinha nada a perder: iria custar zero reais e consumir apenas dez minutos do meu dia.

Quando comecei, além de uma certa descrença de que ia fazer alguma diferença, eu também tinha todas aquelas dúvidas comuns de quem não conhece/nunca tentou meditar: é só isso mesmo, sentar e se concentrar na respiração? E se eu não conseguir sossegar meus pensamentos? E se eu não conseguir ficar sentado sem minha perna ficar dormente? E se der uma coceira maluca nas costas no meio da sessão? E se o único tempo que eu tiver for no metrô indo pro trabalho? Curiosamente, as respostas que eu achava para todas estas perguntas era sempre a mesma: “não tem problema”. No início eu achava isso meio largado demais, achava que as sessões tinham que “dar certo” e que eu tinha que conseguir me sentar sem incômodos ou distrações e ficar 100% do tempo não pensando em nada. Mas resolvi confiar nas instruções e continuei fazendo as minhas sessões porcas, tentando concentrar apenas na minha respiração, vendo a minha cabeça resolver relembrar todas as falas do filme Matrix no meio da sessão por 200 vezes e tendo que voltar a focar na respiração 200 vezes. Porque é isso que os guias de meditação que eu li dizem que você tem que fazer quando se distrai:

Devido ao hábito, os pensamentos seguramente invadirão sua prática. Quando surgirem, apenas libere-os ao expirar, sem se identificar com eles, sem responder emocionalmente a eles. Observe o pensamento emergir, passar diante de você e depois desaparecer. Então, deixe que sua atenção repouse, não entorpecida e preguiçosa, mas à vontade.

E aí aconteceu o que sempre acontece quando você faz uma coisa muitas vezes: você fica bom naquilo. Graças à minha mente muito distraída, eu acidentalmente acabei me treinando a largar distrações. Além disso, no processo de largar esses pensamentos, você também aprende a simplesmente observar o que acontece na sua cabeça sem fazer juízo de valor (“sem se identificar com eles, sem responder emocionalmente a eles”), e isso torna o processo de conviver consigo mesmo incrivelmente mais leve. Aí a ficha caiu: é por isso que “não tem problema” se distrair duzentas vezes numa sessão, ou perder a concentração porque a gata tá arranhando a porta do quarto ou porque sua perna direita está toda dormente. O lance é aproveitar esses problemas pra treinar como se dissociar deles. O grande barato da meditação não é não pensar em nada, e sim aprender a postura certa pra lidar com as coisas que você pensa. O importante não é o destino, e sim a jornada.

Quando as 10 sessões grátis do aplicativo acabaram eu, como era de se esperar, continuei o hábito por conta própria. Todo dia de manhã eu acordo, tomo um banho, e medito por vinte minutos, inclusive nos finais de semana. Os efeitos disso são bem notáveis, dá pra perceber que alguma coisa no meu cérebro andou se reorganizando. A minha concentração no trabalho, por exemplo, ficou meio “sobrenatural”; eu consigo me manter focado por muito mais tempo – o que vale ouro pra quem trabalha com software. O meu sono não mudou de quantidade, mas parece ter ficado mais… eficiente. No início eu andei tendo uns pesadelos muito esquisitos, mas foi coisa de uma semana e acabou passando – talvez efeito da tal reorganização cerebral. Na hora de dormir ficou bem mais fácil pegar no sono, mas às vezes a insônia ainda bate e eu acordo lá pelas três, quatro da manhã, e acabo desistindo de tentar voltar a dormir e vou meditar às cinco… e mesmo assim não fico sonolento o dia todo. E se eu dou aquela dormidinha esperta de meia hora no trem, ao voltar pra casa, eu fico novo em folha. E o meu humor e disposição geral pras coisas está de volta ao normal. A vida voltou a ter gosto.

Claro que esse é o meu caso pessoal, e pode ser que você experimente e não seja essas coisas todas pra você, mas no meu caso fez muita diferença. Acho demais que todo mundo devia tentar, afinal, basta se sentar, fechar os olhos e… respirar.

TNT, Sete Lagoas, e isolamento musical

Hoje o TNT, o famoso álbum do Tortoise, fez 20 anos.

Eu ouço música todo santo dia. Muita música. Meus ouvidos de quase 40 anos devem ter dezenas de milhares de álbuns no seu odômetro, fácil fácil. E se você me perguntar qual álbum eu levaria para uma ilha deserta, é o TNT.

O TNT me lembra uma história de quase duas décadas atrás. Eu estava em Sete Lagoas, terra natal do meu pai, com o primo que indiretamente dá nome a este blog e cujo gosto musical é bem parecido com o meu: “esquisito”, na nomenclatura das pessoas normais. Como Sete Lagoas é uma cidade do interior, musicalmente ela é dominada pelo mainstream, sertanejo e similares, mas naquele dia a banda brasileira mais irmã do Tortoise que existe, o Hurtmold, ia tocar na cidade. Graças à minha fissura com backups e curadoria digital, o registro desse dia tá aqui no blog também. O que não tá registrado é um detalhe que me lembro até hoje. Enquanto esperávamos o show, alguém botou pra tocar o TNT.

Ironicamente, música é um negócio que eu amo profundamente, mas que me isola de todo mundo. É que não dá pra chegar no trabalho e falar “cara, tu já ouviu o mix do Sakamoto na NTS onde ele toca até uma do Dilla?”. Eu ainda não decidi como me sinto com isso, ou se deveria tentar sair da minha bolha e procurar outras pessoas com gosto musical parecido pra compartilhar mais e tornar a experiência menos introvertida. E é por isso que eu me lembrei do TNT tocando em Sete Lagoas antes do show do Hurtmold – naquela tarde eu estava ouvindo um dos discos mais importantes da minha vida com um monte de outras pessoas. 

A Bê costuma dizer que música pra mim não tem vínculo com memória afetiva, que eu busco é criatividade e inovação sonora. Essa parte da criatividade é muito verdade, mas eu tenho sim meus vários momentos de memória afetiva vinculados à música. Por exemplo, ouvir Fennesz e Cocteau Twins me lembra imediatamente dos meus projetos de consultoria no interior de São Paulo (Windturn City, alguém lembra?). Me lembro, inclusive, de ouvir o Donuts, o disco mágico do J Dilla – aquele que mencionei ali atrás – numa das minhas viagens semanais de quatro horas de ônibus pra chegar no trabalho; me lembro até hoje do buzão cruzando a Dutra e eu sentado na janela, maravilhado com a ingenuidade despretensiosa nos meus fones. E o TNT me lembra aquela tarde em Sete Lagoas. Me lembro de olhar em volta e ver todo mundo, sem exceção, curtindo a música – que de fato calhou perfeitamente pra uma tarde de sol e boa música entre amigos. E, principalmente, me lembro de me sentir no meu mundo musical, mas sem estar isolado do mundo.

Retrospectiva 2016

É bem possível que o blog se transforme em um “arquivo de retrospectivas” – é a única coisa com alguma previsibilidade por aqui.

Mas tem motivo: reler as retrospectivas anteriores ajuda a dar perspectiva de como a vida vai. E de fato ela “vem em ondas, como mar”. Em 2009 as coisas não pareciam muito boas, dado que eu descrevia o ano como “vazio, ácido e difícil”. Já em 2016 foi o extremo oposto: foi um ano cheio, saboroso e recompensador. Dá até vergonha falar tão bem do ano que absolutamente todo mundo detestou.

O melhor de 2016: Trudeau disse “sim”

O ponto alto do ano foi, sem dúvida, receber o e-mail abaixo: a confirmação de que, sim, agora somos residentes permanentes no Canadá.

Você deve ter notado que o e-mail é endereçado à Bê… é que ela é quem foi a aplicante principal dessa vez, já que, com mestrado e um ano de trabalho no Canadá, a pontuação dela era muito melhor que a minha. “Fui eu quem conseguiu a nossa residência permanente!”, ela fica se gabando. Vou ter que aguentar ouvir isso o resto da vida – o que farei feliz e infinitamente grato. É libertador o alívio que dá não ter mais uma contagem regressiva no meu passaporte e finalmente ganhar todos os direitos do imigrante, como trabalhar sem restrições de tempo/local, ter acesso total à saúde pública daqui e poder reclamar do Maple Leafs perdendo no hóquei.

Outra coisa boa resolvida este ano: acabou a faculdade. Sinceramente, eu não aguentava mais, pelos motivos que expliquei no post anterior. Eu sonhei bastante sobre como seria meu último dia de aula, fiquei com vontade de sair da sala e fazer o Ai Weiwei em frente à escola, mas eu estaria sendo injusto com o lugar que, apesar dos percalços, serviu de degrau pro lugar onde estou hoje. Então apenas entreguei meu último trabalho e fiquei alguns minutos vendo a neve cair enquanto a Bê chegava pra me buscar.

Detalhe: é um troço bobo, mas tenho orgulho das minhas notas. Vou concluir o curso com honors e um GPA (a média daqui) de 4.2 em 4.5.

Ainda não liberaram a maconha, mas já estamos viajando

Mas nem tudo foi estudo. Em setembro, no começo do último semestre, eu matei uma semana de aula para viajar para Banff, na província de Alberta. Quando fui pedir uns dias de folga pro chefe, a resposta dele foi: “eu jamais impediria alguém de viajar para Banff”.

Chegando lá ficou fácil entender porquê. A foto abaixo não é nenhum ponto turístico, é apenas uma foto do meu celular no meio da estrada.

Nunca falei tanto palavrão olhando pra paisagens quanto em Banff. Mesmo com tempo nublado em todos os dias, tudo que a gente via era “putaquepariu que lindo”, “caralho que foda isso”, etc. As fotos não fazem justiça ao quão lindo é aquele lugar.

Essa é uma das melhores coisas de morar no exterior: as viagens. Como praticamente tudo ao seu redor é novo, até mesmo uma viagem curtinha de carro fica super interessante. Como a que fizemos em fevereiro, uma road trip para St. Catherines, onde ficamos num AirBnb fazendo boneco de neve no quintal.

A gente viajou um bocado esse ano – e, curiosamente, mais no outono e no inverno do que no verão. O que de certa forma faz sentido, já que nos meses quentes temos o “lado B” de Toronto. A cidade vira outra: todo mundo está nas ruas e nos parques, tem um monte de coisa acontecendo na cidade, simplesmente não dá pra não aproveitar. E, ao contrário do que muita gente pensa, no inverno tem muita programação pra fazer ao ar livre – só precisa de mais roupa.

Piquenique na Toronto Island

Com tanta viagem e dia de verão nem dá tempo de ter saudades do Brasil. As visitas também contribuem para isso; andei fazendo as contas e em 2016 não passamos nem três meses seguidos sem receber alguma visita brasileira, seja família ou amigos.

Mas não se pode ter tudo; conforme entram as novidades e alegrias, algumas coisas inevitavelmente vão ficando pra trás.

As distâncias e as perdas

O meu tempo por aqui acabou fazendo aflorar um tipo novo de distância – uma distância ideológica, e essa não há visita que supere. A coisa é complicada e tentar explicá-la vai acabar me rotulando como prepotente, mas o resumo da história é que, ao olhar o Brasil se transformando – como aconteceu com a crise toda de 2016, você vê a coisa de um jeito se estiver de dentro, e outra completamente diferente se estiver de fora. Quando as visitas brasileiras chegavam e o assunto era o Brasil, por exemplo, eu não entendia várias opiniões da conversa, e as minhas opiniões também não eram lá muito bem entendidas. No fim, achei por bem parar de acompanhar as notícias brasileiras e de opinar sobre elas nos WhatsApps e Facebooks da vida. Como diria a finada (e amada) avó da Bê, “o silêncio é a base da prosperidade”.

Por outro lado, um entendimento que melhorou ainda mais esse ano foi o do inglês. A transformação do cérebro quando confrontado com uma vida bilíngue é simplesmente fascinante: quando eu saio pra andar com o cachorro e penso na vida, os pensamentos agora saem numa mistura maluca de inglês com português que does not make sense mas que funciona beautifully. Ano passado a cachola ainda sofria pra alternar entre o português e o ingles, e a boca ainda engasgava entre os dois modos de falar. Hoje é bem mais natural.

O lado ruim dessa história é que isso é o começo de um lento e inevitável adeus ao português. Eu nem tinha reparado, mas escrevi este post seguindo, inconscientemente, o detestável esquema da “redação hambúrger” que aprendi ano passado num dos cursos da faculdade – especialmente a regrinha de que cada parágrafo deve começar com uma “frase-sumário” e depois discorrer sobre ela. É que o inglês é uma língua quadrada, dura, porém eficiente, seguindo fielmente sua raiz germânica, enquanto o português tem, literalmente, uma raiz “romântica” (ou seja, do romano/latim), e isso lhe confere uma expressividade inacreditável. E é isso que todos os meus textos em português vão perder lentamente ao longo dos anos. Vou sentir saudade de usar frases deliciosamente ingênuas, profundamente expressivas e inegavelmente brasileiras no meu dia-a-dia, como por exemplo, dizer que “esse cara manja dos paranauês”.

Conclusão – ou, “quem não planeja, é planejado”

Quem me conhece sabe que eu sou bom de planejamento. Quando fomos pra Banff, por exemplo, eu montei um cronograma da viagem inteirinha, dia a dia, com hora de início e fim de todos os itens da programação*. Meus amigos começaram a viagem me zoando… e terminaram me agradecendo.

Há dois anos, quando decidimos vir pro Canadá, é claro que tinha planejamento de longo prazo. A meta de 2016 era eu me formar já com algum emprego engatilhado para 2017, e depois conseguir residência permanente só lá pra 2018. O emprego garantido veio seis meses antes do previsto, e a residência permanente veio anos antes do previsto.

Para 2017, com a residência estabilizada por aqui, ficam liberados os planos nórdicos de longo prazo, como comprar imóveis e tal. Considerando que não tem inverno no mercado imobiliário daqui – ou seja, os preços estão pegando fogo – ano que vem provavelmente teremos um repeteco da mesma novela que foi a compra do meu apê de São Paulo (que, por sinal, estamos vendendo, viu?). E tem também uma “meta secreta”, que será revelada no momento apropriado 🙂

* – O segredo pra um bom cronograma de viagem são duas coisas: encher os prazos de “gordura”, alocando o dobro ou triplo do tempo pra cada coisa, e deixar espaços para acomodar mudanças de roteiro. Planejamento não é pra ser seguido à risca, isso é lenda. Planejamento é para servir de referência na hora de mudar de rota, porque a única certeza que você pode ter sobre o futuro é que você vai ter que mudar o planejado. E quanto às gorduras no cronograma, como diria o meu grande mestre de gerenciamento de projetos, ainda na minha época de consultoria… “cronograma sem margem de erro já nasce atrasado”.

Retrospectivas anteriores:

2015 – 2014 (não teve)2013 – 2012 2011 2010 2009 (b) – 2008 2007 2006 2005

A saga do community college canadense

Essa é uma boa vantagem de se mudar pro exterior: todo mundo acha que você está no topo do mundo, acendendo charuto com nota de 100 dólares e tal. Quando eu falo que vim “estudar fora”, nêgo acha que fui fazer mestrado em Harvard. Na verdade, eu fiz um curso que não vale nem um bacharelado em uma escola que não é nem uma faculdade. 

Bem-vindos ao mundo do community college!

Prólogo: Como assim “community college”?

community college é tipo uma “meia-universidade”. É um conceito difícil de entender porque não tem equivalente no Brasil. Na terra da Dilma do Temer, mesmo que você estude numa uniesquina da vida, no fim tu ganha um diploma e recebe o grau de bacharel, reconhecido pelo MEC e tudo. No caso do college, ele te dá um título de “meio-bacharel”, já que o curso tem metade da duração (2 anos). Pra piorar a confusão, o título que o aluno recebe no final chama-se… diploma.

Meu caso é menos pior: como meu curso tem 3 anos, no fim eu receberei um glorioso… (soem os tambores)… advanced diploma de engenharia de software. E como eu já tenho um bacharelado, eu consigo completar o curso em 2 anos e ainda fazer dois semestres de estágio (o tal do co-op que já comentei aqui).

O público-alvo do community college é, basicamente, a sobra do público-alvo das universidades – gente que não passou, que não consegue pagar, etc. Por isso, quando me matriculei, já vim esperando o pior.

O curso termina semana que vem e, depois de seis semestres, posso afirmar que minhas expectativas foram totalmente superadas… para pior, obviamente. Pra vocês sentirem o drama, vou contar pra vocês os causos separados por curso.

Curso: “Comunicação acadêmica”
Proposta do curso: Ensinar inglês no contexto acadêmico, como escrever relatórios, etc.
O que aprendi: Como provar que não colei ao escrever minha “redação-hambúrguer”.

No meio do semestre, o professor sorteou uns temas e deu um trabalho de pesquisa pra fazer em casa. Coisa séria, tinha que escrever cinco páginas no “padrão ABNT” daqui, citar outros textos, troço cheio das nove horas. Como eu gosto de escrever (e de padrões), fiz um textão fuderoso, formatei impecavelmente, e mandei.

Na semana seguinte, chega um email do professor me chamando pra uma reunião com ele antes da aula. O email não mencionava o motivo nem nada. Achei esquisito, mas confirmei. Chegando lá, o cara me solta a bomba…

– Então, como você bem sabe, a minha turma só tem estudantes internacionais e eu sei que o nível geral de inglês é bem básico…

“Bem básico” é elogio – muita gente na minha turma simplesmente não conseguia se comunicar em inglês. Sem exagero: se o prédio pegasse fogo e a pessoa precisasse discar 911 pra pedir socorro, ela morreria queimada. Mas o meu college não quer perder matrículas, então aceita esse povo mesmo assim.

O professor continuou:

– Eu recebi as redações da turma e não entendi nada, porque praticamente todas elas vieram com um inglês impecável. Então estou achando que não foram eles que escreveram. A sua redação, particularmente, estava muito boa, então eu preciso que você me prove que foi você mesmo que escreveu.

E aí ele me fez um monte de perguntas sobre o tema, sobre por que eu escrevi o que escrevi, e acabou convencido. O resto da turma ficou com zero e levou um belo torra.

Essa história da cola – ou “desonestidade acadêmica”, em termos mais educados – é uma das coisas que mais me incomodou.

Curso: “Negócios e tecnologia da informação”
Proposta do curso: Ensinar tudo aquilo que todo bom programador não se interessa em saber.
O que aprendi: Tudo sobre náutica e sobre o mercado imobiliário de Toronto.

Bob, o professor deste curso, ficava se gabando o tempo todo de ser o coordenador do curso de Gerenciamento de Projetos da Universidade de Toronto (a “UFMG” ou “USP” daqui, em termos de reputação). No entanto, todas as aulas do Bob se resumiram a:

  • Bob contando que tem um barco e de tudo que faz com o bendito barco.
  • Bob contando de quando ele trabalhava na Xerox em 1980.
  • Bob contando que vendeu a casa e comprou um apartamento.
  • Bob contando que tem uma namorada – que também vendeu a casa e comprou um apartamento.
  • Repita os assuntos acima até a exaustão.

Mas o mais legal foram as provas que fizemos, que tinham uma inovação surpreendente: questões repetidas. O cara reaproveitava questões de provas passadas nas provas seguintes. Não era nem uma paráfrase – as questões eram idênticas. E, pra melhorar ainda mais: as questões eram todas copiadas da internet, do site da editora do livro que ele (não) usava no curso.

Eu parei de assistir a aula do Bob logo no primeiro mês do curso. E fiquei aliviado de não ter torrado dinheiro e tempo na Universidade de Toronto…

Curso: “Conceitos avançados de bancos de dados”
Proposta do curso: Ensinar conceitos básicos de bancos de dados.
O que aprendi: Sempre pode piorar.

Esse curso foi tão ruim, mas tão ruim, que no lugar das minhas anotações de aula eu fiz uma lista das cagadas do professor, pra reclamar depois. Saca só a lista:

  • Numa aula, ele projetou uma lista com uns 25 itens sem o menor sentido e falou: “isso é o trabalho de conclusão de curso de vocês”. Depois, ao invés de mandar pra todos uma cópia da lista, ele mandou a gente anotar manualmente os itens, porque assim a gente seria “forçado a prestar atenção neles”. Na semana seguinte, como ninguém tinha entendido o que ele queria que fizéssemos, uns alunos foram tirar as dúvidas com ele. Ele ficou furioso: “mas eu já falei!!!”
  • Numa aula prática, ele deu pra turma uns 10 exercícios… todos com a mesma resposta. Pra piorar, o enunciado das questões era algo tipo “escreva uma consulta para extrair dados da tabela XYZ”. Adivinha se ele deu pra gente a estrutura e/ou o conteúdo da tabela XYZ?
  • Vários exercícios de “extraia os dados do banco de dados” não tinham resposta ou a resposta era um conjunto de dados vazio, tipo, “escreva uma consulta para calcular o total de vendas do usuário John Smith”, e a tabela de dados nem tinha um John Smith.
  • Várias aulas terminaram mais cedo porque ele olhou pra turma e falou: “vocês estão com cara de cansados”.
  • No meio do curso ele inventou de usar uma ferramenta da Adobe para aulas online. Aí ele passava metade do tempo da aula configurando a ferramenta, enquanto a gente olhava pra parede. Na segunda metade da aula o troço não funcionava e, quando a gente questionava, ele respondia: “vai digitando aí!”.

Curso: “Tecnologias emergentes”
Proposta do curso: Falar do que há de mais recente no mercado de software. Só que o professor usava slides com dados de 2001…
O que aprendi: A pagar o pato da turma que fica copiando trabalho.

Quase teve guerra civil nesse curso. Logo no começo do semestre o professor deu um trabalho em grupo pra turma, e obviamente a cola foi desenfreada. Por algum motivo eu me esmerei muito mais do que o normal com esse trabalho e entreguei o código-fonte mais lindo da minha vida, um primor de software, Bill Gates ficaria orgulhoso.

Na semana seguinte da entrega do trabalho, o professor mandou um e-mail cabeludíssimo pra turma toda, dizendo que tinha analisado minuciosamente todo mundo que colou e que ia mandar os nomes todos pra coordenação do curso caso as pessoas não assumissem a cola. Nem precisa dizer que eu fiquei rindo até a orelha quando vi esse e-mail.

Minha alegria durou só até o dia da próxima aula. O professor voltou atrás do nada e decidiu que, como tinha muita cola, ele ia cancelar o trabalho e redistribuir os pontos de outro jeito. Eu quase surtei – juntamente com a outra meia dúzia (literalmente) de gente que tinha feito o trabalho honestamente, e só depois de muita briga com o bendito do professor é que ele aceitou manter as coisas como estavam.

Cursos: “Integração de sistemas” e “Data warehouse”
Proposta dos cursos: Não sei, parei de me importar com isso.
O que aprendi: A ignorar o fato de que eu paguei o salário desses professores inúteis com o dólar a R$ 3.

Esses foram, de longe, os “melhores dos piores” cursos. Toda semana tinha uma aula teórica e uma aula prática, cada um com um professor. O da teoria chegava na aula atrasado, projetava o primeiro slide, depois tergiversava o resto da aula sobre como esse conhecimento é importante para o mercado, que os salários são ótimos, que a gente tinha muito que aprender aquilo… basicamente, passava a aula falando que o conteúdo era muito importante e não explicava a porra do conteúdo. Aí a aula acabava, ele notava que não passou do primeiro slide, e mandava o povo ler as coisas em casa.

Um dia ele deu uma prova e eu fiz uma pergunta sobre uma das questões. A resposta dele foi rir da minha cara – literalmente – e dizer que “se eu prestasse atenção nas aulas eu saberia”. Eu escrevi uma reclamação formal no papel da prova, dizendo que essa não era a postura que eu esperava de um professor. Ele me respondeu por e-mail alguns dias depois, reclamando que a culpa era minha de ficar o tempo todo no laptop durante as aulas.

Detalhe: o laptop é porque, ao invés de usar lápis e papel, eu faço as anotações das aulas no Evernote. Ou melhor, fazia, porque depois dessa palhaçada eu desisti de frequentar as aulas desse cara.

Ah, e tem o professor da aula prática, que era ainda mais perdido – mas perdido no nível de confundir o dia/horário da aula e simplesmente não aparecer, e de quando aparecer, entrar na sala e perguntar “o que eu tenho que ensinar hoje mesmo?”.

Mas é tudo choro e ranger de dentes nesse seu curso?

Apesar da maior parte dos professores serem desastrosamente ruins, os bons deram cursos bem produtivos. Nunca vou me esquecer da primeira aula de programação de jogos pra web, por exemplo: logo na primeira aula o cara botou a gente pra usar umas DEZ ferramentas/linguagens/tecnologias diferentes logo na primeira meia hora de aula – basicamente, ensinando a coisa mais importante em desenvolvimento de software: ficar confortável quando tu não tem a menor idéia do que está fazendo.

Teve também um professor de “APIs e microsserviços” que protagonizou um dos momentos mais satisfatórios do curso. No final do semestre ele resolveu que, ao invés de uma prova final, a turma faria um projeto de software e teria que integrar umas três tecnologias diferentes e demonstrar no último dia de aula. A turma foi praticamente toda contra, com a desculpa de que já tinha “trabalhos demais”, mas o motivo real deles quererem a prova é que ela é mais fácil pra colar…

Quando o professor anunciou o trabalho, um dos alunos – obviamente um dos grandes coladores – fez uma cara de coitadinho e um discurso triste de que ele tinha num-sei-quantos trabalhos pra entregar nas próximas semanas.  O professor deu a resposta mais linda de todas:

Amigão, o choro é livre. Imagina se você tá no trabalho, seu chefe chega pra você e fala ‘cara, eu preciso que você faça um projeto integrando esse e esse sistema, é pra daqui a duas semanas’. Você vai virar pra ele e falar ‘ah cara, não quero fazer isso não, será que tem como você me dar uma prova ao invés disso’?”

Entre todos os alunos com quem convivi, salva-se só algo tipo 2% da turma. Destaque para – sem bairrismo, juro! – a turma da américa do sul e da américa central: 

  • Fui fazer um trabalho de Java com uma venezuelana e empaquei numa parada maluca que o professor não sabia explicar e cuja documentação online parecia grego. A menina ficou acordada até as três da manhã só pra resolver o negócio.
  • Tinha também o “mexicano mágico”: no grupo do curso de Android eu estava fazendo o papel de “arquiteto de software” e volta e meia eu soltava umas ideias meio vagas, tipo “isso aqui devia ser um singleton” ou “podíamos usar Retrofit nessa integração”. O cara pegava essas frases soltas e, sem pedir explicações, aprendia as paradas por conta própria e, alguns dias depois me aparecia com os troços lindamente integrados no projeto e funcionando redondinhos.
  • Num dos meus empregos de meio-período, na escola mesmo, trabalhei com uma brasileira que fazia o design das telas do sistema e eu implementava. Normalmente, designer costuma ignorar a parte técnica, pedir uns troços impossíveis de implementar e depois reclamar que não tá bom. Essa menina era o oposto – ela lia a documentação técnica do projeto, entendia o que era possível ou não e só depois desenhava. Chegava a escorrer uma lagriminha de alegria quando ela me mandava um layout novo…
  • Por fim, o melhor programador que conheci ao longo destes dois últimos anos por aqui foi um colega paulistano. Trabalhei com ele num projeto onde deram pra gente um sistema antiquado e pediram pra acrescentar um monte de novas funcionalidades. O cara sugeriu reescrever o sistema do zero usando uma tecnologia mais moderna. Pra provar que essa seria a solução mais eficiente, refez o sistema inteiro… em DOIS DIAS.

Epílogo – Valeu a pena?

Bom, esse calvário todo foi a forma que eu escolhi pra me atualizar pra trabalhar de novo com software sem quebrar (muito) as minhas economias, usar os estágios pra pavimentar o caminho pra um bom emprego, conseguir um visto de trabalho pra digníssima e também os futuros requisitos pra residência permanente. E todos os objetivos foram cumpridos.

Pensando racionalmente, acho que a minha decepção é um tanto quanto injusta. Eu não podia mesmo esperar educação nível MIT pagando o preço de Uniesquina. No entanto, não sei se recomendaria esse mesmo caminho para outras pessoas. Talvez valesse mais a pena economizar mais um bocado e pagar por um mestrado ao invés de outra (meia) graduação.

Mas o que importa é que deu certo, estou plugado de novo na Matrix, e não pretendo mais tomar a pílula azul.

Velhice e videogames

Envelhecer é uma experiência bem… interessante. Você fica melhor em um monte de coisas, em outras você fica pior, e com certeza você fica assustado ao ver o tanto que agora precisa rolar o mouse no campo “ano de nascimento” ao preencher um formulário online.

Outro lado ruim da idade é que o mundo começa a ficar realmente entediante, porque você percebe que as novidades de hoje raramente são, de fato, novidades, e sim as mesmas coisas de décadas atrás, só que disfarçadas com outro nome. Você olha pros hipsters e vê exatamente o que o seu pai e sua mãe usavam nas suas fotos de infância. Os filmes reciclam infinitamente as mesmas histórias de “o bem vence o mal”, “o casal sofre mas fica junto no final”, “o herói quase morre mas no fim explode tudo e ainda dá um beijo na mocinha”, etc, etc. Os heróis dos seus livros e quadrinhos (que ainda eram de papel) da infância surgem no cinema, em reboots e mais reboots, como se Hollywood fosse um grande computador com defeito. Na música, então… você finalmente entende porque Cazuza falava do “futuro repetindo o passado”, do “museu de grandes novidades”.

E se você envelhece mas continua jogando videogames, aí meu amigo… aí a rebordosa é ainda pior, porque além do repeteco de histórias você tem também o repeteco de mecânicas e artifícios de jogo, de clichês, de enredos, de tanta coisa… todos os first person shooters são iguais, todos os RPGs são iguais… e todos batem recordes de vendas, porque a molecada pega o Call of Duty: Ghosts, que é IDÊNTICO A TODOS OS OUTROS DA SÉRIE, e acha do caralho porque “agora dá pra jogar com personagem mulher, cara!”. E a mesma molecada, quando confrontada com o genialíssimo e inovador Portal, reclama que “pô, não dá pra atirar em ninguém?”.

screenshot do Portal

Mas o problema não é a molecada, e nem a mentalidade de “na minha época era melhor”. O problema é que os trintões como eu jogaram os pais e avôs dos FPSs, dos RPGs, dos jogos com sandbox e open world, então a novidade deles já não é mais novidade pra nós.

Outra questão que aflige o gamer balzaquiano é que a idade traz – felizmente! – o refinamento dos prazeres. Aos vinte anos a gente até topava encher a cara de Skol e vinho Chapinha; agora curtimos apreciar um cabernet sauvignon e  a cerveja tem que respeitar a Reinheitsgebot – e nos jogos acontece a mesma coisa. A gente não fica satisfeito só com explosões e gráficos fantabulósicos: o jogo tem que ter uma boa história. Videogame, convenhamos, não é filme pornô. Recentemente joguei a trilogia Mass Effect, que é um bom exemplo disso: a mistura de shooter com RPG é bem básica, mas a profundidade da história é fantástica e, pra completar, é construída num universo tão criativo e minucioso que ouso dizer que é melhor que o de Star Wars ou do Senhor dos Anéis: é uma obra-prima de ficção científica. Paradoxalmente, eu morria de tédio nas partes de combate e passava horas explorando as opções de diálogos com cada personagem e conhecendo mais sobre cada raça alienígena – e são dezenas (clique na imagem abaixo), todas com uma história complexa e interessantíssima – e quando vou visitar meu irmão (de 12 anos) ele dá skip em todos os diálogos dos seus jogos…

Mass Effect characters wallpaper

Há problemas também no universo multiplayer: quando jovens, nossos modems não transmitiam a mais de 14.4 kb/s e o jogo online estava na sua infância. Hoje estamos no paraíso multijogador, com internet rápida e sem fio e centenas de milhares de pessoas conectadas te esperando… e eu simplesmente não tenho sacoRecentemente baixei o beta do Destiny, o FPS online da Bungie que está surfando a crista da onda do hype para seu lançamento em setembro. Primeiro você só tem acesso aos modos cooperative, onde não vi cooperação nenhuma: às vezes aparecia um outro jogador, fazia uma dancinha na minha frente (sério!) e saía correndo sozinho. Aí cheguei na parte de deathmatch e a idade pesou mesmo. Quando jovem eu botava um hard techno nos fones e passava horas online no Quake 3 tranquilamente. Hoje em dia, pra conseguir um resultado minimamente relevante jogando contra a molecada, é preciso fazer um esforço enorme. Não é divertido ficar o tempo todo tenso, correndo feito louco pelo mapa, em estado de alerta total e incessante porque basta uma bobeira de uma fração de segundo pra alguém lhe explodir a fuça.

(pra não dizer que não gostei de nada, a trilha sonora do Destiny me agradou bastante 🙂 é um ambient bem espacial e relaxante).

Por sinal esta é outra coisa que vem com a idade e que transforma sua experiência de jogar: você passa a buscar sossego e tranquilidade ao invés de agitação. Esse ano eu ganhei o Watch Dogs de presente de Dia dos Namorados, e ele tem uma funcionalidade bem inovadora: como o jogo tem temática hacker, uma das coisas que dá pra fazer é invadir o jogo de outra pessoa, numa mistura bem criativa do single player com o multiplayer: você está lá, cuidando da sua vida, sozinho no mundo do jogo, e de repente surge a mensagem “you are being hacked“, e você tem que procurar o jogador que se conectou pela internet ao seu Playstation e “invadiu” seu jogo para eliminá-lo. Acontece que, no meu caso, toda vez que eu era invadido a sensação era realmente de que estavam se intrometendo no meu momento de jogo single player, e ao invés de ser emocionante eu achava aquilo extremamente irritante.

Watch Dogs online hacking

Felizmente, o mercado dos jogos cresceu o suficiente para poder ter nichos onde o gamer trintão consegue achar algo interessante – em especial na comunidade indie. Tem muita gente boa inovando e criando obras de arte em forma de jogo, como o sublime Journey (que o Bruno explicou melhor do que eu explicaria neste post). E recentemente encontrei uma preciosidade independente que vai consumir todas as minhas horas de jogo daqui pra frente: o Euro Truck Simulator 2.

O nome diz tudo que você precisa saber sobre o jogo: o Euro Truck Simulator é um simulador de caminhões ambientado na Europa. Só isso. Ele não é multiplayer, você não aposta corrida com ninguém, o caminhão não tem turbo nem nenhuma firula intergalática: exatamente como na vida real, você simplesmente transporta carga de um canto a outro, dirigindo a prosaicos 80 km/h nas autobahns alemãs ou nas charmosas estradinhas francesas. Sua maior preocupação é respeitar os limites de velocidade, dar seta antes de fazer as curvas e parar de 12 em 12 horas para dormir. Pra passar o tempo, o rádio do caminhão, convenientemente, pega streaming de estações de rádio reais europeias, deixando a experiência ainda mais envolvente e, principalmente, relaxante.

Euro Truck Simulator screenshot

E assim as novas e velhas gerações de jogadores vão convivendo, cada uma no seu mundinho particular. A molecada, vermelha de raiva, martela os botões do controle e segue gritando impropérios aos n00bs em seus headsets. Nós, os gamers de trinta e muitos anos, abrimos uma Heineken e calmamente transportamos uma caçamba de areia de Dusseldorf para Stutgard. E o mundo segue girando até o dia em que, finalmente, chegará o nosso inevitável game over.